CRIANDO RAÍZES

PHILIP GULLEY

Histórias Para Aquecer o Coração 13

 

Quando eu era pequeno, tinha um velho vizinho chamado Dr. Gibbs. Ele não se parecia com nenhum médico que eu jamais houvesse conhecido. Todas as vezes em que eu o via, ele estava vestido com um macacão de zuarte e um chapéu de palha cuja aba da frente era de plástico verde transparente. Sorria muito, um sorriso que combinava com seu chapéu - velho, amarrotado e bastante gasto. Nunca gritava conosco por brincarmos em seu jardim. Lembro-me dele como alguém muito mais gentil do que as circunstâncias justificariam.

Quando o Dr. Gibbs não estava salvando vidas, estava plantando árvores. Sua casa localizava-se em um terreno de dez acres, e seu objetivo na vida era transformá-Io em uma floresta.

O bom doutor possuía algumas teorias interessantes a respeito de jardinagem. Ele era da escola do "sem sofrimento não há crescimento". Nunca regava as novas árvores, o que desafiava abertamente a sabedoria convencional. Uma vez perguntei-lhe por quê. Ele disse que molhar as plantas deixava-as mimadas e que, se nós as molhássemos, cada geração sucessiva de árvores cresceria cada vez mais fraca. Portanto, tínhamos que tornar as coisas difíceis para elas e eliminar as árvores fracas logo no início.

Ele falou sobre como regar as árvores fazia com que as raízes não se aprofundassem, e como as árvores que não eram regadas tinham que criar raízes mais profundas para procurar umidade. Achei que ele queria dizer que raízes profundas deveriam ser apreciadas.

Portanto, ele nunca regava suas árvores. Plantava um carvalho e, ao invés de regá-Io todas as manhãs, batia nele com um jornal enrolado. Smack! Slape! Pou! Perguntei-lhe por que fazia isso e ele disse que era para chamar a atenção da árvore.

O Dr. Gibbs faleceu alguns anos depois. Saí de casa. De vez em quando passo por sua casa e olho para as árvores que o vi plantar há cerca de vinte e cinco anos. Estão fortes como granito agora. Grandes e robustas. Aquelas árvores acordam pela manhã, batem no peito e bebem café sem açúcar.

Plantei algumas árvores há alguns anos. Carreguei água para elas durante um verão inteiro. Borrifei-as. Rezei por elas.

Todos os nove metros do meu jardim. Dois anos de mimos resultaram em árvores que querem ser servidas e paparicadas.

Sempre que sopra um vento frio, elas tremem e balançam os galhos. Árvores maricas.

Uma coisa engraçada a respeito das árvores do Dr. Gibbs: a adversidade e a privação pareciam beneficiá-Ias de um modo que o conforto e a tranquilidade nunca conseguiriam.

Todas as noites, antes de ir dormir, dou uma olhada em meus dois filhos. Olho-os de cima e observo seus corpinhos, o sobe e desce da vida dentro deles. Frequentemente rezo por eles.

Rezo principalmente para que tenham vidas fáceis. "Senhor, poupe-os do sofrimento." Mas, ultimamente, venho pensando que é hora de mudar minha oração.

Essa mudança tem a ver com a inevitabilidade dos ventos gelados que nos atingem em cheio. Sei que meus filhos irão encontrar dificuldades e minha oração para que isto não aconteça é ingênua. Sempre há um vento gelado soprando em algum lugar.

Portanto, estou mudando minha oração vespertina. Porque a vida é dura, quer o desejemos ou não. Em vez disso, vou rezar para que as raízes de meus filhos sejam profundas, para que eles possam retirar forças das fontes escondidas do Deus eterno.

Muitas vezes rezamos por tranquilidade, mas essa é uma graça difícil de alcançar. O que precisamos fazer é rezar por raízes que alcancem o fundo do Eterno, para que quando as chuvas caiam e os ventos soprem não sejamos varridos em direções diferentes.

Nossa força vem de nossas fraquezas.

RALPH WALDO EMERSON


O GRANDE DOM DE MINHA MÃE

MARIE RAGGHIANTI

Histórias Para Aquecer o Coração 16

 

Eu tinha dez anos de idade quando minha mãe teve paralisia, causada por um tumor na espinha dorsal. Antes disso ela havia sido uma mulher vibrante e vigorosa, de tal maneira ativa que a maioria das pessoas achava impressionante. Mesmo quando era pequena, eu ficava admirada com suas realizações e por sua beleza. Porém, quando tinha trinta e um anos, sua vida mudou.

Assim como a minha.

Do dia para a noite, parecia, ela passou a ficar deitada de costas em uma cama de hospital. Um tumor benigno a havia incapacitado, mas eu era jovem demais para compreender a ironia da palavra "benigno", pois ela nunca mais seria a mesma.

Ainda tenho imagens vívidas dela antes da paralisia. Ela sempre foi gregária e recebia muitas visitas. Com frequência passava horas preparando canapés e enchendo a casa de flores, que colhia frescas no jardim cultivado ao lado da casa. Selecionava as músicas populares da época e rearrumava a mobília a fim de abrir espaço para que os amigos pudessem se entregar à dança. Na realidade, era minha mãe quem mais gostava de dançar.

Hipnotizada, eu a observava se vestir para as festividades noturnas. Mesmo hoje em dia ainda me lembro de nosso vestido favorito, com sua saia preta e corpete de renda azul-marinho, o contraste perfeito para seu cabelo louro. Fiquei tão emocionada quanto ela no dia em que trouxe para casa sapatos de salto alto de renda preta e, naquela noite, minha mãe certamente era a mulher mais bonita do mundo.

Eu acreditava que ela podia fazer qualquer coisa, fosse jogar tênis (ganhara campeonatos na universidade), costurar (fazia todas as nossas roupas), tirar fotografias (ganhou um concurso nacional), escrever (era colunista de um jornal) ou cozinhar (especialmente pratos espanhóis para meu pai).

Agora, apesar de não poder fazer nenhuma dessas coisas, ela encarava sua doença com o mesmo entusiasmo que tinha em relação a tudo o mais.

Palavras como "deficiente" e "fisioterapia" tornaram-se parte de um estranho mundo novo no qual entramos juntas, e as bolas de borracha para crianças que ela se esforçava para apertar adquiriram um simbolismo que jamais haviam possuído.

Gradualmente, passei a ajudar nos cuidados com a mãe que sempre cuidara de mim. Aprendi a cuidar do meu próprio cabelo - e do dela. Eventualmente, tornou-se rotina levá-Ia na cadeira de rodas até a cozinha, onde ela me ensinava a arte de descascar cenouras e batatas e como esfregar alho e sal e pedaços de manteiga em uma boa carne assada.

Quando, pela primeira vez, ouvi falarem em uma bengala, opus-me:

- Não quero que a minha linda mãe use uma bengala.

Mas a única coisa que ela disse foi:

- Não é melhor você me ver andando com uma bengala do que não me ver andando de maneira alguma?

Cada conquista era um marco para nós duas: a máquina de escrever elétrica, o carro com câmbio e freio automáticos, sua volta à universidade, onde se diplomou em Educação Especial.

Ela aprendeu tudo o que podia sobre as pessoas com deficiências e acabou fundando um grupo ativista de apoio chamado Os Incapacitados. Certo dia, sem ter falado muito de antemão, ela me levou e a meus irmãos a uma reunião dos Incapacitados. Eu nunca vira tantas pessoas com tantas deficiências.

Voltei para casa, silenciosamente introspectiva, pensando em como nós realmente tínhamos sorte. Ela nos levou muitas vezes depois disso e, eventualmente, a visão de um homem ou uma mulher sem pernas ou braços não nos chocava mais. Minha mãe também nos apresentou a vítimas de paralisia cerebral, enfatizando que a maioria era tão inteligente quanto nós talvez mais. E nos ensinou a nos comunicarmos com os retardados mentais, mostrando como eles eram frequentemente mais afetuosos, comparados às pessoas normais. Durante tudo isso, meu pai continuou a amá-Ia e apoiá-Ia.

Quando eu estava com onze anos, minha mãe me contou que ela e papai iriam ter um bebê. Muito depois, eu soube que seus médicos tinham insistido para que ela fizesse um aborto (terapêutico) - uma opção à qual ela resistiu veementemente. Logo, éramos mães juntas, já que virei mãe adotiva de minha irmã, Mary Therese. Em pouquíssimo tempo aprendi a trocar fraldas, banhá-Ia e alimentá-Ia. Ainda que mamãe tenha mantido a disciplina maternal, para mim foi um passo gigantesco além da brincadeira com bonecas.

Um momento se destaca mesmo hoje em dia: o dia em que Mary Therese, na época com dois anos, caiu e esfolou o joelho, abriu-se em prantos e passou correndo pelos braços estendidos de minha mãe para os meus. Tarde demais, eu vislumbrei a faísca de dor no rosto de mamãe, mas tudo o que ela disse foi:

- É natural que ela corra para você, pois você toma conta dela tão bem...

Como minha mãe aceitava sua condição com tanto otimismo, raramente me senti triste ou ressentida. Mas nunca irei esquecer o dia em que minha complacência foi destruída.

Muito tempo depois da imagem de minha mãe em salto agulha ter se dissipado da minha consciência, houve uma festa em nossa casa. A essa altura eu era adolescente, e vi minha sorridente mãe sentada na lateral, olhando seus amigos dançarem, e fui atingida pela cruel ironia de suas limitações físicas. Subitamente, fui transportada de volta à época de minha primeira infância e a visão de minha mãe dançando radiante estava novamente diante de mim.

Imaginei se mamãe se lembraria também. Espontaneamente, andei em sua direção e então vi que, apesar de estar sorrindo, seus olhos estavam marejados de lágrimas. Corri para fora do aposento e para o meu quarto, enterrei meu rosto no travesseiro e chorei copiosamente - todas as lágrimas que ela jamais chorara. Pela primeira vez, eu me enraiveci contra Deus e contra a vida e suas injustiças para com a minha mãe.

A lembrança do sorriso brilhante de minha mãe permaneceu comigo. Daquele momento em diante, enxerguei sua habilidade de superar a perda de tantas batalhas anteriores e seu ímpeto em olhar para a frente - coisas que eu tomava por certas - como um grande mistério e uma poderosa inspiração.

Quando eu estava crescida e comecei a trabalhar com o sistema penal, mamãe se interessou em trabalhar com os prisioneiros. Ela telefonou para a penitenciária e pediu para dar aulas de Redação Criativa para os detentos. Lembro-me de como eles se amontoavam em volta dela sempre que ela chegava e pareciam se agarrar a cada palavra sua, como eu fizera na infância.

Mesmo quando não podia mais se deslocar até a prisão, ela frequentemente se correspondia com vários detentos.

Um dia pediu-me para enviar uma carta para um prisioneiro, Waymon. Perguntei se poderia lê-Ia antes e ela concordou, sem perceber, eu acho, o quanto aquilo seria revelador para mim.

Dizia: "Querido Waymon, quero que saiba que tenho pensado em você com frequência desde que recebi sua carta. Você mencionou como é difícil estar preso atrás das grades e meu coração se une ao seu. Mas quando você disse que eu não imagino o que é estar na prisão, senti-me compelida a dizer-lhe que estava errado.

Existem diferentes tipos de liberdade, Waymon, diferentes tipos de prisão. Às vezes, nossas prisões são autoimpostas.

Quando, com a idade de trinta e um anos, levantei-me um dia para descobrir que estava completamente paralisada, senti-me em uma armadilha - dominada pela sensação de estar presa dentro de um corpo que não mais me permitiria correr através de uma campina, dançar ou carregar minha filha nos braços.

Fiquei deitada ali durante muito tempo, lutando para chegar a um acordo com minha enfermidade, tentando não sucumbir à autopiedade. Perguntei-me se, na verdade, valeria a pena viver nessas condições, se não seria melhor morrer.

Pensei a respeito desse conceito de prisão, pois me parecia que havia perdido tudo o que importava na vida. Eu estava próxima do desespero.

Mas, então, um dia me ocorreu que, na realidade, ainda havia opções abertas para mim e que eu tinha a liberdade de escolher entre elas. Serd que eu iria sorrir quando visse meus filhos de novo, ou iria chorar? Iria zangar-me com Deus, ou iria pedir que Ele fortalecesse minha fé?

Em outras palavras, o que eu iria fazer com o livre-arbítrio que Ele havia me dado e que ainda era meu?

Tomei a decisão de lutar, enquanto estivesse viva, para viver o mais plenamente possível para procurar tornar minhas experiências aparentemente negativas em experiências positivas, procurar formas de transcender minhas limitações físicas expandindo minhas fronteiras mentais e espirituais. Eu podia escolher entre ser um exemplo positivo para meus filhos ou podia murchar e morrer emocional assim como fisicamente.

Existem muitos tipos de liberdade, Waymon. Quando perdemos um tipo de liberdade, temos que simplesmente procurar por outro.

Você e eu somos abençoados com a liberdade de escolher entre bons livros, que iremos ler, quais deixaremos de lado.

Você pode olhar para as suas grades ou pode olhar através delas.

Você pode ser um exemplo para prisioneiros mais jovens ou pode se misturar com os encrenqueiros. Você pode amar a Deus e buscar conhecê-Io ou pode virar as costas para Ele.

Até certo ponto, Waymon, estamos nisso juntos. "

Quando finalmente terminei de ler a carta, minha visão estava borrada pelas lágrimas. Ainda assim, pela primeira vez, eu enxerguei minha mãe com clareza.

E eu a entendi.

 

O otimismo é uma disposição alegre que permite que um bule de chá assovie apesar de estar com água quente até o nariz.

ANÔNIMO


 

BOAS MANEIRAS

PAUL KARRER

Histórias Para Aquecer o Coração 27

 

A cansada ex-professora se aproximou do balcão do supermercado. Sua perna esquerda doía e ela esperava ter tomado todos os comprimidos do dia: para pressão alta, tonteira e um grande número de outras enfermidades.

"Graças a Deus eu me aposentei há vários anos" - ela pensou. "Não tenho energia para ensinar hoje em dia." Imediatamente antes de se formar a fila para o balcão, ela viu um rapaz com quatro crianças e uma esposa, ou namorada, grávida. A professora não pôde deixar de notar a tatuagem em seu pescoço.

"EIe esteve preso - pensou.

Continuou a observá-lo. Sua camiseta branca, cabelo raspado e calças largas levaram-na a conjecturar:

"Ele é membro de uma gangue."

A professora tentou deixar o homem passar na sua frente.

- Você pode ir primeiro - ofereceu.

- Não, a senhora primeiro - ele insistiu.

- Não, você está com mais gente - disse a professora.

- Devemos respeitar os mais velhos - defendeu-se o homem.

E, com isto, fez um gesto largo indicando o caminho para a mulher.

Um breve sorriso adejou em seus lábios enquanto ela mancou na frente dele. A professora que existia dentro dela não pôde desperdiçar o momento e, virando-se para ele, perguntou:

- Quem lhe ensinou boas maneiras?

- A senhora, Sra. Simpson, na terceira série.


 

NÃO HÁ AMOR MAIOR

COL. JOHN W. MANSUR Extraído de The Missileer

Histórias Para Aquecer o Coração 29

 

Qualquer que fosse seu alvo inicial, os tiros de morteiros caíram em um orfanato dirigido por um grupo missionário na pequena aldeia vietnamita. Os missionários e uma ou duas crianças morreram imediatamente e várias outras crianças ficaram feridas, incluindo uma menininha de uns oito anos de idade.

As pessoas da aldeia pediram ajuda médica de uma cidade vizinha que possuía contato por rádio com as forças americanas.

Finalmente, um médico e uma enfermeira da Marinha americana chegaram em um jipe apenas com sua maleta médica.

Determinaram que a menina era a que estava mais gravemente ferida. Sem uma ação rápida, ela morreria por causa do choque e da perda de sangue.

Uma transfusão era imprescindível e era necessário um doador com o mesmo tipo sanguíneo. Um teste rápido revelou que nenhum dos americanos possuía o tipo correto, mas vários dos órfãos que não haviam sido atingidos tinham.

O médico falava um pouco de vietnamita simplificado e a enfermeira possuía uma leve noção de francês aprendido no colégio. Usando essa combinação, juntos e com muita linguagem de sinais improvisada, eles tentaram explicar para a jovem e assustada plateia que, a não ser que pudessem repor uma parte do sangue perdido da menina, ela com certeza morreria. Então perguntaram se alguém estaria disposto a doar um pouco de sangue para ajudar.

Seu pedido encontrou um silêncio estupefato. Após longos momentos, uma mãozinha lenta e hesitantemente levantou-se, abaixou-se e levantou-se novamente.

- Oh, obrigada - disse a enfermeira em francês. - Qual é o seu nome?

- Heng - veio a resposta.

Heng foi rapidamente colocado em um catre, os braços limpos com álcool e uma agulha inserida em sua veia. Durante toda a penosa experiência, Heng permaneceu tenso e em silêncio.

Depois de algum tempo, ele soltou um soluço trêmulo, cobrindo rapidamente seu rosto com a mão livre.

- Está doendo, Heng? - perguntou o médico.

Heng balançou a cabeça, mas, após alguns instantes, outro soluço escapou e mais uma vez ele tentou esconder o choro.

Novamente o médico perguntou se a agulha o estava machucando e novamente Heng balançou a cabeça.

Porém agora seus soluços ocasionais haviam dado lugar a um choro constante e silencioso, seus olhos apertados, o punho na boca para abafar seus soluços.

A equipe médica estava preocupada. Algo obviamente estava muito errado. Nesse momento, uma enfermeira vietnamita chegou para ajudar. Vendo o sofrimento do pequeno, ela falou rapidamente com ele em vietnamita, escutou sua resposta e respondeu-lhe com a voz reconfortante. Após um instante, o paciente parou de chorar e olhou interrogativamente para a enfermeira vietnamita. Quando ela assentiu, um ar de grande alívio se espalhou pelo rosto do menino.

Olhando para cima, a enfermeira contou calmamente para os americanos:

- Ele achou que estava morrendo. Entendeu errado. Achou que vocês haviam pedido que ele desse todo o seu sangue para que a menina pudesse viver.

- Mas por que ele estaria disposto a fazer isso? - perguntou a enfermeira da Marinha.

A enfermeira vietnamita repetiu a pergunta para o menino, que respondeu simplesmente:

- Ela é minha amiga.


 

O PODER DO PERDÃO

CHRIS CARRIER Entregue por Katy McNamara

Histórias Para Aquecer o Coração 36

 

Em 1974, voltando da escola para casa no último dia antes das férias de Natal, eu pensava animadamente sobre o feriado vindouro, como só os meninos de dez anos conseguem sonhar. A algumas portas de distância de minha casa em Coral Gables, Flórida, um homem se aproximou de mim e perguntou se eu poderia ajudá-lo com a decoração de uma festa que ele estava dando para meu pai. Achando que era amigo de meu pai, concordei em ir com ele.

O que eu não sabia era que este homem tinha ressentimentos contra a minha família. Trabalhara como enfermeiro para um parente idoso, mas fora despedido por causa da bebida.

Após eu ter concordado em acompanhá-Io, ele dirigiu seu trailer até uma área isolada ao norte de Miami, onde parou no acostamento da estrada e me golpeou várias vezes no peito com um furado de gelo. Então dirigiu para oeste, até Florida Everglades, levou-me até o meio dos arbustos, deu um tiro em minha cabeça e me deixou lá para morrer.

Felizmente a bala havia passado por trás de meus olhos e saído pela minha têmpora esquerda sem causar nenhum dano cerebral. Quando recobrei a consciência, seis dias depois, não tinha noção de que havia sido atingido por um tiro. Fiquei sentado no acostamento e fui encontrado por um homem que parou para me ajudar.

Duas semanas depois descrevi a pessoa que me atacara para o desenhista da polícia e meu tio reconheceu o retrato resultante como o homem que me atacara. Meu agressor foi preso, junto com outros suspeitos. Entretanto, o trauma e o estresse haviam cobrado seu preço e não pude identificá-lo. Infelizmente a polícia não conseguiu recolher nenhuma prova física que o ligasse ao crime. Portanto, ele nunca foi acusado.

O ataque me deixou cego do olho esquerdo, mas não causou nenhum outro dano e, com o amor e o apoio de minha família e amigos, voltei para a escola e dei continuidade à minha vida.

Durante os três anos seguintes, vivi com uma extrema ansiedade. A maioria das noites eu acordava assustado, imaginando que havia escutado alguém entrando pela porta dos fundos e acabava dormindo no pé da cama de meus pais.

Então, quando eu estava com treze anos, tudo isso mudou.

Uma noite, durante um estudo da Bíblia com o grupo jovem da igreja, percebi que a providência e o amor de Deus, tendo miraculosamente me mantido vivo, eram a base para a segurança de minha vida. Em Suas mãos eu podia viver sem medo ou rancor. E então eu o fiz. Terminei os estudos, recebendo o diploma de mestrado em Divindade. Casei-me com minha maravilhosa esposa, Leslie. Temos duas filhinhas maravilhosas, Amanda e Melodee.

Em setembro de 1996, o major Charles Scherer, do Departamento de Polícia de Coral Gables, que trabalhara na investigação original de meu caso, telefonou-me para me contar que o agressor, hoje com setenta e sete anos de idade, finalmente confessara. Cego por causa do glaucoma, com a saúde abalada, sem família ou amigos, ele estava em um asilo no norte de Miami Beach. Fui visitá-lo.

A primeira vez em que fui visitá-Io ele se desculpou pelo que havia feito a mim e eu lhe disse que o havia perdoado. Visitei-o muitas vezes depois disso, apresentando-o à minha esposa e filhas, oferecendo-lhe esperança e uma certa sensação de família nos dias anteriores à sua morte. Ele sempre ficava feliz quando eu aparecia. Acredito que nossa amizade tenha diminuído sua solidão e era um grande alívio para ele, após vinte e dois anos de arrependimento.

Sei que o mundo pode me ver como a vítima de uma horrível tragédia, mas eu me considero a "vítima” de muitos milagres. O fato de eu estar vivo e não . ter nenhuma deficiência mental desafia as probabilidades. Tenho uma esposa amorosa e uma família linda. Recebi tantas dádivas quanto qualquer outra pessoa - e amplas oportunidades. Fui abençoado de várias maneiras.

E enquanto muitas pessoas não conseguem entender como pude perdoá-Io, do meu ponto de vista eu não poderia deixar de fazê-lo. Se eu tivesse escolhido odiá-Io todos esses anos, ou passar a vida procurando vingança, então eu não seria o homem que sou hoje - o homem que minha mulher e filhas amam.

 

 

Se você for paciente em um momento de raiva,

irá escapar de cem anos de arrependimento.

PROVÉRBIO CHINÊS

 

 


 

O QUANTO PROGREDIMOS

PAT BONNEY SHEPHERD

Histórias Para Aquecer o Coração 40

 

Em 1996, a maioria de nós, mulheres, está solidamente engajada em formar grupos de apoio e ajudar umas às outras da mesma forma que os homens têm feito há décadas - uma situação muito mais amigável para as mulheres do que era há cinquenta anos. Sempre que fico complacente a esse respeito, penso em minha mãe - e imagino se eu teria sobrevivido ao que ela passou na época.

Por volta de 1946, quando minha mãe, Mary Silver, já estava casada com Walter Johnson por quase sete anos, ela era mãe de quatro crianças ativas e barulhentas.

Sei pouca coisa a respeito da vida dos meus pais nesta época, mas, tendo eu mesma criado duas crianças em alguns lugares remotos do país, posso imaginar como foi, especialmente para minha mãe. Com quatro crianças pequenas, um marido cujo senso de obrigação ia até trazer dinheiro para casa e cortar o gramado, sem vizinhos e praticamente nenhuma oportunidade de fazer amigos próprios, ela literalmente não tinha onde dar vazão às grandes pressões que deveriam se acumular dentro dela. Por algum motivo, meu pai decidiu que ela estava "se perdendo". É um mistério para mim imaginar como ela poderia ter conseguido tempo e alguém para encontrar, quanto mais para "se perder", já que nós quatro estávamos constantemente no meio do caminho. Mas meu pai já decidira, e ponto final.

Numa manhã de um dia de primavera em 1946, minha mãe saiu de casa para comprar leite para o bebê. Quando voltou, meu pai estava na janela do andar de cima com um revólver. Ele disse:

- Mary, se você tentar entrar nesta casa, vou atirar nos seus filhos.

Foi assim que ele lhe disse que estava entrando com um pedido de divórcio.

Foi a última vez que minha mãe viu aquela casa. Foi forçada a ir embora apenas com a roupa do corpo e o dinheiro que tinha na bolsa - e uma garrafa de leite. Hoje em dia, ela provavelmente teria opções: um abrigo local, um 0800 para o qual pudesse telefonar, um grupo de amigas que teria feito através de um emprego de meio expediente ou de tempo integral. Teria um talão de cheques e cartões de crédito no bolso. E poderia voltar sem constrangimento para sua família. Porém, em 1946, ela não tinha nada disso. As pessoas casadas simplesmente não se divorciavam.

Portanto, lá estava ela - completamente sozinha. Meu pai conseguiu até virar o pai dela contra ela. Agora meu avô proibira minha avó de falar com sua filha quando ela mais precisava.

Em algum momento antes de entrar com o processo no tribunal, meu pai a contactou e disse:

- Olhe, Mary, eu não quero realmente um divórcio. Só fiz isso para lhe ensinar uma lição.

Mas minha mãe podia ver que, por pior que fosse sua situação, era preferível a voltar para meu pai e deixar que ele nos criasse. Então respondeu:

- Nem pensar. Cheguei até aqui, não vou voltar atrás.

Para onde ela poderia ir? Não podia ir para casa. Não podia permanecer ali em Amherst: em primeiro lugar, porque, sabia que ninguém a hospedaria; em segundo, porque, com o retorno dos recrutas, não haveria esperança de trabalho para ela; e, finalmente e mais importante, porque meu pai estava lá. Então embarcou em um ônibus para o único lugar que reservava uma chance para ela - a cidade de Nova York.

Minha mãe tinha uma vantagem: era letrada e tinha um diploma de Matemática, da Universidade Mt. Holyoke. Porém, fizera o caminho habitual das mulheres nos anos 30 e 40: fora diretamente do segundo grau para a faculdade e daí para o casamento. Ela não fazia ideia de como arrumar um emprego e sustentar a si mesma.

A cidade de Nova York tinha várias coisas a seu favor: ficava a apenas 320 quilômetros; portanto, podia pagar a passagem de ônibus. E era uma cidade grande; portanto, tinha que haver um emprego escondido em algum lugar. Ela positivamente tinha que encontrar uma maneira de sustentar a nós quatro.

Assim que chegou a Nova York, localizou uma Associação Cristã de Moços, onde podia ficar por apenas um dólar e meio por noite. Havia uma loja perto, onde, por cerca de um dólar por dia, comia sanduíches de salada de ovo e café. Em seguida, começou a correr as ruas.

Durante vários dias, que se tornaram várias semanas, não 'encontrou nada: não havia empregos para diplomados em Matemática, homens ou mulheres, nenhum trabalho para mulheres. Todas as noites ela voltava para a Associação, lavava a roupa de baixo e a blusa branca, colocava-as para secar e de manhã usava o ferro e a tábua de passar da Associação para tirar as marcas da blusa. Esses itens, junto com uma saia de flanela cinza, constituíam todo o seu guarda-roupa. Cuidar deles ocupava uma parte das longas noites que enfrentava sozinha na Associação. Sem livros, nem uma moedinha a mais para comprar jornal, sem telefone (e ninguém para quem ligar, se tivesse um) e sem rádio, a não ser no andar de baixo (onde a lista dos convidados da Associação era de certa forma assustadora), as noites devem ter sido realmente horríveis.

Previsivelmente, seu dinheiro minguou, assim como a lista de agências de emprego. Finalmente, em uma quinta-feira, chegou a vez da última agência de empregos da cidade, com menos no bolso do que precisava para pagar o abrigo naquela noite. Ela fez muito esforço para não pensar em passar a noite nas ruas.

Subiu penosamente vários lances de escada para chegar à agência, preencheu os formulários obrigatórios e, quando chegou sua vez de ser entrevistada, preparou-se para as más notícias. "Sentimos muito, mas não temos nada para a senhora.

Quase não temos empregos suficientes para os homens que temos que colocar." Pois é claro que os homens tinham prioridade em relação a qualquer emprego disponível.

Minha mãe não sentiu nada quando se levantou da cadeira e se dirigiu para a porta. Entorpecida como estava, havia quase atravessado a porta quando percebeu que a mulher resmungara alguma outra coisa.

- Desculpe, não ouvi. O que a senhora disse? - perguntou.

- Bem, sempre há George B. Buck, mas ninguém quer esse emprego. Ninguém fica muito tempo - a mulher repetiu, apontando com a cabeça para uma caixa de fichas em cima de um arquivo próximo.

- O que é? Conte-me a respeito - disse minha mãe ansiosamente, sentando-se com as costas apoiadas no encosto da cadeira de madeira. - Faço qualquer coisa. Quando começo?

- Bem, é um emprego de contador, para o qual a senhora está qualificada, mas o salário não é bom e tenho certeza de que não gostaria - disse a agente, retirando a ficha relevante do fichário. Vamos ver, diz aqui que a senhora pode começar quando quiser.

Suponho que isto signifique que poderá ir lá agora. Ainda é cedo.

Minha mãe contou que literalmente arrancou o cartão das mãos da agente e correu escada abaixo. Nem mesmo parou para tomar fôlego enquanto corria os vários quarteirões até o endereço escrito no cartão. Quando se apresentou para o surpreso gerente de pessoal, ele decidiu que, sem dúvida, ela podia começar a trabalhar naquela manhã mesmo se quisesse, pois havia muito trabalho a ser feito. E era quinta-feira, dia de pagamento. Naquele tempo, a maioria das empresas pagava seus empregados em dinheiro vivo pelo tempo trabalhado, incluindo o próprio dia de pagamento - portanto, miraculosamente, quando eram cinco horas, ela recebeu dinheiro vivo pelas cinco horas que trabalhara naquele dia. Não era muito, mas deu para que ela chegasse até a quinta-feira seguinte, depois à outra e assim por diante.

Mary Silver Johnson permaneceu em George B. Buck & Companhia por 38 anos, subindo para um cargo de grande respeito dentro da firma. Lembro-me de que ela tinha um escritório de esquina - o que não é pouca coisa no centro de Manhattan. Depois de trabalhar lá por dez anos, ela foi capaz de nos comprar uma casa no subúrbio de Nova Jersey, a meia quadra de distância do ônibus para a cidade.

Hoje em dia, uma em cada duas casas parece ser comandada por uma mãe solteira e é fácil esquecer que já houve um tempo em que este tipo de vida era impensável. Sinto-me tão humilde ao refletir sobre as realizações de minha mãe quando orgulhosa o suficiente para estourar os botões da camisa! Se cheguei até aqui, meu bem, foi porque fui carregada em grande parte pelos esforços de muitas, muitas outras mulheres antes de mim - com esta mulher admirável, minha mãe, liderando o caminho.

 

 

As mulheres são como saquinhos de chá:

não se sabe sua força até serem jogadas em água quente.

ELEANOR ROOSEVELT

 


 

O BALÃO DE BENNY

MICHAEL CODY

Histórias Para Aquecer o Coração 46

 

Benny tinha setenta anos quando morreu subitamente de câncer, em Wilmerre, Illinois. Como sua neta de dez anos, Rachel, nunca teve a oportunidade de dizer adeus, ela chorou durante vários dias. Mas depois de receber um grande balão vermelho em uma festa de aniversário, voltou para casa com uma ideia - uma carta para o vovô Benny, enviada para o céu em seu balão.

A mãe de Rachel não teve coragem de dizer não e observou com lágrimas nos olhos o frágil balão subir por entre as árvores que cercavam o jardim e desaparecer.

Dois meses depois, Rachel recebeu esta carta com carimbo do correio de uma cidade a 900 quilômetros de distância, na Pensilvânia:

"Querida Rachel

Vovô Benny recebeu a sua carta. Ele realmente a adorou. Por favor, entenda que coisas materiais não podem ficar no céu, por isso tiveram que mandar o balão de volta para a Terra - eles só guardam os pensamentos, as lembranças, o amor e coisas desse tipo no céu.

Rachel sempre que você pensar no vovô Benny, ele saberá e estará muito perto, com um amor enorme por você.

Sinceramente, Bob Anderson (também um vovô)."


 

PRESENTES DO CORAÇÃO

SHERYL NICHOLSON

Histórias Para Aquecer o Coração 48

 

Neste mundo agitado em que vivemos é tão mais fácil pagar alguma coisa com cartão de crédito do que dar um presente vindo do coração.

E presentes do coração são especialmente necessários na época de Natal.

Há alguns anos, comecei a preparar meus filhos para o fato de que o Natal daquele ano seria modesto. A resposta deles foi:

"Tá, mãe, já ouvimos isso antes!" Eu havia perdido a credibilidade porque dissera a mesma coisa a eles no ano anterior, quando estava passando pelo divórcio. Mas daquela vez eu saíra e usara o limite de todos os cartões de crédito. Havia encontrado até mesmo algumas formas de financiamento criativas para pagar os presentes de Natal. Este ano, com certeza, seria diferente, mas eles não estavam acreditando.

Uma semana antes do Natal, perguntei a mim mesma: "O que eu tenho que pode tornar este Natal especial?" Em todas as casas em que havíamos morado antes do divórcio eu tinha arrumado tempo para ser decoradora. Tinha aprendido a colocar papel de parede, azulejos e placas de madeira, fazer cortinas a partir de lençóis e muito mais. Mas nesta casa alugada eu tinha pouco tempo para decorar e muito menos dinheiro. Além do mais, estava zangada com esse lugar feio, com seus carpetes vermelhos e abóbora e paredes verdes e azul-turquesa. Recusava-me a gastar dinheiro com ele. Dentro de mim a voz do orgulho ferido gritava: "Nós não vamos ficar aqui tanto tempo assim!" Ninguém mais parecia se incomodar com a casa a não ser minha filha Lisa, que sempre havia tentado transformar seu quarto em seu lugar especial.

Era hora de mostrar meus talentos. Liguei para meu ex-marido e pedi que comprasse uma colcha específica para a cama de Lisa. Em seguida, comprei os lençóis combinando. Na véspera de Natal, gastei quinze dólares com um galão de tinta.

Também comprei papel de carta, o mais bonito que jamais tinha visto. Meu objetivo era simples: iria pintar e costurar e me manter ocupada até a manhã de Natal, para não ter tempo de sentir pena de mim mesma em um feriado familiar tão especial.

Naquela noite, dei a cada uma das crianças três folhas de papel de carta com envelopes. No alto de cada página estavam as palavras: "O que eu amo a respeito de minha irmã Mia", "O que eu amo a respeito de meu irmão Kris", "O que eu amo a respeito de minha irmã Lisa”, "O que eu amo a respeito de meu irmão Erik". As crianças estavam com idades entre oito e dezesseis anos e tive que convencê-las de que bastava encontrar uma coisa só de que gostassem a respeito uns dos outros. Enquanto escreviam cada uma no seu canto, fui para o meu quarto e embrulhei os poucos presentes que havia comprado.

Quando voltei para a cozinha, meus filhos haviam terminado suas cartas uns para os outros. Cada nome estava escrito do lado de fora do envelope. Trocamos abraços e beijos de boa-noite e eles foram para a cama. Lisa recebeu permissão especial para dormir na minha cama, prometendo não espiar até a manhã de Natal.

Então comecei. Nas primeiras horas da manhã de Natal terminei as cortinas, pintei as paredes e dei um passo atrás para admirar minha obra-prima. "Espere, por que não colocar um arco-íris e nuvens nas paredes para combinar com os lençóis?". Aí entraram em ação minhas esponjas e pincéis de maquiagem e, às 5 horas da manhã, eu havia terminado. Exausta demais para pensar que o meu era "um lar desfeito", como diziam as estatísticas, fui para o quarto e encontrei Lisa esparramada na minha cama.

Decidi que não podia dormir com braços e pernas em cima de mim, então levantei-a delicadamente e levei-a, pé ante pé, até seu quarto. Enquanto colocava sua cabeça no travesseiro, ela disse:

- Mamãe, já é de manhã?

- Não, querida, fique de olhos fechados até o Papai Noel chegar.

Acordei naquela manhã com um alegre sussurro no meu ouvido.

- Uau, mamãe, é lindo!

Mais tarde, todos nós nos levantamos e nos sentamos em volta da árvore e abrimos os poucos presentes que eu havia comprado.

Depois, as crianças receberam seus três envelopes. Lemos as palavras com os olhos marejados e os narizes vermelhos. Até chegarmos aos bilhetes para o "bebê da família”. Erik, com oito anos, não esperava ouvir nada de bom. Seu irmão havia escrito:

 "O que eu gosto do meu irmão Erik é que ele não tem medo de nada." Mas havia escrito: "O que eu gosto do meu irmão Erik é que ele consegue falar com qualquer pessoa!" Lisa havia escrito:

"O que eu gosto do meu irmão Erik é que ele pode subir em árvores mais alto do que qualquer um!" Senti um leve puxão na manga da camisa, uma mãozinha fez uma concha em volta da minha orelha e Erik sussurrou:

- Puxa, mamãe, eu nem sabia que eles gostavam de mim!

Nos piores momentos, a criatividade e o engenho nos deram o melhor momento. Hoje estou recuperada financeiramente e já tivemos vários Natais "grandes", com muitos presentes embaixo da árvore. Mas quando nos perguntam qual é o nosso Natal favorito, todos nos lembramos daquele.

 

 

O amor que damos é o único amor que guardamos.

ELBERT HUBBARD


 

A GARDÊNIA BRANCA

MARSHA ARONS

Histórias Para Aquecer o Coração 52

 

Todos os anos, no dia do meu aniversário, desde que completei doze anos, uma gardênia branca me era entregue anonimamente em casa. Não havia nunca um cartão ou um bilhete e os telefonemas para o florista eram em vão, pois a compra era sempre feita em dinheiro vivo. Depois de algum tempo, parei de tentar descobrir a identidade do remetente. Apenas me deleitava com a beleza e o perfume estonteante daquela única flor, mágica e perfeita, aninhada em camadas de papel de seda cor-de-rosa.

Porém nunca parei de imaginar quem poderia ser o remetente. Alguns de meus momentos mais felizes eram passados sonhando acordada com alguém maravilhoso e excitante, mas tímido ou excêntrico demais para revelar sua identidade. Durante a adolescência foi divertido especular que o remetente seria um garoto por quem eu estivesse apaixonada, ou mesmo alguém que eu não conhecia e que havia me notado.

Minha mãe frequentemente alimentava as minhas especulações. Ela me perguntava se havia alguém a quem eu tivesse feito uma gentileza especial e que poderia estar demonstrando anonimamente seu apreço. Fez com que eu lembrasse das vezes em que estava andando de bicicleta e nossa vizinha chegara com o carro cheio de compras e crianças. Eu sempre a ajudava a descarregar o carro e cuidava que as crianças não corressem para a rua. Ou talvez o misterioso remetente fosse o senhor que morava do outro lado da rua. No inverno, muitas vezes eu lhe levava sua correspondência para que ele não tivesse que se aventurar nos degraus escorregadios.

Minha mãe fez o que pôde para estimular minha imaginação a respeito da gardênia. Ela queria que seus filhos fossem criativos. Também queria que nos sentíssemos amados e queridos, não apenas por ela, mas pelo mundo como um todo.

Quando estava com dezessete anos, um rapaz partiu meu coração. Na noite em que me ligou pela última vez, chorei até pegar no sono. Quando acordei de manhã havia uma mensagem escrita com batom vermelho no meu espelho: Alegre-se, quando semideuses se vão, os deuses vêm." Pensei a respeito daquela citação de Emerson durante muito tempo e a deixei onde minha mãe a havia escrito até meu coração sarar. Quando finalmente fui buscar o limpa-vidros, minha mãe soube que estava tudo bem novamente.

Mas houve certas feridas que minha mãe não pôde curar.

Um mês antes de minha formatura no segundo grau, meu pai morreu subitamente de enfarte. Meus sentimentos variavam de dor a abandono, medo, desconfiança e raiva avassaladora por meu pai estar perdendo alguns dos acontecimentos mais importantes da minha vida. Perdi totalmente o interesse em minha formatura que se aproximava, na peça de teatro da turma dos formandos e no baile de formatura - eventos para os quais eu havia trabalhado e que esperava com ansiedade. Pensei até mesmo em entrar em uma faculdade local, ao invés de ir para outro estado como havia planejado, pois me sentiria mais segura.

Minha mãe, em meio à sua própria dor, não queria de forma alguma que eu faltasse a nenhuma dessas coisas. Um dia antes de meu pai morrer, eu e ela tínhamos ido comprar um vestido para o baile e havíamos encontrado um, espetacular - metros e metros de musselina estampada em vermelho, branco e azul. Ao experimentá-Io, me senti-me como Scarlett O'Hara em O Vento Levou... Mas não era do tamanho certo e, quando meu pai morreu no dia seguinte, esqueci totalmente do vestido.

Minha mãe, não. Na véspera do baile, encontrei o vestido esperando por mim - no tamanho certo. Estava estendido majestosamente sobre o sofá da sala, apresentado para mim de maneira artística e amorosa. Eu podia não me importar em ter um vestido novo, mas minha mãe se importava.

Ela estava atenta à imagem que seus filhos tinham de si mesmos.

Imbuiu-nos com uma sensação de mágica do mundo e nos deu a habilidade de ver a beleza mesmo em meio à adversidade.

Na verdade, minha mãe queria que seus filhos se vissem como a gardênia - graciosos, fones, perfeitos, com uma aura de mágica e talvez um pouco de mistério.

Minha mãe morreu quando eu estava com vinte e dois anos, apenas dez dias depois de meu casamento. Este foi o ano em que parei de receber gardênias.


 

PALAVRAS DO CORAÇÃO

BOBBIE LIPPMAN

Histórias Para Aquecer o Coração 56

 

A maioria das pessoas precisa ouvir alguém dizer "eu te amo". E há vezes em que ouve bem a tempo.

Conheci Connie no dia em que foi admitida na ala do sanatório onde eu trabalhava como voluntária. Seu marido, Bill, ficou por peno, nervoso, enquanto ela era transferida da maca para o leito de hospital. Ainda que Connie estivesse no estágio final de sua luta contra o câncer, estava alerta e animada. Nós a acomodamos. Terminei de marcar seu nome em todos os suprimentos de hospital que ela usaria e perguntei se precisava de alguma coisa.

- Oh, sim - disse -, será que você poderia me mostrar como usar a televisão? Gosto tanto de novelas, que não quero perder o que está acontecendo.

Connie era uma romântica. Adorava novelas de TV; histórias românticas e filmes com uma boa história de amor.

Conforme fomos nos conhecendo, ela me confidenciou o quanto era frustrante ser casada há trinta e dois anos com um homem que frequentemente a chamava de "boba”.

- Ah, eu sei que o Bill me ama - disse -, mas ele nunca foi de me dizer que me ama, ou de mandar cartões.

Suspirou e olhou através da janela para as árvores no jardim.

- Faria qualquer coisa para ele falar "Eu te amo", mas simplesmente não é do seu feitio.

Bill visitava Connie todos os dias. No começo, sentava-se ao lado da cama enquanto ela assistia às novelas. Depois, quando ela começou a dormir mais, ele andava de um lado para o outro no corredor do lado de fora do quarto. Logo, quando ela não via mais televisão e passava períodos menores acordada, comecei a passar a maior parte do meu tempo como voluntária com Bill.

Ele falava de quando trabalhava como carpinteiro e de como gostava de pescar. Ele e Connie não tinham filhos, mas aproveitavam a aposentadoria viajando, até que Connie ficou doente. Bill não conseguia expressar o que sentia sobre o fato de sua esposa estar morrendo.

Um dia, depois de tomar café na lanchonete, puxei uma conversa com ele a respeito de mulheres e de como precisamos de romance em nossas vidas, como adoramos receber cartões sentimentais e cartas de amor.

- Você diz a Connie que a ama? - perguntei (sabendo a resposta), e ele me olhou como se eu fosse louca.

- Não preciso - disse. - Ela sabe que a amo!

- Tenho certeza de que ela sabe - falei inclinando-me e roçando suas mãos ásperas de carpinteiro que seguravam a xícara como se fosse a única coisa à qual ele pudesse se agarrar. Mas ela precisa ouvir, Bill. Ela precisa ouvir o que significou para você durante todos esses anos. Por favor, pense nisso.

Voltamos para o quarto de Connie. Bill desapareceu lá dentro e eu fui visitar outro paciente. Mais tarde, vi Bill sentado ao lado da cama. Ele segurava a mão de Connie enquanto ela dormia. Era o dia 12 de fevereiro.

Dois dias depois eu estava andando pela ala do sanatório ao meio-dia. Lá estava Bill, apoiado contra a parede do corredor, olhando para o chão. Eu já soubera, através da enfermeira chefe, que Connie morrera às 11 horas.

Quando Bill me viu, permitiu que eu o abraçasse por um longo tempo. Seu rosto estava molhado de lágrimas e ele estava tremendo. Finalmente encostou-se de novo na parede e respirou fundo.

- Tenho que dizer algo - falou. - Tenho que dizer como me sinto bem por ter dito a ela. - Ele parou para assoar o nariz. Pensei muito a respeito do que você me disse e, essa manhã, falei para ela o quanto a amava e como era maravilhoso estar casado com ela. Você deveria ter visto seu sorriso!

Entrei no quarto para me despedir pessoalmente de Connie. Lá, na mesa-de-cabeceira, estava um grande cartão de Dia dos Namorados que Bill dera. Você sabe, do tipo sentimental, que diz: "Para minha esposa maravilhosa... Eu te amo."

 

As lágrimas mais amargas derramadas sobre os túmulos são por palavras não ditas e atos não realizados. HARRIET BEECHER STOWE

ANDANDO DE TRENÓ

ROBIN L. SILVERMAN

Histórias Para Aquecer o Coração 59

 

Um dia, no começo de dezembro, acordamos para descobrir uma neve perfeita, recém-caída.

- Por favor, mamãe, podemos andar de trenó antes do café da manhã? - implorou minha filha Erica, de onze anos de idade.

Quem poderia resistir? Então vestimos os casacos e nos dirigimos para a represa no campo de golfe de Lincoln Park, o único morro em nossa cidade.

Quando chegamos, o morro estava formigando de gente.

Achamos um espaço perto de um homem alto e magro e de seu filho de três anos. O garoto já estava deitado de barriga para baixo, esperando para ser empurrado.

- Vamos lá, papai! Vamos lá!

- Por favor - eu disse. - Parece que seu filho já está pronto para ir.

Dito isto, ele deu um forte empurrão e lá se foi o menino!

Mas não foi apenas o garoto que voou - o pai saiu correndo atrás dele a toda velocidade.

- Ele deve estar com medo de que seu filho se choque contra alguém - eu disse para Erica. - É melhor nós também tomarmos cuidado.

Assim, lançamos nosso próprio trenó e descemos o morro zunindo, em grande velocidade, a neve solta voando em nossos rostos. Tivemos que nos arremessar para não batermos em uma grande pedra perto do rio e acabamos deitadas de costas, rindo.

- Ótima corrida! - eu disse.

- Mas temos que andar muito para voltar! - observou Erica.

Com certeza, era uma longa caminhada. Enquanto lutávamos para chegar ao topo, percebi que o homem magro estava empurrando seu filho, que ainda se encontrava no trenó, de volta ao topo.

- Isso é que é serviço! - disse Erica. - Será que você faria- o mesmo por mim?

Eu já estava sem ar.

- Nem pensar, garota! Continue andando!

Quando finalmente chegamos ao topo, o garotinho estava pronto para brincar novamente.

- Vai, vai, vai, papai! - ele gritou.

Mais uma vez o pai reuniu todas as suas energias para dar um grande empurrão no trenó, correu atrás dele morro abaixo e então puxou o trenó e o menino de volta para cima.

Isso se repetiu por mais de uma hora. Mesmo com Erica andando sozinha, eu estava exausta. A essa altura, a multidão no morro havia diminuído, pois as pessoas voltavam para casa para almoçar. Finalmente, restavam apenas o homem e seu filho, Erica e eu e um punhado de outras pessoas.

"Ele não pode continuar achando que o menino vai colidir com alguém. E, com certeza, apesar de ser um menino pequeno, ele poderia puxar seu próprio trenó morro acima de vez em quando" - pensei. Mas o homem nunca se cansava e seu comportamento era alegre e jovial.

Finalmente, não aguentei mais. Olhei de cima do morro para ele e gritei:

- Você tem uma tremenda energia!

O homem olhou para mim e sorriu.

- Ele tem paralisia cerebral - ele disse de forma natural. Não pode andar.

Fiquei atônita. Então percebi que não havia visto o menino descer do trenó durante todo o tempo que estivéramos no morro. Tudo parecia tão alegre, tão normal, que não me ocorrera que o menino poderia ser deficiente.

Ainda que eu não soubesse o nome do homem, contei a história em minha coluna no jornal na semana seguinte. Ele, ou alguém que o conhecia, deve ter reconhecido a história, pois, pouco tempo depois, recebi esta carta:

 

Cara Sra. Silverman A energia que gastei no morro naquele dia não é nada comparada ao que meu filho faz todos os dias. Para mim, ele é um verdadeiro herói e algum dia espero ser metade do homem que ele já se tornou. "


 

EU ME PERGUNTO POR QUE

AS COISAS SÃO COMO SÃO

CHRISTR CARTER KOSKI

Histórias Para Aquecer o Coração 63

 

Durante meu primeiro ano no segundo grau, o Sr. Reynolds, meu professor de Inglês, entregou a cada aluno uma lista de pensamentos e declarações escrita por outros alunos e, em seguida, nos passou um dever de redação baseado num daqueles pensamentos. Com dezessete anos, eu estava começando a pensar a respeito de muitas coisas, por isso escolhi a declaração: "Eu me pergunto por que as coisas são como são." Naquela noite, escrevi, em formato de narrativa, todas as perguntas que me deixavam confusa acerca da vida. Percebi que muitas delas eram difíceis de responder e que talvez outras não pudessem ser respondidas de forma alguma. Quando entreguei o trabalho, estava com medo de me sair mal porque não tinha dado uma resposta à questão "Eu me pergunto por que as coisas são como são". Eu não tinha resposta. Só tinha escrito perguntas.

 

No dia seguinte, o Sr. Reynolds me chamou junto ao quadro-negro e pediu que eu lesse minha declaração para os outros alunos. Entregou-me o trabalho e sentou-se no fundo da sala. A turma ficou em silêncio quando comecei a ler:

"Mamãe, papai... por que?

 

Mamãe, por que as rosas são vermelhas? Mamãe, por que a grama é verde e o céu é azul? Por que a aranha tem uma teia e não uma casa? Papai, por que eu não posso brincar com sua caixa de ferramentas? Professor, por que eu tenho que ler?

Mamãe, por que não posso usar batom para ir ao baile? Papai, por que não posso ficar na rua até meia-noite? Os outros garotos ficam. Mamãe, por que você me odeia? Papai, por que as outras crianças não gostam de mim? Por que tenho que ser tão magra? Por que tenho que usar óculos e aparelho nos dentes? Por que tenho que ter dezesseis anos?

Mãe, por que tenho que me formar? Papai, por que tenho que crescer? Mamãe, papai, por que tenho que ir embora?

Mamãe, por que você não escreve com mais frequência? Papai, por que tenho saudades dos meus velhos amigos? Papai, por que você me ama tanto? Papai, por que você me mima? Sua garotinha está crescendo. Mamãe, por que você não me visita? Mamãe, por que é tão difícil fazer novos amigos? Papai, por que tenho saudades de casa?

Papai, por que meu coração dispara quando ele olha nos meus olhos? Mamãe, por que minhas pernas tremem quando eu ouço a voz dele? Mamãe, por que "estar apaixonado é a melhor sensação do mundo"?

Papai, por que você não gosta de ser chamado de ''vovô''?

Mamãe, por que os dedinhos do meu bebê se agarram com tanta força aos meus?

Mamãe, por que eles têm que crescer? Papai, por que eles têm que ir embora? Por que eu tenho que ser chamada de "vovó"? Mamãe, papai, por que vocês tiveram que me deixar? Eu preciso de vocês.

Por que a minha juventude passou por mim? Por que meu rosto mostra todos os sorrisos que eu já dei a um amigo ou a um estranho? Por que meu cabelo brilha com um tom prateado? Por que minhas mãos tremem quando me abaixo para pegar uma flor? Por que, Deus, as rosas são vermelhas?"

 

Quando terminei minha história, meus olhos se encontraram com os olhos do Sr. Reynold e eu vi uma lágrima correndo lentamente no seu rosto. Foi então que percebi que a vida nem sempre é baseada nas respostas que recebemos, mas também nas perguntas que fazemos.


 

O presente de aniversário

MAVIS BURTON FERGUSON - escrita em 1969.

Histórias Para Aquecer o Coração 66

 

Uma semana depois de meu filho entrar para a primeira série, ele voltou para casa com a notícia de que Roger, o único menino negro na sala, era seu companheiro de playground. Engoli em seco e disse

- Que bom. Quanto tempo até que alguém mais também vire seu amigo.

- Ah eu não vou deixar de ser amigo dele - respondeu Bill.

Na outra semana recebi a notícia de que Bill perguntara se Roger poderia ser seu companheiro de carteira.

A não ser que fosse nascido e criado no interior do sul dos Estados Unidos como eu fora, não vai entender o que isso significa. Marquei uma reunião com a professora.

Ela vai me encontrar com olhos cínicos e cansados.

- Bem, suponho que a senhora também queira um novo companheiro de carteira para o seu filho - disse. - Será que poderia esperar alguns minutos? Há outra mãe chegando agora.

Virei-me e vi uma mulher da minha idade. Meu coração disparou quando percebi que deveria ser a mãe de Roger.

Possuía uma discreta dignidade e muita atitude, mas nenhuma das duas qualidades podia encobrir a ansiedade que ouvi em suas perguntas:

- Como Roger está se saindo? Espero que esteja acompanhando as outras crianças. Se não estiver, me avise.

Ela hesitou enquanto forçava-se a perguntar:

- Ele está criando qualquer tipo de problema? Quero dizer, por que ele tem que trocar tanto de carteira?

Percebi a terrível tensão que estava sentindo, pois ela sabia a resposta. Mas fiquei orgulhosa da resposta gentil daquela professora primária:

- Não, Roger não está causando problemas. Tento mudar todas as crianças de lugar durante as primeiras semanas até que encontrem o parceiro certo.

Eu me apresentei e disse que meu filho deveria ser o novo companheiro de Roger e que eu esperava que gostassem um do outro. Mesmo então eu sabia que era apenas um desejo superficial, não um desejo profundo. Mas isso a ajudou, eu pude ver.

Duas vezes Roger convidou Bill para ir até sua casa, mas eu encontrei desculpas. Então veio o arrependimento que sentirei para sempre.

No dia do meu aniversário, Bill voltou da escola com um pedaço encardido de papel dobrado em um quadradinho minúsculo. Desdobrando-o, encontrei três flores e "Feliz Aniversário" desenhados com lápis-cera no papel- e um centavo.

- Foi o Roger que mandou - disse Bill. - É o dinheiro do leite. Quando eu disse que hoje era o seu aniversário, ele me fez trazer isso para você. Disse que você é amiga dele, porque foi a única mãe que não o obrigou a mudar de companheiro de carteira.

 

 

Eu tive um sonho de que meus quatro filhos um dia irão viver em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, e sim pelo conteúdo de seu caráter...

MARTIN LUTHER KING JR.

 


 

LIGAÇÃO PROFUNDA

SUSAN B. WILSON

Histórias Para Aquecer o Coração71

 

Minha mãe e eu temos uma ligação profunda devido à nossa misteriosa habilidade para nos comunicarmos silenciosamente uma com a outra.

Quatorze anos atrás, eu estava morando em Evansville, Indiana, a 1.300 quilômetros de distância da minha mãe, minha confidente e minha melhor amiga. Uma manhã, enquanto estava num estado silencioso de contemplação, senti subitamente a necessidade urgente de telefonar para mamãe e perguntar se estava tudo bem. A princípio, hesitei. Já que minha mãe dava aulas para a quarta série primária, telefonar-lhe às 7h15min da manhã poderia interromper sua rotina e fazer com que se atrasasse para o trabalho. Mas algo me compeliu a ir em frente e telefonar. Conversamos durante três minutos e ela me assegurou que estava sã e salva.

Mais tarde, naquele dia, o telefone tocou. Era mamãe dizendo que meu telefonema matutino provavelmente lhe salvara a vida. Se ela tivesse saído de casa três minutos mais cedo provavelmente se veria envolvida num acidente interestadual que matara várias pessoas e ferira outras tantas.

Oito anos atrás, descobri que estava grávida de meu primeiro filho. A data prevista para o nascimento era 15 de março. Eu disse ao médico que era cedo demais. A data teria que cair entre 25 de março e 3 de abril, pois era quando minha mãe tinha férias de Páscoa na escola. E é claro que eu a queria comigo. O médico ainda insistiu que a data prevista era em meados de março. Eu apenas sorri. Reid chegou no dia 30 de março. Mamãe chegou no dia 31.

Seis anos atrás, eu estava grávida novamente. O médico falou que a data prevista era para final de março. Eu disse que teria que ser mais cedo desta vez porque - você adivinhou - as férias de mamãe eram no começo de março. Tanto o médico quando eu sorrimos. Breanne chegou no dia 8 de março.

Dois anos e meio atrás, mamãe estava lutando contra o câncer. Com o tempo, ela perdeu a energia, o apetite, a habilidade de falar. Após um fim de semana com ela na Carolina do Norte, eu tinha que me preparar para voar de volta para o Meio-Oeste.

Ajoelhei-me ao lado da cama de mamãe e peguei a mão dela.

- Mamãe, se eu puder, você quer que eu volte?

Seus olhos se arregalaram enquanto ela tentava concordar com a cabeça.

Dois dias depois, recebi um telefonema de meu padrasto.

Minha mãe estava morrendo. Membros da família estavam reunidos para os ritos finais. Eles me colocaram no viva-voz para ouvir o serviço religioso.

Naquela noite, tentei ao máximo mandar meu adeus para mamãe através dos quilômetros que nos separavam. Na manhã seguinte, porém, o telefone tocou: mamãe ainda estava viva, mas em coma e esperava-se que morresse a qualquer minuto.

Mamãe não morreu. Nem naquele dia, nem no dia seguinte.

Nem no outro. Todas as manhãs eu recebia o mesmo telefonema: ela podia morrer a qualquer minuto. Mas não morria. E todos os dias minha dor e minha tristeza eram expostas.

Depois de quatro semanas, finalmente entendi: mamãe estava me esperando. Ela me comunicara que gostaria que eu voltasse, se pudesse. Eu não tinha podido antes, mas agora podia. Fiz as reservas imediatamente.

Por volta das 17 horas daquela tarde, eu estava deitada na cama com os braços em volta dela. Ela ainda estava em coma, mas eu sussurrei:

- Estou aqui, mamãe. Você já pode ir. Obrigada por esperar. Você já pode ir.

Ela morreu apenas algumas horas depois.

Acho que quando uma ligação é tão profunda e poderosa, vive para sempre em algum lugar muito além das palavras e é de uma beleza indescritível. Com toda a agonia de minha perda, eu não trocaria a beleza e o poder dessa ligação por nada.


 

Estamos aqui para aprender

CHARLES SLACK Como contado para Bessie Pender

Histórias Para Aquecer o Coração 74

 

- Dezesseis - eu disse.

Esqueci a pergunta de Matemática que minha professora da segunda série, Joyce Cooper, me fez naquele dia, mas nunca me esquecerei da resposta. Assim que o número saiu da minha boca, a turma inteira começou a rir. Eu me sei como a pessoa mais burra do mundo.

A Sra. Cooper censurou meus colegas com um olhar severo.

E disse:

- Estamos rodos aqui para aprender.

Um outro dia, a Sra. Cooper nos pediu para escrever uma redação a respeito do que esperávamos fazer de nossas vidas.

Escrevi: "Quero ser professora como a Sra. Cooper." Ela escreveu na minha redação: "Você daria uma professora excepcional, pois é determinada e tema com afinco." Eu iria carregar estas palavras em meu coração durante os 27 anos seguintes.

Depois de me formar no segundo grau em 1976, casei-me com um homem maravilhoso, Ben, um mecânico. Logo, Latonya nasceu.

Precisávamos de cada centavo apenas para sobreviver.

Faculdade e magistério estavam fora de questão. Consegui, no entanto, arrumar um emprego em uma escola - como ajudante de servente. Limpava dezessete salas de aula na Escola Primária Larrymore todos os dias, incluindo a da Sra. Coopero.

Ela havia sido transferida para Larrymore depois que Smallwood fora fechada.

Eu dizia à Sra. Cooper que queria ensinar e ela me repetia as palavras que escrevera na minha redação anos antes. Mas as contas sempre pareciam estar no meio do caminho.

Até que um dia, em 1986, pensei em meu sonho, em como eu queria ajudar as crianças. Mas, para fazer isso, precisava chegar de manhã como professora - não de tarde, para limpar.

Conversei a respeito disso com Ben e Latonya e ficou decidido: eu me inscreveria na Universidade Old Dominion. Durante sete anos assisti às aulas de manhã, antes do trabalho.

Quando chegava em casa do trabalho, eu estudava. Nos dias em que não tinha aula, trabalhava como professora-assistente para a Sra. Cooper. Às vezes ficava pensando se teria forças para conseguir.

Quando recebi minha primeira nota baixa, falei em desistir.

Minha irmã mais nova, Helen, recusou-se a ouvir.

- Você quer ser professora - ela disse. - Se parar, nunca alcançará o seu sonho.

Helen sabia bem o que significava não desistir, pois ela lutava contra a diabetes. Quando uma das duas desanimava, ela dizia:

- Você vai conseguir. Nós vamos conseguir.

Em 1987 Helen, com apenas vinte e quatro anos, morreu de falência renal relacionada à diabetes. Estava nas minhas mãos conseguir por nós duas.

No dia 8 de maio de 1993 meu sonho se realizou a formatura. Receber meu diploma universitário e a licença estadual para ensinar me qualificavam oficialmente para ser professora. Fiz entrevistas em três escolas. Na Escola Primária Colemar Place, a diretora Jeanne Tomlinson disse:

- Seu rosto me parece familiar.

Ela trabalhara em Larrymore mais de dez anos antes. Eu limpava sua sala e ela se lembrou de mim.

Ainda assim eu não tinha propostas concretas. O telefonema veio quando eu acabara de assinar meu décimo oitavo contrato como ajudante de servente. Havia uma vaga para dar aulas para a quinta série em Coleman Place.

Pouco tempo depois que comecei aconteceu algo que trouxe o passado de volta. Eu escrevi uma sentença cheia de erros gramaticais no quadro-negro e pedi aos alunos que viessem até o quadro e a corrigissem.

Uma garota corrigiu até a metade, ficou confusa e parou.

Enquanto as outras crianças riam, as lágrimas escorriam nas bochechas dela. Dei-lhe um abraço e disse-lhe para ir tomar um pouco d'água. Então, lembrando-me da Sra. Cooper, censurei o resto da turma com um olhar firme.

- Estamos todos aqui para aprender - eu disse.

 

 

O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza de seus sonhos.

ELEANOR ROOSEVELT

 


 

A GAROTINHA QUE OUSOU DESEJAR

ALAN D. SCHULTZ

Histórias Para Aquecer o Coração 78

 

Quando Am Hagadorn dobrou a esquina no final do corredor de sua sala de aula, colidiu com um garoto alto da quinta série correndo na direção oposta.

- Olhe por onde anda, coisinha - gritou o garoto enquanto se desviava da menina da terceira série. Então, com um sorriso afetado, o garoto segurou sua perna direita e imitou a maneira que Amy mancava quando estava andando. Am fechou os olhos por um instante. "Ignore-o", disse para si mesma enquanto se dirigia para a sala de aula. Mas, no final do dia, Aroy ainda estava pensando sobre a zombaria do garoto. E ele não era o único. Desde que Amy entrara para o terceiro ano, alguém zombava dela todo santo dia, a respeito de sua forma de falar ou de seu andar manco. Às vezes, mesmo em uma sala cheia de outros alunos, as zombarias a faziam sentir-se sozinha.

À mesa de jantar naquela noite, Amy ficou calada. Sabendo que as coisas não iam bem na escola, Patti Hagadorn ficou feliz por ter boas notícias para partilhar com sua filha.

- Há um concurso de desejos de Natal na estação de rádio local - anunciou. - Escreva uma carta para Papai Noel e você pode ganhar um prêmio. Acho que alguém de cabelos louros e cacheados nesta mesa deveria entrar.

Amy riu e um papel e uma caneta surgiram.

- Querido Papai Noel - ela começou.

Enquanto Amy caprichava na caligrafia, o resto da família tentava descobrir o que ela poderia pedir para Papai Noel.

Tanto a irmã de Amy, Jamie, quanto sua mãe pensaram que uma Barbie de um metro de altura estaria no topo da lista de desejos de Amy. O pai de Amy pensou em um livro com ilustrações. Mas Amy não revelou seu desejo secreto de Natal. Na estação de rádio WLT, em Fort Wayne, Indiana, as cartas para o Concurso de Desejo de Natal jorravam. Os funcionários se divertiam com todos os diferentes presentes que os meninos e meninas de toda a cidade queriam para o Natal.

Quando a carta de Amy chegou à estação de rádio, o diretor Lee Tobin a leu com atenção.

 

"Querido Papai Noel.

Meu nome é Amy. Tenho nove anos de idade. Tenho um problema na escola. Será que você pode me ajudar; Papai Noel? Os garotos riram de mim por causa da maneira que eu ando, corro e falo. Tenho paralisia cerebral. Só queria um dia em que ninguém risse ou zombasse de mim.

Com amor, Amy. "

 

O coração de Lee ficou apertado quando ele leu a carta. Ele sabia que paralisia cerebral era uma desordem muscular que podia deixar os colegas de Amy confusos. Ele pensou que seria bom para as pessoas de Fort Wayne ouvirem a respeito dessa menininha especial e seu pedido incomum. O Sr. Tobin ligou para o jornal local.

No dia seguinte, uma foto de Amy e sua carta para Papai Noel estavam na primeira página do The News Sentinel. A história se espalhou rapidamente. Por todo o país, jornais, rádio e televisão relatavam a história da garotinha em Fort Wayne Indiana, que pedira um presente de Natal tão simples e, ainda assim, notável - apenas um dia sem zombarias.

De repente, o carteiro passou a frequentar a casa dos Hagadorn. Envelopes de todos os tamanhos endereçados a Am chegavam diariamente, enviados por crianças e adultos do país inteiro, recheados de desejos de boas festas e palavras de encorajamento. Durante a época atribulada do Natal, mais duas duas mil pessoas do mundo todo enviaram a Amy cartas de amizade e apoio. Alguns dos remetentes tinham deficiências, mas cada um enviava uma mensagem especial para Amy. Através dos cartões e cartas vindas de estranhos, Amy teve um vislumbre de um mundo cheio de pessoas que realmente se importavam umas com as outras. Ela percebeu que nenhuma forma ou quantidade de zombarias poderia fazê-Ia se sentir solitária novamente. Muitas pessoas agradeceram a Amy por ser corajosa o suficiente para se abrir. Outras a encorajavam a ignorar as provocações e a andar de cabeça erguida. Lynn, uma menina da sexta série, do Texas, enviou esta mensagem:

 

"Gostaria de ser sua amiga e, se você quiser me visitar, poderíamos nos divertir. Ninguém irá zombar de nós porque, se o fizerem, não iremos nem ouvi-los."

 

Amy conseguiu seu desejo de um dia especial sem zombarias na Escola Primária South Wayne. Ademais, todos na escola receberam um bônus extra. Professores e alunos discutiram sobre como as zombarias podem fazer os outros se sentir. Naquele ano, o prefeito de Fort Wayne proclamou oficialmente o dia 21 de dezembro como o Dia de Amy Jo Hagadorn em toda a cidade. q prefeito explicou que, ao ousar fazer um pedido tão simples como aquele, Amy ensinou uma lição universal.

- Todos - disse o prefeito - querem e merecem ser tratados com respeito, dignidade e carinho.


 

O vento debaixo das minhas asas

JEAN HARPER

Histórias Para Aquecer o Coração 82

 

Em 1959, quando Jean Harper estava na terceira série, sua professora passou uma redação sobre o que eles queriam ser quando crescessem. O pai de Jean era piloto de um avião que pulverizava plantações na pequena comunidade rural no norte da Califórnia, onde ela foi criada, e Jean ficou totalmente fascinada por voar e por aviões. Ela colocou seu coração na redação e incluiu todos os seus sonhos: queria pulverizar inseticida nas lavouras, pular de paraquedas, ver as nuvens (algo que havia visto em um programa de TV) e ser piloto de avião. Sua redação voltou com uma nota zero. A professora lhe disse que aquilo era "um conto de fadas" e que nenhuma das ocupações que ela listara eram profissões para mulheres. Jean ficou arrasada e humilhada.

Mostrou a redação a seu pai e ele disse que é claro que ela podia se tornar piloto.

- Veja Amélia Earhart - ele disse. - Essa professora não sabe do que está falando.

Porém, conforme os anos se passavam, Jean foi massacrada pelo desencorajamento e negatividade que encontrava sempre que falava a respeito de sua carreira: "Garotas não podem se tornar pilotos de avião; nunca puderam, nunca irão poder.

Vocês não são inteligentes o bastante, são malucas. Impossível." Até que finalmente Jean desistiu.

Quando estava no último ano do segundo grau, sua professora de Inglês era a Sra. Dorothy Slaton. A Sra. Slaton era uma professora inflexível e exigente que possuía altos padrões e pouca tolerância para desculpas. Recusava-se a tratar seus alunos como crianças, esperando, ao invés, que se comportassem como adultos responsáveis para serem bem-sucedidos no mundo real após a formatura. No princípio, Jean teve medo dela, mas, com o tempo, passou a respeitar sua firmeza e senso de justiça.

Um dia, a Sra. Slaton passou um dever para a turma: "O que vocês acham que estarão fazendo daqui há dez anos?" Jean pensou a respeito. "Piloto? Nem pensar. Aeromoça? Não sou bonita o bastante - eles nunca me aceitariam. Esposa? Que rapaz poderia me querer? Garçonete? Posso fazer isso." Por segurança, foi isso o que ela escreveu.

A Sra. Slaton recolheu as redações e nada mais foi dito.

Duas semanas depois, a professora devolveu o dever, de cabeça para baixo em cima de cada carteira e fez esta pergunta: "Se você possuísse uma quantidade ilimitada de dinheiro, acesso ilimitado às melhores escolas, talento e habilidades ilimitados, o que, faria?" Jean sentiu uma onda do antigo entusiasmo e, animada, escreveu todos os seus antigos sonhos. Quando os alunos pararam de escrever, a professora perguntou:

- Quantos alunos escreveram a mesma coisa dos dois lados do papel?

Nenhuma mão se levantou.

A próxima coisa que a Sra. Slaton disse mudou o rumo da vida de Jean. A professora se inclinou por cima de sua carteira e disse:

- Tenho um segredo para vocês todos. Vocês têm talento e habilidades ilimitados. Vocês têm acesso a boas escolas e podem conseguir uma quantidade ilimitada de dinheiro se desejarem algo com fervor. Quando terminarem a escola, se não correrem atrás de seus sonhos, ninguém irá fazê-lo por vocês.

Vocês podem ter o que quiserem, se desejarem o bastante.

A mágoa e o medo de anos de desencorajamento desmoronaram frente à verdade do que a Sra. Slaton havia dito. Jean sentiu-se animada e um pouco amedrontada. Ficou depois da aula e dirigiu-se à mesa da professora. Jean agradeceu à Sra. Slaton e lhe contou sobre seu sonho de se tornar piloto. A Sra. Slaton levantou-se ligeiramente e bateu com as mãos no tampo da mesa:

- Então faça isso! - disse.

E Jean fez. Não aconteceu do dia para a noite. Levou dez anos de trabalho duro, encarando oposições que iam do ceticismo silencioso à hostilidade declarada. Não era da natureza de Jean manter sua posição quando também a rejeitava ou humilhava. Ao contrário, tentava tranquilamente encontrar outra solução.

Tornou-se piloto particular e então conseguiu graduação suficiente para transportar carga e até mesmo aviões de passageiros. Seus patrões hesitavam claramente em promovê-la porque era mulher. Até mesmo seu pai a aconselhou a tentar outra coisa.

- Impossível - ele disse. - Pare de bater com a cabeça na parede!

Mas Jean respondeu:

- Eu discordo, papai. Acredito que as coisas irão mudar e quero estar entre as primeiras quando isso acontecer.

Jean foi em frente...! e fez tudo o que a sua professora da terceira série considerava "um conto de fadas" – pulverizou plantações, pulou de paraquedas algumas centenas de vezes e até mesmo semeou nuvens, como modificação climática, durante um verão. Em 1978 tornou-se uma das primeiras três mulheres a serem aceitas como piloto pela United Airlines e uma entre apenas cinquenta pilotos comerciais mulheres no país naquela época. Hoje, Jean Harper é piloto de Boeing 737 na United.

Foi o poder de uma palavra positiva bem colocada, uma fagulha de encorajamento vindo de uma mulher que Jean' respeitava, que deu à insegura garota a força e a fé para perseguir seu sonho. Hoje, Jean diz:

- Eu escolhi acreditar nela.

 

 

Muito longe, no brilho do sol, estão minhas maiores aspirações.

Posso não alcançá-las, mas posso olhar para cima e ver sua beleza,

acreditar nelas e tentar segui-las.

LOUISA MAY ALCOTT

 


 

O PIRATA

MARJORIE WALLY

Histórias Para Aquecer o Coração 86

 

Um dia a Sra. Smith estava sentada na ante-sala do consultório médico quando um garotinho e sua mãe entraram. O menino chamou a atenção da Sra. Smith porque usava um tapa-olho.

Ela ficou maravilhada pelo fato de ele não parecer ter sido afetado pela perda de um olho e o observou enquanto acompanhava a mãe até uma cadeira próxima.

O consultório estava muito cheio naquele dia, de modo que a Sra. Smith pôde conversar com a mãe do menino enquanto ele brincava com seus soldadinhos. No começo, ficou sentado calmamente, brincando com os soldadinhos no braço da cadeira. Depois, sentou-se tranquilamente no chão, olhando para cima, para sua mãe.

Finalmente, a Sra. Smith teve a oportunidade de perguntar ao menino o que havia acontecido com seu olho. Ele analisou a pergunta durante um longo instante e, em seguida, respondeu, levantando o tapa-olho:

- Não há nada errado com meu olho. Sou um pirata!

E voltou para sua brincadeira.

A Sra. Smith estava ali porque havia perdido a perna, do joelho para baixo, em um acidente de carro. Sua consulta naquele dia era para determinar se o joelho já cicatrizara o suficiente para ser encaixado numa prótese. A perda fora devastadora para ela.

Mesmo tentando ao máximo ser corajosa, sentia-se uma inválida.

Intelectualmente sabia que a perda não deveria interferir com sua vida, mas, emocionalmente, não conseguia superar esse obstáculo. O médico sugerira visualização e ela experimentara, mas não fora capaz de visualizar uma imagem emocionalmente aceitável e duradoura. Em sua cabeça via-se como uma inválida.

A palavra "pirata" mudou sua vida. Foi instantaneamente transportada. Viu-se vestida como Long John Silver, de pé no convés de um navio pirata. Estava parada, com as pernas abertas, sendo que uma perna era de pau. As mãos seguravam os quadris, a cabeça estava levantada, os ombros para trás e ela sorria no meio da tempestade. Ventos com a força de um furacão chicoteavam o casaco e o cabelo. A espuma gelada era soprada por cima da balaustrada do convés e grandes ondas se quebravam contra o navio. O barco balançava e gemia sob a força da tempestade.

Ainda assim ela se mantinha firme, orgulhosa, impávida.

Naquele momento, a imagem de inválida foi substituída e sua coragem voltou. Olhou para o garotinho, ocupado com seus soldados.

Alguns minutos depois, a enfermeira a chamou. E, quando se balançou nas muletas, o garotinho percebeu sua amputação.

- Ei, moça - chamou-a. - O que há de errado com a sua perna?

A mãe do menino ficou petrificada.

A Sra. Smith olhou durante um instante para a perna diminuída. E respondeu com um sorriso:

- Nada. Também sou pirata.

 

 

Nós não vemos as coisas como elas são, nós as vemos como nós somos.

ANAŸS NIN

 


 

Vencendo em terceiro lugar

BETTY B. YOUNGS

Histórias Para Aquecer o Coração 92

 

Com a cabeça baixa, um exausto, mas determinado rapaz repetia de novo e de novo para si mesmo:

- Você pode fazer isso. Você pode fazê-lo, você pode, você pode.

Essas palavras, ditas tanto como encorajamento quanto como confirmação, encontraram um coração atento. Sem falhar, elas levaram um pé na frente de outro, para o alto no ar e então para baixo - de novo e de novo e de novo. O rapaz observava intensamente enquanto, um a um, seus tênis novos batiam no asfalto que passava lentamente debaixo dele. Era um tropel muito cansado. Olhando para cima, o jovem esfregou a testa e procurou por um vislumbre da linha de chegada.

"É em algum lugar lá na frente" - disse para si mesmo.

Estava muito longe. Mesmo assim, Chris Burke estava decidido a alcançá-la.

Com grande esforço, ele também cruzou a linha de chegada. Quando chegou, fotógrafos e repórteres já haviam se reunido em volta do jovem que chegara em primeiro lugar. As primeiras davam doses e espocavam flashes, microfones se estilavam para à frente para captarem as palavras do vencedor.

Com um sorriso que se abria de orelha a orelha, Chris triunfantemente saltou e ficou orgulhosamente ao lado do vencedor.

Passou os braços em volta do rapaz de sua própria idade - alguém que ele nunca havia encontrado antes desse dia. Radiante, Chris esperou pacientemente que o repórter completasse sua entrevista com o vitorioso - tão pacientemente quanto podia em um momento que lhe era tão emocionante. Quando por fim o repórter virou-se para a câmera para suas observações finais, Chris instantaneamente deu um passo à frente e esticou a mão para receber um aperto de mão de congratulações.

- Nossa! - gritou Chris, incapaz de reprimir sua óbvia felicidade. - Só quero dizer como isso foi emocionante e como estou feliz de ter chegado em terceiro!

O repórter não teve saída a não ser responder ao carismático e entusiasmado atleta, querendo seu momento de reconhecimento.

- Sim, conte-nos a respeito - gaguejou de boa vontade o surpreso repórter.

- Uau! - disse Chris. - Obrigado por me entrevistar. Isso é ótimo! Simplesmente ótimo. Bem, eu apenas estou muito feliz por estar aqui. É uma honra. Claro que terminei em terceiro lugar. Terceiro lugar, que ótimo!

Ele não precisava de uma resposta para esta pergunta e não esperou por uma. Ao invés disso, virou seu rosto animado para que o mundo todo visse - isso foi em cadeia nacional - e, com mais alegria do que me lembro ter visto em alguém, disse:

- Obrigado a todos por compartilharem desse momento muito especial comigo. É hora de comemorar!

Dito isto, Chris se virou e correu para a fila para receber os abraços e os apertos de mão junto com o vencedor.

Chris tinha quatorze anos na época. Isso foi nas Olimpíadas Especiais.

Só havia três corredores na corrida.

 

Nota do editor: Para entender o significado total da história de Chris, deve-se saber que ele tem síndrome de Down, uma condição causada por um defeito genético.

Crianças com síndrome de Down possuem um cromossomo a mais, resultando em uma semelhança incomum na aparência, impedimentos no desenvolvimento e um limite de potencial. Como o QI chega no máximo a 75, as capacidades e as habilidades são severamente limitadas - ou assim se pensava. Quando Chris nasceu, em 1965, os médicos recomendavam que os pais de filhos com síndrome de Down colocassem seus filhos em sanatórios, a maioria dos quais fazia pouco mais do que oferecer cuidados físicos.

Grande parte do mundo hoje em dia conhece Chris Burke não apenas através de sua inesquecível entrevista anos atrás, mas também como o carismático e talentoso ator da série de televisão A Vida Continua.


 

O despertar

MELVA HAGGAR DYE

Histórias Para Aquecer o Coração 95

 

 

Você quer fazer o quê? - perguntei-lhe incredulamente, minha voz elevando-se ao tom agudo que alcança quando fico exasperada. - Diga isso de novo, por favor, acho que não o ouvi!

- Ah, você me ouviu, com certeza - Frank respondeu bruscamente, balançando os braços de maneira expressiva. - Quero dizer o meu velório agora, antes de morrer! Por que todo mundo, menos eu, deveria aproveitar?

Ele rastejou até a cozinha e eu podia ouví-Io resmungando para si mesmo enquanto vasculhava a geladeira. Voltou logo depois para o deque onde eu havia ficado para assistir ao pôr-do-sol de setembro cobrir as Montanhas Blue Ridge. Terminou de mastigar um pêssego maduro e então a voz que nunca conseguia permanecer áspera por muito tempo quebrou o silêncio:

- Querida, eu quero fazer isto.

Segurei um nó na garganta e tentei não chorar. Estava com quarenta e quatro anos e a ideia de ficar viúva - de novo - era devastadora. Tão devastadora, na verdade, que a negação facilmente se tornara o manto que eu vestia todos os dias.

- Mas você está mais forte agora. Você disse isso. E as injeções, elas ajudam...

- Melva - ele tocou meu ombro como se estivesse implorando. - Vamos dar uma festa e vamos fazer direito. Podíamos disfarçá-la como uma festa de aniversário de casamento. É claro que todos os que me conhecem muito bem saberão.

Olhei dentro daqueles olhos castanhos brilhantes, sua faísca agora turvada pela dor, pelos remédios, pelo medo. Eu sabia o que os últimos anos haviam tirado dele. Havíamos deixado de ser o casal dourado na pista de dança todos os fins de semana.

Sim, nós ainda íamos, pois ele insistia, mas agora passávamos a maior parte da noite sentados conversando com amigos.

Seu jogo de golfe, antes marcado por aqueles impulsos poderosos e exatos e pelas tacadas precisas - ele costumava marcar quatro buracos com uma tacada - haviam decaído.

As horas agradáveis que ele costumava passar jardinando e cortando lenha haviam diminuído para alguns poucos e preciosos minutos que o deixavam abatido e exausto.

Entretanto, a disposição de espírito nunca o abandonou.

Enquanto eu parecia lamentar constantemente as mudanças em nossa vida - em minha vida -, ele nunca reclamava. Subitamente, percebi que meus medos e incertezas empalideciam em comparação ao que ele devia estar passando. As mudanças pelas quais havíamos passado pareciam minúsculas em relação ao câncer que grassava dentro de seu corpo, competindo com a diabetes pela chance de determinar seu destino.

Engolindo minha vergonha, peguei a sua mão.

- Tudo bem. Se você quer uma festa, teremos uma festa!

Na manhã seguinte encomendei os 150 convites para nossa "festa de aniversário de casamento". Dezenove de outubro de 1991 caiu num sábado à noite e alugamos o Frank's Shrine Club para o evento.

Quase todos os que convidamos vieram para partilhar a noite conosco. No meio da festa, Frank subiu ao palco com o microfone na mão para fazer uma gloriosa interpretação da balada lt's Hard to Be Humble (É Difícil Ser Humilde). Meu marido adorou ser o centro das atenções e terminou sob os aplausos e as lágrimas de todos aqueles que o amavam.

Então fez um pequeno discurso, agradecendo a todos por terem vindo e proclamou-se o homem mais sortudo do mundo! Com estas palavras, ele disse adeus.

E então valsamos. Frank começara a perder o equilíbrio e não mais se sentia à vontade dançando com outras mulheres. Mas naquela noite ele dançou com todas. Mais tarde conversei com um de seus médicos enquanto dançávamos uma música lenta.

- Quanto tempo ele tem? - perguntei baixinho.

- É impossível prever isso, Melva, ele parece estar mais forte.

- Quanto tempo? - perguntei novamente e não obtive resposta. Terminamos nossa dança e ele me levou de volta à mesa.

- Seis meses, talvez mais - ele finalmente me respondeu.

- Obrigada - sussurrei.

O resto da noite passou como um sonho, com Frank mudando de um grupo para outro, conversando com todo mundo e deleitando-se com as várias histórias contadas às suas custas.

Politicagem, como ele o chamou certa vez. Quando a noite se aproximou do fim, ele ficou na porta para dar boa-noite a todos os convidados - de pé no começo, depois precisando sentar-se, mas sempre sorrindo. Três meses e três dias depois, eu estava sentada tremendo no frio enquanto seus irmãos da maçonaria realizavam rituais maçônicos. Eu segurava fortemente a bandeira dobrada com capricho, enquanto os braços fortes de um amigo me levavam até a limusine que aguardava.

Cerca de um ano depois, fui almoçar com uma nova amiga.

Ela falou do velório ao qual fora na noite anterior:

- Que linda forma de dizer adeus! - observou, obviamente desacostumada a tal evento.

Ouvi-a relatar a frivolidade e pensei em como era triste que o amado falecido tivesse perdido uma noite tão prazerosa. A culpa do "eu devia ter feito mais" e "por que eu não fui mais forte para ele", que eram minha mortalha, começaram a desaparecer. Minha mente voltou-se para a alegria de Frank em sua última festa.

- Então, você fez um velório para o Frank? - perguntou minha amiga.

- Ah, sim - respondi. - Foi uma festa maravilhosa e ele se divertiu como nunca!

 

Uma alegria destrói cem tristezas.


 

COM PRESSA

GINA BARRETT SCHLESINGER

Histórias Para Aquecer o Coração 99

 

Eu estava com pressa.

Passei correndo pela sala de jantar usando meu melhor vestido, concentrada em me preparar para um encontro de negócios noturno. Gillian, minha filha de quatro anos, estava dançando ao som de sua música favorita, Cool do filme Amor, Sublime Amor.

Eu estava com pressa, à beira de chegar atrasada. No entanto, uma vozinha dentro de mim disse: "Pare." Então parei. Olhei para ela. Aproximei-me, peguei sua mão e a rodopiei. Minha filha de sete anos, Caitlin, entrou em nossa órbita e eu também a peguei. Nós três dançamos alucinadamente pela sala de jantar até chegarmos à sala de estar. Ríamos.

Rodopiávamos. Será que os vizinhos podiam ver a loucura pelas janelas? Não tinha importância. A música chegou ao fim com um floreio dramático e nossa dança terminou com ela. Dei um tapinha em seus traseiros e mandei que fossem tomar banho.

Elas subiram as escadas, sem fôlego, seus risinhos ricocheteando pelas paredes. Voltei aos meus afazeres. Estava dobrada para à frente, enfiando papéis em uma pasta, quando ouvi a mais nova falar para a irmã:

- Caidin, você não acha que a mamãe é a mais melhor de todas?

Congelei. Eu quase correra pela vida, perdendo aquele momento. Meu pensamento foi para os prêmios e os diplomas que cobriam as paredes do meu escritório. Nenhum prêmio, nenhuma realização que eu jamais alcançara, poderia se comparar a isso: "Você não acha que a mamãe é a mais melhor?" Minha filha disse isso quando tinha quatro anos. Não espero que ela o diga com quatorze. Mas, aos quarenta, se ela se inclinar por cima daquela caixa de pinho para dizer adeus para o recipiente descartado da minha alma, quero que o diga.

"Mamãe não é a mais melhor?" Não combina com meu currículo. Mas quero isso gravado na minha lápide.

 

 

O trabalho irá esperar enquanto você mostra às crianças o arco-íris,

mas o arco-íris não espera enquanto você está trabalhando.

PATRICIA CLIFFORD

 


 

BEN

TERRY BOISOT

Histórias Para Aquecer o Coração 104

 

Ben nasceu no dia 20 de setembro de 1989. Pouco depois de seu nascimento, soubemos de sua cegueira e surdez. Quando estava com três anos, soubemos também que nunca andaria.

A partir do segundo dia de vida de Ben, nossa família percorreu um caminho que nunca havíamos imaginado. Centenas e centenas de quilômetros até os melhores médicos e os melhores hospitais. Centenas de agulhas e raios-X, tomografias computadorizadas e ressonâncias magnéticas. Depois disso vieram as lentes de contato, o aparelho nos dentes, aparelhos auditivos, cadeiras de rodas, andadores e macacões para engatinhar - junto com todos os terapeutas para nos mostrar como usar todas essas coisas. As operações nunca pararam.

A vida de Ben hoje em dia consiste de seu professor habitual, um professor para pessoas com deficiência visual, um professor para pessoas com deficiência auditiva, um terapeuta ocupacional, um fisioterapeuta, um patologista de fala e linguagem, um pediatra, um neurologista, ortopedistas, um oftalmologista pediátrico, um otorrino, um fonoaudiólogo, um dentista, um cirurgião dentista e um ortodontista - e ele só tem oito anos de idade.

Ainda assim, todas as manhãs meu homenzinho acorda com o maior sorriso no rosto, como se dissesse: "Ei, vocês, estou aqui para mais um dia, e estou tão feliz!"

Nossa filha nasceu três anos antes de Ben. Lembro-me de que seu pai e eu olhando para ela durante enormes períodos de tempo quando ela tinha cerca de dois anos, esperando que a próxima palavra ou som escapulisse. Sempre que isso acontecia um momento marcante na história - um tópico de orgulhosas conversas com quem quer que tivesse a paciência de escutar. Realmente tínhamos uma criança brilhante e notável.

Ainda temos.

Depois que Ben nasceu, nosso amor por ele mudou nossa visão sobre o que era realmente importante a respeito de nossos filhos. Não tinha mais importância quantas palavras falavam mm quantos anos, ou que desenvolvimento fenomenal acontecia antes da previsão feita em qualquer livro sobre bebês.

Nossos filhos se tornaram indivíduos, cada um possuindo qualidades maravilhosas, que não devem ser comparadas. Suas vidas não devem ser medidas pela falta de habilidade ou pela habilidade excepcional, mas pela força da perseverança.

Quando Ben estava com cerca de quatro anos, dirigia com bastante domínio sua cadeira de rodas, mas nunca havia dito uma palavra - apenas sons abertos de vogais. Então nossa família começou a botar um gravador na mesa durante o jantar para gravar os sons que Ben estava fazendo porque ele demonstrava claramente que queria participar das conversas. Pensamos que, talvez, se ele ouvisse sua voz gravada e as nossas, isso estimularia algo dentro dele.

Um dia, em setembro de 1993, a fita estava rodando enquanto eu alimentava Ben e fazia alguns sons, tentando estimular algum interesse nele. De repente, o tempo parou. Nunca esquecerei a expressão dos olhos de Ben, a concentração em seu rosto, a forma de sua boca, como ele olhava para mim de sua cadeira de rodas quando falou suas primeiras três palavras:

- Eu te amo.

Virei-me para meu marido e ele olhou para mim com os olhos cheios d'água e disse:

- Terry, eu o ouvi!

Ben disse aquelas palavras para mim e eu as tenho gravadas para ouvir sempre que precisar. Também fico grata, pois ele não disse outra palavra desde então.

Mas, vocês sabem, eu não ouço a fita com tanta frequência.

Não preciso. Sempre irei reconhecer a expressão de seus olhos mesmo que sejam cegos - quando ele procura o meu rosto para me dar um beijo. Isso é tudo o que eu preciso.

 

Um bebê é a opinião de Deus de que o mundo deve continuar.

CARL SANDBERG

 


 

PRIVAÇÃO DOS SENTIDOS

DEBORAH E. HILL

Histórias Para Aquecer o Coração 115

 

Quero sair para dançar, usar um vestido que rodopie e flutue em volta de mim e rir.

Quero sentir a luz trêmula da seda enquanto ela escorrega pelos meus braços e pelo meu corpo, a alegria de tocar com os dedos sua maciez.

Quero dormir na minha própria cama e regalar-me na frescura dos lençóis limpos e descansar minha cabeça em meu travesseiro macio. E ir dormir quando quiser, com todas as luzes apagadas e acordar quando estiver pronta.

Quero me esticar em meu sofá debaixo da minha manta de lã azul e ouvir minha música favorita escoar dos autofalantes para dentro do meu ser, regando a paisagem ressequida da minha alma.

Quero sentar-me na varanda, bebericar café quente de minha caneca de faiança, ler o jornal e ouvir o cachorro latir para as folhas que caem ou para esquilos invasores.

Quero atender o telefone e ligar para os meus amigos e família e conversar até termos colocado em dia todas as palavras que guardamos um para o outro, e rir.

Quero ouvir o trem apitar através de Loveland, o cascalho sendo esmagado na porta da garagem e portas de carros batendo quando os amigos vêm nos visitar. E o tilintar e tinir dos talheres contra a louça, o chiado e o gorgolejo da máquina de fazer café.

Quero sentir meus pés descalços na brancura fria do chão da minha cozinha e na maciez azul do tapete do meu quarto.

Quero ver as cores, todas elas, cada cor jamais fiada na existência. E branco, branco de verdade, puro e imaculado. E acres de árvores verdes e quilômetros de estradas com fitas amarelas e centenas de metros de luzes de Natal. E a Lua.

Quero sentir o cheiro de bacon fritando, um filé grelhando. Jantar de Ação de Graças e a plantação de tomates de meu pai. E roupa recém-lavada, asfalto novo em um estacionamento. E o oceano.

Porém, mais do que tudo isso, quero ficar de pé na porta do quarto do meu filho e vê-lo dormindo. Ouví-Io acordar pela manhã e vê-lo voltar para casa à noite. Tocar seu rosto e passar meus dedos por seus cabelos. Pegar uma carona em seu caminhão e comer seus sanduíches de queijo quente.

E vê-lo crescer, rir, brincar, comer, dirigir e viver. Acima de tudo, de tudo, viver. E passar meus braços à sua volta e segurá10 até ele rir e dizer:

- Já chega, mamãe!

E então ser livre para fazer tudo de novo.

 

 

Nota do editor: O texto a seguir nos foi enviado por uma prisioneira. Não sabemos qual o crime que ela cometeu.


 

CARRINHO VERMELHO

PATRICIA LORENZ

Histórias Para Aquecer o Coração 118

 

Para ser completamente honesta, o primeiro mês foi muito feliz.

Quando Jeannie, Julia, Michael- com as idades de seis, quatro e três anos - e eu nos mudamos de St. Louis para minha cidade natal no norte de Illinois exatamente no dia do meu divórcio, eu estava feliz apenas em encontrar um lugar onde não haveria brigas nem abusos.

Porém, depois do primeiro mês, comecei a sentir saudades de meus antigos vizinhos e amigos. Senti saudades de nossa adorável casa de tijolos no subúrbio de St. Louis, moderna, estilo rancho, especialmente depois que nos ajeitamos na casa de madeira branca de noventa e oito anos de idade que alugamos, que era tudo o que minha renda pós-divórcio podia pagar.

Em St. Louis tínhamos todos os confortos: uma lavadora, secadora, lava-louças, TV e carro. Agora não tínhamos nada disso. Depois do primeiro mês em nossa nova casa, parecia-me que tínhamos passado do conforto da classe média para o pânico no nível da pobreza.

Os quartos do andar de cima de nossa velha casa não possuíam nem aquecimento, mas, de alguma forma, as crianças não pareceram perceber. O chão de linóleo, frio, contra seus pezinhos, simplesmente os encorajava a se vestirem mais rápido pela manhã e a pular mais rápido para dentro da cama à noite.

Reclamei do frio enquanto o vento de dezembro assobiava por todas as janelas e portas daquela velha casa de madeira. Mas as crianças riam dos "lugares engraçados de ar" e simplesmente se aninhavam debaixo das pesadas mantas que tia Bernardine trouxera no dia em que nos mudamos.

Eu estava louca sem televisão.

- O que faremos à noite sem televisão? - perguntei.

Senti-me trapaceada pelo fato de as crianças perderem todos os especiais de Natal. Mas meus três filhinhos eram mais otimistas e muito mais criativos do que eu. Sacaram seus jogos e me imploraram para jogar Terra dos Doces e Três Marias com eles.

Nos aconchegamos juntos no esfarrapado sofá cinza que o senhorio fornecera e lemos um livro de ilustrações depois do outro retirados na biblioteca pública. Por insistência deles ouvimos discos, cantamos canções, fizemos pipoca, criamos magníficas torres de blocos e brincamos de esconde-esconde em nossa velha casa. As crianças me ensinaram como se divertir sem televisão. Numa fria manhã de dezembro, apenas uma semana. Antes do Natal, depois de andar mais de três quilômetros para casa de meu trabalho de meio expediente em uma loja de departamentos, lembrei-me de que tinha que lavar a roupa da semana naquela noite. Eu estava exausta de tanto levantar e selecionar os presentes de Natal dos outros e um tanto amarga, sabendo que eu mal poderia comprar algum presente para meus próprios filhos.

Assim que peguei as crianças na casa da babá, empilhei quatro cestas grandes cheias de roupa suja dentro de um carrinho vermelho e nós quatro nos dirigimos para a lavanderia, a três quadras de distância. Dentro, tivemos que esperar pelas máquinas de lavar e, depois, que as pessoas liberassem as mesas para dobrar as roupas. Selecionar, lavar, secar e dobrar levaram mais tempo do que o normal.

Jeanne perguntou:

- Você trouxe passas ou biscoitos, mamãe?

- Não, vamos jantar assim que chegarmos em casa - respondi asperamente.

O nariz de Michael estava pressionado contra a janela de vidro embaçada.

- Olhe, mamãe! Está nevando! Flocos grandes!

Julia acrescentou:

- A rua está toda molhada. Está nevando no ar, mas não está nevando no chão!

A animação deles apenas me deixou mais irritada. Como se o frio não fosse ruim o suficiente, agora tínhamos que lidar com a neve e a lama. Eu ainda nem abrira a caixa com as botas e luvas.

Finalmente, as roupas limpas e dobradas estavam empilhadas nas cestas, colocadas no carrinho vermelho. Lá fora estava escuro como breu. Já eram seis e meia? Por isso estavam com tanta fome. Normalmente jantávamos às cinco!

As crianças e eu abrimos caminho através do frio vento da noite e deslizamos pela calçada lamacenta. Nossa procissão de três crianças pequenas, uma mãe rabugenta e quatro cestas de roupa limpa em um velho carrinho vermelho movia-se lentamente, enquanto o vento gelado feria nossos rostos.

Atravessamos a tumultuada rua de quatro pistas na faixa de pedestres. Quando chegamos ao meio-fio, as rodas da frente escorregaram no gelo e viraram o carrinho de lado, derrubando todas as roupas em uma poça' de lama preta.

- Oh, não! - gemi. - Pegue as cestas, Jeanne! Julia, segure o carrinho! Volte para a calçada, Michael!

Joguei as roupas sujas e molhadas dentro das cestas.

- Eu odeio isso! - gritei. Lágrimas de raiva jorraram dos meus olhos. Eu odiava ser pobre, não ter um carro nem uma lavadora ou uma secadora. Odiava o tempo. Odiava ser o único dos pais responsável por meus três filhos. E, sem dúvida, realmente odiava toda a porcaria do Natal.

Quando chegamos em casa, eu destranquei a porta, arremessei minha bolsa através da sala e fui para o quarto chorar batendo com os pés no chão.

Solucei alto o suficiente para que as crianças pudessem ouvir. Egoistamente, queria que eles soubessem o quanto eu estava infeliz. A vida não podia ficar pior. A roupa ainda estava suja, estávamos todos cansados e com fome, não havia comida pronta e nenhuma perspectiva de um futuro melhor.

Quando as lágrimas finalmente pararam, sentei-me e fiquei olhando para uma placa de madeira com Jesus entalhado pendurada na parede ao pé da minha cama. Eu tinha aquela placa desde criança e a carregara comigo para todas as casas em que morara. Mostrava Jesus com os braços abertos sobre a Terra, obviamente resolvendo os problemas do mundo.

Fiquei olhando para seu rosto, esperando um milagre.

Olhei, esperei e finalmente disse em voz alta:

- Deus, será que não pode fazer alguma coisa para melhorar a minha vida?

Eu queria desesperadamente que um anjo, em uma nuvem, descesse e me resgatasse.

Mas não apareceu ninguém, a não ser Julia, que espiou pela porta do meu quarto e me disse com a sua melhor vozinha de quatro anos que tinha colocado a mesa para o jantar.

Eu podia ouvir Jeanne, de seis anos de idade, na sala de estar, separando a roupa em duas pilhas, "muito suja, meio limpa, muito suja, meio limpa”.

Michael, de três anos, apareceu no meu quarto e me deu um desenho da primeira neve que ele acabara de fazer.

E sabe o que mais? Naquele exato instante eu vi não um, mas três anjos diante de mim: três pequenos querubins eternamente otimistas e, mais uma vez, me puxando da tristeza e da melancolia para o mundo de "as coisas vão melhorar amanhã, mamãe".

 

O Natal naquele ano foi mágico, pois nos rodeávamos de um tipo especial de amor que se baseia na felicidade de fazermos juntos coisas simples. Uma coisa é certa: ser mãe solteira nunca mais foi tão amedrontado r ou deprimente quanto na noite em que a roupa limpa caiu do carrinho vermelho. Esses três anjos de Natal mantiveram meu espírito vivo; e, mesmo hoje em dia, mais de vinte anos depois, eles continuam a encher meu coração com a presença de Deus.


 

NUNCA DESISTA

JASON MORIN

Histórias Para Aquecer o Coração 130

 

- Você tem o prognóstico de alguém em uma cadeira de rodas, Jason - disse o médico com uma voz que sua profissão reserva para doenças graves. - Pode acabar perdendo sua visão, coordenação, até mesmo o controle da bexiga.

As palavras atingiram a mim e a minha mulher em cheio.

Eu estava com vinte e sete anos e tinha esclerose múltipla (EM).

Queria atracar-me com essa notícia, mas naquele momento só conseguia pensar em terminar aquela consulta. Esse médico não ofereceu esperanças e estava assustando minha mulher e a mim durante o processo. Olhei de esguelha para Tracy, que começou a chorar baixinho. Inclinei-me para reconfortá-Ia, minha alma gêmea. Balbuciamos rapidamente nossas despedidas e partimos.

Eu trabalhava no negócio de construções junto com meu pai, que era o dono da companhia. Levantávamos edifícios do nada e era um trabalho duro e exigente, com longas horas. Mas eu adorava. Andava pelas estreitas vigas de aço desde a tenra Idade de quatorze anos e provavelmente me sentia mais à vontade em um canteiro de obras do que em qualquer outro lugar.

Meu pai me ensinou os macetes.

Eu não aguentava a ideia de deixá-lo na mão agora.

Depois de deixar Tracy em casa, mencionei que tinha que passar no escritório para pegar algo. Porém, na verdade, queria uma visita a um lugar que conhecia há muito tempo.

Sentei-me no banco da igreja, sentindo memórias de infância me inundarem. Meus olhos estavam bem fechados enquanto eu rezava ansiosamente.

- Querido Deus - eu disse. - Não tenho medo por mim, mas sim de desapontar minha esposa e minha família - eles contam tanto comigo. Por favor, ajude-me.

Levantei-me, saí da igreja e esperei que minhas preces fossem atendidas. Se havia um momento para manter a força de minha fé era aquele.

Algumas semanas mais tarde, o jornal local apresentou lima matéria na seção de esportes sobre um home chamado Pat. Era como se um pequeno milagre cruzasse o meu caminho. Pat era professor de Educação Física na universidade estadual e vencera a esclerose múltipla com a ajuda de uma dieta rígida.

Finalmente eu encontrara um aliado, alguém com os meses os sintomas e provavelmente as mesmas dúvidas e medos. Pat e eu nos encontramos e conversamos durante horas sobre suplementos alimentares, vitaminas e exercícios. Mas essas seis palavras ecoavam no meu cérebro:

- Você pode fazê-lo, Jason. Nunca desista.

Comecei uma dieta especial e um programa de exercícios elaborados para pacientes de esclerose múltipla e mantive-me fiel a eles.

Houve muitos dias negros também. Dias em que eu tinha que pedir a Tracy que me ajudasse a terminar de me vestir. Durante tudo isso ela foi espetacular, dando-me o amor e o apoio de que eu precisava. Sentia-me tão abençoado! Gradualmente minha recuperação tomou forma. Depois de algum tempo, as palavras do médico pareciam estar longe.

Finalmente senti-me pronto para estabelecer um objetivo para mim mesmo.

O desafio veio sob a forma de fisiculturismo natural. Eu havia jogado futebol americano no ginásio e na faculdade e certamente não era um estranho à sala de musculação. Comecei a treinar diligentemente com um treinador seis dias por semana.

Ele me passou diferentes séries de exercícios com pesos. Meu objetivo era competir em um campeonato de fisiculturismo.

Alguns meses depois, todas as horas de suor e treinamento me levaram a uma competição que incluía uma sequência de três minutos. Encontrei-me em um auditório cheio de pessoas.

Completei minha sequência - flexionando, alongando, exibindo o corpo que havia lutado tanto para conseguir - e saí.

Enquanto esperava que os juízes calculassem a minha pontuação, vislumbrei minha família e amigos na quarta fileira. Quando os juízes anunciaram que ele. ficara em sexto lugar, senti uma onda de orgulho e alívio. Enquanto fazia uma reverência, dei uma olhada rápida para minha família, que estava toda de pé batendo palmas e gritando o mais que podiam.

Antes de sairmos para celebrar em um restaurante próximo, meu pai se aproximou e colocou as duas mãos diretamente nos meus ombros.

- Lason, estou muito orgulhoso de você. No que me diz respeito, você é número um! - disse.

Olhou-me dentro dos olhos.

- Construímos fundações em nosso ramo, mas deixe-me dizer-lhe: as verdadeiras fundações na vida são a família.

Dei um abraço apertado em meu pai então e vi, por cima de seu ombro, Tracy fazer o sinal de positivo com o polegar e me deslumbrar com um sorriso que eu nunca tinha visto.

Hoje, Tracy e eu somos os pais orgulhosos de duas meninas.

Elas são mais preciosas do que jamais poderíamos imaginar. E todos os dias lembro-me das palavras de meu pai: as verdadeiras fundações da vida são a família.

 

 

Oportunidade: frequentemente ela vem disfarçada

sob a forma de infortúnio ou derrota temporária.

NAPOLEON HILL

 


 

VOANDO LIVRE

Histórias Para Aquecer o Coração 134

 

Uma casa nova, uma piscina nos fundos, dois belos carros na garagem e meu primeiro filho a caminho. Faltavam apenas alguns dias para eu dar à luz o meu primeiro filho quando uma conversa com meu marido abalou o mundo em que eu vivia.

- Eu quero estar presente para o bebê, mas acho que não te amo mais - ele falou.

Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo! Ele se afastara de mim durante a gravidez, mas eu relacionara isso ao seu medo e preocupação em se tornar pai.

Enquanto eu o sondava em busca de explicações, ele me contou que tivera um caso cinco anos antes e desde então não sentia a mesma coisa por mim. Pensando apenas no meu bebê e querendo salvar meu casamento, disse-Ihe que o perdoaria e que queria consertar as coisas entre nós.

Aquela última semana antes do nascimento de meu filho foi um passeio emocional numa montanha-russa. Estava tão animada com o bebê, com tanto medo de estar perdendo meu marido e sentindo-me tão culpada às vezes, pois achava que era culpa do bebê isso tudo estar acontecendo.

John nasceu numa sexta-feira de julho. Era tão lindo e inocente. Não fazia ideia do que estava acontecendo no mundo de sua mãe. Estava com quatro semanas quando descobri o verdadeiro motivo do afastamento de seu pai. Não apenas ele tivera um caso cinco anos antes, mas começara a ter um caso durante minha gravidez, e continuava a ter. Então, quando ele estava com cinco semanas, John e eu abandonamos a casa nova, a piscina e todos os meus sonhos desfeitos para trás. Mudamos para um apartamento do outro lado da cidade.  Não sabia que existia depressão tão profunda quanto a que eu entrei. Nunca havia experimentado nada igual à solidão de passar uma hora depois da outra sozinha com uma criança recém-nascida. Alguns dias aquela responsabilidade toda me esmagava e eu tremia de medo. A família e os amigos estavam lá para ajudar, mas, ainda assim, havia muitas horas cheias de pensamentos a respeito de sonhos desfeitos e desespero. Eu chorava com frequência, mas me assegurei de que John nunca me visse chorando. Estava determinada a não deixar que isso o afetasse. De algum lugar dentro de mim eu sempre encontrava um sorriso para ele.

Os primeiros três meses da vida de John passaram num borrão de lágrimas. Voltei ao trabalho e tentei esconder de todo mundo o que estava acontecendo. Tinha vergonha, ainda que não soubesse por quê.

Cheguei ao fundo do poço num domingo de manhã, quando John estava com quatro meses. Acabara de ter outra discussão emocional com meu marido e ele saíra como um furacão do meu apartamento. John estava dormindo em seu berço e me peguei sentada no chão do banheiro, encolhida como uma bola, balançando para frente e para trás. Ouvi-me dizendo em voz alta: "Eu não quero mais viver." Depois de dizer isso, o silêncio foi arrebatador.

Acredito que Deus esteve comigo naquele dia. Após dizer aquilo, fiquei sentada em silêncio, deixando as lágrimas correrem pelo meu rosto. Não sei quanto tempo se passou, mas de algum lugar de dentro de mim surgiu uma força que não havia sentido antes. Decidi naquele tomar o controle da minha vida. Não iria mais dar ao meu marido o poder de afetar minha vida de uma forma tão negativa. Percebi que, ao prestar tanta atenção em suas fraquezas, estava permitindo que aquelas fraquezas arrumassem a minha vida.

Naquele mesmo dia, arrumei uma mala para mim e John e fui passar o fim de semana na casa do meu irmão. Era a primeira viagem que fazia sozinha com John e me senti tão forte e independente! Lembro-me de que durante a viagem de duas horas eu ri, conversei e cantei para  todo o caminho.

Foi durante esta viagem que percebi como meu filho fora meu salvador durante todos aqueles meses. Saber que ele estava lá todos os dias e que precisava de mim me mantivera viva e me dera uma razão para me levantar todas as manhãs. Que bênção ele era na minha vida!

Daquele dia em diante, decidi concentrar-me na confiança e na força que me fizeram levantar do chão do banheiro. Ter mudado minha atenção para pensamentos tão positivos transformou a minha vida. Senti vontade de rir novamente e de estar na companhia dos outros pela primeira vez em meses.

Iniciei o processo de descobrir o indivíduo que mantive escondido dentro de mim durante tanto tempo - um processo que ainda estou apreciando.

Comecei a fazer terapia logo depois de John e eu termos nos mudado da casa e continuei com ela durante vários meses depois do dia em que cheguei ao fundo do poço. Quando não senti mais necessidade de ter seu apoio e aconselhamento, lembrei-me da última pergunta que minha terapeuta me fez antes que eu saísse de seu consultório naquele dia:

- O que você aprendeu? - ela perguntou.

Não hesitei em responder:

- Aprendi que minha felicidade tem que vir de dentro. É esta lição de que me lembro todos os dias e que desejo partilhar com os outros. Cometi o erro, na minha vida, de basear minha identidade em meu casamento e em todas as coisas materiais que cercavam a relação. Aprendi que sou responsável por minha própria vida e felicidade. Quando centralizo minha vida em outra pessoa e tento construir minha vida e minha felicidade em volta daquela pessoa, não estou vivendo de verdade. Para viver de verdade preciso deixar que o espírito dentro de mim seja livre e regozije-se em sua singularidade. É neste estado de ser que o amor de outra pessoa se torna uma alegria e não algo que temos medo de perder. Que o seu espírito seja livre e voe alto. LAURIE WALDRON

 

Não é fácil encontrar a felicidade em nós mesmos e é impossível encontrá-la em outro lugar.

AGNES REPPLIER

 

 


 

O que você quer ser?

REV. TERI JOHNSON

Histórias Para Aquecer o Coração 148

 

Tive um daqueles momentos felizes e inesperados há algumas semanas. Estava no quarto trocando a fralda de um dos bebês, quando nossa filha de cinco anos, Alyssa, entrou e pulou na cama ao meu lado.

- Mamãe, o que você quer ser quando crescer? - perguntou.

Achei que ela estava fazendo algum jogo imaginário e, para entrar na brincadeira, respondi dizendo:

- Huum. Acho que gostaria de ser mãe quando crescer.

- Você não pode ser isso porque você já é mãe. O que você quer ser quando crescer?

- Está bem, talvez eu seja pastor de igreja quando crescer respondi a segunda vez.

- Mamãe, não, você já é isso!

- Desculpe-me, querida - eu disse. - Mas então não estou entendendo o que eu devo dizer.

- Mamãe, só responda o que você quer ser quando crescer.

Você pode ser qualquer coisa que quiser!

A esta altura eu estava tão enternecida com a experiência que não pude responder imediatamente. Alyssa desistiu e saiu do quarto.

Esta experiência - esta minúscula experiência de cinco minutos - tocou fundo dentro de mim. Fiquei emocionada porque, aos olhos jovens de minha filha, eu ainda podia ser qualquer coisa que quisesse ser! Minha idade, minha carreira atual, meus cinco filhos, meu marido, meu diploma, meu mestrado - nada disso tinha importância. Aos seus olhos jovens eu ainda podia sonhar e tentar alcançar as estrelas. Aos seus olhos jovens meu futuro não havia acabado. Aos seus olhos jovens eu ainda podia ser astronauta, pianista ou até mesmo cantora de ópera, talvez. Sob seu olhar jovem eu ainda tinha que crescer mais e tinha muito "ser" sobrando em minha vida.

A verdadeira beleza daquele encontro com minha filha foi quando eu percebi que, com toda sua honestidade e pureza, ela teria feito a mesma pergunta a seus avós ou a seus bisavós.

Já foi escrito: ''A mulher velha que irei me tornar será bastante diferente da mulher que sou agora. Outro eu está começando..." Então, o que você quer ser quando crescer?

 

 

A imaginação é a maior pipa que se pode empinar.

LAUREN BACALL

 


 

ENTÃO O QUE VOCÊ PLANTA?

PHILIP CHARD

Histórias Para Aquecer o Coração 150

 

Sandy mora em um apartamento tão pequeno que, quando chega do supermercado, tem que decidir o que pôr para fora a fim de abrir lugar para suas compras. Ela luta dia a dia para alimentar e vestir a si mesma e a sua filha de quatro anos com o dinheiro de trabalhos literários autônomos e de bicos.

Seu ex-marido desapareceu há muito por alguma autoestrada desconhecida, provavelmente para nunca mais reaparecer. Dia sim, dia não, seu carro decide que precisa de uma folga e recusa-se a andar. Isto significa ir de bicicleta (se o tempo permitir), andar ou pegar uma carona com amigos.

As coisas que a maioria dos norte-americanos considera essenciais para a sobrevivência - televisão, forno de micro-ondas, aparelho de som e tênis caros - estão lá embaixo na lista de "talvez algum dia” de Sandy.

Comida nutritiva, roupas quentes, um apartamento acolhedor, os pagamentos do empréstimo estudantil, livros para sua filha, consultas médicas absolutamente necessárias e uma ocasional matinê de cinema consomem todo o dinheiro que há.

Sandy bateu em mais portas do que pode se lembrar, tentando conseguir um emprego decente, mas sempre existe algo que não se encaixa perfeitamente - experiência insuficiente ou do tipo errado, ou horários que tornam impossível tomar conta de uma criança.

A história de Sandy não é incomum. Muitos pais e mães solteiras e pessoas idosas lutam com nossa estrutura econômica, caindo naquele espaço ambíguo que existe entre ser realmente autossuficiente e ser suficientemente pobre para receber ajuda do governo.

O que torna Sandy incomum é seu ponto de vista.

- Não possuo muito, no sentido de ter coisas ou do sonho americano - contou-me com um sorriso Sincero.

- Isso a incomoda? - perguntei.

- Às vezes. Quando vejo outra menina com uma idade próxima à da minha filha que tem roupas bonitas e brinquedos bons, ou que está andando num carro chique ou morando numa bela casa, me sinto mal. Todo mundo quer ser bem-sucedido para seus filhos - respondeu.

- Mas você não se amargura?

- Ficar amargurada com o quê? Não estamos passando fome ou frio e tenho o que realmente importa na vida - replicou.

- E o que é isso? - indaguei.

- Do meu ponto de vista, não importa quantas coisas você compre, não interessa quanto dinheiro ganhe, você só fica com três coisas na vida - falou.

- O que você quer dizer com "fica'?

- Quero dizer que ninguém pode tomar isso de você.

- E que três coisas são essas? - perguntei.

- Primeiro, as suas experiências. Segundo, seus amigos verdadeiros. Terceiro, aquilo que você planta dentro de si mesmo - ela respondeu sem hesitar.

Para Sandy, as "experiências" não estão em grandes acontecimentos. São momentos considerados comuns com sua filha, passeios no bosque, tirar um cochilo debaixo da sombra de uma árvore, ouvir música, tomar um banho de banheira ou assar pão.

Sua definição de amigos é mais extensa.

- Os amigos verdadeiros são aqueles que nunca saem do coração, mesmo que saiam da sua vida durante algum tempo.

Quanto ao que plantamos dentro de nós, Sandy disse:

- Isso cabe a cada um de nós, não é? Não planto amargura nem arrependimento. Poderia, se quisesse, mas prefiro não fazê-lo.

- Então, o que é que você planta? - perguntei.

Sandy olhou carinhosamente para a filha e então novamente para mim. Apontou para seus próprios olhos, que estavam iluminados de ternura, gratidão e um brilho de felicidade.

- Eu planto isso.

 

 

Nós somos ricos pelo que temos, mas sim pelo que não precisamos ter. EMMANUEL KANT

 


 

NENHUM ATO DE CARIDADE É PEQUENO

DONNA WICK

Histórias Para Aquecer o Coração 153

 

O dia era quinta-feira de Ação de Graças, nosso "dia designado" de trabalho, uma tradição semanal que eu e minhas duas filhas pequenas começamos há alguns anos. Quinta-feira é nosso dia de sair no mundo e fazer uma contribuição positiva. Nesta quinta-feira em especial não tínhamos ideia do que iríamos fazer, mas sabíamos que surgiria alguma coisa.

Dirigindo por uma estrada movimentada de Houston, rezando por um sinal na busca para realizarmos nosso ato de caridade semanal, o meio-dia adequadamente provocou pontadas de fome em minhas duas filhinhas. Elas não perderam tempo em me dizer, cantando "McDonald's, McDonald's, McDonald's" enquanto eu dirigia. Cedi e comecei a procurar seriamente pelo McDonald's mais próximo. De repente percebi que quase todos os cruzamentos pelos quais havíamos passado estavam ocupados por um pedinte. E então me dei conta! Se as duas pequenas estavam com fome, então todos aqueles pedintes também deviam estar. Perfeito! Nosso ato de caridade havia surgido. Iríamos comprar comida para os pedintes.

Após encontrar um McDonald's e pedir dois lanches para minhas filhas, pedi mais quinze almoços extras e partimos para entregá-Ios. Foi animador. Parávamos perto de um pedinte, fazíamos uma contribuição e dizíamos a ele ou a ela que esperávamos que as coisas melhorassem. Então dizíamos:

- Por falar nisso, aqui está o almoço.

E então partíamos zunindo para o próximo cruzamento.

Foi a melhor maneira de dar. Não havia tempo suficiente para nos apresentarmos ou explicarmos o que estávamos fazendo, nem havia tempo para que eles pudessem dizer nada para nós. O ato de caridade foi anônimo e fortaleceu cada um de nós. Adoramos o que vimos pelo retrovisor: uma pessoa surpresa e encantada, segurando a sacola com o almoço e olhando para nós enquanto nos afastávamos. Foi maravilhoso!

Chegamos ao fim do nosso "itinerário" e havia uma mulher pequena pedindo um trocado. Entregamos nossa última sacola com o almoço e imediatamente fizemos o contorno para irmos para casa.

Infelizmente o sinal fechou e paramos no mesmo cruzamento onde estava a mulher. Fiquei envergonhada e não sabia como me comportar. Não queria que se sentisse obrigada a dizer ou fazer nada.

Ela se aproximou do carro. Então baixei o vidro quando começou a falar.

- Ninguém jamais fez nada parecido com isso para mim disse, espantada. Respondi:

- Bem, fico feliz que tenhamos sido as primeiras.

Sentindo-me constrangida e querendo mudar de assunto, perguntei:

- Então, quando você acha que vai comer seu almoço?

Ela apenas olhou para mim com seus grandes e cansados olhos marrons e disse:

- Oh, querida, não vou comer este almoço.

Fiquei confusa, mas, antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ela continuou:

- Você sabe, também tenho uma filhinha em casa e ela adora McDonald's, mas nunca posso comprar nada para ela porque não tenho dinheiro. Mas sabe o que mais? Esta noite ela vai comer no McDonald's!

Não seí se as crianças perceberam as lágrimas nos meus olhos. Tantas vezes eu questionara se nossos atos de caridade eram pequenos ou insignificantes demais para realmente fazer alguma diferença. Ainda assim, naquele momento, reconheci a verdade nas palavras de Madre Teresa:

- Não podemos fazer grandes coisas, apenas coisas pequenas com multo amor.

 

 

Se eu puder impedir que um coração se parta,

"Não terei vivido em vão;

Se eu puder aliviar o sofrimento de uma vida,

Ou diminuir a dor,

Ou ajudar um frágil rouxinol

A voltar novamente para seu ninho,

Não terei vivido em vão.

EMILY DICKINSON

 


 

A OUTRA MÃE

DIANE PAYNE

Histórias Para Aquecer o Coração 156

 

- Ei, Sra. Prins!

Grito enquanto aceno na direção da janela de sua cozinha.

Em cima do trepa-trepa, estico-me através da cerca que limita a escola em direção à sua casa, acenando freneticamente, mas ela parece não perceber. Seu marido, porém, percebe. Ele fecha as cortinas da cozinha.

A Sra. Prins é minha professora da terceira série, ainda que às vezes eu a chame acidentalmente de "mãe". Sei que ela não é minha mãe, mas não posso deixar de ter esperanças que ela me adote se minha mãe morrer de câncer. A Sra. Prins não sabe nada a respeito dessa esperança, mas sabe que eu gosto dela o suficiente para brigar depois da aula com os garotos que caçoam de sua boca virada para cima. Metade de sua boca está sempre sorrindo porque ela fez uma operação no nervo e as crianças sentam-se em suas cadeiras curvando metade da boca, caçoando da Sra. Prins pelas costas.

Enquanto me balanço no trepa-trepa, não consigo entender por que o Sr. Prins fechou as cortinas na minha cara. Isso faz tanto sentido quanto os meninos caçoarem da Sra. Prins.

Talvez ele não tenha me visto balançando nas barras, acenando há um metro e meio de distância de sua janela. Através das cortinas de sua sala de estar posso ver a Sra. Prins sentada no sofá lendo o jornal. Começo a acenar e a gritar olá novamente. O Sr. Prins se aproxima e fecha essas cortinas. Agora eu sei que ele me acha inconveniente.

Com todas as cortinas hermeticamente fechadas, permaneço no trepa-trepa do playground vazio, temendo ir para casa, desejando que o Sr. Prins não me considerasse uma peste. Se ele não 'estivesse lá, a Sra. Prins me convidaria para entrar. Só porque não há mais aulas naquele dia ela não pode começar a me considerar uma peste de repente.

No primeiro dia de aula, a Sra. Prins me perguntou:

- Você não é a garota que costumava ter aquele lindo cabelo longo?

Eu ainda não a conhecia e fiquei preocupada com o motivo de ela ter me notado. Antes das aulas começarem eu havia cortado meu cabelo para me assegurar de que não passaria mais um ano com uma professora cruel puxando meu cabelo cada vez que eu fizesse algo errado. Agora todo o meu cabelo está dentro de um saco de papel na gaveta da cômoda de minha mãe, a salvo de professoras cruéis. Parada no trepa-trepa com o cabelo curto, imagino como seria ter a Sra. Prins penteando meu cabelo longo enquanto sento-me a seu lado no sofá. Mas não há mais cabelo e as cortinas estão fechadas.

À medida que o céu escurece, a Sra. Prins entra em seu jardim e me oferece alguns biscoitos de manteiga de amendoim e um copo de leite. Ao invés de dar a volta no playground, pulo a cerca, esperando impressioná-Ia com minha força, mas ela parece preocupar-se quando rasgo minha camisa ao cair do outro lado da cerca. Dessa vez não há sangue, só uma camisa rasgada, não um corpo machucado.

- Você não tem que ir para casa depois da escola? - ela pergunta.

- Claro, mas não imediatamente.

Sentamo-nos nas espreguiçadeiras comendo nossos biscoitos.

Agora que estou finalmente em seu jardim, não sei o que dizer.

- A senhora acabou de fazer esses biscoitos?

- Depois da aula.

- São os melhores que já comi - eu disse, certa de que ela os fizera especialmente para mim.

Quando termino os biscoitos, sei que é hora de voltar andando para casa através da colina de cerca de oitocentos metros. Agradeço à Sra. Prins pelos biscoitos, deixando sua casa silenciosa para trás, cortando caminho lentamente através das aléias e olhando por cima das cercas para os cachorros, imaginando se meu pai estará em casa para o jantar ou em um bar, bebendo. Sinto-me culpada por não ter ido imediatamente para casa para preparar o jantar, fazendo mamãe cozinhar quando sei que ela não está se sentindo bem. Imagino o que a Sra. Prins está fazendo para o jantar e resolvo que será iscas de peixe congeladas e uma caixa de macarrão com queijo. É isso o que nós vamos comer.

À noite, escrevo uma história a respeito de Pepper, nosso cachorro. A Sra. Prins quer que a turma escreva histórias sobre pessoas que são importantes para nós, mas parece que todos os humanos importantes para mim dariam uma história triste.

Pepper é diferente. Está preso em casa, nem morrendo nem bebendo, apenas esperando alguém para brincar com ele.

Alguns dias depois de entregar minha história, a Sra. Prins me pergunta se pode falar comigo após a aula. Concordo e então passo o dia inteiro preocupando-me com o que devo ter escrito errado. Três vezes vou ao banheiro chorar, certa de que, de alguma forma, eu feri seus sentimentos. Porém, depois da aula, a Sra. Prins tira minha história de dentro da gaveta de sua escrivaninha e pergunta:

- Posso ficar com isso?

- Por quê?

- Porque quero guardá-Ia em uma gaveta especial em casa com todas as minhas histórias favoritas.

Ela parece estar prestes a chorar e quero pedir-lhe a história de volta, apenas para ler o que eu disse que poderia fazê-Ia se sentir assim. Mas não posso falar sem chorar. Então ela me abraça e meus olhos se enchem de lágrimas.

Voltando para casa, sei que mesmo que eu nunca durma em sua casa, minha história dorme e isso é suficiente para fazer com que a Sra. Prins pareça ser minha mãe. Esta será minha mãe com metade do rosto sorrindo enquanto seus olhos se enchem de lágrimas. A mãe para quem posso olhar enquanto subo no trepa-trepa. E, mais importante, a mãe que entende minhas histórias.


 

AS MARCAS DA VIDA

DIANA GOLDEN

Histórias Para Aquecer o Coração 161

 

Minhas companheiras na Equipe Americana de Esqui para Deficientes costumavam brincar comigo a respeito do tamanho dos meus seios, dizendo que minha grande deficiência não era a falta de uma perna, mas a falta de material para encher um decote. Mal sabiam o quanto isso se tornaria verdade. Neste último ano, descobri pela segunda vez na vida que tenho câncer, desta vez em ambos os seios. Fiz uma mastectomia bilateral. Quando ouvi que precisava da cirurgia, não pensei que seria um grande problema. Cheguei até a dizer, em tom de brincadeira, a minhas amigas: "Como amiga do peito, vou lhe manter a par da situação." Afinal de contas, eu havia perdido a perna em meu primeiro embate contra o câncer, quando tinha 12 anos de idade, e então fora em frente e me tornara campeã mundial de corrida de esquis. Todos nós na Equipe de Esqui para Deficientes não tínhamos uma ou outra parte do corpo. Vi que um homem em uma cadeira de rodas pode ser totalmente sexy.

Que uma mulher sem mãos pode não parecer estar perdendo nada. O conjunto não tem nada a ver com as partes que estão faltando e tudo a ver com o espírito. Ainda assim, mesmo que eu soubesse disso, fiquei surpresa ao descobrir como era difícil me adaptar às minhas novas cicatrizes.

Quando voltei à consciência, após a cirurgia, comece! a chorar e a hiperventilar. De repente, descobri que não queria enfrentar a perda de mais partes do meu corpo. Não queria fazer quimioterapia novamente. Não queria ser corajosa e forte e manter um perpétuo rosto sorridente. Não queria acordar nunca mais. Minha respiração ficou tão alterada que o anestesista me deu oxigênio e então, felizmente, colocou-me para dormir.

Quando eu estava correndo a fim de me preparar para minha competição de esqui - meu coração, pulmões e músculos da perna todos pegando fogo -, com frequência era atingida pela' sensação de que não havia sobrado recursos dentro de mim para continuar. Então eu pensava nas competições que viriam - o sonho de forçar o meu potencial até onde pudesse ir, a satisfação de ultrapassar minhas próprias barreiras - e isso me fazia terminar a corrida. A mesma tenacidade que me servia nas corridas de esqui me ajudou a sobreviver em um segundo combate contra o câncer.

Depois da mastectomia, eu sabia que a única maneira de continuar seria começar a me exercitar novamente, então dirigi-me para a piscina pública. No chuveiro comunitário, peguei-me observando os seios de outras mulheres pela primeira vez em minha vida. Seios grandes e seios pequenos, flácidos ou empinados. De repente, e pela primeira vez após todos esses anos sem uma perna, senti-me extremamente autoconsciente. Não conseguia me despir.

Resolvi que era hora de confrontar a mim mesma. Naquela noite, em casa, tirei toda a roupa e olhei longamente para a mulher no espelho. Ela era andrógina. Peguei o meu rosto sem maquiagem, era o belo rosto de um menino. Os músculos do meu ombro, braços e mãos eram poderosos e musculosos por causa das muletas. Eu não tinha seios. Ao invés disso, havia duas cicatrizes proeminentes em meu peito. Possuía uma barriga chata e sexy, uma bunda redonda e quadris bem desenvolvidos, por causa de anos de corridas de esqui. Minha perna direita terminava em outra longa cicatriz logo abaixo do joelho.

Descobri que gostava de meu corpo andrógino. Combinava com a minha personalidade: meu lado masculino agressivo que adora colocar um capacete, braçadeiras e protetor de queixo para lutar no slalom e meu lado feminino gentil que deseja ter filhos algum dia e quer colocar um lindo vestido de seda, sair para jantar com um amante e então deitar-se e ser lentamente despida por ele.

Descobri que as cicatrizes no meu peito e na minha perna eram um grande problema. Eram as marcas da minha vida.

Todos nós somos marcados pela vida. Apenas algumas dessas cicatrizes aparecem mais do que outras. Nossas cicatrizes têm importância. Elas nos dizem que vivemos, que não nos escondemos da vida. Quando vemos nossas cicatrizes claramente, podemos encontrar, como eu fiz naquele dia, nossa própria e única beleza. Na vez seguinte em que fui a piscina, tomei banho nua.

 

DIGA APENAS SIM

FRAN CAPO

Histórias Para Aquecer o Coração 165

 

Sou uma comediante de palco. Estava trabalhando em uma estação de rádio em Nova York, fazendo o boletim meteorológico como uma personagem chamada June East (irmã há muito desaparecida de Mae West). Certo dia, uma mulher do The Daily News telefonou e disse que queria fazer uma matéria comigo.

Quando terminou a entrevista para a matéria, ela me perguntou:

- Quais são os seus planos daqui para a frente?

Bem, na época eu não tinha plano nenhum. Então perguntei o que ela queria dizer, tentando arrumar tempo. Ela disse que realmente queria acompanhar a minha carreira. Ali estava uma mulher do The Daily News dizendo que estava interessada em mim! Então achei que seria melhor dizer qualquer coisa. O que saiu foi: "Estou pensando em quebrar o recorde do Guiness Book de mulher de fala mais rápida do mundo."

O artigo do jornal saiu no dia seguinte e o redator incluíra minhas últimas declarações a respeito de tentar quebrar o recorde mundial de mulher de fala mais rápida do mundo. Por volta das cinco horas daquela tarde eu recebi um telefonema do show de televisão "Larry King Live" chamando-me para participar. Eles queriam que eu tentasse bater o recorde e disseram que me pegariam às oito porque queriam que eu fizesse aquilo naquela noite!

Agora, eu nunca ouvira falar de "Larry King Live" e quando ouvi a mulher dizer que eles eram do canal Manhattan, pensei:

"Huum, isso é um canal pornô, certo?" Mas ela me assegurou pacientemente que o programa era em cadeia nacional e que a oferta era uma oportunidade única - e seria naquela noite ou nunca.

Fiquei olhando para o telefone. Eu tinha um show em Nova Jersey aquela noite, mas não foi difícil descobrir qual dos dois compromissos eu preferia cumprir. Tinha que encontrar um substituto para meu show às sete horas da noite e comecei a telefonar para todos os comediantes que conhecia. Pela graça de Deus, finalmente encontrei um que me substituiria e, cinco minutos antes do prazo final, disse à mulher que poderia participar do "Larry King Live".

Então sentei-me para tentar descobrir o que, diabos, eu iria fazer no show. Telefonei para o Guiness para descobrir como quebrar um recorde de fala rápida. Disseram que eu teria que recitar algo de Shakespeare ou da Bíblia.

De repente comecei a dizer o salmo dezenove, uma oração de proteção que minha mãe havia me ensinado. Shakespeare e eu nunca nos déramos bem, então achei que a Bíblia era a única esperança. Comecei a praticar e praticar, de novo e de novo.

Estava nervosa e animada ao mesmo tempo.

Às oito horas da noite, a limusine veio me pegar. Pratiquei durante todo o caminho e, quando cheguei ao estúdio em Nova York, estava com a língua presa. Perguntei à responsável:

- E se eu não quebrar o recorde?

- Larry não está preocupado se você vai ou não quebrar o recorde - ela disse. - Ele só quer que você tente primeiro em seu programa.

Então me perguntei: "Qual é a pior coisa que pode acontecer? Fazer papel de tola em cadeia nacional! Uma coisinha de nada", disse para mim mesma, achando que poderia sobreviver a isso. "E se eu quebrasse o recorde?" Então decidi apenas dar o melhor que podia, e assim fiz.

Quebrei o recorde, tornando-me a mulher de fala mais rápida do mundo por falar 585 palavras em um minuto diante de uma audiência em cadeia nacional de televisão. (Eu o quebrei novamente dois anos depois, com 603 palavras em um minuto.) Minha carreira decolou.

As pessoas frequentemente me perguntam como fiz aquilo.

Ou como consegui fazer as muitas outras coisas que fiz, como dar uma palestra pela primeira vez, ou subir num palco pela primeira vez, ou pular de bungee-jump pela primeira vez. Digo a elas que vivo minha vida seguindo esta simples filosofia: sempre ,digo sim primeiro. Então pergunto: "E agora, como é que eu vou fazer para conseguir isso?"

Depois me pergunto: "Qual é a pior coisa que pode acontecer se eu não conseguir?" A resposta é: "Simplesmente não consegui! E qual é a melhor coisa que pode acontecer?

Conseguir!" O que mais a vida pode lhe pedir? Seja você mesmo e divirta-se!

 

 

Ou a vida é uma aventura ousada, ou não é nada.

HELEN KELLER

 


 

OBSTÁCULOS ILUSÓRIOS

HEIDI MAROTZ

Histórias Para Aquecer o Coração 169

 

Pernas. Nós corremos, esquiamos, escalamos montanhas e nadamos sem pensar muito a seu respeito.

Meu marido Scott usara suas pernas para conseguir bolsas de estudo através de campeonatos de esqui na faculdade e para chegar ao topo do Grand Tetons, em Jackson Hole, Wyoming.

Então, sem nenhum aviso, durante um mês de abril atipicamente quente, descobriu-se um tumor na espinha dorsal de Scott. Disseram-nos que a morte, ou a paralisia, poderia ser o resultado final.

Nossos filhos - Chase, Jillian e Hayden - variam em idade de sete a dois anos. Eles não entenderam realmente todas as "coisas ruins" que estavam acontecendo - mas foram os maiores torcedores e os melhores professores quando Scott descobriu que continuaria vivo, mas que estava paralisado do tórax para baixo. Os adultos, às vezes, ficam presos à imagem de como as coisas eram. Eu pensava sobre os acampamentos que nunca faríamos, as montanhas que Scott nunca escalaria e a neve recém-caída que ele nunca esquiaria com seus filhos.

Chase, Jillian e Hayden estavam muito ocupados com as coisas da vida para ficarem atolados no que seu pai não podia fazer. Ficavam de pé nas rodas da cadeira e gritavam de prazer enquanto ele apostava corridas em calmos corredores de hospital.

Os médicos disseram para preparar Scott para uma vida na cadeira de rodas, pois, se ele pensasse que iria andar de novo - e não poderia -, ficaria deprimido. As crianças não deram ouvidos aos médicos. Insistiam para que seu pai "tentasse ficar de pé". Eu ficava com medo de que Scott caísse. As crianças riam com ele quando ele caía e rolava na grama. Eu gritei, mas eles insistiram para que ele "tentasse novamente".

No meio de todas essas mudanças em nossas vidas, entrei para um curso de Desenho numa faculdade local. Durante uma semana, o instrutor nos disse que não podíamos desenhar coisas, mas apenas o espaço entre as coisas. Um dia, enquanto eu estava sentada debaixo de um enorme pinheiro desenhando o espaço entre os galhos, comecei a ver o mundo como Scott e as crianças o viam. Não vi os galhos como obstáculos que podiam impedir uma cadeira de rodas de atravessar o gramado, vi todos os espaços que permitiam a passagem de cadeiras de rodas, pessoas e até mesmo animais pequenos. Quando eu não estava me concentrando nos galhos - ou nos obstáculos da vida - adquiria uma nova visão de todos os espaços. Estranhamente, quer você desenhe os espaços ou os galhos, o desenho parece ser basicamente o mesmo. É a forma como você o vê que é diferente.

Quando passei a olhar os "espaços" junto com minha família, um novo mundo se abriu. Não era o mesmo - às vezes ficávamos frustrados -, mas era sempre compensador, pois estávamos trabalhando juntos. Conforme experimentávamos todas essas novas aventuras, Scott começou a ficar de pé e a andar com a ajuda de uma bengala. Ele ainda não sente nada na parte inferior de seu corpo e nas pernas, não pode correr ou andar de bicicleta, mas desfruta de muitas experiências novas.

Aprendemos que você não precisa sentir as pernas para empinar uma pipa, jogar um jogo de tabuleiro, plantar uma árvore, boiar em um lago na montanha ou frequentar aulas. As pernas não são necessárias para abraçar, botar curativo em um corte ou acalmar alguém depois de um pesadelo.

Algumas pessoas vêem barreiras na estrada. Scott nos ensinou que barreiras são apenas desvios. Algumas pessoas vêem galhos: Scott e as crianças vêem espaços abertos, grandes o suficiente para que todo o amor e esperança que cabem no coração possam passar.

 

 

Nós apreciamos o calor porque já sentimos frio. Apreciamos a luz porque já estivemos no escuro. Como prova do que digo, podemos experimentar a felicidade porque já conhecemos a tristeza.

DAVID L. WEATHERFORD

 

OUSE IMAGINAR

MARILYN KING

Histórias Para Aquecer o Coração 172

 

Quando as pessoas descobrem que eu competi nas Olimpíadas, presumem que sempre fui atleta. Mas não é verdade. Eu não era a mais forte ou a mais rápida e não fui a mais rápida a aprender.

Para mim, tornar-me uma esportista olímpica não foi desenvolver um dom de habilidade atlética natural, mas foi, literal mente, um ato de vontade.

Nas Olimpíadas de 1972, em Munique, eu era um membro da equipe americana de pentatlo, mas a tragédia dos atletas israelenses e um ferimento em meu tornozelo, combinados, tornaram a experiência profundamente desencorajadora. Não desisti. Ao invés, continuei treinando, acabando por me qualificar para ir com a equipe americana para os jogos de 1976, em Montreal. A experiência foi muito mais prazerosa e fiquei emocionada por ficar em décimo terceiro lugar. Mas, ainda assim, sentia que podia fazer melhor.

Arranjei para tirar uma licença do meu emprego como professora de Educação Física na universidade um ano antes das Olimpíadas de 1980. Achei que doze meses de treinamento vinte e quatro horas por dia me dariam a vantagem que eu precisava para trazer uma medalha para casa desta vez. No verão de 1979 comecei a treinar intensivamente para as eliminatórias das Olimpíadas a serem realizadas em junho de 1980. Senti a satisfação que surge quando a mente está focalizada e sentimos um progresso contínuo em direção a um objetivo que nos é caro.

Mas então, em novembro, o que parecia ser um obstáculo intransponível aconteceu. Sofri um acidente de carro e machuquei a região lombar. Os médicos não tinham certeza do que estava errado, mas tive que parar de treinar porque não podia me mover sem sentir dores excruciantes. Parecia óbvio demais que eu teria que abrir mão do meu sonho de ir para as Olimpíadas se não pudesse continuar treinando. Todo mundo ficou com pena de mim. Menos eu.

Foi estranho, mas nunca acreditei que este contratempo iria me deter. Confiei que os médicos e fisioterapeutas resolveriam logo o problema e que eu voltaria ao treinamento. Agarrava-me à afirmação: estou ficando melhor a cada dia e ficarei entre os três primeiros nas eliminatórias para as Olimpíadas. Isso passava constantemente pela minha cabeça.

Mas meu progresso era lento e os médicos não conseguiam concordar quanto ao tratamento. O tempo estava passando e eu continuava sentindo dores, incapaz de me mover. Restando apenas alguns meses, eu sabia que teria que fazer alguma coisa ou nunca conseguiria competir. Então comecei a treinar da única maneira que podia - em minha cabeça.

Um pentatlo consiste de cinco eventos de corrida e campo: 100 metros com barreira, arremesso de peso, salto com vara, salto em distância e corrida dos 200 metros. Consegui filmes dos detentores dos recordes mundiais em todos os meus cinco eventos.

Sentada em uma cadeira na cozinha, assisti aos filmes projetados na parede de minha cozinha vezes sem conta. Eu os assistia em câmara lenta ou quadro a quadro. Quando ficava entediada, assistia-os de trás para frente, só para me divertir. Assisti-os durante centenas de horas, estudando e absorvendo. Em outros momentos, deitava-me no sofá e visualizava a experiência de competir em detalhes minuciosos. Sei que algumas pessoas pensaram que eu estava maluca, mas eu ainda não estava pronta para desistir. Treinei o máximo que pude - sem jamais mover um músculo.

Finalmente os médicos diagnosticaram meu problema como hérnia de disco. Agora eu sabia por que doía tanto quando me movia, mas ainda não podia treinar. Mais tarde, já podendo andar um pouco, fui até a pista de corridas e fiz com que montassem todos os meus cinco eventos. Mesmo não podendo praticar, ficava de pé na pista e imaginava na minha cabeça a série completa de treinamento que eu teria feito naquele dia se fosse capaz. Durante meses, imaginei-me repetidamente competindo e me qualificando nas eliminatórias.

Mas será que visualizar era o suficiente? Seria realmente verdade que eu poderia me qualificar entre os três primeiros nas eliminatórias para as Olimpíadas? Acreditei nisso de todo o coração.

Quando as eliminatórias realmente começaram, eu havia melhorado apenas o suficiente para competir. Tomando muito cuidado para manter quentes meus músculos e tendões, atravessei meus cinco eventos como se estivesse em um sonho.

Depois, enquanto andava pelo campo, ouvi uma voz no alto-falante anunciar o meu nome.

Fiquei sem ar, mesmo tendo imaginado a cena mil vezes em meu pensamento. Senti uma onda de pura felicidade enquanto o locutor dizia:

- Segundo lugar, pentatlo olímpico de 1980: Marilyn King.

 

 

Os médicos me disseram que eu jamais andaria novamente,

mas minha mãe disse que eu andaria, então acreditei na minha mãe.

WILMA RUDOLPH, "a mulher mais rápida do mundo", três medalhas de ouro

nas Olimpíadas de 1960.

 

 


 

VOVÓ RUBY

LYNN ROBERTSON

Histórias Para Aquecer o Coração 176

 

Sendo mãe de dois meninos muito ativos, de um e sete anos de idade, às vezes me preocupo que eles transformem minha casa cuidadosamente decorada em um canteiro de demolição. Em meio a sua inocência e às suas brincadeiras, de vez em quando derrubam meu abajur favorito ou desarrumam meus arranjos bem planejados. Nesses momentos, quando nada parece sagrado, lembro-me da lição que aprendi com minha sábia sogra, Ruby.

Ruby é mãe de seis e avó de treze. É a encarnação da gentileza, da paciência e do amor.

Num Natal, todos os filhos e netos estavam reunidos, como de costume, na casa de Ruby. Apenas um mês antes Ruby havia comprado um lindo carpete branco, depois de viver com o mesmo carpete durante vinte e cinco anos. Ficara felicíssima com o jeito novo que ele dava à casa.

Meu cunhado, Arnie, tinha acabado de distribuir seus presentes entre todas as sobrinhas e sobrinhos - mel natural premiado de seu apiário. Eles estavam superanimados. Mas quis o destino que a pequena Sheena de oito anos de idade derramasse seu pote de mel no carpete novo da vovó fazendo uma trilha escada abaixo por toda a casa.

Chorando, Sheena correu para a cozinha e para os braços de Ruby.

- Vovó, eu derramei todo o meu mel em cima do seu carpete novo.

Vovó Ruby ajoelhou-se, olhou carinhosamente nos olhos chorosos de Sheena e disse:

- Não se preocupe, querida, podemos lhe arrumar mais mel.


 

A OUTRA MULHER

DAVID FARREL

Histórias Para Aquecer o Coração 178

 

Após vinte e um anos de casamento, descobri uma nova maneira de manter acesa a fagulha do amor e da intimidade no meu relacionamento com minha esposa.

Comecei, recentemente, a sair com outra mulher.

Na realidade, foi idéia da minha esposa.

- Você sabe que a ama - ela disse um dia, pegando-me de surpresa. - A vida é muito curta. Você precisa passar algum tempo com as pessoas que ama.

- Mas eu amo você - protestei.

- Eu sei. Mas também a ama. Você provavelmente não vai acreditar em mim, mas acho que, se vocês dois passarem mais tempo juntos, isso será bom para nós.

Como sempre, Peggy estava certa.

A outra mulher com quem minha esposa estava me encorajando a sair é minha mãe.

Minha mãe é uma viúva de setenta e um anos de idade que vive sozinha desde que meu pai morreu, há dezenove anos. Logo depois de sua morte, viajei quatro mil quilômetros para morar na Califórnia, onde comecei minha própria família e minha carreira.

Quando voltei à minha cidade natal há cinco anos, prometi a mim mesmo que passaria mais tempo com ela. Mas, de alguma maneira, com as exigências de meu trabalho e três filhos, nunca cheguei a vê-Ia fora das reuniões familiares e dos feriados.

Ela ficou surpresa e desconfiada quando telefonei e sugeri que fôssemos jantar e depois ao cinema.

- O que aconteceu? Você vai se mudar para longe com meus netos? - perguntou.

Minha mãe é o tipo de mulher que acha que qualquer coisa fora do habitual- um telefonema tarde da noite ou um convite surpresa para jantar feito por seu filho mais velho - significa más notícias.

- Achei que seria bom passar algum tempo com você - eu disse. - Só nós dois.

Ela avaliou a observação por um instante.

- Eu gostaria disso - falou. - Gostaria muito.

Surpreendi-me nervoso enquanto dirigia para a casa dela na sexta-feira depois do trabalho. Estava com a ansiedade do pré-encontro - e só estava saindo com a minha mãe, pelo amor de Deus!

Sobre o que iríamos conversar? E se ela não gostasse do restaurante que escolhi? Ou do filme? E se não gostasse de nenhum dos dois?

Quando estacionei em frente à sua garagem, percebi o quanto ela também estava nervosa com o nosso encontro. Estava me esperando na porta, já de casaco. Tinha feito um penteado especial. Sorria.

- Eu disse para as minhas amigas que ia sair com o meu filho e todas ficaram impressionadas - falou enquanto entrava no carro. - Mal podem esperar até amanhã para ouvirem a respeito da nossa noite.

Não fomos a nenhum lugar chique, apenas um restaurante do bairro, onde pudéssemos conversar. Quando chegamos lá, ela agarrou meu braço - metade por carinho, metade para ajudá-Ia a subir os degraus para o salão.

Sentamos e eu tive que ler o cardápio para nós dois. Os olhos dela só vêem grandes formas e sombras. Já tinha lido metade das entradas, quando olhei para cima. Mamãe estava sentada do outro lado da mesa, olhando para mim. Tinha um sorriso pensativo nos lábios.

- Era eu quem lia o cardápio quando você era pequeno disse.

Entendi imediatamente o que ela estava dizendo. De responsável a dependente, de dependente a responsável, nossa relação se invertera completamente.

- Então chegou a hora de você relaxar e me deixar retribuir o favor - falei.

Conversamos agradavelmente durante o jantar. Nada avassalador, apenas sobre nossas vidas. Conversamos tanto que perdemos o filme.

- Saio com você novamente, mas só se você deixar eu pagar o jantar da próxima vez - disse minha mãe quando a deixei em casa. Concordei.

- Como foi o seu encontro? - minha esposa quis saber quando cheguei em casa aquela noite.

- Bem... melhor do que eu esperava - respondi.

Ela deu seu sorriso eu-bem-que-disse.

Desde aquela noite, tenho tido encontros regulares com minha mãe. Não saímos toda semana, mas tentamos nos ver pelo menos duas vezes por mês. Sempre jantamos e às vezes assistimos a um filme. No entanto, na maior parte das vezes apenas conversamos. Conto-lhe dos desafios diários de meu trabalho. Conto vantagem a respeito de meus filhos e de minha esposa. Ela atualiza meu conhecimento a respeito das fofocas da família com as quais pareço nunca estar em dia.

Também me conta do seu passado. Agora eu sei como foi para minha mãe trabalhar em uma fábrica durante a Segunda Guerra Mundial. Sei como ela conheceu meu pai lá e como eles se cortejaram no bonde durante aqueles tempos difíceis.

Ouvindo essas histórias percebi o quanto elas significam para mim. São minhas histórias. Não me canso de ouvi-Ias.

Mas não conversamos apenas a respeito do passado.

Também conversamos sobre o futuro. Por causa de problemas de saúde, minha mãe se preocupa com os dias por vir.

- Tenho tanta coisa para viver - ela me disse certa noite.

- Tenho que estar aqui enquanto meus netos crescem. Não quero perder nem um pouquinho.

Como muitos amigos da minha geração, tenho a tendência de viver correndo, enchendo ao máximo a agenda enquanto luto para fazer com que a carreira, a família e os relacionamentos caibam na minha vida. Com freqüência reclamo da velocidade com que o tempo passa. Passar algum tempo com a minha mãe me ensinou a importância de diminuir o ritmo.

Finalmente entendi o significado de um termo que ouvi um milhão de vezes: qualidade de vida.

Peggy estava certa. Sair com outra mulher realmente ajudou meu casamento. Fez de mim um marido e um pai melhores e, espero, um filho melhor.

Obrigado, mamãe. Eu te amo.


 

O QUE HÁ DE ERRADO COM SEU PAI?

CAROL DARNELL

Histórias Para Aquecer o Coração 183

 

Eu estava no ginásio antes de perceber que meu pai tinha um defeito de nascença. Ele tinha lábio leporino e fenda palatina, mas, para mim, continuava com a mesma aparência que tinha no dia em que nasci. Lembro-me de dar-lhe um beijo de boa noite certa vez, quando eu era pequena, e perguntar se meu nariz ficaria chato depois de uma vida inteira dando beijos. Ele me assegurou que isso não aconteceria, mas me recordo de um tremor em seus olhos. Tenho certeza de que ele estava assombrado por ter uma filha que o amava tanto, que pensava que seus beijos, não trinta e três cirurgias, haviam remodelado seu rosto.

Meu pai era gentil, paciente, atencioso e amoroso. Ele nunca encontrou uma pessoa na qual não pudesse vislumbrar qualidades. Sabia o primeiro nome de serventes, secretárias e diretores. Na verdade, acho que ele gostava mais dos serventes.

Sempre perguntava sobre suas famílias, sobre quem eles achavam que iria ganhar o campeonato de futebol e sobre como andava a vida. Preocupava-se o suficiente para escutar suas respostas e lembrar-se delas.

Papai nunca deixou que sua deformação comandasse sua vida. Quando foi considerado muito feio para trabalhar com vendas, começou a fazer entregas de bicicleta e criou sua própria clientela. Quando o exército não permitiu que ele se alistasse, ele se ofereceu como voluntário. Chegou até mesmo a convidar uma Miss América para sair, uma vez.

- Se você não perguntar, nunca vai saber - disse-me mais tarde.

Raramente falava ao telefone, pois as pessoas tinham dificuldades 'para entendê-lo. Quando o encontravam pessoalmente, com sua atitude positiva e sorriso fácil, pareciam não levar sua deficiência em consideração. Casou-se com uma linda mulher e tiveram sete crianças saudáveis, que achavam, todas, que o sol e a lua nasciam em seu rosto.

Quando eu era uma "adolescente sofisticada”, entretanto, mal tolerava estar no mesmo aposento com este homem que, durante uma década, me aturou enquanto eu o observava fazendo a barba todas as manhãs. Meus amigos eram chiques, na moda e populares; meu pai era velho e ultrapassado.

Numa noite eu cheguei com o carro cheio de amigos e paramos na minha casa para fazer um lanche de madrugada.

Meu pai saiu de seu quarto e cumprimentou meus amigos, servindo refrigerantes e fazendo pipoca. Um de meus amigos me puxou para o lado e me perguntou:

- O que há de errado com seu pai?

De repente, olhei através da cozinha e o vi pela primeira vez com olhos imparciais. Fiquei chocada. Meu pai era um monstro! Fiz com que todos saíssem imediatamente e levei-os para casa. Senti-me tão idiota. Como podia ter deixado de ver?

Mais tarde, naquela noite, eu chorei, não porque percebi que meu pai era diferente, mas porque percebi que pessoa difícil e patética eu estava me tornando. Ali estava a pessoa mais doce e carinhosa que você poderia pedir e eu o havia julgado por sua aparência.

Naquela noite eu aprendi que, quando você ama totalmente alguém e então a vê através dos olhos da ignorância, do medo ou do desprezo, começa a entender a profundidade do preconceito. Eu havia visto meu pai como os estranhos o viam, como alguém diferente, deformado e anormal. Sem me lembrar que ele era uma boa pessoa que amava sua esposa, seus filhos e seus semelhantes. Ele tinha alegrias e tristezas e já vivera uma vida inteira sendo julgado pelas pessoas por sua aparência. Fiquei grata por tê-lo conhecido primeiro, antes que as pessoas me mostrassem seus defeitos.

Papai já se foi. Empatia, compaixão e preocupação pelo próximo são o legado que ele me deixou. São os maiores presentes que os pais podem dar a um filho - a capacidade de amar os outros sem considerar sua posição social, raça, religião ou incapacidades físicas, mas os dons da perseverança positiva e do otimismo. O sublime objetivo de ser tão amorosa em minha vida que receba beijos o ,bastante para que meu nariz fique chato.

 

 

"Alguém já disse: ''é importante gastar menos tempo com a nossa aparência e mais tempo com como nós vemos"? Se não, alguém deveria".

CARMEN RICHARDSON RUTLEN

 


UM CONTO DE NATAL

DESCONHECIDO

Histórias Para Aquecer o Coração 2 15

 

Eu estava em São Francisco, a poucos dias do Natal. As lojas já começavam a ficar entupidas e multidões esperavam impacientemente pelos ônibus e bondes no fim da tarde.

Quase todo mundo carregava pilhas de pacotes, e o cansaço era tanto, que eu comecei a me perguntar se os inúmeros amigos e parentes mereciam mesmo aqueles presentes e tanto sacrifício. Esse não era bem o espírito de Natal que eu desejava.

Finalmente fui literalmente empurrada para dentro de um bonde superlotado, e a ideia de ficar ali como sardinha em lata até chegar em casa foi se tornando insuportável. O que eu não daria por um lugar sentada!

À medida que algumas pessoas foram descendo, consegui respirar melhor e comecei a notar os outros passageiros. Com o canto do olho, vi um menino pequeno, de pele escura – não podia ter mais do que seis anos -, puxando a manga de uma mulher e perguntando: "Quer se sentar?" Ele a levou até o assento vago mais próximo e partiu em busca de outra pessoa cansada. Assim que um cobiçado lugar surgia, ele rapidamente se enfiava em meio àquela massa humana para procurar mais uma mulher carregada de pacotes e levava-a até o assento.

Finalmente, quando senti um puxão em minha própria manga, já estava completamente fascinada pelo menino. Ele me pegou pela mão e com um sorriso do qual jamais vou me esquecer disse: "Venha comigo." Mal tive tempo de agradecer, pois ele já partia em busca de mais uma necessitada.

Os passageiros do bonde, que em geral viajavam olhando para a frente e evitando os olhares dos vizinhos, começaram a trocar sorrisos. Uma mulher comentou comigo o cansaço que sentia, e três pessoas se abaixaram ao mesmo tempo para apanhar um pacote que caíra no chão. Em pouco tempo, as pessoas conversavam. Aquele menininho havia realmente mudado alguma coisa - todos nós nos sentíamos envolvidos num sutil sentimento de aconchego e o resto do percurso foi puro prazer.

Não percebi o menino descer. Quando olhei, ele não estava mais ali. Quando cheguei ao meu ponto, saltei do bonde pisando nas nuvens e desejei sinceramente ao motorista "Feliz Natal". Pela primeira vez percebi como as casas de minha rua estavam lindamente iluminadas e pensei em reunir os vizinhos para um chá antes do fim do ano. Eu me sentia de bem com o mundo, feliz com os presentes que comprara e com a alegria que eles dariam.

E de repente o Natal deixou de ser uma estressante festa de consumo para adquirir seu verdadeiro sentido. Mais uma vez eu era um menino que, com seu gesto de amor anunciava nossa verdadeira vocação.

 


 

O SEGREDO DA PLUMA

MELODY ARNETT

Histórias Para Aquecer o Coração 2 18

 

Na quinta série, eu me sentava na terceira fileira da esquerda para a direita, a segunda se contasse de frente para trás, com as mãos cruzadas e os pés no chão. O pastor Beikman nos recitava os mandamentos todas as manhãs, como uma primeira refeição que nós mastigávamos, engolíamos e - principalmente - temíamos. Eram esses os fundamentos da minha educação em criança: estudar, decorar, repetir.

Os ensinamentos da escola paroquial sedimentaram em mim princípios e convenções num mundo em que os homens eram prestigiados e as mulheres, consideradas invisíveis. Os homens descobriam novas terras, explicavam novas teorias e as leis do universo, além de terem escrito a Bíblia. Mas foi uma mulher que estimulou o meu espírito e me convidou a lançar sobre a vida um olhar mais profundo, a amar sinceramente e a reconhecer Deus em todas as coisas.

Uma manhã o pastor anunciou que estava trocando de função e deixando o comando da escola. Apresentou-nos a professora substituta, a senhorita Newhart, e um murmúrio agitado percorreu a sala. Uma mulher alta, com um penteado que mais parecia uma colmeia, sapatos de plataforma e uma saia que quase mostrava os joelhos, a senhorita Newhart era enérgica e suave ao mesmo tempo. Falava com as mãos, grandes e sardentas, e com gestos largos. De uma bolsa, quase uma mala, tirou plumas que distribuiu aos alunos, dizendo-nos que eram presentes enviados pelos donos originais - pássaros que haviam posto fora a plumagem em excesso, deixando para trás coisas que não precisavam mais carregar. Naquela manhã, nosso mundo mudou - e logo alguma coisa também mudaria em nós.

Na aula de história daquele dia, a senhorita Newhart nos contou a história de Cristóvão Colombo. Estando no mar há muito tempo, seus marinheiros se rebelaram e queriam desembarcar. Falava-se em motim, Colombo temia pela própria vida. Então, num amanhecer, uma pluma caiu do céu, indicando que se aproximavam de terra firme. A senhorita Newhart contou que os marinheiros viram mais gaivotas guinchando e rodopiando no ar. Para ilustrar o voo das gaivotas, ela dramaticamente arremessou os braços, fazendo tremular a pele sardenta e roliça de seu tríceps. Rodou em círculos velozmente, girando os pés, fazendo a saia bater nas pernas. Parecia que ia levantar voo. A senhoria Newhart me ajudou a ver o mesmo que aqueles marinheiros devem ter descoberto: há esperança até na menor das coisas.

Na manhã seguinte, a bolsa da senhorita Newhart estava cheia até em cima. Dentro, um pôster da Última Ceia, um pincel, um compasso e um tubo comprido e cilíndrico. Do tubo ela tirou um desenho em preto e branco e o pregou no quadro. Era um círculo, dentro do qual havia um homem, braços totalmente abertos, tocando a circunferência, os pés afastados na parte de baixo. Dimensões, figuras, desenhos e números estavam rabiscados por toda a folha. "Da Vinci", ela disse num sussurro, "era mais do que um pintor. Ele estudava os assuntos até saber tudo sobre eles: o homem, a natureza, ciências, matemática...

"Ele sabia alguma coisa sobre plumas?", perguntei. A professora de cabelo de colmeia adorou a pergunta.

Pioneiro na ciência da aerodinâmica, Leonardo da Vinci estudou as plumas. Quando vista do alto, uma pluma parece convexa, arqueada delicadamente para cima e para fora, deixando o ar passar sem oferecer resistência. Quando as plumas estão juntas, como numa asa, criam um aerofólio, algo que oferece a resistência certa ao ar. A senhorita Newhart, que era mais do que uma professora, e da Vinci, que era mais do que um pintor, me mostraram como ver o extraordinário mesmo em algo bem pequeno.

Mais tarde, no mesmo dia, a senhorita Newhart levou-nos a um campo fora dos muros da escola. Lá nos deitamos no chão, cobrimos nossos corpos com folhas, galhos e gravetos.

O campo se tornou nosso refúgio, nossa janela para o céu.

Naquele lugar só nosso aprendíamos a ficar quietos, descansar, observar, deixando os besouros rastejarem por cima de nós, prestando atenção nos pássaros e estudando seus movimentos.

À saída da escola, a senhorita Newhart ficava na porta tocando o ombro de cada aluno e dizendo "Até amanhã" ou ... Deus o abençoe". Lembro como suas mãos eram quentes e leves. Muitas vezes me pedia para ficar mais um pouco, arrumar carteiras, jogar fora papéis velhos ou apagar o quadro.

Durante uma daquelas tardes abençoadas, dividi com a senhorita Newhart um problema que eu mantinha em segredo. Contei-Ihe que eu amava os pássaros mais do que amava a Deus, o que era um pecado, segundo os mandamentos. Minha professora procurou a Bíblia em sua mesa, abriu-a no Livro dos Salmos e leu: Ele te cobrirá com suas plumas e debaixo de suas asas te abrigará; sua fidelidade é escudo e couraça. Ela escreveu o pequeno verso e me entregou o papel. Ainda o tenho comigo.

Eu não sabia o significado da palavra couraça - isso não tinha a menor importância -, mas aprendi uma coisa fundamental para minha vida: eu tinha permissão para amar as coisas profundamente, porque Deus está em todas as coisas e me presenteou com elas. Indo para casa naquela tarde, pensei que eu seria capaz de voar. Corri, braços esticados, pernas para trás, deslizando sobre as calçadas, como se fosse um pássaro.

No pescoço, eu uso um pássaro, um berloque de ouro que ganhei quando criança. As asas do pássaro se tornaram um símbolo. Fazem-me lembrar do voo nas calçadas há tantos anos e das estradas que percorri desde então. E, à medida que os anos passaram, eu também me tornei um pouco pluma: ofereço menos resistência aos sacrifícios que a vida impõe e suporto melhor as dificuldades.

Como professora, guiei muitas crianças através das águas às vezes turbulentas das frações, das leituras e das dúvidas sobre a capacidade de fazer alguma coisa. Eu as conduzi a salvo até a praia quando estavam perdidas. Aprendi, de vez em quando, a descansar em lugares tranquilos e a deixar para trás as coisas que não preciso mais carregar, como ressentimentos, mágoas e decepções.

Tenho força interior, um modo tranquilo de ser e acredito, do fundo do coração, que poderei suplantar todas as dificuldades.

 

 

Todas as coisas mais cheias de amor nos chegam de maneira simples,

é o que me parece.

EDNA ST. VINCENT MILLAY

 


 

ASSUMINDO O DESAFIO

MAGI HART

Histórias Para Aquecer o Coração 2 23

 

Trabalhar em um hospital com vítimas recentes de derrames cerebrais era presenciar situações extremas, uma questão de tudo ou nada. Ou eles estavam felizes por estarem vivos ou simplesmente queriam morrer. Bastava olhar para saber.

Aprendi muita coisa com Albert sobre derrames cerebrais.

Encontrei-o pela primeira vez, todo curvado na cama em posição fetal, numa tarde em que fazia a ronda dos doentes. Um homem pálido, velho, ressequido, parecendo morto, a cabeça meio escondida pelo cobertor. Nem se mexeu quando me apresentei e não disse uma palavra sequer quando lhe disse que o jantar viria logo.

No posto de enfermagem, um funcionário forneceu-me alguns dados sobre ele. Não tinha ninguém. Já vivera muito.

A mulher com quem fora casado durante trinta anos tinha morrido, os cinco filhos tinham saído de casa.

"Bem", pensei, "talvez eu consiga ajudar." Na época eu era uma enfermeira cheia de corpo mas vistosa, uma mulher divorciada que evitava a população masculina fora do trabalho. Quem sabe eu poderia fazer alguma coisa? Resolvi flertar. No dia seguinte, em vez do uniforme de enfermeira usei um vestido branco. Luzes apagadas. Cortinas cerradas.

Albert nem se mexeu quando me aproximei. Puxei a cadeira para perto de sua cama, cruzei minhas pernas, inclinei a cabeça e dirigi-lhe um sorriso perfeito.

"Deixe-me em paz. Quero morrer."

"Que pecado, com tantas mulheres sozinhas por aí." Albert pareceu aborrecido. Fingindo não notar, comecei a tagarelar dizendo como gostava de trabalhar na unidade de reabilitação, porque lá tinha a oportunidade de observar as pessoas atingindo seu potencial máximo. Era um lugar cheio de possibilidades. Ele ficou calado.

Dois dias mais tarde, na troca de turnos, eu soube que Albert tinha perguntado quando eu estaria trabalhando. A enfermeira referia-se a ele como meu "namorado" e o apelido pegou. Nunca o contestei. Quando saía do quarto dele, eu dizia aos outros lá fora para cuidarem bem do "meu Albert". Dentro de pouco tempo, ele concordou em sentar-se na beirada da cama para exercitar a resistência, a energia e o equilíbrio. Consentiu em "trabalhar" com a fisioterapia se eu voltasse "para conversar".

Dois meses depois, Albert estava usando um andador. No terceiro mês, passou para a bengala. Às sextas-feiras comemorávamos as altas dos pacientes com um churrasco. Quando chegou a vez dele, Albert e eu dançamos ao som de canções de Edith Piaf. Foi um parceiro meio desajeitado, mas era ele quem guiava. Nossos rostos estavam molhados de lágrimas quando nos despedimos.

De vez em quando chegavam ao hospital rosas, crisântemos e ervilhas-de-cheiro de presente para mim. Ele estava trabalhando em seu jardim outra vez.

Então, numa tarde, uma linda mulher vestida de azul-Iavanda "pareceu em nossa unidade do hospital procurando por "aquela enfermeira assanhada”.

Minha chefe mandou chamar-me; eu estava dando banho em um doente.

"Então, é você! A mulher que fez meu Albert voltar a lembrar que ele é um homem!" Abriu um amplo sorriso e me entregou um convite de casamento.

 

 

 

Sou um só, mas ainda assim sou um; não posso fazer tudo,

mas ainda assim posso fazer alguma coisa; e não é porque não posso fazer tudo que vou deixar de fazer o que posso.

EDWARD EVERETT HALE

 


 

O OUTRO LADO DAS PESSOAS

LOUISE DICKINSON RICH

Histórias Para Aquecer o Coração 2 32

 

Minha avó tinha uma inimiga chamada senhora Wilcox. Elas se mudaram, recém-casadas, para casas vizinhas numa pequena cidade onde tinham ido viver. Não sei quem começou a guerra - foi muito antes de eu nascer - e não sei se quando eu nasci, uns trinta anos depois, elas mesmas se lembravam de quem começara.

Mas o duro embate continuava, com amargas batalhas.

Era uma contenda travada sem um pingo de educação. Era uma guerra entre senhoras, o que significa guerra total. Nada' na cidade escapou das conseqüências. A igreja de trezentos anos, que sobrevivera à Revolução e à Guerra Civil, quase foi ao chão quando vovó e a senhora Wilcox travaram a batalha pela presidência da Liga das Senhoras. Vovó ganhou este combate, mas foi uma vitória sem valor, pois a senhora Wilcox, derrotada, demitiu-se da Liga num acesso de raiva. E qual é a graça de dirigir alguma coisa se você não pode humilhar sua inimiga mortal?

A senhora Wilcox venceu a batalha da Biblioteca Pública, e conseguindo que a sobrinha Gertrude fosse indicada como bibliotecária no lugar de minha tia Phyllis. No dia em que Gertrude assumiu o posto, vovó parou de apanhar livros na biblioteca - dizendo que estavam "cheios de germes" - e começou a comprar os livros que queria ler.

A batalha da Escola Secundária terminou empatada. O diretor conseguiu um emprego melhor e saiu antes que a senhora Wilcox o tirasse de lá ou vovó conseguisse mantê-lo lá para sempre.

Além dessas batalhas mais sérias, aconteciam constantes ataques e recuos na linha de tiro. Quando éramos crianças e visitávamos vovó, parte da diversão consistia em fazer caretas para os terríveis netos da senhora Wilcox - que revidavam com igual virulência - e roubar uvas do lado da cerca dos Wilcox.

Corríamos atrás das galinhas e púnhamos bombinhas nos trilhos do bonde bem em frente à casa dos Wilcox com a doce esperança de que, ao passar, o bonde provocasse uma explosão que fizesse a senhora Wilcox morrer de susto.

Num dia histórico, pusemos uma cobra na calha de chuva 5 dos Wilcox. Minha avó ainda ensaiou um protesto, mas sentimos sua solidariedade tácita, bem diferente dos veementes "nãos" de mamãe, e prosseguimos na nossa carreira de crianças endiabradas.

Não pensem nem por um minuto que só havia um lado da guerra. Lembrem-se de que a senhora Wilcox também tinha netos bem mais valentões e espertos do que os netos de vovó. Os pestinhas puserem gambás no porão de sua casa e esta foi a agressão mais suave. O fato é que qualquer incidente na casa de vovó sempre foi atribuído aos Wilcox.

Não sei como vovó poderia ter suportado todos esses problemas se não fosse pelo caderno feminino do jornal diário de Boston.

A página era uma instituição maravilhosa. Além das usuais dicas de cozinha e conselhos sobre limpeza, havia uma seção de troca de cartas para que as leitoras pudessem desabafar seus problemas. Para que o anonimato fosse mantido, as cartas vinham assinadas com um pseudônimo. O de vovó era Arbusto.

Outras leitoras que tivessem o mesmo problema respondiam, dando a solução encontrada e também usando seus pseudônimos, como Aquela que Sabe, X ou qualquer outro. Muitas vezes, exposto o problema, as leitoras ficavam trocando cartas por anos através do jornal, falando sobre filhos, doces em conserva ou a mobília nova da sala de jantar.

Foi isso o que aconteceu com vovó. Ela e uma mulher chamada Gaivota se corresponderam por vinte e cinco anos, e vovó dizia a Gaivota coisas que jamais confessara a ninguém como a vez em que contou que pensava estar grávida (e não estava) ou quando meu tio Steve pegou piolho na escola e vovó ficou profundamente humilhada. Gaivota era sua amiga do coração.

Quando eu tinha dezesseis anos, a senhora Wilcox morreu.

Numa cidade pequena, mesmo que você deteste a vizinha, faz parte das regras de educação se oferecer para ajudar a família enlutada no que for necessário.

Vovó atravessou o gramado, deu os pêsames às filhas da senhora Wilcox e começou a ajudá-las a limpar a já imaculada sala de visitas para o funeral. De repente, viu aberto sobre uma mesa, num lugar de destaque, um enorme álbum de recortes. Para seu mais absoluto estarrecimento ali estavam coladas, em colunas paralelas, as cartas dela para Gaivota e as de Gaivota para ela.

A maior inimiga de vovó fora, na verdade, sua melhor amiga.

Foi a única vez que me lembro de ter visto minha avó chorar. Eu não sabia naquela época por que ela estava chorando, mas agora eu sei. Chorava por todos os anos perdidos que não poderiam ser recuperados. Naquele momento, fiquei tão impressionada com as lágrimas de minha avó, que não me dei conta da descoberta fundamental que começava a fazer. Uma descoberta que se transformou em convicção e que tem me ajudado imensamente a viver:

 

* As pessoas podem parecer insuportáveis. Podem parecer egoístas, mesquinhas e hipócritas. Mas, se não procurarmos olhá-Ias sob outra perspectiva, nunca seremos capazes de descobrir que são também generosas, amorosas e bondosas. E, se não Ihes dermos a oportunidade de revelarem seus aspectos positivos, ficaremos para sempre privados do bem que eles podem nos proporcionar.

 


 

INFORMAÇÕES, POR FAVOR!

Paul Villiard

Histórias Para Aquecer o Coração 2 39

 

Quando eu era criança, minha família era proprietária de um dos primeiros telefones da vizinhança. Eu me lembro bem da caixa de carvalho instalada na parede embaixo da escada. O fone reluzente ficava dependurado do lado da caixa. Lembro-me até do número: 105. Eu era pequeno demais para alcançar o telefone, mas costumava ouvir, fascinado, quando minha mãe o utilizava. Certa vez, ela me levantou para que eu pudesse falar com meu pai que estava viajando a negócios. Foi um momento mágico!

Depois, descobri que, em algum lugar dentro daquele aparelho sensacional, morava uma pessoa maravilhosa. O nome dessa pessoa era "Informações, por Favor! ", e não havia nada que ela não soubesse.

Minha mãe sempre recorria a ela para saber o número do telefone de alguém; quando nosso relógio não funcionava, "Informações, por Favor!" fornecia imediatamente a hora certa.

Minha primeira experiência pessoal com aquele "gênio da caixa" ocorreu, certo dia, quando minha mãe se encontrava na casa de uma vizinha. Enquanto eu brincava com a caixa de ferramentas no porão, dei uma martelada no dedo. A dor foi terrível, mas de nada adiantava chorar porque não havia ninguém em casa para me consolar. Caminhei pela casa chupando o dedo machucado até chegar perto da escada. O telefone! Corri para pegar o banquinho na sala de visitas e arrastei-o para perto do telefone. Subi no banquinho, tirei o fone do gancho e encostei-o na orelha.

- Informações, por Favor! - eu disse, tentando alcançar o bocal, um pouco acima de minha cabeça.

Após um clique ou dois, uma voz clara falou ao meu ouvido:

- Informações.

- Eu machuquei o dedo - choraminguei ao telefone.

Agora que eu tinha com quem falar, as lágrimas começaram a correr.

- Sua mãe não está em casa? - foi a pergunta.

- Não, estou sozinho - respondi por entre as lágrimas.

- Está saindo sangue?

- Não. Dei uma martelada no dedo e está doendo.

- Você sabe abrir a geladeira? - ela perguntou.

Respondi que sabia.

- Então, pegue um pedacinho de gelo e segure-o em cima do dedo.

Vai parar de doer. Mas tome cuidado com o gelo - ela me advertiu. E não chore. Vai dar tudo certo.

Depois disso, passei a ligar para "Informações, por Favor!", para conseguir qualquer coisa. Pedi ajuda para minhas lições de geografia, e ela me disse onde ficava a cidade de Filadélfia e o Orinoco o romântico rio que eu viria a explorar quando crescesse. Ela me ajudou na aritmética e me contou que o esquilo - que eu pegara no parque no dia anterior - comia frutas e nozes.

E chegou o dia em que Peter, nosso canarinho, morreu. Liguei para "Informações, por Favor!" e lhe contei minha triste história.

Ela ouviu e repetiu aquelas palavras que os adultos costumam dizer para consolar uma criança. Mas eu estava inconsolável: Por que os passarinhos, que cantam tão bonito e alegram a família inteira, acabam se transformando em um montinho de penas com os pés para cima no fundo de uma gaiola?

Ela deve ter percebido a intensidade de minha tristeza, porque disse em voz baixa:

- Paul, lembre-se sempre de que existem outros mundos em que podemos cantar.

Eu me senti melhor.

No dia seguinte, lá estava eu ao telefone.

- Informações - disse a voz que eu agora conhecia bem.

- Como se escreve "consertar"? - perguntei.

- No sentido de consertar alguma coisa? C-O-N-S-E-R-T-A-R.

Naquele momento, minha irmã, que tinha o péssimo hábito de me assustar, saltou da escada em minha direção e gritou:

- Iaaaaaaa!

Eu caí do banquinho e arranquei, sem querer, o fone da caixa com todos os fios. Minha irmã e eu ficamos aterrorizados. "Informações, por Favor!" não respondia mais, e eu não sabia se a magoara por ter arrancado o fone da caixa.

Minutos depois, apareceu um homem na varanda.

- Sou funcionário da companhia telefônica. Eu estava trabalhando lá embaixo, nesta rua, e a telefonista me disse que deve haver algum problema com este número de telefone. - Ele pegou o fone da minha mão e perguntou:

- O que aconteceu?

Eu lhe contei o que havia acontecido.

- Bem, podemos resolver esse problema em um minuto ou dois.

Ele abriu a caixa do telefone, deixando à mostra uma confusão de fios e molas, e começou a mexer no fio principal do telefone, prendendo tudo com uma pequena chave de fenda. Depois de levantar e abaixar o gancho algumas vezes, ele falou ao telefone.

- Oi, aqui é Pete. Está tudo em ordem com o 105. A irmã do garoto o assustou, e ele puxou os fios da caixa.

O homem desligou, sorriu, deu um tapinha em minha cabeça e atravessou a porta.

Tudo isso aconteceu em uma cidadezinha a noroeste do Pacífico.

Quando eu tinha nove anos, mudamos para Boston - do outro lado do país -, e passei a sentir falta de minha mentora. "Informações, por Favor!" pertencia àquela velha caixa de madeira da outra casa, e eu nunca pensei em tentar procurá-la naquele novo e imponente telefone que ficava na mesinha do hall.

Mesmo quando cheguei à adolescência, as lembranças daquelas conversas dos tempos de infância nunca me abandonaram; em momentos de dúvidas e dificuldades, eu me lembrava da voz serena que me transmitia segurança quando eu ligava para "Informações, por Favor!" e obtinha a resposta certa. Hoje eu entendo a paciência, a compreensão e a bondade daquela pessoa que perdia o seu precioso tempo com um garotinho.

Alguns anos mais tarde, quando eu estava a caminho da faculdade, no Oeste, meu avião pousou em Seattle. A conexão com o voo seguinte levaria cerca de meia hora. Passei 15 minutos ou mais ao telefone conversando com minha irmã, que agora era uma senhora casada, mãe e se sentia feliz. Em seguida, sem pensar no que estava fazendo, disquei para a telefonista de minha cidade natal e disse:

- Informações, por Favor!

Como se fosse um milagre, ouvi novamente a voz clara e firme, que eu conhecia tão bem:

- Informações.

Eu não tinha planejado nada, mas me ouvi dizendo:

- Por favor, poderia me informar como se escreve a palavra " consertar"?

Depois de uma longa pausa, ouvi a voz delicada responder:

- Acho - disse "Informações, por Favor!" - que seu dedo já deve estar curado.

Eu ri.

- Quer dizer que você continua aí. Acho que você não faz ideia do significado que teve em minha vida durante todo aquele tempo...

- Acho - ela replicou - que você não sabe o significado que teve em minha vida. Não tive filhos e ficava aguardando, ansiosa, suas ligações. Bobagem, não?

Não era bobagem, mas eu não disse isso. Eu lhe contei que pensei nela com muita frequência durante aqueles anos e perguntei se poderia ligar novamente quando voltasse a visitar minha irmã, depois do encerramento do primeiro semestre.

- Por favor, ligue. Peça para falar com Sally.

- Até logo, Sally. - Parecia estranho que "Informações, por Favor!" tivesse nome. - Se eu encontrar algum esquilo, vou dizer a ele para comer frutas e nozes.

- Faça isso - ela disse. - E espero que num desses dias você vá conhecer o Orinoco. Bem, até logo.

Três meses depois, eu estava de volta ao aeroporto de Seattle. Uma voz diferente atendeu:

- Informações.

Pedi para falar com Sally.

- Você é amigo dela?

- Sim - respondi. - Um velho amigo.

- Lamento muito informar, mas Sally só trabalhava meio expediente nos últimos anos porque estava muito doente. Ela morreu há cinco semanas.

Antes que eu tivesse tempo de desligar, ela continuou:

- Espere um momento. Você disse que seu nome é Villiard?

-Sim.

- Bem... Sally deixou um recado escrito para você.

- Que recado? - perguntei, quase adivinhando do que se tratava.

- Aqui está. É o seguinte: "Diga a ele que eu continuo a achar que existem outros mundos em que podemos cantar. Ele vai entender." Agradeci e desliguei. Eu entendi o que Sally quis dizer.


 

AS VELAS DO SABÁ

MARSHA ARONS

Histórias Para Aquecer o Coração 2 45

 

Uma sexta-feira por mês, na parte da manhã, dou um plantão no hospital da minha cidade, distribuindo velas do Sabá para as pacientes judias. Pela tradição, as mulheres judias saúdam o Sabá acendendo velas, mas, como há risco de incêndio, nós oferecemos velas elétricas que se acendem na tomada no início do Sabá judeu, na sexta-feira, ao' cair do sol. O Sabá termina no sábado à noite. No domingo de manhã, recolho as velas e as guardo até a sexta-feira seguinte, quando outra voluntária estará encarregada da distribuição.

Numa sexta-feira de manhã, numa das enfermarias, conheci uma senhora bem idosa. Seu cabelo curto era branco e fofo, sua pele, amarelada e enrugada. Ela parecia pequena na cama, o cobertor puxado até debaixo dos braços e as mãos descansando sobre a coberta, velhas e retorcidas, mãos cheias de experiência. Mas seus olhos eram claros e azuis e, quando ela me cumprimentou, a voz era surpreendentemente vigorosa. Seu nome era Sara Cohen.

Ela disse que estava me esperando, que nunca deixava de acender velas em casa e que bastava eu colocá-las na tomada ao lado da cama, onde pudesse alcançar. Ficou claro que ela estava familiarizada com a rotina.

Fiz o que ela pediu e lhe desejei um bom Sabá. Quando me virei para sair, ela disse serenamente: "Espero que os meus netos cheguem a tempo de se despedirem de mim." Senti um choque com a maneira pela qual ela falava da iminência de sua morte. Toquei de leve sua mão e disse que eu também esperava que eles chegassem a tempo.

Quando saí do quarto, quase esbarrei numa jovem que parecia ter uns vinte anos. Ainda ouvi a senhora Cohen dizer:

"Malka, fico feliz de você ter vindo. Onde está David?" Continuei a ronda, pensando se David também chegaria a tempo. Acho que, de alguma forma, cada uma dessas mulheres me lembra a minha mãe quando estava no hospital. É triste pensar na dor de quem vai perder um ente querido. Acho que foi por isso que fui trabalhar como voluntária.

Durante todo o Sabá eu não consegui parar de pensar na senhora Cohen e seus netos. No domingo de manhã, voltei ao hospital para recolher as velas. Quando me aproximei do quarto da senhora Cohen, vi sua neta sentada do lado de fora. Ela olhou em minha direção ao ouvir o barulho do carrinho.

"Por favor", ela pediu, "a senhora pode deixar as velas por apenas mais algumas horas?"

Fiquei surpresa com o pedido, mas ela explicou. Disse que a avó ensinara a ela e ao irmão, David, tudo o que eles sabiam sobre a religião. Os pais dos dois se separaram quando as crianças ainda eram pequenas e, como trabalhavam muito, deixavam os filhos com a avó na maioria dos fins de semana.

"Ela preparava o Sabá para nós", disse Malka. "Ela cozinhava, deixava tudo limpo e a casa brilhava e cheirava de um jeito... tão especial que nem consigo explicar. Meu irmão e eu encontrávamos em sua casa uma coisa que não existia em nenhum outro lugar.

Não sei como fazer a senhora entender o que o Sabá significava para nós - para todos nós, vovó, David e eu -, mas era um momento especial nas nossas vidas. David agora vive em Israel. Só conseguiu um vôo para chegar hoje. Deve chegar lá pelas seis.

Então, se a senhora puder, por favor, deixe as velas até essa hora." Eu não entendia o que as velas tinham a ver com a chegada de David. Malka explicou: "Para minha avó, o Sabá sempre foi nosso dia de felicidade. Ela não ia querer morrer no Sabá. Se ela acreditar que ainda é o Sabá, talvez ela possa agüentar até que David chegue. Espere até ele poder se despedir dela." Era impossível negar o pedido. Que coisa extraordinária a força que aquela mulher usava para permanecer viva.

E não era por si que ela estava fazendo o esforço. Por sua atitude, ela deixara claro que não temia a morte. Ela parecia saber e aceitar o fato de que sua hora havia chegado e estava pronta para ir.

Para mim, Sarah Cohen personificava uma espécie de força e de amor extremamente raros. Ela estava disposta a concentrar toda a sua força para que as pessoas que amava não associassem a beleza e a alegria do Sabá à tristeza por sua morte. Quando me aproximei do quarto no domingo à noite, senti as lágrimas subirem aos meus olhos. Olhei e vi a cama vazia e as velas apagadas.

Então ouvi uma voz atrás de mim, dizendo docemente: "Ele conseguiu."

Olhei para Malka, que já não chorava mais.

David chegou esta tarde. Ele está fazendo suas preces agora. Ele pôde dizer-lhe adeus e trouxe notícias que a alegraram - ele e a mulher vão ter um bebê. Se for menina, vai se chamar Sarah." De uma certa forma, nada disso me surpreendeu.

Enrolei o fio elétrico à volta da base das velas. Elas ainda estavam quentes.

 


 

O QUE REALMENTE IMPORTA

DESCONHECIDO

Histórias Para Aquecer o Coração 2 49

 

Há alguns anos, nas Olimpíadas Especiais de Seattle, nove participantes, todos física ou mentalmente deficientes, se reuniram na linha de largada para a corrida dos 100 metros.

Quando foi dado o tiro de largada, todos eles saíram, não exatamente em disparada, mas com a disposição de terminar a corrida e vencer.

Todos, isto é, menos um menino que tropeçou no asfalto, caiu umas duas vezes e começou a chorar. Os outros oito ouviram o menino chorando. Diminuíram a velocidade e pararam. Então todos eles se viraram e voltaram. Cada um por sua conta.

Uma menina com síndrome de Down curvou-se, beijou-o e disse: "Isso vai fazer a dor passar."

Em seguida os 9 se deram os braços e andaram juntos até a linha de chegada. Todo mundo no estádio se levantou e os aplausos duraram 10 minutos.

 


 

O GARFO E A MORTE

ROGER WILLIAM THOMAS

Histórias Para Aquecer o Coração 2 51

 

O anúncio da chegada de Martha sempre trazia um sorriso para o rosto do padre Jim. Ela era uma das mais antigas e piedosas paroquianas. Tia Martie, como todas as crianças a chamavam, parecia espalhar fé, esperança e amor onde quer que fosse. Mas, dessa vez, havia algo diferente em sua expressão. Com o rosto sério, ela lhe contou que o médico acabara de diagnosticar nela um câncer em estágio avançado.

"Ele diz que eu tenho, na melhor das hipóteses, três meses de vida." .As palavras de Martha eram graves, embora ela estivesse bastante calma.

"Eu lamento muito...", padre Jim começou a dizer, mas, antes que ele terminasse a frase, Martha o interrompeu:

"Não lamente. Deus tem sido bom comigo. Tive uma vida longa e feliz e estou pronta para ir. O senhor sabe disso."

"Eu sei", murmurou o padre, aquiescendo com a cabeça. "Mas o que eu desejo mesmo é falar com o senhor sobre meu funeral. Tenho pensado nisso e há coisas que vou querer." Os dois conversaram por um bom tempo. Falaram sobre os cânticos preferidos de Martha, suas passagens da Bíblia preferidas e as muitas lembranças que dividiram nos cinco anos em que o padre Jim esteve na paróquia.

Quando parecia que tinham abordado todos os aspectos, tia Martha parou, olhou para o padre com um brilho nos olhos e acrescentou: "Há mais uma coisa. Quando me enterrarem, quero minha velha Bíblia na mão e um garfo na outra." "Um garfo?" O pedido surpreendeu o padre Jim: "Por que a senhora quer ser enterrada com um garfo?" "Estive pensando em todos os jantares e banquetes da igreja a que compareci ao longo dos anos", ela explicou. Uma coisa tinha sempre chamado a sua atenção. Em todas aquelas reuniões tão agradáveis, quando a refeição estava quase no final, uma empregada vinha recolher o prato sujo. "Posso até ouvir as palavras agora. Alguém se inclinava sobre o meu ombro e dizia baixinho: 'Pode ficar com seu garfo.' E o senhor sabe o que isso queria dizer? Que a sobremesa estava vindo!" E não se tratava de um pote de gelatina, um pudim ou uma taça de sorvete, porque nada disso se come com garfo. Significava que era algo realmente gostoso, um bolo de chocolate ou uma torta de cereja!

"Quando me diziam que eu podia ficar com meu garfo, eu sabia que o melhor ia chegar. É exatamente sobre isso que quero que as pessoas falem no meu funeral. Elas podem lembrar todos os bons momentos que tivemos. Isso será ótimo. Mas, quando passarem pelo meu caixão e me virem no meu lindo vestido azul, quero que se espantem e perguntem: 'Para que o garfo?' E é isso que eu quero que o senhor lhes diga: que eu fiquei com o garfo porque o melhor ainda vai chegar."


 

LAVANDO URSINHOS DE PELÚCIA

JEAN BOLE

Histórias Para Aquecer o Coração 2 56

 

Estamos lavando ursinhos de pelúcia - Susan, minha filha mais velha, e eu. Velhos brinquedos de infância. Ela separou-se recentemente, depois de um casamento de sete anos, e agora estamos lavando os ursinhos de pelúcia.

Semana passada ajudei-a a arrumar seu novo apartamento.

Ela está morando sozinha pela primeira vez, lutando para organizar uma nova vida - apenas ela e seus ursinhos.

Enquanto lavamos, minha filha me conta que na véspera conheceu na lavanderia uma mulher' de oitenta anos que lavava um ursinho de pelúcia. Quando Susan disse que pretendia lavar os seus, a velha explicou cuidadosamente o modo correto de fazê-lo.

"Você deve colocá-los dentro de uma fronha e fechá-Ia com um alfinete de segurança. Depois você lava e seca o embrulho, e eles saem bonitinhos, limpos e fofinhos."

A velha continuou a falar e contou que, desde que seu marido falecera, sempre que se sentia solitária ou ansiosa, ela abraçava seu ursinho de pelúcia por algum tempo contra o rosto e isso a fazia sentir-se melhor.

Elas continuaram a conversar. Susan disse que sempre quisera lavar seus ursinhos, mas tinha medo de que eles se estragassem. Ela estava encantada com a velha e com sua história, e por isso continuaram a falar. Minha filha agradeceu à senhora pelo conselho e explicou que tinha se separado recentemente e estava arrumando seu novo apartamento.

A velha disse que, se ela fosse sua filha, a levaria para sua casa. Assim ela não viveria sozinha. Eu queria dizer a Susan que compartilhava os sentimentos daquela senhora. Ao mesmo tempo, sabia que ela tinha que encontrar o seu próprio caminho. Embora quisesse abrigá-la, no fundo do meu coração, eu sabia que esta não era a melhor solução para ela.

Às vezes fazer o que é melhor para os filhos pode ser muito difícil. Observar a luta - emocional, financeira ou o que seja de minha filha está me causando um aperto no coração. Eu realmente gostaria de abrigá-la, levá-la para casa e colocá-la, com seus ursinhos, na cama.

Susan era e é uma linda menina. Embora ela seja hoje uma mulher de vinte e oito anos, às vezes é difícil para mim pensar na minha filhinha desse modo.

Terminamos de lavar os ursinhos e agora ela está voltando para a sua casa. Seus ursinhos estão todos lá, limpos, arrumados E cheirosos. Eu sei que ela vai abraçá-los, encostando-os contra o rosto por um longo tempo, durante os muitos dias e as muitas noites que virão, e que isto vai ajudá-la a sentir-se melhor. Eles absorverão suas lágrimas e a abraçarão também, sempre que ela precisar. E retribuirão o sorriso que ela finalmente vai dar.

Cuide da minha menininha, Ursinho. Ame-a com toda a sua força. Este grande e vasto mundo pode ser um lugar bem assustador. Segure sua mão, abrace-a forte e lembre-a do quanto seu pai, eu e suas irmãs a amamos. Ajude-a a encontrar esse lugar que existe em cada um de nós, esse lugar cheio de paz e de aconchego que nos faz compreender que tudo vai dar certo, que amanhã é um novo dia e que todas as respostas que nós procuramos estão dentro de nós mesmos. Lembre-a sempre de que o tempo cura tudo e que depois da dor vem um enorme crescimento pessoal. E que não há nenhum bicho-papão embaixo da cama.

Sonhe com os anjos, minha filha adorada. Que a glória do seu sol da manhã e que a luz de sua lua magnífica seque todas as suas lágrimas e curem seu coração e seu espírito. E que cada novo amanhã possa trazer-lhe uma alegria profunda e duradoura, minha amada criança, e a paz dos ursinhos de pelúcia.

 

 

Se os canyons fossem abrigados das ventanias,

nunca se veria a beleza de suas escarpas.

ELIZABETH KÜBLER-ROSS

 


 

O TESOURO MAIS PRECIOSO

THE BEST OF BITS e PIECES

Histórias Para Aquecer o Coração 2 59

 

Uma mulher velha e sábia fazia uma viagem através das montanhas quando, no leito de um rio, encontrou uma pedra preciosa. No dia seguinte, continuando seu caminho, deparou-se com um viajante que tinha fome e, para atender a seu pedido de ajuda, a mulher abriu a bolsa para dividir com ele sua comida.

O homem deslumbrou-se com a visão da pedra e pediu à mulher que lhe desse de presente. Sem hesitar, ela lhe entregou a joia. O viajante se foi, rejubilando-se por sua sorte. O tesouro poderia garantir-lhe segurança para toda a vida.

Mas, alguns dias depois, ele voltou à procura da mulher. Ao encontrá-Ia, entregou-lhe a pedra, dizendo: "Pensei muito e sei bem o valor desta pedra, mas venho devolvê-la. O que quero é algo muito mais precioso. Se for possível, me dê o que está dentro de você e que a fez capaz de me entregar um tesouro como esse."

 


 

TREZENTOS E SESSENTA E CINCO DIAS

ROSEMARIE GIESSINGER

Histórias Para Aquecer o Coração 2 62

 

De acordo com meus amigos, sou uma pessoa segura e educada, razoavelmente inteligente, organizada e criativa. Mas, na maior parte da minha vida adulta, por quatorze dias em cada ano eu sentia como se não tivesse nenhuma dessas qualidades. E o pior é que isto acontecia quando meus pais - que moravam a dois mil e quinhentos quilômetros de distância durante trezentos e cinquenta e um dias no ano - vinham me visitar. Em todos os outros dias eu levava minha vida muito bem, como esposa, mãe, executiva e fazendo meu trabalho voluntário. Mas a visita deles era uma verdadeira tortura para mim.

Essa é uma história muito antiga. Como filha mais velha, tinham sido colocadas muitas expectativas de sucesso 'e responsabilidade sobre mim. E a minha sensação era que, por mais que eu fizesse, nunca correspondia a elas. O fato de ter ido morar longe, com um marido que me amava do jeito que eu era, trouxera uma grande libertação. Mas bastava que meus pais – meu pai sobretudo - se aproximassem para acordar a menininha intimidada que persistia em existir dentro de mim. Eu me sentia ressentida com eles por ainda terem o poder de me fazer sentir insegura e incompetente.

Não era apenas eu que sofria durante as visitas dos meus pais - todos à minha volta sofriam também. Com certeza meu querido marido - estamos casados há trinta anos - sofria comigo. Nas semanas anteriores à visita, eu limpava a casa, infernizava meu marido para consertar tudo o que estivesse quebrado, comprava novas cortinas, travesseiros e lençóis. Planejava refeições finas, enchia o congelador de comida e ficava atrás dos meus filhos para arrumarem os quartos, terem bons modos, falarem em voz baixa. Durante a visita havia sempre uma aura de tensão ao meu redor, como um véu diáfano (talvez fosse mais como um cobertor de lã molhado!). Depois da visita seguiam-se noites de discussões com meu marido. Eu ficava tentando decifrar o que meu pai dissera ou não dissera.

E chorava muitas vezes, sentindo-me uma criança rejeitada e exausta. Em trinta anos de casamento houve vários altos e baixos, mas a prova real do amor de Dave era me ajudar a sobreviver a essas visitas!

Um dia, uma amiga me convidou para participar de um grupo de espiritualidade e um mundo novo se abriu para mim. Passei a ler sobre o assunto e a meditar diariamente, e fui adquirindo uma paz interior que nunca conhecera. O tema que mais me atraía era o do perdão. Perdoar, desapegar-se dos ressentimentos, compreender que aqueles que nos fizeram sofrer na maioria das vezes não tinham consciência disso e reproduziam apenas algo de que tinham sido vítimas.

Então papai foi acometido do mal de Parkinson. Em pouco tempo, o homem cheio de vida, inteligente, o deus atlético da minha infância se transformou num velhinho cambaleante, desolado e confuso. Talvez essa sua vulnerabilidade tenha evidenciado os aspectos frágeis de sua personalidade. O fato é que tornou-se muito mais fácil para mim perdoá-lo.

E assim eu fiz. Apenas disse várias vezes em voz alta: "Eu perdôo você, papai." A mágoa foi se dissolvendo e deixando fluir o amor que eu sentia por ele. Consegui ir me livrando das imposições e exigências que já não vinham de meus pais, mas de mim mesma. Tomei posse do meu ser, do meu próprio desejo, dos meus sentimentos, e tudo isso me trouxe muita paz. Jamais disse explicitamente a meu pai que o havia perdoado, mas isso deve ter ficado claro para ele em algum nível, porque toda a nossa relação se transformou.

No verão anterior à sua morte, papai veio sozinho ficar conosco por duas semanas. Eu o recebi com tranquilidade, sem os preparativos e a tensão das outras vezes. Senti-o como um amigo com quem foi bom conversar de coração aberto, falando de mim e ouvindo-o contar sua vida.

Pela primeira vez em nossas vidas tivemos gestos de carinho um com o outro e ele disse como se sentia à vontade em nossa casa, como era bonito o meu jardim florido. Na hora de se despedir, meu pai me abraçou forte, beijou a minha testa e disse algo que nunca dissera antes: "Minha filha, eu te amo muito." Meu pai nunca mais voltou à minha casa. Depois que ele morreu, minha mãe mandou fazer um vídeo, com fundo musical e tudo, com as passagens mais gloriosas de sua vida. Levanto os olhos do que estou escrevendo e vejo a fita cassete na prateleira de livros. Jamais assisti ao vídeo. O essencial de minha vida com meu pai se concentrou naquelas duas semanas. As lembranças que quero guardar são de papai na varanda, na cadeira de vime, banhado pelos raios de sol, regando as plantas, brincando, conversando, partilhando a vida conosco e me amando.

O perdão total e incondicional trouxe conforto para minha alma e me abriu as portas para uma vida que eu não imaginava possível.

Agora, além de ser esposa, mãe, avó e conselheira espiritual, sou uma pessoa inteira trezentos e sessenta e cinco dias no ano.


 

MOÇA, A SENHORA É RICA?

MARION DOOLAN

Histórias Para Aquecer o Coração 2 66

 

Era inverno e elas entraram às pressas pela porta dos fundos - duas crianças em casacos surrados e pequenos para o seu tamanho.

''A senhora tem aí uns jornais velhos?" Eu estava ocupada. Queria dizer não, mas olhei para os seus pés e vi que usavam sandálias abertas, cheias de gelo. "Entrem, que eu faço uma xícara de chocolate para vocês." Suas sandálias encharcadas deixaram marcas na pedra da lareira, mas eu não consegui reclamar.

Servi o chocolate quente acompanhado de torradas com geleia e voltei para a cozinha, onde retomei meu trabalho.

Estranhando o silêncio na sala da frente, fui até lá ver o que estava acontecendo.

A menina segurava a xícara vazia e a olhava atentamente. O menino me perguntou numa voz sem emoção: "Moça, a senhora é rica?"

"Rica? Eu? Misericórdia!" Olhei para meus estofados gastos. A menina pôs a xícara sobre o pires, cuidadosamente. "Suas xícaras combinam com os pires." Sua voz era a de uma pessoa mais velha, com uma fome que não vinha do estômago.

Eles saíram, segurando os maços de jornal, lutando contra o vento. Nem agradeceram, mas não era necessário. Tinham feito muito mais do que isso. Xícaras e pires tão simples, de louça azul. Mas combinavam. Virei o assado e coloquei as batatas no molho. Batatas com molho ferrugem, um teto sobre a cabeça, meu marido com um emprego estável - essas coisas também combinavam.

Tirei as cadeiras de perto da lareira e limpei a sala. As pegadas cheias de lama ainda estavam por ali e eu as deixei ficar.

Quero que permaneçam no mesmo lugar, caso eu me esqueça novamente de como sou rica.

 


 

FIOS QUE SE ENTRELAÇAM

ANN SEELY sob a supervisão de Laura J. Teamer

Histórias Para Aquecer o Coração 2 68

 

A linda colcha de retalhos era mesmo muito antiga, com muitas das tramas de seda quase desfeitas, mas ainda muito bonita. O tecido estava surrado e desbotado, mas ela havia sido tratada com carinho por muitos anos.

A professora que ensinava a fazer as colchas de retalhos um dia levantou a peça para mostrá-Ia às alunas, explicando: "Este é um tipo de desenho muito usado para colchas no século dezenove.

Esta aqui foi tecida por alguém que dispunha de vários tipos de tecidos, pois apresenta muita variedade. Depois de comprá-Ia, percebi que era originalmente maior. Alguém a dividiu ao meio." Todas as alunas lamentaram. Quem poderia ter cortado uma colcha tão bonita?

 

Uma carroça rumava para o Oeste. O ano era 1852...

 

Enquanto se enrolava com a irmã na colcha para dormir, Katherine pensava nos acontecimentos dos últimos três anos.

Aquele era um dia especial, pois Katherine e Lucy comemoravam seus aniversários. Katherine fazia treze anos; Lucy, apenas três. Katherine ficara muito feliz em, finalmente, ganhar uma irmãzinha! Lucy chegara como um presente, bem no dia do seu aniversário. A vida parecia correr na maior harmonia. Mas aconteceu uma tragédia quando Lucy tinha só um ano e meio. Sua mãe morreu e o pai decidiu que deviam se mudar para o Oeste.

Tudo o que possuíam foi vendido, doado ou colocado na carroça, e eles partiram em uma caravana. Naquele dia de aniversário, as duas irmãs se aconchegavam debaixo da colcha, que era tudo o que tinham para se lembrar da mãe e da casa que deixaram.

"Conte uma história", Lucy pediu. "Conte uma história dos quadrados da colcha."

Katherine sorriu. Toda noite a cena se repetia. Lucy adorava ouvir histórias sobre a colcha e Katherine adorava contá-Ias.

"De qual dos quadrados?", perguntou. Lucy passou a mão sobre a colcha até chegar a um quadrado azul-claro, decorado com flores. "Este aqui, Katy." A história daquele quadrado azul era sua favorita.

"Bem, este retalho vem de um vestido de festa de uma moça com um lindo cabelo ruivo. Seu nome era Nell e todos a consideravam a moça mais bonita da cidade..." Lucy logo adormecia, mas Katherine continuava a olhar a colcha. Cada quadrado trazia à sua lembrança histórias ligadas à casa, aos amigos, à família e aos tempos mais felizes. Sua mãe fora modista e sempre tinha retalhos em casa. Assim, quase todos os quadrados eram diferentes. Tecidos finos, sedas e brocados de vestidos de festa das moças da cidade se alternavam com retalhos de vestidos da própria Katherine. Um outro viera da camisola de batizado de Lucy. Aqui, um pedaço de um vestido de noiva, ali um pedaço do avental da avó. A colcha que lhes aquecia o corpo e o coração era agora o único bem que mantinha os vínculos com as alegrias do passado. Katherine adormecia agradecendo por aquela colcha, seu conforto e consolo. E as histórias da colcha se multiplicaram pelo caminho.

Estavam na estrada há umas três semanas quando Lucy caiu doente, com muita febre. Katherine fez o possível para ela se sentir melhor. Durante o dia, sentava-se com a pequena na carroça, no seu lento avançar. Acariciava seu cabelo, ajeitava seu travesseiro e escolhia canções de que gostavam. À noite, com Lucy em seu colo, contava histórias dos quadrados da colcha, até que ela adormecesse.

Um dia, no fim da tarde, durante uma parada, Katherine foi buscar um pouco de água fresca no pequeno rio próximo. Ao pegar o balde, foi tomada de um sentimento de paz e sentiu que Lucy logo estaria bem. Katherine caminhou devagar sobre a grama macia em direção à água, encheu o balde e se sentou.

Deitou-se sobre a grama, olhando o céu tão azul e se lembrou dessas palavras reconfortantes: "Este é o dia feito pelo Senhor.

Alegra-te e sê feliz."  Talvez tudo vai ficar bem, ela pensou.

Quando foi se aproximando da carroça, ela gelou de medo. Três homens estavam cavando a terra não muito longe. "Uma cova! Lucy!", ela gritou. "Lucy, Lucy, Lucy." Katherine deixou cair o balde e começou a correr. Lágrimas desciam pelo seu rosto. O coração parecia arrebentar seu peito.

Ao entrar na carroça, viu a colcha cuidadosamente dobrada no lugar onde Lucy se deitava.

Atordoada, saiu em busca de seu pai. Encontrou-o perto dos outros homens, com o corpo imóvel de Lucy no colo.

Olhou para Katherine, os olhos vermelhos e inchados e simplesmente disse: "Ela agora está em paz." A dor de Katherine era imensa. Uma das mulheres abraçou-a carinhosamente, dizendo: "Vamos precisar de alguma coisa para enrolá-Ia. Não precisa ser nada muito grande." Katherine assentiu com um gesto, enquanto entrava na carroça. Não se sabe bem como, conseguiu achar a tesoura.

Pegou a colcha com cuidado e, de coração partido, dividiu-a em dois pedaços.

 

 

O amor é o símbolo da eternidade;

ele nos faz perder qualquer noção de tempo.

ANNA LOUISE DE STAEL

 


 

O QUE SIGNIFICA SER ADOTADO

GEORGE DOLAN

Histórias Para Aquecer o Coração 2 72

 

Debbie Moon, professora do primeiro ano, estava com seus alunos vendo a fotografia de uma família. Na foto, um menininho tinha o cabelo de cor diferente da dos outros.

Uma das crianças achou que ele era diferente porque devia ter sido adotado, e uma menininha chamada Jocelyn disse: "Eu sei tudo sobre adoção porque eu sou adotada." "O que quer dizer ser adotado?", perguntou uma outra criança.

"Significa”, disse Jocelyn, "que você cresceu no coração de sua mãe em vez de crescer na barriga dela."

 


 

AS PALAVRAS CERTAS

JANE LINDSTROM

Histórias Para Aquecer o Coração 2 73

 

Um suéter cinza largado sobre a carteira vazia de Tommy lembrava o menino desanimado que acabara de sair da sala com seus colegas do terceiro ano. Logo os pais de Tommy, que haviam acabado de se separar, chegariam para uma reunião convocada por mim para falar sobre o mau desempenho escolar e o comportamento insubordinado de seu filho. Nenhum dos dois sabia que eu havia chamado o outro.

Tommy, filho único, sempre fora feliz, gostava de cooperar e era ótimo aluno. Como eu poderia mostrar a esse pai e a essa mãe que as recentes notas insuficientes representavam a reação de uma criança magoada com a separação dos pais e o divórcio que se aproximava?

A mãe de Tommy entrou e se sentou em uma das cadeiras que eu pusera perto de minha mesa. Logo o pai chegou. Ótimo!

A pontualidade dos dois evidenciava sua preocupação. Eles se olharam com surpresa e irritação e acintosamente se ignoraram.

Enquanto eu fazia um relato do comportamento e do rendimento escolar de Tommy, rezava para encontrar as palavras capazes de unir esses dois e ajudá-Ios a perceber o que estavam fazendo com o filho. Mas as palavras não vinham. Pensei então em mostrar-Ihes um dos trabalhos de Tommy, todo borrado, feito sem cuidado, achando que poderia dar-Ihes a dimensão da perturbação do menino.

Achei uma folha de papel amarrotada e manchada de lágrimas enfiada atrás de sua carteira, um dever de inglês. Ele escrevera dos dois lados da folha - não com a tarefa, mas com uma simples frase, escrita e reescrita.

Em silêncio, eu desamassei a folha e a entreguei à mãe de Tommy. Ela a leu e, sem dizer palavra, entregou-a ao marido.

Primeiro ele franziu as sobrancelhas, depois sua face se desanuviou. Ele ficou lendo as palavras por um tempo - tempo que pareceu uma eternidade.

Finalmente ele dobrou o papel cuidadosamente e o colocou no bolso, estendendo a mão para a mulher. Ela enxugou as lágrimas e sorriu para o marido. Eu tinha os olhos marejados, mas eles nem me notavam. Ele a ajudou a colocar o casaco e saíram juntos.

A sua maneira, Deus me fez encontrar as palavras certas para reunir essa família. Ele me guiou até a folha do dever de

Tommy, toda escrita com o angustiado desabafo do coração atribulado de um menino.

As palavras certas foram: "Querida Mamãe... Querido Papai... Eu amo vocês, eu amo vocês, eu amo vocês."

 


 

O CAVALEIRO COM COMPAIXÃO NOS OLHOS

AUTOR DESCONHECIDO

Do livro de Brian Cavanaugh, The Sower's Seeds (As sementes do semeador)

Histórias Para Aquecer o Coração 2 80

 

Era uma tarde de tempo feio e frio no norte da Virgínia, há muitos anos. A barba do velho estava coberta de gelo e ele esperava alguém para ajudá-lo a atravessar o rio. A espera parecia não ter fim. O vento cortante tornava seu corpo dormente e enrijecido.

Ele ouviu o ritmo fraco e ritmado dos cascos de cavalos a galope sobre o chão congelado. Ansioso, observou quando vários cavaleiros apareceram na curva. Ele deixou o primeiro passar, sem procurar chamar sua atenção. Então veio outro e mais outro. Finalmente, o último cavaleiro se aproximou do lugar onde o velho estava parado como uma estátua de gelo.

Depois de observá-Io rapidamente, o velho lhe acenou, perguntando: "O senhor poderia levar este velho para o outro lado?

Parece não haver uma trilha para eu seguir a pé." O cavaleiro parou o cavalo e respondeu: "É claro. Pode montar." Vendo que o velho não conseguia levantar o corpo semi-congelado do chão, ajudou-o a montar e não só atravessou o rio com o velho, mas o levou ao seu destino, algumas milhas adiante.

Quando se aproximavam da casa pequena, mas aconchegante, curioso, o cavaleiro perguntou: "Eu percebi que o senhor deixou vários outros cavaleiros passarem sem fazer qualquer gesto para pedir ajuda na travessia. Então eu apareci e o senhor imediatamente me pediu para levá-Io. Eu gostaria de saber por que, numa noite fria de inverno, o senhor pediu o favor ao último a passar. E se eu tivesse me recusado e o deixado na beira do rio?" O velho apeou do cavalo devagar. Olhou o cavaleiro bem nos olhos e respondeu: "Eu já vivi muito e acho que conheço as pessoas muito bem." Parou um instante e continuou: "Olhei nos olhos dos outros que passaram e vi que eles não se condoeram da minha situação. Seria inútil pedir-Ihes ajuda. Mas, quando olhei nos seus olhos, ficaram claras sua bondade e compaixão. A vida me ensinou a reconhecer os espíritos bondosos e dispostos a ajudar os outros na hora da necessidade." Essas palavras tocaram profundamente o coração do cavaleiro: "Fico agradecido pelo que o senhor falou", disse ao velho.

"Espero nunca ficar tão ocupado com meus próprios problemas que deixe de corresponder às necessidades dos outros com bondade e compaixão." Falando isso, Thomas Jefferson virou seu cavalo e voltou para a Casa Branca.

 


 

AS MULHERES QUE CRUZARAM MEU CAMINHO

REV. MELISSA M. BOWERS

Histórias Para Aquecer o Coração 2 83

 

Hoje, quando tomo consciência de quem eu sou, penso em todas as mulheres que, ao cruzarem meu caminho, ajudaram a construir meu ser. A elas quero prestar uma homenagem.

A mulher que me fez nascer e que ao me aconchegar e me amamentar transmitiu-me a segurança de que o mundo era bom e de que o amor constituía o valor mais fundamental. A essa mulher que acolheu minhas necessidades, que sempre me apoiou nas horas difíceis, embora muitas vezes, ao me estender a mão, me dissesse que eu era capaz de andar com minhas próprias pernas e que ela não iria me carregar no colo. Senti raiva, mas fui em frente e descobri em mim uma força insuspeitada. Sou extremamente grata por isso.

As mulheres que cruzaram o meu caminho e me respeitaram como ser humano, respeitaram minhas características únicas e me amaram como eu era, em vez de me dizer como eu devia ser para que me amassem.

Às mulheres que cruzaram o meu caminho e que com seu exemplo me mostraram que a vida dentro de nós tem uma imensa força de superação, que as piores tragédias serão superadas, que o riso renasce depois das lágrimas mais trágicas.

Às mulheres que cruzaram o meu caminho e me ensinaram que essa força, o amor capaz das maiores doações, a sabedoria, a coragem e a generosidade são manifestações de Deus em nós, e com isso me fizeram acreditar em Deus. Porque até então eu rejeitava o Deus que pune, que julga, que condena.

Às mulheres que cruzaram meu caminho e que me ensinaram que o que eu achava que fossem erro e fracasso são oportunidades preciosas de aprendizado, e por isso não me deixaram paralisada pela culpa, mas me ajudaram a crescer com os acontecimentos da vida.

Às mulheres que cruzaram o meu caminho e que me provaram o valor da verdade como um direito soberano do ser humano: a verdade do nosso desejo, da nossa opinião, da afirmação da nossa realidade pessoal, desde que estejamos abertos para ouvir e acolher a verdade dos outros e negociar com ela.

Às mulheres que por sua amargura, egoísmo e futilidade me mostraram claramente que eu não queria ser assim, e dessa forma me ajudaram a combater os meus aspectos amargos, egoístas e fúteis.

Às mulheres que cruzaram o meu caminho e me mostraram o que eu sou e o que eu não sou, que me apoiaram ternamente com amor, força e confiança, que me chamaram a atenção com carinho, cuja crítica foi uma manifestação do desejo do meu crescimento e da sua crença em mim.

A essas mulheres eu abençôo e agradeço do fundo do coração, porque fui fortalecida e libertada através de sua alegria e de seu sacrifício.

 


 

A FUGA

LOIS KRUEGER

Histórias Para Aquecer o Coração 2 89

 

Num desses dias agitados, em que temos mil coisas diferentes para fazer, Justin, nosso filho de quatro anos, não parava de fazer bagunça. Depois de várias tentativas para fazê-lo ficar quieto, - meu marido o mandou de castigo para o canto da sala.

Justin chorou, esperneou, emburrou e finalmente disse: "Vou fugir de casa." Minha primeira reação foi de surpresa e, irritada, falei: "Ah, vai?" Quando me virei e o olhei, ele parecia um anjo, tão pequeno, encolhido ali no canto, com um ar tão triste. Então, larguei tudo e parei.

Com o coração partido, me lembrei de uma passagem de minha própria infância, quando eu também quis fugir de casa porque me sentia tão rejeitada e incompreendida. Ao anunciar "vou fugir de casa”, Justin estava dizendo: "Por favor, prestem atenção em mim. Eu também sou importante. Por favor, façam com que eu me sinta desejado e amado incondicionalmente." "Tudo bem, Justin, você vai poder fugir de casa”, falei baixinho para ele, enquanto começava a pegar umas roupas no meu armário e colocar numa sacola.

"Mamãe", ele perguntou, "O que você está fazendo?" "Se você vai fugir de casa, então mamãe vai com você, porque não quero ver você sozinho nunca. Gosto muito de você, Justin.

Eu o abracei e ele perguntou: "Por que você quer ir comigo?" Olhei-o com carinho: "Porque eu gosto muito de você e vou ficar muito, muito triste se você for embora. E também quero tomar conta de você para que nada de mal te aconteça." "Papai também pode ir?"

"Não, papai tem que ficar com seus irmãos, e papai tem de trabalhar e tomar conta da casa quando nós não estivermos aqui."

"O meu hamster pode ir?" "Não, ele também tem que ficar aqui."

Justin parou um instante para pensar e disse: "Mamãe, podemos ficar em casa?" "Claro, Justin, podemos ficar em casa."

"Mamãe."

"O que é, Justin."

"Eu amo você."

"Eu amo você também, querido, muito, muito, muito. Que tal me ajudar a fazer pipoca?"

"Oba! Tudo bem."

Nesse instante me dei conta da maravilhosa dádiva que é ser mãe. De como somos fundamentais quando levamos a sério a responsabilidade sagrada de ajudar uma criança a desenvolver o sentido de segurança e o amor-próprio. Abraçando Justin, percebi que no; meus braços eu tinha o tesouro inestimável da infância, uma pessoinha que dependia do amor e segurança que recebesse, do atendimento de suas necessidades, do reconhecimento de suas características únicas para tornar-se um adulto feliz. Aprendi que, como mãe, jamais devo "fugir" da oportunidade de mostrar a meus filhos que eles são amados, desejados e importantes, o presente mais precioso que Deus me deu.


 

APRENDENDO A DIZER NÃO

BÁRBARA K. BASSETT

Histórias Para Aquecer o Coração 2 92

 

Quando Angela tinha apenas dois ou três anos, seus pais a ensinaram a nunca dizer NÃO. Ela devia concordar com tudo o que eles falassem, pois, do contrário, era uma palmada e cama. Assim, Angela tornou-se uma criança dócil, obediente, que nunca se zangava. Repartia suas coisas com os outros, era responsável, não brigava, obedecia a todas as regras, e para ela os pais estavam sempre certos.

A maioria dos professores valorizava muito essas qualidades, porém os mais sensíveis se perguntavam como Angela se sentia por dentro.

Angela cresceu cercada de amigos que gostavam dela por causa de sua meiguice e de sua extrema prestatividade: mesmo que tivesse algum problema, ela nunca se recusava a ajudar os outros.

Aos trinta e três anos, Angela estava casada com um advogado e vivia com sua família numa casa confortável. Tinha dois lindos filhos e, quando alguém lhe perguntava como se sentia, ela sempre respondia: está tudo bem.

Mas, numa noite de inverno, perto do Natal, Angela não conseguiu pegar no sono, a cabeça tomada por terríveis pensamentos. De repente, sem saber o motivo, ela se surpreendeu desejando com tal intensidade que sua vida acabasse, que chegou a pedir a Deus que a levasse.

Então ela ouviu, vinda do fundo do seu coração, uma voz serena que, baixinho, disse apenas uma palavra: NÃO.

Naquele momento, Angela soube exatamente o que devia fazer. E eis o que ela passou a dizer àqueles a quem mais amava:

 

Não, não quero

Não, não concordo

Não, faça você

Não, isso não serve pra mim

Não, eu quero outra coisa

Não, isso doeu muito

Não, estou cansada

Não, estou ocupada

Não, prefiro outra coisa.

 

Sua família sofreu um impacto, seus amigos reagiram com surpresa. Angela era outra pessoa, notava-se isso nos seus olhos, na sua postura, na forma serena mas afirmativa com que passou a expressar o seu desejo.

Levou tempo para que Angela incorporasse o direito de dizer NÃO à sua vida. Mas a mudança que se operou nela contagiou sua família e seus amigos. O marido, a princípio chocado, foi descobrindo na sua mulher uma pessoa interessante, original, e não uma mera extensão dele mesmo. Os filhos passaram a aprender com a mãe o direito ao próprio desejo. E os amigos que de fato amavam Angela, embora muitas vezes desconcertados, se alegraram com a transformação.

À medida que Angela foi se tornando mais capaz de dizer NÃO, as mudanças se ampliaram. Agora ela tem muito mais consciência de si mesma, dos seus sentimentos, talentos, necessidades e objetivos. Trabalha, administra seu próprio dinheiro, e nas eleições escolhe seus candidatos.

Muitas vezes ela fala com seus filhos: "Cada pessoa é diferente das outras e é bom a gente descobrir como cada um é.

O importante é dizer o que você quer e ouvir o desejo do outro, dizer a sua opinião e ouvir o que o outro acha. Só assim podemos aprender e crescer. Só assim podemos ser felizes."

 


 

A BELEZA VERDADEIRA

ALISON LAMBERT com JENNIFER ROSENFELD

Histórias Para Aquecer o Coração 2 95

 

Quando você tem quinze anos, costuma ficar em frente ao espelho pesquisando cada pedacinho do seu rosto. Entra em desespero porque acha que seu nariz é muito grande ou porque mais uma espinha está surgindo. Além de tudo, você se acha feia porque seu cabelo não é louro e o menino mais bonito da turma nunca notou sua existência.

Alison não conheceu esses problemas. Era bonita, simpática, popular e inteligente, além de ser a campeã de natação da escola. Alta, com seu corpo esbelto, olhos de um profundo azul-piscina e lindos cabelos louros, mais parecia uma modelo do que uma estudante comum. Mas, durante o verão, alguma coisa mudou.

Um dia, ao enxugar o cabelo, ela notou uma falha no couro cabeludo. Aquilo a intrigou, mas Alison achou que devia ter apertado muito o elástico no rabo-de-cavalo. Logo se esqueceu do incidente.

Três meses depois, uma outra falha no couro cabeludo de Alison. E outra. E mais uma. Em pouco tempo, sua cabeça estava repleta de falhas de cabelo. Os diagnósticos e os tratamentos se multiplicaram até se descobrir que Alison sofria de uma doença chamada alopecia e nada poderia deter seu curso.

Como Alison era muito querida, os amigos a apoiaram procurando lhe dar força. Mas, certo dia, sua irmã menor entrou no quarto com uma toalha na cabeça para que a mãe a penteasse. Quando a mãe desenrolou a toalha, Alison observou os cabelos espessos e luminosos da irmã caírem sobre os ombros e, pela primeira vez, chorou, dando vazão à tristeza que sentia.

Naquele momento, Alison teve uma percepção profunda: havia uma escolha a fazer. Ela não podia deixar que o problema com o cabelo a dominasse a ponto de tirar-lhe o gosto de viver. Afinal, ela era muito mais do que o seu cabelo. Alison decidiu assumir sua condição e procurar soluções. Começou comprando não apenas uma, mas várias perucas de cores e tamanhos diferentes, que usava de acordo com a ocasião e com seu estado de espírito. Num dia em que a peruca voou de sua cabeça pela janela aberta do carro de um amigo, ela conseguiu rir da situação.

Quando a escola abriu as inscrições para o campeonato de natação, Alison se preocupou. Se não podia usar peruca na água, como competir? "Por que isso?", perguntou seu pai. "Por acaso você se esqueceu como se nada?" Ela entendeu a mensagem. Depois de passar apenas um dia com uma touca desconfortável, Alison se encheu de coragem e deixou a careca à mostra. Houve alguns olhares e comentários maldosos, mas a maioria das pessoas admirou o gesto de Alison, e rapidamente ela se acostumou com sua nova aparência. Voltou para a escola no outono - sem cabelo, sem sobrancelhas, sem cílios e deixando a peruca esquecida no fundo do armário.

Como sempre planejara, ela se candidatou a representante da escola e acrescentou ao seu discurso de campanha slides de líderes carecas, como Gandhi. Todos os alunos riram muito da ideia. No primeiro discurso após a vitória, Alison dirigiu-se à audiência contando seus planos como representante e respondendo a perguntas. Ao final acrescentou:

"Gostaria de compartilhar uma experiência muito particular. Todos presenciaram o problema que tive que enfrentar e agradeço do fundo do coração o apoio e a força que me deram. Eles foram fundamentais para que essa experiência promovesse uma descoberta da maior importância na minha vida: de que a beleza se encontra numa dimensão muito mais profunda do que o nosso aspecto exterior. Não vou negar que sinto falta do meu cabelo e que às vezes sofro com a sua perda. Mas quero lhes afirmar com toda a sinceridade: sou grata por ter descoberto que o amor é o valor essencial e que depende exclusivamente de mim desenvolvê-lo. Obrigada, meus amigos." Todo mundo vibrou e aplaudiu.

E Alison, linda, popular e inteligente, ainda por cima campeã de natação e agora representante da escola, com seus olhos azul-piscina, do alto da tribuna, sorriu e agradeceu.

 


 

IGUALZINHA A VOCE

CAROL PRICE

Histórias Para Aquecer o Coração 2 102

 

Quando eu estava no segundo grau, duas coisas muito importantes aconteceram na minha vida. A primeira foi que me apaixonei por um rapaz de nome Charlie. Ele era do último ano, jogava futebol no time da escola e eu o achava o máximo!

Eu sabia que era com ele que eu queria me casar e ter filhos. Mas havia um problema muito sério: ele sequer sabia da minha existência. Nem que eu tinha planos para nós dois...

A segunda coisa importante foi que eu decidi não me submeter mais a qualquer cirurgia nas mãos. Eu nasci com seis dedos em cada mão e sem nenhuma articulação. A primeira cirurgia foi feita quando eu tinha seis meses de idade e, aos dezesseis anos, somavam-se vinte e sete operações. Os dedos extras foram removidos, alguns foram encurtados e se criaram articulações. Eu fora uma espécie de exemplar raro, exibido, às vezes, ante mais de quinhentos cirurgiões de mão.

Minhas mãos ainda não eram "normais", mas eu chegara ao meu limite. Aos dezesseis anos senti-me no direito de dizer: "Me deixem em paz!" Minha família apoiou minha decisão, dizendo-me que, se eu quisesse, poderia fazer outras operações mais tarde. Mas eu pensei: "Chega, não preciso de mais sofrimento. Minhas mãos vão ficar do jeito que estão." E assim foi.

Eu tinha um amigo de infância chamado Don. Tínhamos estudado junto desde o primeiro ano e éramos bem próximos.

Uma tarde, estávamos em minha casa conversando sobre o baile da escola, que se aproximava. Tínhamos planejado passar a noite toda fora, embora sem saber bem o que íamos fazer todo esse tempo na rua. Mas a idéia parecia ótima.

Inesperadamente, Don me olhou e disse: "Você gosta mesmo um bocado do Charlie, não gosta?" "Gosto. Muito", eu respondi. "Olhe, Carol, tenho que lhe dizer uma coisa.

Charlie nunca vai ficar com você", Don continuou. "Por que não?", perguntei, ao mesmo tempo que pensava: Já sei, vou pintar o cabelo de louro, eu sei que isso vai funcionar. Não, não, já sei, vou me tornar líder de torcida. Todo o mundo adora líderes de torcida.

Mas Don me disse: "Carol, você não está entendendo.

Charlie nunca vai querer você porque você é deformada." Eu ouvi mesmo isso. Acreditei nisso. Vivi essa situação. Suas palavras foram um rude golpe.

Eu me tornei professora primária porque pensei que pudesse ser uma boa profissão para quem tem uma deformidade.

No meu primeiro ano como professora, eu tinha como aluna uma menininha chamada Felícia. Era a criança mais deslumbrante que eu jamais conhecera. Uma tarde, estávamos todos treinando a letra A. Para um aluno do primeiro ano, isso significa um lápis grosso e vermelho, papel pautado verde e um esforço concentrado para "fazer uma bolinha e depois puxar uma perninha”.

Todos estavam quietinhos e trabalhando. Prestei atenção em Felícia, como sempre fazia, e vi que ela estava escrevendo com os dedos cruzados uns sobre os outros. Na ponta dos pés, me aproximei, me inclinei e falei baixinho: "Felícia, por que você está escrevendo com os dedos cruzados?" A menininha olhou para mim com seus olhos grandes e bonitos e disse: "Porque quero ser igualzinha a você, senhorita Price."

Felícia nunca viu uma deformidade em mim, apenas uma característica especial que queria ter também. Todos nós vemos alguma coisa que não seja muito boa em nós como uma deformidade. Podemos nos considerar deformados ou portadores de uma característica especial. E essa escolha vai determinar como será a nossa vida.

 


 

EU CONVERSO COMIGO MESMA

PHIL COLBURN

Histórias Para Aquecer o Coração 2 109

 

Tenho conversado muito comigo ultimamente sobre as coisas que faço.

Volta e meia preciso seriamente de uma conversa.

 

"Endireite sua coluna”, digo a mim mesma ao chegar à beira da escada.

Jogo os ombros para trás e começo a jornada.

Só espero não cair.

 

Quando eu acordo e a dor está pior, eu falo:

"Lembre-se de que no mundo sempre existe uma dor maior.

E essa aqui vai passar."

 

É realmente um problema não ouvir o que estão falando,

Eu me preocupo pensando

Se não respondi alguma bobagem.

 

Mas aí eu digo para mim mesma:

Que resposta boba não é nenhuma novidade.

Quantas vezes, enquanto ainda escutava bem,

Eu não disse bobagem também?

 

Sei que hoje preciso de óculos para leitura

 

E por ISSO converso comigo:

''Agradeça por poder ler.

Muitos não podem nem ver."

 

Eu me mando levantar e andar, embora preferisse apenas sentar e ler.

Mas, se quero um corpo ágil,

Devo obedecer.

 

Posso andar, ver e ouvir.

Não tão bem, mas ainda consigo.

Acho que me fazem bem

As conversas que tenho comigo.

 

 

Nota do editor: Phil Coburn é uma viúva de noventa e nove anos. Escreve poesia para manter viva a mente e todo mês tem um poema publicado pelo jornal da igreja que frequenta.


 

DEUS ESCOLHE AS MÃES

ERMA BOMBECK

Histórias Para Aquecer o Coração 2 111

 

A maior parte das mulheres torna-se mãe por acidente, outras por escolha, algumas poucas por pressões sociais e um punhado por hábito.

Este ano, cerca de cem mil mulheres vão se tornar mães de bebês com algum tipo de deficiência. Você já pensou como as mães dessas crianças são escolhidas?

Tente imaginar Deus pairando sobre a Terra e selecionando as mães com grande cuidado e deliberação. Enquanto observa, Ele instrui seus anjos a tomarem notas em um livro gigantesco.

Beth Armstrong: filho, santo protetor, Mateus.

Marjorie Forest: filha, santa protetora, Cecília.

Carrie Rudledge: gêmeos, santo protetor... "Dê a ela São Geraldo. Ele está acostumado a ouvir impropérios." Finalmente, ele passa um nome a um anjo e sorri: "Dê a ela um filho cego."

O anjo fica curioso: "Por que ela, Senhor? Ela é tão feliz." "Exatamente por isso", responde Deus. "Como eu poderia dar uma criança com uma deficiência a uma mãe que não soubesse rir? Isto seria uma crueldade." "Mas ela tem paciência?", pergunta o anjo.

"Eu não quero que ela tenha paciência demais, porque é justamente a paciência que ela vai aprender a desenvolver.

Quando o choque e o ressentimento passarem, ela vai saber cuidar da situação." "Mas, Senhor, eu acho que ela nem acredita na Sua existência." Deus sorri. "Isso não importa. Eu posso dar um jeito nisso.

Esta mulher é perfeita. Ela tem a dose certa de egoísmo." O anjo se surpreende: "Egoísmo? Isso é uma virtude?" Deus confirma com um movimento de cabeça: "Se ela não conseguir se separar da criança de vez em quando, para tratar de si mesma, não vai sobreviver. Além disso, se por um excesso de dedicação ela superproteger o menino, criará um ser fragilizado.

 

Sim, aqui está uma mulher a quem eu abençoarei com um filho imperfeito. Ela vai levar tempo para descobrir as bênçãos que isso lhe trará. Mas, aos poucos, ela deixará de achar - como a maioria das pessoas - que os progressos e as conquistas são comuns e naturais e passará a valorizá-Ios como uma fonte de alegria. Ela irá vibrar com cada pequeno passo à frente. Quando o seu filho disser 'Mamãe' pela primeira vez, ela vai sentir que está assistindo a um milagre e ficará maravilhada! E já pensou a emoção quando ele reconhecer um objeto com o toque das mãos. Quando ela precisar descrever uma árvore florida ou o pôr-do-sol ao seu filho cego, ela os verá como poucas criaturas jamais viram as minhas criações. E os perfumes da natureza inebriarão seu olfato quando ela perceber a importância que têm para seu filho." "Vou permitir a ela ver claramente as coisas que eu vejo ignorância, crueldade, preconceito - e dar oportunidade para que as supere. Ela nunca ficará sozinha. Eu não só estarei a seu lado cada minuto de cada dia da sua vida, como me manifestarei em cada gesto de coragem e amor que esta mulher tiver." "E qual será o seu santo protetor?", pergunta o anjo, a caneta suspensa no ar.  Deus sorri "Um espelho bastará”.


 

ISSO VAI MUDAR TOTALMENTE A SUA VIDA

DALE HANSON sob a supervisão de Karen Wheeler

Histórias Para Aquecer o Coração 2 114

 

Estou almoçando com uma amiga quando ela casualmente conta que ela e o marido então pensando em "começar uma família.

"Estamos fazendo uma pesquisa”, diz, meio brincando.

"Você acha que devemos ter um bebê?" "Isso vai mudar totalmente a sua vida”, digo com cuidado, mantendo o tom neutro da voz.

"Eu sei", ela diz. "Nada mais de acordar tarde no sábado, nem de tirar férias quando quiser..." Mas não era bem isso o que eu queria dizer. Olhava para minha amiga, tentando decidir o que falar.

Queria lhe contar das coisas que não vai aprender num curso para grávidas. Quero que saiba que as dores do parto passam, mas tornar-se mãe vai deixar nela uma vulnerabilidade irreversível.

Penso em avisá-Ia de que jamais lerá novamente sobre uma tragédia no jornal sem se perguntar: "E se tivesse sido meu filho?"

Que todo acidente aéreo, todo incêndio vai assustá-Ia. Quando vir fotos de crianças famintas, ela se perguntará se pode haver dor maior do que ver um filho morrer.

Olho para ela: unhas e cabelo impecáveis, vestido elegante.

Por mais sofisticada que possa ser, tornando-se mãe estará reduzida ao estágio primitivo de uma ursa protegendo seu filhote. Um grito aflito de "Mamãe!" vai fazê-Ia derrubar o suflê ou seu cristal mais fino sem a menor hesitação.

Acho que deveria avisá-Ia de que, não importa quantos anos tiver investido em sua carreira, esta será afetada pela maternidade.

Mesmo que tenha uma babá super eficiente, na hora de uma reunião importante vai pensar no cheirinho gostoso do seu bebê ou na febre da véspera. Terá de usar toda a sua disciplina para não correr para casa só para ver se está tudo bem com a criança.

Quero que minha amiga saiba que suas grandes certezas vão ser abaladas. Que a vontade de um menino ir ao banheiro dos homens e não ao das mulheres na lanchonete vai tornar-se um grande dilema. Que exatamente lá, no meio do barulho das bandejas e da gritaria das crianças, libelos sobre independência e identidade sexual serão confrontados com a possibilidade de alguém molestar a criança no banheiro. Embora seja uma mulher determinada no escritório, vai sempre se questionar como mãe.

Olhando para minha amiga tão bonita, quero assegurar-lhe que sua vida, agora tão importante, terá menos valor para ela quando vier o bebê. Ela sacrificaria sua vida para poupar a do filho, mas ao mesmo tempo vai querer viver mais - não para realizar seus sonhos, mas para ver a criança realizar os dela.

A relação de minha amiga com seu marido vai mudar, mas não como ela pensa. Um dia ela irá descobrir que se pode amar ainda mais um homem ao vê-Io passar cuidadosamente talco no bebê ou ao observá-Io sentado no chão brincando com o filho. Penso que ela deveria saber que vai se apaixonar de novo pelo marido, mas por razões que agora consideraria muito pouco românticas.

Gostaria que pudesse perceber o elo que passará a ter com as mulheres que, através dos tempos, tentaram desesperadamente lutar contra as guerras e impedir que as pessoas dirijam depois de beber. Espero que ela entenda por que eu posso pensar racionalmente sobre muitos assuntos, mas me torno temporariamente louca quando discuto a ameaça de guerra nuclear para o futuro dos meus filhos.

Quero descrever à minha amiga o milagre que é uma criança dando seus primeiros passos, conseguindo expressar toscamente em palavras seus sentimentos, juntando as letras numa frase. A alegria que nos inunda ao ouvir uma gargalhadinha gostosa, ao ver o filho acertando a bola no gol, a filha mergulhando corajosamente do trampolim mais alto.

a olhar curioso da minha amiga me faz perceber que tenho lágrimas nos olhos. "Você nunca vai se arrepender", digo, finalmente. Estendo o braço por sobre a mesa, aperto sua mão e rezo em sua intenção e de todas as mulheres que, no meio do seu caminho, se depararam com o mais sublime dos chamados.

 

O DOM DA CONVERSA

LYNN ROGERS PETRAK

Histórias Para Aquecer o Coração 2 117

 

Embora me dissesse para não falar com estranhos, minha mãe sempre falava com todo mundo. Na fila do supermercado. Nas lojas. Numa rápida viagem de elevador, em aeroportos, jogos de futebol e na praia.

Ainda bem que eu só segui o seu conselho em relação a estranhos ameaçadores. Acho que eu sou uma pessoa melhor por causa disso.

a costume de minha mãe de começar a bater papo com qualquer pessoa que estivesse por perto hoje me faz sorrir, mas quando eu era adolescente muitas vezes quase me matou de vergonha.

"Lynn também está ganhando o seu primeiro sutiã hoje", ela confidenciou a uma mulher que também acompanhava a filha adolescente na seção de sutiãs na loja de departamentos da nossa cidade. Eu quis me esconder atrás de um roupão de banho atoalhado, mas apenas fiquei vermelha e resmunguei "Mamaaaaaãe...", dentes cerrados. Só me senti um pouco melhor quando a mãe da garota retrucou: "Estamos tentando achar um para Sarah, mas são todos muito grandes." Nem todo mundo respondia quando mamãe fazia uma observação e tentava iniciar uma conversa. Algumas pessoas lhe davam um meio sorriso e seguiam em frente. Outras simplesmente a ignoravam. Nessas ocasiões eu percebia que mamãe ficava um pouco magoada, mas ela dava de ombros e continuávamos nosso caminho.

Na maioria das vezes, entretanto, eu saía de perto um pouquinho e, quando voltava, lá estava ela de conversa-fiada.

Houve ocasiões em que me preocupei, achando tê-la perdido na multidão, mas então eu ouvia sua risada sonora e um comentário do tipo: "Sim, sim, eu também." Nesses papos espontâneos, minha mãe me ensinou como é importante ter tempo para se interessar pelos outros. Ela me ensinou que nós, mulheres, temos todas uma espécie de afinidade, mesmo que não sejamos nem um pouco parecidas. Na maioria das situações do dia-a-dia e dos sentimentos que eles provocam há como fios invisíveis que nos unem.

Uma das últimas lembranças que tenho de minha mãe é dela no hospital, a poucas horas de morrer do câncer que a fizera emagrecer trinta e oito quilos, sorrindo fracamente e conversando com a enfermeira sobre a melhor maneira de plantar roseiras. Fiquei olhando da porta, quieta, com vontade de chorar, mas com um grande sentimento de amor e carinho. Ela me ensinou a ver as outras pessoas com alegria e respeito. A tirá-Ias do anonimato. Nunca vou me esquecer disso, especialmente quando me viro para alguém e digo: "Você não acha ótimo quando...

 


 

O LADO BOM NA DESGRAÇA

De THE SOWER'S SEEDS (As sementes do semeador)

Histórias Para Aquecer o Coração 2 125

 

O laboratório de Thomas Edison foi totalmente destruído pelo fogo em dezembro de 1914. Apesar de os prejuízos ultrapassarem dois milhões de dólares, o prédio estava segurado em apenas 238 mil dólares, porque era de concreto, que se imaginava à prova de fogo. Muito do trabalho de Edison se foi com as chamas impressionantes daquela noite de dezembro.

No auge do fogo, o filho de Edison, Charles, um rapaz de vinte e quatro anos, procurava freneticamente pelo pai em meio à fumaça e aos destroços. Finalmente o achou, calmamente observando a cena, com ar de reflexão, seu cabelo branco ao vento.

"Meu coração doeu por ele", contou Charles. Era um homem de sessenta e sete anos que via tudo o que possuía se consumir nas chamas. Quando me avistou, meu pai gritou:

"Charles, onde está sua mãe? Chame-a depressa e traga-a aqui, porque ela nunca mais terá a oportunidade de ver algo assim." Na manhã seguinte, Edison, olhando para as ruínas, refletiu: "Há um lado bom na desgraça. Todos os nossos erros são queimados. Graças a Deus, podemos recomeçar do zero." Três semanas depois do incêndio, Edison inventou o fonógrafo.

 

 

Nota do tradutor: Thomas A. Edison - Físico americano (1847-1931), famoso pela invenção do telégrafo dúplex, do fonógrafo e da lâmpada incandescente.

 

 

Se sua casa pegar fogo, aproveite para se aquecer.

PROVÉRBIO ESPANHOL

 


 

COMO SER UMA PESSOA NOVA E DIFERENTE

PATRICIA LORENZ

Histórias Para Aquecer o Coração 2 127

 

Tudo indicava que o ano de 1993 não ia ser dos melhores da minha vida. Já fazia oito anos que eu criava meus filhos sozinha, três deles tinham ido para a universidade, minha filha era solteira, mas acabara de ter meu primeiro neto e eu estava prestes a romper um relacionamento de dois anos com um homem de quem eu gostava muito. Diante de tudo isso, eu passava um tempo enorme sentindo pena de mim mesma.

Naquele mês de abril, tinha de entrevistar e escrever sobre uma mulher que vivia em uma cidade pequena em Minnesota.

Portanto, no feriado de Páscoa, Andrew, meu filho de treze anos, e eu atravessamos dois estados de carro para ir ao encontro de Jan Turner.

Andrew cochilou durante quase toda a longa viagem, mas de vez em quando eu puxava conversa com ele.

"Ela tem uma deficiência física. Por algum motivo que desconheço, teve de amputar os dois braços e as duas pernas."

"Puxa! E como é que ela se vira?"

"Não tenho a menor idéia. Vamos saber quando chegarmos lá. Só sei que, há quatro anos, ela era exatamente como eu, trabalhava e cuidava sozinha dos dois filhos que adotou. Era professora de música em tempo integral em uma escola de primeiro grau e ensinava diversos tipos de instrumentos. Era também diretora musical de sua igreja. Sei também que ela nunca se casou”.

Andrew adormeceu novamente. Enquanto cruzava Minnesota de carro, pensava como aquela mulher pudera enfrentar a notícia arrasadora de que seus dois braços e suas duas pernas iam ser amputados. Como será que aprendeu a sobreviver? Será que tem alguém que a ajuda permanentemente em casa?

Quando cheguei na cidade de Willmar, telefonei para Jan do nosso hotel para dizer que iria buscá-la em casa com seus dois meninos, que poderiam ficar na piscina enquanto conversávamos.

- Não é preciso, Pat, eu posso dirigir, vou em meu próprio carro. Estaremos aí em dez minutos. Você gostaria de ir comer primeiro? Tem um bom restaurante bem ao lado do seu hotel.

- Claro, está ótimo assim - respondi, meio hesitante, imaginando como seria comer em um restaurante com uma mulher que não tinha braços nem pernas. E como é que ainda por cima ela vem dirigindo, meu Deus?

Dez minutos depois, Jan estacionou na frente do hotel. Saiu do carro e andou em minha direção da maneira mais natural possível, com pernas e braços que pareciam tão verdadeiros quanto os meus, e estendeu o braço direito com um gancho de metal brilhante na ponta para me cumprimentar.

- Olá, Pat, muito prazer. Este aqui deve ser o Andrew, não é?

Segurei o gancho, sacudi um pouco e sorri meio sem jeito.

- É, esse é o Andrew.

Olhei para o banco traseiro do carro dela e sorri para os dois garotos, que sorriram de volta. Cody, o mais novo, parecia entusiasmado com a perspectiva de ir nadar na piscina do hotel depois do almoço.

No restaurante, entramos na fila, pagamos, comemos e conversamos enquanto os três meninos tagarelavam. A única coisa que tive de fazer para Jan Turner durante toda a refeição foi desatarraxar a tampa da garrafa de ketchup.

Mais tarde, enquanto nossos filhos brincavam dentro da piscina, ela me falou sobre sua vida antes da doença.

- Éramos uma típica família em que a mãe ou o pai vivem sozinhos com os filhos. A vida era tão boa, que eu estava até pensando seriamente em adotar outra criança.

Eu me senti pequenininha ante a grandeza daquela mulher.

Ela continuou.

- Em um domingo de 1989, eu estava tocando em minha igreja quando de repente me senti fraca, tonta e enjoada. Saí quase me arrastando, chamei os meninos e fui levada para o hospital, onde cheguei em coma.

Jan tinha pneumonia pneumocócica, uma terrível infecção bacteriana. Um dos devastadores efeitos colaterais da doença é ativar o processo de coagulação, o que faz com que os vasos sangüíneos fiquem obstruídos. Por causa da súbita interrupção do fluxo de sangue nas mãos e nos pés, as quatro extremidades foram rapidamente tomadas pela gangrena. Duas semanas depois de ser internada, os braços de Jan tiveram de ser amputados na altura do meio do antebraço e as pernas no meio da canela.

Pouco antes da cirurgia, ela pensou, apavorada: Oh, Deus, não! Como vou viver sem braços e pernas, sem pés nem mãos? Como vai ser nunca mais andar? Nunca mais tocar violão, piano ou qualquer um dos instrumentos que ensino? Nunca mais poder abraçar meus filhos ou cuidar deles? Oh, meu Deus, não deixe que eu dependa dos outros para o resto da minha vida!

Seis semanas depois da amputação, enquanto o que restava de seus membros cicatrizava, o médico falou-lhe a respeito de próteses. Disse que ela poderia aprender a andar, dirigir um carro, voltar a trabalhar na escola e até mesmo voltar a ensinar.

Num terrível desamparo, Jan recorreu à sua Bíblia. Esta se abriu em Romanos, capítulo doze, versículo dois: "Não imite o comportamento e os costumes deste mundo, mas seja uma pessoa nova e diferente, com um novo frescor em tudo o que fizer e pensar. Então, aprenderá por experiência própria como os caminhos de Deus lhe serão realmente satisfatórios." Jan refletiu sobre aquilo - ser uma pessoa nova e diferente e decidiu tentar as pró teses. De início, com um andador amarrado em seus antebraços e um terapeuta de cada lado, só conseguiu cambalear em suas novas pernas durante dois ou três minutos, para em seguida cair exausta e cheia de dores.

Vá devagar, disse a si mesma. Seja uma nova pessoa em tudo o que faz e pensa, mas dê apenas um passo de cada vez.

No dia seguinte, tentou usar as próteses para os braços, um desagradável sistema de cabos, tiras de borracha e ganchos acionados a partir de um arreamento colocado nos ombros.

Movimentando os músculos do ombro, logo foi capaz de abrir e fechar os ganchos para pegar e segurar objetos, vestir-se e alimentar-se.

Dentro de poucos meses, Jan descobriu que podia fazer quase tudo o que costumava fazer antes - só que de maneira diferente.

- Mesmo assim, quando finalmente fui para casa, depois de quatro meses de terapia física e ocupacional, estava muito nervosa imaginando como seria minha vida ali sozinha com os meninos. Mas, quando cheguei, saí do carro, subi os degraus para entrar em nossa casa, abracei meus filhos com toda a força e desde então nunca mais olhamos para trás.

Enquanto Jan e eu falávamos, Cody, que saíra da piscina, ficou junto da mãe com o braço em seus ombros. E quando ela se referiu às suas novas habilidades culinárias, Cody abriu um sorriso.

- É mesmo - disse ele. - Ela agora está muito melhor do que antes de ficar doente, porque sabe até virar as panquecas no ar!

E Jan riu, o riso de uma mulher abençoada com uma profunda felicidade, uma grande satisfação e uma inabalável fé em Deus.

Desde a nossa visita, Jan completou um segundo curso universitário, desta vez em Comunicação, e hoje trabalha na estação de rádio de sua cidade como locutora. Também estudou teologia e foi ordenada ministra das crianças de sua igreja, a Igreja da Vida Triunfante, em Willmar. Em poucas palavras, Jan diz:

- Sou uma pessoa nova e diferente, triunfante por causa do amor e da sabedoria infinitos de Deus.

Depois de conhecer Jan, eu também me tornei uma pessoa nova e diferente. Aprendi a agradecer a Deus por tudo o que me faz nova e diferente, seja batalhando em mais um trabalho em tempo parcial para manter os estudos de meus filhos, seja aprendendo a ser avó pela primeira vez ou tendo a coragem de terminar um relacionamento com um amigo maravilhoso que simplesmente não era a pessoa certa para mim.

Pode ser que Jan não tenha braços, pernas, mãos ou pés de carne e osso, mas é uma mulher com mais coração e alma do que todas as que já encontrei até agora. Ensinou-me a abraçar todas as coisas "novas e diferentes" que aparecem em minha vida com toda a alegria de que for capaz, sabendo que elas me farão crescer. A viver minha vida com muita esperança.

 

 

Se eu tivesse a oportunidade de realizar o desejo de ter uma vida perfeita, a tentação seria grande, mas eu teria de recusar, porque a vida não me ensinaria mais coisa alguma.

ALLYSON JONES

 


 

O LADRÃO DE BISCOITO

VALERIE COX

Histórias Para Aquecer o Coração 2 133

 

Certa noite uma mulher estava no aeroporto, com um longo tempo de espera pela frente até a saída do seu voo. Comprou um livro, um pacote de biscoitos e sentou-se enquanto aguardava.

Embora absorta na leitura, percebeu que um homem ao seu lado tirava um biscoito do pacote colocado entre os dois. Para evitar uma cena, ela fingiu não estar vendo.

Ela lia, comia biscoitos e olhava o relógio. De vez em quando, o homem voltava a tirar um biscoito do pacote, o que a foi deixando extremamente irritada, com ímpetos de o agredir. Mas não fazia nada.

Ela pegava um biscoito, ele pegava outro. Quando só faltava um, ela ficou tensa, sem saber como agir. Com um riso simpático, ele pegou o último biscoito e o partiu ao meio.

Ofereceu a ela uma metade, comeu a outra.

Ela arrancou da mão dele a metade, pensando na grosseria do homem que sequer lhe agradecera. Sentiu-se extremamente ultrajada e respirou com alívio quando chamaram seu voo.

Juntou suas coisas e se dirigiu para o portão, sem sequer olhar para trás.

Entrou no avião, mergulhou na poltrona e abriu a maleta para pegar o casaco. O susto que levou a deixou sem fôlego: ali estava ele, inteirinho, o seu pacote de biscoitos!

"Se o meu está aqui, então foi do dele que eu comi, e ele nem se importou em dividir." Ela daria tudo para encontrá-Io de novo, pedir-lhe muitas desculpas e sobretudo agradecer-lhe a lição.

 


 

COMO DESCOBRI MINHA FILHA

MIKE COTTRIL conforme narrado a Bill Holton

Histórias Para Aquecer o Coração 2 135

 

Eu não queria acreditar em meus próprios olhos. Tem que haver alguma outra explicação para o que eu vi, fiquei repetindo para mim mesmo, tentando esconder minhas preocupações. Eu estava junto de minha esposa Diane, após o nascimento de nossa filha Sandra. Diane estava radiante, deitada na cama hospitalar, falando com seus pais ao telefone. Mas ela ainda não tinha visto nossa filha. Ela não percebera a expressão alarmada nos olhos da enfermeira, instantes antes de levar o bebê embora, rapidamente. Não tínhamos feito nenhum teste. Não recebêramos nenhum alerta.

Perdi toda a esperança quando o médico entrou e sentou-se.

Ele esperou pacientemente que Diane terminasse sua conversa e desligasse o telefone para dar a notícia devastadora: "Eu sinto muito. A filha de vocês tem síndrome de Down."

Diane reagiu bem à notícia. Durante nove meses ela criara um vínculo com o bebê. Mesmo antes de trazerem Sandra para que ela a segurasse, minha esposa já a amava de todo o coração.

Mas eu não. Tive que pedir licença e sair do quarto.

Andei pelos corredores durante horas, socando paredes e chorando muito. "Por que você fez isso com a minha filha?", gritei para um Deus a quem subitamente desprezei. "Por que ela? Por que eu?" Por que Sandra não podia ser perfeita - como o nosso filho de três anos, Aaron? Aaron era o meu xodó. Eu adorava passear com ele na chuva, mostrar-lhe as minhocas e caracóis, brincar com ele nas noites de sexta-feira, quando Diane trabalhava até tarde. Eu contava histórias para ele na hora de dormir.

Com Sandra, as coisas foram inteiramente diferentes.

Depois que a trouxemos para casa, corri para a biblioteca e li tudo o que encontrei sobre síndrome de Down. Procurei desesperadamente um fio de esperança, por mais tênue que fosse.

Mas quanto mais eu lia, mais desanimado ficava. Não havia nenhuma cura milagrosa para o que eu chamava de "a situação de Sandra”. Naquela época, eu sequer conseguia dizer as palavras "síndrome de Down".

Diane e eu começamos a frequentar um grupo de apoio, mas depois de algumas semanas não consegui mais ir. Ouvir os pais de crianças mais velhas que tinham a síndrome de Down descrevendo os muitos problemas de saúde que enfrentavam me deixava totalmente desesperado. É esse o nosso futuro?, eu não conseguia deixar de me perguntar.

E de fato, quando Sandra tinha seis meses de idade, ela precisou fazer uma cirurgia no coração. "Meu Deus, por favor, não tire Sandra de mim", rezava Diane, mas esta era uma reza da qual eu não conseguia participar.

Talvez seja para melhor, eu pensava secretamente, sem me permitir acrescentar - melhor para quem?

À medida que o tempo passava, eu levava Sandra zelosamente a médicos e terapeutas. Massageava suas pernas e tentava desenvolver seu tônus muscular. Tentava ensinar-lhe a andar e falar, e ficava mais frustrado e deprimido com a pobreza dos resultados.

Dediquei-me inteiramente a fazer Sandra melhorar. Eu estava determinado a "consertá-Ia”, mas isso era tudo o que eu podia - tentar fazer reparos. Eu não sentia amor por minha filha. Eu só a tirava do berço para trocar a fralda ou fazer uma de suas terapias.

"Está sendo difícil para você amar Sandra”, Diane me disse, um dia, suavemente. Tive que admitir que ela estava certa.

Eu estava envergonhado de meus sentimentos, e, que Deus me perdoe, eu estava envergonhado da minha menininha.

Ficava embaraçado de ser visto com ela. As pessoas diziam ''Ah, mas ela é tão bonitinha!", e eu tinha vontade de agarrá-Ias pelo colarinho e gritar: "Vocês estão mentindo!" A minha raiva transformou-se em tristeza e minha tristeza deu lugar à apatia e à distância. Mesmo os passeios e jogos com Aaron perderam a graça, porque me faziam pensar em todas as coisas que Sandra nunca poderia fazer.

Continuei a cuidar de Sandra, mas tornei-me cada vez mais desesperançado e distante. "Vai ser sempre assim", suspirei um dia, há cerca de um ano, enquanto colocava minha filha de dois anos em sua cadeirinha de comer para dar seu almoço. Coloquei sua comida em um prato me sentindo inteiramente vazio por dentro.

Mas, quando me aproximei da cadeirinha de Sandra, ela virou a cabeça e olhou para mim atentamente, com seus grandes olhos azuis. E então estendeu os dois bracinhos e me abraçou com toda a força, como se dissesse: "Papai, eu vou fazer a sua tristeza ir embora." Foi um verdadeiro milagre. Retribuí seu abraço e comecei a chorar, não mais de tristeza. Eu estava chorando porque a minha menininha tinha me mostrado o que era ser amado incondicionalmente. Por um breve instante tínhamos trocado de papel. Sandra havia me dado o amor que há tanto tempo eu não conseguia lhe dar.

",' Eu havia me lamentado porque minha filha não era perfeita, mas quem era eu para exigir perfeição, quando ainda tinha tanto a aprender? Quem era eu para chorar pelo que poderia ter sido, em vez de aceitar e valorizar minha filha do jeito que ela é e sempre será - um ser humano muito especial?

Sandra me ensinou a abrir meu coração e a amar espontaneamente, sem expectativas. Eu tinha gasto tanto tempo e energia procurando fazer com que Sandra atendesse às minhas expectativas, que me esquecera inteiramente de apenas curtir sua companhia e o que ela tinha a me oferecer. Eu não cometo mais esse erro.

Hoje em dia, eu leio para meus dois filhos na hora de dormir, e nas manhãs de sábado você nos encontra, os três, enroscados no sofá, assistindo a desenhos juntos. E sempre que estou fazendo Sandra rir das minhas caretas, ou jogando bola com ela, ou abraçando uma de suas bonecas, nunca deixo de pensar: agora que finalmente abri meu coração para Sandra, ela o enche todos os dias até a borda de alegria e amor.

 

A riqueza da experiência humana perderia uma certa alegria

recompensadora se não houvesse limites a superar.

HELEN KELLER

O QUE ESTÁ NO CORAÇÃO

AUTOR DESCONHECIDO

Histórias Para Aquecer o Coração 2 145

 

Uma menina de quatro anos estava no pediatra para uma consulta. Examinando seus ouvidos com um otoscópio, o médico perguntou: "Você acha que eu vou encontrar a Cinderela lá dentro?" A menina ficou em silêncio.

Em seguida, o médico pegou uma espatela para abaixar a língua e examinar a garganta da menina. Ele perguntou:

"Você acha que eu vou encontrar a Chapeuzinho Vermelho lá dentro?" Mais uma vez, a menina nada respondeu.

Então o médico encostou o estetoscópio no peito da menina. Enquanto ouvia os batimentos do coração, ele perguntou:

"'Você acha que vou ouvir a Branca de Neve lá dentro?"

"Ah não" a garota respondeu: Quem está no meu coração é Jesus. A Branca de Neve está nas minhas calcinhas."

 


 

POR FAVOR, ME PONHAM UMA ROUPA VERMELHA

CINDY DEE HOLNUS

Histórias Para Aquecer o Coração 2 151

 

Como professor e agente de saúde, trabalhei com numerosas crianças infectadas com o vírus da AIDS. As relações que desenvolvi com essas crianças foram bênçãos na minha vida. Deixe-me contar a história de Tyler.

Tyler nasceu infectado com o vírus da AIDS, transmitido por sua mãe, e desde o início de sua vida dependeu de remédios para sobreviver. Aos cinco anos, teve um cateter inserido por cirurgia numa veia de seu tórax para infundir a medicação na corrente sanguínea. O cateter se conectava a uma bomba infusora que Tyler carregava numa mochila às suas costas. Às vezes, ele também precisava de oxigênio para ajudar na respiração.

Tyler não estava disposto a abrir mão de um único minuto de sua infância por causa da doença mortal. Não era difícil encontrá10 brincando e correndo no pátio do edifício, com sua mochila nas costas e arrastando o tanque de oxigênio no carrinho.

Todos nós que o conhecíamos nos maravilhávamos com sua alegria e com a energia que essa alegria lhe dava. A mãe de Tyler adorava o menino, mas frequentemente reclamava da agitação do filho, dizendo que ele era tão insubordinado, que ela precisaria vesti-lo de vermelho para localizá-Io rapidamente entre as crianças que brincavam no pátio.

A doença terrível finalmente venceu o pequeno dínamo que era Tyler. Ele e a mãe ficaram mal e foram hospitalizados. Quando ficou claro que o fim dele se aproximava, sua mãe conversou com ele sobre a morte. Ela o confortou dizendo que em breve os dois estariam juntos no céu.

Poucos dias antes de morrer, Tyler me chamou para perto de sua cama e murmurou: "Vou morrer logo, mas não estou com medo. Quando eu morrer, por favor, me ponha uma roupa vermelha. Mamãe prometeu me encontrar no céu. Como eu sei que vou estar brincando quando ela chegar lá, quero ter certeza de que ela poderá me achar."

OS DEZ PONTOS DE TINA

TOM KRAUSE

Histórias Para Aquecer o Coração 2 153

 

Ela estava com dezessete anos e tinha sempre um sorriso alegre nos lábios. Isso não seria nada de extraordinário se Tina não sofresse de paralisia cerebral, o que tornava seus músculos rígidos e, de modo geral, ingovernáveis. Como tinha dificuldade para falar, ela usava aquele sorriso radiante para expressar a sua personalidade. Tina era uma ótima garota. Costumava usar um andador para se deslocar pelos corredores movimentados da escola. Os outros alunos não sabiam como se aproximar dela, talvez porque fosse diferente. Mas Tina parecia não se importar e costumava quebrar o gelo com as pessoas que encontrava, especialmente com os meninos, dizendo um grande "ai!".

o dever de casa que eu determinara consistia em decorar três estrofes do poema "Não Desista”. Decidi que a tarefa só valeria dez pontos porque imaginava que a maioria de meus alunos não conseguiria cumpri-Ia. Quando eu estava na escola e um professor estipulava um dever de casa valendo dez pontos, geralmente eu também não conseguia fazê-lo. Assim, não esperava grande coisa dos adolescentes naquela aula. Tina fazia parte da turma e percebi que havia em seu rosto uma expressão diferente da habitual. Ela parecia preocupada. Não se preocupe, Tina - pensei comigo mesmo -, são só dez pontos.

Quando chegou a hora de recitar o poema, fui seguindo a lista de chamada e tudo se deu de acordo com as minhas expectativas: um após outro, os alunos erravam ao recitar o poema. A desculpa era sempre: "Desculpe, professor, mas isto só vale dez pontos mesmo, não é?" Frustrado e meio de brincadeira, declarei que o próximo que não recitasse o poema perfeitamente teria de deitar no chão ali na minha frente e fazer dez flexões seguidas. Era um resquício de uma técnica de disciplina dos meus tempos de professor de educação física. Para minha surpresa, Tina era a próxima. Foi até a frente em seu andador e, esforçando-se para formar as palavras, começou a tentar recitar o poema. No fim da primeira estrofe, cometeu um erro. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, empurrou o andador para o lado, deitou-se no chão e começou a fazer as flexões. Fiquei horrorizado, querendo dizer a ela que estava apenas brincando.

Mas Tina se arrastou de volta para o andado r, ficou de pé diante da turma e continuou o poema. Foi uma das poucas pessoas da turma que declamaram as três estrofes sem um erro sequer.

Quando terminou, um dos colegas perguntou:

"Tina, por que você fez isso? A tarefa só valia dez pontos!"

Tina levou algum tempo para formar as palavras e responder:

"Porque eu quero ser igual a vocês todos: normal." O silêncio tomou conta da sala inteira, até que um outro aluno exclamou:

"Tina, nós não somos normais, somos adolescentes! Estamos sempre metidos em alguma encrenca, o tempo todo!" "Eu sei", disse Tina, e abriu um grande sorriso.

Tina ganhou seus dez pontos naquele dia. Também conquistou o amor e o respeito de seus colegas. Que, para ela, valiam muito mais do que dez pontos.


 

DIA DAS MÃES

SHARON NICOLA CRAMER

Histórias Para Aquecer o Coração 2 160

 

Levei muito tempo tentando engravidar. Um dia, quando eu estava na casa dos trinta, num domingo em que se comemorava o Dia das Mães, entrei numa igreja da minha cidade e comecei a chorar.

Mulheres de todas as formas e tamanhos - jovens e idosas estavam sendo homenageadas durante a missa. Cada uma recebia uma linda rosa e voltava ao seu lugar, enquanto eu continuava sentada, mãos vazias, privada da alegria da maternidade.

Mas tudo mudou num mês de fevereiro. Já perto dos quarenta anos, nasceu Gabriel. Foram vinte e quatro horas de trabalho de parto para dar à luz aquela trouxinha de alegria de pouco mais de dois quilos. Jordan nasceu no mês de março do ano seguinte. Era menorzinho e o trabalho de parto durou menos tempo. E, desde que eu passei a pertencer à irmandade das mães, tenho querido compartilhar o que descobri para de fato irmanarme com as outras mães.

Nunca imaginei, enquanto desejava tão desesperadamente engravidar, que essa irmandade exigisse uma preparação tão árdua. Alguns meses de muito enjoo, seguido por anseios incontroláveis por comidas estranhas, ganho de peso perturbador, dores na coluna, o aprimoramento da arte de arrumar travesseiros preenchendo espaços entre o volume da barriga e o resto da cama. Estrias na barriga, culminando tudo com as assustadoras dores do parto.

Com o nascimento da criança, passa-se do treinamento à iniciação, que está apenas começando. Noites sem dormir, cólicas do bebê, angústia com os choros inexplicáveis, inquietação com os resfriados, pânico com a ameaça de pneumonia, coração partido com a tristeza causada pela morte do bichinho de estimação.

Ajudei meus filhos a largar a chupeta e a mamadeira, a usar o troninho, levei-os à escola e segurei suas mãos na hora da vacina.

Ouvi-os falar da primeira namorada, da primeira decepção, e sofri na primeira vez em que se aventuraram ao volante de um carro. Fiquei acordada de noite, imaginando mil coisas, até ouvir o barulho da chave na fechadura da porta, e voltei à insegurança da adolescência na época do vestibular dos dois.

Mas no fundo do coração, entranhado em todo o meu ser, guardo imensos tesouros: o primeiro movimento dentro da barriga, o instante milagroso em que se materializou ante meus olhos aquela pessoinha gerada por mim, a boquinha sugando meu peito e o primeiro sorriso de reconhecimento. Essa experiência deslumbrante que é ver uma pessoa se revelando em suas características únicas, observar suas descobertas, sentir sua mãozinha procurando a proteção da minha, o corpinho se aconchegando debaixo dos cobertores. Assistir aos avanços, aos desafios superados, ouvir as confidências, sentir-se amiga confiante dos filhos.

Cada mãe que me lê pode continuar seu inventário dos tesouros que compensam infinitamente dores e aflições.

Agora que estou me preparando para ingressar no clube das avós, voltei à mesma igreja num Dia das Mães. Pensando na jovem que eu era e na aflição que vivia, fui inundada de gratidão por tudo o que recebi, pelo que aprendi com meus filhos, pelo crescimento que eles me proporcionaram, pelas alegrias profundas que me deram. E senti meus braços transbordando de rosas.


 

FÉ, ESPERANÇA E AMOR

PETER SPELKE com o auxílio de Dawn Spelke e Sam Dawson

Histórias Para Aquecer o Coração 2 163

 

Quando eu tinha quatorze anos, fui mandado para a Escola Cheshire, um colégio interno para meninos com problemas em casa. Meu problema era minha mãe alcóolatra, que tinha arrasado nossa família com seu comportamento. Depois que meus pais se divorciaram, eu tomei conta de minha mãe até ser reprovado na oitava série. Meu pai e um diretor da escola decidiram que um colégio interno de disciplina rígida e bem distante de minha mãe deveria me dar a oportunidade de terminar o segundo grau.

Na palestra de orientação do primeiro ano, o último a falar foi o chefe de disciplina, Fred O'Leary. Antigo jogador de futebol em Yale, era um homem corpulento, de bochechas vermelhas e um enorme pescoço. Sua presença deixava todos inquietos. Um aluno mais velho cochichou em meu ouvido: "Garoto, mantenha distância desse homem. É melhor ele nem saber que você existe!"

O discurso do senhor O'Leary foi curto e direto: "Não saiam do campus, não fumem e não bebam. Não façam contato com as garotas da cidade. Se vocês desobedecerem a essas regras, sofrerão as consequências e vão se ver pessoalmente comigo." Quando pensei que ele terminara, num tom muito mais baixo, o senhor O'Leary acrescentou: "Se tiverem algum problema, a porta do meu gabinete estará aberta para vocês." À medida que o ano escolar seguia, o problema de minha mãe piorava. Ela ligava para mim dia e noite. Com sua voz pastosa, pedia-me para deixar a escola e voltar para casa. Dizia que ia parar de beber, desfilava mil promessas. Eu a amava. Era difícil dizer não a ela, e o meu coração se apertava cada vez que ouvia sua voz. Eu me sentia culpado, tinha vergonha. E estava muito, muito confuso.

Uma tarde, durante a aula de inglês, eu não conseguia me concentrar, pensando em minha mãe Ao sentir que ia chorar, então pedi para sair da sala.

"Sair para quê?" "Para ver o senhor O 'Leary" , respondi. Meus colegas me olharam espantados e o professor perguntou se podia me ajudar.

"Não! Eu quero ir à sala do senhor O'Leary agora." Quando saí da sala, eu só conseguia pensar em suas palavras: "Minha porta está aberta." A sala do senhor O'Leary ficava no grande vestíbulo da entrada principal. Quando um aluno cometia uma falta mais séria, ele o colocava para dentro da sala, batia a porta e baixava a cortina interna. Com frequência ouviam-se seus gritos: "Você foi visto fumando atrás do quartel de bombeiros na cidade, você estava com a moça da lanchonete!" Pobre menino.

Quando entrei na fila do lado de fora de sua sala, os outros meninos me perguntaram o que eu tinha feito de errado.

"Nada', eu disse.

"Você está louco? Saia daqui agora mesmo!", eles gritaram, mas eu não podia pensar em outro lugar para ir.

Finalmente chegou minha vez. A porta da sala do senhor O'Leary se abriu e fiquei de olhos grudados nas bochechas do chefe de disciplina. Eu tremia e me sentia um bobo, mas tinha o palpite louco de que alguma coisa ou alguém tinha me levado a esse homem - o homem mais temido da escola. Nossos olhos se encontraram.

"Por que você está aqui?", ele vociferou.

"Na apresentação, o senhor disse que sua porta estaria aberta se alguém tivesse algum problema”, eu gaguejei.

"Entre", ele disse, apontando para uma grande poltrona verde e baixando a cortina da porta. Sentou-se e me olhou.

Comecei a falar, enquanto as lágrimas rolavam pelo meu rosto. "Minha mãe é alcoólatra. Ela fica bêbada e começa a me telefonar. Ela quer que eu deixe a escola e volte para casa. Não sei o que fazer. Estou assustado e com medo. Por favor, não pense que estou louco." Enterrei o rosto entre os joelhos e comecei a chorar convulsivamente.

Então aconteceu um milagre - um desses milagres que Deus faz acontecer através das pessoas. Senti a mão enorme do senhor O'Leary pousar delicadamente sobre o meu ombro.

Gentilmente, o temido gigante disse: "Filho, eu sei como você se sente. Vou contar uma coisa para te ajudar: eu também sou um alcoólatra. Vou fazer tudo o que puder por você e sua mãe. Vou pedir para meus amigos dos Alcoólicos Anônimos entrarem em contato com ela hoje mesmo." Naquele instante eu tive a sensação de que as coisas iam melhorar e perdi o medo. Era como se a mão pousada no meu ombro fosse um toque de Deus me transmitindo um intenso sentimento de proteção. Pela primeira vez na vida entendi o que significava fé, esperança e amor, porque estava cheio de fé, esperança e amor por todos ao meu redor.

O homem mais temido do campus se tornou um amigo secreto com quem eu tinha um compromisso: quando eu passava por sua mesa na hora do almoço, piscava para ele amigavelmente. Meu coração se enchia de orgulho porque aquele homem tão temido se interessara pelo meu problema de forma tão delicada e carinhosa.

Eu estendi a mão e, na hora em que precisei... Ele estava lá.


 

O QUE É O SUCESSO?

RALPH WALDO EMERSON

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 13

 

O que é o sucesso? Rir sempre e muito.

Ganhar o respeito de pessoas inteligentes e a afeição das crianças.

Ganhar a apreciação de críticos honestos e suportar a traição dos falsos amigos.

Apreciar a beleza.

Encontrar o melhor nos outros.

Deixar o mundo um pouco melhor, seja com uma criança saudável, um pequeno jardim ou uma condição social redimida.

Saber que pelo menos uma vida respirou com mais facilidade porque você viveu.

Isso é ter sucesso.


 

O AMOR NUNCA SE PERDE

DAVID J. MURCOTT

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 15

 

Dizem que é melhor amar e perder do que jamais ter amado.

Esse pensamento não seria um grande consolo para Mike Sanders. Ele acabava de ser dispensado pela namorada. É claro que não foi bem assim que ela colocou a situação. O que disse foi: "Eu gosto muito de você, Mike, e espero que ainda possamos ser amigos." "Que ótimo", pensou Mike. Amigos. Você, eu e seu novo namorado indo ao cinema juntos." Mike e Angie estavam juntos desde o primeiro ano do segundo grau. Mas ela tinha conhecido outra pessoa durante as férias. Agora, ao começar o último ano, Mike estava só. Durante três anos, compartilharam os mesmos amigos e lugares

favoritos. Só de pensar em voltar àqueles locais sem Angie ele se sentia vazio. Como se a luz do mundo tivesse se apagado.

Os treinos de futebol costumavam ajudá-lo a esquecer um pouco os problemas. Os treinadores têm uma maneira toda especial de fazer os jogadores correrem até ficarem tão cansados que não conseguem pensar em mais nada. Mas, ultimamente, o empenho de Mike não era o mesmo. Um dia, aquilo afetou o seu jogo. Deixou escapar alguns passes que não perderia em outras circunstâncias e, pela primeira vez, sofreu várias faltas.

Mike sabia muito bem o preço a ser pago por um jogador com quem o treinador berrava mais de uma vez, então se esforçou um pouco mais e chegou ao fim do treino. Quando deixava o campo correndo, lhe disseram que comparecesse ao escritório do treinador.

- Garota, família ou escola: qual dessas coisas está lhe incomodando, filho? - indagou o treinador.

- Garota - respondeu Mike. - Como adivinhou?

- Sanders, sou treinador de futebol desde antes de você nascer e todas as vezes que vejo um craque jogar como um novato do time reserva o motivo é um desses três.

Mike fez que sim com a cabeça.

- Eu sinto muito, senhor. Não vai acontecer outra vez.

O treinador deu-lhe um tapinha carinhoso no ombro.

- Esse é um ano especial, Mike. Você tem chance de receber uma bolsa para a faculdade que escolher. E lembre-se de se concentrar no que é realmente importante. O resto acaba entrando nos eixos por conta própria.

Mike sabia que o treinador tinha razão. Precisava se libertar de Angie e ir em frente coma sua vida. Mas ainda estava magoado, sentindo-se até mesmo traído.

- É que eu sinto tanta raiva, treinador. Confiei nela. Me abri com ela. Dei à ela tudo o que tinha para dar e o que foi que ganhei com isso?

O treinador tirou algumas folhas de papel de dentro da gaveta escrivaninha.

- Excelente pergunta a sua. O que foi que você ganhou com isso? - Entregou o papel e a caneta para Mike e disse: - Quero que pense sobre o tempo que passou ao lado dessa moça e liste o maior número de experiências, boas e ruins, que conseguir lembrar. Então vou querer que escreva o que cada um de vocês aprendeu com o outro. Voltarei daqui a uma hora. - E, com isso o treinador deixou Mike sozinho.

Mike encolheu-se na cadeira, enquanto lembranças de Angie inundavam a sua mente. Lembrou-se de quando juntou coragem para convidá-Ia para sair pela primeira vez e de sua alegria quando ela aceitou. Se não fosse pelo incentivo de Angie, Mike jamais teria tentado uma vaga no time de futebol.

Então pensou nas brigas que tiveram. Embora não conseguisse se lembrar de todos os motivos pelos quais brigavam, lembrava-se de como se sentia feliz quando conseguiam conversar e resolver os problemas. Tinha aprendido a se comunicar e a buscar acordos. Lembrou-se também de quando faziam as pazes. Era sempre a melhor parte.

Mike lembrou-se de todas as vezes que Angie fez com que ele se sentisse forte, necessário e especial. Encheu o papel com a história dos dois, das férias, das viagens feitas com a família do outro, bailes da escola e tranquilos piqueniques a dois. Linha por linha, descreveu a experiência que compartilharam e se deu conta do quanto ela o ajudara a crescer e a se conhecer melhor. Ele teria sido uma pessoa diferente sem ela.

Quando o treinador retomou, Mike se fora. Deixou um bilhete sobre a mesa que dizia apenas:

 

Treinador,

 

Obrigado pela lição. Acho que é verdade quando dizem que é melhor amar e perder do que jamais ter amado. A gente se vê no treino.

 

 

Se o seu amor não passa de um desejo de possuir, ele não é amor.

THICH NHAT HANH


 

A FOFOQUEIRA

AUTOR DESCONHECIDO Enviado por Helen Hazinski

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 19

 

Uma mulher espalhou uma fofoca sobre uma vizinha. Alguns dias depois, o bairro inteiro sabia da história. A moça que foi alvo da fofoca ficou muito magoada e ofendida. Mais tarde, a mulher que espalhou o boato descobriu que era tudo mentira.

Ficou muito arrependida e foi visitar um velho sábio para descobrir o que podia fazer para consertar o estrago. - Vá até a praça do mercado - disse ele -, compre uma galinha e mande matar. Depois, no caminho de casa, depene a galinha e solte as penas uma por uma pela rua. - Embora surpresa com o conselho, a mulher fez o que ele tinha mandado.

No dia seguinte, o sábio disse:

- Agora vá, recolha todas as penas que deixou cair ontem e traga para mim.

A mulher seguiu o mesmo caminho, mas, para seu desespero, o vento tinha dispersado todas as penas. Depois de procurar por horas, ela voltou com apenas três penas na mão.

- Está vendo - disse o velho sábio, é fácil soltá-Ias, mas é impossível recolhê-Ias. Com fofoca também é assim. Não custa muito espalhar um boato, mas, depois que se espalha, nunca se pode reverter o dano completamente.


 

TIGRESA

JUDITH S. JOHNESSEE

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 21

 

Não tenho certeza de como Jesse chegou à minha clínica. Ele não parecia ter idade para dirigir, apesar do corpo desenvolvido e do andar firme. Seu rosto era franco e aberto.

Quando entrei na sala de espera, Jesse estava afagando carinhosamente a gata deitada em seu colo. Com um olhar confiante, ele me pediu que a curasse.

A gata era uma coisinha minúscula, de formas requintadas, cabeça delicada e linhas marcas no pêlo. Parecia ter por volta de quinze anos de idade. As manchas e listras no pêlo e seu rosto impetuoso e esperto deviam ter evocado a imagem de um tigre na mente de uma criança, e assim ela se tornara Tigresa.

A idade diminuíra o fogo verde brilhante dos seus olhos, que agora estavam opacos, mas ela ainda era elegante e altiva. Recebeu-me amistosamente, esfregando o focinho na minha, mão.

Comecei a fazer perguntas para descobrir o que levara aqueles dois a me procurar. Ao contrário da maioria dos adultos, o garoto respondia de forma simples e direta. Recentemente, Tigresa tinha começado a passar mal e a vomitar umas duas vezes por dia. Agora não estava comendo mais nada e vivia retraída e tristonha. Também tinha emagrecido meio quilo, o que era muito para quem pesava apenas três.

Acariciando Tigresa, fui dizendo a ela como era bonita, enquanto examinava seus olhos e sua boca, auscultava seu coração e apalpava seu estômago. Foi então que encontrei uma massa no meio do abdômen. Tigresa tentou se afastar educadamente. Ela não gostava que tocassem ali.

Olhei par! o adolescente de rosto confiante e tornei a olhar para a gata, sua companheira da vida toda. Eu ia ter que contar que Tigresa tinha um tumor e que, mesmo que ele fosse removido cirurgicamente, ela provavelmente sobreviveria menos de um ano.

Para durar esse tempo todo, a gatinha teria que fazer quimioterapia semanalmente. Tudo aquilo seria muito difícil e caro.

Assim, eu precisava dizer ao garoto que sua amada companheira provavelmente iria morrer. E ali estava Jesse, sozinho.

Ele estava prestes a aprender uma das lições mais duras da vida: a de que a morte é algo que acontece com todas as coisas vivas. Ela é parte da vida. A primeira experiência da morte pode ser formadora, e aparentemente eu seria a pessoa que o guiaria nessa primeira experiência. Eu não queria cometer nenhum erro. Tudo tinha que ser feito de forma perfeita, ou ele poderia acabar com traumas emocionais.

Teria sido fácil me esquivar dessa tarefa e chamar um dos pais. Mas quando olhei para o rosto do menino, não consegui fazer isso. Ele sabia que havia algo errado e eu não podia simplesmente ignorá-Io. Então, gentilmente, contei a Jesse, na condição de verdadeiro dono da Tigresa, o que eu havia encontrado e o que aquilo significava.

Enquanto eu falava, Jesse me deu as costas abruptamente, tentando esconder as lágrimas. Para deixá-Io mais à vontade, sentei-me ao lado de Tigresa e, enquanto acariciava o lindo rosto da velha gata, comecei a discutir as alternativas com ele: eu podia fazer uma biópsia do tumor, deixá-Ia morrer em casa ou dar-lhe uma injeção e colocá-Ia para dormir ali mesmo.

Jesse me ouviu com atenção e balançou a cabeça, mostrando que entendia. Esforçando-se para conter o choro, ele disse que percebia o mal-estar de Tigresa e que não queria que ela sofresse. Os dois cortaram meu coração. Ofereci-me para ligar para seus pais, explicando o que estava acontecendo.

Jesse me deu o telefone do pai. Repeti tudo, enquanto ele ouvia, acariciando sua gata. Depois deixei o pai falar com o filho. O garoto andava de um lado para o outro, gesticulando, e sua voz falhou algumas vezes, mas, quando ele desligou, virou-se para mim com os olhos secos e disse que eles tinham decidido colocá-Ia para dormir.

Sem discussões, sem negações, sem histeria, apenas a aceitação do inevitável. Mas eu podia ver como ele estava sofrendo.

Perguntei se ele queria levar Tigresa para casa para se despedir dela e trazê-Ia de volta no dia seguinte. Jesse disse que não. Mas queria ficar sozinho com a gata por alguns minutos.

Deixei-os a sós e fui buscar os barbitúricos que usaria para fazê-Ia mergulhar em um sono sem dor. Eu não conseguia controlar as lágrimas que escorriam pelo meu rosto, nem a tristeza que sentia crescer dentro de mim por causa de Jesse, que virara homem tão rapidamente e tão só.

Esperei do lado de fora da sala de consulta. Em poucos minutos, ele saiu e disse que estava pronto. Perguntei se ele queria ficar com ela. Jesse pareceu surpreso, mas expliquei que era mais fácil ver como tudo se passava tranquilamente do que ficar imaginando para sempre como tinha acontecido.

Percebendo a lógica daquele argumento, Jesse segurou a cabeça da companheira e a reconfortou enquanto eu administrava a injeção. EIa adormeceu aninhada na mão dele.

O animal parecia tranquilo e em paz. Agora era o dono que tinha que aguentar todo o sofrimento.

Este é o melhor presente que se pode dar a um ente querido. Assumir a sua dor para que ele possa descansar - eu disse.

Jesse balançou a cabeça, concordando. Ele compreendia.

Mas faltava alguma coisa. Apesar de eu ter pedido que ele virasse homem de um instante para o outro, e de Jesse ter feito isso com gentileza e força, ele ainda era um garoto.

Estendi os braços e perguntei se ele precisava de um abraço.

Ele precisava e, na verdade, eu também.

 

 

Seja gentil pois cada pessoa que você conhecer

pode estar enfrentando uma batalha mais árdua.

PLATÃO

 


 

QUEBRANDO AS REGRAS

CHRIS BLAKE - Enviado por Leon Bunker

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 27

 

Todo aluno científico Monroe conhecia as regras. E ninguém ousava quebrá-las. Ninguém. Na hora do almoço no científico Monroe era sempre igual. Assim que tocava o sinal do fim da última aula da manhã, os alunos corriam até seus escaninhos. Depois, os que não comiam no refeitório se dirigiam para a quadra com seus lanches dentro de saquinhos. A quadra era um grande quadrado de concreto sem árvores no meio do colégio. Era o lugar dos encontros e das refeições.

Os vários grupinhos do colégio se reuniam em torno da quadra. Os viciados se juntavam no lado sul. Os punks ficavam ao seu lado. No lado leste ficavam os negros. Ao seu lado, os CDFs. Os atletas ficavam no lado norte, ao lado dos surfistas. Os caipiras ficavam no lado oeste. As patricinhas e os mauricinhos ficavam no refeitório. Todos sabiam seus lugares.

Esse arranjo criava uma certa tensão. No entanto, mesmo toda a tensão gerada no perímetro da quadra na hora do almoço não era nada em comparação com o interior da quadra.

Lá dentro era a terra-de-ninguém. Ninguém do Monroe cruzava o meio da quadra. Para passar de um lado para o outro, os alunos davam a volta na quadra. Davam a volta nas pessoas. Davam a volta nos olhares. Todo mundo sabia, ninguém fazia.

Então, certo dia, no começo da primavera, chegou uma aluna nova no Monroe. Seu nome era Lisa. Ela não conhecia a área. Na verdade, era nova no estado. E, embora Lisa fosse bastante simpática, não atraiu amigos com rapidez. Era gorda demais e tímida, e o estilo de suas roupas era meio... cafona.

Ela se inscrevera no Monroe naquele dia. Durante a manhã inteira sofrera para encontrar suas salas e algumas vezes chegara tarde, o que era especialmente constrangedor. Os professores, em geral, tinham sido tolerantes. Alguns ficaram irritados, pois suas turmas já eram grandes demais e a chegada de um novo aluno exigia uma burocracia antes da aula.

Mas ela conseguira "sobreviver" até a hora do almoço. Ao ouvir o sinal, Lisa suspirou e juntou-se à multidão no corredor.

Caminhou até o escaninho e tentou seu segredo três, quatro, cinco vezes antes de ele abrir com um estrondo. Para não ter que voltar e pegar os livros no armário depois do almoço, resolveu levá-los com ela. Pensou em almoçar nos degraus na frente da sua próxima sala.

Lisa começou então a caminhada mais longa da sua vida: através do colégio em direção à sua próxima aula. Cruzou o corredor. Desceu as escadas. Cruzou o gramado. Cruzou a calçada. Cruzou a quadra.

Enquanto caminhava, Lisa tinha de equilibrar os pesados livros no braço e o saquinho com seu lanche no outro. Ela pegara livros demais, e o de cima da pilha não parava de escorregar. Então ela era obrigada a ficar prestando atenção nele como em um número de malabarismo. Foi passando pelas pessoas e avançando lentamente, sem ligar para o que estava em volta.

De repente, sentiu alguma coisa, um silêncio estranho. Um temor inominável apoderou-se dela. Lisa parou. Levantou a cabeça.

Centenas de olhos estavam pregados nela. Olhares cruéis, cheios de ódio. Olhares impiedosos. Olhares irados. Olhares sem sentimento, frios, que penetravam em seu corpo. Ela estacou, tonta, imobilizada. Sua mente gritava: "Não!

Isso não pode estar acontecendo!" Ninguém sabe dizer com certeza o que aconteceu em seguida. Alguns contam que Lisa deixou cair o livro, abaixou-se para pegá-Io e perdeu o equilíbrio. Outros dizem que ela tropeçou. Não importa como aconteceu.

Ela caiu no chão e ficou ali caída, com as pernas abertas, no meio da quadra.

Então os risos começaram como uma corrente elétrica percorrendo o perímetro, carregada de um clima de pesadelo, enrolando-se cada vez mais em torno de sua vítima. E ela ali caída.

De todos os lados, dedos apontavam para ela, e depois começaram os insultos, crescendo em um júbilo rouco, aumentando em uma insanidade implacável. E ela ali caída.

De um canto da quadra, uma figura surgiu lentamente. Era um garoto alto e tinha um andar rígido, como se medisse cada passo. Caminhou para onde os dedos apontavam. À medida que os alunos perceberam que havia outra pessoa no meio da quadra, os insultos diminuíram, depois pararam. Um silêncio espalhou-se pela multidão.

O garoto andou em meio ao silêncio. Caminhava com firmeza, com os olhos fixos na forma caída no concreto. Quando chegou perto da garota, o silêncio era sepulcral. O menino simplesmente se ajoelhou, pegou o saco de comida, os livros espalhados e depois pôs a mão debaixo do braço da garota e a olhou nos olhos. Ela se levantou. O garoto ajudou Lisa a se equilibrar, enquanto caminhavam pela quadra e cruzavam com as pessoas mudas que se afastavam para deixá-los passar.

No dia seguinte, na hora do almoço, uma coisa curiosa aconteceu no científico Monroe. Assim que o sinal que marcava o fim da última aula da manhã começou a tocar, os alunos correram até seus escaninos. Depois, os que não comiam no refeitório se dirigiram para o meio da quadra com seus lanches. De todos os lados do colégio, grupos diferentes de alunos caminhavam livremente pela quadra. Ninguém podia explicar realmente por que agora era permitido. Todos apenas sabiam. E, se você visitar o científico Monroe, é assim que é hoje.

Isso aconteceu há algum tempo. Eu nunca consegui descobrir o nome do garoto que ajudou Lisa. Mas ninguém aqui vai se esquecer do que ele fez. Ninguém.


 

A DECISÃO MAIS DIFÍCIL QUE TOMEI

KRISTINA DULCEY

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 32

 

Erros, erros, erros. Todo mundo os comete. Ninguém viu o meu chegar.

No geral, eu era uma boa menina. Aos quinze anos, estava no segundo ano do segundo grau de uma escola católica e fazia parte de uma sociedade nacional de honras acadêmicas. Eu jogava sofiball e corria cross-country. Tinha, e ainda tenho, vontade de ser médica. Se aos quinze anos, alguém tivesse me falado que eu ia ficar grávida, teria dito que essa pessoa era louca.

Por que alguém faria uma tolice dessas? Ainda é difícil acreditar, mas aconteceu.

Onze de outubro de 1997 foi o dia em que minha filha nasceu. Olhei para ela e foi amor à primeira vista. Senti-me inundada de emoções que jamais experimentara. Eu a amei intensamente, incondicionalmente. Desejava lhe dar o que havia de melhor, mas estava consciente de que, por mais que quisesse, não seria capaz. Fisicamente, emocionalmente e de todas as outras formas, eu não tinha condições de ser mãe. Sabia o que precisava ser feito. Procurando deixar as minhas emoções de lado, fiz o que achei ser melhor para a minha filha: decidi dá-Ia para adoção.

Colocar minha filhinha nos braços da mulher que passou a ser sua mãe foi a coisa mais difícil que já tive de fazer. Minha alma doía. Embora ainda possa vê-Ia, porque fui abençoada com uma adoção aberta, a dor continua intacta. Sinto-a queimar dentro de mim todos os dias, toda vez que penso em Katelyn. Só espero que, quando ela for mais velha, se dê conta do quanto a amo. Eu a amo mais do que qualquer coisa neste mundo.

Hoje é o primeiro Natal de minha filha. Não vou estar ao seu lado para compartilhar a alegria desta época de festas ou brincar de Papai Noel e abrir os presentes para ela (ela só te.m dois meses). Na realidade, não vou estar por perto quando der seu primeiro passinho ou quando balbuciar sua primeira palavra. Não estarei presente para tirar fotos de seu primeiro dia no jardim-de-infância. E quando ela chorar pedindo a mamãe, não é por mim que estará chamando. No fundo, sei que tomei a decisão certa. Eu só gostaria, de todo coração, que não tivesse precisado fazer essa escolha.


 

CONTE AO MUNDO POR MIM

JOHN POWELL, S.J.

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 34

 

Eu estava me preparando para dar a aula inaugural de teologia e observava os alunos da universidade entrarem na sala, quando vi TOMMY pela primeira vez. Isso foi há quatorze anos. Ele estava penteando o cabelo, que chegava a quinze centímetros abaixo dos ombros. Minha primeira impressão foi de que ele era estranho - muito estranho.

Tommy se revelou meu maior desafio. Ele constantemente fazia pouco da possibilidade de existir um Deus que amasse todas as pessoas incondicionalmente. Quando entregou sua prova final do curso, perguntou com um tom levemente cínico:

- O Senhor acha que eu algum dia vou encontrar Deus?

- Não - respondi enfaticamente.

- AH!- ele retrucou. – Achei que fosse essa crença que o senhor estivesse nos empurrando.

- Deixei-o dar cinco passos porta afora e então falei:

- Não acho que você vá encontrá-lo, mas tenho certeza de que Ele vai encontrar você. - Tommy deu de ombros e foi embora. Fiquei ligeiramente desapontado por ele não ter dado atenção à minha frase de efeito.

Mais tarde, fiquei contente ao saber que Tommy tinha se formado. Depois, chegou uma notícia triste: Tommy tinha câncer em estágio terminal. Antes que eu pudesse  procurá-lo, ele veio me ver. Quando entrou na minha sala, seu corpo estava muito debilitado e seus longos cabelos tinham caído por causa da quimioterapia. Mas seus olhos brilhavam e sua voz, pela primeira vez, estava firme.

- Tommy! Pensei tanto em você. Ouvi dizer que você está doente - fui logo dizendo.

- É, muito doente. Estou com câncer. Só tenho algumas semanas.

- Consegue falar sobre isso?

- Claro. O que o senhor quer saber?

- Como é ter vinte e quatro anos e saber que vai morrer?

- Poderia ser pior - disse ele -, tipo ter cinquenta e pensar que tomar todas, pegar mulher e ganhar dinheiro são as coisas mais legais da vida. - Então ele me disse por que tinha ido me ver:

- Foi uma coisa que o senhor falou no último dia de aula.

Eu perguntei se o senhor achava que um dia eu ia encontrar Deus e fiquei surpreso quando a resposta foi não. Depois o senhor disse: "Mas Ele vai encontrar você." Pensei muito nisso, embora na época eu não estivesse muito interessado em procurar Deus.

- Mas, quando os médicos retiraram um caroço da minha virilha e me disseram que era maligno comecei a tentar seriamente localizar Deus. E, quando o câncer se espalhou pelos meus órgãos vitais, comecei a socar de verdade as portas do céu. Mas nada aconteceu. Bom, um dia eu acordei e, em vez das tentativas desesperadas de receber algum tipo de mensagem simplesmente desisti. Decidi que na verdade não ligava para Deus, vida depois da morte ou qualquer coisa desse tipo.

- Decidi gastar o tempo que tinha fazendo algo mais importante. Pensei em outra coisa que o senhor tinha dito: "A maior tristeza é passar pela vida sem amar. Mas seria igualmente triste deixar este mundo sem nunca dizer àqueles que você amou que os amava." Então comecei com o mais difícil de todos: meu pai.

O pai de Tommy estava lendo o jornal quando o filho chegou perto dele.

- Papai, queria falar com você.

- Bom, fale.

-É importante o que eu quero dizer.

O jornal se abaixou lentamente alguns centímetros.

- O que é?

-Papai, eu te amo. Só queria que você soubesse disso.

Tommy sorriu ao me contar aquela cena.

- O jornal caiu no chão. Então meu pai fez duas coisas que nunca tinha visto fazer antes: chorou e me abraçou. E conversamos a noite toda, apesar de ele ter que ir trabalhar na manhã seguinte.

- Foi mais fácil com minha mãe e com meu irmão mais novo - continuou Tommy. - Eles choraram comigo, nos abraçamos e compartilhamos as coisas que vínhamos mantendo em segredo por tantos anos. Eu só lamento ter esperado tanto. Ali estava eu, à beirada morte, apenas começando a me abrir para todas as pessoas de quem eu tinha sido realmente próximo.

- Então um dia eu me virei e Deus estava ali. Ele não veio quando chamei por Ele. Aparentemente, Ele faz as coisas do Seu próprio jeito e no Seu próprio tempo. O importante é que o senhor estava certo. Ele me encontrou mesmo depois de eu ter parado de procurá-lo.

- Tommy - disse eu, quase engasgando. - Acho que você não se dá conta da importância do que está dizendo. Você está dizendo que o caminho mais perto para encontrar Deus não é fazer Dele uma posse particular nem um consolo instantâneo em momentos de necessidade, mas sim se abrindo para o amor.  Tommy - acrescentei - será que eu podia pedir um favor a você? Você viria à minha aula de teologia para contar aos meus alunos o que acabou de me dizer?

Embora tenhamos combinado uma data, ele não pôde ir.

Sua vida, é claro, não terminou com sua morte, apenas mudou. Deu o grande passo da fé rumo à visão. Encontrou urna vida muito mais bonita do que os olhos da humanidade já viram ou do que a mente jamais imaginou.

Antes de morrer, conversamos uma última vez.

- Não vou conseguir ir à sua aula- ele disse.

- Eu sei, Tommy.

- O senhor pode contar a eles por mim? Pode... contar ao mundo inteiro por mim?

- Posso, Tommy. Vou contar a todos eles.

 

Procurei minha alma,

mas minha alma eu não conseguia ver.

Procurei meu Deus,

mas meu Deus se esquivou de mim.

Procurei meu irmão

e encontrei os três.

AUTOR DESCONHECIDO

 


 

SE EU SOUBESSE

KIMBERLY KIRBERGER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 39

 

Muitas pessoas vivem dizendo “Ah, se eu soubesse naquela época o que sei agora...”, mas nunca completam o pensamento.

Quer saber o que eu faria? Então, lá vamos nós.

 

Eu ouviria com mais atenção o que meu coração tem para dizer.

Eu me divertiria mais e me preocuparia menos.

Eu saberia que a escola um dia vai terminar... e que o trabalho... bom, deixa pra lá!

Eu não me preocuparia tanto com o que os outros estivessem pensando.

Eu valorizaria minha vitalidade e minha juventude.

Eu brincaria mais, e me irritaria menos.

Eu saberia que minha beleza está no meu amor pela vida.

Eu saberia o quanto meus pais me amam e acreditaria que eles estão fazendo o melhor que podem.

Eu aproveitaria o sentimento de "estar amando" e não me preocuparia tanto com o futuro.

Eu saberia que provavelmente a paixão vai acabar um dia, mas que alguma coisa melhor virá.

Eu não teria medo de agir como criança.

Eu teria mais coragem.

Eu buscaria ver as qualidades de cada pessoa e não seus defeitos.

Eu não perderia meu tempo com algumas pessoas só porque elas são "populares”

Eu faria aulas de dança.

Eu gostaria do meu corpo do jeito que ele é.

Eu acreditaria nas minhas amigas.

Eu seria uma namorada fiel.

Eu não acreditaria nos meus namorados. (Brincadeira.)

Eu aproveitaria os beijos. Aproveitaria de verdade.

Eu seria mais compreensiva e grata com certeza.


 

O SEGREDO DA FELICIDADE

THE SPEAKER'S SOURCEBOOK

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 41

 

Há uma fábula maravilhosa sobre uma menina órfã que não tinha família nem ninguém para amá-la. Certo dia, sentindo-se excepcionalmente triste e sozinha, ela foi passear por um prado. Ela viu uma pequena borboleta presa em um arbusto de espinhos. Quanto mais a borboleta lutava para se libertar, mais os espinhos cortavam suas asas frágeis. A menina órfã libertou cuidadosamente a borboleta de sua prisão de espinhos. Em vez de voar para longe, a pequena borboleta transformou-se numa bonita fada. A menina esfregou os olhos, sem acreditar. - Por sua maravilhosa gentileza - disse a boa fada à menina -, vou realizar qualquer desejo que você escolher.

A menina pensou um pouco e depois respondeu:

- Eu queria muito ser feliz!

A fada disse:

- Muito bem - e, inclinando-se na direção dela, sussurrou alguma coisa no seu ouvido. Em seguida, a fada desapareceu.

Enquanto a menina crescia, não havia ninguém na região tão feliz quanto ela. Todos lhe perguntavam o segredo da sua felicidade. Ela apenas sorria e respondia:

- O segredo da minha felicidade é que ouvi o que uma boa fada me disse quando eu era menina.

Quando estava bem velhinha, em seu leito de morte, todos os vizinhos se reuniram à sua volta, com medo de que o maravilhoso segredo morresse com ela.

- Conte, por favor - imploraram eles. - Conte o que a boa fada disse.

A adorável velhinha simplesmente sorriu e respondeu:

- Ela me disse que todo mundo, por mais seguro que pareça, quer seja velho ou novo, rico ou pobre, precisa de mim.

 

Se quiser ser amada, ame e seja amável.

Benjamin Franklin

MEU PRIMEIRO BEIJO

MARY JANE WEST-DELGADO

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 43

 

Eu era uma adolescente muito tímida e o meu primeiro namorado, também. Morávamos numa cidade pequena e cursávamos a sétima série no mesmo colégio. Fazia uns 6 meses que estávamos saindo juntos. Conversávamos sobre várias coisas, íamos ao cinema e, no escurinho, pegávamos na mão um do outro, suando de nervoso. Muitas vezes quase nos beijamos, mas nenhum dos dois teve coragem de ir em frente, apesar de sabermos o quanto queríamos ser beijados.

Um dia, estávamos sentados no sofá da sala de estar da minha casa e ele tomou a iniciativa. Conversávamos sobre o tempo (juro!), quando ele se inclinou para me beijar. Mas eu fiquei com vergonha e coloquei uma almofada na frente do meu rosto e ele acabou beijando a almofada!

Eu queria ser beijada, mas estava nervosa demais. Então, fui para o outro lado do sofá, fugindo dele. Ele chegou mais perto, puxando papo sobre um filme que estava passando na tevê, e se inclinou para a frente mais uma vez. De novo, eu recuei.

Fui para a ponta do sofá. Ele foi atrás de mim, falando de outro assunto, e se inclinou na minha direção... Eu me levantei.

Andei até a porta, fiquei em pé, encostada na parede, de braços cruzados, : disse, impaciente:

- E aí, vai me beijar ou não?

- Vou - disse ele.

Então, estiquei as costas, fechei os olhos bem apertados, fiz biquinho e levantei o rosto. Esperei... e esperei. (Por que ele não estava me beijando?) Quando abri os olhos, ele estava vindo na minha direção. Sorri e ele acabou beijando os meus dentes!

Eu quase morri de vergonha e, quando ele foi embora, fiquei imaginando se ele contaria aos amigos sobre o meu comportamento desajeitado. Como eu era extremamente tímida, comecei a evitar a companhia dos meninos, mesmo aqueles que eu conhecia desde o jardim-de-infância. Quando andava pelo corredor do colégio, se visse meu ex-namorado ou qualquer outro rapaz que achasse bonito vindo na minha direção, eu me escondia na sala mais próxima sala.

Durante o científico, eu continuei com dificuldades em me relacionar com os garotos. Só quando entrei para a faculdade é que decidi deixar a timidez de lado. Queria aprender a beijar com segurança e graça. Aprendi.

Na primavera, fui para casa rever meus pais. Um dia, entrei no barzinho da moda e vi meu antigo parceiro de beijo sentado no bar. Caminhei até onde ele estava e bati no seu ombro. Quando ele se virou, eu não perdi tempo: abracei-o com força, inclinei seu corpo para trás e dei-lhe o mais decidido dos beijos na boca. Depois, olhei para ele triunfante e exclamei:

-Pronto!

Ele apontou para a garota ao seu lado e me disse:

- Mary Jane, eu queria lhe apresentar a minha namorada.


 

OS PRESENTES ETERNOS

JACK SCHLATTER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 46

 

- Isso é verdade, ou o senhor só escreveu no quadro porque é uma frase de efeito?

- O quê? - perguntei sem levantar os olhos da mesa.

- Aquele dizer: "Se você pensar em alguma coisa que quer e acreditar que vai tê-la, é capaz de conseguir."

Levantei os olhos e vi o rosto de Paul, uma das pessoas de quem eu mais gostava, mas certamente não um dos meus melhores alunos.

- Bom, Paul - eu disse -, o autor dessas palavras, Napoleon Hill, as escreveu depois de 2 anos de pesquisa sobre a trajetória de grandes homens e mulheres. Ele descobriu que esse conceito, afirmado de muitas maneiras diferentes, era a única coisa que todos tinham em comum. Júlio Verne disse isso de outra maneira, ao afirmar: "Qualquer coisa que a mente de um homem puder imaginar, a mente de outro homem pode criar."

- O senhor quer dizer que, se eu tiver uma ideia e realmente acreditar nela, posso fazê-la acontecer? - Ele fez a pergunta com uma intensidade que atraiu toda a minha atenção.

- Pelo que tenho visto e lido, Paul, isso não é uma teoria, mas uma lei que tem sido demonstrada ao longo da História.

Paul enterrou as mãos nos bolsos de trás da sua calça Levi's e ficou andando em círculos pela sala, lentamente.

Então virou-se e me encarou com uma energia nova:

- Sr. Schlatter - disse ele -, durante toda a minha vida fui um aluno abaixo da média e sei que isso vai me custar caro mais tarde na vida. E se eu pensasse em mim como um aluno e acreditasse de verdade... se acreditasse que até mesmo eu poderia conseguir isso ?

- É, Paul, mas você tem que saber o seguinte: se acreditar de verdade, vai agir para isso. Acho que existe um poder dentro e você que vai fazer maravilhas para ajudar, contanto que

você se comprometa.

- Como assim, me comprometa? - perguntou ele.

- Bom, existe uma história sobre um padre que pegou o carro e foi até a fazenda de um membro da sua congregação. Admirando a beleza do lugar disse: "Clem, você e o Senhor Deus sem dúvida criaram uma coisa muito linda aqui."

- Para resumir, Paul, Deus nos dá a madeira, mas temos que acender o fósforo.

Seguiu-se um silêncio cheio de reflexão.

- Tudo bem - disse Paul. - Vou fazer isso. Até o final do semestre, vou ser um aluno B.

Já estávamos quinta semana do semestre e, na minha aula, a média de Paul era D.

- A montanha é alta, Paul, mas eu também acredito que você pode conseguir o que acaba de se propor. - Nós dois rimos e ele saiu da sala para almoçar.

Durante os 3 meses seguintes Paul me proporcionou uma das experiências mais inspiradoras que um professor pode ter. Começou a fazer perguntas inteligentes e desenvolveu uma intensa curiosidade. Passou a arrumar-se melhor e a ter mais firmeza na forma de caminhar. Aos poucos, sua média foi subindo e era possível ver sua autoestima começando a crescer. Pela primeira vez na vida, os outros alunos passaram a lhe pedir ajuda. O encanto que eu percebia em Paul desabrochou completamente.

Finalmente veio a vitória. Em uma noite de sexta-feira, sentei-me para corrigir uma prova sobre a Constituição. Fiquei olhando para a prova de Paul durante um bom tempo antes de pegar minha caneta vermelha para começar a corrigi-la. Não foi preciso usar a caneta. Era uma prova perfeita, sua primeira nota máxima.  Telefonei para meus colegas para contar a novidade.

Naquela manhã de sábado, fui de carro até o colégio para um ensaio de Siga o Sonho, a peça que eu estava dirigindo. Entrei no estacionamento com o coração leve e acenei para Kathy, protagonista da peça e uma das melhores amigas de Paul. Lágrimas escorriam pelo seu rosto.

Assim que saí do carro, ela correu na minha direção e se jogou em cima de mim, soluçando. Depois, me contou o que tinha acontecido.

Paul estava na casa de um amigo e os dois descobriram a coleção de armas "descarregadas" do pai do garoto. Começaram a brincar. Em determinado momento, o amigo apontou uma arma "descarregada" para a cabeça de Paul e puxou o gatilho. Paul morreu na hora, com uma bala no cérebro.

Na segunda-feira, um inspetor chegou trazendo o boletim de Paul. No lugar em que devia estar a média geral havia um quadradinho ao lado do qual estava escrito "desnecessário".

"Isso é o que a direção do colégio acha", pensei comigo mesmo, enquanto marcava um enorme A no quadrado. Virei as costas para que a turma não visse minhas lágrimas. Paul tinha merecido aquela nota e ela estava ali, mas Paul, não. As roupas novas que ele tinha comprado com o dinheiro como entregador de jornais ainda estavam no seu armário, mas Paul não estava mais ali. Seus amigos, suas notas, seu prêmio de futebol estavam ali, mas Paul, não. Por quê?

Nesse momento me vieram à cabeça e penetraram no meu coração as palavras de um antigo poema: "Constrói para ti outras mansões soberbas, alma minha." Percebi que Paul não deixara tudo para trás. As lágrimas começaram a secar e meu rosto se abriu num sorriso, ao imaginar Paul ainda pensando, ainda acreditando e ainda conseguindo, com sua recém-desenvolvida curiosidade, disciplina e autoestima incorporadas para sempre ao seu ser.

Ele nos deixara uma grande quantidade de riqueza. Do lado de fora da igreja, no dia do enterro, reuni os alunos de teatro à minha volta e anunciei que os ensaios começariam no dia seguinte. Em homenagem à memória de Paul e de tudo que ele havia nos deixado, era hora mais uma vez de seguir o sonho.

 

Na hora mais sinistra a alma é reabastecida

e ganha força para seguir em frente e suportar.

GUERREIRO XOSA

ACENDENDO A SUA LUZ

ALEC ALLENBAUGH

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 51

 

Mais de quatro décadas atrás, eu estava no segundo ano de um grande científico no sul da Califórnia. O corpo estudantil de 3200 alunos era um caldeirão de diferenças étnicas. O ambiente era difícil. Facas, canos, correntes, socos-ingleses e, às vezes, alguma arma escondida eram comuns. Brigas e atividades de gangues eram acontecimentos semanais.

Depois de um jogo de futebol no outono de 1959, eu estava saindo da arquibancada com minha namorada. Enquanto descíamos pela calçada cheia de gente, alguém me chutou por trás. Ao me virar, vi uma gangue local armada com socos-ingleses. O primeiro golpe do ataque gratuito quebrou imediatamente o meu nariz, um dos vários ossos que seriam quebrados na surra. Socos voavam em todas as direções à medida que eu era cercado pelos quinze membros da gangue. Mais ferimentos.

Uma concussão cerebral. Hemorragia interna. Acabei tendo que passar por uma cirurgia. Meu médico me disse que, se eu houvesse sido atingido na cabeça mais uma vez, provavelmente teria morrido. Felizmente, não machucaram a minha namorada.

Depois que me recuperei fisicamente, alguns amigos me procuraram e disseram:

- Vamos pegar esses caras! - Era assim que os problemas eram resolvidos. Depois de um ataque, igualar o placar tornava-se uma prioridade. Parte de mim dizia: "Vamos!" O doce gosto da vingança era certamente uma possibilidade.

Mas outra parte de mim pensou melhor e disse não.

Vingança não resolvia. A história tinha demonstrado claramente, vezes sem conta, que as represálias só fazem acelerar e intensificar o conflito. Precisávamos fazer alguma coisa diferente para quebrar a corrente contraproducente dos acontecimentos.

Trabalhando com vários grupos étnicos, criamos o que chamamos de Comitê da Irmandade, para melhorar as relações entre as diferentes raças. Fiquei espantado ao ver como meus colegas estavam interessados em construir um futuro melhor.

Nem todos se dispunham a fazer as coisas de um modo diferente.

Enquanto pequenos grupos de alunos, professores e pais resistiam ativamente àquele intercâmbio cultural, cada vez mais pessoas participavam de nosso esforço para mudar as coisas.

Dois anos mais tarde, candidatei-me à presidência da associação de alunos. Mesmo concorrendo com dois amigos, um deles um herói de futebol e o outro uma "grande figura do colégio", muito popular, a maioria dos 3.200 alunos se juntou a mim no processo de fazer as coisas de modo diferente. Não vou dizer que os problemas raciais foram completamente resolvidos. No entanto, fizemos progressos significativos na construção de pontes entre as culturas, buscando estabelecer um diálogo com diferentes grupos étnicos, resolver as diferenças sem recorrer à violência e aprender a criar confiança em meio às circunstâncias mais difíceis. É incrível o que acontece quando as pessoas conseguem falar umas com as outras!

Ser atacado por aquela gangue há tantos anos foi, sem dúvida, um dos momentos mais difíceis da minha vida. No entanto, o que aprendi sobre retribuir com amor em vez de desenvolver o ódio tem sido uma força poderosa na minha vida.

Acender a luz ao lado daqueles que vivem na escuridão pode fazer a grande diferença na vida de todos.

 

 

Aqueles que levam luz à vida dos outros não podem

impedi-Ia de iluminar as suas.

JAMES M. BARRIE

 


 

POR QUE OS MENINOS GOSTAM DE MENINAS

KIMBERLY KIRBERGER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 54

 

Certo dia, enquanto lia meus e-mails, abri um daqueles que fazem a gente ficar apertando a setinha para baixo durante uma eternidade até chegar à mensagem, que foi enviada para centenas de pessoas.

Bem, eu normalmente apago esse tipo de mensagem. Mas aquela me intrigou. Chamava-se "Alguns Motivos Pelos Quais Meninos Gostam de Meninas". As instruções diziam para ler a lista, fazer acréscimos e enviá-Ia a, pelo menos, vinte e cinco pessoas. Se você não a passasse adiante, teria azar no campo amoroso.

Mas, se a mandasse para vinte e cinco pessoas ou mais, receberia como prêmio toda a felicidade do mundo no amor.

Depois de ler os motivos pelos quais meninos gostam de meninas, tive uma ideia. Se eu conseguiria ter toda a felicidade do mundo no amor mandando aquele e-mail para vinte e cinco pessoas, imagine só a sorte que teria se o mandasse para milhões de pessoas!

Por isso, resolvi escrever para este livro, na esperança de conseguir a perfeição conjugal graças a cada um de vocês que ler isto:

 

ALGUNS MOTIVOS PELOS QUAIS MENINOS GOSTAM DE MENINAS

 

1 - O cheirinho delas é sempre gostoso, mesmo que seja só xampu.

2 - O jeito que elas têm de sempre encontrar o lugarzinho certo em nosso ombro.

3 - A facilidade com a qual cabem em nossos braços.

4 - O jeito que têm de nos beijar e, de repente, fazer o mundo ficar perfeito.

5 - Como são encantadoras quando comem.

6 - Elas levam horas para se vestir, mas no final vale a pena.

7 - Porque estão sempre quentinhas, mesmo que esteja fazendo trinta graus abaixo de zero lá fora.

8 - Como sempre ficam bonitas, mesmo de jeans, camiseta e rabo-de-cavalo.

9 - Aquele jeitinho sutil de pedir um elogio.

10 - Como ficam lindas quando discutem.

11 - O modo que têm de sempre encontrar a nossa mão.

12 - O brilho nos olhos delas quando sorriem.

13 - Ouvir a mensagem delas na secretária eletrônica logo depois de uma briga horrível.

14 - O jeito que têm de dizer "Não vamos brigar mais, não...", embora você saiba que dali a uma hora...

15 - A ternura com que nos beijam quando lhes fazemos uma delicadeza.

16 - O modo de nos beijarem quando dizemos "eu te amo".

17 - Pensando bem, só o modo de nos beijarem já basta...

18 - O modo que têm de se atirar em nossos braços quando choram.

19 - O jeito de pedir desculpas por terem chorado por alguma bobagem.

20 - O fato de nos darem um tapa achando que vai doer.

21 - O modo com que pedem perdão quando o tapa dói mesmo (embora jamais admitamos que doeu).

22 - O jeitinho de dizerem "estou com saudades".

23 - As saudades que sentimos delas.

24 - A maneira que suas lágrimas têm de nos fazer querer mudar o mundo para que nada mais lhes cause dor.

 

E no entanto, quer você as ame, as odeie, queira que morram ou saiba que morreria sem elas... não importa. Depois que elas entram em sua vida, mesmo que para o resto do mundo não signifiquem nada, tornam-se tudo para nós. Quando olhamos em seus olhos, quando podemos adivinhar seus pensamentos e dizer milhões de coisas sem emitir um único som, o mundo fica iluminado e sabemos que nossas vidas foram completamente transformadas.

Nós as amamos por um milhão de motivos. Não é coisa da mente e sim do coração. Um sentimento. O mais forte que existe.


 

UM LONGO CAMINHO PARA CASA

JASON BOCARRO

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 58

 

Cresci no sul da Espanha, em uma pequena comunidade chamada Estepona. Tinha dezesseis anos na manhã em que meu pai me disse que eu podia levá-lo de carro até um vilarejo isolado chamado Mijas, a cerca de trinta quilômetros, com a condição de que levasse o carro a uma oficina ali perto. Já que acabara de aprender a dirigir e quase nunca tinha a oportunidade de usar o carro, aceitei na hora. Levei papai até Mijas, prometendo pegá-lo às quatro da tarde, e depois fui até uma oficina próxima e , deixei o carro lá. Já que tinha algumas horas livres, decidi assistir a dois filmes em um cinema perto da oficina. Mas fiquei tão absorto nos filmes, que perdi completamente a noção do tempo.

Quando o último filme terminou, olhei para o relógio. Eram seis horas. Eu estava duas horas atrasado!

Sabia que papai ficaria zangado se descobrisse que eu estava no cinema. Ele nunca mais me deixaria dirigir. Decidi dizer a ele que o carro precisava de uns consertos e que eles tinham levado mais tempo do que o previsto. Fui até o lugar onde deveríamos nos encontrar e vi papai esperando pacientemente na esquina. Pedi desculpas pelo atraso e disse a ele que tinha vindo o mais rápido possível, mas que o carro precisara de alguns consertos grandes. Nunca vou me esquecer de como ele me olhou.

- Fico desapontado por você achar que precisa mentir para mim, Jason.

- Como assim? Estou falando a verdade.

Papai tornou a olhar para mim.

- Quando você não apareceu, eu liguei para a oficina para perguntar se tinha acontecido alguma coisa e eles me disseram que o carro já estava pronto há muito tempo e você não tinha aparecido.

Uma onda de culpa percorreu meu corpo enquanto eu confessava miseravelmente minha ida ao cinema e a verdadeira razão do meu atraso. Papai ouviu com atenção enquanto seu rosto se cobria de tristeza.

- Estou muito triste. Não com você, mas comigo. Sabe, eu me dou conta de que fracassei como pai, já que depois de todos esses  anos você ainda acha que precisa mentir para mim.

Fracassei porque criei um filho que não consegue nem dizer verdade ao próprio pai. Vou voltar para casa andando, para poder pensar onde errei todos esses anos.

- Mas, pai, são trinta quilômetros até nossa casa. Está escuro. Você não pode voltar andando.

Meus protestos, minhas desculpas e o resto das minhas palavras foram inúteis. Eu tinha decepcionado meu pai e estava prestes a aprender uma das lições mais dolorosas da vida. Ele começou a andar pela estrada empoeirada. Rapidamente, pulei para dentro do carro e o segui de perto, esperando que ele fosse desistir. Implorei o caminho todo, dizendo o quanto estava arrependido, mas ele simplesmente me ignorou, continuando a caminhar em silêncio, pensativo e sofrendo. Dirigi atrás dele 30 kms numa média de 8 kms por hora.

Ver meu pai sofrendo tanto física quanto emocionalmente foi a experiência mais perturbadora e dolorosa que já enfrentei.

No entanto, foi também a melhor das lições. Nunca mais menti para ele.

 

 

Experiência: a mais brutal das professoras.

Mas você aprende, meu Deus, como aprende.

C.S. LEWIS

 


 

O PODER DE UM BOM PROFESSOR

DIANA L. CHAPMAN

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 61

 

Estávamos sentados na sua sala, dando risinhos, nos cutucando e falando sobre os acontecimentos do dia, como o estranho rímel roxo que Cindy estava usando. A Sra. Virginia DeView limpou a garganta e nos pediu silêncio.

- Agora - disse ela sorrindo -, vamos descobrir nossas profissões. - A turma toda deu uma exclamação de surpresa.

Nossas profissões? Olhamos uns para os outros. Tínhamos só treze e quatorze anos. Aquela professora estava doida.

Era mais ou menos assim que os alunos viam Virginia DeView, com seus cabelos presos em um coque e seus dentes grandes, saltados saindo pela boca. Por causa de sua aparência, ela era sempre um alvo fácil para risinhos e piadas cruéis entre os alunos.

Ela também irritava seus alunos porque era exigente.

A maioria de nós simplesmente ignorava sua inteligência.

- Sim, todos vocês vão procurar suas futuras profissões - disse ela com o rosto iluminado, como se aquela fosse a melhor coisa que fizesse em sua aula a cada ano. - Vão ter que escrever um trabalho sobre sua futura carreira. Cada um de vocês vai ter que entrevistar alguém da sua área e fazer um relatório oral.

Fomos para casa confusos. Quem sabe o que quer fazer aos treze anos? No entanto, eu sabia de algumas das minhas escolhas. Gostava de arte, de cantar e de escrever. 1ias era péssima em arte, e quando eu cantava minhas irmãs gritavam:

- Ah, por favor, cale a boca! - A única coisa que sobrava era ler.

Todos os dias, durante a aula, Virginia DeView nos perguntava: em que ponto estávamos? Quem tinha escolhido sua carreira? No final, quase todos nós tínhamos escolhido alguma coisa, e eu tinha escolhido jornalismo escrito. Aquilo significava que eu ia entrevistar um repórter de jornal de carne e osso e eu estava aterrorizada.

Sentei-me na frente dele praticamente sem conseguir falar.

Ele olhou para mim e disse:

- Você trouxe lápis ou caneta?

Fiz que não com a cabeça.

- E papel?

Fiz que não com a cabeça de novo.

Finalmente, acho que ele se deu conta de que eu estava aterrorizada e recebi minha primeira grande dica como jornalista.

- Nunca, nunca vá a lugar nenhum sem lápis e papel. Você não sabe o que vai encontrar.

Durante os noventa minutos seguintes, ele me encheu de histórias sobre assaltos, ondas de crime e incêndios. Ele nunca se esqueceria do trágico incêndio onde quatro membros da mesma família tinham morrido no fogo.

Alguns dias depois, fiz meu relatório oral totalmente de cabeça, pois tinha ficado muito impressionada. Tirei a nota máxima.

À medida que o ano letivo se aproximava do fim, alguns estudantes muito rancorosos decidiram dar o troco em Virginia De View por nos fazer trabalhar tão duro. Quando ela estava virando uma esquina, jogaram uma torta na cara dela com a maior força possível. Ela se machucou de leve fisicamente, mas foi emocionalmente que ficou ferida de verdade. Não voltou à escola durante vários dias. Quando ouvi a história, foi como se um buraco profundo e feio se abrisse na minha barriga. Senti vergonha por mim mesma e por meus colegas, que eram incapazes de ver, por trás da aparência de uma mulher, seu fenomenal talento para ensinar.

Os anos se passaram e eu me esqueci completamente de Virginia DeView e das carreiras que escolhemos. Estava na faculdade, à procura de uma nova carreira. Meu pai queria que eu fosse executiva, o que parecia um bom conselho na época, mas o problema era que eu não levava absolutamente nenhum jeito para negócios. Então me lembrei de Virginia De View e do meu desejo de ser jornalista aos 13 anos. Liguei para meus pais:

- Estou mudando de curso - anunciei.

Houve um silêncio perplexo do outro lado da linha.

- Para quê? - perguntou meu pai finalmente.

- Jornalismo.

Eu podia sentir o descontentamento nas vozes de meus pais, mas eles não me impediram. Apenas me lembraram o quanto aquela área era competitiva e como durante toda a minha vida eu havia evitado a competição.

Era verdade. Mas o jornalismo mexia comigo, estava no meu sangue. Ele me dava a liberdade para abordar completos desconhecidos e fazer-Ihes perguntas diretas. Ele me treinava para conseguir respostas tanto na minha vida profissional quanto na pessoal. Ele me dava confiança.

Durante os últimos doze anos, tive a carreira de repórter mais incrível e satisfatória possível, cobrindo matérias que vão de assassinatos a acidentes de avião, e finalmente me concentrando naquilo de que gosto e que faço bem. Eu adoro escrever sobre os momentos delicados e trágicos da vida das pessoas, porque tenho a impressão de que aquilo as ajuda de alguma maneira.

Certo dia, durante uma entrevista, fui invadida por uma incrível onda de lembranças e percebi que, se não fosse por Virginia De View, eu não estaria fazendo aquele trabalho.

Ela provavelmente nunca vai saber que, sem a sua ajuda, eu não teria me tornado jornalista e escritora. Imagino que estaria metida no mundo dos negócios em algum lugar, muito infeliz e frustrada. Pergunto-me quantos outros alunos da sua sala aproveitaram aquele projeto de carreira.

As pessoas me perguntam o tempo todo:

- Como você escolheu o jornalismo?

- Bom, sabe eu tinha uma professora... - Sempre começo assim. Só gostaria de poder agradecer a ela.

Acredito que quando as pessoas pensam nos seus dias de colégio, encontram a imagem desbotada de um único mestre - sua própria Virginia DeView. Se tiverem oportunidade de agradecer-lhe, façam isso. Eu gostaria de fazer.

 

Há pontos altos na vida de todos nós,

e a maioria deles vem do incentivo de outra pessoa.

GEORGE ADAMS

SPARKY

BITS AND PIECES

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 66

 

Para Sparky, o colégio era uma coisa quase impossível. Ele foi reprovado em todas as matérias na sétima série. Foi reprovado em física no científico, com nota zero. Sparky também foi reprovado em latim, em álgebra e em inglês. Não foi muito melhor nos esportes. Embora tenha conseguido entrar para o time de golfe da escola, rapidamente perdeu o único jogo importante da temporada. Havia um jogo de consolação e esse ele também perdeu.

Durante toda a sua juventude, Sparky teve problemas de sociabilidade. Os outros alunos não chegavam a não gostar dele, pois ninguém lhe dava importância suficiente para isso. Ele ficava surpreso se algum colega lhe dava bom dia fora do horário de aula. Não se sabe ao certo como foi sua vida sentimental. Sparky nunca convidou uma garota para sair no científico. Tinha medo demais de ser rejeitado.

Sparky era um perdedor. Ele, seus colegas... todo mundo sabia. Então ele vivia com isso. Sparky tinha decidido cedo na vida que, se fosse para as coisas darem certo, elas dariam. Do contrário, ele se contentaria com o que parecia ser sua inevitável mediocridade.

No entanto, uma coisa era ime0rtante para Sparky - desenhar. Ele tinha orgulho de seus desenhos. É claro que ninguém mais gostava deles. No último ano do científico, ele ofereceu alguns quadrinhos para os organizadores do livro de formatura da classe. Os quadrinhos foram rejeitados. Apesar dessa rejeição específica, Sparky estava tão convencido de seu talento que decidiu se tornar um artista profissional.

Depois de completar o científico, ele escreveu uma carta para os estúdios Walt Disney. Pediram-lhe que mandasse algumas amostras de seu trabalho e sugeriram o tema para uma série de quadrinhos. Sparky desenhou os quadrinhos propostos.

Passou muito tempo trabalhando neles e em todos os outros desenhos que enviou para avaliação. Finalmente, recebeu uma resposta dos estúdios Disney. Havia sido rejeitado mais uma vez. Outra derrota para o perdedor.

Sparky decidiu, então escrever sua própria autobiografia em quadrinhos. Descreveu a si mesmo quando criança – um garoto perdedor e que nunca conseguia se sobressair. O personagem de quadrinhos logo se tornaria famoso no mundo inteiro. Pois Sparky, o menino que tinha tão pouco sucesso no colégio e cujo trabalho fora rejeitado vezes sem conta, era Charles Schulz. Ele criou a tira Peanuts com o cachorro Snoopy e o pequeno personagem Charlie Brown, cuja pipa nunca voava e que nunca conseguia chutar uma bola de futebol.


 

O AMOR SE MULTIPLICA

MELISSA ESPOSIT

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 69

 

Sentada na cadeira junto à janela, sentindo o sol quente em meu braço, eu tinha que me esforçar para me lembrar onde estava. Era difícil acreditar que havia vários equipamentos médicos dentro dos armários de carvalho e que em alguns minutos o rebaixamento do teto poderia ser deslocado para revelar luzes cirúrgicas. O quarto nem parecia de hospital, a não ser por pequenos detalhes, como a torre de soro ao lado da cama. Enquanto observava o papel de parede e os móveis cuidadosamente escolhidos, lembrei-me do dia em que aquela aventura tinha começado - não fazia muito tempo.

Era um dia frio de inverno. Nosso time de basquete tinha acabado de vencer por 20 x 11. Exausta, mas entusiasmada, eu me joguei no banco do carona do nosso carro. Enquanto deixávamos o colégio, minha mãe comentou que tinha ido ao médico naquele dia.

- Para quê? - perguntei, começando a ficar nervosa enquanto pensava em todas as doenças que minha mãe poderia ter.

- Bom... - Ela hesitou, e minha preocupação aumentou. Estou grávida.

- Está o quê? - exclamei.

- Grávida - ela repetiu.

Fiquei absolutamente muda. Só conseguia pensar que essas coisas não podem acontecer com os seus pais quando você já está no científico. Depois me dei conta de que ia ter que dividir minha mãe. A mãe que tinha sido só minha por dezesseis anos. Fui dominada por um enorme ressentimento. Eu nunca quis que

a minha mãe tivesse outro filho depois que ela se casou de novo. Era um sentimento egoísta, mas eu relutava em dividir qualquer pedacinho da mamãe.

Ao ver a surpresa e a felicidade nos olhos do meu padrasto quando ele ficou sabendo da chegada de seu primeiro filho, comecei a ficar mais animada. Mal podia esperar para contar para todo mundo! Minha alegria era visível, mas, internamente, eu tentava lidar com meu medo e minha raiva.

Meus pais me fizeram participar de todos os preparativos para a chegada do bebê. Dei palpite sobre a decoração do quarto e ajudei a escolher o nome do neném. Eles até resolveram que eu poderia assistir ao parto. Apesar de toda a animação e felicidade que aquela gravidez trazia, era difícil ouvir meus amigos e parentes falando sem parar no bebê. Eu tinha medo de ser deixada de lado quando ele chegasse. Algumas vezes, quando estava sozinha, não conseguia parar de pensar em tudo o que aquela criança tiraria de mim. O ressentimento superava a alegria.

Sentada na sala de parto naquele dia 17 de junho, sabendo que o bebê logo estaria ali, minhas inseguranças começaram a vir à tona. Como ia ser a minha vida? Seria um trabalho de babá interminável? Do que eu teria que abrir mão? Que medo de perder a atenção de minha mãe! Fui sacudida de meus pensamentos quando o médico anunciou que o bebê estava chegando.

Essa foi a experiência mais incrível da minha vida, porque o nascimento é reaImente um milagre. Quando o médico disse que era uma menina, chorei. Eu tinha uma irmãzinha!

Agora todos os meus medos e inseguranças passaram com a ajuda de uma família carinhosa e compreensiva. É claro que às veres eu sinto ciúme, mas não posso explicar como é especial ter uma pessoinha que me acena da janela todas as manhãs, quando eu vou para a escola, com sua mãozinha gorducha. É maravilhoso chegar em casa e nem ter tempo de tirar o casaco, pois minha irmãzinha vem correndo e começa a puxar minha roupa querendo que eu brinque com ela.

Foi muito importante ter esta irmã, porque ela me fez descobrir que amor não se divide. Amor se multiplica. Emma não me tirou nada e, pelo contrário, trouxe muitas coisas para a minha vida. Nunca jamais pensei que eu amaria um bebê tanto assim, e não trocaria por nada a alegria que sinto por ser a irmã mais velha.


 

DEIXANDO ESCAPAR UMA GRANDE GAROTA

JACK SCHLATTER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 72

 

Nunca vou me esquecer do dia em que vi pela primeira vez a garota dos meus sonhos. O nome dela era Susie Summers. Seus olhos estavam sempre brilhando, cheios de entusiasmo, e seu lindo sorriso que encantava as pessoas que o recebiam (especialmente os rapazes) se sentirem muito, muito especiais.

Apesar de sua beleza incrível, é do seu jeito carinhoso que eu sempre vou me lembrar. Ela realmente se importava com os outros e era uma ouvinte muito atenta. Seu senso de humor era capaz de tornar o dia mais bonito e suas palavras eram exatamente aquelas que você precisava ouvir. Susie não era só admirada, mas genuinamente respeitada tanto pelos meninos como pelas meninas.

Contudo tinha tudo para ser metida, ela era extremamente modesta.

Nem é preciso dizer que Susie era o sonho de qualquer cara. Especialmente o meu. Eu a levava até a sala de aula todo dia e até almocei sozinho com ela uma vez. Nesse dia eu me senti no topo do mundo.

Eu pensava: "Ah, se eu pudesse ter uma namorada como a Susie Summers, nunca mais olharia para outra mulher".  Mas eu disse a mim mesmo que uma menina assim tão maravilhosa provavelmente estava saindo com um cara muito melhor do que eu. Mesmo sendo o presidente da associação dos alunos, eu simplesmente sabia que não tinha nenhuma chance.

Então, na formatura, eu disse adeus à minha primeira grande paixão.

Um ano depois, encontrei a melhor amiga dela em um shopping e almoçamos juntos. Engasgado, perguntei a ela como estava a Susie.

- Bom, ela esqueceu você - foi a resposta.

- Do que você está falando? - perguntei.

- Você foi muito cruel, enrolando a Susie daquele jeito, sempre fazendo ela pensar que estava interessado. Lembra daquela vez em que você almoçou com ela? Susie ficou do lado do telefone o fim de semana inteiro. Tinha certeza de que você ia ligar convidando-a para sair.

Eu tinha tanto medo de ser rejeitado que nunca me arrisquei a dizer para ela o que sentia. E se eu tivesse convidado Susie para sair e ela tivesse dito não? Qual a pior coisa que poderia ter acontecido?

Eu não teria saído com ela. Sabe de uma coisa? Eu não saí com ela de qualquer jeito. E o pior é que eu poderia ter saído.

 

 

Você nunca perde amando. Sempre perde deixando de amar.

BARBARA DE ANGELIS

 


 

EU ME LEMBRO DE GILBERT

APRIL JOY GAZMEN

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 74

 

Faz sete meses desde a última vez que vi a luz do quarto de Gil acesa. A Sra. Blithe acenou para mim da janela do quarto, na casa vizinha. Eu sorri, mas, por dentro, sentia-me entorpecida.

Jamais me esquecerei do dia em que conheci Gil e sua mãe. Eu tinha sete anos e meus pais me levaram para conhecer a nossa casa nova, nos arredores da cidade. Minha mãe tinha sido transferida e tivemos de nos mudar, deixando tudo para trás.

Sentia saudades de meu quarto e de meus melhores amigos, e não conseguia acreditar no quanto estava sendo perturbada por meus pais. A ideia de ter de frequentar uma escola nova era assustadora. Eu não teria com quem conversar e também não queria fazer novas amizades.

Quando chegamos à casa nova, de dois andares, meus avós estavam lá para nos dar as boas-vindas. Também vi uma mulher abraçando carinhosamente minha mãe. A Sra. Blithe tinha sido a melhor amiga dela na escola e, agora, era nossa vizinha de porta.

Mamãe me levou para conhecer meu quarto, no andar de cima, e eu me deixei despencar sobre a cama. Devo ter adormecido, porque, quando dei por mim, já estava escurecendo. Pela imensa janela do quarto, entrava uma música ensurdecedoramente alta. Olhei para fora e, em frente à minha janela, havia outra. Um garoto de roupas escuras olhava por um telescópio para o resplandecente céu noturno. Imediatamente, notei as luzinhas brancas de Natal cintilando no teto do seu quarto.

- Eu sou Gilbert Jim Jonathan Blithe. Mas pode me chamar de Gil.

- Sou Katharine Kennedy. Mas meu apelido é Katie - berrei de volta. "Nossa, que susto ele me deu!" Esse foi o nosso lindo começo. Naquele mesmo instante, percebi que gostava daquele vizinho esquisito. Gil tornou-se um irmão para mim. Ficávamos horas batendo papo e contando histórias um para o outro. Meu pai colocou uma escada de incêndio na minha janela e Gil passou a usá-la como entrada para o meu quarto. Era engraçado, ele nunca usava a porta da entrada. E tinha aquelas luzinhas no teto do quarto porque as estrelas e os planetas o fascinavam.

Quando as aulas começaram, fomos para a escola juntos, de bicicleta. Cuidávamos um do outro, ele evitando que eu me machucasse e eu mantendo-o longe de encrencas. Mais tarde, íamos para o parque brincar no trepa-trepa, mas o nosso lugar favorito era o quintal dos fundos da minha casa. A imensa acácia, com tábuas pregadas no tronco, era o nosso refúgio, onde criávamos mil histórias, encarnando os mais diversos personagens. Ninguém podia subir ali.

Os verões foram se passando e eu fiz treze anos. Gil me presenteou com as primeiras flores da primavera. Então, a Sra. Blithe contou à minha mãe que Gil estava internado com uma doença cardíaca grave e talvez precisasse de um transplante de coração. Quando soube, fiquei tão arrasada que tive a sensação de que eu também precisaria de um.

O hospital era sombrio. Uma prisão de paredes brancas, com uma comida horrorosa. Todas as refeições de Gil tinham cara de mingau. Prometi que levaria amendoins cobertos de chocolate no dia seguinte e sei que isso o deixou mais animado.

Quando Gil sentia que eu estava ansiosa ou prestes a chorar, me mandava olhar pela janela. "Deixe que as luzes do teto do meu quarto lhe digam que sempre estou lá", falava, baixinho.

Ele sempre encontrava uma forma de me fazer sorrir. Depois de um mês no hospital, Gil voltou para casa. Foi a primeira vez que entrei em seu quarto e tive uma sensação esquisita. Era tudo muito arrumadinho. Depois de saltar sobre a cama e atirar um travesseiro em mim, confessou que tinha sentido saudades do quarto. Eu confessei que tinha sentido ainda mais saudades dele. Ficava perturbada com a possibilidade de que nada mais fosse como antes, mas, em duas semanas, Gil já estava de pé e fazendo misérias. Tive certeza de que o problema tinha sido superado quando ele subiu até o meu quarto e comeu pizza comigo.

Antes que nos déssemos conta, Gil e eu estávamos começando o segundo grau. As aulas e as meninas o mantinham ocupado, mas ele estava sempre por perto. Apesar de ter de trabalhar, passamos verões ensolarados juntos. Como sempre, os dias vividos ao seu lado corriam rapidamente. Então, ele voltou a adoecer.

Durante o primeiro semestre de nosso último ano, Gil foi internado pela segunda vez. Primeiro achei que se tratava de um alarme falso, mas acabou sendo mais grave do que eu podia imaginar. A única coisa que eu podia fazer era orar para que ele melhorasse. A escuridão do quarto em frente ao meu me lembrava constantemente de que ele estava longe. Eu o visitava sempre no hospital, mas nunca sabia direito o que dizer. Falar que tudo ficaria bem era mentira, mas consolava nós dois.

Seu Natal foi passado num quarto frio de hospital. Ele estava decidido a ir à formatura comigo e eu lhe garanti que iríamos. Segurei sua mão e olhei fundo em seus olhos até eles pararem de fitar os meus. Nenhuma palavra foi dita. Ambos sabíamos o que estávamos sentindo. Ele me pareceu sereno ao se despedir.

Gravei seu rosto em minha memória naquele momento, por mais que doesse a minha alma. Ele se foi, e a minha primeira sensação foi de que aquilo não podia estar acontecendo.

Era um absurdo. Como podia um amigo, uma pessoa que sempre estivera comigo e que me fazia feliz, me deixar para sempre? Eu não tinha mais ninguém para me consolar.

Naquele momento, enquanto eu olhava para a janela de seu quarto e para as estrelas e planetas colados no teto, compreendi que ele sempre estaria ali: no meu quarto, no meu coração e nas minhas lembranças. Enxuguei as lágrimas e vi um garotinho acenando para mim. Até hoje, não consigo compreender por que não consegui dizer "eu te amo" para Gil, nem mesmo no último segundo. Talvez por saber que ele sentia o mesmo.

Eu logo partirei para a faculdade e estou triste por ele não estar por perto para rir das minhas piadas ou me consolar quando eu estiver triste. Mas, por obra de um garotinho que olhava o infinito céu noturno através de um telescópio, hoje sei que a amizade se estende além do tempo. Eu sempre me lembrarei de Gilbert e a luz de seu amor me diz que ele sempre estará por perto.


 

O QUE HÁ DE ERRADO

O MANUAL DO ORADOR

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 79

 

Uma professora recém-formada chamada Mary foi lecionar em uma reserva de índios navajos. Todos os dias ela pedia a cinco dos jovens alunos navajos que fossem até o quadro-negro e completassem um problema simples de matemática de seu dever de casa. Eles ficavam ali em silêncio, sem querer cumprir a tarefa. Mary não conseguia entender. Nada do que ela havia estudado em seu currículo pedagógico ajudava e ela não sabia como lidar com a situação.

"O que estão fazendo de errado? Será possível que eu tenha escolhido cinco alunos que não sabem resolver o problema?", Mary se perguntava. "Não, não pode ser isso." Finalmente, ela perguntou aos alunos o que havia de errado. E, na resposta de seus jovens alunos índios, aprendeu uma surpreendente lição sobre autoimagem e noção de valor próprio.

Eles explicaram que queriam se respeitar uns aos outros. E como sabiam que uns eram mais capazes e outros encontrariam dificuldade em resolver os problemas, não queriam exibir isso publicamente. Apesar de muito jovens, entendiam como era inútil e desrespeitosa a competição do tipo perde-ganha na sala de aula. Pensavam que ninguém sairia ganhando se algum aluno se exibisse ou ficasse encabulado diante do quadro-negro. Então se recusavam a competir uns com os outros em público.

Quando entendeu aquilo, Mary mudou o sistema, de modo a poder corrigir individualmente os problemas de matemática de cada criança, dedicando-se mais aos que tinham dificuldades. E mudou muitas coisas em sua vida ao compreender que todos nós queremos aprender - não para nos sobressairmos sobre os outros, mas para sermos mais felizes.


 

LINDA

JESSICA GARDNER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 81

 

Minha avó e eu compartilhamos um amor mútuo desde o dia em que nasci.

Vim ao mundo com a cabeça amassada e os traços deformados devido ao parto difícil vivido por minha mãe. Dois meses depois estava tudo no lugar, mas, naquele momento, parentes e amigos faziam “careta” diante do bebê desfigurado que eu era. Todos comentavam que eu me parecia muito com um jogador de futebol americano espancado.

Nana me achava linda. Seus olhos brilhavam, cheios de alegria e felicidade, diante do bebê horroroso que segurava nos braços.

Sua primeira netinha. "Linda", ela disse.

Antes das provas finais, no meu penúltimo ano do segundo grau, ela morreu.

Sete anos antes, os médicos tinham diagnosticado que ela era portadora do mal de Alzheimer. A família toda tornou-se especialista no assunto à medida que a perdíamos, pouco a pouco.

Ela falava em fragmentos. Com o passar dos anos, o número de palavras foi ficando cada vez menor até, finalmente, ela não dizer mais nada. Tínhamos sorte quando extraíamos uma palavrinha ocasional dela. Foi então que compreendemos que sua vida estava chegando ao fim.

Mais ou menos uma semana antes de minha avó morrer, seu corpo perdeu todas as funções vitais e os médicos decidiram removê-la para uma clínica de doentes terminais. Um local onde aqueles que entram jamais saem vivos.

Eu disse a meus pais que queria vê-la. Eu tinha de vê-la.

Minha vontade superava o medo paralisante que sentia.

Minha mãe me levou à clínica dois dias depois. Meu avô e duas de minhas tias também estavam lá, mas ficaram no corredor, enquanto eu entrava no quarto de Nana. Ela estava sentada numa poltrona enorme e confortável, ao lado de sua cama, com o corpo encurvado, os olhos fechados e a boca aberta, mole. A morfina a mantinha adormecida. Meus olhos percorreram o quarto, captando as janelas, as flores, a aparência de Nana. Eu lutava para absorver aquilo tudo, consciente de que aquela seria a última vez que a veria viva.

Lentamente, sentei-me à sua frente. Tomei a sua mão esquerda e a segurei, afastando uma mecha de cabelos brancos de seu rosto. Fiquei ali diante dela, sentada, sem me mover,

incapaz de sentir coisa alguma. Abri a boca para falar, mas nada saía. Eu não conseguia controlar a minha tristeza diante de sua aparência lamentável, sentada ali, completamente indefesa.

Foi então que aconteceu. Sua mãozinha foi se fechando em torno da minha, apertando mais e mais. Ela emitiu o que pareceu ser um pequeno gemido. Parecia chorar de dor. Então ela falou.

“JESSICA”.

Assim, claro como a luz do dia. Meu nome. O meu. Dos quatro filhos, dois genros, uma nora e seis netos, ela sabia que era eu.

Naquele momento, tive a impressão de estarem exibindo um filme com cenas de nossa família dentro de minha cabeça.

Vi Nana no meu batizado. Nos meus quatorze recitais de dança. Eu a vi sapateando no chão de nossa cozinha. Eu a vi apontando para as próprias bochechas enrugadas dizendo que eu herdara dela minhas imensas covinhas. Eu a vi brincando com os netos, enquanto os outros adultos faziam a ceia de Ação de Graças, e sentada ao meu lado na sala de nossa casa, no Natal, admirando a nossa árvore, decorada com enfeites luminosos.

Então olhei para ela e, ao ver como havia ficado, eu chorei.

Sabia que não assistiria ao meu último recital de dança; nem voltaria a torcer comigo pelo time de futebol. Nunca mais se sentaria ao meu lado para admirar a árvore de Natal. Sabia que não me veria sair, toda arrumada, para o baile de formatura, e que não estaria presente em meu casamento nem quando meu primeiro filho nascesse. E as lágrimas corriam, continuamente, pelas minhas faces.

Mas, acima de tudo, eu chorava porque finalmente compreendia como ela havia se sentido no dia em que nasci. Ela olhara através da minha aparência, enxergara lá dentro e vira uma vida.

Lentamente, tirei a sua mão de dentro da minha e enxuguei as lágrimas que molhavam meu rosto. Fiquei de pé , inclinei o corpo para a frente, beijei-a e disse:

- Você está linda.

E com uma última olhada, me virei e deixei a clínica.


 

O CAMPEÃO

NAILAH MALIK

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 90

 

Ele tinha o corpo de um peso-pena. Mas o que aquele garoto de quinze anos não tinha em força e velocidade, tinha em atitude.

Jason nunca faltava a um treino, embora raramente tivesse a oportunidade de jogar, e mesmo assim só nos minutos finais do jogo, quando nosso time estava pelo menos dois pontos na frente do adversário. Mas o número 37 nunca reclamava e sempre dava o melhor de si - mesmo que isso fosse bem pouco. Eu era o treinador do time. Certo dia, ele não apareceu no treino. Quando faltou no segundo dia, telefonei para a casa dele para saber o que estava acontecendo. Um parente distante me disse que o pai de Jason tinha morrido e que a família estava organizando o enterro. Duas semanas mais tarde, meu fiel número 37 compareceu novamente, pronto para treinar. Só faltavam três dias para o próximo jogo. Era a partida decisiva da temporada, contra nosso rival mais forte.

Quando chegou o grande dia, meus melhores jogadores estavam preparados para entrar em campo. Todos os rostos familiares se encontravam ali, menos um - Jason. De repente ele apareceu do meu lado e, com uma expressão e uma atitude completamente diferente, afirmou:

- Hoje eu vou dar a partida. Já estou pronto. - Não deu espaço para recusas ou argumentações. Quando o jogo começou, ele estava na sua posição em campo. O jogador titular no lugar de quem ele entrara estava sentado atônito no banco.

Naquele dia, Jason jogou como um craque. Sob todos os aspectos, ele estava igual, senão melhor, do que o melhor jogador do time. Corria rápido, encontrava todas as brechas e saltava depois de cada colisão como se nunca tivesse levado um golpe. Na metade do jogo, ele já tinha feito três pontos. Num desfecho triunfal, como se quisesse remover qualquer dúvida da mente de qualquer um, fez outro ponto nos últimos segundos da partida.

Enquanto corria para fora do campo com o resto do time, Jason recebeu uma saraivada de tapinhas nas costas e empurrões, embalados pelos aplausos ensurdecedores da multidão. Apesar de toda a adulação, Jason conseguiu manter sua atitude humilde, discreta. Surpreso com a súbita transformação, cheguei perto dele e perguntei:

- Jason, você estava extraordinário hoje. Quando fez o segundo ponto, tive que esfregar os olhos e me beliscar. Mas no final do jogo minha curiosidade me venceu. O que aconteceu com você?

Hesitante de início, Jason disse:

- Bom, treinador Williams, o senhor sabe que meu pai morreu faz pouco tempo. Quando o meu pai estava vivo, ele era cego e não podia me ver jogar. Mas, agora que ele foi para o céu, esta foi a primeira vez que ele pôde me ver jogar. E eu queria que ele ficasse orgulhoso.


 

DESIDERATA

MAX HERMANN

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 93

 

Atravesse com tranquilidade o barulho e a pressa e lembre-se da paz que pode haver no silêncio. Tanto quanto possível, sem se render, relacione-se bem com todas as pessoas. Fale sua verdade com calma e clareza e ouça a dos outros. Mesmo os tolos e ignorantes também têm sua história.

Evite pessoas espalhafatosas e agressivas, elas são uma afronta para o espírito. Se você se comparar com os outros, poderá se tornar amargo ou fútil, porque sempre haverá pessoas melhores e piores do que você. Aproveite suas realizações, assim como seus planos.

Mantenha o interesse por sua própria carreira, não importa o quão humilde: ela é um verdadeiro bem nesses tempos que tanto mudam. Tenha cautela em seus negócios, pois o mundo é cheio de trapaças. Mas não deixe que isso cegue seus olhos para a virtude que pode existir nele. Muitas pessoas lutam por grandes ideais e, em todo lugar, a vida é cheia de heroísmo.

Seja você. Sobretudo, não finja afeição. Não encare o amor com cinismo, pois diante de toda aridez e desencantamento ele é perene como a grama.

Aceite com suavidade o conselho dos anos, entregando com graça as coisas da juventude. Cultive a força do espírito para protegê-lo em caso de súbita desgraça. Mas não se aborreça com conjecturas. Muitos medos nascem do cansaço e da solidão.

Além de uma disciplina saudável, seja gentil consigo mesmo.

Você é parte do universo. Assim como as árvores e as estrelas, tem o direito de estar aqui. E, quer isso esteja claro para você ou não, sem dúvida o universo está caminhando como deveria.

Assim, fique em paz com Deus, como quer que imagine que Ele seja. E, quaisquer que sejam seus fardos e aspirações em meio à confusão barulhenta da vida, fique em paz com sua alma.

Com toda sua falsidade, sua labuta e seus sonhos partidos, o mundo ainda é belo. Seja alegre. Lute para ser feliz.

 


 

O QUE É IMPORTANTE NA VIDA?

KATIE LEICHT, 17 ANOS

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 95

 

Durante todo o primeiro ano do científico, fiquei esperando a noite das Calouras- uma espécie de retiro organizado pelo colégio onde as calouras podiam conversar abertamente sobre suas vidas, interesses e problemas. Foi ótimo poder dividir meus medos e anseios com outras meninas, falar sobre os estudos, os estudos e, principalmente, sobre os meninos. Voltei para casa me sentindo ótima. Tinha certeza de que aprendera muito sobre as pessoas naquele encontro. Decidi colar os papéis e bilhetes que tinha recebido no retiro na minha agenda, que é onde guardo algumas das coisas de que mais gosto. Sem pensar muito, coloquei a agenda em cima da cômoda e terminei de desfazer as malas. Comecei a semana cheia de esperança. Mas, ao contrário do esperava, os dias seguintes ao retiro foram um desastre.

Uma amiga me magoou, tive uma briga com minha mãe e tirei uma nota baixa em inglês. Para completar, estava me sentindo feia e não sabia o que vestir no baile de fim de ano. Eu chorava todas as noites até cair no sono. Tinha imaginado que o retiro teria um impacto maior sobre a minha vida, me ajudando a ficar livre do estresse. Mas comecei a achar que tinha sido apenas um alívio temporário.

Acordei na manhã de sexta-feira com o coração pesado e de mau humor. Também estava atrasada. Vesti a roupa depressa e, quando bati a gaveta, minha agenda caiu de cima da cômoda e tudo o que estava dentro se espalhou pelo chão. Quando me ajoelhei para catar as coisas, 1 folha de papel dobrada chamou minha atenção. Minha chefe no retiro tinha escrito uma cartinha que eu esquecera de ler. Abri a folha e li:

 

A vida não é um placar. O importante não é quantas pessoas telefonam para você, nem com quem você saiu ou está saindo. Também não importa se você nunca namorou ninguém. O importante não é quem você beijou, que menino ou menina gosta de você. O importante não são seus sapatos, nem seus cabelos, nem a cor da sua pele, nem onde você mora, que esporte pratica ou o colégio que frequenta. Na verdade, o importante não são suas notas, seu dinheiro, suas roupas ou se passou ou não para a faculdade. Na vida, o importante não é ser aceito ou não pelos outros, não é ter muitos amigos ou estar sozinho. Na vida, nada disso é importante. O importante na vida é quem você ama e quem você fere. É como você se sente em relação a você mesmo. É confiança, felicidade e compaixão. É ficar do lado dos amigos e substituir o ódio por amor. O importante na vida é evitar a inveja, não querer o mal dos outros, superar a ignorância e construir a confiança. É o que você diz e o significado de suas palavras. É gostar das pessoas pelo que elas são e não pelo que têm. Acima de tudo, é escolher usar a sua vida para tocar a vida de outra pessoa de um jeito que a fará mais feliz. O importante na vida são essas escolhas.

 

Naquele dia eu me dei super bem na prova de inglês. No fim de semana, me reconciliei com minha amiga e tive coragem de telefonar para o menino de quem gostava. Passei mais tempo com minha família e me esforcei para dar atenção à mamãe. Cheguei até a encontrar um vestido lindo para a festa e me diverti muito. E tudo isso não aconteceu por sorte ou milagre. Foi por causa de uma mudança de sentimento e de atitude da minha parte. Percebi que algumas vezes bastava eu me sentar e lembrar das coisas realmente importantes na vida - como as que aprendi na Noite das Calouras.

Este ano estou me preparando para um novo retiro, agora como veterana. Mas guardo ainda aquele bilhete na minha agenda. Para eu poder relê-Io sempre que precisar lembrar o que realmente importante na vida.

 

 

O importante na vida é como tratamos uns aos outros.

HANA IVANHOE, 15 ANOS

 


 

UM PAI FAMOSO

AUTOR DESCONHECIDO

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 98

 

Um grande homem morreu hoje. Ele não era um líder mundial, nem um médico famoso, nem um herói ou um ídolo do esporte.

Não era um magnata dos negócios e vocês nunca viram o nome dele no jornal. Mas ele foi um dos melhores homens que já conheci. Esse homem era o meu pai.

Ele nunca esteve interessado em receber créditos ou honrarias. Fazia coisas banais, como pagar as contas em dia, ir à igreja aos domingos e ser diretor da Associação de Pais e Professores. Ajudava os filhos com o dever de casa e levava a mulher para fazer compras nas noites de quinta-feira. Achava o máximo levar seus filhos adolescentes e os amigos deles aos jogos de futebol.

Esta é a minha primeira noite sem meu pai. Não sei o que fazer.

Hoje me arrependo pelas vezes em que fui impaciente com ele, dei respostas malcriadas, ou não tomei conhecimento do que ele dizia. Mas estou agradecido por muitas outras coisas.

Estou agradecido por Deus ter me deixado ficar com meu pai por quinze anos. E fico feliz por ter podido dizer a ele o quanto o amava. Esse homem maravilhoso morreu com um sorriso no rosto e com o coração realizado. Ele sabia que era um grande sucesso como marido, como pai, como irmão, filho e amigo. Eu me pergunto quantos milionários podem afirmar isso.


 

UM ADMIRADOR PARA LAURA

DON CASKEY

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 103

 

Na infância, minha amiga Ann não gostava do Dia dos Namorados. Era uma menina sem grandes atrativos - não chegava ser feia, mas também não era linda. O Dia dos Namorados é uma data fácil para as meninas comuns. Não era tão ruim quando estávamos no primário, quando os trinta cartõezinhos chegavam, um a um de cada coleguinha da turma.

Naquela época, ela fazia vista grossa para o fato de seus cartões não serem enormes como os das queridinhas da turma e não traziam os dizeres apaixonados dos das garotas bonitas.

Mais tarde, no ginásio, a troca de cartões no Dia dos Namorados deixou de ser obrigatória. Justo quando os anseios românticos brotavam, quando o desejo por admiradores e paqueras tornava-se mais forte e um admirador tornava-se mais necessário do que nunca, nem um único cartão chegou. Não para Ann. Não para qualquer garota comum, aonde quer que fosse. Admiradores eram só para as bonitinhas e para as queridinhas. Em momentos assim, histórias sobre patinhos feios que um dia crescerão para se transformar em lindos cisnes não aliviam a dor e a rejeição.

Como quis o destino (e ele costuma querer coisas assim), nos anos que se seguiram Ann foi ficando cada vez mais bonita e fazendo os rapazes virarem a cabeça para olhá-Ia. À medida que recebia mais e mais atenção e tinha mais e mais pretendentes, passou a se sentir - e, portanto, se tornar - realmente linda. Mas mesmo muitos anos depois, já adulta e mãe de família, não se esqueceu daqueles tempos de rejeição e tristeza.

Agora, Ana tem dois filhos que cursam o ginásio. No Dia dos Namorados, o grêmio estudantil cobra um dólar para entregar cravos, e Ann sempre dá dois dólares para cada filho.

Um dólar para que cada um compre um cravo para a respectiva namorada. O outro dólar vem junto com a seguinte instrução: "Escolham outra garota, uma que seja simpática, mas comum - alguém que provavelmente não receberá flor alguma. Mande uma flor para ela, anonimamente. Dessa forma, ela saberá que alguém gosta dela e se sentirá especial." Ann faz isso há anos, espalhando o Dia dos Namorados um pouco além de seu mundo.

Um ano, Laura - uma pessoa linda, mas de aparência comum - recebeu uma dessas flores. O filho de Ana contou que Laura ficou tão contente e surpresa que chorou. Carregou aqueIa flor o dia todo junto com os livros e conversava, feliz, com as amigas, tentando adivinhar quem seria o seu admirador.

Enquanto ouvia a história, a própria Ann teve de enxugar os olhos. Ela ainda se lembrava da solidão que sentia, muitas vezes, no Dia dos Namorados.


 

DESISTIR NÃO É PERDER

JAMES MALINCHAK

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 106

 

Uma experiência difícil, o exemplo de um amigo ou uma conversa com alguém que admiramos podem servir de inspiração para mudarmos nossa maneira de encarar a vida. Minha inspiração veio da minha irmã Vicki. Ela era uma pessoa gentil e carinhosa, não ligava para elogios e tudo o que queria era compartilhar seu amor com as pessoas de quem gostava: sua família e seus amigos.

No último verão, antes do meu primeiro ano de faculdade, recebi um telefonema do meu pai dizendo que Vicki tinha sido internada de emergência. Ela tinha passado mal e o lado direito do seu corpo estava paralisado. Os primeiros sintomas de que ela poderia ter sofrido um derrame. No entanto, os resultados dos testes mostraram algo muito mais sério: a paralisia era consequência de um tumor maligno no cérebro. Os médicos não davam a Vicki mais de três meses de vida. Fiquei completamente arrasado. Como aquilo podia estar acontecendo? No dia anterior, minha irmã estava bem, não sentia nada, era uma jovem saudável. Agora, estava entre a vida e a morte.

Depois de superar o choque inicial e o sentimento de vazio, decidi que Vicki precisava de esperança e incentivo. Ela precisava de alguém que a fizesse acreditar que poderia superar aquele obstáculo. Resolvi ajudá-la a vencer a doença. Todo dia visualizávamos o tumor encolhendo e só falávamos coisas positivas. Eu até colei um cartaz na porta do seu quarto no hospital com os dizeres: "se tiver pensamentos negativos, deixe-os do lado de fora. Nós fizemos um trato que se chamava 50-50. Eu lutaria 50% e ela lutaria os outros 50%.

Quando o ano letivo começou, eu não tinha certeza se deveria ir para a faculdade, a quase 5 mil quilômetros de distância, ou ficar com Vicki. Ela ficou brava por eu ter pensado nessa possibilidade e insistiu para eu não me preocupar, porque ela ia ficar bem. Ali estava Vicki, deitada em uma cama de hospital, me dizendo para não me preocupar. Percebi que, se ficasse poderia passar a mensagem de que ela estava morrendo e eu não queria que ela pensasse assim. Vicki precisava acreditar que poderia vencer a batalha contra o câncer.

Ir embora naquela noite, sentindo que poderia ser a última vez que eu veria minha irmã, foi a coisa mais difícil que já fiz.

Na faculdade, nunca parei de lutar meus 50% por ela. Toda noite, antes de dormir conversava mentalmente com Vicki, esperando que de alguma forma ela me ouvisse. Eu repetia:

"Vicki, estou lutando por você e nunca vou desistir. Não deixe de lutar, porque nós vamos vencer isso." Alguns meses se passaram e ela continuou aguentando firme. Certo dia, uma amiga me perguntou sobre o estado de Vicki. Eu disse que ela estava piorando, mas que não desistia.

Minha amiga, mais velha e experiente, fez uma pergunta que me deixou pensativo:

- Você acha que o motivo pelo qual Vicky não desistiu é porque não quer desapontar você?

- Será que ela estava certa? Será que eu era egoísta por encorajar Vicki a continuar lutando? Naquela noite, antes de dormir, tentei transmitir uma mensagem diferente para ela: "Vicki, eu entendo que você está sofrendo muito. Se preferir descansar, faça isso. Desistir não é perder. Se você quiser ir para um lugar melhor, eu entendo. Vamos ficar juntos de novo. Eu te amo e vou sempre estar com você." Na manhã seguinte, minha mãe telefonou bem cedo para avisar que Vicki tinha morrido.


 

SORRISO

BARBARA HAUCK, 13 ANOS

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 109

 

Ela sorriu para um desconhecido triste.

O sorriso pareceu fazê-Io se sentir melhor.

Ele se lembrou de gentilezas feitas por um amigo no passado e escreveu-lhe uma carta de agradecimento.

O amigo ficou tão contente com o agradecimento, que deixou uma grande gorjeta depois do almoço.

A garçonete, surpresa com o tamanho da gorjeta, apostou a quantia toda na loteria.

No dia seguinte, recolheu seus ganhos e deu parte deles para um homem na rua.

O homem ficou agradecido, pois havia dois dias que não comia. Depois de terminar seu jantar, dirigiu-se a seu quartinho sujo.

(Naquele momento ele não sabia que corria perigo de vida.) No caminho, recolheu um cachorrinho que tremia e levou-o para se aquecer em casa.

O cachorrinho ficou muito agradecido por estar ao abrigo da tempestade.

Naquela noite a casa pegou fogo.

O cachorrinho deu o alarme, latiu até acordar a casa inteira e salvou todo mundo.

Um dos meninos que escapou do incêndio virou um bom presidente quando cresceu.

Tudo isso por causa de um simples sorriso.

 


 

ASA PARTIDA

JIM HULLIHAN

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 111

 

Algumas pessoas simplesmente nasceram para ser fracassadas. É assim que alguns adultos vêem adolescentes com problemas. Talvez você tenha ouvido o ditado: "um pássaro com as asas partidas nunca voará tão alto." tenho certeza de que as pessoas faziam T. J. Ware se sentir assim quase todos os dias no colégio.

No científico, T. J. Era o encrenqueiro mais famoso de sua cidade. Os professores literalmente torciam o nariz ao ver o nome dele em sua lista de chamada para o semestre seguinte. Ele não era muito falante, não respondia às perguntas e entrava em várias brigas. Ficava em prova final em quase todas as matérias e, no entanto, sempre passava de ano. Os professores não queriam tê-lo novamente no ano seguinte. T.J. estava indo para a frente, mas definitivamente não estava melhorando. Encontrei T. J. pela primeira vez em um fim de semana de retiro de líderes. Todos os alunos da escola haviam sido convidados para se inscrever no treinamento, criado para fazer com que os alunos se envolvessem mais em suas comunidades. T. J. Era um dos 405 alunos que tinham se inscrito. Quando apareci para comandar o encontro, os líderes da comunidade me fizeram uma descrição breve dos alunos presentes: "temos todos os tipos representados hoje, do presidente da associação estudantil a T. J. Ware, o menino com a maior ficha policial da história da cidade." de algum modo, eu sabia que não era o primeiro a ouvir falar do lado mais sombrio de T. J. Logo nas primeiras palavras de apresentação.

No início do retiro, T. J. Estava literalmente do lado de fora do círculo de alunos, encostado na parede dos fundos, com aquela expressão no rosto que dizia: "vamos lá, me impressionem." não participou realmente dos grupos de discussão, não parecia ter muito a dizer. No entanto, lentamente, os jogos interativos o atraíram. O gelo derreteu quando os grupos começaram a fazer uma lista das coisas positivas e negativas que tinham acontecido no colégio naquele ano. T. J. Tinha algumas opiniões fortes sobre o assunto. Os outros alunos do grupo recebiam bem seus comentários. De repente, T. J. Se sentiu parte do grupo e logo estava sendo tratado como um líder. Estava dizendo coisas que faziam muito sentido e todos estavam escutando.

T. J. Era um cara esperto e tinha algumas ótimas ideias. No dia seguinte, T. J. Foi muito ativo em todas as sessões. Ao final do retiro, ele tinha se juntado à equipe do projeto dos sem-teto. Sabia muita coisa sobre pobreza, fome e falta de esperança. Os outros alunos da equipe ficaram impressionados com suas preocupações e ideias apaixonadas. T. J. Foi eleito co-diretor da equipe. O presidente do conselho de alunos seria aconselhado por t. J. Ware.

Quando T. J. Apareceu no colégio na manhã de segunda-feira, chegou no meio de uma tormenta. Um grupo de professores estava reclamando com o diretor do colégio sobre o fato de ele ter sido eleito co-diretor. O primeiro projeto de serviços para a comunidade seria uma imensa carreata de alimentos, organizada pela equipe do projeto dos sem-teto. Aqueles professores não podiam acreditar que o diretor fosse deixar o começo crucial de um importante plano de ação de três anos nas mãos incapazes de T. J. Ware. "Ele tem uma ficha policial comprida como o seu braço. Provavelmente vai roubar metade da comida", argumentaram com o diretor. O sr. Coggshal lembrou-lhes que a finalidade do programa de líderes era descobrir qualquer paixão positiva que um aluno tivesse e encorajar sua prática até que uma verdadeira mudança pudesse ocorrer. Os professores deixaram a reunião balançando as cabeças de desgosto, firmemente convencidos de que o fracasso era iminente.

Duas semanas depois, T. J. e seus amigos lideraram um grupo de setenta alunos em uma carreata para coletar comida. Recolheram 2.854 latas de comida em apenas duas horas, o suficiente para encher as prateleiras vazias de dois centros comunitários do bairro. A comida supriu as necessidades das famílias carentes da área por 75 dias. No dia seguinte, o jornal local noticiou o acontecimento com uma matéria de página inteira.

O artigo foi afixado no principal quadro de avisos do colégio, onde todos pudessem vê-lo. A fotografia de T. J. Estava ali por algo incrível, por ter conseguido um recorde de arrecadação de comida. A cada dia, ele era lembrado pelo que tinha feito. Estava sendo reconhecido como alguém com o estofo de líder. T. J. Começou a aparecer no colégio todos os dias e, pela primeira vez, respondeu às perguntas dos professores. Liderou um segundo projeto, coletando trezentos cobertores e mil pares de sapatos para o abrigo dos sem-teto. O evento a que ele deu início hoje arrecada nove mil latas de comida em um dia, suprindo 70% da necessidade das famílias carentes da área por um ano. O exemplo de T.J. mostra que um pássaro com a asa partida precisa apenas de cuidados. No entanto, quando fica curado, pode voar mais alto do que os outros. T. J. Arrumou um emprego. Tornou-se produtivo. Está voando bem direitinho hoje em dia.

 

 

Você nasceu com asas. Por que preferir rastejar pela vida?

RUMI

 


 

ESTRELINHA, ESTRELINHA.

KELLY GARNETT

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 115

 

Quando eu tinha cinco anos, tomei um gosto todo especial pelos brinquedos de minha irmã. Pouco importava que eu tivesse um baú cheinho de bonecas e brinquedos só meus. Seus tesouros de "menina grande" eram muito mais atraentes.

Da mesma forma, quando eu tinha dez anos e ela doze, os brincos, a maquiagem que ela começava a usar me fascinavam, transformando minha obsessão anterior em capturar insetos numa lembrança cada vez mais remota.

Essa tendência continuou ano após ano e - a não ser por algumas manchas roxas e ameaças de "cortes de cabelo" radicais enquanto eu dormia - minha irmã lidou com ela com tolerância. Mamãe vivia repetindo para ela, quando comecei o primeiro grau usando suas presilhas de cabelo novas, que aquilo era, na realidade, um elogio ao seu bom gosto. Mamãe disse-lhe, quando comecei o segundo grau vestindo as suas roupas, que um dia ela acharia graça e me lembraria de que ela era a mais chique de nós duas.

Eu sempre tinha admirado o bom gosto de minha irmã, mas essa opinião chegou ao auge quando ela começou a trazer rapazes à nossa casa. Eu convivia com um desfile constante de meninos de dezesseis anos passando pela sala, servindo-se de comida na cozinha ou jogando basquete na entrada da garagem.

Recentemente, eu me dera conta de que meninos não eram tão "eca" como eu achava antes e que pegar uns germezinhos deles talvez não fosse tão nojento assim. Mas os garotos do primeiro ano, que tinham a minha idade e que me faziam dar risadinhas nervosas nos jogos de futebol, de repente me pareciam jovens demais. Não podiam dirigir ou usar as jaquetas do time principal da escola. Os amigos de minha irmã eram altos e engraçados. Embora ela tentasse de todas as maneiras se livrar de mim, eles sempre eram simpáticos comigo, mesmo enquanto ela me empurrava porta afora.

De vez em quando, eu dava sorte e eles passavam lá em casa quando ela não estava. Um deles, em especial, batia longos papos comigo antes de sair para fazer as coisas que garotos de dezesseis anos faziam (isso ainda era um mistério para mim). Ele falava comigo como falava com todo mundo e não como quem fala com uma criança, com  a irmãzinha de uma amiga... E sempre me dava um abraço de despedida antes de ir embora.

Não foi surpresa alguma que eu logo estivesse totalmente tonta por ele. Minhas amigas diziam que eu não tinha a menor chance com um rapaz do terceiro ano. Minha irmã parecia preocupada com a possibilidade de eu ter o meu coração partido. Mas ninguém escolhe por quem se apaixona: se ele é mais velho ou mais novo, mais alto ou mais baixo, o seu completo oposto ou igualzinho a você. Quando estava com ele, as emoções me atropelavam como uma carreta e eu sabia que era tarde demais para tentar ser sensata: eu estava apaixonada.

Isso não significava que não me desse conta da possibilidade de rejeição. Eu sabia que estava arriscando os meus sentimentos e o meu orgulho. Tinha consciência de que, se não lhe desse o meu coração, não haveria a menor possibilidade de ele o partir... mas também eu não correria o risco de perdê-lo.

Certa noite, antes de ele ir embora, ficamos sentados na varanda de frente da casa conversando e procurando estrelas no céu. Ele olhou para mim muito sério e perguntou se eu acreditava em fazer pedidos para as estrelas. Surpresa, mas igualmente séria, respondi que nunca havia tentado.

- Bem, então chegou a hora de começar - declarou, apontando para o céu. - Escolha uma e peça aquilo que você mais quer.

Olhei para cima e escolhi a mais brilhante que pude achar.

Fechei bem os olhos e senti o que parecia ser uma colônia inteira de borboletas em revoada dentro de meu estômago. Pedi coragem. Abri os olhos e me deparei com seu sorriso diante de meu intenso esforço para fazer o pedido. Ele me perguntou o que eu havia pedido e, quando respondi, me pareceu perplexo.

- Coragem? Para quê? - indagou.

Eu respirei fundo uma última vez e respondi:

- Para fazer isto. - E eu o beijei. Beijei aquele rapaz de dezesseis anos, com carteira de motorista e jaqueta do time principal da escola. Aquilo foi de uma bravura que jamais imaginei possuir, uma força que atribuí integralmente ao meu coração - força esta que dominou a minha mente e tomou o controle da situação.

Quando me afastei, vi o ar de espanto em seu rosto, uma expressão que se transformou em sorriso e, a seguir, em riso.

Depois de procurar o que dizer durante o que me pareceram ser horas, ele tomou minha mão e declarou:

- Bem, parece que demos sorte esta noite. Tanto o meu desejo quanto o seu se tornaram realidade.


 

A COISA CERTA A FAZER

KELLY GARNETT

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 119

 

A psicóloga se atrasara para a nossa hora. Eu estava sentada numa das cadeiras de plástico duro de sua sala e, apesar do contorcionismo para me acomodar, continuava desconfortável. Olhei para o garoto sentado ao meu lado, meu parceiro nesse crime. Pareceu-me perturbado, doído com a decisão que tínhamos tomado por puro desespero. Amigos há muitos anos, naquele momento nos sentíamos incapazes de animar um ao outro, pois estávamos perdidos em nossos próprios pensamentos e dúvidas.

Com o corpo formigando, fiquei atenta a tudo o que se encontrava à minha volta. O cheiro de lápis recém-apontado, a escrivaninha exageradamente organizada, tudo naquela sala revelava a rígida disciplina da psicóloga que iria nos atender. Comecei a questionar se tínhamos escolhido a pessoa certa para nos ajudar a salvar nossa amiga. A psicóloga chegou sorrindo e pedindo desculpas por ter se atrasado. Sentou-se e nos olhou cheia de expectativa. Eu tive a sensação de que esperava que anunciássemos que ela acabava de ganhar na loteria, em vez de contar a história de dor e frustração que ambos ocultávamos há tempos. Por um instante, fiquei paralisada pelo pânico. Era difícil imaginar como Suzie, minha melhor amiga, reagiria ao descobrir que as duas pessoas em quem mais confiava a tinham traído. E me preocupava também com o que aconteceria comigo.

Será que ela vai me odiar? Será que nunca mais vai querer falar comigo? Além de toda a dor que ela certamente sentiria, eu tinha medo de perder minha melhor amiga.

- Kelly, por que não começa me contando por que vocês dois estão aqui? - sugeriu a psicóloga. Olhei para o meu amigo mais uma vez e seus olhos tristes confirmaram que estávamos fazendo a coisa certa.

Quando comecei a contar a história de Suzie, minha incerteza deu lugar a uma sensação de alívio. Carregar o fardo emocional de uma amiga que se matava lentamente era demais para uma garota de quatorze anos, e eu já não agüentava mais.

Como uma corredora exausta, estava passando o bastão para que outra pessoa o carregasse.

Minha narrativa emocionada e entre cortada foi dando forma à história de Suzie. Falei de como ríamos de sua estranha mama de partir a comida em pedacinhos minúsculos, sem jamais nos darmos conta de que, ao fazê-lo, ela levava mais tempo para comer menos. De como colaborávamos com as críticas que Suzie fazia a ela mesma, sobretudo de como se achava gorda. Nós ríamos, fingindo concordar, sem saber que, no fundo, no fundo, ela não estava brincando.

A culpa ia escalando a minha garganta à medida que eu relatava fato após fato, pois agora compreendia que eram sinais de que Suzie tinha um problema muito sério. Não sei bem por que nós nos recusamos a ver que seu estado se deteriorava a cada dia. Só quando já era quase tarde demais é que finalmente nos demos conta do que estava acontecendo: Suzie estava doente, de corpo e de alma. Ela sofria de depressão e de anorexia.

Contei o que me levara a procurar ajuda. Algumas semanas atrás, eu estava sentada ao lado de Suzie, desviando a vista das olheiras e das maçãs do rosto já muito saltadas, enquanto ela me contava que, agora, já não comia quase nada e que, sem nenhum motivo explicável, costumava chorar durante horas. Enquanto falava, eu comecei a chorar. Não conseguia controlar as lágrimas e experimentava uma sensação de absoluta impotência. O ponto ao qual minha amiga tinha chegado me apavorava e o medo em minha voz era nítido quando revelei o segredo de Suzie: ela estava procurando uma forma de escapar à dor, à tristeza, ao sentimento de inadequação que agora era constante em sua vida. Suzie achava que se matar, talvez, fosse a única maneira de escapar ao sofrimento.

Quando terminei de falar, recostei-me na cadeira, incrédula. Eu tinha revelado todos os segredos que me foram confiados sob a condição de jamais repeti-los. Eu acabava de destruir o aspecto mais sagrado de nossa amizade: a confiança. A confiança que levara tempo, amor, boas e más experiências para ser construída e que havia sido quebrada em dez minutos, traída pelo desamparo, pelo desespero e pelo fardo que eu não podia mais carregar. Eu me sentia fraca. Naquele momento, eu me odiei. E odiei Suzie.

Ela não precisou que lhe explicassem por que estava sendo chamada à secretaria. Olhou para mim, para o namorado sentado ao meu lado, para o olhar preocupado da psicóloga. As lágrimas de fúria que brotavam em seus olhos deixaram Claro que ela compreendia perfeitamente bem. Quando começou a chorar de raiva e de alívio, a psicóloga, carinhosamente, mandou que Aaron e eu voltássemos para a sala de aula e fechou a porta atrás de nós.

Não voltei para a aula imediatamente. Fiquei perambulando pelos corredores da escola, tentando entender tudo aquilo. Embora soubesse que, provavelmente, tinha acabado de salvar a vida de minha amiga, eu não me sentia uma heroína.

Ainda me lembro da tristeza e do medo que tomaram conta de mim: eu estava certa de que meus atos acabavam de me custar uma das melhores amigas que jamais tivera. Mas, uma hora depois, Suzie voltou da sala da psicóloga e, com lágrimas nos olhos, atirou-se em meus braços em busca de um abraço de que nós duas precisávamos.

Foi só então que me dei conta de que, por mais furiosa que estivesse comigo, ela ainda precisava da melhor amiga para ajudá-Ia a chegar ao fim daquela jornada extremamente difícil.

E assim eu aprendi uma das primeiras lições sobre o que é crescer e sobre o que é uma verdadeira amizade - pode ser duro, até mesmo apavorante, mas quando gostamos de alguém e queremos o seu bem devemos seguir o impulso do coração.

Um ano depois, Suzie me deu uma cópia de sua foto do álbum da escola. Nela, aparecia com as faces outra vez rosadas, e o sorriso luminoso do qual eu sentira tanta saudade enfeitava o seu rosto. No verso, a mensagem:

Kelly você sempre esteve pronta para me ajudar, mesmo contra a minha vontade. Muito obrigada. Agora, não há como se livrar de mim - serei sua amiga para sempre. Te amo, Suzie.


 

SE

RUDYARD KIPLING

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 124

 

Se você é capaz de manter a calma quando todos ao seu redor já a perderam e o culpam por isso;

Se você é capaz de confiar em si mesmo quando todos estão duvidando, mas levar em consideração esta desconfiança;

Se você é capaz de esperar e não se cansar da espera,

Ou, ao ser vítima de mentiras, não mentir para se defender,

Ou, sendo odiado, não deixar se levar pelo ódio,

E ainda assim não parecer bom demais nem muito sábio;

Se você pode sonhar sem deixar que os sonhos o dominem;

Se pode pensar sem deixar que o pensamento seja o seu único objetivo;

Se pode lidar com o triunfo e a desgraça, estes dois impostores, da mesma maneira;

Se pode agüentar a dor de ouvir a sua verdade ser transformada em mentira para enganar os tolos,

Ou ver destruídas todas as coisas que você dedicou a vida para construir, e empenhar-se em refazê-Ias com os poucos recursos que lhe restam;

Se é capaz de arriscar numa única aposta tudo o que acumulou durante toda sua vida,

E, ao perder, começar tudo de novo, desde o ponto de partida, sem dizer uma palavra sobre a sua perda;

Se é capaz de forçar seu coração, nervos e músculos exaustos a servirem seus objetivos, e a persistir quando nada mais há em você senão sua vontade que lhe diz: "Prossiga";

Se você pode falar às multidões sem perder sua virtude, ou estar entre reis sem perder a sua naturalidade;

Se nem seus inimigos nem seus melhores amigos podem lhe fazer mal, e se todos podem contar com você, mas ninguém depende de você;

Se você é capaz de se dedicar os sessenta segundos de cada minuto ao trabalho, então a Terra será sua, com tudo o que existe no mundo. E você, o que é mais importante, será um homem, meu filho!


 

OS LILASES FLORESCEM TODA PRIMAVERA

Revista Blue Jeans

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 127

 

 

Hoje é um daqueles dias ruins. Tudo parece fora do meu alcance, mas tudo especialmente com o trabalho da aula de psicologia. O estúpido projeto de final de ano é levar uma foto que representa um momento realmente feliz da nossa infância.

O problema não foi escolher uma foto - eu soube imediatamente qual  levaria. Em cima da minha escrivaninha tem um porta retrato com uma foto minha, aos oito anos, ao lado da vovó Sherrie, que já morreu. Era primavera e ela tinha me levado de ônibus até um festival de lilases nos corredores da cidade. Passamos a tarde cheirando as flores, de olhos fechados, inclinadas sobre botões de lilás. A foto foi tirada por um velhinho muito engraçado, que nos contou histórias hilariantes enquanto nos levava até o ponto de ônibus no final da tarde. Nunca o vimos de novo, mas, olhando para trás, me pergunto se ele não teve uma queda pela vovó Sherrie.

Olhando a foto enquanto espero o fim da minha hora de almoço, sei que a beleza da minha avó não está ali - cabelos curtos, lisos e grisalhos, olhos levemente saltados. O nariz é grande demais e a testa muito alta. Ela é baixinha e um pouco atarracada. Ao seu lado, segurando firme na sua mão, eu sou uma cópia dela, menor e mais jovem. Tínhamos até os mesmos pés estreitos, magros, de dedos inacreditavelmente compridos. Tínhamos. Agora já não acho tão divertido rir dos meus pés ridículos, como fazia quando estava com ela.

Quando minha avó morreu, há dois anos, eu me senti perdida. Por isso, não tive dúvidas sobre a foto que levaria para a aula. Não posso perder esta oportunidade de trazê-la de volta um pouquinho que seja e de celebrar as marcas que ela deixou na vida. Mas sei que poucas pessoas - talvez nenhuma – vão apreciar o presente que eu quero compartilhar com uma certa timidez e ansiedade.

Sento na minha carteira, aliviada por ter chegado sã e salva.

Não sei por quê, mas é no momento da entrada na escola que eu me sinto mais isolada. Cercada de pessoas, fico mais consciente do que nunca do quanto estou longe delas. Não tenho ninguém para andar ao meu lado, contando fofocas. Vejo essas pessoas todos os dias, às vezes passo bem perro delas. Mas são quase como os estranhos com que cruzo na rua. Nem sequer nos olhamos nos olhos.

À medida que as pessoas entram na sala, fico ali sentada com a foto no colo, emoldurada pelas minhas mãos. Por que eu não trouxe outra? Por que tive tanta certeza de que minhas palavras poderiam explicar o que sinto?

A professora vai até a frente da sala. Não gosto especialmente dela, nem ela de mim. Ela prefere os alunos que ficam depois da aula para conversar sobre namorados e outros assuntos que me interessam pouco. Eu fico depois da aula para lhe mostrar artigos sobre novos tratamentos para autismo. Queria que ela gostasse de mim, embora não consiga respeitá-la.

Ela pede voluntários para começar as apresentações. Sorri para mim, que estou na primeira fila (onde mais eu estaria?), numa atitude de expectativa. Eu me levanto, a perfeita voluntária-para-ir-primeiro. Uma voz vem lá de trás:

- Aposto que ela trouxe uma foto da sua primeira enciclopédia: não, desculpe, essa está pendurada em cima da lareira.

Olhos, todos aqueles olhos em cima de mim, com aquele olhar vazio reservado para as pessoas que se observa sem prestar atenção.

- Esta é uma foto da minha avó Sherrie comigo, quando eu tinha oito anos. Ela me levou a um festival de lilases. Era um evento anual - evento? Eu deveria ter dito outra coisa - lá tinha todo tipo de lilases, espécies raras e comuns, cor-de-rosa, roxos e brancos. Foi maravilhoso - chato.

Abaixei os olhos para a foto. A mulher e a menina, de mãos dadas, emolduradas por uma sebe alta salpicada de pontinhos de botões de lilás. As duas parecem prestes a sair para conquistar o mundo, só as duas, com seus sapatos feitos para caminhar.

- Quando olho para esta foto, quase posso sentir o perfume dos lilases. Especialmente agora, na primavera. Foi um passeio maravilhoso. Depois que voltamos para casa, minha avó fez macarrão para mim e me deixou pôr lascas de chocolate no meu sorvete... - estou saindo um pouco do assunto. Estou perdendo o público que nunca tive.

- Mas foi um dia maravilhoso, como eu disse. É difícil lembrar de outro dia como esse. Minha avó ficou doente quando eu tinha nove anos... - de repente, lágrimas escorrem pelo meu rosto - e nunca mais ficou boa. - Hora de sair correndo, fugir, ou pelo menos sentar.

Desabo na cadeira, agarrada à foto. Nenhum aplauso.

Abruptamente, com um ar excessivamente animado, a professora chama outra pessoa. A aula logo termina, mas parece que dez ou doze anos se passaram. Quando o sinal toca, eu me misturo à multidão no corredor.

Falando em dia ruim...

Mas, como se diz, sempre existe um amanhã. Isso, para mim, significa que não adianta passar por hoje, porque você vai ter que fazer tudo de novo em menos de vinte e quatro horas.

Mas aqui estou eu, no dia seguinte, chegando apressada para a aula de física. Acabei me atrasando porque deixei minha pasta cair e tive que recolher a papelada espalhada pelo chão. Todo mundo me olha. No dia anterior eu quebrei duas regras importantes: não só demonstrei emoção excessiva como também confessei que eu realmente me importava com algo tão inusitado quanto uma avó. Bom, num dia eu sou invisível e no outro sou objeto de chacota pública. Ambas situações pouco invejáveis. Caminho até o meu lugar. Em cima da cadeira há um saco de papel. Esperando encontrar um uniforme de ginástica e um par de tênis malcheirosos, olho para dentro.

Ai. Ai. Meu Deus! Minhas pernas ficam moles.

A sacola está cheia de galhos de lilás. Aspiro seu perfume com minha alma, posso senti-lo como um pedaço de mim que pensei que tivesse murchado e morrido. Será que eu ainda estou no mundo real? Levanto os olhos (todos ainda me observam com olhos de peixe morto). Mas tem que ter sido um deles, algum rebelde sentimental disfarçado. Qual deles?

Tiro a sacola e me sento. A professora fica irritada.

- Vamos começar, pessoal? Suas apresentações de ontem vão contar...

Há um pedaço de papel no meio dos botões. Abro e leio estas duas linhas:

Nós encontraremos nosso direito de ser. Até os lilases florescem toda primavera.

 

No final das contas, todos nós só queremos ser amados.

JAMIE YELLIN, 14 ANOS


 

TENHO SÓ DEZESSETE ANOS

JOHN BERRIO

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 132

 

A agonia dilacera minha mente. Sou uma estatística. Quando cheguei aqui, me sentia muito sozinho. Estava tomado pela tristeza e esperava encontrar algum conforto.

Não encontrei. O que vi foram milhares de outras pessoas com os corpos tão estraçalhados quanto o meu. Recebi um número e fui colocado em uma categoria. A categoria se chamava "Mortes no trânsito".

 

O dia em que morri era um dia normal de colégio.

Como queria ter pego o ônibus! Mas eu era bom demais para o ônibus. Agora me lembro de como peguei o carro da mamãe.

- Um favor especial - implorei. - Todo mundo dirige.

Quando o sinal das 2:50h tocou, joguei meus livros no escaninho. Livre até amanhã de manhã! Corri para o estacionamento, animado com a idéia de dirigir um carro e ser dono do meu próprio nariz.

Não importa como o acidente aconteceu, eu estava fazendo besteira - correndo demais, assumindo riscos malucos. Mas estava aproveitando minha liberdade e me divertindo. A última coisa de que me lembro foi de ultrapassar uma senhora que parecia estar indo muito devagar. Ouvi um estrondo e senti um tranco terrível. Vidro e aço voaram para lodo lado. Todo o meu corpo pareceu virar do avesso. Ouvi meu próprio grito.

De repente, acordei. Tudo estava em silêncio. Um policial estava de pé ao meu lado. Vi um médico. Meu corpo estava estraçalhado. Eu estava coberto de sangue. Havia pedaços de vidro partido por todo lado. Achava estranho não sentir nada. "Ei, não ponham esse lençol em cima da minha cabeça.

Não posso estar morto. Tenho só dezessete anos. Tenho um encontro hoje à noite. Tenho uma vida maravilhosa pela frente. Ainda nem vivi. Não posso estar morto!" Mais tarde, fui colocado em uma gaveta. Meus pais vieram me identificar. Por que precisavam me ver desse jeito?

Por que eu precisava olhar nos olhos da mamãe enquanto ela enfrentava o pior calvário da sua vida? Papai pareceu subitamente muito velho. Ele disse ao encarregado:

- É, é o nosso filho.

O enterro foi estranho. Vi todos os meus parentes e amigos andarem na direção do caixão. Eles olharam para mim com os olhos mais tristes que já vi. Alguns dos meus amigos estavam chorando. Algumas das meninas tocavam na minha mão e soluçavam enquanto se afastavam.

"Por favor, alguém me acorde! Me tire daqui." Não posso suportar ver mamãe e papai sofrendo tanto. Meus avós estão tão fracos de dor que mal conseguem andar. Meu irmão e minha irmã parecem zumbis. Andam como robôs. Em transe. Todo mundo. Ninguém pode acreditar nisso. Eu também não posso acreditar.

"Por favor, não me enterrem! Não estou morto! Tenho muita vida para viver! Quero rir e correr de novo. Quero cantar e dançar. Por favor, não me ponham no chão! Prometo que se o senhor me der só mais uma chance, Deus, vou ser o motorista mais cuidadoso do mundo. Tudo o que quero é mais uma chance. Por favor, Deus, eu tenho só dezessete anos."


 

GOSTE DAS PESSOAS PRIMEIRO

KENT NERBURN

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 135

 

Craig, um grande amigo da faculdade, trazia energia e vida a qualquer lugar aonde chegasse. Quando você falava, ele prestava tanta atenção que você se sentia incrivelmente importante adoravam.

Certo dia ensolarado de outono, Craig e eu estávamos sentados em nossa área habitual de estudo. Olhei pela janela e vi um dos meus professores atravessando o estacionamento.

- Não quero esbarrar com ele - eu disse.

- Por que não? - perguntou Craig.

Expliquei que, no semestre anterior, o professor e eu tínhamos nos desentendido. Eu me ofendera com alguma coisa que ele tinha dito e ele, por sua vez, ofendeu-se com a minha resposta.

- Além disso - acrescentei -, o cara não gosta de mim.

Craig observou a figura que passava lá embaixo.

- Talvez você tenha entendido mal - ele disse. - Talvez você esteja se afastando porque tenha medo de ser rejeitado.

E ele provavelmente acha que você não gosta dele, então não é simpático. As pessoas gostam de quem gosta delas. Se você mostrar interesse por ele, ele vai se interessar por você. Vá falar com ele.

As palavras de Craig foram direto ao ponto. Hesitante, desci as escadas até o estacionamento. Cumprimentei meu professor efusivamente e perguntei como tinha sido o seu verão. Ele me olhou com genuína surpresa. Caminhamos um pouco conversando, e eu podia imaginar Craig me olhando da janela com um grande sorriso.

Craig tinha me ensinado um princípio simples, tão simples que eu não podia acreditar que nunca tivesse pensado naquilo antes. Como a maioria dos jovens, eu era inseguro e começava todos os meus contatos com medo do julgamento dos outros - quando, na verdade, eles também estavam preocupados com o meu julgamento.

Daquele dia em diante, passei a me esforçar para reconhecer que os outros têm necessidade de estabelecer uma conexão e de compartilhar algo sobre suas vidas. Descobri um mundo de pessoas que nunca teria conhecido de outra maneira.

Uma vez, por exemplo, viajando de trem pelo Canadá, comecei a conversar com um homem que todos evitavam porque ele cambaleava e enrolava a língua como se estivesse bêbado. Na verdade, ele estava se recuperando de um derrame. Tinha sido engenheiro naquela mesma linha que estávamos percorrendo e passou a viagem me contando histórias fascinantes passadas naquela ferrovia.

Quando o trem foi se aproximando da estação, ele segurou a minha mão e me olhou nos olhos:

- Obrigado por ouvir. A maioria das pessoas não se daria ao trabalho. - Ele não precisava ter me agradecido. O prazer tinha sido todo meu.

Em uma esquina barulhenta da cidade de Oakland, na Califórnia, uma família me parou pedindo indicações e descobri que eram turistas da isolada costa norte da Austrália.

Perguntei-lhes como era a vida onde moravam. Em pouco tempo, tomando café, eles me deleitaram com histórias sobre lugares e costumes que eu nunca tinha conhecido.

Cada encontro tornou-se uma aventura, cada pessoa uma lição de vida. Ricos, pobres, poderosos e solitários: todos tinham tantos sonhos e dúvidas quanto eu. E cada um deles tinha lima história única para contar, bastava alguém querer ouvir.

Um velho vagabundo com a barba por fazer me contou como tinha alimentado sua família durante a depressão, dando tiros de espingarda em um lago e recolhendo os peixes atordoados que flutuavam na superfície. Um guarda de trânsito me revelou como tinha aprendido seus gestos observando toureiros e maestros. E uma jovem esteticista compartilhou comigo a alegria que sentiu ao ver os moradores de um asilo sorrindo depois que ela cortou e penteou seus cabelos.

Quantas dessas oportunidades nós deixamos passar. A garota que todos acham feiosa, o menino de roupas esquisitas – essas pessoas têm histórias para contar, assim como você, com certeza. E, como você, elas sonham com alguém que queira ouvir.

Foi isso que Craig me ensinou. Goste das pessoas primeiro, faça perguntas depois. Descubra que a luz que você projeta nos outros se reflete em você multiplicada por cem.

 

 

Quanto mais sabemos, melhor perdoamos.

Aquele que sente profundamente sente por todos os que vivem.

MADAME DE STAEL

 


 

CORAÇÃO BRILHANTE

JENNIFER LOVE-HEWITT

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 139

 

No ano passado fui convidada para participar numa festa beneficente, organizada por uma instituição que ajuda crianças portadores do vírus da AIDS. Eles me chamaram porque sou atriz em um seriado de televisão, e eu fui por solidariedade.

Acho que a maioria das crianças não me reconheceu como uma celebridade. Eu era apenas uma garota grande que tinha ido brincar com elas naquele dia. Preferi assim.

No pátio da instituição havia vários tipos de barraquinhas.

Mas as crianças tinham se aglomerado ao redor de uma em especial e pintavam pequenos recortes de tecido. Os quadrados seriam costurados para fazer uma colcha de retalhos que seria dada de presente a um dos diretores que tinha dedicado grande parte da sua vida à organização e agora estava se aposentando.

Todo mundo recebeu tintas para tecido de cores alegres e brilhantes. As crianças se dedicaram a pintar alguma coisa que fizesse a colcha ficar bem bonita. Olhando para os quadrados já prontos, vi corações cor-de-rosa, nuvens azuis, um lindo pôr-do-sol alaranjado e flores verdes e roxas. Todos os desenhos eram coloridos, positivos e animadores. Exceto um.

a menino sentado ao meu lado estava pintando um coração, mas era um coração escuro, vazio, sem vida. Não tinha as cores vibrantes que seus colegas tinham escolhido.

No início, pensei que talvez ele tivesse usado a única tinta que sobrara. Mas, quando quis saber o que tinha acontecido, ele me disse que o coração era daquela cor porque o seu próprio coração estava se sentindo escuro. Perguntei-lhe por que, e ele me respondeu que tanto ele quanto sua mãe estavam muito doentes. E acrescentou que os dois nunca iriam melhorar. Ele me olhou direto nos olhos e falou:

- Ninguém pode fazer nada para ajudar.

Eu disse que sentia muito que ele estivesse doente e que certamente podia entender por que estava tão triste. Entendia até por que ele pintara o coração com uma cor escura. Mas expliquei que não era verdade que ninguém podia fazer nada para ajudar. Talvez as pessoas não fossem capazes de fazê-lo e a mãe dele ficarem curados, mas havia algumas coisas que podiam ser feitas.

- Na minha experiência - eu disse -, aprendi que dar abraços bem apertados ajuda de verdade quando se está triste.

Se você quiser, eu ficaria feliz em lhe dar um abraço.

O menino imediatamente pulou nos meus braços e pensei que meu coração fosse explodir com o amor que senti por aquele menino.

Ele ficou sentado no meu colo por um bom tempo e desceu para terminar o desenho. Perguntei-lhe se estava se sentindo melhor e ele respondeu que sim, mas que ainda estava doente e nada iria mudar aquilo. Eu disse que entendia.

Deixei-o de coração apertado, desejando cada vez mais poder ajudar aquelas crianças.

No final do dia, eu estava me aprontando para ir para casa quando senti alguém puxar meu casaco. Quando me virei, o menininho estava ali de pé, com um sorriso no rosto. Ele disse:

- Meu coração está mudando de cor. Está ficando mais brilhante... Acho que aqueles abraços apertados funcionam mesmo.

No caminho de casa, senti que meu próprio coração também tinha mudado para uma cor mais brilhante.

 

 

O maior presente é um pedaço de você mesmo.

RALPH WALDO EMERSON

 


 

EU VOU VOLTAR

JACK CAVANAUGH

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 142

 

Ao se aproximarem da porta do quarto do hospital, Linda e Bob Samele se prepararam. "Mantenha a calma”, disse Linda para si mesma, enquanto girava a maçaneta. "Não vai querer deixá-Io pior do que ele já está." Naquela tarde de chuva e neve do dia 23 de dezembro de 1988, seu filho de 15 anos, Chris, estava dirigindo, com cinco amigos, da cidade natal dos Samele, Torrington, em Connecticut, até a cidade próxima de Waterbury. Subitamente, os risos dos adolescentes se transformaram em gritos quando o carro derrapou em um pedaço de gelo e bateu em uma cerca. Três dos jovens, incluindo Chris, foram jogados pela janela traseira. Um morreu na hora, outro se feriu gravemente.

Chris fora encontrado sentado no canteiro entre as duas pistas, com os olhos arregalados diante do rio de sangue que esguichava de sua coxa esquerda. Seis metros adiante estava sua perna esquerda, amputada no joelho por um cabo da cerca. Ele foi levado ao Hospital Waterbury para ser operado. Seus pais tiveram que esperar quase sete horas para vê-Io.

Agora, os olhos de Linda se encheram de água ao ver seu filho na cama do hospital. Bob, um carteiro de Torrington, segurou a mão de Chris.

- Pai, eu perdi a perna - disse o jovem baixinho para seu pai. Bob aquiesceu e apertou sua mão com mais força. Depois de um curto silêncio, Chris acrescentou:

- O que vai acontecer com a minha carreira de basquete?

Bob Samele lutou para controlar suas emoções. O basquete tinha sido a paixão de Chris desde a mais tenra infância e ele já estava se tornando uma lenda na região. Na temporada anterior, como aluno da sétima série do Colégio St. Peter, atingira a média notável de 41 pontos por jogo. Agora, na oitava série, Chris somara um total de 62 pontos em dois jogos intercolegiais.

- Algum dia vou jogar em Notre Dame, na frente de milhares de pessoas - dizia Chris a seus pais com um sorriso. - E vocês vão estar assistindo.

Olhando para o filho, Bob Samele procurou as palavras:

- Sabe, Chris - conseguiu dizer finalmente -, tem muita gente na sala de espera, incluindo o treinador Martin. O rosto de Chris se iluminou. Então, com uma voz determinada, ele disse:

- Pai, diga ao treinador Martin que eu vou voltar na próxima temporada. Vou voltar a jogar basquete.

Chris foi submetido a mais três cirurgias na perna em sete dias. Desde o início, os cirurgiões viram que a confusão de nervos, artérias e músculos rompidos tornava impossível reimplantar o membro arrancado. Chris precisaria de uma prótese.

Durante as três semanas e meia que passou no hospital, ele teve um fluxo constante de visitantes.

- Não se sinta mal por minha causa - dizia Chris, quando percebia pena no olhar das pessoas. - Eu vou ficar bem. - Por trás de sua boa disposição havia uma força de vontade inabalável, forjada pela fé religiosa. Muitos de seus médicos e enfermeiros não entendiam aquilo.

- Como você está lidando com isso tudo, Chris? - perguntou certo dia um psiquiatra. - Você alguma vez sente pena de si mesmo?

- Não - respondeu o garoto. - Não vejo como isso poderia ajudar.

- Não sente amargura ou raiva?

- Não - disse Chris. - Tento ser positivo sobre isso tudo.

Quando o persistente psiquiatra finalmente foi embora do seu quarto, Chris disse a seus pais:

- Quem precisa de ajuda é ele.

Chris trabalhou duro no hospital para recuperar sua força e coordenação. Quando se sentia forte o bastante, encestava uma bola de espuma no aro que um amigo tinha pregado na parede perto da sua cama. Sua intensa terapia incluía exercícios para a parte superior do corpo, por causa das muletas, e exercícios para melhorar o equilíbrio.

Duas semanas depois de Chris entrar no hospital, os Samele apostaram em uma terapia adicional: levaram-no em uma cadeira de rodas para assistir a um jogo de basquete no científico de Torrington.

- Fiquem de olho nele o tempo todo - avisaram os enfermeiros, preocupados com sua reação.

O garoto ficou estranhamente calado ao ser empurrado para dentro do ginásio barulhento. Mas, enquanto ele passava na frente das arquibancadas, seus amigos e colegas começaram a gritar seu nome e a acenar. Então o diretor-assistente do científico de Torrington, Frank McGowan, anunciou nos alto falantes:

- Temos um amigo muito especial aqui esta noite. Pessoal, vamos dar as boas-vindas a Chris Samele!

Estupefato, Chris olhou em volta e viu que todas as novecentas pessoas no ginásio tinham se levantado, gritando e aplaudindo. Os olhos do garoto se encheram de lágrimas. Era uma noite que ele jamais esqueceria.

No dia 18 de janeiro de 1989, pouco menos de um mês depois do acidente, Chris pôde voltar para casa. Para continuar os estudos, ele recebia todas as tardes a visita de um professor particular. Quando não estava estudando, estava no Hospital Waterbury fazendo fisioterapia. A dor física, às vezes muito intensa, passou a fazer parte da sua vida cotidiana. Algumas vezes, enquanto assistia à televisão com seus pais, ele se balançava para a frente e para trás, numa reação silenciosa à dor em sua perna amputada.

Então, em uma tarde gélida, Chris pegou suas muletas com grande esforço e deu a volta na casa até a antiga garagem onde aprendera a arremessar. Colocando as muletas no chão, pegou uma bola de basquete e olhou em volta para ter certeza de que ninguém estava olhando. Finalmente, pulando na perna direita, começou a arremessar a bola na cesta. Várias vezes ele perdeu o equilíbrio e caiu no chão. Todas as vezes ele se levantou, pulou para recuperar a bola e continuou a arremessar. Quinze minutos depois, estava exausto. "Isto vai levar mais tempo do que pensei", disse para si mesmo, enquanto começava a lenta caminhada de volta para casa.

Chris colocou sua primeira prótese no dia 25 de março, uma Sexta-Feira Santa. Animado com sua nova perna, perguntou a Ed Skewes, diretor do departamento protético e ortopédico, se aquilo significava que ele poderia começar a jogar basquete imediatamente. Surpreso ao ver Chris falando sério, Skewes respondeu:

- Vamos com calma, um dia de cada vez. - O médico sabia que uma pessoa geralmente precisa de cerca de um ano para andar confortavelmente com uma prótese, quem dirá praticar esportes.

No porão de casa, Chris passou longas horas aprendendo a andar com sua perna artificial. Por mais que fosse difícil arremessar com uma perna só, ele achava ainda mais difícil com a prótese. A maioria de seus arremessos passava longe da cesta e com frequência ele caía no chão.

Depois de um dia particularmente desanimador, Chris perguntou à mãe se ela realmente achava que ele voltaria a jogar.

- Você vai ter que se esforçar ainda mais - respondeu ela. Mas, sim, eu acho que você consegue. - Ele sabia que ela estava certa. O segredo era trabalhar duro e se recusar a desistir.

Chris voltou para o científico de Torrington no começo de abril e imediatamente voltou a se enturmar - menos na quadra de basquete. Depois da aula, os amigos de Chris iam jogar em uma quadra ao ar livre. Durante várias semanas, ele ficou observando do lado de fora, enquanto eles passavam correndo. Então, em uma tarde no início de maio, ele saiu vestido para jogar. Seus amigos, surpresos, abriram caminho enquanto ele entrou na quadra sem hesitar.

Chris começou a arremessar e sentia um arrepio todas as vezes em que a bola entrava na cesta. Mas quando tentava passar com a bola, dando pulinhos na direção da cesta, ou pular para um rebote, caía no chão.

- Vai lá, Chris, você consegue! - gritavam seus amigos. Mas Chris sabia a verdade: ele não conseguiria, não como antes.

Em um jogo durante um torneio de verão, ele subiu com força para um rebote e quebrou o pé da prótese. Enquanto pulava para fora da quadra, pensou: "Talvez eu esteja só me enganando. Talvez não seja capaz de fazer isso."

No final das contas, no entanto, disse a si mesmo que só havia uma coisa a fazer: esforçar-se ainda mais. Começou um programa diário de arremessos, dribles e levantamento de pesos.

Depois de cada sessão de exercícios, tirava com cuidado a perna artificial e as quatro meias suadas que usava para amortecer a prótese. Depois tomava banho, grunhindo baixinho enquanto passava sabão em cima das bolhas. Em pouco tempo, a dor foi amainada pelo sentimento de que ele estava tendo lampejos do antigo Chris. "Eu vou conseguir. E não ano que vem. Este ano!" Na segunda-feira depois do Dia de Ação de Graças, o treinador principal do time do colégio, Bob Anzellotti, reuniu o grupo de garotos, todos nervosos e ansiosos, que competiam por uma vaga no time de basquete júnior do científico de Torrington. Seus olhos se detiveram em Chris Samele.

Durante os dois dias de testes, ninguém se esforçara mais do que Chris. Ele driblava, compunha a defesa, mergulhava atrás de bolas perdidas - fazia o que quer que tivesse que fazer para mostrar a todo mundo que ainda podia jogar. Chegava até a dar dez voltas em torno do ginásio todo dia com os outros - correndo bem mais devagar do que o resto, mas indo sempre até o fim.

Na manhã seguinte ao último treino, Chris juntou-se à multidão para olhar a lista de convocados. "Você fez tudo que pôde", disse a si mesmo enquanto espiava a lista por cima dos ombros dos outros. E ali estava - Samele. Ele estava de volta ao time!

Mais tarde, naquela semana, o treinador Anzellotti chamou seus jogadores para uma reunião.

- O time de cada ano tem um capitão, escolhido pelo exemplo que dá aos outros. O capitão deste ano vai ser... Chris Samele. - Os jogadores explodiram em aplausos.

Na noite do dia 15 de dezembro, apenas oito dias antes do primeiro aniversário do acidente, duzentas e cinquenta pessoas tomaram seus lugares para assistir ao jogo que marcaria a volta de Chris à quadra de basquete.

No vestiário, a mão de Chris tremia ligeiramente enquanto ele vestia a camisa marrom do time.

- Vai dar tudo certo, Chris - disse o treinador Anzellotti.

- Só não espere muito logo na primeira noite. - Chris concordou com a cabeça.

- Eu sei - disse ele baixinho. - Obrigado.

Logo ele estava correndo para a quadra com o resto do time para o treinamento antes do jogo. Praticamente toda a arquibancada se levantou para aplaudir. Emocionados ao verem seu filho novamente com o uniforme do científico de Torrington, Linda e Bob seguraram as lágrimas. "Meu Deus", rezou Linda, "não deixe que ele se envergonhe." Apesar de seu esforço para se acalmar, Chris levou seu nervosismo para a quadra. Durante o aquecimento, a maioria dos seus arremessos bateu no aro.

- Calma, relaxe - sussurrou o treinador Anzellotti. - Não fique afoito.

Quando os jogadores finalmente foram para o centro da quadra para o início do jogo, Chris estava na posição de defesa.

Com a primeira bola, começou a jogar de modo tenso e esquisito. Conseguia levar o jogo, mas seus movimentos eram desajeitados, ele estava sem ritmo. Várias vezes, ao arremessar a bola, ela sequer tocava o aro da cesta. Geralmente, quando isso acontece, os adolescentes nas arquibancadas provocam: "Bola no ar! Bola no ar!" Desta vez, ficaram calados.

Depois de jogar por oito minutos, Chris teve um longo descanso. Faltando dois minutos para o meio tempo, tornou a entrar em quadra. "Vamos lá, Chris", disse ele a si mesmo, "foi para isso que você trabalhou. Mostre a eles que você consegue." Segundos depois, ele conseguiu ficar livre a seis metros da cesta e um jogador do seu time lhe deu um passe. Era uma distância difícil para qualquer um - uma cesta de três pontos. Sem hesitação, Chris se firmou e fez um arremesso alto, em arco. A bola voou até a cesta e passou bem pelo meio dela.

O ginásio explodiu em gritos e aplausos.

- É isso aí, Chris! - gritou Bob Samele, com a voz embargada de emoção.

Um minuto depois, Chris pegou um rebote entre um emaranhado de braços. Pulando, arremessou a bola na tabela. Mais uma vez ela caiu em cheio dentro da rede. E novos aplausos explodiram.

As lágrimas corriam pelo rosto de Linda Samele, enquanto ela olhava seu filho pular pela quadra, com o punho levantado, triunfante. "Ele conseguiu." Chris continuou a jogar muito bem, para delírio da multidão. Só uma vez perdeu o equilíbrio e desabou no chão. Quando soou o final da partida, ele fizera onze pontos e Torrington vencera.

Mais tarde, naquele dia, em casa, Chris deu um largo sorriso:

- Eu fui bem, não fui, pai?

- Você foi ótimo - respondeu Bob, dando um abraço apertado no filho.

Depois de conversar rapidamente sobre o jogo, Chris subiu as escadas para seu quarto, ainda com uma expressão de felicidade.

Seus pais sabiam que, para ele, aquela noite era só o começo.

Enquanto apagava as luzes, Linda se lembrou de uma tarde logo depois do acidente, quando ela estava trazendo seu filho de volta da fisioterapia. Chris estava calado, olhando pela janela do carro, quando, de repente, quebrou o silêncio:

- Mãe, acho que sei por que isso aconteceu comigo.

- Por quê? - Linda perguntou, surpresa.

Ainda olhando pela janela, Chris disse simplesmente:

- Deus sabia que eu ia aguentar. Ele salvou a minha vida porque sabia que eu ia aguentar.

 

 

Nota do editor: Samele, em seguida, entrou para o time principal de basquete do científico de Torrington durante seu segundo e terceiros anos. Chris também jogou simples e duplas no time de tênis do colégio. Ele jogou no time de tênis do Western New England College em Springfield, Massachuserrs, e jogou basquete no Western New England e em ligas de verão na área de Torrington. Samele quer ser treinador de basquete.

 

 

Embora o mundo esteja cheio de sofrimento,

também está cheio de superação do sofrimento.

HELEN KELLER

 


 

COMO MASSAGEAR UM EGO

KIRK HILL

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 152

 

Sr. Rickman, nosso professor de psicologia, não costuma passar o mesmo tipo de deveres dos outros professores, tais como ler mil páginas, responder às perguntas ao final do capítulo, solucionar os problemas de 47 a 856. Ele é bem mais criativo do que isso.

Sr. Rickman apresentou o dever de quinta-feira passada, dizendo que o importante é um meio de comunicação.

- Nossos atos falam mais alto do que as palavras. Esta não é uma frase vazia - ele nos disse. - O que as pessoas fazem nos diz algo sobre o que estão sentindo.

Ele fez uma pequena pausa para que absorvêssemos aquilo antes de passar o dever. .

- Agora, vejam se conseguem mudar uma pessoa, massageando o ego dele ou dela o bastante para que você perceba uma mudança em seu comportamento. Relataremos os resultados na aula da semana que vem.

Quando cheguei em casa naquela tarde, minha mãe estava sentindo uma imensa pena dela mesma. Percebi isso ao passar pela porta. Os cabelos caíam sobre o rosto, a voz mais parecia um lamento e ela ficava suspirando enquanto preparava o jantar. Nem ao menos me dirigiu a palavra quando cheguei. Como ela não falou, eu também não falei.

O jantar foi um tanto triste. Papai não estava com mais vontade de falar do que mamãe ou eu. Decidi colocar o meu dever de casa em ação.

- Mãe, sabe aquela peça que o clube de artes dramáticas da universidade está encenando? Por que você não vai com o papai hoje à noite? Ouvi dizer que é ótima.

- Esta noite não dá - disse meu pai. - Tenho uma reunião importante.

- Naturalmente - comentou mamãe. E eu compreendi o que a estava incomodando.

- Bem, então por que não vai comigo? - perguntei.

Imediatamente, desejei não ter feito aquele convite. Imagine só um rapaz do segundo grau ser visto saindo à noite com a mãe! De qualquer maneira o convite ficou ali, pairando no ar, e mamãe perguntou, toda animada:

- Jura, Kirk?

Engoli em seco algumas vezes.

- Claro. Por que não?

- Mas rapazes não costumam sair com as mães. - Seu tom de voz foi ficando cada vez mais agradável e ela prendeu as mechas de cabelos soltos em cima da cabeça.

- Não existe nenhuma lei dizendo que a gente não pode sair com a mãe - brinquei. - Vá se arrumar. Nós vamos sair.

Mamãe carregou alguns pratos até a pia. Agora, seus passos estavam leves em vez de arrastados.

- Deixe que Kirk e eu lavamos a louça - ofereceu papai, e mamãe chegou a sorrir para ele.

- Você foi muito gentil em fazer isso - disse papai, quando mamãe deixou a cozinha. - Você é um filho muito atencioso. "Graças à aula de psicologia”, pensei, um tanto deprimido.

Mamãe voltou à cozinha parecendo cinco anos mais nova do que há uma hora - Você tem certeza de que não vai sair com mais ninguém esta noite? - insistiu ela, como se não pudesse acreditar no que estava acontecendo.

- Agora, eu vou - respondi. - Vamos nessa!

A noite acabou não sendo tão desagradável assim. A maioria dos meus amigos certamente fez algo de mais empolgante naquela noite do que assistir a uma peça de teatro. Os que foram ver a mesma peça não ficaram nem um pouco surpresos de me ver com minha mãe. Ao final da noite, ela estava genuinamente feliz, e eu próprio, bastante satisfeito. Não só me dei super bem no dever de casa como também aprendi um bocado sobre como fazer alguém feliz.

 

 

 

Se você tratar um indivíduo como ele é, ele permanecerá como é.

Mas se você o tratar como se fosse o que deveria ser,

ele se transformará no que deveria e poderia ser.

GOETHE

 


 

MEU IRMÃO MAIS VELHO

LISA GUMERICK

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 155

 

Nunca pensei que fosse sentir falta das meias mal-cheirosas do meu irmão espalhadas pelo chão ou da música que ele ouvia no volume máximo sempre que estava em casa. Mas, desde que ele foi para a faculdade, sinto meu coração apertado. Estou morrendo de saudades. Sempre fomos muito próximos, apesar da diferença de idade - eu tenho quatorze anos.

Meu irmão é um cara fora do comum, inteligente e gentil.

Além disso, minhas amigas vivem suspirando pelos cantos e dizendo que ele é lindo. Mas o que me faz sentir tanto orgulho é o jeito como ele lida com as coisas, como trata os amigos e a família, como se importa com as pessoas. É assim que eu quero ser. Se vocês não se importarem, eu gostaria de explicar o que quero dizer...

Ele se candidatou a quatorze faculdades e foi aceito em todas, menos na que queria, a Brown University. Então optou pela segunda escolha. Tudo correu bem no primeiro ano de faculdade, mas ele não estava satisfeito. Ao voltar para casa nas férias de verão, ele contou que tinha bolado uma estratégia para entrar na Brown. Queria saber se nós o apoiaríamos.

Seu plano era se mudar para Rhode Island, perto da Brown, arrumar um emprego e fazer tudo o que pudesse para ficar conhecido na área. Ele trabalharia duro e tinha certeza de que alguém iria notá-lo. Não era uma decisão fácil para meus pais, porque significava concordar que ele ficasse um ano fora da faculdade, o que para eles era assustador. Mas meus pais confiavam no meu irmão e o encorajaram a fazer o que achasse necessário para realizar seu sonho.

Não demorou muito para ele ser contratado como produtor de peças de teatro - é, adivinharam - na Brown. Era sua chance para brilhar, e ele brilhou. Nenhuma tarefa era grande ou pequena demais. Ele se dedicou totalmente ao trabalho. Conheceu professores e administradores, contou a todo mundo sobre seu sonho e nunca hesitou em dizer-Ihes o que estava buscando.

E no final do ano, é óbvio, quando ele tornou a se candidatar à Brown, foi aceito.

Ficamos todos extremamente felizes e eu senti enorme orgulho do meu irmão. Aprendi uma lição importante – uma lição que ninguém poderia ter me ensinado com palavras, uma lição que eu poderia aprender vendo com meus próprios olhos. Se eu der duro pelo que quero, se continuar tentando mesmo depois de ser rejeitada, meus sonhos também podem-se realizar. Este é um presente que eu ainda guardo no coração. Por causa do meu irmão, eu confio na vida.

Recentemente, fui sozinha a Rhode Island para visitá-Io e tive uma semana sensacional, sem adultos por perto. Na noite anterior à minha volta, estávamos conversando sobre vários assuntos quando meu irmão, olhando nos meus olhos, disse o quanto gostava de mim. Apertando minha mão, ele pediu que cu nunca fizesse nada que não achasse certo, por mais que os outros insistissem. Também disse para eu confiar sempre no desejo do meu coração.

Chorei durante toda a viagem de volta, sabendo que meu irmão e eu seríamos sempre amigos e me dando conta da sorte que é ser sua irmã. Uma coisa estava diferente: eu não me sentia mais uma garotinha. Parte de mim havia crescido naquela viagem e pela primeira vez pensei na grande tarefa que me esperava em casa. Tenho uma irmã dez anos mais nova e quero ajudá-la a fazer as escolhas certas. Hoje sei como é importante ter um ótimo professor.

 

 

Primeiro diga a si mesmo o que gostaria de ser e depois o que tem que fazer.

EPICTETO

 


 

O CUSTO DA GRATIDÃO

RANDAL JONES

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 158

 

Quando eu tinha uns treze anos meu pai costumava me levar para pequenos passeios aos sábados. Algumas vezes íamos ao parque, ou à marina, olhar os barcos. Eu também adorava visitar as lojas de bugigangas, onde podíamos admirar os aparelhos eletrônicos. De vez em quando, comprávamos alguma coisa barata só para desmontá-Ia juntos.

No caminho de volta desses passeios, papai sempre parava na sorveteria, onde tomávamos sorvete de casquinha. Sempre não, algumas só algumas vezes. E nunca sabia se íamos parar ou não, mas esperava ansioso, torcendo desde a hora em que pegávamos o rumo de casa até aquela esquina decisiva, de onde iríamos direto para o sorvete ou viraríamos e voltaríamos para casa de mãos vazias. Aquela esquina significava animação e na boca ou decepção.

Às vezes, meu pai me provocava, voltando para casa pelo caminho mais comprido.

- Só estou vindo por aqui para mudar um pouco - dizia ele, enquanto passava pela frente da sorveteria sem parar. Era um jogo, não estou falando de tortura.

Nos melhores dias ele perguntava, como se fosse novidade:

- Quer um sorvete de casquinha?

E eu respondia:

- Que ótima ideia, pai! - Eu sempre pedia de chocolate e ele, de creme. Tomávamos o sorvete no carro. Eu amava meu pai e amava sorvete, então aquilo era o paraíso.

- Naquele dia fatídico, estávamos a caminho de casa e eu aguardava o lindo som da sua oferta. E ela veio:

- Quer um sorvete de casquinha hoje?

- Que ótima ideia, pai!

Mas, então, ele acrescentou:

- Também acho ótima, filho. Não quer pagar hoje?

O sorvete custava vinte centavos! Vinte centavos! Minha cabeça girava. Eu podia pagar. Ganhava uma mesada de vinte e cinco centavos por semana, mais uns trocados por serviços eventuais. Mas economizar dinheiro era importante.

Papai tinha me dito. E, quando se tratava do meu dinheiro, sorvete simplesmente não era um bom investimento.

Por que não percebi que aquela era uma oportunidade de ouro de dar alguma coisa àquele pai tão generoso?

Por que não pensei que ele já me comprara cinquenta sorvetes e que eu nunca comprara nenhum para ele? Mas tudo em que eu conseguia pensar era: "Vinte centavos!"

Em um acesso de ingratidão, eu disse as palavras feias pelas quais nunca me perdoei:

- Bom, nesse caso, acho que vou desistir.

Meu pai respondeu apenas:

- Está bem, filho.

Mas, assim que fizemos a curva a caminho de casa, percebi o quanto estava errado e implorei para que ele desse meia-volta.

- Eu pago - supliquei.

Mas ele disse apenas:

- Tudo bem, a gente não precisa de sorvete mesmo!- E se recusou a ouvir minhas súplicas. Fomos para casa.

Fiquei me sentindo péssimo por meu egoísmo e minha ingratidão. Ele não jogou aquilo na minha cara, nem agiu como se estivesse desapontado ou ressentido. Mas acho que meu pai não poderia ter encontrado maneira melhor de me ensinar.

Aprendi que a generosidade tem mão dupla e que a gratidão algumas vezes custa um pouco mais do que "obrigado".

Naquele dia, a gratidão teria custado vinte centavos, e aquele teria sido o melhor sorvete que eu jamais teria tomado.

Na semana seguinte, fizemos outro passeio e, quando estávamos nos aproximando da esquina decisiva, eu disse:

- Pai, quer um sorvete de casquinha hoje? Eu pago.


 

UM AMOR PERDIDO

T. J. LACEY

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 163

 

Não sei por que deveria lhes contar isto. Eu não sou nada de especial. Não há nada que tenha acontecido comigo em minha vida inteirinha que não tenha acontecido com praticamente todo mundo deste planeta.

A não ser pelo fato de eu ter conhecido Rachel.

Nós nos conhecemos na escola. Nossos armários ficavam lado a lado e compartilhávamos aquele mesmo cheiro de folha dl' caderno novo, de tênis apenas começando a tomar o formato do pé e recortes com as fotos de nossos músicos favoritos presos com durex por dentro das portas dos armários.

Ela era linda e seu ar confiante indicava que tinha de estar namorando alguém. Alguém que fosse especial naquela escola.

Eu? Eu estava dando um duro danado para continuar no time de atletismo e para tirar notas que me permitissem ser aceito na

Faculdade onde meus pais estudaram quando tinham a minha idade.

No dia em que conheci Rachel, ela sorriu e disse "oi".

Depois de olhar dentro daqueles carinhosos olhos castanhos, tive de sair correndo como se aquela fosse a primeira e última corrida de minha vida. Corri dezesseis quilômetros naquele dia e praticamente não perdi o fôlego.

Passamos o segundo semestre do ano conversando e rindo dos professores, de nossos pais e da vida em geral, e discutindo o que faríamos quando nos formássemos. Estávamos, os dois, no último ano e era muito bom sentir-se "o rei do pedaço" por algum tempo.

No final das contas, ela não estava namorando ninguém - o que era incrível. Havia terminado com um sujeito do time de natação durante as férias e não estava saindo com ninguém.

Eu nunca me dera conta de que podia conversar de verdade com alguém - com uma garota, eu quero dizer - do jeito que conversava com ela.

Então, um dia, o meu carro - uma lata velha que meu pai tinha comprado para mim justamente porque jamais correria - não quis dar partida. Era um daqueles dias cinzentos e frios de outono e parecia que ia chover. Rachel passou por mim no estacionamento da escola, no conversível azul-turquesa do pai, e perguntou se podia me levar a algum lugar.

Eu entrei. Ela estava ouvindo o último cd de David Byrne e cantava com ele. Sua voz era bonita, bem mais bonita do que a de Byrne - mas também, ele não passa de um sujeito magrice10, nada parecido com Rachel.

- E então, aonde quer ir? - perguntou, e seus olhos tinham um brilho de quem sabia alguma coisa a meu respeito que eu ignorava.

- Para casa, eu acho - respondi. Então criei coragem e acrescentei: - a não ser que queira dar uma passada pelo Sonic.

Ela não disse nem sim nem não, mas foi direto para o restaurante drive-in. Comprei algo para ela comer e ficamos ali sentados, conversando mais um pouco. Ela me olhou com aqueles olhos que pareciam enxergar tudo o que eu sentia e pensava. Seus dedos roçaram os meus lábios e tive certeza de que nunca sentiria algo mais forte por uma garota.

Rachel me contou como tinha vindo parar naquela cidadezinha. O pai era diplomata em Washington e, ao se aposentar, quis que ela fosse criada como uma garota de cidade do interior.

Mas nada foi capaz de mudar seu jeito. Ela era sofisticada, segura e parecia sempre saber o que dizer. Ao contrário de mim. Mas ela fez alguma coisa se abrir dentro do meu coração.

Ela gostava de mim e, de repente, passei a gostar de mim também.

Ela apontou para o para-brisa.

- Olhe só - disse, rindo. - A gente embaçou as janelas. - E, enquanto a luz do dia desaparecia, eu me lembrei de minha casa, de meus pais, de meu carro.

Rachel me levou em casa e me deixou com um ''até amanhã" e um aceno. Aquilo foi o bastante. Eu tinha conhecido a garota dos meus sonhos.

Depois daquele dia, começamos a sair, mas eu não diria que estávamos namorando. Nós nos encontrávamos para estudar e sempre acabávamos conversando e rindo das mesmas coisas.

Nosso primeiro beijo? Eu nunca contei isto para meus amigos porque eles achariam graça, mas foi ela quem me beijou da primeira vez. Estávamos sozinhos em minha casa, na cozinha. O único barulho que eu ouvia era o tique-taque do relógio. Ah, sim, e o meu coração martelando nos ouvidos como se fosse explodir.

Foi um beijo suave e breve. Depois, ela olhou no fundo dos meus olhos e me beijou outra vez - e dessa vez não foi um beijo tão suave nem breve. Eu sentia o seu perfume e tocava os seus cabelos e, naquele momento, senti que poderia morrer e me alegrar por isso.

- Até amanhã - disse ela, e caminhou em direção à porta.

Eu não consegui dizer coisa alguma. Simplesmente a olhei partir e sorri.

Nós nos formamos e passamos o verão nadando, fazendo caminhadas, pescando, colhendo amoras e escutando suas músicas favoritas. Rachel tinha de tudo: de rhythm and blues a rock pesado e até mesmo clássicos como Vivaldi e Rachmaninoff. Eu me senti vivo como nunca havia me sentido antes. Tudo o que eu via, todos os aromas que sentia, tudo aquilo que tocava, era novo.

Estávamos deitados sobre uma manta no parque, certa vez, olhando para as nuvens. O rádio tocava jazz.

- Precisamos nos deixar - disse Rachel. - Já é quase época de irmos para a faculdade. - Ela deitou de bruços e olhou para mim.

- Vai sentir saudades minhas? Vai pensar em mim de vez em quando? - e por um décimo de segundo achei que percebera em seu olhar uma certa dúvida, algo bem diferente de sua autoconfiança usual.

Eu a beijei e fechei os olhos de forma a não perceber mais nada além dela, única e exclusivamente ela. O seu cheiro, o seu sabor, o seu toque.

- Você é eu - declarei. - Como posso sentir saudades de mim mesmo?

Mas lá no fundo eu me sentia como se estivesse morrendo por dentro. Ela estava certa: cada dia que passava significava que estávamos chegando mais perto de nossa separação.

Tentamos agir como se nada estivesse prestes a acontecer, como se nosso mundo não fosse mudar completamente em pouco tempo. Ela não falava em comprar roupas novas para levar para a faculdade, e eu não falava sobre o carro novo que meu pai tinha me dado. Continuamos a agir como se o verão fosse durar para sempre, como se nada pudesse nos mudar, nada pudesse mudar o nosso amor. E eu sei que ela me amava.

Estamos quase na primavera. Eu logo começarei o segundo ano de faculdade.

Rachel nunca escreve.

Ela disse que devíamos deixar tudo como estava, e não sei bem o que ela quis dizer com isso. Seus pais compraram uma casa na Virgínia, então eu sei que ela não voltará para a nossa cidadezinha.

Hoje, ouço música com mais frequência, sempre olho duas vezes quando vejo um conversível azul-turquesa e presto mais atenção em tudo: na cor do céu e na brisa que sopra por entre as árvores.

Ela é eu e eu sou ela. Onde quer que esteja, ela sabe disso. Tudo o que vivi e aprendi com Rachel está incorporado ao meu ser. Sempre que penso nela, jogo meu desejo para o universo, pedindo que o acolha. Acredito que a resposta que vier será para o bem de nós dois.

 

 

O amor é a dificílima percepção de que algo além de nós mesmos é real. IRIS MURDOCH

 


 

UM A PARA A SRA. B

KARINA SNOW

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 169

 

Estava sentada ao lado de Missy na aula de história geral do primeiro ano quando a Sra. Bardett anunciou um novo projeto. Em grupos, deveríamos escrever um jornalzinho sobre um dos temas que estávamos estudando.

Num pedaço de papel, anotamos os nomes dos três amigos com quem gostaríamos de trabalhar. Depois de recolher os pedidos, a Sra. B disse que levaria em consideração os nomes selecionados por nós e que nos daria o resultado no dia seguinte. Eu não tinha a menor dúvida de que ficaria no grupo de minha escolha. Havia apenas um punhado de pessoas socialmente aceitáveis naquela turma e Missy era uma delas.

Eu sabia que tínhamos nos escolhido, uma à outra.

No dia seguinte, fiquei aguardando a aula de história ansiosamente. O sinal tocou e Missy e eu paramos de conversar quando a Sra. B pediu a nossa atenção. Começou a ler os nomes. Ao chegar ao grupo três, o nome de Missy foi chamado.

"Então eu faço parte do grupo três", pensei. Os nomes do segundo, terceiro e quarto integrantes do grupo foram chamados. Meu nome não estava entre eles. Tinha de haver algum engano!

Foi então que eu ouvi: "Mauro, Juliette, Rachel e Karina." Eu estava no último grupo. Senti as lágrimas brotarem em meus olhos. Não dava para encarar aquelas pessoas: o garoto que mal sabia falar inglês, a garota que se escondia debaixo de saias que iam até os tornozelos e a outra que só usava roupas esquisitas.

Como eu queria estar com os meus amigos!

Lutava para conter as lágrimas quando fui falar com a Sra. B. Ao olhar para mim, ela já sabia o que me trazia ali. Estava decidida a convencê-Ia de que devia estar no grupo "bom'.

- Por que... - comecei.

Ela colocou a mão no meu ombro, suavemente:

- Eu sei o que você quer, Karina, mas seu grupo precisa de você. Preciso que os ajude a tirar uma nota razoável nesse trabalho. Só você pode ajudá-Ios.

Fiquei atordoada, impressionada. Ela havia visto algo em mim que eu não via.

- Pode ajudá-Ios? - me pediu.

Endireitei a coluna.

- Posso - respondi. Eu não podia acreditar que tinha dito aquilo, mas saiu da minha boca. Eu tinha me comprometido.

Caminhando corajosamente para onde os outros integrantes de meu grupo se encontravam, ouvi as risadas de meus amigos. Sentei-me e começamos a trabalhar. Cada um ficou com uma coluna diferente para escrever, de acordo com o seu interesse pessoal. Fizemos pesquisa. Na metade da semana, senti que estava gostando da companhia daqueles três "desajustados". Não havia motivo para fingimento: estava realmente interessada em aprender algo sobre eles.

Mauro, segundo descobri, sofria com a língua inglesa e com a falta de amigos. Juliette também se sentia só, pois as pessoas não compreendiam que sua religião só permitia que ela usasse saias e vestidos compridos. Rachel, que havia pedido para escrever a coluna sobre moda, queria ser estilista. Tinha um bocado de ideias completamente originais! Não eram desajustados, apenas pessoas de quem ninguém gostava o suficiente para tentar conhecer melhor e entender - com exceção da Sra. B. Sua perspicácia, visão e atenção tinham instigado o potencial de quatro de seus alunos.

Não me lembro da manchete do jornal nem sobre o que escrevemos, mas aprendi uma coisa naquela semana. Tive a oportunidade de ver outras pessoas sob uma luz diferente. Tive a oportunidade de enxergar em mim mesma um potencial que me inspirou nos anos que se seguiram. Aprendi que quem somos é mais importante do que o que somos ou parecemos ser.

Após o final daquele semestre, eu sempre recebia um "Oi" caloroso das pessoas de meu grupo. E sempre me sentia contente em vê-Ias.

A Sra. B nos deu um A no trabalho. Deveríamos ter lhe devolvido este A imediatamente, pois ela, sim, era digna daquela nota.

MEDALHISTA DE OURO

RICK METZGER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 172

 

Fiz uma palestra em um colégio de ensino médio na primavera de 1995. No final, o diretor me perguntou se eu poderia fazer uma visita a um aluno especial. Uma doença obrigara o garoto a ficar em casa, mas ele tinha manifestado interesse em me conhecer e o diretor sabia que aquilo significaria muito para ele. Concordei. Durante o trajeto de quatorze quilômetros até a casa dele, e descobri algumas coisas sobre Matthew. Ele tinha distrofia muscular. Quando nascera, os médicos disseram a seus pais que ele não viveria até os cinco anos e, depois, que ele não chegaria aos dez. Ele estava com treze anos e, pelo que eu estava ouvindo, era um lutador. Queria me conhecer porque eu ganhara uma medalha de ouro em levantamento de peso e sabia tudo sobre superar obstáculos e correr atrás de sonhos.

Passei mais de uma hora conversando com Matthew.

Nenhuma vez ele reclamou ou perguntou: "Por que eu?" Falava sobre vencer e correr atrás dos seus sonhos. Era óbvio que ele sabia do que estava falando. Não comentou que seus colegas de turma gozavam da sua cara porque ele era diferente. Falou apenas de suas esperanças para o futuro e de como, um dia, queria levantar peso como eu.

Quando terminamos de conversar, tirei de dentro da minha pasta a primeira medalha de ouro que ganhara por levantamento de peso e a coloquei em volta do seu pescoço.

Disse a Matthew que ele era um vencedor e que sabia mais sobre sucesso e sobre superar obstáculos do que eu jamais saberia. Ele olhou a medalha por um instante, depois a tirou e me devolveu, dizendo:

- Rick, você é um campeão. Mereceu esta medalha.

Algum dia, quando eu for para a Olimpíada e ganhar a minha medalha de ouro, vou mostrá-Ia a você.

No verão passado, recebi uma carta dos pais de Matthew dizendo que ele tinha morrido. Eles queriam me entregar uma carta que ele escrevera para mim alguns dias antes.

 

Caro Rick,

 

Minha mãe disse que eu deveria lhe mandar uma carta agradecendo pela foto legal que você me mandou. Eu também queria contar que os médicos disseram que eu não vou viver muito tempo. Está ficando muito difícil respirar e eu me canso com facilidade, mas ainda sorrio o quanto posso. Sei que nunca vou ser tão forte quanto você e sei que nunca vamos levantar peso juntos.

Um dia eu disse a você que iria à Olimpíada e ganharia uma medalha de ouro. Agora sei que nunca vou fazer isso. Mas sei que sou um campeão, e Deus também sabe. Ele sabe que eu não desisto.

Por isso, quando eu chegar no céu, Deus vai me dar uma medalha de ouro. E quando você chegar lá, eu vou mostrá-Ia a você. Obrigado por me amar.

Seu amigo, Matthew


 

O VALOR DA VERDADE

KIMBERLY KIRBERGER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 175

 

Robby Rogers... meu primeiro amor. E que cara bacana também.

Ele era amável, sincero e inteligente. Na verdade, quanto mais penso nele, mais razões encontro para tê-Io amado tanto quanto amei. Nós estávamos saindo juntos havia um ano. Como vocês sabem, no segundo grau isso é muito tempo.

Não me lembro por que não fui à festa de Nancy naquela noite de sábado, mas Robby e eu tínhamos combinado de nos ver depois. Ele passaria na minha casa por volta das dez e meia. Robby sempre chegava na hora combinada, por isso, quando ele não apareceu até as onze horas, senti que alguma coisa não estava certa.

Na manhã do domingo, ele me acordou com um telefonema.

- A gente precisa conversar. Posso ir aí?

Eu queria dizer: "Não, não pode vir aqui para me dizer que tem alguma coisa errada." Em vez disso, falei:

- Claro - e desliguei com um nó na barriga.

Eu estava certa.

- Fiquei com a Sue Roid na festa - me informou Robby - e combinei de sair com ela hoje. - Ele continuou com o habitual: - Estou tão confuso. Nunca faria nada para magoar você, Kim. Eu sempre vou amar você.

Devo ter ficado branca, porque senti o sangue se esvair do meu rosto. Aquela era a última coisa que eu esperava e minha reação me surpreendeu. Fiquei com tanta raiva que fui incapaz de completar uma frase. A mágoa era tanta que tudo, a não ser a dor no meu coração, parecia estar em câmara lenta.

- Poxa, Kim, não fique assim. A gente pode ser amigo, não pode?

Essas são as palavras mais cruéis que se pode ouvir de alguém de quem se está levando um fora. Eu o tinha amado profundamente, compartilhado cada fraqueza e cada vulnerabilidade com ele - sem falar nas quatro horas por dia que passara com Robby no último ano (não incluindo o tempo no telefone). Eu queria bater nele com força, muitas vezes, até que ele se sentisse tão mal quanto eu estava me sentindo. Em vez disso, pedi para ele ir embora. Acho que disse alguma coisa sarcástica como: "Estou ouvindo a Sue chamar você." Sentada na minha cama, chorei durante horas, tão magoada que nada era capaz de fazer aquilo parar. Tentei até comer um pote inteiro de sorvete. Escutei todas as nossas músicas favoritas inúmeras vezes, me torturando com lembranças de tempos bons e palavras carinhosas. Depois de ficar doente de tanto me sentir uma pobre-coitada, tomei uma decisão.

Eu ia me vingar.

Meu raciocínio era o seguinte: Sue Roth é - era - uma das minhas melhores amigas. Boas amigas não dão em cima do seu namorado quando você não está. Obviamente, Sue tinha que pagar.

Naquele fim de semana, comprei seis dúzias de ovos e fui até a casa de Sue com algumas amigas. No começo eu estava só dando vazão à raiva, mas aquilo foi piorando. Então, quando alguém encontrou uma janela aberta no porão, jogamos todos os ovos que tinham sobrado lá dentro. Mas essa não é a pior parte. A família Roth estava viajando por três dias!

Deitada na minha cama naquela noite, comecei a pensar sobre o que tínhamos feito. "Isso é ruim, Kim... isso é muito ruim." Logo o colégio todo soube da história. Robby e Sue estavam saindo e alguém tinha jogado ovos na casa dela. A coisa tinha sido tão ruim que os pais de Sue tiveram que contratar um profissional para se livrar do cheiro.

Quando cheguei em casa depois da escola, mamãe estava me esperando para conversar.

- Kim, o telefone não parou de tocar o dia todo. Não sei o que dizer. Por favor, você tem que me contar. Foi você?

- Não, mãe, não fui eu. - Eu me senti muito mal por mentir para minha mãe.

Ela ligou furiosa para a Sra. Roth.

- É a Ellen? Eu quero que você pare de acusar a minha filha de jogar ovos na sua casa. - Ela gritava com a mãe de Sue, sua voz ficando cada vez mais alta. - Kim nunca faria uma coisa dessas, e eu quero que você parede falar para as pessoas que foi ela! - Minha mãe estava mesmo embalada. - E tem mais, eu quero que você peça desculpas à minha filha!

Gostei de ver mamãe me defendendo, mas me senti péssima por causa da mentira. Os sentimentos estavam todos retorcidos dentro de mim, e eu sabia que tinha que dizer a verdade. Fiz sinal para mamãe desligar o telefone.

Ela desligou e se sentou. Ela sabia. Chorei dizendo o quanto estava arrependida. Depois, ela também chorou. Eu teria preferido que ela ficasse brava, mas mamãe usara toda a sua raiva contra a Sra. Roth.

Liguei para a Sra. Roth, pedi desculpas e disse que lhe daria cada centavo do dinheiro que ganhara cuidando de crianças para ajudar a pagar pelos estragos. Ela aceitou, mas pediu para eu não ir à sua casa antes de ela estar pronta para me perdoar.

Mamãe e eu ficamos acordadas até tarde naquela noite, conversando e chorando. Ela me contou que um de seus namorados tinha terminado com ela para ficar com sua irmã.

Perguntei se ela tinha jogado ovos na própria casa e ela chegou até a rir. Depois me falou como ter filhos às vezes é difícil, porque você quer brigar com todo mundo que faz o seu filho sofrer, mas não pode. Tem que se segurar e olhar enquanto seus filhos aprendem sozinhos lições difíceis.

Eu me senti muito próxima e amiga de minha mãe, disse o quanto tinha sido incrível para mim vê-Ia me defender daquele jeito e como era especial ter aquele tipo de momento com ela.

Mamãe me deu um abraço:

- Ótimo. Nós duas podemos passar a noite de sábado que vem juntas e a de domingo também. Eu disse que você estaria de castigo durante o fim de semana, não disse?

 

 

Deveríamos tomar cuidado para tirar de uma experiência

apenas a sabedoria que ela contém.

MARK TWAIN

O ENTUSIASMO DA JUVENTUDE

FRANKLIN DELANO ROOSEVELT

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 180

 

Muitas pessoas mais velhas vêem com um orgulho desmedido o mero fato de serem adultas.

 

Quando os jovens invadem o seu mundo cheios de entusiasmo e ideais, eles armam um sorriso de superioridade e os encaminham para a vida com o que consideram suas bênçãos.

 

Mas eu e você bem sabemos que o que eles chamam de bênçãos são, na verdade, um banho de água fria.

 

Eles batem nas costas dos jovens e dizem: "Você é jovem.

Aproveite o seu entusiasmo e os seus ideais enquanto pode.

Porque, quando você crescer e entrar para o mundo real, verá como eram inocentes os seus ideais."

 

E - aí é que está o problema -, ao crescer, os jovens se afastam de seus ideais.

 

Essa é uma das razões por que o mundo para onde eles entram melhora tão lentamente.


 

QUANDO DEUS CRIOU AS MÃES

ERMA BOMBECK

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 15

 

Quando o bom Senhor estava criando as mães e entrava no sexto dia de hora extra, surgiu o anjo e disse:

- Estás caprichando neste daí, hein?

E o Senhor respondeu:

- Já leste as especificações técnicas deste pedido? Ela precisa ser 100% lavável, sem ser de plástico; precisa ter 180 peças flexíveis... todas elas substituíveis; precisa ser movida a café preto e sobras de comida; tem de ter um beijo que cure qualquer mal, de uma perna quebrada a uma desilusão amorosa; além de seis pares de mãos.

O anjo balançou a cabeça lentamente e opinou:

- Seis pares de mãos? Assim não dá!

- Não são as mãos que estão me causando problemas - disse o Senhor. - São os três pares de olhos que as mães precisam ter.

- O modelo básico é assim? - indagou o anjo.

O Senhor fez que sim com a cabeça:

- Um par para ver através da porta quando ela pergunta "O que é que estão aprontando aí dentro, crianças?" quando já sabe a resposta. Outro par aqui, atrás da cabeça, para ver o que não deve mas o que precisa saber e, é claro, os dois daqui da frente, para poder olhar para o filho quando este errar e dizer "Eu compreendo e o amo" sem pronunciar uma única palavra.

- Senhor - disse o anjo, tocando a manga de sua roupa, suavemente -, precisas dormir. Amanhã...

- Não posso - reagiu o Senhor. - Estou muito próximo de criar algo muito parecido comigo. Já criei um ser que se cura quando está doente... que consegue alimentar uma família de seis com meio quilo de carne moída... e que consegue enfiar uma criança de nove anos debaixo do chuveiro.

O anjo caminhou em torno do modelo da mãe, lentamente.

- Mas é suave demais!

- Na mesma medida em que é valente - disse o Senhor, animadíssimo. - Você nem imagina o que esta mãe pode fazer ou suportar.

- Ela sabe pensar?

- Não apenas sabe pensar como, também, raciocinar e encontrar soluções conciliatórias - respondeu o Criador.

Finalmente, o anjo se curvou e passou o dedo pela face do modelo.

- Há um vazamento aqui - pronunciou. - Eu avisei que estavas tentando colocar coisas demais neste modelo.

Como Deus não pode estar em todos os lugares, Ele criou as mães.

- Mas não é um vazamento - corrigiu o Senhor. - É uma lágrima.

- E para que serve?

- Serve para a alegria, para a tristeza, o desapontamento, a dor, a solidão e o orgulho.

- O Senhor é mesmo um gênio - elogiou o anjo.

Então o Senhor mostrou-se solene:

- Mas não fui eu que a coloquei aí.


 

BEM-VINDA À HOLANDA

EMILY PERL KINGSLEY

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 19

 

Muitas vezes me pedem para contar como criamos uma criança especial, para tentar ajudar as pessoas que não têm essa experiência única a entendê-la. A comparação que sempre me ocorre é a seguinte:

Esperar um bebê é como planejar a fantástica viagem de férias com que você sempre sonhou - para a Itália. Você compra um monte de guias e faz planos maravilhosos. O Coliseu. O David de Michelangelo. As gôndolas, em Veneza. Você pode aprender frases úteis em italiano. Tudo é uma festa.

Depois de meses de expectativa, finalmente chega o dia da viagem. Malas prontas, você entra no avião e, algumas horas depois, a aeromoça vem e diz: "Bem-vinda à Holanda." "Holanda?! Como assim, Holanda?", você se espanta. "Meu voo era para a Itália. Sonhei a vida inteira em ir para a Itália."

Mas houve uma mudança no plano de voo. Aterrissaram na Holanda e este é seu destino agora.

O importante é que não te levaram a um lugar horrível, desagradável e sujo, cheio de epidemias, fome e doença. É só ~m lugar diferente.

Então você tem de sair e comprar novos guias. E aprender uma língua nova. E conhecer pessoas que nunca teria conhecido. É só um lugar diferente. O ritmo é mais lento que o da Itália; a luz, menos brilhante. Mas, depois de estar lá por algum tempo, você toma fôlego, olha em volta... e começa a notar que a Holanda tem moinhos... e a Holanda tem tulipas. A Holanda tem até Rembrandts.

Mas todo mundo que você conhece foi e voltou da Itália, contando maravilhas do tempo passado lá. Pelo resto da vida você dirá: "É, era para lá que eu deveria ter ido. Era isso que eu tinha planejado." E a dor do seu coração nunca, nunca mesmo, irá embora completamente... porque, afinal, a perda desse sonho é muito significativa.

Mas, se você passar a vida lamentando o fato de não ter ido para a Itália, talvez não possa descobrir e aproveitar o que existe de tão especial e todas as coisas adoráveis que há na Holanda.


 

MÃE POR UM SÓ DIA

ANNE JORDAN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 22

 

Sendo mãe de três lindas crianças, tenho muitas lembranças especiais para contar. Mas foi com uma criança que não era minha que vivi um momento especial pelo qual tenho muito carinho.

Recomendado pela residência para meninos onde morava, Michael veio, no último verão, para a nossa colônia de férias que reunia crianças com baixa auto-estima. Aos doze anos, já passara por maus momentos. Órfão de mãe, o pai o trouxera de um país destruído pela guerra para os Estados Unidos, para que pudesse ter "uma vida melhor". Infelizmente, fora entregue a uma tia, que o maltratara física e emocionalmente. Tornou-se um menino insubordinado e hostil, com pouca responsabilidade e acreditando que não era amado.

Na colônia, ele andava com outros garotos problemáticos e desordeiros, uma verdadeira gangue, um desafio para os supervisores. Mas nós procurávamos aceitá-Ios e amá-Ios como eram.

Entendíamos que seu comportamento era um reflexo do quanto foram maltratados. Colocávamos limites com firmeza, mas afetuosamente.

Pela quinta noite da nossa experiência de uma semana, combinamos com as crianças um acampamento sob as estrelas.

Michael disse que ia ser uma chatice e que não iria. Aceitei sua recusa, para não criar problema e mantivemos o programa com os outros.

Chegando a noite, a lua no céu, as crianças começaram a arrumar os sacos de dormir sobre um enorme deque perto do lago. Vi Michael se aproximando, sozinho, a cabeça baixa. Ele veio rapidamente em minha direção e, antes que falasse alguma coisa, eu disse: "Michael, vamos pegar seu saco de dormir e achar um bom lugar para você perto de seus amigos." "Não tenho saco de dormir", ele falou baixinho.

"Isso não é problema! Vamos abrir umas sacolas e pegar uns cobertores!", retruquei.

Imaginei ter resolvido o dilema e fui andando. Michael segurou minha blusa e me afastou do grupo.

"Arme, preciso lhe contar uma coisa." Vi a hostilidade no rosto daquele menino endurecido se desmanchar e, baixinho, ele continuou: ''Anne, tenho um problema... Eu... eu faço xixi na cama, molho o lençol todas as noites." Extremamente emocionada, coloquei o braço em torno de seu ombro e agradeci por ele ter tido confiança em mim. Disse que compreendia seu problema e perguntei como poderia ajudá-lo. Juntos, combinamos que ele poderia dormir sozinho em sua cabana, sem que os outros meninos percebessem.

Voltei com ele para a cabana e, no caminho, perguntei se não estava com medo de dormir sozinho. Michael me afirmou que isto não era nada perto das situações que já enfrentara nos seus doze anos de vida. Virei o colchão, protegi-o com um plástico e, enquanto colocávamos na cama seu último jogo limpo de lençóis, conversamos sobre as dificuldades por que passara e sobre seu desejo de que o futuro fosse diferente. Segurando sua mão, afirmei que ele tinha a força necessária para fazer de sua vida o melhor possível. O menino hostil e endurecido transformou-se numa criança doce e afetuosa.

Michael se deitou e eu o cobri, puxando o cobertor até o queixo. Acariciei seus cabelos e beijei sua testa. "Boa noite, Michael, fique sabendo que você é um garoto maravilhoso!" Ele se remexeu e suspirou fundo: "Boa noite. Sabe que, desde que minha mãe morreu, ninguém tinha feito isso comigo? Obrigado por tudo." "De nada, querido", respondi, abraçando-o. Eu chorava quando me virei para sair, levando três conjuntos de lençóis sujos. Não tornei a ver Michael depois da colônia, mas rezo por ele todos os dias, desejando que aquele momento de afeto e acolhida tenha podido contribuir para sua felicidade.


 

VOCÊ JÁ VIU DEUS?

LEONARDO BOFF - Extraído do livro Espiritualidade

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 24

 

Minha mãe era analfabeta, nunca quis aprender a ler. Certa vez eu lhe trouxe um caderno e um lápis bentos pelo Papa Paulo VI para ver se ela se animava a aprender. Minha mãe jogou longe, dizendo: "Para que eu quero aprender a ler e escrever se tenho onze filhos que fizeram universidade, quase todos doutores.

Para quê? Eles sabem por mim. Não preciso eu estudar e saber."

Mas era uma mulher de grande sabedoria existencial e profunda piedade.

Eu costumava gravar coisas que escrevia para ela escutar.

Minha mãe escutava e dizia: "Onde você aprendeu tudo isso?

Eu nunca te ensinei tais coisas!"

Ao ouvir uma das gravações em que eu falava da experiência de Deus, ela me olhou fundo e fez a pergunta: "Você já viu Deus?"

Eu respondi de pronto: "Minha mãe, a gente não vê Deus.

Deus é espírito, é invisível." Ela deu como que um suspiro, colocando a mão no peito, me olhou com infinita tristeza e disse: "Você é padre há tantos anos e nunca viu Deus?" Eu insisti: "Mãe, a gente não vê Deus." Ela retrucou: "Você não vê Deus, "mas eu O vejo todos os dias. Quando o sol se põe lá no horizonte, Deus passa com um manto fantástico, lindo. Ele vem sempre sério, e teu pai que já faleceu vem atrás, olha para mim, me dá um sorriso e segue junto com Deus. Eu vejo Ele todos os dias." Eu fiquei parado, me perguntando: "Quem é o teólogo aqui, ela ou eu? A analfabeta ou o doutor em teologia?" Temos que aprender com as pessoas que vivem tais experiências. Porque a fé é uma experiência tão global que entra pelos olhos, entra no coração, entra na fantasia, entra nas projeções. Deus é substância da sua própria substância.

Essas pessoas não crêem em Deus. Elas sabem de Deus porque O viram, porque O experimentaram.

 


 

PARA LER QUANDO ESTIVER SOZINHO

MIKE STRAVER

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 27

 

Eu tinha treze anos e minha família se mudara do norte da Flórida para o sul da Califórnia um ano antes. Eu era, como a maioria dos adolescentes, raivoso e rebelde, não dando importância ao que meus pais diziam, principalmente se tivesse alguma coisa a ver com meu comportamento.

Lutava para contestar qualquer coisa que não correspondesse à minha idéia do mundo. De uma extrema auto-suficiência, eu rejeitava qualquer manifestação púbica de amor. Na verdade, ficava irritado com a simples menção da palavra amor.

Na noite de um dia particularmente difícil, entrei no quarto como um furacão, tranquei a porta e me joguei na cama. Ali dei lado, escorreguei as mãos por baixo do travesseiro e achei um envelope. Nele se lia: "Para ler quando estiver sozinho."

Como estava sozinho, ninguém saberia se eu lera ou não.

Assim, abri e li:

 

Mike, sei que a vida está dura agora, sei que você se sente frustrado e que, apesar da nossa boa intenção, nem tudo que fazemos é certo. Mas sei principalmente que amo você demais e nada do que você faça ou diga vai mudar isso. Nunca. Estou aqui para conversar, se você precisar e, se não precisar, tudo bem. Saiba que não importa aonde você vá ou o que você faça na vida, sempre vou amá-lo e sentir orgulho de tê-lo como filho. Estou aqui por você e o amo. Isso não vai mudar nunca.

Com amor. Mamãe.

 

Esta foi a primeira de muitas cartas "para ler quando estiver sozinho". Jamais falamos sobre elas, até eu ser adulto. Hoje eu corro mundo ajudando -pessoas. Estava dando um seminário na Flórida e, no final da palestra, uma senhora veio falar comigo sobre os problemas que estava tendo com o filho.

Fomos até a praia e falei para ela do enorme amor de minha mãe e das cartas "para ler quando estiver sozinho". Semanas depois, recebi um cartão onde a senhora dizia ter escrito sua primeira carta para o rapaz.

Naquela noite, passei a mão sob meu travesseiro e me lembrei do alívio que sentia sempre que encontrava uma carta.

Nos anos atribulados de minha adolescência, as cartas eram a garantia silenciosa de que eu era amado, apesar de tudo, incondicionalmente. Essa gratuidade do amor de minha mãe me ajudou a superar as crises e revoltas da adolescência e fez vir à tona o que eu tinha de melhor. Agradeci a Deus por minha mãe saber do que eu - um adolescente raivoso - precisava. Por ela ter persistido apesar do meu silêncio, da minha aparente indiferença.

Hoje, quando os mares da vida se tornam revoltos, sei bem que sob meu travesseiro está a segurança de quanto o amor - consistente, durável, incondicional - é capaz de mudar vidas.


 

UMA DOCE LIÇÃO

MILDRED BANZO

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 29

 

Meu pai adorava abelhas. Quando uma abelha selvagem chegava zumbindo, ele parava o que estivesse fazendo para esperar a abelha fartar-se de néctar. Assim que estava satisfeita, ela levantava voo, precisa como uma flecha, em direção à sua colmeia, no bosque. Papai então partia em seu encalço. Mesmo que a perdesse de vista sabia, mais ou menos, onde ela terminaria, já que as abelhas traçam uma reta quando se encaminham para casa.

Quando papai encontrava uma árvore oca com um enxame de abelhas dentro, visitava o proprietário das terras e pedia-lhe permissão para cortar a árvore. Sempre dava ao proprietário todo o mel em troca das abelhas. Foi assim que construiu um imenso apiário que, por fim, passou a ser a maior fonte de renda de nossa família.

Uma colmeia podia morrer de fome durante o inverno se a sua provisão de mel não durasse até as plantas florescerem. Ê rotina o apicultor ajudar suas abelhas nos meses de frio, alimentando-as com um xarope feito de água e açúcar.

Durante a Primeira Guerra Mundial, nosso país passou por uma seriíssima escassez de açúcar. O governo passou a raciona-lo, além de diversos outros produtos. Isso criou uma imensa procura por mel como substituto. Devido à necessidade de fornecer mel para a população, os apicultores recebiam uma ração sobressalente de açúcar para manter suas abelhas vivas durante o inverno. Guardávamos a porção que nos cabia num barril na cozinha externa, que usávamos no verão. Nós, as crianças, sabíamos que era estritamente para a alimentação das abelhas.

Devido ao racionamento sofrido pelo país durante a Primeira Guerra Mundial, era muitas vezes difícil para as mães prepararem refeições apetitosas para suas famílias. Era especialmente difícil quando havia algum convidado.

Fomos avisados de que nossos parentes favoritos, que viviam a muitos quilômetros de distância, viriam nos visitar no dia seguinte. Ficamos muito animados! Mamãe começou a planejar o jantar que faria por ocasião da visita. Melancólica, declarou:

- Como eu gostaria de fazer um bolo! - Ela sentia imenso orgulho dos bolos que preparava. No entanto, como a pequena ração de açúcar destinada à nossa família já fora consumida, ficava impossível fazer o tal bolo.

Ê claro que nós, as crianças, queríamos o bolo tanto quanto ela! Imploramos para que pegasse o açúcar da ração das abelhas para prepará-lo. Nosso argumento era que o governo jamais saberia. Finalmente, ela cedeu. Foi lá fora, até o barril de açúcar da cozinha externa, e usou-o para fazer sua deliciosa receita de bolo amarelo. Foi preciso grande habilidade para assar o bolo perfeito num forno à lenha, mas mamãe conseguiu. Quando terminou de decorá-lo com uma cobertura especial de merengue, ficamos extremamente orgulhosos de servi-lo para as visitas.

Pouco depois chegou o dia de nossa família receber a ração mensal de açúcar. Papai foi até a mercearia comprá-lo. O vendedor colocou-o num minúsculo saquinho marrom e amarrou-o com cuidado. Quando chegou em casa, papai o colocou sobre a mesa.

Mamãe olhou brevemente para o pacotinho. Então, pegou o mesmo medidor que usara para o açúcar do bolo. Enquanto nós, crianças, a olhávamos estupefatos, ela mediu exatamente a quantidade que usara. Então, solenes, a seguimos até o barril de açúcar das abelhas, onde ela o despejou.

O que restou de açúcar no fundo do pequeno saco era pouco para uma família de sete, mas teria de ser suficiente para durar um mês. A ideia foi um banho de sobriedade para uma criança tão pequena e apaixonada por doces. Minha mãe não fez o menor discurso sobre o acontecido, a menor fanfarra. Não pregou sobre a honestidade. Para ela, aquele fora um ato natural, de acordo com a integridade com a qual meu pai e ela viveram as suas vidas.

Hoje, tenho noventa e dois anos. Há muito não sou mais aquela criancinha que olhava por cima da mesa da cozinha da mãe, na pontinha dos pés. Muitas coisas mudaram durante a minha vida. Ainda faço bolos quando tenho visitas, mas hoje uso misturas prontas porque não aguento mais ficar em pé tanto tempo. Também não preciso mais usar o fogão à lenha. E, certamente, não há a menor escassez de açúcar em nosso país.

Mas algumas coisas não mudam. E, assim, já contei a história sobre a honestidade incondicional de minha mãe inúmeras vezes para meus filhos, meus netos e até mesmo para os meus bisnetos. Mamãe era como uma daquelas abelhas que meu pai adorava seguir. Era fácil contar que sempre tomaria o caminho mais honesto nesta vida, uma linha reta, precisa como uma flecha. E foi por isso que moldou, sem alardes, a consciência de quatro gerações de uma mesma família.

 

 

 

 

O coração da mãe é a sala de aula de uma criança.

HENRY WARD BEECHER

 

 

 

- Como você divide o seu amor por quatro filhos?

- Eu não divido, eu multiplico!


 

QUANDO MAMÃE VEIO PARA O CHÁ

MARGIE M. COBURN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 33

 

Eu não tinha ideia de que ela estaria ali. Já tinha até ensaiado as desculpas para sua ausência.

Quando minha professora de economia doméstica anunciou que haveria um chá formal para mães e filhas na escola, eu tinha certeza de que minha mãe não estaria presente.

Assim, não vou me esquecer da minha surpresa quando entrei no ginásio lindamente decorado e ela se encontrava lá!

Olhei para minha mãe, sentada calmamente e sorrindo, e imaginei todas as manobras que aquela mulher extraordinária teve de fazer para participar comigo daquele chá.

Quem estaria tomando conta da vovó? Depois do derrame, ela dependia totalmente de mamãe.

Minhas três irmãs pequenas chegariam da escola antes de ela voltar. Quem as receberia e as ajudaria com os deveres?

Como conseguira chegar? Não tínhamos carro e ela não podia pagar um táxi. Teve de caminhar um bom pedaço até o ponto do ônibus, mais cinco quadras até a escola.

E ainda havia o lindo vestido vermelho com florezinhas brancas, bastante adequado para a ocasião. Ele destacava o prateado que começava a aparecer no seu cabelo escuro. Não havia dinheiro para roupas novas e eu sabia que ela fizera uma dívida na loja da nossa cooperativa para comprá-Io.

Fiquei tão orgulhosa! Servi-lhe o chá com o coração feliz e agradecido e a apresentei sem timidez ao grupo. Sentei-me à mesa com minha mãe naquele dia, exatamente como as outras meninas, e isso teve um imenso significado para mim. Seu olhar cheio de amor me dizia que ela entendera aquele sentimento.

Nunca me esqueci daquele chá. Uma das promessas que fiz para mim mesma foi de me empenhar ao máximo para estar sempre perto dos meus filhos. É uma promessa difícil de manter no mundo agitado de hoje, mas a lembrança do que se passou comigo e minha mãe, e da importância que isso teve em minha vida, serve de estímulo para qualquer esforço. Basta que eu pense no dia em que mamãe veio para o chá.


 

MAIORIDADE

RACHEL NAOMI REMEN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 35

 

Lembro-me de ter lido uma vez, num livro sobre psicologia do desenvolvimento, que somente um pai ou uma mãe podem outorgar a maioridade a um filho. Na época, não entendi realmente o sentido dessas palavras. Hoje, acho que compreendo.

Existe uma confirmação que só pode vir daqueles que nos deram a vida, que nos conhecem completamente desde que nascemos. Mesmo velhos, o poder dos pais em conceder essa confirmação não diminui. É um poder que beira o místico. Minha 'mãe era uma mulher extremamente original. Profissionalmente, era uma contestadora. Seu maior interesse eram os cuidados com bebês e ela foi uma das pioneiras a reconhecer e respeitar a sabedoria inata das mães. Naquele tempo, essa era uma ideia vista com desconfiança pelos pediatras, uma profissão tão orgulhosa de sua nova ciência e tecnologia que, no meio do século, quase setenta e cinco por cento dos bebês norte-americanos eram alimentados por mamadeira. A maneira direta e sem rodeios pela qual minha mãe se expressava fazia com que ela também fosse vista com desconfiança.

Acredito que sei o exato momento em que me senti verdadeiramente adulta. Aconteceu num lugar público, na presença de um grande número de pessoas. Todavia, foi um momento inteiramente pessoal que ninguém testemunhou.

Eu era uma das duas mulheres e vários homens convidados para falar numa conferência cujo tema era "O Poder da Imaginação", um encontro pioneiro, com um dia de duração, sobre a relação entre a saúde da mente e do corpo. Foi em 1984, quando tais ideias eram bastante novas e pouco aceitas na comunidade médica. Entre as mil pessoas da plateia, poucos eram médicos.

Nessa ocasião, minha mãe já era velha e estava bastante doente. Dois dias antes da conferência, uma amiga me perguntou se eu planejava convidá-Ia. Surpresa, respondi que não havia pensado nisso, pois mamãe não se interessava pelo assunto. Minha amiga, que é japonesa e tem uma percepção mais refinada do que a minha, respondeu:

- É claro que não, RacheI. Mas ela se interessa por você.

Refleti um pouco e me dei conta de que minha mãe nunca me havia visto falar em público. Pensei nas dificuldades para levá-Ia até o auditório e no que aconteceria se ela tivesse um de seus frequentes problemas cardíacos enquanto eu estivesse falando. Era um pensamento assustador e eu me senti tentada a esquecer a sugestão de minha amiga. Mas, por uma questão de justiça, perguntei a minha mãe se ela queria ir. Ela aceitou com entusiasmo.

Chegamos ao saguão com duas horas de antecedência. O problema cardíaco não a deixava andar longas distâncias sem descansar. Levei um bom tempo para conseguir acomodá-Ia no auditório vazio. Escolhemos uma cadeira no meio da décima fila. Quando o auditório começou a ficar cheio e eu me sentei no palco com os outros participantes, vi que ela abriu a bolsa e pegou alguns comprimidos. Senti um aperto no coração.

Quando chegou a minha vez de falar, expliquei qual era a diferença entre remediar e curar e falei sobre a nova técnica de imagens guiadas que ampliava a capacidade do ser humano de curar a si mesmo. Disse que a medicina que não reconhecia esse poder inato nas pessoas cometia um erro crucial. Essas eram ideias controvertidas na época. Para comprová-Ias, contei várias histórias colhidas na minha prática médica. Quase no final, arrisquei um olhar para minha mãe. Ela ouvia com muita atenção. Parecia estar bem. Fiquei aliviada.

Quando terminei de falar houve um completo silêncio. Eu já esperava por isso, pois na semana anterior muitos médicos de um hospital de São Francisco, ofendidos por essas mesmas ideias, retiraram-se antes do final das sessões clínicas das quais participei. Mas aquela não era uma plateia de médicos. De repente, ouvi aplausos e muitas pessoas chegaram a se levantar, entusiasmadas. Fiquei aturdida.

Somente uma mulher na décima fila permanecia sentada.

Seus braços estavam cruzados e havia um leve sorriso em seus lábios. Continuamos a olhar uma para a outra até que seus olhos se fecharam e ela fez um sinal com a cabeça duas vezes, lentamente. Jamais recebi qualquer reconhecimento igual a esse. Até hoje extraio dele uma grande força. Cinco meses depois desse dia, minha mãe estava morta.

 

 

 

A vida não precisa ser perfeita para ser maravilhosa.

ANNETTE FUNICELLO


 

BILHETES DE AMOR

ANTOINETTE KURITZ

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 39

 

Desde que meus filhos foram para a escola, eu lhes preparava o almoço e o colocava nas lancheiras. Em cada uma delas, eu punha um bilhete, muitas vezes escrito num guardanapo. Podia ser um agradecimento por um momento especial, uma palavrinha sobre algo ansiosamente esperado ou um encorajamento para um teste ou uma competição esportiva.

No primeiro grau, eles adoravam os bilhetes e comentavam sobre eles quando chegavam da escola. Quando voltei a lecionar, eles é que colocavam recadinhos nos meus lanches. Mas, quando chegou ao segundo grau, meu filho mais velho, Marc, me disse que não precisava mais de meus bilhetes diários.

Respondi que eu os escrevia, na verdade, muito mais por mim do que por ele, e que, mesmo que não os lesse, eu precisava continuar escrevendo. Assim, mantive a tradição até sua formatura.

Seis anos depois de Marc ter concluído o segundo grau e ido estudar numa escola em outro estado, ele me telefonou um dia para saber se podia passar um tempo comigo. Meu filho estava bem, se formara com louvor, fizera dois estágios no Congresso, em Washington, conseguindo uma bolsa para a Câmara dos Deputados do Estado da Califórnia. Agora, era assistente legislativo em Sacramento. Sempre ocupado, suas visitas não eram frequentes. Eu estava com muita saudade do meu filho e vibrei com a visita.

Duas semanas depois de Marc ter chegado, foi recrutado para uma campanha política. Como eu ainda preparava o almoço diariamente para o meu caçula, arrumei o de Marc também. Imaginem a minha surpresa quando recebi o telefonema de meu filho de vinte e quatro anos reclamando do almoço. "O que eu fiz de errado? Não sou mais seu filho? Você não me ama mais, mamãe?" foram algumas das perguntas que ele me fez, enquanto eu ria e perguntava qual era o problema.

"Seu bilhete, mamãe", ele respondeu. "Não achei o seu bilhete." Este ano meu filho caçula está terminando o segundo grau.

Ele também me avisou que já passou da idade de receber bilhetes. Mas, como seus irmãos, ele vai receber meus bilhetes até se formar - e em qualquer pacote de almoço que eu lhe prepare, enquanto eu estiver viva.


 

O COMPROMISSO

REVERENDO MICHAEL LINDVALL

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 41

 

Num domingo perto do Dia de Ação de Graças, Angus McDonnell, membro de minha congregação, falou-me do nascimento de seu neto, o "pequeno Angus Larry", e me pediu para oficiar a cerimônia de batismo. O conselho da igreja se mostrou relutante porque a família da criança vivia em outro estado, pois, ao batizar, assumimos o compromisso de apoiar e orientar aquela criança.

Mas a vontade de Angus prevaleceu e o batizado se deu no domingo seguinte, estando presentes os pais, Larry e Sherry, os avós, Angus e Minnie, e muitos outros familiares. Em nossa congregação há o costume de o pastor perguntar: "Quem é o responsável por esta criança?" Nessa hora, toda a família se levanta e permanece em pé durante o batismo. Então, com Angus Larry em meus braços, fiz a pergunta e todos os parentes se levantaram.

Depois da cerimônia, todos foram para casa e eu voltei à igreja para apagar as luzes. Uma mulher de meia-idade estava sentada no banco da frente. Ela parecia procurar as palavras e se mostrava hesitante, sem sustentar meu olhar. Finalmente, disse chamar-se Mildred Cory e falou sobre a beleza da cerimônia de batismo. Depois de outra grande pausa, acrescentou: "Minha filha Tina acaba de ter um bebê. Deve ser batizado, não é?" Sugeri que Tina e o marido me telefonassem para falarmos sobre o assunto. Mildred hesitou novamente e, me olhando de frente pela primeira vez, ela disse: "Tina não tem marido. Está com dezoito anos e foi crismada nesta igreja há quatro anos. Ela costumava vir para o encontro dos jovens, mas conheceu um rapaz que não estudava..." Depois veio o resto da história: "... e então ficou grávida e resolveu ter o bebê. Ela quer batizá-Io na sua igreja, mas está temerosa de vir falar com o senhor, reverendo. Ela deu ao bebê o nome de James - Jimmy." Levei o caso ao conselho da igreja. Fizeram-se algumas perguntas sobre o compromisso que Tina deveria assumir ao levar o bebê para ser batizado. Observei que, como ela e o filho viviam na cidade, nós poderíamos dar-Ihes apoio.

O problema real era a imagem que todos tínhamos na cabeça: a jovem Tina, com o pequeno Jimmy nos braços, o pai ausente, Mildred Cory sendo a única a se levantar quando eu fizesse a pergunta. Doía em todos imaginar isso. Mas o conselho aprovou o batismo, marcado para o último domingo do Advento.

A igreja estava cheia, pois era o último domingo antes do Natal.

Tina percorreu rapidamente o corredor central, tremendo ligeiramente, com seu bebê de um mês nos braços. A imagem daquela jovem mãe tão sozinha mostrava como seria dura a vida daquele par.

Comecei o ofício e então, olhando para Mildred Cory, fiz a pergunta: "Quem dá apoio a esta criança?" Fiz um sinal com a cabeça para Mildred e sorri indicando que se levantasse. Ela se levantou devagar, timidamente, olhando de um lado para o outro, e então me sorriu também.

Eu ia continuar a ler as orações, quando ouvi um movimento nos bancos.

Angus McDunnell se levantou com Minnie a seu lado.

Então um outro casal de idosos se levantou. E a professora da sexta série da escola também. Mais um jovem casal e logo, ante meus olhos incrédulos, toda a comunidade estava de pé, apoiando o pequeno Jimmy: se comprometendo com ele.

Tina chorava e Mildred Cory se segurava no banco procurando se manter firme.

A escritura daquela manhã era de João:

Considerai com que amor amou o Pai, para sermos chamados filhos de Deus... Ninguém jamais viu Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece conosco e seu amor em nós é perfeito...

No amor não há temor, pois o amor perfeito livra-se do temor.

Naquele batismo, essas antigas palavras se tornaram vivas, tomaram corpo e todos puderam sentir isso.


 

A PORTA ABERTA

ROBERT STRAND

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 45

 

Em Glasgow, na Escócia, uma jovem, como muitos adolescentes de hoje, tinha problemas em casa, revoltada com os limites impostos pelos pais. Rejeitava os princípios religiosos da família e um dia declarou: "Não quero seu Deus. Desisto, vou embora."

Saiu de casa, decidida a ser uma mulher do mundo. Mas logo viu que não era tão fácil viver sozinha e, incapaz de arrumar um trabalho, acabou por se prostituir para sobreviver. Os anos se passaram e ela continuou em sua vida irregular. Seu pai morreu, sua mãe envelheceu.

Durante esse tempo, não houve contato entre mãe e filha.

Tendo ouvido falar do paradeiro da moça, a mãe foi até a zona de prostituição da cidade, tentando encontrá-Ia. Parou em cada uma das igrejas que auxiliam carentes, pedindo apenas: "Eu poderia deixar aqui este retrato?" Era uma fotografia daquela mãe grisalha e sorridente, com uma mensagem manuscrita: "Eu ainda a amo... venha para casa!" Passaram-se mais alguns meses e nada aconteceu. Então, um dia, a jovem foi à igreja pedindo algo para comer. Sentou-se, distraída, assistindo ao ofício, quando seu olhar bateu no quadro de avisos. Ao ver o retrato, pensou: "Poderia ser minha mãe?" Não conseguiu esperar o final da cerimônia. Aproximou-se do quadro e leu a mensagem: "Eu ainda a amo... venha para casa!" Reconhecendo a mãe no retrato, ela chorou. Era bom demais para ser verdade.

Já era noite, mas, tocada por aquelas palavras, a jovem foi caminhando até sua casa. Quando chegou, o dia amanhecia.

Temerosa, aproximou-se timidamente, sem saber exatamente o que fazer. Quando bateu à porta, esta se abriu sozinha. Chegou a pensar que alguém a arrombara. Preocupada com a mãe, correu para o quarto, mas a senhora dormia. A filha a acordou, dizendo: "Sou eu, sou eu, voltei para casa!" A mãe não podia acreditar. Em prantos, abraçou-se à filha, que disse: "Fiquei tão preocupada! A porta estava aberta e pensei que alguém tinha entrado!" A mãe respondeu docemente: "Não, querida. Desde o dia em que você se foi, a porta nunca esteve fechada."

 

 

Quando você era pequeno e bastava estender a mão para tocá-lo, eu usava cobertores para protegê-lo do frio da noite. Mas agora que você cresceu e está fora de alcance, junto minhas mãos e cubro-o com minhas orações. DONA MADDUX COOPER

 


 

UM CORAÇÃO CLEMENTE

W.W. MEADE

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 47

 

Esta manhã, eu estava com pressa de chegar em casa após realizar algumas pequenas tarefas na rua. Ao dobrar à direita para entrar no meu bairro, que fica um pouco escondido por trás de arbustos, um garotinho de camiseta amarela passou como um raio na frente de meu carro. Estava de pé, equilibrado sobre os pedais da bicicleta vermelha, as pernas trabalhando como bombas hidráulicas, ignorando por completo a minha existência - ou a existência de qualquer perigo -, seguríssimo por trás da invencível imortalidade de um menino.

Ele passou, literalmente, a centímetros de meu para-choque. Pisei violentamente no freio, um reflexo físico sem nexo - uma vez que ele já se fora, há muito. Eu tremia e levei algum tempo para recuperar o fôlego. Em um terrível instante, a vida daquele menino poderia ter terminado. Seus pais teriam passado o resto da vida com uma imensa dor e a minha própria vida teria se transformado num pesadelo.

Continuei pela rua, relembrando o rosto do menino. Sob a lente de aumento de meu medo, podia visualizar, claramente, os olhos arregalados num misto de bravata e de pavor, o sorriso desdenhoso, iluminado por mais um triunfo sobre o enfadonho mundo da preocupação adulta. Ele era tão admiravelmente vigoroso, de tal forma intrépido, que o meu choque em quase tê-Io matado foi imediatamente substituído por raiva, beirando a ira.

Transtornada de fúria - com a falta de atenção dele, não com a minha -, fui para casa. A agitação causada por quase ter atropelado aquele menino me perturbou pelo resto do dia.

Então, no crepúsculo, lembrei-me de Mikey.

Quando era pequena, Mike Roberts era meu melhor amigo. Meu pai era médico numa cidadezinha ao longo do rio Ohio e meus pais eram muito próximos dos de Mike. Na realidade, a casa deles ficava a um terreno baldio de distância da clínica de papai.

Mikey, como o chamávamos, era aventureiro e audacioso.

Sua mãe, Judy, era muito afável conosco, as crianças, e fazia os melhores biscoitos de manteiga de amendoim do universo.

Jamais trancavam as portas e eu tinha toda a liberdade naquela casa.

Numa sexta-feira, minha mãe planejava ir a Cincinnati fazer compras e disse que eu deveria passar o dia na casa dos Roberts. Judy estava à minha espera. Não era para eu me empanturrar de biscoitos ou andar de bicicleta na rua.

Quando ela saiu naquela manhã, parti de bicicleta para a casa dos Roberts. Estava a uns cinquenta metros da curva que levava à rua de Mikey quando ouvi um barulho que, às vezes, ainda ouço em meus sonhos. Era o feroz guincho de pneus quando alguém pisa no freio com tudo. O som me pareceu durar uma vida, embora, em retrospecto, tenha certeza de que se calou rapidamente. Seguiu-se então o barulho estridente de metal sendo esmagado. Como um relâmpago, parti em minha bicicleta e dobrei a esquina à toda.

Havia um caminhão quase emborcado na rua. Um pouco à frente do para-lama via-se a Schwinn vermelha de Mikey de tal forma retorci da, que parecia a metade de uma bicicleta, os dois pneus agora achatados, um contra o outro.

Mikey estava deitado na grama com um brutamontes curvado sobre ele. Saltei da bicicleta, deixei-a cair e corri para o local onde o meu amigo se encontrava, silencioso e imóvel sobre um tapete de folhas. No mesmo instante, a porta da frente da casa dele se abriu e sua mãe saiu. Acho que nunca vi alguém correr tão rápido. Ao mesmo tempo surgiu uma maca de dentro da clínica de meu pai, seguida de papai e de um ajudante.

Uma multidão se formou, imediatamente. Judy ajoelhou-se ao lado da cabeça de Mikey. Papai disse a Judy que não mexesse no filho e se curvou para examiná-Io. O motorista do caminhão deixou-se cair sentado, pesadamente, a alguns metros dali. Devia pesar mais de noventa quilos.

Tinha ombros largos e arredondados e um pescoço grosso com rugas profundas que luziam com gotas de suor. Usava um macacão azul e uma camisa quadriculada de vermelho.

Ficou sentado no gramado como um touro atordoado. A cabeça repousava nos joelhos dobrados e os ombros tremiam, embora eu não achasse que estivesse chorando.

Cravei os olhos naquele homem, tentando fazê-lo sentir a quão fula eu estava. Aposto que não estava prestando atenção, pensei. Uma falha bastante comum entre os adultos que eu conhecia. Muitas vezes me davam a impressão de desatenção e este daqui havia machucado o meu amigo. Eu sentia vontade de machucá-Io de volta de alguma forma indizível.

Dali a alguns minutos, Mikey voltou a si e desatou a chorar.

Meu pai o imobilizou numa padiola e colocou-o sobre a maca. Judy pegou a mão de Mikey e todos avançaram para a entrada de emergência da clínica. Fui deixada a sós com o motorista de caminhão, que agora se encontrava sentado com a cabeça baixa sobre os braços cruzados. Seu corpo ainda tremia, como se estivesse com calafrios.

Ficamos ali sentados em silêncio durante o que me pareceu ser uma eternidade. Então Judy saiu pela entrada principal da clínica e caminhou em nossa direção. Relatou que Mikey ficaria bem. Só machucara o braço. Poderia ter sido muito pior.

Achei que ela, certamente, acertaria um tapa na cara do caminhoneiro ou que, pelo menos, falaria com ele de maneira severa. Mas o que ela fez, de fato, me deixou perplexa. Pediu-lhe que a acompanhasse até a sua casa.

- E você também - disse, dirigindo-se a mim.

Perguntou ao motorista seu nome e disse-lhe que se acomodasse diante da lareira, que ia buscar um café. Ele ergueu a mão dispensando a oferta, mas ela trouxe o café ainda assim além de leite e de biscoitos para mim. Stan, o motorista, não conseguia comer ou beber nada. Permaneceu sentado na poltrona azul, preenchendo-a por completo. De vez em quando começava a tremer e Judy passava o braço por cima de seu ombro e lhe dizia, com aquela voz maravilhosamente suave:

- Você não teve culpa. Não estava em alta velocidade.

Mikey se arrisca estupidamente e eu sinto muito quanto a isso.

Só fico grata por ele não ter se ferido gravemente. Eu não o culpo. E você também não deveria se culpar.

Escutei o que ela dizia, incrédula. Como podia ela dizer aquelas coisas para um homem que quase matara o seu filho, o meu amigo? O que poderia haver de errado com ela? Dali a pouco, ela conseguiu acalmar o motorista um pouco - pelo menos foi o que achei - e ele se levantou para ir embora.

Ao chegar à porta, virou-se para ela e disse:

- Eu também tenho um filho. Imagino o que deve ter lhe custado me ajudar.

Então, só para acrescentar mais um assombro ao dia, Judy ficou na pontinha dos pés e beijou-lhe a face.

Eu jamais conseguira compreender como Judy fora capaz de oferecer alívio e consolo para um homem que não havia matado o seu filho por muito pouco... até hoje, quando fiz a curva para entrar naquele bairro tão familiar e passar a centímetros daquilo que teria sido um ato terrível e irreversível.

Ainda tentando me livrar do pavor que ocupara a minha mente o dia todo, pensei na mãe de Mikey e naquele dia de outono, há tanto tempo. E muito embora não houvesse ninguém ali para me consolar, para me dizer que não havia sido minha culpa, que coisas ruins acontecem por mais cuidado que se tenha, as recordações daquele dia transpuseram o tempo para me ajudar.

A empatia daquela mãe, assim como todas as dádivas concedidas por bondade, jamais deixou o mundo e pôde ser convocada para consolar e curar. E assim continuará a ser... quem sabe, para sempre.


 

O DIA EM QUE TUDO DEU ERRADO

JUDITH TOWSE-ROBERTS

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 53

 

Toda vez que, como mãe, eu preciso de ajuda, me lembro de minha própria mãe e de minha avó, mulheres que plantaram sementes de sabedoria na minha alma.

Num dia daqueles, cheguei em casa e encontrei um insolente segundo aviso de uma conta de gás que não fora paga e meus três filhos quase a nocaute.

Tommy, de onze anos, reclamava de um corte de cabelo malfeito. Teve de aguentar os meninos o chamando de "carequinha”, ele me contou, escondendo a cabeça com as duas mãos.

Lisa estava desolada: apesar de ter estudado tanto para o teste final da segunda série, errara duas palavras.

Jenni, no primeiro ano, fora traída por sua risada nervosa na hora da leitura e tropeçara numa frase.

Olhei aquelas três carinhas desconsoladas com a maior ternura e a imagem de minha avó apareceu sorrindo em minha cabeça:

"Muito bem, queridos, sabem que dia é hoje? É 'um dia em que deu tudo errado'. Vamos festejar!" Eles me olharam, surpresos e curiosos. Continuei: "Minha avó sempre dizia que aprendemos mais com nossos erros do que com nossos sucessos. Ela falava que quanto mais uma pedra se desgasta pela ação do tempo, mais longe ela vai ricochetear. Vamos ao McDonald's para nossa primeira 'festa do dia em que deu tudo errado'." Essa foi a primeira de muitas outras festas por coisas que deixaram de dar certo. Procurávamos o que podíamos comemorar em meio a tragédias, em vez de nos angustiarmos pelo que tínhamos sofrido.

Espero ter plantado nas almas de meus filhos as sementes reunidas pela sabedoria das mulheres que me antecederam. E que essas sementes se espalhem nos seus próprios jardins um dia.

 

 

Quando uma falha ocorre, há apenas atraso, mas não derrota.

É um desvio temporário, mas não um beco sem saída.

WILLIAM ARTHUR WARD

 


 

A MADRASTA

JENNIFER GRAHAM

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 55

 

Desde nosso divórcio amigável há alguns anos, Eric e eu ficamos bons amigos. Entramos em acordo quanto às regras de educação e às visitas ao nosso filho Charley, que se beneficiava desse nosso equilíbrio. Ele parecia bem ajustado e feliz.

Assim, quando conheci a noiva de Eric, que, afinal, ia se tornar a madrasta de meu filho, fiquei um pouco nervosa. Não havia dúvida de que Bonny teria influência sobre a vida de Charley. O que me desagradou na época foi a influência que ela teria na minha vida.

No nosso primeiro encontro fiquei impressionada em como éramos diferentes. Suas roupas tinham um ar de "vestida para o sucesso", enquanto eu fazia o gênero "desinteresse amarrotado". Ela era atraente, serena e segura, enquanto eu era desalinhada, nervosa e tagarela. Eu me sentia desconfortável e desconfiada, prestando atenção em todos os seus maneirismos e inflexões, avaliando-a como futura madrasta de Charley. Meu pensamento basicamente era: “O que ela vai fazer com o meu bebê?”  

Até então eu tinha várias fantasias sobre a pessoa com quem meu “ex” se casaria um dia. Uma delas

Era que ela seria uma bruxa malvada, uma megera furiosa de quem meu filho fugiria gritando. Ele correria pra mim naturalmente, sua mãe de verdade, dona de infinita sabedoria e paciência, como só uma mãe pode ter. Havia outra hipótese assustadora: a madrasta seria tão legal que um dia eu ouviria meu filho me anunciando: “Não vou para casa hoje, mamãe. Bonny tem um camarote para assistir ao campeonato de futebol.”

De qualquer forma, havia uma pessoa que estava para se tornar a outra mãe do meu filho e tudo que eu podia fazer era observar e esperar.

Com o tempo me tornei menos desconfiada e mais natural em relação à Bonny. Ela ficou menos profissional e mais familiar em relação a mim. Nós nos entendemos entre a rotina de horários de pegar e levar Charley, estar presentes a reuniões de pais e assistir a jogos de futebol.

Então, uma noite, meu novo marido e eu convidamos Bonny e Eric para um café depois de uma reunião de pais. Charley adorava nos ver juntos e estava feliz. Durante a noite, tensões e pretensões se derreteram. Bonny e eu baixamos nossas defesas e falamos mais francamente. Em vez de “ex- mulher” e “madrasta”, éramos agora apenas amigas.

Alguns meses depois, nós quatro nos reunimos para falar da formatura de Charley. Em vez de trazer seus esquemas, listas e dados – como se apresentasse um projeto ante um comitê-, Bonny confessou vulnerabilidade. Falou de suas inseguranças e ansiedade em lidar com um adolescente como o Charley. Estava exigindo de mais ou pedindo de menos? Estava pressionando-o ou mimando-o?

Meu coração se abriu pra ela. Afinal, seus pensamentos e temores eram iguais aos meus. Ela estava pensando, sentindo e se comportando como mãe – o que ela se tornara.

Assim, a segunda mãe de Chaley nem é bruxa má, que magoaria meu filho, nem a fada madrinha, que o roubaria de mim. Ela é uma mulher que o ama, se preocupa com ele, lutaria por ele e o protegeria do mal.

Em vez de me preocupar com a aparência de Bonny, passei a ser agradecida por sua presença na vida de Charley e na minha. A visão que ela tem das coisas, suas ideias e até suas listas ajudaram a criar meu filho.

Eu estava errada em querer manter o Charley grudado em mim como um brinquedo. Eu não queria dividir. Talvez tenha sido a primeira a amá-lo, mas isso não significa exclusividade. Descobri como é importante que meu filho seja cercado de afeto. Agora há mais uma mulher no mundo cuidando dele de forma especial. E, por isso, com alegria, divido o título de mãe.


 

OS SETENTA E CINCO ANOS DE MAMÃE

ALICE COLLINS apresentada por Geraldine Doyle

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 58

 

Ela secretamente deseja um balão de oxigênio como presente. Através dos anos, ela gritou, falou e rezou "Jesus, Maria, José, me deem paciência” 1.245.187 vezes.

Suas mãos penduraram fraldas em varais de roupa, esterilizaram mamadeiras, carregaram bebês, passaram roupinhas e orgulhosamente empurraram carrinhos.

Ela descascou mais batatas do que seis soldados em serviço.

Seu cabelo passou por várias fases: permanente, tintura com cápsulas colorantes, coque, outro permanente, tinta prateada.

Recebia visitas na “sala”, guardava as compras na “despensa”, o sorvete na "geladeira” e terça-feira era dia de usar a "máquina de lavar".

Ela se graduou em cuidados com crianças através de sarampo, catapora, cachumba, pneumonia, pólio, tuberculose, febres, cortes, gripes, braços quebrados e corações partidos.

Volta e meia seu armário abrigava vestidos, chapéus enfeitados, luvas brancas, saias curtas e longas, vestidos vaporosos, tecidos de forros, roupas de domingo e brinquedos de Natal encomendados pelos catálogos da Sears.

Seu coração conheceu o êxtase do amor por um homem, a alegria dos filhos, o amargor de seus erros, o calor dos amigos, a celebração dos casamentos, a bênção de netos e bisnetos.

Quem pode contar quantas escadas esfregou, os jantares que preparou, quantos presentes embrulhou, as lições que tomou, as histórias que leu para as crianças dormirem, quantas desculpas ouviu e quantas orações elevou a Deus?

Seus braços ninaram gerações de bebês. Suas mãos prepararam incontáveis pratos "favoritos". Seus joelhos se dobraram para rezar, muitas e muitas vezes, por aqueles que amava. Beijou muitos machucados que doíam e suas costas se curvaram para dar banho em cowboys sujos, catou muita roupa espalhada de adolescente, colheu muitas flores do jardim e envelheceu.

Passou pela vida com risos e lágrimas, vendo o pôr-do-sol de ontem se tornar o amanhecer de esperança e promessa. Por causa dela e do marido, a vida de família e amor continuou por gerações.

Quando uma mãe faz setenta e cinco anos, abençoados são aqueles que a rodeiam com seu amor.


 

JANTAR DE FAMÍLIA

SHARI COHEN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 61

 

Olhei para meus filhos gêmeos adolescentes e tive vontade de chorar. Ele de calças bufantes, cabelo cor de laranja e brincos.

Ela com uma argola no nariz, tatuagem temporária e unhas pintadas das cores mais estranhas.

Era Pessah e íamos a um jantar de família. O que as pessoas diriam? Já podia imaginar tios e tias murmurando comentários, olhando e meneando as cabeças em desaprovação.

Eu podia ter iniciado uma discussão ali mesmo, na porta.

Poderia ter ameaçado, ridicularizado, me recusado a sair. Mas para quê? Não queria causar problemas nem usar palavras agressivas naquele dia.

Teria sido mais fácil se ainda tivessem nove anos. "Voltem para seus quartos e se vistam adequadamente", eu diria. Mas tinham dezesseis anos e, para eles, suas roupas eram perfeitamente adequadas.

E lá fomos nós. Eu estava pronta para os olhares, mas eles não vieram. Estava pronta para os comentários, mas não foram feitos. Meus filhos se sentaram (a princípio meio desconfortáveis) à mesa de vinte lugares, bem ao lado de seus primos impecavelmente arrumados.

Participaram das orações e dos cantos. Meu filho ajudou os primos mais novos nas leituras. Minha filha ajudou a trocar os pratos na hora da sobremesa.

Eles riram, brincaram e ajudaram a servir o café para os mais velhos.

Percebi, enquanto constatava como eram bonitos e simpáticos, que não devia me importar com o que os outros pensassem.

Para mim, eles eram o máximo. Estavam respeitando nossas tradições com entusiasmo e se relacionavam com a família de forma amorosa. Isso vinha naturalmente - de seus corações.

Sentada em frente a eles, eu os observava. Soube naquele momento que os cabelos, as roupas e as tatuagens eram só afirmação de adolescente. Isso mudaria com o tempo. Mas sua participação nas orações da nossa festa e a união de nossa família permaneceriam para sempre nos seus corações. Mesmo quando fossem mais velhos, isso nunca iria mudar.

Logo a celebração do Pessah terminaria. A música muito alta, os amigos e o grande tumulto voltariam à nossa vida. Eu gostaria que essa noite especial não terminasse. Foram momentos preciosos que só as mães podem compreender. Acho que não importa a idade dos filhos. Às vezes é apenas um sorriso rápido e engraçado ou um pequeno gesto que faz cintilar em nós um sentimento avassalador de amor absoluto.

Observando meus filhos, senti que estavam alegres e em paz. Tive vontade de abraçá-los e dizer como os achava incríveis.

Mas não fiz isso. Queria beliscar suas bochechas como fazia quando tinham nove anos e dizer o quanto os achava bonitos. Mas também não fiz isso. Fiquei no meu lugar, cantei, comi e conversei com os outros.

Mais tarde, em casa, eu lhes diria. Sozinha com eles, diria o que representara terem ido à festa. Como eram sensacionais e como estava orgulhosa de ser sua mãe.

Mais tarde, sozinha com eles, eu diria o quanto os amo. E foi isso que fiz.


 

SABEDORIA DE SALOMÃO

LIVRO DOS REIS

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 64

 

Certo dia, duas prostitutas apresentaram-se diante do rei Salomão e uma delas disse:

- Ó rei Salomão! Eu e esta mulher moramos na mesma casa.

Eu dei à luz um menino e ela estava lá comigo. Dois dias depois do nascimento do meu filho, ela também deu à luz um menino. Somente nós duas estávamos na casa; não havia mais ninguém lá. Uma noite ela rolou sem querer sobre seu filho e o sufocou. Então levantou-se durante a noite, enquanto eu dormia, pegou o meu filho e o colocou na cama dela. Depois colocou o menino morto nos meus braços. No outro dia de manhã, quando eu me levantei para dar de mamar ao meu filho, vi que estava morto. Porém, quando reparei bem, percebi que não era o meu filho.

Mas a outra mulher disse:

- Não é verdade. Pelo contrário, meu filho é o que está vivo, e o seu é o que está morto!

E a primeira mulher respondeu:

- Não é, não! A criança morta é a sua, e a viva é a minha!

E foi assim que discutiram na frente do rei.

Então o rei Salomão disse:

- Cada uma de vocês diz que a criança viva é a sua, e que a morta é da outra.

Então mandou buscar uma espada e, quando a trouxeram, disse:

- Cortem a criança viva pelo meio e deem a metade para cada uma destas mulheres.

A verdadeira mãe do menino, com o coração cheio de amor pelo filho, disse:

- Por favor, Senhor, não mate o meu filho! Entregue-o a esta mulher!

Mas a outra disse:

- Podem cortá-Io em dois pedaços! Assim ele não será nem meu nem seu.

Aí Salomão disse:

- Não matem a criança! Entreguem o menino à primeira mulher porque ela é a mãe dele.

Todo o povo de Israel soube dessa decisão do rei Salomão, e aí todos sentiram um grande respeito por ele, pois viram que Deus lhe tinha dado sabedoria para julgar com justiça.


 

MOVENDO MONTANHAS

JIM STOVALL Bits Pieces

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 66

 

Havia nos Andes duas tribos em guerra. Uma vivia na parte baixa; a outra, na parte alta das montanhas.

Um dia, a parte baixa foi invadida pelos povos do alto, que, além de saquearem os inimigos, raptaram um bebê e o levaram para as montanhas.

Os povos da parte baixa não conheciam os caminhos usados pelos povos da montanha. Não sabiam como chegar ao alto, como chegar aos inimigos ou rastrear seus passos pelos terrenos escarpados.

Mesmo assim, enviaram seus melhores guerreiros para subir a montanha e trazer a criança de volta.

Os homens tentaram diferentes métodos de escalada.

Primeiro um caminho, depois outro. Após vários dias de esforços, não tinham subido nem quinhentos metros.

Sentindo-se impotentes e sem esperança, os homens da parte baixa consideraram a causa perdida e se prepararam para voltar para sua cidade.

Enquanto arrumavam o equipamento para a descida, viram a mãe do bebê andando na direção deles. Perceberam que ela estava descendo a montanha que eles não tinham conseguido subir.

E então descobriram que o bebê estava amarrado às costas da mulher. Como era possível?

Um dos homens a saudou, dizendo: "Nós não tivemos êxito em subir a montanha. Como você chegou ao alto se nós, os homens mais fortes e capazes da cidade, não conseguimos?" Ela encolheu os ombros e respondeu: "É que não era o filho de vocês que estava lá”.


 

O DIA EM QUE EU ESTAVA TÃO OCUPADA

CINDY LADAGE

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 68

 

"Mamãe, veja!", gritou minha filha de sete anos, DarIa, apontando para um filhote de falcão planando no ar.

"Hum, hum", murmurei, enquanto dirigia, pensando no horário apertado daquele dia.

Seu rostinho mostrava decepção.

"O que foi, querida?", perguntei, completamente absorta em meus pensamentos.

"Nada", respondeu DarIa. O momento se fora. Perto de casa, diminuí a velocidade para tentar ver o coelhinho que toda noite aparecia vindo de trás das árvores, mas ele não estava lá.

"Esta noite ele está muito ocupado", eu disse.

Em casa, as tarefas me esperavam: jantar, banho, telefonemas, arrumações. Até que chamei DarIa para dormir. Ela subiu as escadas correndo. Cansada, beijei seu rosto, rezamos e a coloquei na cama.

"Mamãe, esqueci de lhe dar uma coisa!", ela disse.

"Deixa para dar amanhã", respondi, impaciente.

Mas ela balançou a cabeça e retrucou: "Você não vai ter tempo amanhã!" "Vou sim!", respondi, na defensiva.

Às vezes, por mais que tentasse, o tempo me escorregava entre os dedos como areia numa ampulheta. Nunca era suficiente.

Nem para minha filha, nem para meu marido, nem para mim.

Ela ainda não desistira. Franziu o narizinho pintado de sardas numa careta e jogou o cabelo castanho para trás.

"Não vai não! Vai ser como hoje, quando eu falei para você olhar o falcão. Você nem prestou atenção!" Eu estava muito cansada para discutir e ela chegara bem perto da verdade.

"Boa noite", fechei a porta do quarto dela com força.

Mais tarde, me lembrando de seu olhar azul-acinzentado, pensei que daqui a pouco ela cresceria e iria embora.

Meu marido perguntou por que eu estava tão abatida e lhe contei.

"Talvez ela ainda esteja acordada. Por que você não vai lá?", ele falou, exercendo seu papel de pai.

Segui seu conselho, preferindo que a ideia tivesse sido minha.

Abri a porta e a luz vinda da janela iluminava a cama. Nas mãos de DarIa, um papel amassado. Devagar, abri sua mão para saber a causa de nosso desentendimento.

Fiquei com os olhos cheios d'água. Ela rasgara em pedacinhos um grande coração vermelho com um poema intitulado "Por que Amo Minha Mãe!".

Catei os pedacinhos, montei o quebra-cabeça e li:

 

Por que Amo Minha Mãe!

Mesmo tendo tanta coisa pra fazer e trabalhando tanto, você sempre encontra tempo pra brincar.

Amo você, mamãe,

Porque sou a parte mais importante do seu dia tão ocupado!

 

As palavras foram como uma flecha direta no meu peito. Com sete anos, minha filha tinha uma sabedoria extraordinária.

Dez minutos depois, levei até seu quarto uma bandeja com duas xícaras de chocolate quente e dois sanduíches com seu recheio favorito. Quando toquei de leve no seu rosto, senti meu coração transbordar de amor.

Ela acordou piscando com seus lindos cílios e olhou para a bandeja.

"Para que isto?", perguntou, confusa com a invasão noturna.

"É para você, que é a parte mais importante do meu dia tão ocupado.

Ela sorriu e, sonolenta, bebeu a metade do seu chocolate.

Então voltou a dormir. Fiquei ali um longo tempo, acariciando o seu cabelo, dizendo o quanto a amava e como achava lindo que a minha filhinha de sete anos pudesse me ensinar coisas tão fundamentais.

O DIA EM QUE SOLTAMOS PIPAS

FRANCES FOWLER apresentada por Ruth Rogness

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 73

 

"Linha!", gritou meu irmão. "Precisamos de mais linha!' Era sábado, como sempre um dia ocupado, pois "Trabalharás durante seis dias e farás todos os trabalhos" era levado a sério então. Do lado de fora, papai e o vizinho, o senhor Patrick, também cumpriam suas tarefas.

Mamãe e a senhora Patrick faziam a limpeza da primavera.

O vento tornava aquele dia de março ideal para arrumações de armário. As roupas de lã já balançavam no varal do quintal.

De alguma forma, os meninos tinham conseguido ir para o morro atrás da casa com suas pipas. Agora, mesmo com o risco de deixar meu irmão encurralado e obrigado a bater tapetes, eles o mandaram pegar mais linha. Aparentemente não havia limites para a altura que as pipas poderiam alcançar.

Mamãe olhou para a sala, a mobília desarrumada esperando uma limpeza espartana. Mas seus olhos se dirigiram à janela: "Venham, meninas! Vamos levar linha para os garotos e vê-los soltar as pipas!" No caminho, encontramos a senhora Patrick rindo com um ar de culpa, as filhas ao lado.

Nunca houve um dia tão bom para soltar pipas. Deus não faz dois dias iguais no mesmo século. Pusemos toda a linha extra nas pipas dos meninos e elas continuavam a subir. Mal podíamos distinguir os pontos cor de laranja no céu. De vez em quando, puxávamos a linha devagar, fazendo-as mergulhar, apenas para ter a alegria de vê-Ias subir de novo. Que emoção correr com elas, para a direita, para a esquerda, percebendo que nossos pequenos movimentos em direção ao chão refletiam-se minutos depois na majestosa dança das pipas no céu! Escrevemos desejos em pedaços de papel e os encaixamos na linha. De forma lenta e irresistível, eles subiram até alcançar as pipas. Com certeza seriam desejos realizados.

Até nossos pais largaram enxadas e martelos e se juntaram a nós. Nossas mães também brincaram, rindo como estudantes.

Seus penteados se desfizeram e os cachos caíram sobre seus rostos, seus aventais riscadinhos batendo em suas pernas.

Misturada à nossa alegria havia alguma coisa que causava admiração: os adultos estavam brincando conosco! Olhei para mamãe e a achei realmente bonita. E ela já tinha mais de quarenta anos! Não sentimos o tempo passar no alto da montanha. Não existia o tempo, apenas a brisa dourada. Estávamos além de nossos corpos. Os pais esqueceram seus deveres e brincaram sem qualquer vergonha. As crianças esqueceram disputas e implicâncias. Talvez seja assim o reino do céu, pensei, confusa.

A tarde caía e nós, bêbados de sol e ar, voltamos cambaleantes e sonolentos para casa. Acho que fizemos um lanche.

Acho que foi feita uma limpeza superficial, mas a casa, no domingo, até que estava arrumada.

O estranho é que nós nunca mencionamos este dia depois.

Eu me sentia um pouco envergonhada. Com certeza, a experiência tinha sido mais profunda para mim do que para os outros, e tranquei a lembrança lá no fundo, onde guardamos "as coisas que não podem ser e mesmo assim são".

Passaram-se os anos e um dia eu estava ocupada na cozinha enquanto minha filha de três anos insistia em "ir ao parque ver os patos".

"Não posso!", eu disse. "Tenho muitas coisas para fazer e, quando terminar, vou estar cansada para ir tão longe." Minha mãe, que nos visitava naquele momento, parou um instante de descascar as ervilhas e disse: "Está uma manhã linda, quente, mas com uma brisa que me faz lembrar aquele dia em que soltamos pipas." Parei entre o fogão e a pia. A porta trancada se abriu e trouxe um jorro de lembranças. Tirei meu avental e disse à minha filha: "Vamos. Vovó tem razão. O dia está muito bonito para se desperdiçar."

Passou-se uma década. Estávamos no pós-guerra. Durante toda a noite ouvimos o filho mais jovem do senhor Patrick contar suas experiências de prisioneiro num campo de concentração. Depois de falar bastante, ficou em silêncio. Estaria pensando nas duras situações que enfrentou?

De repente, com um sorriso nos lábios, ele disse: "Ei! Vocês lembram... não, claro que não. Não deve ter deixado em vocês a mesma impressão que deixou em mim." Tive até medo de perguntar: "Lembrar o quê?" "No campo de prisioneiros, naquela situação tão terrível, eu me lembrava sempre daquele dia. Vocês lembram o dia em que soltamos pipas?"

Chegou o inverno e eu tinha a espinhosa missão de visitar a senhora Patrick, que ficara viúva. Era difícil. Não podia imaginá-Ia enfrentando a vida sozinha.

Conversamos um pouco sobre as famílias e sobre as mudanças na cidade. Então, ela ficou em silêncio, olhando para o colo. Limpei a garganta, me preparando para falar sobre sua perda e vê-Ia chorar.

Quando levantou o rosto, ela sorria: "Eu estava aqui sentada, pensando. Henry se divertiu tanto naquele dia. Frances, você se lembra do dia em que soltamos pipas?"

 

 

 

Este é o meu lugar favorito. Dentro do seu abraço.

 


 

A BONECA QUEBRADA

DAN CLARCK

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 77

 

Eis como uma amiga me contou a história passada com sua filha.

Preocupada com sua demora em chegar da escola, eu estava aborrecida quando ela finalmente apareceu. Com a voz zangada, pedi que explicasse a razão do atraso.

Ela disse: "Mamãe, eu estava vindo a pé com Julie quando, no meio do caminho, ela deixou cair a boneca, que se partiu em mil pedaços." "Ah, meu bem", respondi, "você se atrasou porque foi ajudar Julie a tentar colar os pedaços da boneca." Com sua vozinha inocente, minha filha disse: "Não, mamãe, eu não sabia como consertar a boneca. Só fiquei lá para ajudar Julie a chorar."


 

ALÉM DO CONTROLE

COLLEEN DERRICK HORNING

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 78

 

Quando tocaram a campainha naquela tarde, abri a porta meio entorpecida. Era a pior hora para aparecer alguém! Um homem de rosto simpático se apresentou: viera consertar o sistema de alarme.

No quinto mês de gravidez, eu estava com os nervos à flor da pele, esperando o telefone tocar. Minha paz de espírito poderia vir da notícia que aguardávamos.

Durante um ano e meio nós tínhamos tentado ter um bebê, chegando a fazer testes de fertilidade, sem um resultado conclusivo. Finalmente fiquei grávida.

O primeiro trimestre transcorreu normalmente, a não ser pelos enjoos matinais, que eu sabia serem temporários. Esperava ansiosa pelas consultas médicas, para saber cada vez mais sobre nosso filho. Então quando o médico perguntou se eu queria fazer um exame de sangue que detectaria algum eventual problema, concordamos imediatamente. Chegando os resultados, o médico me telefonou e, com um tom profissional, embora preocupado, disse que havia sugestão de síndrome de Down.

Para certificar-se, agendou um ultrassom e uma amniocentese.

Embora apreensivos, meu marido e eu nos emocionamos, pois pela primeira vez pudemos ver o bebê se mexer. Tudo se tornou real de repente: íamos mesmo ter um bebê, um menino!

Não poderia haver nada de terrível com ele, não é?

Foi duro saber que os resultados demorariam duas semanas e que este período seria suficiente para pôr termo à gravidez de maneira segura. Mas, qualquer que fosse o resultado, para nós esta não parecia uma opção.

Não imaginava que duas semanas pudessem parecer uma eternidade. Eu tentava me distrair, pensar em outras coisas, mas as palavras "fora dos padrões de normalidade" ficavam se repetindo na minha cabeça. Rob ia para o trabalho e eu me sentia desamparada em casa.

Finalmente chegou o dia de saber o resultado. Nunca esquecerei meu nervosismo, em casa, sozinha, esperando o telefone tocar. Mas ele não tocava e lá pelo meio-dia não aguentei mais.

Liguei para o médico, mas a enfermeira disse não ter ainda a resposta. Foi neste dia que o técnico veio consertar o alarme.

Quando a campainha tocou, eu estava a ponto de explodir.

Como um autômato, deixei o técnico entrar e mostrei a ele o sistema de alarme, pensando: "Isso vai custar uma fortuna, aconteceu na pior hora."

Fui ensinada a acreditar que "Deus sabe a hora certa”, mas essa fé dava sinais de estar abalada. Umas duas horas depois, a enfermeira ligou. Respirei fundo ao ouvir: "Temos uma notícia boa e uma ruim."

A boa era que nosso filho não tinha síndrome de Down. A ruim era que se apresentava um problema nos cromossomos. Se Rob e eu também tivéssemos o problema, nosso filho nasceria bem. Mas, caso contrário, significava que faltava alguma coisa na composição dos genes do bebê.

“Alguma coisa faltando?" Tentei não gritar. "Como assim?

Isso quer dizer o quê?" "Desculpe, senhora Horning, não se pode dizer o que há de errado com o bebê até ele nascer. Agora o melhor a fazer é a senhora vir aqui imediatamente com seu marido para um exame de sangue.

"Imediatamente? Podemos ficar sabendo hoje?" "Podemos fazer o exame hoje e ter o resultado em cinco dias." "Cinco dias?"

Foi quando perdi o controle. Não me lembro de ter chorado e gritado tanto em meus trinta e quatro anos de vida. Parecia que eu tinha levado um soco no estômago e que estava tomando fôlego para receber outro. Lembro que liguei para o trabalho de Rob, ainda histérica.

"Colleen, querida, ouça. Peça ajuda à vizinha. Vou sair logo que puder, mas não quero que você fique sozinha." Desliguei o telefone, apavorada.

Fiquei ali, sem ar, e me lembrei então que o técnico do alarme ainda estava trabalhando e provavelmente ouvira tudo. Com vergonha, achei que tinha de me desculpar. Chorando, fui até a sala da frente e o encontrei encostado no umbral da porta, como se esperasse por mim. Antes que eu dissesse qualquer coisa, ele me levou até uma cadeira.

"Sente-se", ele disse. "E respire fundo, procurando relaxar." As instruções específicas e o tom gentil me pegaram de surpresa. Sentei e comecei a respirar, me sentindo mais calma. Aquele estranho se sentou à minha frente e, numa voz tranquila, me contou como ele e a mulher tinham perdido o primeiro filho. O bebê nascera morto porque eles não sabiam que ela desenvolvera diabetes durante a gravidez. Ele continuou dizendo como fora duro aceitar o fato até que, finalmente, desistiram e admitiram que era algo que lhes fugia ao controle.

"Eu entendo como seu coração está doendo agora. Mas só o que a senhora pode fazer é ter fé e compreender que o que está acontecendo com seu bebê está fora do seu controle. Quanto mais tentar tomar as rédeas da situação, ter controle sobre o bebê, sobre os exames, tudo isso, mais a sua incapacidade de mudar as coisas vai fazer-lhe muito mal." Tomou minha mão e disse que há poucos meses ele e a mulher tinham sido abençoados com uma menininha saudável. Dessa vez, não tinha havido problemas. É claro que pensam ainda no garotinho que perderam, mas hoje entendem e aceitam que, por alguma razão, não era para ele viver.

Pediu para eu tentar manter a fé e afirmou que sentia que tudo daria certo.

Então, com a mesma calma com que me contou sua história, ele se levantou e se dirigiu à porta. Virou-se e disse que já consertara o alarme.

Aquele homem me ajudou como nenhuma outra pessoa poderia ter feito! Ao apertar sua mão e dizer "obrigada, me lembrei de que não pagara pelo serviço.

Ele sorriu e disse que eu nada lhe devia. Tudo que pedia era que eu mantivesse a fé.

Entreguei a Deus e, no final das contas, tudo aconteceu na hora certa.


 

COMPLETAMENTE ERRADO

GERALD E. THURSTON JR.

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 83

 

Dizer que minha mãe era completamente inexpressiva não é crítica nem reclamação. Ela era simplesmente uma dessas mulheres que as pessoas não notam. O mundo está cheio de pessoas assim.

Nascida em uma família de alcoólatras, minha mãe decidiu sair de Saint Louis aos dezessete anos porque, como ela dizia, "Não podia aguentar mais um só minuto de discussão, bebida e loucura. Foi para a Califórnia, morar com uma prima e começar vida nova. Isso aconteceu em 1959.

No ano seguinte se casou com meu pai, que era da Marinha, e tiveram três filhos: Tammy, Tina e eu, Jerry. Meus pais compraram uma casa pequena e simples no condado de Orange em 1967. Em 1975, apesar de seus esforços, se divorciaram. Eu tinha doze anos.

Talvez pela grande mudança provocada pelo divórcio, de repente passei a perceber minha mãe como pessoa. Notei que seu rosto tinha círculos escuros em torno dos olhos e que seu corpo sofrera com a gravidez e o parto dos filhos. Os homens não olhavam para ela. Parece que nunca notaram os olhos luminosos que eu comecei a perceber com o tempo.

Como muitas outras mães sozinhas, a minha também arrumou um segundo emprego e à noite distribuía formulários de corridas de cavalo em lojas de bebidas alcoólicas. Ela me prometia um sorvete coberto de chocolate para eu ir com ela, pois dizia ser a única forma de estarmos juntos mais um pouco. Levava pilhas de formulários às lojas, sem receber sequer um segundo olhar dos homens detrás dos balcões. Mamãe parecia invisível para os homens.

Mais velho, eu amargava o desinteresse das pessoas por minha mãe. Eu conhecia seu caráter, sua moral e o imenso conhecimento adquirido por ser uma leitora insaciável. Percebi que a vida silenciosa e heroica de minha mãe não era notada nem apreciada. Aquilo me doía.

Em dezenove de fevereiro de 1986 recebi um telefonema no trabalho. Era minha mãe, com a notícia de que o resfriado de que ela tentava se livrar há dois meses era na verdade um tumor no pulmão esquerdo. Uma semana depois foi para a mesa de operação, mas nada havia a fazer. O médico falou em quimioterapia e radioterapia, mas seus olhos nos diziam a dura verdade.

Mamãe lutou com garra contra o tumor, mas parecia que ninguém percebia sua fibra. Ela suportou os efeitos da radiação, que atingiram sua laringe, afetando sua capacidade de engolir e até de respirar. Enfrentou o pesadelo da quimioterapia, comprando uma peruca vermelho-vivo para tentar chamar a atenção da família para o que estava ocorrendo. Não funcionou. Ela lutou para "derrotar o monstro" até perder a consciência, em dois de fevereiro de 1987, morrendo de mãos dadas com seus filhos, que acariciavam seu rosto completamente inexpressivo. Aquilo me encheu de raiva.

Raiva do mundo que não a notara. Eu a notara. Pude observar a luta e a solidão cobrarem seu preço. Como não viram que essa mulher inexpressiva na figura era, na verdade, um lindo ser humano? Tive raiva até o dia do funeral.

Pessoas que eu não conhecia começaram a chegar na capela simples onde ela se encontrava para ser notada pela última vez.

Pessoas que tinham trabalhado com ela há vinte anos estavam lá, dizendo que não me viam desde que eu usava fraldas.

Amigos de seu último emprego, que eu não conhecia, foram nos abraçar. Até o chefe com quem trabalhara há oito anos esteve lá. Cumprimentou-me e disse que minha mãe inexpressiva era "uma das mulheres mais bondosas que já conheci".

Comecei a prestar atenção em minha mãe como pessoa aos doze anos e a achei totalmente inexpressiva. Olhei para a capela cheia de pessoas que tinham notado minha mãe e podiam pensar outras coisas dela, mas jamais que fosse inexpressiva.

Foi uma alegria profunda constatar que estava completamente errado. Debaixo da aparência inexpressiva de minha mãe, essas pessoas perceberam, o tempo todo, a pessoa extraordinária que estava ali.


 

O SUÉTER

PAMELA ALBEE

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 86

 

Era tarde demais quando me dei conta de meu erro. Eu fora de tal forma tomada pela dor diante do rápido declínio e morte de meu pai, que não parara para pensar em como a sua morte afetaria minha filha.

Papai havia passado meses reclamando de uma dor no ombro, "um nervo pinçado" - foi o que achamos. Quando adoeceu durante as férias e foi diagnosticado com um câncer primário e progressivo na próstata, todos ficamos chocados.

Meu pai era uma dessas pessoas especiais que nasceu com um brilho nos olhos. Jamais conheci alguém que não pensasse um mundo de coisas boas a seu respeito. Crianças pequenas, em particular, sentiam-se atraídas por ele como formiguinhas por mel. Ele juntava as mãos e sorria com tanta alegria, que a criançada se aproximava correndo. Durante uma visita à minha irmã, na Irlanda, ensinou a molecada do vilarejo a jogar futebol americano. Era frequente as crianças irlandesas passarem pela casa à noite para perguntar: "Será que o vovô pode sair para brincar com a gente?" Assim, não era nenhuma surpresa que ele fosse especialmente próximo de minha filha Jodi, de cinco anos, a última dentre todos os netos que continuou a morar perto dele, nos Estados Unidos. Os dois viviam dando risadinhas e gargalhadas juntos, durante horas, inventando histórias e alimentando animais de mentirinha no quintal.

Quando encontraram o câncer de meu pai, já havia se espalhado para os ossos e, a partir daí, tudo aconteceu rapidamente. Quando íamos visitá-Io, Jodi sentava-se quietinha ao seu lado na cama e fingia ler para ele - as brincadeiras barulhentas haviam ficado para trás. Eu lhe explicara que o vovô estava muito doente e que não podia mais brincar com ela como antigamente, mas era difícil para sua cabecinha de cinco anos compreender.

Perto do final, eu já não levava Jodi comigo por não querer que ela se assustasse com a aparência do avô, com a expressão de dor e de sofrimento no rosto daquele homem vital que todos tanto amávamos.

Depois que ele morreu, fiquei sem saber se Jodi compreendia o caráter definitivo da morte ou se achava que o vovô estava fora da cidade, "de férias". Mas, com o passar das semanas, ela foi ficando muito quieta e retraída, chorando com frequência por motivos que eu achava estranhos.

Certa noite, sentei-me com ela no colo e acariciei seus cabelos, suavemente.

- Você me parece muito triste, meu docinho - disse eu. Quer me dizer o que há de errado?

Ela passou alguns minutos em silêncio e, a seguir, pôs-se a soluçar.

- Eu não consegui me despedir do vovô.

Naquele momento eu me dei conta de que, apesar de meus bons propósitos, eu havia cometido um erro.

Através de uma nuvem de lágrimas mútuas, ficamos sentadas juntas, uma embalando a outra, e conversamos sobre o vovô e sobre todos os momentos maravilhosos passados com ele.

- Você quer dizer adeus para o vovô agora? - perguntei.

Ela olhou para mim como se eu fosse só um pouquinho esquisita.

- Feche os olhos. Agora imagine o rosto do vovô bem à sua frente. Quando ele sorrir, você pode falar com ele.

De repente, um imenso sorriso invadiu seu rosto.

- Ele está sorrindo tão grande para mim!

- Então diga a ele o que você quiser.

- Vovô - começou ela -, eu amo você e sinto muito a sua falta. Quero me despedir de você. Tchau, vovô.

Então me lembrei dos mimos que pegara para mim quando minha mãe empacotou as roupas de papai. Pedi a ela dois de seus suéteres velhos confortáveis, aqueles com os quais ele gostava de ficar em casa nos fins de semana. Fui pegar os dois suéteres azuis e dei um a Jodi.

- Estes são os suéteres especiais do vovô. Quando estivermos tristes ou com saudades dele, é só vestir para sentí-Io nos abraçar.

Nós duas choramos enquanto cada uma vestia o seu suéter.

Então eu a segurei nos braços enquanto adormecia. Pela primeira vez em semanas ela parecia estar em paz, com um discreto sorriso no rosto.

Os dois suéteres foram muito usados através dos anos.

Muitas vezes, quando Jodi estava com algum problema, retirava-se para o quarto. Quando, mais tarde, eu ia verificar se estava tudo bem, era normal encontrá-Ia deitada na cama envolta no suéter azul do vovô - dormindo pacificamente com a mais sutil insinuação de um sorriso no rosto.

Hoje Jodi tem dezoito anos e ainda adora usar o suéter do avô. De alguma maneira, sempre lhe cabe perfeitamente. E sabem por quê? Porque é do tamanho de um abraço.


 

CONFISSÕES DE UMA MADRASTA

CAROL KLINE

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 91

 

Ao conhecer Larry, meu futuro marido, compreendi que era um pacote completo, incluindo McKenna, uma filha de dezoito meses, e Lorin, um menino de quatro anos, nos fins de semana.

No dia em que conheci as crianças, contornamos o lago com Larry carregando uma McKenna de fraldas no colo, enquanto Lorin corria atrás de sapos para me mostrar. Fiquei atordoada. Aquelas crianças eram uma imensa parte do homem que eu amava e, no entanto, tinham muito pouco a ver comigo.

Como é que essa história de madrasta funcionava?

Eu rapidamente me apaixonei pelo sorrisinho travesso de Lorin e o corpinho rechonchudo de McKenna, quentinho, contra o meu, quando eu a segurava no colo. Fui completamente tocada pela minha nova e encantadora "família instantânea”, mas a mães das crianças, Dia, já era outra história. Tínhamos um relacionamento cauteloso, as arestas de hostilidade existentes entre nós duas muito tênuemente ocultadas. Eu fazia o possível para ignorá-Ia e me concentrava nas duas crianças adoráveis as quais ela dera à luz.

As crianças e eu nos dávamos bem, embora Lorin fosse um tanto reservado. Talvez fosse por lealdade à mãe ou por ser menino, ou, aos quatro anos, pelo simples fato de querer mais independência. McKenna, por ser tão pequenininha, não era dada a esse tipo de escrúpulos. Ela me amava e deixava isso bem claro, sem reservas, com uma doçura e inocência que tiravam o meu fôlego. Eu não conseguia resistir ao seu amor e, quando me apaixonei, foi de verdade. Quase que imediatamente formamos nosso próprio fã-clube mútuo - dois corações que pulsavam como um.

Na realidade foi McKenna quem primeiro me pediu em casamento. Estávamos sentadas, juntas, na sala de espera de um aeroporto, a caminho da casa dos pais de Larry. Com quase três anos, estava sentada no meu colo, de frente para mim, brincando com o meu colar. De vez em quando, olhava para o meu rosto com os olhos transbordando de adoração. Sorri, sentindo a presença de meu imenso amor por ela em meu coração. Larry estava sentado ao nosso lado e Lorin passeava pelas fileiras de cadeiras de plástico, fazendo barulhos de motor de carro com a boca. Para um observador desavisado, éramos uma jovem família como outra qualquer. Mas não éramos uma família porque Larry ainda não havia feito aquela pergunta. E muito embora eu não quisesse forçar a barra, nós dois sabíamos que minha paciência estava chegando ao limite. O que, eu me perguntava, estaria ele esperando?

Então, McKenna arrancou a chupeta da boca e, retribuindo o meu sorriso, perguntou, toda animada:

- Quer casar comigo?

Após um momento de sobressaltado silêncio, rimos até a barriga doer. Eu por simples deleite, Larry pela liberação da tensão e as crianças, simplesmente, porque os adultos. estavam rindo. Felizmente, não demorou muito para que Larry seguisse o exemplo da filha com o seu próprio pedido de casamento.

Com o passar do tempo, acostumei-me a ser mãe em regime de meio expediente - e a ter a mãe das crianças como parte inevitável de minha vida. Eu gostava de Dia, sinceramente, mas nossas posições pareciam exigir um certo grau de mau humor mútuo que eu fazia o possível para sufocar. Às vezes sentia o condenável desejo de que ela simplesmente sumisse. Abatida por uma doença rápida e indolor, ela, em seu leito de morte, me pediria para criar os filhos em seu lugar. Assim, as crianças ficariam conosco - seriam minhas de fato - e nós poderíamos formar uma família "de verdade".

Felizmente, isso jamais aconteceu. Eu não queria que ela morresse; apenas sentia ciúmes por ela ter tido filhos com o meu marido. Está bem, está bem, concordo que ele era marido dela naquela época - mas, ainda assim, a situação me exasperava. Vi as crianças crescerem, deixarem de ser bebês e passarem a frequentar a escola. A mãe deles e eu dávamos prosseguimento às nossas interações canhestras porém civilizadas, organizando o ir e vir das crianças, negociando férias e feriados.

Meus amigos viviam dizendo que quem tinha de lidar com a ex-mulher era Larry e, por algum tempo, tentamos isso. Mas como madrasta ativa e cheia de boa vontade para com as crianças, eu vivia me metendo nas decisões. Assim, Dia e eu acabamos voltando ao arranjo anterior e, com o passar dos anos, notei que nossos telefonemas foram mudando. Notei que gostava de conversar com Dia sobre as crianças. E acho que ela se deu conta de que havia poucas pessoas no mundo que tinham tanto interesse, que eram tão encantadas ou preocupadas com seus filhos quanto eu. Demos início a uma metamorfose lenta porém perceptível, completada no ano em que Dia me enviou um cartão de Dia das Mães me agradecendo por ser "co-mãe" de seus filhos.

Este foi o início de uma nova era para Dia e eu. E muito embora nem sempre tenha sido perfeita, tenho consciência de que tem sido extraordinária. Assim, tenho os meus próprios agradecimentos a fazer:

Obrigada, Dia, por ser grande o suficiente para compartilhar os seus filhos comigo. Se você não o fosse, eu jamais saberia o que é segurar um bebê adormecido e sentir a completa confiança demonstrada por aqueles membros flácidos, de pele sedosa, reunidos, com todo o cuidado, em meus braços. Jamais teria tido a oportunidade de me maravilhar com as curvas e desvios da mente de um menino enquanto tenta encontrar sentido num universo tão grande e complexo.

Jamais teria sabido que uma criança é capaz de chorar tão alto quando a barriga dói ou que, depois de vomitar, podia sorrir para a gente de forma tão radiante - as bochechas ainda molhadas de lágrimas, a dor já esquecida.

Eu jamais teria assistido a um menino pelejar para se tornar a sua própria pessoa ou participado tão ativamente do processo de crescimento, tão dolorido e sério, de um adolescente. Não teria tido o formidável privilégio de assistir aquele molequinho chato de doze anos, que me enlouquecia com suas perguntas, se transformar num homem lindo, com um sorriso de muitos megawatts e uma personalidade encantadora. E, enquanto se prepara para ir para a faculdade, sei que está prestes a levar uma nova geração de mulheres à loucura - por motivos completamente diferentes.

Não teria sentido a emoção de ver nossa linda filha no palco expressando-se com graça e com uma profundidade de sentimento antigo demais para alguém tão jovem. Ou de sentir a vaidade e o orgulho - completamente desmerecidos (e censuráveis) - quando um desconhecido comenta que McKenna se parece comigo.

Obrigada por transformar a manhã de Natal num evento comunitário para que as crianças jamais tivessem de se sentir divididas num dia que tanto amam. Olhei ao meu redor, um ano, e nos vi sentados ao redor da árvore de Natal enquanto os meninos distribuíam os presentes. Lá estávamos, você e seu marido, Larry e eu, as crianças e... surpreendentemente, eu me senti em casa.

Compreendi, naquele momento, que você não precisava sumir para sermos uma família de verdade.

 

 

 

Claro que eu gostaria de ser uma mãe perfeita.

Mas estou muito ocupada cuidando dos meus filhos.


 

A VISÃO REAL

MARSHA ARONS

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 96

 

Minha amiga Michelle é cega, mas você não notaria se não prestasse muita atenção. Ela usa tão bem os outros sentidos, inclusive o "sexto sentido" - a intuição -, que dificilmente deixa a impressão de que não percebeu alguma coisa.

Michelle cuida dos filhos tão bem quanto qualquer uma de nós, só que não esquenta a cabeça com detalhes. Seus filhos, Sarah, de seis anos, e Aaron, de nove, se beneficiam disso.

Michelle comentou comigo que, como não consegue escolher as roupas das crianças, e o marido não se sente com capacidade para isso, Sarah e Aaron acabam resolvendo eles mesmos o que vestir. Para Michelle o que importa é que as roupas estejam limpas e de acordo com a temperatura. E ela acredita que as crianças já têm idade para dizer se sentem calor ou frio.

Um outro assunto sobre o qual Michelle raramente discute com os filhos é quanto à limpeza da casa. Ela sabe que está na hora de dar um bom jeito na casa quando tropeça em objetos ou brinquedos largados pelo chão. Na casa de Michelle, as crianças aprenderam a colocar as coisas nos devidos lugares, porque deixar tudo espalhado, mais do que aborrecer sua mãe, significa perigo para ela. Na verdade, Michelle se loco move tão bem pela casa que, com frequência, as pessoas que a visitam nem percebem que ela é cega.

Percebi isso na primeira vez que minha filha Kayla, de seis anos, foi brincar com Sarah. Kayla chegou em casa excitada com seu dia. Contou-me que assaram biscoitos, jogaram e fizeram trabalhos de arte. Mas estava especialmente entusiasmada com as pinturas feitas com os dedos.

Sorrindo, feliz, Kayla disse: "Mamãe, sabe da maior? Hoje aprendi a misturar as cores! Azul com vermelho dá roxo e amarelo com azul dá verde! Não é legal? E Michelle pintou conosco. Ela disse que gosta de sentir a tinta escorrendo entre os dedos." A alegria de minha filha chamou minha atenção e eu me dei conta de que jamais pintara com Kayla, porque a bagunça provocada pelas tintas me incomodava especialmente. Ela acabou aprendendo sobre cores com minha amiga cega. A ironia me fez parar e olhar para minha filha e para mim mesma com outros olhos.

"Michelle me pediu para descrever o que eu tinha feito e disse que meu trabalho passava alegria, orgulho e talento!" Kayla disse que nunca sentira como era bom pintar com os dedos até que Michelle lhe mostrou como pintar sem olhar para o papel.

Foi quando entendi que Kayla não sabia que Michelle era cega. Jamais faláramos sobre o assunto.

Quando contei para ela, ficou quieta por um momento.

Primeiro, não quis acreditar. "Mas, mamãe, Michelle compreendeu exatamente o que estava na minha pintura!", Kayla insistiu. E eu sabia que era verdade porque Michelle ouvira com a maior atenção a descrição que Kayla fizera de seu trabalho.

Também ouvira Kayla falar com orgulho da pintura, de como achara fantástico descobrir como as cores se misturam e o prazer que sentira com a textura das tintas.

Ficamos em silêncio até Kayla dizer, devagar: "Sabe, mamãe, Michelle realmente viu minha pintura. Ela usou meus olhos para ver”.

Eu nunca ouvi ninguém se referir a Michelle como cega. Ela não é cega. Ela tem uma espécie de "visão" que todas as mães deveriam usar.


 

FECHE A BOCA E ABRA OS BRAÇOS

DIANE C. PERRONE

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 99

 

Uma amiga ligou com notícias perturbadoras: a filha solteira estava grávida.

Relatou a cena terrível ocorrida no momento em que a filha finalmente contou a ela e ao marido sobre a gravidez. Houve acusações e recriminações, variações sobre o tema "Como pôde fazer isso conosco?". Meu coração doeu por todos: pelos pais que se sentiam traídos e pela filha que se envolveu numa situação complicada como aquela. Será que eu poderia ajudar, servir de ponte entre as duas partes?

Fiquei tão arrasada com a situação, que fiz o que faço - com alguma frequência - quando não consigo pensar com clareza:

liguei para minha mãe. Ela me lembrou de algo que sempre a ouvi dizer. Imediatamente, escrevi um bilhete para minha amiga, compartilhando o conselho de minha mãe: "Quando uma criança está em apuros, feche a boca e abra os braços." Tentei seguir o mesmo conselho na criação de meus filhos.

Tendo tido cinco em seis anos, é claro que nem sempre conseguia. Tenho uma boca enorme e uma paciência minúscula.

Lembro-me de quando Kim, a mais velha, estava com quatro anos e derrubou o abajur de seu quarto. Depois de me certificar de que não estava machucada, me lancei numa invectiva sobre aquele abajur ser uma antiguidade, sobre estar em nossa família há três gerações, sobre ela precisar ter mais cuidado e como foi que aquilo tinha acontecido - e só então percebi o pavor estampado em seu rosto. Os olhos estavam arregalados, o lábio tremia. Então me lembrei das palavras de minha mãe.

Parei no meio da frase e abri os braços.

Kim correu para eles dizendo:

- Desculpa... Desculpa - repetia, entre soluços. Nos sentamos em sua cama, abraçadas, nos embalando. Eu me sentia péssima por tê-la assustado e por fazê-la crer, até mesmo por um segundo, que aquele abajur era mais valioso para mim do que ela.

- Eu também sinto muito, Kim - disse quando ela se acalmou o bastante para conseguir me ouvir. - Gente é mais importante do que abajures. Ainda bem que você não se cortou.

Felizmente, ela me perdoou. O incidente do abajur não deixou marcas perenes. Mas o episódio me ensinou que é melhor segurar a língua do que tentar voltar atrás após um momento de fúria, medo, desapontamento ou frustração.

Quando meus filhos eram adolescentes - todos os cinco ao mesmo tempo - me deram inúmeros outros motivos para colocar a sabedoria de minha mãe em prática: problemas com amigos, o desejo de ser popular, não ter par para ir ao baile da escola, multas de trânsito, experimentos de ciência malsucedidos e ficar em recuperação. Confesso, sem pudores, que seguir o conselho de minha mãe não era a primeira coisa que me passava pela mente quando um professor ou diretor telefonava da escola. Depois de ir buscar o infrator da vez, a conversa do carro era, algumas vezes, ruidosa e unilateral.

Entretanto, nas ocasiões em que me lembrava da técnica de mamãe, eu não precisava voltar atrás no meu mordaz sarcasmo, me desculpar por suposições errôneas ou suspender castigos muito pouco razoáveis. É impressionante como a gente acaba sabendo muito mais da história e da motivação por trás dela quando está abraçando uma criança, mesmo uma criança num corpo adulto. Quando eu segurava a língua, acabava ouvindo meus filhos falarem de seus medos, de sua raiva, de culpas e arrependimentos. Não ficavam na defensiva porque eu não os estava acusando de coisa alguma. Podiam admitir que estavam errados sabendo que eram amados, apesar de tudo. Dava para trabalharmos com "o que você acha que devemos fazer agora”, em vez de ficarmos presos a "como foi que a gente veio parar aqui?”

Meus filhos hoje estão crescidos, a maioria já constituiu a própria família. Um deles veio me ver há alguns meses e disse:

"Mãe, cometi uma idiotice..." Depois de um abraço, nos sentamos à mesa da cozinha.

Escutei e me limitei a assentir com a cabeça durante quase uma hora enquanto aquela criança maravilhosa passava o seu problema por uma peneira. Quando nos levantamos, recebi um abraço de urso que quase esmagou os meus pulmões.

- Obrigado, mãe. Sabia que você me ajudaria a resolver isto.

É incrível como pareço inteligente quando fecho a boca e abro os braços.

 

 

 

As crianças precisam de orientação e de compreensão

bem mais do que de instrução.

ANN SULLIVAN

 

 

 

Não existe uma forma de ser uma mãe perfeita,

mas um milhão delas de ser uma boa mãe.

JILL CHURCHILL

 


 

A INSPEÇÃO

AUTOR DESCONHECIDO

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 103

 

Num acampamento de escoteiros, durante uma inspeção, o monitor achou um guarda-chuva cuidadosamente enrolado no saco de dormir de um dos meninos. Como, afinal, guarda-chuvas não faziam parte da lista do que levar para o acampamento, ele pediu para o garoto explicar por que o objeto estava ali.

Com um suspiro conformado, o menino disse: "O senhor não sabe como são as mães?"


 

APERTE MINHA MÃO

MARY MARcDANTE

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 104

 

Você se lembra da sua infância, quando caía e se machucava?

Lembra o que sua mãe fazia para acalmar a dor? Minha mãe, Grace Rose, me levava no colo até sua cama e beijava meu machucado. Então, ela sentava ao meu lado, pegava minha mão e falava: "Quando doer, aperte minha mão e vou dizer “Eu te amo”.

Era sempre assim: eu apertava sua mão e, sem falhar uma só vez, ouvia as palavras: "Mary, eu te amo." Às vezes, eu fingia ter me machucado só para passar por esse ritual com ela. À medida que fui crescendo, o ritual mudou, mas minha mãe sempre encontrava um modo de diminuir a dor e aumentar a alegria em qualquer área da minha vida.

Numa época difícil, durante o segundo grau, ela tinha sempre meus chocolates preferidos, recheados com amêndoas, quando eu chegava em casa. Lá pelos meus vinte e poucos anos, mamãe muitas vezes telefonava num fim de tarde convidando-me para vermos o pôr-do-sol ou o nascer da lua. Deixava bilhetinhos amorosos sobre meu travesseiro quando eu chegava tarde em casa e, quando fui morar sozinha, mandava-me vasinhos de flores agradecendo as visitas que eu lhe fazia.

Mas minha melhor lembrança continuou sendo ela segurando minha mão quando eu era pequena e repetindo: "Quando doer, aperte minha mão e vou dizer 'Eu te amo'." Eu já tinha trinta e tantos anos quando, uma manhã, papai telefonou para o meu trabalho. Era um homem seguro e lúcido, mas a voz soava confusa e amedrontada. "Mary, há algo errado com sua mãe”. Já chamei o médico, mas, por favor, venha logo que puder." Quando cheguei, papai andava de um lado para o outro na sala e mamãe estava deitada no quarto, olhos fechados, as mãos sobre o estômago. Chamei por ela, tentando manter a voz o mais calma possível.

"Mamãe, estou aqui."

"Mary, é você?”, balbuciou ela.

"Sim, mamãe, sou eu."

Eu não estava preparada para a próxima pergunta e, quando a ouvi, congelei, sem saber o que responder.

"Mary, eu vou morrer.

Meu olhos se encheram de lágrimas enquanto olhava minha mãe querida ali, deitada, tão desamparada.

Ao tentar descobrir o que responder, pensei: "O que mamãe diria num momento desses?"

Hesitei por um instante, esperando que as palavras viessem.

"Mamãe, não sei se você vai morrer, mas fique tranquila, tudo acabará bem." Apertei sua mão. "Eu amo você." Ela gemeu: "Mary, sinto tanta dor." Mais uma vez fiquei sem saber o que falar. Sentei a seu lado na cama e me ouvi dizendo: "Mamãe, quando doer, aperte minha mão e vou dizer 'Eu te amo'." Ela apertou minha mão.

"Mamãe, eu te amo."

Esta cena se repetiu muitas vezes durante os dois anos seguintes, até sua morte, de câncer. Nós nunca sabemos quando virão os momentos em que seremos testados. Mas sei que, quando chegarem, com quem quer que eu esteja, oferecerei o ritual de amor de minha mãe: "Quando doer, aperte minha mão e vou dizer 'Eu te amo'."

 

 

 

Eles parecem uns anjinhos quando estão dormindo.

Quem poderia dizer que durante o dia eles ficam gritando o tempo todo?


 

MINHA FILHA MINHA MESTRA

JANET S. MEYER

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 108

 

As crianças nos ensinam coisas novas todos os dias. Eu já tinha ouvido dizerem isso, mas foi só quando me tornei mãe que me dei conta da dimensão desse ensinamento.

Quando Marissa tinha seis meses, parecia estar sempre olhando para cima, procurando alguma coisa. Acompanhando seu olhar, descobri a magia das folhas dançando nas árvores e o movimento das nuvens no céu. Com oito meses, ela olhava para baixo, enquanto eu a empurrava no carrinho. Percebi, então, que cada pedra é diferente, que as rachaduras nas calçadas fazem desenhos interessantes e as folhas da grama têm verdes diversos.

Quando ela fez onze meses, aprendeu a dizer "Uau!", palavra que usava, maravilhada, ante qualquer coisa nova e deslumbrante, como a variedade de brinquedos do consultório do pediatra ou o acúmulo de nuvens negras antes de uma tempestade. Ela falava baixinho "Uau!" para coisas que realmente a impressionavam, como o sopro do vento no seu rosto ou um bando de pombos levantando voo. E, finalmente, o máximo em matéria de "Uau!" era sua boquinha aberta, mas sem emitir som, reservado para ocasiões realmente surpreendentes, como um pôr-do-sol num lago depois de um lindo dia ou fogos de artifício no céu de verão.

Marissa me ensinou muitas formas de dizer "Eu te amo".

Quando tinha quatorze meses e estávamos abraçadas, ela, com a cabecinha recostada no meu ombro, suspirou fundo e disse: "Feliz." Num outro dia (já com dois anos e levada como ela só), apontou para uma linda modelo na capa de uma revista e perguntou: “É você, mamãe”.

Há pouco tempo, agora com três anos, entrou na cozinha enquanto eu lavava a louça e ofereceu: "Posso ajudar?" Logo depois, colocou a mão no meu braço e me fez derreter:

"Mamãe, se você fosse pequena, eu queria ser sua amiga." Em momentos assim, tudo que posso dizer é "Uau!".

 

 

As crianças reinventam o mundo pra você.

SUSAN SARANDON

 

 


 

O QUE É UMA AVÓ?

AUTOR DESCONHECIDO

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 110

 

Carta de um aluno da terceira série.

 

Uma avó é uma mulher velhinha que não tem filhos. Ela gosta dos filhos dos outros. Um avô é um homem-avó. Ele leva os meninos para passear e conversa com eles sobre pescaria e outros assuntos parecidos.

As avós não fazem nada e por isso podem ficar mais tempo com a gente. Como elas são velhinhas, não conseguem rolar pelo chão ou correr. Mas não faz mal, porque nos levam ao shopping e compram tudo o que nossos pais não querem comprar. Na casa delas tem sempre um vidro com balas e uma lata cheia de suspiros. Contam histórias de nosso pai ou nossa mãe quando eram pequenos, histórias da Bíblia, histórias de uns livros bem velhos com umas figuras lindas. Passeiam conosco mostrando as flores, ensinando seus nomes, nos fazendo sentir o perfume. Avós nunca “Apresse-se, “Arrume seu quarto”, “Coma com modos”.

Normalmente, as avós são gordinhas, mas, mesmo assim, elas nos ajudam a amarrar os sapatos. Quase todas usam óculos e eu já vi uma tirando os dentes e as gengivas.

Quando a gente faz uma pergunta, a avó não diz: "Menino, não vê que eu estou ocupada!" Ela pára, pensa e responde de um jeito que a gente entende. As avós sabem um bocado de coisas.

As avós não falam com a gente como se nós fôssemos umas criancinhas idiotas, nem apertam nosso queixo dizendo "Que gracinha!", como fazem algumas visitas chatas. Quando leem para nós, não pulam pedaços das histórias nem se importam de ler a mesma história várias vezes. O colo das avós é quente e fofinho, bom de a gente sentar quando está triste. A minha avó sabe fazer uma festinha bem de leve nas minhas costas que eu adoro.

Todo mundo devia tentar ter uma avó, porque são os únicos adultos que têm tempo pra nós.

O VISITANTE DO MEIO DA NOITE

EDITH DEAN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 112

 

Cresci numa aldeia rural numa época em que nos maravilhávamos com o telefone e os automóveis eram incapazes de atravessar estradas cheias de lama. Foi antes da Grande Depressão, quando havia pouco para todos e os vizinhos dependiam uns dos outros. Eu me lembro bem daquela noite.

Era início de outubro e pela janela víamos tudo escuro, chuva forte e o vento se misturando. A turbulência maltratava nossa pequena casa de madeira na área rural de Arkansas, e a tempestade ameaçava apagar o lampião sobre a mesa da sala.

Aos nove anos, assustada, eu tinha certeza de que a casa sairia voando a qualquer momento. Papai fora em direção ao norte, procurando trabalho, e eu me sentia extremamente vulnerável. Mas mamãe conseguia ficar calma, sentada, consertando suas roupas "para durarem outro inverno".

"Ah, mamãe, você precisa de roupas novas", eu disse, tentando puxar conversa. Numa noite assim, eu precisava do conforto de uma voz bem serena.

Ela me abraçou. "Você precisa de roupas melhores porque vai à escola." "Mas você não tem nem um casaco para o inverno", retruquei.

"Deus prometeu suprir nossas necessidades. Ele cumprirá sua promessa, não quando pedirmos, mas no Seu próprio tempo. Tudo vai ficar bem." Eu invejava a fé inabalável de minha mãe, principalmente em noites assim.

Uma lufada de vento desceu pela chaminé e espalhou o carvão da lareira.

"Podemos trancar as portas?", perguntei.

Mamãe sorriu, pegou a pequena pá preta da lareira e espalhou cinzas sobre os carvões em brasa.

"Edith, não podemos evitar a tempestade. E você sabe que ninguém aqui tranca as portas, especialmente numa noite assim, porque alguém pode precisar entrar fugindo do mau tempo." Ela pegou o lampião, foi para o quarto e eu a segui. Minha mãe me enfiou entre as cobertas, mas, antes que tirasse o roupão de retalhos, o barulho repentino da porta da frente aberta pelo vento fez entrar o cheiro de chuva e ouvimos o som de objetos derrubados na sala. Também de repente a porta bateu e se fechou.

"Esse barulho todo não era só vento e trovão." Mamãe pegou o lampião e voltou à sala. Eu tive medo de ir também, mas o medo de ficar sozinha foi maior ainda.

Primeiro, só pudemos ver o conteúdo da cestinha de costura de mamãe espalhado no chão. Então nossos olhos seguiram pegadas de botas enlameadas no chão de madeira, da porta à cadeira estofada que ficava em frente à lareira.

Um homem encharcado e desgrenhado, baixo e corpulento, com um terno escuro e salpicado de lama estava afundado na cadeira.

Seu hálito exalava um cheiro terrível. Sua mão esquerda, imóvel, segurava uma lata amassada.

"Mamãe, é o senhor Hall!", exclamei.

Mamãe apenas assentiu com a cabeça, enquanto, com a pá, tirava os carvões queimados da lareira. Limpou as cinzas e levou os pedaços de carvão para a fornalha da cozinha, cobrindo-os com aparas de pinho.

Ela disse: "Vou fazer café. Acenda o fogo para ajudar nosso hóspede a se aquecer e a se secar." "Mas, mamãe, ele está bêbado!" "Tão bêbado que entrou em nossa casa pensando estar entrando na dele!" "Mas ele mora bem longe, lá embaixo na estrada”, observei.

"Minha filha, o senhor Hall não é um beberrão. Não sei o que aconteceu hoje. Mas ele é um homem bom." Eu sabia que o senhor Hall se encontrava com alguém na estrada todas as segundas-feiras de manhã e ia para sua pequena alfaiataria em Little Rock, onde trabalhava durante toda a semana. Aos sábados à tarde ele voltava, caminhando com dificuldade, apoiado em uma bengala.

Como se lesse meus pensamentos, mamãe murmurou: "Ele deve se sentir muito solitário de vez em quando." Em pé na porta da cozinha, fui tomada por uma preocupação. "Oh, mamãe, o que as pessoas vão dizer sobre a bebedeira do senhor Hall?" ''As pessoas não têm de ficar sabendo disso nunca. Você está me entendendo?"

"Estou, mamãe."

Enquanto a chuva continuava, mamãe levou para o nosso hóspede uma caneca de café preto e fumegante. Levantou sua cabeça para ajudá-Io a tomar o café, gole a gole. A caneca estava quase vazia quando ele abriu os olhos o suficiente para nos reconhecer.

"Senhora Wood." "Sim, senhor Hall, o senhor vai ficar bem." Enquanto mamãe levava a caneca de volta à cozinha, o senhor Hall conseguiu se apoiar na bengala, afastou a colcha dobrada sobre a cadeira e saiu cambaleando porta afora em direção à tempestade.

Ficamos observando-o enquanto chegava, vacilante, até o portão da frente, os clarões dos raios iluminando o caminho.

"Parece que nosso hóspede já consegue andar sozinho." "Mamãe, por que você o chama de nosso hóspede?", perguntei. "Ele só é nosso vizinho. Nós não o convidamos a entrar."

"Um hóspede é qualquer pessoa que venha à nossa casa em paz. Você se lembra quem é o próximo na história do Bom Samaritano?" "O homem que ajudou o estranho", respondi.

"Fazendo dele nosso hóspede, Deus nos deu a oportunidade de sermos próximas do senhor Hall." Algumas semanas mais tarde, chegando da igreja, havia um saco de papel sobre a mesa. Nele se lia: "Senhora Wood".

"Deve ser o vestido que a senhora Chiles ficou de me emprestar para eu tirar o molde. Ela tem uma filha do seu tamanho. Se quiser, pode abrir", mamãe disse, enquanto ia mudar de roupa.

Abri o saco amarfanhado e me surpreendi. "Mamãe! É um casaco para você, e é lindo!" Mamãe voltou-se para olhar o casaco que eu suspendia. Ela o experimentou, enfiando o braço direito e depois o esquerdo pelas mangas. Naquela época eu não conhecia o significado real da generosidade. Tudo o que eu pude ver, quando mamãe experimentou o casaco, é que ele ficou perfeito nela.


 

O PROGNÓSTICO

ROCHELLE M. PENNINGTON

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 117

 

Uma jovem mãe, submetida a um tratamento contra câncer, voltou do hospital sem cabelos, por causa da radioterapia, e muito consciente da sua aparência.

Estava sentada na cozinha, quando seu filho apareceu na porta, olhando-a curiosamente.

Quando a mãe iniciou o discurso que ensaiara para ajudá-lo a entender o que via, o menino se aproximou e aconchegou-se em seu colo, quietinho, a cabeça recostada em seu peito. A mãe acariciou a cabecinha do filho e disse: "Você vai ver como daqui a pouco o meu cabelo vai crescer e eu vou ficar melhor, como era antes."

O menininho se levantou, olhou para a mãe pensativo.

Com a espontaneidade de seus seis anos, respondeu: "Seu cabelo está diferente, mas seu coração está igualzinho."

A mãe não precisava mais esperar por "daqui a pouco" para melhorar. Com os olhos cheios de lágrimas, ela se deu conta de que já estava muito melhor.

 

 

 

Toda criança nasce com a mensagem de que

Deus não perdeu a esperança na humanidade.

RABINDRANATH TA GORE


 

DANCE COMIGO

JEAN HARPER

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 119

 

Quando somos jovens e sonhamos com amor e prazer, pensamos talvez em noites enluaradas em Veneza ou em passeios numa praia ao pôr-do-sol. Ninguém nos diz que os melhores momentos da vida são efêmeros, não planejados e quase sempre nos pegam de surpresa.

Não faz muito tempo, eu estava lendo uma história para Annie, minha filha de sete anos, quando percebi seu olhar fixo em mim. Tinha uma expressão longínqua, parecia meio hipnotizada, como se não desse importância à história que ouvia.

Perguntei o que estava pensando.

"Mamãe", ela murmurou. "Não consigo parar de olhar pra você. Você é tão bonita." Quase derreti de emoção. Ela mal sabia que suas palavras sinceras e amorosas me dariam grande apoio ao longo dos anos seguintes.

Pouco tempo depois, levei Sam, meu filho de quatro anos, a uma elegante loja de departamentos, onde a melodia de uma canção de amor nos levou até um pianista.

Sam e eu nos sentamos perto dele e o menino parecia petrificado pela melodia. De repente, Sam se levantou, veio para minha frente, tomou meu rosto em suas mãozinhas e disse:

"Mamãe, dance comigo."

Se essas mulheres que circulam nos ambientes mais luxuosos e românticos soubessem a alegria que esse convite feito por um menino de rosto redondo e dentes de leite me proporcionou! Embora as vendedoras estivessem rindo de nós e nos apontando enquanto deslizávamos e rodopiávamos, eu não trocaria minha dança com este jovem charmoso e irresistível nem mesmo pelo universo inteiro.


 

OS GRAMPOS DE CABELO

LINDA GOODMAN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 121

 

Quando eu tinha sete anos, ouvi minha mãe dizer a uma de suas amigas que ela faria trinta anos no dia seguinte. Duas coisas me ocorreram: eu jamais imaginara que minha mãe fazia aniversário e não me lembrava de ela ter recebido um presente nesta data.

Bem - eu podia fazer alguma coisa a esse respeito. Raspei meu cofrinho e contei: vinte e cinco cents - cinco semanadas.

Fui à loja da esquina e falei com o dono, o senhor Sawyer, que queria comprar um presente de aniversário para minha mãe.

Ele me mostrou tudo que se encaixava naquele preço. Havia uns bibelôs de cerâmica, mas ela já tinha muitos - e ia ter de espaná-los uma vez por semana. Também havia umas caixinhas de doce, mas mamãe era diabética - não seriam apropriados.

Finalmente, ele me mostrou um pacote de grampos de cabelo. Os cabelos de mamãe eram longos e escuros e ela os lavava e enrolava duas vezes por semana. Quando os soltava no dia seguinte, parecia uma artista de cinema, com os cachos sobre os ombros. Então decidi que os grampos eram o presente ideal e paguei ao senhor Swayer com minhas moedas.

Levei os grampos para casa e os embrulhei em uma página de histórias em quadrinhos do jornal (não sobrara dinheiro para papel de presente). Na manhã seguinte, a família reunida à mesa do café, entreguei o pacote a mamãe, dizendo: "Feliz aniversário, mamãe!" Aturdida, em silêncio e com lágrimas nos olhos, rasgou o papel. Quando viu os grampos, já estava soluçando.

"Desculpe, mamãe, não queria fazer você chorar. Só queria que tivesse um aniversário feliz." "Mas estou contente, meu amor", disse, sorrindo entre lágrimas. "Sabe que é o primeiro presente de aniversário que recebo na vida?" Ela então beijou meu rosto e agradeceu: "Obrigada, querida." Virou-se para meus irmãos e irmã: "Vejam, Linda me deu um presente de aniversário!" E fez o mesmo com meu pai:

"Veja, Linda me deu um presente de aniversário!" E foi para o banheiro lavar os cabelos e enrolá-Ios com os grampos novos.

Quando mamãe saiu da sala, meu pai me olhou, dizendo:

"Linda, quando eu era menino, lá no sertão (meu pai sempre chamava de sertão o lugar onde nascera, nas montanhas), não nos preocupávamos em dar presentes de aniversário para adultos. Só para as crianças. E, na família de sua mãe, eram tão pobres que nem isso faziam. Mas vendo como você deixou sua mãe feliz hoje, acho que preciso pensar nisso. O que quero dizer, Linda, é que você inaugurou uma nova fase em nossa vida." E inaugurei mesmo. Depois disso, mamãe passou a receber presentes de aniversário todos os anos, de meus irmãos, de minha irmã, de meu pai e de mim. E, claro, com o tempo, os filhos passaram a ter mais condições e a lhe dar presentes melhores. Quando eu tinha vinte e cinco anos, dei a ela um aparelho de som, uma tevê colorida e um forno de micro-ondas (que ela trocou por um aspirador de pó).

Quando mamãe fez cinquenta anos, todos os filhos se reuniram para lhe dar um presente espetacular: um anel com uma pérola rodeada de brilhantes. Quando meu irmão mais velho lhe entregou o anel na festa que fizemos para homenageá-la, admirou o presente e fez questão que passasse entre os convidados: "Não tenho filhos maravilhosos?", ela repetia.

Podíamos ouvir os murmúrios enquanto o anel passava de mão em mão.

Depois que os convidados se foram, fiquei para ajudar na arrumação. Estava lavando a louça na cozinha quando ouvi meus pais conversando na sala.

"Bem, Pauline", dizia meu pai, "que lindo anel. Acho que foi o melhor presente de aniversário de sua vida." Meus olhos se encheram de lágrimas quando ouvi sua resposta: "Ted", ela disse docemente, "claro que é um anel lindo. Mas sabe qual foi o melhor presente de aniversário que já recebi? Aquela caixa de grampos."


 

O JOGO DA MATERNIDADE

JACKLYN LEE LINDSTROM

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 125

 

Você com certeza conhece jogos de perguntas e respostas em que se ganham ou perdem peças. Sempre pensei que ser mãe é mais ou menos participar de um jogo assim. Parece que passamos a maior parte do nosso tempo num labirinto, tateando a cada minuto da vida em família, sem ter certeza se fizemos pontos ou não.

 

Assim, preparei meu próprio jogo para as mães. As regras são simples - você começa com dez peças e ganha ou perde outras ao longo do jogo.

Está pronta? Vamos lá!

Primeira casa:

 

QUADRADO I - Você está esperando seu primeiro filho. Se você olha para sua cintura engrossando e diz: "Será que eu vou voltar ao meu manequim?", perde duas pedras, pelo seu pensamento ansioso.

 

QUADRADO 2 - Dois anos depois, você está prestes a ter o segundo filho. Para evitar ciúmes do primeiro, você passa horas se dedicando a ele e até lhe dá um boneco para ele mesmo alimentar, dar banho e ninar. Quando o bebê chega, você afirma gloriosa para si mesma e para os outros: "Ele não sentiu qualquer ciúme." Perde uma pedra por duas razões: por tratar o ciúme como um sentimento anormal e por negar o que se passa com seu filho.

 

QUADRADO 3 - O seu mais velho anunciou no jantar que vai representar uma árvore na peça do colégio e que precisa de uma fantasia para amanhã de manhã. Se fica acordada até três da manhã e faz uma roupa inovadora e original, perde três pedras, por dar um exemplo impossível para todas nós. Mas se você o faz meter-se num saco de papel pardo, com buracos para a cabeça e para os braços e cola com fita adesiva folhas verdes na frente e atrás, ganha cinco pedras, pois acabou de nos redimir.

 

QUADRADO 4 -Agora são três crianças e estão na escola. Você descobriu que "mãe" é sinônimo de "motorista”. Num dia típico, você deixou a mais nova na aula de música e foi com os meninos ao treino de futebol. Dali voltou para apanhar a menina e deixar os outros jogadores do time em suas casas. O jantar é corrido porque alguém tem ensaio do coro às sete horas. Na hora de dormir, você descobre que está sobrando uma criança. Mas não se apavora... isso já aconteceu antes e logo o telefone vai tocar, pois uma mãe descobriu que lhe falta uma criança. Você ganha Cinco peças pela resistência.

 

QUADRADO 5 - As gracinhas que você amorosamente acomodou na cama por tantos anos e para quem contou histórias de repente tratam você como se fosse uma débil mental. Ficam envergonhados de serem vistos em sua companhia. Adivinhe: você é mãe de adolescentes, essas estranhas criaturas que pensam ter mais de dois metros de altura e serem à prova de bala. Ganha oito peças por heroísmo sob fogo cerrado. Nessa fase, lembre-se sempre de que você carrega a arma mais poderosa - a chave do carro!

 

QUADRADO 6 - Você sabe que seu filho mais velho foi para a faculdade quando vê a pilha de roupa suja jogada na sala da frente. Se você a apanha para separar, lavar e passar, como antigamente... perde três peças. Por favor, não faça isso! Se, em vez disso, você o pega pela mão e mostra onde as máquinas de lavar e secar estão desde que ele era pequeno, ganha cinco peças. As coisas mais importantes da vida não são ensinadas na faculdade, lembre-se.

 

QUADRADO 7 - As crianças, por milagre, se tornaram adultos responsáveis. Por acaso, você ouve o mais velho contando para o filho dele as mesmas histórias que você lhe contava e você chora emocionada. Não se desespere - essas coisas são as riquezas da maternidade e esse jogo trata exatamente disso.

 

Parabéns. Você ultrapassou a linha de chegada e está na hora de somar os pontos. O jogo se chama "maternidade" e, se não perdeu todas as suas peças, você ganhou!

 

 

 

 

Entre o tempo gasto indo para a escola e fazendo o dever de casa é difícil encontrar um espaço para dar atenção à minha boneca.


 

AS RIQUEZAS DE MAMÃE

MARY KENYON

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 129

 

Deve haver algo muito especial numa mãe que consegue educar uma filha sem que ela tome consciência da pobreza em que vive.

Eu não sabia que era pobre, até a segunda série tinha tudo de que precisava: nove irmãos e irmãs para brincar, livros para ler, uma boneca feita de retalhos e roupas limpas que mamãe habilidosamente remendava ou, muitas vezes, fazia. Minha mãe lavava e trançava meu cabelo à noite para eu ir à escola no dia seguinte, meus sapatos marrons estavam sempre limpos e engraxados. Eu era feliz na escola, adorava o cheiro de lápis novos e do papel grosso que a professora distribuía para nossos trabalhos. Absorvia os conhecimentos como uma esponja, ganhando o cobiçado privilégio de levar mensagens para a sala do diretor durante uma semana.

Ainda me lembro do dia em que, com um sentimento de orgulho, subi sozinha os degraus da escola. Indo para minha sala, encontrei duas meninas mais velhas. Uma segredou para a outra: "Olhe, essa é a menina pobre." E elas riram. Com o rosto vermelho e segurando as lágrimas, fiquei transtornada.

No caminho para casa, tentei eliminar os sentimentos conflitantes que os comentários das garotas me causaram. Fiquei imaginando por que as meninas me consideravam pobre. Olhei de modo crítico para meu vestido e, pela primeira vez, notei como era desbotado, um vinco na bainha denunciando que tinha sido aproveitado. Sei que os pesados sapatos de menino eram os únicos que evitavam que eu andasse na lateral dos pés, mas de repente me senti envergonhada por serem tão feios.

Quando cheguei, tive pena de mim. Senti como se estivesse entrando na casa de um estranho, olhando para tudo de modo crítico. Vi o tapete velho na cozinha, manchas de dedos na pintura meio descascada das portas. Abatida, não respondi à saudação alegre de minha mãe que preparava biscoitos de aveia para o lanche. Tudo me pareceu feio e acanhado. Fiquei trancada no quarto até a hora do jantar, imaginando como falar com mamãe sobre pobreza. Por que da não me contara? Por que tive de descobrir por outras pessoas?

Enchi-me de coragem e fui para a cozinha: "Nós somos pobres?", perguntei de repente, meio desafiadora. Esperei que ela negasse, contestasse ou, pelo menos, desse uma explicação satisfatória, para que eu não me sentisse tão mal. Minha mãe me olhou contemplativamente, sem nada dizer por um instante.

"Pobres?", repetiu pousando a faca com que descascava batatas. "Não, não somos pobres. Olhe para tudo que temos", ela disse, apontando para meus irmãos que brincavam na outra sala.

Através dos olhos de minha mãe pude ver o fogo da lareira que enchia a casa com seu calor, as cortinas coloridas e os tapetes de retalhos feitos por ela e que enfeitavam a casa, o prato cheio de biscoitos de aveia sobre a cômoda. Do lado de fora, o quintal que oferecia alegria e aventura para dez crianças. Ela continuou: "Talvez algumas pessoas pensem que somos pobres em matéria de dinheiro, mas temos tanto..." E, com um sorriso, minha mãe se virou para preparar mais uma refeição para sua família, não se dando conta de que, a cada noite, ela alimentava muito mais do que estômagos vazios. Ela alimentava meu coração e minha alma.


 

BRINCAR TAMBÉM É IMPORTANTE

JAYNE JANDON FERRER

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 132

 

Perdoai-me, Senhor, por todas as tarefas que hoje ficaram por fazer. Mas, de manhã, quando meu filho, com seus passinhos incertos, entrou no quarto e pediu: "Mamãe, quer brincar comigo?", eu simplesmente tive de dizer sim.

E entre os quebra-cabeças e caminhões, cubos de madeira e bonecos, velhos chapéus, livros e risadas, dividimos mil pensamentos especiais, centenas de esperanças, sonhos e muitos abraços. E quando à noite, na hora de rezar, ele juntou as mãozinhas e falou baixinho: "Obrigado, Deus, por mamãe e papai, pelos meus brinquedos, pelo cachorro-quente, pelo sorvete de chocolate e por mamãe brincar comigo", eu sabia que tinha sido um dia bem gasto.

E tinha certeza de que o Senhor entenderia.


 

FLORES PARA O DIA DAS MÃES

PATRICIA A. RINALDI

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 133

 

Quando meu marido anunciou calmamente que, após onze anos de casamento, havia dado entrada em nosso divórcio e estava saindo de casa, meu primeiro pensamento foi para os meus filhos. O menino tinha apenas cinco anos e a menina quatro. Será que eu conseguiria nos manter unidos e passar para eles um sentido de "família”? Será que eu, criando-os sozinha, conseguiria manter o nosso lar e ensinar-lhes a ética e os valores dos quais certamente precisariam para a vida? A única coisa que eu sabia era que precisava tentar.

Frequentávamos a igreja todos os domingos. Durante a semana, eu arranjava tempo para rever os deveres de casa com eles e, frequentemente, discutíamos a importância de fazermos as coisas certas. Isso me tomava tempo e energia quando eu tinha pouco de ambos para dar. Mas o pior era não saber se realmente estavam absorvendo aquilo tudo.

Ao entrarmos na igreja no Dia das Mães, dois anos após o divórcio, notei carrocinhas cheias de vasos com as mais lindas flores ladeando o altar. Durante o sermão, o pastor disse que, a seu ver, ser mãe era uma das tarefas mais difíceis da vida e que merecia não só reconhecimento como, também, recompensa.

Assim, pediu que cada criança fosse até a frente da igreja para escolher uma linda flor e entregá-la à mãe como símbolo do quanto era amada e estimada.

De mãos dadas, meu filho e minha filha percorreram o corredor com as outras crianças. Juntos, refletiram sobre qual planta trazer para mim. Nós havíamos passado momentos muito difíceis e esse pequeno gesto de valorização era tudo que eu precisava. Olhei aquelas lindas begônias, as margaridas douradas e os amores-perfeitos violetas e pus-me a planejar onde plantar o que quer que escolhessem para mim, pois certamente trariam uma linda flor como demonstração de seu amor.

Meus filhos levaram a tarefa muito a sério e olharam cada vaso. Muito depois de as outras crianças já terem retomado aos seus lugares e presenteado suas mães com uma linda flor, meus dois ainda escolhiam. Finalmente, com um grito de alegria, acharam algo bem no fundo. Com sorrisos exuberantes a iluminar seus rostos, avançaram satisfeitos pelo corredor até onde eu estava sentada e me presentearam com a planta que haviam escolhido como demonstração de seu apreço por mim pelo Dia das Mães.

Fiquei olhando estarrecida para aquele pequeno ser roto, murcho e doentio que meu filho estendia em minha direção.

Aflita, aceitei o vaso de suas mãos. Era óbvio que os dois haviam escolhido a menor planta, a mais doente de todas – nem flor tinha. Olhando para seus rostinhos sorridentes, percebi o orgulho que sentiam daquela escolha e, sabendo o quanto haviam demorado para selecionar aquela planta em especial, sorri e aceitei a lembrança.

Mais tarde, no entanto, tive de perguntar - de todas aquelas flores maravilhosas, o que os havia feito escolher justamente aquela para me dar?

Todo orgulhoso, meu filho declarou:

- É que aquela parecia precisar de você, mamãe. Enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto, abracei meus dois filhos, bem apertado. Eles acabavam de me dar o maior presente de Dia das Mães que jamais poderiam ter imaginado. Todo o meu trabalho e sacrifício não havia sido em vão - eles iam crescer perfeitamente bem.


 

O TELEFONEMA À MEIA-NOITE

CHRISTIE CRAIG

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 136

 

Todos nós conhecemos a sensação de receber aquele telefonema no meio da noite. O telefonema daquela noite não foi diferente.

Pulando da cama para atender àquela convocação tilintante, focalizei os números vermelhos e luminosos do relógio. Meia noite. Pensamentos aterrorizantes enchiam minha mente, um tanto atordoada pelo sono, quando agarrei o fone.

- Alô?

Com o coração ribombando dentro do peito, segurei o fone com mais força ainda e olhei para meu marido, que agora se virava para ficar de frente para mim.

- Mamãe? - A estática mal permitia que eu ouvisse o sussurro. Mas meus pensamentos imediatamente voltaram-se para minha filha. Quando o som desesperado de uma voz jovem e chorosa ficou mais nítido através da linha telefônica, tateei em busca de meu marido e pressionei seu punho.

- Mamãe, eu sei que é tarde. Mas não... não diga nada até eu terminar. E antes que você pergunte, sim, eu andei bebendo.

Quase perdi a direção e saí da estrada há alguns quilômetros e...

Resfoleguei - um arquejo brusco, entrecortado. Soltei meu marido e pressionei a mão de encontro à testa. O sono ainda anuviava a minha mente e tentei vencer o pânico. Algo não estava certo.

- Fiquei tão assustada. Só conseguia pensar no tamanho da sua dor se um policial batesse à sua porta para lhe dizer que eu estava morta. Eu quero... quero ir para casa. Sei que você está doente de tanta preocupação. Eu deveria ter ligado há dias, mas estava com tanto medo... com tanto medo...

Soluços do mais profundo sentimento fluíram de dentro do fone e desaguaram no meu coração. Imediatamente, visualizei o rosto de minha filha e meus sentidos enevoados pareceram clarear.

- Acho...

- Não! Por favor, deixe-me terminar! Por favor! - ela implorava, menos por zanga do que por desespero.

Fiz uma pausa e tentei pensar no que dizer. Antes que pudesse ir em frente, ela continuou:

- Estou grávida, mamãe. Sei que não deveria estar bebendo agora... justamente agora, mas estou com medo, mamãe. Com tanto medo!

A voz se calou outra vez e eu mordi o lábio sentindo os olhos umedecerem. Olhei para o meu marido sentado, imóvel, fazendo movimentos com a boca sem emitir um único som: "Quem é?"

Balancei a cabeça e, como não respondi, ele pulou da cama e deixou o quarto, retomando segundos depois com o sem-fio colado ao ouvido.

Ela deve ter ouvido o dique na linha, pois continuou:

- Você ainda está me ouvindo? Por favor, não desligue!

Preciso de você. Estou me sentindo tão sozinha.

Apertei o telefone na mão e fitei meu marido em busca de orientação.

- Estou aqui, eu não desligaria o telefone - disse eu.

- Eu deveria ter lhe contado, mamãe. Sei que deveria ter lhe contado. Mas, quando a gente conversa, você só fica dizendo o que eu devo fazer. Lê todos aqueles folhetos sobre como conversar com os filhos sobre sexo, e tudo o mais, mas só faz falar. Você não me escuta. Nunca deixa eu lhe dizer como me sinto. É como se o que sinto não tivesse importância. Como você é minha mãe, acha que tem todas as respostas. Mas algumas vezes não preciso de respostas. Só quero alguém que me escute.

Engoli o bolo que se formava em minha garganta e fiquei olhando, fixamente, para os folhetos de "Como conversar com seus filhos" espalhados sobre a mesinha-de-cabeceira.

- Estou ouvindo - sussurrei.

- Sabe, lá na estrada, quando consegui controlar o carro outra vez, comecei a pensar no bebê, em cuidar dele. Então, vi o telefone público e foi como se pudesse ouvir você dizer que ninguém deve beber e dirigir. Então chamei um táxi. Quero ir para casa.

- Que bom, meu bem - afirmei, o alívio inundando o meu peito. Meu marido chegou mais perto, sentou-se ao meu lado e entrelaçou os dedos nos meus. Compreendi, pelo toque, que ele achava que eu estava fazendo e dizendo a coisa certa.

- Mas, sabe, acho que já consigo dirigir.

- Não! - vociferei. Meus músculos enrijeceram e eu apertei ainda mais a mão de meu marido. - Por favor, espere o táxi.

Não desligue até o táxi chegar.

- Eu só quero ir para casa, mamãe.

- Eu sei. Mas faça isso pela mamãe. Espere o táxi, por favor.

Fiquei ouvindo aquele silêncio, amedrontada. Quando a resposta não veio, mordi o lábio e fechei os olhos. De alguma maneira, eu precisava impedir que ela dirigisse.

- Pronto, o táxi chegou.

Só senti a tensão diminuir quando ouvi alguém ao fundo perguntar sobre um táxi.

- Estou indo para casa, mamãe. - Então fez-se um dique e o telefone ficou mudo.

Levantando da cama com lágrimas formando em meus olhos, atravessei o corredor e fui até o quarto de minha filha de dezesseis anos. O silêncio sombrio fazia pesar o ar. Meu marido chegou por trás de mim, passou os braços em torno de meu corpo e pousou o queixo no topo de minha cabeça.

Sequei as lágrimas das faces.

- Precisamos aprender a escutar - disse-lhe.

Ele me virou para que eu pudesse encará-lo.

- E vamos aprender. Você vai ver. - Então me abraçou e eu afundei a cabeça em seu ombro.

Deixei que ele me abraçasse por diversos minutos, então me afastei e cravei os olhos na cama. Ele me fitou por um instante e, então, perguntou:

- Acha que algum dia ela vai se dar conta de que discou o número errado?

Olhei para nossa filha, adormecida, e novamente para ele.

- Talvez não tenha sido tão errado assim.

- Mãe, pai, o que é que vocês estão fazendo? - perguntou aquela vozinha jovem, chegando abafada de debaixo do cobertor.

Aproximei-me de minha filha, que agora se encontrava sentada, olhos fitando a escuridão.

- Estamos treinando - respondi.

- Treinando o quê? - murmurou ela, deitando-se outra vez sobre o colchão, os olhos já fechados, o sono chegando.

- A escutar - disse eu, bem baixinho, roçando a mão levemente em sua face.

 

 

 

Uma das necessidades humanas mais antigas é ter alguém

para se perguntar onde você está quando não volta para casa à noite.

MARGARET MEAD

 

 

 

Sabe qual o presente que eu quero, vó? Você!


 

MÃES E FILHAS

PATRICIA BUNIN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 142

 

- Você não vai esquecer de trazer o espremedor de batatas, vai? - perguntei à minha mãe logo depois de lhe contar que teria de fazer uma mastectomia, Mesmo aos oitenta e dois anos de idade e a quatro mil e oitocentos quilômetros de distância, ela sabia o que eu queria dizer com aquilo: purê de batatas bem ralinho.

Era isso que preparava para mim a cada doença ou percalço de minha infância - servido numa tigela de sopa com uma reluzente colher redonda. Mas eu havia tido sorte quando criança e raramente adoecia. Era mais frequente que aquela batata medicinal resolvesse algum desapontamento ou resfriado.

Desta vez, no entanto, a doença era séria.

Chegando no voo da meia-noite, vindo da Virgínia, minha mãe me pareceu fresca como uma margarida quando passou pela porta de minha casa, na Califórnia, no dia em que voltei do hospital. Eu mal conseguia manter os olhos abertos, mas a última coisa que vi antes de adormecer foi mamãe, abrindo o zíper da mala cuidadosamente arrumada para pegar o espremedor de batatas de sessenta anos de idade. Aquele que ganhou no chá de panelas, com um cabo de madeira já gasto e anos de recordações.

Ela estava na cozinha espremendo batatas para fazer purê no dia em que lhe contei, chorosa, que teria de me submeter a uma quimioterapia. Ela baixou o espremedor e me olhou diretamente nos olhos.

- Fico com você o tempo que for necessário - disse-me ela.

- Não tenho nada mais importante a fazer nesta vida do que ajudá-la a ficar bem. - Eu sempre achara que era a teimosa da família, mas nos cinco meses que se seguiram percebi que herdara essa característica muito honestamente.

Minha mãe decidiu que eu não ia morrer antes dela.

Simplesmente não aceitaria aquilo. Me levava para fazer caminhadas diárias até mesmo quando eu não aguentava passar da entrada da garagem. Amassava as pílulas que eu tinha de tomar e as enfiava em geleias porque, até mesmo na meia-idade e com uma filha crescida, eu não conseguia engolir comprimidos muito melhor do que quando era criança, Quando meus cabelos começaram a cair, ela comprou os chapéus mais engraçadinhos para mim. Me dava refrigerante de gengibre sem gelo numa taça de cristal para acalmar a minha barriga e ficava acordada comigo nas noites de insônia. Servia-me chá em xícaras de porcelana.

Quando eu estava para baixo, ela estava para cima. Quando ela estava para baixo, eu devia estar dormindo. Nunca deixou que eu a visse assim. E, no final, eu fiquei boa. E voltei a escrever.

Descobri que o Dia das Mães não acontece em algum domingo de maio e sim em todos os dias em que se tem a sorte de ter por perto uma mãe que nos ama.

 

Se eu soubesse como é maravilhoso ter netos, eu os teria antes dos filhos. LOIS WYSE


 

A FÉ SE APRENDE PELO AMOR

D. PAULO EVARISTO ARNS - Extraído do livro Da Esperança à Utopia

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 145

 

Quando lembro a figura de minha mãe me vem à memória o livro escrito sobre ela por todos os filhos e netos (Mãe Helena, a Oma - Curitiba, 1995). Minha mãe, extremamente dedicada a meu pai, sabia também cultivar no coração dos filhos o amor a todas as pessoas e o respeito para com os idosos e as crianças.

A recordação mais antiga que guardo de mamãe é da época em que eu tinha uns três anos de idade: ela me revelou que eu tivera uma irmãzinha chamada Irma que morrera com um ano e meio. Era véspera de Finados. No dia seguinte iríamos todos rezar pelos falecidos. Passei a tarde e à noite pensando como teria sido minha irmãzinha falecida. "Irma não pode mais voltar pra ficar conosco?", perguntei a mamãe. Ela explicou que os mortos estão vivos, mas com Deus, numa grande família em que tudo é só alegria, e que eles nos ajudam. E prometeu: "Amanhã, na capela da colônia”, eu iria sentir isso.

Sonho e excitação se misturaram. "Amanhã" seria o dia! Iria ver como Irma, bem viva junto a Deus, nos apareceria. Eu iria vê-la! Sabia que a capela, a maior e mais bela construção da colônia, era a Casa de Deus. Não me lembro se a expectativa me deixou dormir aquela noite.

Calça de brim, camisa estampada, procurei meus tamancos.

Só cheguei a conhecer sapatos aos oito anos. Arrumado, andava à frente de todos, a caminho da capela.

Ocupamos o terceiro banco. O altar, de madeira esculpida, devia estar encobrindo o reino da alegria onde Deus se encontrava com sua família, minha irmãzinha à nossa espera.

Tudo começou com o canto. Era o povo e o coral, tão presente nas colônias alemãs, que se revezavam com as orações "puxadas" pelo tio Jacó. De vez em quando me levantava do banco para ver se não acontecia o que fora prometido por mamãe. Irma iria aparecer. Talvez em meio aos anjos, perto de Deus Pai. Iria reconhecê-la de imediato e buscá-la para trazer comigo, saltitando morro abaixo, percorrendo os duzentos metros que separavam nossa casa da capela.

Em certo momento houve uma pausa. "É agora”, pensei.

Olhei para o lado. Todos de cabeça abaixada refletiam. Mas eu queria ver, e iria ver. Disso estava seguro.

A hora e meia de cantos, preces e intenções sempre me parecera comprida demais. Naquele dia, não, porque esperava o principal: ver a família de Deus e os amigos dele, entre os quais Irma, que eu amava sem nunca a ter visto. Devia estar vestida de branco, ou de vestido de chita colorido. Cabelos castanhos ou louros. Alegre, muito alegre, como todos em casa.

Tive um choque quando papai se levantou e me tomou pela mão. Ele, o chefe da colônia, certamente teria o direito de encontrar-se primeiro com Deus, que era chefe maior ainda e pai de família numerosa. Papai foi saindo do banco, fez uma reverência na direção do altar e se dirigiu à porta da saída da capela.

Talvez o encontro fosse à frente da capela, o lugar mais festivo da colônia, onde se faziam as festas, os leilões e as quermesses. Lá é que se cortavam as melancias arrematadas, os bolos comprados e as garrafas de gasosa, o refrigerante mais apreciado no lugar.

Todavia, à frente da capela só restavam o vazio e o verde das pastagens. Papai me segurou mais firme pela mão enquanto eu buscava descobrir onde estava mamãe para perguntar-lhe quando Irma iria aparecer.

Fomos ao cemitério, a cinquenta passos dali. Paramos à frente de um túmulo cercado de tijolos, enfeitado com muitas flores. Aí chegou mamãe: rosto sereno, quase alegre. Ela era sempre assim quando acabava de rezar. Reclamei:

- Mãe, não vi a Irma. Você prometeu que ela voltava hoje.

Nem sei como cheguei a falar tanto. O auge da emoção já se misturava com a decepção. Minha mãe acolheu, carinhosa, minha decepção:

- Filho, vamos rezar mais um pouco.

Foi o tempo do pai-nosso e ave-maria, as únicas orações que eu sabia rezar junto. Quando acabou a prece, ela encostou a cabeça na minha, pôs a mão em meu ombro e disse:

- A gente vê Deus quando reza direito e sente que ele está perto de nós para nos ajudar em tudo. Sua irmã Irma vai ser sua companheira durante toda a vida para ajudá-lo. Só que você não pode vê-la como vê a casa, o cachorrinho e a gente. Nós vemos Deus e os amigos dele quando gostamos deles. É o coração que vê.

Não entendi tudo. Mas, na vida, muitas vezes me soou a frase: "É o coração que vê Deus e seus amigos." A fé se aprende pelo amor.


 

APRENDENDO A ESCUTAR

MARION BOND WEST

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 149

 

Um ano, viajei para uma conferência de escritores. Ao chegar em casa, em Atlanta, minha família me aguardava. Depois de nos abraçarmos, comecei a lhes contar sobre a viagem. Ou, pelo menos, tentei. Todos queriam me contar alguma novidade diferente - especialmente Jeremy, de oito anos. Pulava para cima e para baixo para ser ouvido e falava mais alto do que as outras crianças, mais alto até do que meu marido, Jerry.

Todo mundo precisa de alguma coisa de mim, pensei. Não querem nem saber sobre a minha viagem. O que é mesmo que Jeremy não pára de repetir?

- Cartolina, mamãe! Eu preciso de cartolina. Vamos ter um concurso lá na escola.

Acalmei-o, com evasivas, prometendo que conversaríamos mais tarde. De volta ao lar, me reacostumei ao telefone, à campainha, a separar a roupa suja, a participar do revezamento de mães que levam as crianças na escola, a responder perguntas e a secar líquidos entornados. Eu lutava contra a arrepiante certeza de que, por mais que tentasse, não conseguia acompanhar as necessidades de minha família. Enquanto andava de um lado para o outro, apressada, tentando decidir o que fazer a seguir, Jeremy me lembrava:

- Manhê, preciso de cartolina.

Pouco a pouco, entretanto, passou a falar mais baixo, quase como se falasse com ele mesmo. Assim, coloquei o pedido de Jeremy no final da minha longa lista de afazeres. Talvez ele simplesmente desista de falar nessa cartolina, pensei, esperançosa.

Em meu terceiro dia em casa, consegui roubar quinze minutinhos para tentar digitar um artigo. Sentada diante da máquina de escrever, ouvi a secadora parar. Hora de colocar outro cesto de roupa para secar. Dois telefonemas importantes precisavam ser retomados. Uma de minhas filhas havia implorado comigo, diversas vezes, para ouví-Ia recitar parte de "Os Cantos de Cantuária”. Uma das gatas passou mais de uma hora miando na minha cara, tentando fazer com que a alimentasse. Alguém havia derramado suco de laranja no chão da cozinha e lambuzado tudo com uma toalha seca. Já passava da hora de começar a preparar o jantar e eu ainda nem havia almoçado. Não obstante, escrevi alegremente durante alguns parcos minutos.

Uma pequena sombra caiu sobre a minha folha de papel. Eu sabia quem era antes mesmo de erguer a vista. Levantei os olhos, mesmo assim. Jeremy ficou ali, de pé, me observando calado. Oh, Senhor, permita que ele não toque no assunto outra vez. Eu sei que precisa de cartolina. Mas eu preciso escrever.

Sorri muito sutilmente para Jeremy e continuei a digitar. Ele me olhou por mais alguns minutos e virou-se para ir embora. Por pouco não o ouço comentar:

- Tudo bem, o concurso termina amanhã mesmo.

Eu queria tanto escrever que, com um esforço mínimo, poderia ter deixado de ouvir aquela observação. Mas não dava para ignorar a voz silenciosa que falou, com urgência, direto ao meu coração. Vá comprar a cartolina dele - agora! Desliguei a máquina de escrever elétrica.

- Vamos comprar cartolina, Jeremy.

Ele parou, virou e me olhou sem sorrir e sem nada dizer quase como se não tivesse me ouvido.

- Vamos - eu o apressei, agarrando a bolsa e as chaves do carro.

Mesmo assim, ele não se mexeu.

- Precisa comprar mais alguma coisa, mamãe?

- Não, só a sua cartolina.

Caminhei em direção à porta. Ele molengou um pouco e perguntou:

- Está indo à papelaria só por minha causa?

Parei e baixei a cabeça para olhá-lo. Realmente olhá-lo.

Marcas do que quer que tivesse comido na escola manchavam sua camisa. Os sapatos largos desamarrados e os restos de suco de laranja que viravam para cima os cantos daquela boquinha sem sorriso conferiam a Jeremy a aparência de um palhacinho.

Subitamente, uma expressão de puro deleite invadiu o seu rosto, apagando qualquer traço de incredulidade. Não creio que jamais esquecerei aquele momento. Dali em diante, passou a movimentar-se com incrível rapidez e, correndo para a base da escada, atirou a cabeça para trás e gritou:

- Ei, Julie, Jen, Jon, a mamãe vai me levar à papelaria!

Alguém precisa de alguma coisa?

Ninguém respondeu, mas ele não pareceu notar. Correu para o carro com expressão de manhã de Natal. Na loja, em vez de correr à minha frente, segurou firme a minha mão e começou a falar muito rápido, contando sobre o concurso.

- O assunto é prevenção contra incêndios. A professora anunciou há muito tempo e, quando falei com você, você disse que a gente falava disso mais tarde. Aí, você viajou. O concurso termina amanhã. Vou ter de dar um duro danado. E se eu ganhar?

E ele foi em frente com infindável entusiasmo, como se tivesse pedido que eu comprasse a cartolina uma única vez.

Jeremy não queria um pedido de desculpas. Isso teria estragado a sua alegria. Então, me limitei a escutá-lo. Prestei mais atenção no que dizia do que jamais havia prestado, para quem quer que fosse. Depois que comprou a cartolina, eu perguntei:

- Vai precisar de mais alguma coisa?

- Você tem bastante dinheiro? - sussurrou.

Sorri para ele, sentindo-me muito rica de repente.

- Tenho, por acaso hoje eu estou cheia de dinheiro. Do que mais precisa?

- Você pode comprar uma cola só para mim e cartolina colorida?

Peguei os artigos restantes e, ao chegarmos ao caixa, Jeremy, que normalmente não faz confidências a estranhos, disse: - Vou fazer um pôster. Minha mãe me trouxe até aqui para comprar o material. - Ele tentava soar natural, mas o rosto o entregava.

Passou a tarde toda trabalhando no pôster, silenciosamente e com enorme determinação.

O vencedor do concurso foi anunciado pelo alto-falante da escola dois dias depois. Jeremy ganhou. Seu pôster foi então inscrito no concurso do condado. Venceu este também. O diretor da escola escreveu-lhe uma carta e anexou um cheque de cinco dólares. Jeremy escreveu uma história sobre o concurso.

Deixou-a sobre a cômoda e eu a li. Uma frase saltou aos meus olhos: "Então a mamãe parou de bater à máquina, escutou o que eu estava dizendo e me levou, eu sozinho, na papelaria." Algumas semanas mais tarde, um imenso envelope pardo chegou pelo correio endereçado a Jeremy. Ele o abriu com um rasgão e leu em voz alta -lentamente e quase sem acreditar - o Certificado de Honra: "Este documento atesta que Jeremy West tem a honra de chegar às finais estaduais do Concurso de Pôsteres da Geórgia com o tema Prevenção contra Incêndios." Fora assinado pelo tesoureiro-geral do estado.

Jeremy se atirou no chão e deu cambalhotas, rindo bem alto. Emolduramos o certificado e, com frequência, quando o olho, lembro-me de que, por muito pouco, quase dera as costas para o seu pedido: de que comprasse uma cartolina para ele.


 

AMOR DE MÃE

PAT LAYE

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 154

 

Quando penso na família de Clara Harden, o que me vem à mente é a felicidade. O som de risos sempre me acolheu em minhas visitas.

O modo de vida deles era muito, mas muito diferente do meu. A mãe de Clara acreditava que alimentar a mente era mais importante do que realizar tarefas triviais. Para ela, cuidar da casa não era uma grande prioridade. Com cinco filhos de idades variadas - indo de Clara, a mais velha, com doze anos, a um bebê de dois anos -, essa falta de ordem às vezes me incomodava, mas nunca por muito tempo. Aquela casa vivia imersa em algum estado de caos, com pelo menos uma pessoa em crise real ou imaginária. Mas eu adorava fazer parte daquele bando turbulento, com sua atitude despreocupada e positiva perante a vida. A mãe de Clara nunca estava ocupada demais para nós.

Parava de passar roupa para nos ajudar com algum projeto da equipe de chefes de torcida ou então desligava o aspirador de pó para convocar a trupe inteira para um passeio no bosque para colher espécimes para o projeto de ciências de algum filho.

Nunca dava para saber o que você ia acabar fazendo quando visitava aquela família. Suas vidas eram repletas de divertimento e de amor - de muito amor.

Assim, o dia em que as crianças da família Harden saltaram do ônibus escolar com olhos vermelhos e inchados, eu soube que algo de muito errado havia acontecido. Corri até Clara e puxei-a para um canto implorando para ouvir o que havia acontecido, mas sem estar preparada para a resposta. Na noite anterior, a mãe de Clara lhes contara que tinha um tumor terminal no cérebro e que lhe restava apenas alguns meses de vida. Eu me lembro tão bem daquela manhã. Clara e eu fomos para trás do prédio da escola onde soluçamos, abraçadas, sem saber como dar fim àquela dor incrível. Ficamos ali, compartilhando o nosso pesar até tocar o sinal para a primeira aula.

Vários dias se passaram até eu ir à casa dos Harden outra vez. Apreensiva com a angústia e o sofrimento e habitada por uma imensa culpa por minha vida ter continuado igual, fui protelando até minha mãe me convencer de que não podia negligenciar minha amiga e sua família num momento de tristeza.

Então fui fazer-lhes uma visita. Quando entrei na casa, para minha surpresa e deleite, ouvi música alegre e uma barulheira de vozes numa animada discussão entrecortada por risadas e gemidos queixosos. A Sra. Harden estava sentada no sofá jogando Banco Imobiliário com todos os filhos à sua volta. Todos me receberam com sorrisos enquanto eu lutava para conter o meu assombro. Não era isto que eu esperava.

Finalmente, Clara desvencilhou-se do jogo e fomos para o seu quarto, onde ela me explicou o que estava acontecendo. A mãe lhes dissera que o maior presente que poderiam lhe dar era tocar a vida como se nada estivesse errado. Queria que suas últimas recordações fossem felizes e todos haviam concordado em se esforçar.

Um dia, a mãe de Clara me convidou para um evento especial. Corri para lá e a encontrei com um imenso turbante dourado na cabeça. Ela me explicou que havia resolvido usar aquilo em vez de uma peruca, já que os cabelos começavam a cair.

Colocou miçangas, cola, hidrográficas coloridas, tesouras e pano sobre a mesa e nos instruiu a enfeitá-Io, enquanto permanecia sentada como o mais nobre marajá. Transformamos um turbante sem graça num objeto de chamativa beleza, cada um de nós dando o seu toque especial. Mesmo enquanto discutíamos onde colocar a bugiganga seguinte, eu me dei conta do quanto a Sra.

Harden estava pálida e frágil. Mais tarde, tiramos uma foto com a mãe de Clara, cada qual apontando orgulhosamente para a sua contribuição para o turbante. Uma recordação divertida de se guardar - muito embora o temor silencioso de que ela nos deixasse não estivesse muito longe.

Finalmente chegou o triste dia em que a mãe de Clara morreu. Nas semanas que se seguiram, a angústia e a dor dos Harden foi algo impossível de descrever.

Então, um dia, cheguei na escola e encontrei uma Clara muito animada, rindo e gesticulando alvoroçada diante dos colegas de turma. Ouvi o nome de sua mãe ser repetido com frequência. A velha Clara estava de volta. Quando cheguei ao seu lado, ela me explicou o motivo de sua alegria. Naquela manhã, ao vestir a irmãzinha mais nova para a escola, havia encontrado um bilhete engraçado que a mãe escondera dentro da meia da menina. Era como ter a mãe de volta.

Naquela tarde, a família Harden virou a casa de cabeça para baixo à caça de mais recados. Cada nova mensagem encontrada era compartilhada, embora algumas tenham passado despercebidas. No Natal, ao tirarem os enfeites do sótão, encontraram uma maravilhosa mensagem de Natal.

Nos anos que se seguiram, as mensagens continuaram a surgir, esporadicamente. Uma emergiu até mesmo na formatura de Clara, e outra, no dia de seu casamento. A mãe havia confiado cartas a amigos, que as entregavam em cada ocasião especial.

Até mesmo no dia em que nasceu o primeiro filho de Clara, chegou um cartão com uma comovente mensagem. Cada filho recebeu esses bilhetes curtos e engraçados ou então cartas repletas de amor, até o último se tornar adulto.

O Sr. Harden se casou outra vez e no dia de seu casamento um amigo lhe entregou uma carta escrita pela esposa - a ser lida para os filhos - na qual ela lhe desejava felicidades e instruía os filhos a cercarem a madrasta de amor, pois tinha imensa fé de que o pai jamais escolheria uma mulher que não fosse generosa e carinhosa com seus preciosos rebentos.

Muitas vezes pensei na dor que a mãe de Clara deve ter sentido ao escrever aquelas cartas para os filhos. Também imaginei a alegria traquinas que a invadia enquanto escondia aqueles bilhetinhos. Mas em nenhum momento deixei de me impressionar com as recordações maravilhosas que ela proporcionou para aquelas crianças apesar da dor que sofreu, em silêncio, e da angústia que deve ter sentido em deixar a sua adorada família.

Esses atos de desprendimento exemplificam o maior amor materno que jamais conheci.

 

 

 

Estou convencido de que o maior legado que podemos deixar para os nossos filhos são lembranças felizes.

OG MANDINO

 


 

SAINDO DE CASA

BETH COPELAND VARGO

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 159

 

- Eu não vou chorar - disse a Chuck, meu marido, ao deixarmos a sessão de orientação para pais, organizada diversos meses antes de nossa filha partir para a faculdade.

Talvez as outras mães chorassem ao deixarem os seus filhos no alojamento, mas eu não choraria. Olhei à minha volta, no auditório, para todas as outras mães e me perguntei quais delas seriam as choronas. Pensei assim: "Eu é que não vou me agarrar a uma caixa de lenços de papel quando chegar a hora de me despedir de Sarah. Sou mais forte do que isso. Para que me lamuriar e soluçar só porque a minha garotinha está crescendo?" Passamos a tarde inteira ouvindo os pais dos veteranos falarem do quanto as nossas vidas mudariam quando nossos filhos partissem para a faculdade. Uma mãe mais experiente avisou que choraríamos até chegar em casa.

Cutuquei Chuck:

- Isto é ridículo - comentei. - Por que será que estão dando tanta trela para isso tudo? - Ser mãe era importante para mim, mas, pelo amor de Deus, não era a única coisa! Tenho emprego, tenho amigos, eu tenho uma vida!

Sarah e eu passamos o verão inteiro nos alfinetando. Eu detestava sua mania de dizer que não aguentava esperar até partir para a faculdade - como se sua vida em casa, conosco, fosse uma espécie de cativeiro. Ela odiava o fato de eu viver pedindo que limpasse o quarto e colocasse a louça suja dentro da pia; a maneira de eu resmungar quando precisava usar o telefone e ela estava ocupando a linha; a maneira de lhe perguntar por onde andara quando saía com os amigos. Afinal de contas, tinha dezoito anos. Não precisava ficar dando satisfações à mãe a cada

cinco minutos.

Em agosto, encontrei minha amiga Pat na biblioteca.

Pat recordou as semanas anteriores à partida da filha para a faculdade.

- Passamos o verão inteiro às turras - contou. - Acho que foi a nossa forma de nos acostumarmos a viver longe uma da outra. Quando a gente passa o tempo todo discutindo, com raiva, não se sente tão mal quando ela está partindo.

- Além disso - reagi, pensativa -, ela não se sente tão mal por estar partindo quando passa o tempo todo fula da vida com a mãe.

No dia da mudança, nós a ajudamos a desfazer as malas e a guardar seus pertences no quarto do alojamento. Cobri o colchão de Sarah com lençóis extralongos enquanto Chuck montava uma prateleira dentro de seu guarda-roupa. Depois do almoço, nos despedimos, nos abraçamos no meio-fio e, então, Chuck e eu partimos.

A mulher da orientação estava enganada, pensei. Isto não é tão ruim assim.

Dois dias depois, entrei em seu quarto. A porta estava aberta, a cama estava feita e toda a desordem da infância e da adolescência haviam sumido. E de repente eu me dei conta.

Ela se fora.

Mais tarde, enquanto passava aspirador na sala, pensei ter ouvido alguém dizer: "Mãe." Desliguei o aspirador para ouvir os passos atravessarem a porta, para responder ao chamado de uma criança. Foi então que compreendi que estava sozinha.

Sarah havia partido e nada, nunca mais, seria igual.

Tive vontade de ouvir sua voz. Queria saber como ela estava. Queria que ela se sentasse na beiradinha de minha cama à noite, como fazia antigamente, para me contar sobre o seu dia, sobre as aulas, sobre os professores, sobre os amigos, sobre os garotos dos quais gostava, sobre os garotos que gostavam dela...

- Aconteceu alguma coisa? - perguntou Chuck ao chegar em casa. Eu cortava legumes para refogar. Ele olhou para o meu rosto. - Você está chorando?

- São as cebolas - funguei, enquanto uma lágrima serpenteava pela minha face.

Depois do jantar, eu disse:

- Vamos ligar para ela. Talvez esteja esperando que liguemos.

- Mas só fazem dois dias - disse Chuck. - Vamos lhe dar pelo menos uma semana para se assentar.

Ele tinha razão, é claro. Eu não queria me transformar numa espécie de mãe psicótica. Me lembrei de como era ter dezoito anos e estar longe de casa pela primeira vez. Ela estava fazendo novos amigos, aprendendo novas ideias, formando novos elos. Eu precisava lhe dar espaço, a distância da qual precisava.

Então, o telefone tocou.

- Oi, mãe - disse Sarah. - Dava para você mandar umas fotos para eu colocar no quadro de cortiça? E alguns bichinhos de pelúcia?

Ela queria o ursinho. Queria uma foto minha com o pai - e uma do irmão mais novo. Adorava estar na faculdade, mas também sentia saudades nossas. E então começou a me contar sobre o seu dia, sobre as aulas, sobre os professores, sobre os meninos dos quais gostava, sobre os meninos que gostavam dela....

 

 

 

Sempre tive a sensação de que Deus nos empresta nossos filhos até terem, aproximadamente, dezoito anos. Se você não tiver feito pontos com eles até então, já é tarde demais.

BETTY FORD

 


 

É O CORAÇÃO QUE LEMBRA

TINA WHITTLE

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 163

 

"A mãe de quem você se lembra, e a mãe que você será”.

Essas palavras inundaram a minha mente na manhã em que fui mãe pela primeira vez. Ao colocarem Kaley em meus braços, aquela trouxinha quentinha e agitada de olhos arregalados, jurei para mim mesma que seria a melhor das mães, o tipo de mãe da qual eu me lembrava: amorosa, paciente, eternamente calma e plácida. Minha vida inteira havia pulsado com amor e, enquanto acariciava a minúscula cabeça de meu bebê e o sentia virar o rosto para afocinhar o meu dedo, jurei para ela:

- Você só conhecerá o amor, pequenininha.

Eu me lembrei da citação outra vez duas semanas mais tarde, às três da manhã, enquanto andava em círculos com minha recém-nascida aos berros, cheia de cólicas. Naquele momento, entretanto, aquelas palavras não me serviam de consolo. Afinal de contas, que bebê ia querer se lembrar de mim como eu estava então - privada de um boa noite de sono, ansiosa e com a paciência mais gasta do que uma lâmina de sabão.

E apesar da promessa que havia feito, eu certamente não estava sentindo amor algum. Na verdade, não estava sentindo grande coisa. Estava entorpecida, fraca de tanta fadiga, tentando fazer tudo sozinha embora meu marido e minha mãe estivessem dormindo próximos dali, ao final do corredor. Tentava fazer Kaley se calar e a segurava mais perto de mim, mas ela apenas esperneava, sacudia o corpo todo e gritava ainda mais alto. E subitamente não pude conter as lágrimas. Fui afundando o corpo até o chão da sala escura, coloquei-a sobre o colo e solucei com o rosto enterrado nas mãos.

Não sei quanto tempo fiquei assim, mas, muito embora parecessem horas, não podem ter sido mais do que alguns minutos. Através de uma névoa de lágrimas, vi uma luz acender no corredor, desenhando a silhueta de minha mãe enquanto vestia o robe. Logo senti a sua mão em meu ombro.

- Dê-me o bebê - disse.

Não discuti. Derrotada, me limitei a lhe passar aquela trouxinha barulhenta e me arrastei até o sofá, onde deitei com o corpo encolhido numa bolinha bem apertada.

Minha mãe murmurou ao pé do ouvido de Kaley e, com imensa facilidade - fruto de décadas de prática -, passou-a para o ombro. E, por fim, o pranto se transformou em fungadas, as fungadas em soluços e, dali a meia hora, eu só ouvia ronquinhos abafados de bebê.

Senti alívio, mas não senti paz. Que espécie de mãe era eu que não conseguia acalmar a própria filha? Que espécie de mãe era eu que nem ao menos quis tentar? Observei mamãe sentar-se na cadeira de balanço, olhei-a dar início ao ritmo que, eu sei, havia embalado o meu sono em incontáveis noites. Tudo o que consegui sentir foi uma desesperada e exausta sensação de fracasso.

- Sou uma mãe terrível - murmurei.

- Não, não é.

- Você não compreende. - Novas lágrimas começaram a brotar no canto de meus olhos. - Neste exato instante, eu nem ao menos gosto dela. Meu próprio bebê.

Minha mãe riu baixinho.

- Bem, ela não está muito gostável hoje, está? Mas você ficou com ela o tempo todo. Quicou com ela no colo, a embalou, caminhou com ela. E, quando nada disso funcionou, você apenas a segurou nos braços e a manteve próxima.

Eu me sentei e abracei os joelhos.

- Mas a única coisa que consigo sentir é frustração, raiva e impaciência. Que tipo de mãe é essa?

Minha mãe não respondeu imediatamente. Apenas olhou para o bebê, adormecido em seus braços. Mas ficou com um ar pensativo e, quando falou, sua voz transmitia algo de longínquo e melancólico:

- Eu me lembro de todas elas - disse, suavemente. Especialmente da última. Depois que você nasceu, eu costumava rezar, pedindo paciência. Eu chorava e implorava para que me dessem paciência. - Ela me olhou, um meio sorriso em seu rosto. - Acho que não fui ouvida, até hoje.

Eu não podia crer no que estava ouvindo.

- Mas mamãe, eis aí o que melhor me lembro a seu respeito.

Não importava o que acontecesse, você nunca perdia a serenidade. De alguma maneira, você conseguia fazer tudo acontecer ao mesmo tempo.

E era verdade. Não importava quantos brownies precisassem ser assados de última hora, quantos pôsteres para o projeto de ciências precisassem ser coloridos - minha mãe sempre dava um jeito. Sempre calma. Sempre serena. Como enfermeira, seus horários eram irregulares, mas a cada peça de teatro, a cada recital do qual participei, mesmo que não conseguisse chegar a tempo para ver as cortinas se abrirem, eu sempre podia contar em ver um vulto conhecido, vestido de branco, entrar discretamente no auditório escuro.

Essa era a mãe da qual eu me lembrava, a mãe que fazia cada momento contar. A mãe que nunca se portou como eu acabava de me portar.

- Eu sempre pude contar com você - afirmei. - Sempre.

Mas, para minha imensa surpresa, ela revirou os olhos.

- Pode ser que você recorde os fatos assim, mas eu só lembro de me sentir sendo puxada em sete direções diferentes ao mesmo tempo. Você e seu irmão, seu pai, o pessoal do trabalho.

Todos precisavam de mim, mas eu nunca tinha tempo o bastante para estar disponível para todo mundo.

- Mas você estava sempre disponível!

Ela balançou a cabeça.

- Não como eu gostaria de ter estado, com a frequência de pelo período que gostaria de ter estado. Então rezava e pedia paciência, para que eu pudesse aproveitar ao máximo o tempo que, de fato, tínhamos juntas. Mas você sabe o que dizem. Deus não nos dá paciência. Ele apenas nos envia momentos que nos façam treinar a paciência, e o faz repetidamente.

Ela olhou para Kaley.

- Momentos como este.

Olhei as duas e então, subitamente, compreendi: as lembranças não são guardadas em nossas mentes - perfeitamente aptas a registrar detalhes de forma incorreta - e sim em nossos corações. Minha mãe e eu não recordávamos a minha infância da mesma forma, mas compartilhávamos aquilo que de fato importava.

Ambas nos lembrávamos do amor.

Levantei do sofá e fui me sentar ao pé da cadeira de balanço.

Ficamos assim por um bom tempo: minha mãe, minha filha e eu.

E muito embora a choradeira tenha começado outra vez com o nascer do sol, naquele momento dourado e tranquilo - eu sentada aos pés de minha mãe, com a mão nos cabelinhos sedosos de minha filha - murmurei um silencioso "muito obrigada”.

Se Kaley, de alguma maneira, se lembrar daquela noite, espero que recorde o amor instintivo que me fez permanecer ao seu lado apesar de tudo.

 

 

 

Jamais houve uma criança tão encantadora, mas sua mãe ficava satisfeita quando o fazia dormir. RALPH WALDO EMERSON

 

 

Eu devo ter dois corações, mãe. Porque eu te amo tanto.


 

UMA CRIANÇA SEM MÃE

JANE KIRBY

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 169

 

A morte de minha mãe foi rápida e brutal - teve um vírus no estômago na sexta-feira à noite e estava morta na segunda-feira de manhã. Não houve tempo de me despedir. Não estava preparada para perdê-la. Mas como explicar a morte para uma criança de dois anos? Perguntei a meu pai como eu reagira.

"Você era muito pequena, foi fácil distraí-Ia." Sua resposta apressada me fez entender que, na época, ele não conversara comigo sobre o assunto e mesmo agora só fala de mamãe se o pressiono.

Quase todas os personagens da minha infância eram como eu - sem mãe: Cinderela, Dumbo, Bambi e Branca de Neve. Os autores usam a técnica de criar personagens sem mães para dar-lhes um status de heroínas e fazê-las despertar mais carinho. E eu, criança, gostava das heroínas - não porque as visse como abandonadas e vulneráveis, mas porque tínhamos alguma coisa em comum.

Imagino que vocês esperam que eu fale da tristeza que senti por ser órfã de mãe, ou das habilidades que tive de desenvolver para compensar a perda. Mas a verdade é que não posso dizer que senti falta de mãe, pois houve várias mulheres que, cada uma a seu modo, desempenharam função de mãe para mim.

Fui cercada de tias, irmãs, avó afetuosíssimas que capricharam nas minhas refeições, trançaram meu cabelo, me contaram histórias na hora de dormir e ouviram minhas histórias com interesse. Fui levada e buscada na escola com cuidado, prepararam-me para viver com naturalidade a primeira menstruação, deram-me o primeiro sutiã. Meu pai foi uma presença protetora e não me lembro de jamais ter sido carente de amor ou sentir falta de abraços quando era pequena.

Na época da escola, intuí que o fato de não ter mãe me tornava especial, mais importante de alguma forma. Usei isso com as freiras para que me dessem um tratamento diferente. Usei também com meu pai, reclamando dele quando se atrasava para me apanhar: "Se mamãe estivesse viva, aposto que ela chegaria na hora." Na fase de competição entre adolescentes, quando minhas amigas se queixavam de suas mães, eu dizia: "Vocês, pelo menos, têm mãe." Foi só quando tive meu filho que comecei a sentir falta de minha mãe. Não porque ela poderia me ajudar a cuidar dele, mas porque, com Jacob, veio o entendimento do que uma mãe dá a seu filho, do que uma mãe é. Senti por meu filho um amor absoluto que eu não imaginava que um ser humano pudesse ter pelo outro. Percebi o que eu perdera e do que eu sentira falta, mas que nunca me ocorrera.

Fiquei especialmente atenta quando ele fez dois anos e cinco dias, exatamente a idade que eu tinha quando minha mãe morreu. Procurava entender como sua morte me afetara. Tentava imaginar como seria uma criança que mal começou a andar e tem o centro de sua vida roubado. Mas não conseguia me lembrar da experiência.

Eu não podia voltar àquela época. Em vez disso, fixei-me na minha relação com Jacob - de mãe para filho e não de filho para mãe.

Colocava seus dedinhos roliços na palma da minha mão e imaginava que minha mãe também segurara meus dedos assim.

Brincava com ele de "aperto de mão secreto" - três apertos de mão enquanto eu murmurava "amo você". Quem fazia assim comigo era minha avó materna. Talvez ela também tenha brincado dessa forma com minha mãe. Quando consolava Jacob em sua tristeza ou fazia cosquinhas na sua barriga para que ele risse, achava que certamente mamãe fizera o mesmo comigo.

Pela primeira vez eu pensava em minha mãe como uma mulher que amara sua filha e se alegrara com ela com a mesma paixão que eu sentia por Jacob. Então chorei muitas vezes, de forma profunda, como uma purificação.

Chorei pela mulher que foi tirada de sua filha. Chorei por aquela menininha que eu queria abraçar e a quem eu queria dizer o quanto lamentava a perda que ela sofrera. Dizer que eu a protegeria e a ajudaria a se sentir segura. Queria que ela soubesse que fora muito e profundamente amada por sua mãe.

Fazer isso me deu liberdade de experimentar todas as sensações que eu passara a vida negando.

Agora, quando leio para Jacob dormir e vejo filmes com ele, ainda tenho empatia por personagens solitários: o ET, separado da nave mãe, o bebê dinossauro que perdeu a mãe tão cedo, a Pequena Sereia, que só tinha o pai, e a Bela, que enfrentou a Fera sem ter a mãe para lhe dar conselhos. E agora, apesar de ser imensamente grata por todas as figuras femininas que desempenharam para mim função materna, também entendo como corta o coração a ideia de uma criança sem mãe. O que a vida não me ensinou, eu aprendi com meu filho.


 

ÓCULOS ESCUROS

BEVERLY BECKHAM

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 173

 

Temos uma foto dele em algum lugar. É a foto de um garotinho de cinco anos com o coração partido, atirado num banco da Disney, tentando conter as lágrimas, os lábios tão tensos que quase dá para vê-Ios tremer, as orelhas de Mickey tortas.

Mas é possível que não tenhamos essa foto a não ser em nossa lembrança. Ainda assim, é a mesma imagem compartilhada por mim e por meu marido: um dia de sol, uma luz branca cintilando nas janelas da Main Street e refletindo dezenas de carruagens com rodas de cromo. Luz e calor bruxuleavam por todos os lados e nossos dois filhos clamavam por óculos escuros:

- Por favor, mamãe? Pai, por favor, por favor!

Entramos rapidamente numa loja e Rob escolheu óculos de Pato Donald, um troço de plástico azul e branco que escorregava do nariz, deixando-o mais parecido com o Tio Patinhas do que com o Pato Donald. Mas não lhe dissemos isso. Ele amava aqueles óculos. Lauren, já intensamente preocupada em andar na moda apesar dos três anos, escolheu óculos cor-de-rosa da Minnie porque vestia rosa naquele dia.

Saíram da escuridão da loja para a claridade do dia com os óculos no rosto, subiram a Main Street, atravessaram o castelo e entraram na Terra da Fantasia. Quando andaram no brinquedo do Peter Pan, tiraram os óculos e os seguraram, fazendo o mesmo no Piratas do Caribe.

De alguma forma, depois disso, talvez justamente quando saíram desse brinquedo específico, ou quem sabe quando parou para amarrar os tênis ou para ajeitar as orelhas do Mickey, ou quando paramos para almoçar, os óculos de Pato Donald desapareceram. E Robbie, que tinha cinco anos e amava aqueles óculos, chorou.

"Se você os amava tanto, deveria ter tido mais cuidado com eles", foi o que lhe dissemos. Ou alguma coisa do gênero. Imagino eu. Mas éramos jovens e pouco versados na arte de criar filhos e, afinal, não era para a gente lhe ensinar a cuidar de suas coisas? Não era nosso dever nos certificarmos de que ele compreendia que dinheiro não cresce em árvores?

Quanto custaram os óculos? Um dólar? Dois dólares? Que mal haveria em secarmos as suas lágrimas e dizermos: "Venha, vamos comprar outros. Sei que você não queria perdê-Ios." Será que ele teria se transformado numa pessoa do mal por causa disso? Teríamos nós o corrompido de alguma forma imprevisível?

Lauren disse:

- Você pode ficar com os meus, Robbie. - Mas ele não queria os óculos dela. Eram cor-de-rosa. Eram óculos de menina.

Os dele eram azuis, eram óculos de menino. E haviam sumido.

Ele os adorava e agora estava arrasado.

Se eu pudesse fazer tudo outra vez, teria voltado a Main Street, comprado outro par de óculos de Pato Donald novinhos em folha e fingido que os encontrara no chão. Eu teria berrado:

"Ei, olhe só o que achei!" E ele teria se levantado na mesma hora, corrido - rindo -, atirado os braços em torno de mim e colocado os óculos no rosto. E é assim que nos lembraríamos daquele dia.

Vivendo e aprendendo.

Há alguns meses, estávamos em Orlando, não exatamente na cena do crime, mas bastante perto. Nosso filho, há muito adulto, estava lá a trabalho e pegamos um avião para encontrá-lo. Em meio àquela agitação de carros alugados, restaurantes e deslocamentos para cá e para lá, adivinhe só? Ele perdeu os óculos escuros!

Não ralhamos com ele, nem ao menos nos passou pela cabeça dizer: se você gostava tanto deles, deveria ter sido mais cuidadoso. Todo mundo perde coisas o tempo todo. Em vez disso, fizemos o que a maioria dos adultos faz por outros adultos: tentamos ajudá-Io a descobrir onde os teria deixado e - imagine só - acabou por encontrá-Ios numa sala de reunião na qual estivera no dia anterior.

Tinha um sorriso estampado no rosto ao voltar para o carro.

Passos lépidos, olhos ocultos pelos óculos escuros, ele em nada lembrava aquele menino de cinco anos.

Exceto para mim.

Foi o meu primeiro filho e o primeiro sempre paga o preço mais alto por você ser nova naquilo, por seguir tudo à risca e não querer errar sendo boazinha demais. Mas aí acaba errando do mesmo jeito porque, na verdade: você lá sabe o que está fazendo?

Sei que, como pais, temos obrigação de ensinar aos nossos filhos. Mas também sei que nem tudo precisa ser uma lição.

Às vezes, óculos escuros são só isso: óculos escuros perdidos e nada mais.


 

UM FILHO PERFEITO

SHARON DREW MORGAN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 177

 

Aos vinte e seis anos, tive um lindo bebê. Seu cabelo era escuro, seus olhos, verdes, e tinha os cílios mais longos que eu jamais vira. Falou aos nove meses, andou aos dez e, aos dois anos, já esquiava. Era minha alegria e eu sentia por ele um amor intenso, que nem imaginava ser possível existir.

Como todas as mães, eu sonhava com o futuro de George. Quem sabe seria um engenheiro? Um esquiador, com certeza.

Era tão inteligente que frequentava uma escola especial. Uma vez, eu contava uma dessas "histórias de mãe" para uma amiga e ela perguntou: "Que bom que George é perfeito. Você o amaria tanto se ele não fosse?" Pensei sobre a pergunta, mas a esqueci até o ano seguinte.

Um dia, aos oito anos, George se levantou com o pé apontando para cima, só conseguindo andar se apoiando no calcanhar. Percorremos consultórios médicos enquanto o problema atingia uma perna, depois a outra. Ouvimos alguns diagnósticos até chegar ao de distonia generalizada, um problema neurológico. Ele perderia a capacidade de andar e talvez o controle da maioria dos músculos, num doloroso processo.

Eu sentia muito ódio: de Deus, que fizera aquela maldade comigo e com meu filho, de mim, que de alguma forma causara nele um problema genético, e de George, por sua deformação.

Eu me envergonhava de andar com ele na rua. As pessoas o viam e rapidamente me fitavam com pena. Às vezes, eu não suportava olhá-Io, de tão torto e feio. Gritava para que ele andasse reto, porque não aguentava ver como ele se tornara deformado. George sorria, dizendo: "Estou tentando, mamãe." Eu não o achava mais bonito. Só conseguia ver suas pernas tortas, seus braços, costas e dedos tortos. Não queria mais amá-Io, porque tinha medo de perdê-lo. Não podia mais sonhar com o que ele seria no futuro, pois nem sabia se ele teria um futuro. Pensava sempre que não poderia dançar com ele no seu casamento.

Um dia, fiquei de coração tão partido ao vê-Io tentar colocar seus pés tortos no seu amado skate, que tratei de guardá-Io no armário, dizendo que era para ele "usar depois".

Toda vez que lia para George na hora de dormir, ele me perguntava a mesma coisa: "Se rezarmos muito, você acha que vou estar andando quando acordar?" "Não, mas acho que devemos rezar de qualquer jeito." "Sabe, mamãe, os outros meninos me chamam de aleijado, não querem mais brincar comigo. Não tenho mais amigos. Odeio eles. Me odeio." Tentamos todos os remédios, dietas e médicos possíveis.

Procurei o centro de pesquisas sobre a doença e fundei a Associação Inglesa dos Portadores de Distonia. Dirigi minha vida para procurar a cura para esse mal, querendo que meu filho voltasse a ser normal.

Aos poucos, a relação com George foi me ensinando a perdoar, mas eu ainda me sentia paralisada pelo medo. Foi quando uma amiga me levou a um grupo de oração, onde aprendi a praticar diariamente. Fui adquirindo uma paz interior que não conhecera antes, mesmo quando meu filho era perfeito. Descobri que o problema que vivíamos era uma chance de crescimento para nós, tão dolorosa quanto preciosa. Agora, o amor parecia maior do que qualquer sensação que eu pudesse compreender. Vi que George era meu professor e que a lição era o amor.

Sei que George sempre será um pouco diferente das outras crianças - mas é meu filho querido. Parei de ter vergonha quando seu corpo não estava reto. Aceitei que ele crescesse com perspectivas diferentes das outras pessoas. Mas ele se desenvolveu com mais paciência, mais ambição e mais coragem do que qualquer pessoa que eu já conhecera.

Aos dezoito anos, George conseguiu esticar uma das pernas.

Jogou fora uma muleta. No mês seguinte, jogou a outra. Seu andar era capenga, mas andava sozinho. Veio visitar-me logo depois disso e, quando abri a porta de casa, vi na minha frente um rapaz alto e bonito. "Oi, mamãe", ele sorriu. "Quer ir dançar?"

Numa recente reunião de minhas colegas de escola, todas comentavam os sucessos dos filhos.

"Meu filho é músico." "Minha filha é médica." Quando chegou minha vez, falei com extremo orgulho:

"Meu filho anda. E ele é perfeito."


 

MARY

RACHEL NAOMI REMEN extraída do livro As Bênçãos do Meu Avô.

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 181

 

O filho de Mary veio passar em casa a semana de férias da universidade. Sentia-se cansado e estava pálido, perdera a vitalidade. Preocupada, ela o levou ao médico, que diagnosticou uma forma rara de câncer. Era incurável.

Quando Mary ouviu o diagnóstico, o filho já voltara para a faculdade. Ela subiu os degraus da entrada, abriu a porta com força e uivou com rodas as suas forças. Gritando de revolta, correu de quarto em quarto abrindo as janelas com ímpeto e dando socos no ar. O marido tentou acalmá-Ia sem resultado. Assustado, ele telefonou para um terapeuta que vinham consultando juntos e correu com o telefone até o quarto onde Mary gritava diante da janela aberta.

- Mary, Mary - disse ele -, o terapeuta está ao telefone.

Ao ouvir isso, ela avançou sobre o marido, gritando:

- O terapeuta? O terapeuta? Fale você com o terapeuta, Harry. Eu vou falar com Deus.

Mary precisou de toda a sua raiva, força de vontade e vitalidade para atravessar os quatorze meses que se seguiram. Com a ajuda das quatro filhas, ela levou o rapaz a quem quer que pudesse ajudar. Tentaram de tudo, mas o câncer avançou com fúria, transformando-o numa sombra de si mesmo, até que, finalmente, ele morreu nos braços da mãe. Tinha apenas 20 anos. Todo aquele amor materno não fora capaz de salvá-Io.

Mary sentiu que sua vida se fora com o filho. Passou vários meses entorpecida. Inconsolável.

Cerca de dois anos mais tarde, Mary foi com seu irmão a uma igreja católica que nunca visitara. Sem conseguir rezar, ela caminhou sem destino pela nave até parar em frente a uma imagem da Virgem Maria. De repente, a dor que estava congelada em seu coração encontrou palavras e ela perguntou em voz alta:

- Como a senhora conseguiu, Maria? Como conseguiu renunciar a seu filho? Como conseguiu encontrar uma maneira de continuar vivendo depois que ele morreu? Onde descobriu alguma esperança de conforto?

Com lágrimas descendo pelo rosto, ela disse à Virgem que sempre fora uma boa pessoa, uma boa mãe.

- Por quê? - inquiriu. - Por quê?

Que razão poderia haver para uma pessoa tão cheia de vida, tão nova, tão brilhante, sofrer e morrer? Mary sabia, sem sombra de dúvida, que jamais superaria aquela perda. Ainda chorando, ela contou à Virgem como seu filho era jovem, como ele se esquecia de comer, como não sabia lavar as próprias roupas direito.

- Ele precisava de uma mãe - disse, em lágrimas. - Ele ainda precisa de uma mãe. Não posso compreender, mas entrego-o aos seus cuidados.

Virou-se de costas e saiu da igreja.

Um ou dois dias depois, enquanto dirigia para o trabalho, Mary surpreendeu-se ao perceber que estava cantarolando um antigo hino de louvor sobre o consolo. Com o passar do tempo, devagarinho, ela foi conseguindo aliviar seu coração.

Fiquei perplexa com a força dessa história, impressionada com a intensidade do amor de Mary pelo filho e da dor pela sua perda. Não consegui dizer nada. Mary olhou para mim e sorriu:

- E o Mistério, Rachel? O Mistério é que é possível ser reconfortada.

Recentemente, Mary escreveu-me uma carta para contar que duas de suas filhas estão grávidas. Na próxima primavera, uma delas trará ao mundo um menino, seu primeiro neto.


 

UM MOMENTO PODE DURAR PARA SEMPRE

GRAHAM PORTER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 9

 

 

Nossas férias no lago Michigan tinham terminado. Para evitar engarrafamentos na volta para casa, eu tinha acordado de madrugada para colocar no carro a parafernália dos nossos filhos, com idades de três a nove anos. Não era exatamente a minha ideia de diversão. Mas consegui o milagre de estar com tudo arrumado precisamente no horário que estipulara. Voltei ao chalé e encontrei minha mulher, Evie, acabando de varrer a areia do chão.

- São seis e meia, hora de partir - eu disse. - Onde estão as crianças?

Evie deixou a vassoura de lado.

- Deixei que fossem até a praia para se despedirem.

Balancei a cabeça, aborrecido, porque isso atrapalhava o meu horário cuidadosamente planejado. Por que, então, acordar tão cedo se não íamos conseguir estar na estrada antes que o tráfego ficasse insuportável? Afinal, as crianças já tinham passado duas ótimas semanas fazendo castelos de areia e passeando por toda a região do lago à procura de pedras mágicas. E hoje elas só tinham que relaxar no carro - ou dormir, se quisessem-, enquanto eu me encarregaria da longa volta para casa.

Abri a porta de tela, passei pela varanda. Encontrei meus quatro filhos na praia, depois das dunas suaves do terreno.

Tinham tirado os sapatos e estavam andando na ponta dos pés na água, rindo e pulando cada vez que uma onda quebrava em suas pernas. O xis da questão era o quanto poderiam entrar no lago sem encharcar as roupas. Fiquei irritado ao lembrar que todas as roupas secas das crianças já estavam guardadas, sabe Deus onde, na mala entupida do carro.

Com a firmeza de um sargento, fiz uma concha com as mãos para gritar que fossem todos imediatamente para o carro.

Mas, por algum motivo, as palavras de repreensão ficaram presas na garganta. O sol, ainda baixo no céu da manhã, desenhava uma silhueta dourada ao redor de cada uma das crianças, que brincavam. Elas só tinham aqueles momentos finais para espremer a última gota de felicidade do sol, da água e do céu.

Quanto mais eu olhava, mais a cena à minha frente adquiria uma aura mágica, pois jamais se repetiria novamente. Que mudanças podemos esperar em nossas vidas depois que se passar mais um ano, outros dez anos? A única realidade era aquele momento, a praia cintilante e as crianças - minhas crianças com a luz do sol enfeitando seus cabelos, o som das risadas se misturando ao vento e às ondas.

"Por que eu cismara de ir embora às seis e meia da manhã, a ponto de sair correndo do chalé para brigar com eles?", me perguntei. Eu tinha em mente impor uma disciplina construtiva ou estava apenas com vontade de ralhar porque tinha um longo dia no volante pela frente? Afinal, não há prêmios a receber por partir exatamente na hora. E como poderia esperar manter a comunicação com meus filhos, agora e daqui a alguns anos, se não conseguisse manter viva a memória da minha própria juventude?

Na beira d'água, mais embaixo, minha filha mais velha fazia sinais para que me juntasse a eles. Então os outros começaram a acenar também, chamando por Evie e por mim, para nos divertirmos com eles. Hesitei, mas apenas por um instante. Corri, então, até o chalé para trazer minha mulher pela mão. Meio correndo, meio escorregando pelas dunas, logo chegamos à praia, jogando longe os sapatos. Numa alegre bravata, entramos na água além do ponto em que as crianças estavam, Evie segurando a saia e eu a bainha das calças. Até que o pé de Evie escorregou e ela afundou na água gritando e, de propósito, me puxou também.

Hoje, anos depois, ainda me emociono ao lembrar as risadas das crianças naquele dia - boas gargalhadas e um sentimento de camaradagem. E, muitas vezes, quando elas pensam em suas lembranças mais caras, aqueles poucos momentos ocorridos há tanto tempo estão entre as recordações mais preciosas.


 

O BENFEITOR SECRETO

WOODY McKAY JR.

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 12

 

Por volta de 1910, meu pai era motorista de um homem muito rico e testemunhou o empenho do patrão em ajudar anonimamente pessoas que jamais poderiam retribuir o favor.

Meu pai me contou várias histórias fascinantes dessa época, mas uma em especial ficou guardada para sempre na minha memória. Um dia, ele levou seu patrão a um encontro de negócios em outra cidade. Nos arredores pararam para comer um sanduíche.

Enquanto comiam, vários garotos passaram pelo carro, brincando com arcos. Um deles mancava. Chegando mais perto da janela, o patrão de meu pai viu que o garoto tinha um dos pés deformado. Ele saiu do carro e alcançou o menino.

- Este pé lhe traz muitos problemas? - perguntou.

- Tenho de andar devagar - o garoto respondeu. - E preciso cortar um pedaço do sapato para poder pisar melhor. Mas dá para ir levando. Por que o senhor está me perguntando isso?

- Talvez eu possa ajudá-lo a curar seu pé. Você gostaria?

- Claro - disse o menino, embora tenha ficado um pouco confuso com a pergunta.

O empresário anotou o nome do garoto, voltou para o carro e disse a meu pai: "Woody, o garoto que manca se chama Jimmy e tem oito anos. Descubra onde ele mora e pegue o endereço e os nomes dos pais." Ele entregou a meu pai um pedaço de papel com o nome do menino e pediu: "Vá visitar a família dele esta tarde e faça o possível para conseguir permissão para deixarem operar o pé de Jimmy. Podemos tratar da papelada depois. As despesas são todas por minha conta." Eles acabaram de comer seus sanduíches e meu pai levou o chefe para seu compromisso de trabalho.

Não foi difícil conseguir o endereço de Jimmy numa loja próxima. Quase todos conheciam o menino com o pé deformado.

A pequena casa em que Jimmy e a família moravam precisava de pintura e de consertos. Olhando à volta, meu pai viu camisas rasgadas e vestidos remendados no varal ao lado da construção. Um pneu velho pendurado por uma corda num carvalho servia de balanço.

Uma mulher de trinta e poucos anos respondeu à batida na porta enferrujada. Parecia cansada e suas feições revelavam uma vida difícil.

- Boa-tarde - meu pai cumprimentou. - A senhora é a mãe de Jimmy?

Ela franziu um pouco as sobrancelhas antes de responder.

- Sou. Ele se meteu em alguma encrenca? - Seus olhos examinavam o colarinho engomado de meu pai e seu terno bem passado.

- Não, senhora. Eu represento um homem rico que quer resolver o problema do pé de seu filho, para que ele possa brincar como todos os seus amigos.

- A troco de quê, moço? Nada é de graça nessa vida.

- Não se trata de uma brincadeira. Se for possível, gostaria de explicar o que está acontecendo à senhora e a seu marido, se ele estiver em casa. Sei que é inesperado e não a culpo por achar suspeito.

Ela olhou para meu pai novamente e, ainda hesitante, convidou-o a entrar. "Henry", ela gritou, "tem um homem aqui dizendo que quer ajudar a resolver o problema do pé de Jimmy." Por quase uma hora, meu pai explicou o plano e respondeu às perguntas do casal.

- Se permitirem que Jimmy seja operado, vou lhes mandar algumas autorizações para assinar. Meu patrão pagará todas as despesas, como já lhes disse - concluiu.

Perplexos, os pais do garoto se olharam. Ainda não tinham muita certeza quanto ao que estava acontecendo.

- Aqui está meu cartão. Quando enviar os papéis para autorização, vou mandar uma carta esclarecendo tudo sobre o que conversamos. Se tiverem mais alguma pergunta, telefonem ou escrevam para este endereço.

Isso pareceu lhes dar um pouco mais de confiança, e meu pai foi embora. Sua missão fora cumprida.

Mais tarde, o patrão de meu pai entrou em contato com o prefeito e lhe pediu que enviasse alguém à casa de Jimmy para reafirmar à família que a oferta era legítima. Naturalmente, o nome do benfeitor não foi mencionado.

Logo, com as autorizações assinadas, meu pai levou Jimmy a um excelente hospital em outro estado para a primeira de cinco operações a que seria submetido.

As cirurgias foram um sucesso. Jimmy se tornou o queridinho das enfermeiras na ala de ortopedia. Todos se abraçaram e choraram quando ele deixou o hospital pela última vez. Num gesto de carinho, deram-lhe um presente especial: um novo par de sapatos, feitos sob medida para seus pés "novos".

Jimmy e meu pai se tornaram grandes amigos durante as idas e vindas do hospital. Na última viagem, quando o garoto voltava definitivamente para casa, eles cantaram, falaram sobre o que Jimmy poderia fazer com seu pé normal e dividiram momentos de silêncio à medida que se aproximavam da casa.

O menino deu um largo sorriso ao sair do carro. Seus pais e os dois irmãos o esperavam, juntos, na maltratada porta da frente.

- Fiquem aí - Jimmy gritou para eles.

Todos ficaram olhando, surpresos, enquanto o garoto caminhava até eles. O defeito tinha desaparecido.

Com abraços, beijos e sorrisos receberam o menino com o "pé curado". Seus pais balançavam as cabeças e sorriam enquanto o observavam. Ainda não podiam acreditar que um homem que nunca tinham visto pagara uma enorme quantia para consertar o pé de um menino que ele nem conhecia.

O rico benfeitor tirou os óculos e enxugou as lágrimas quando meu pai relatou a cena da volta de Jimmy para casa.

"Faça mais uma coisa”, ele disse. "Perto do Natal, vá a uma boa loja de sapatos. Faça com que chamem cada membro da família de Jimmy para que escolham um novo par de sapatos. Pagarei pelos sapatos de todos. Mas comunique que farei isso apenas uma vez. Não quero que fiquem dependentes de mim." Jimmy se tornou um homem de negócios bem-sucedido.

Que eu saiba, ele nunca soube quem pagou por suas cirurgias.

Seu benfeitor, o Sr. Henry Ford, sempre disse que é mais divertido fazer algo pelas pessoas quando elas não sabem quem lhes fez o bem.

 

Nota do Tradutor: Henry Ford (1863-1947), pioneiro da indústria automobilística americana, fundou a Henry Ford Company em 1902 e a Ford Motor Company em 1903.

 

 

Dá prazer ajudar outras pessoas. PAUL NEWMAN


 

UM OUTRO FATO MARCANTE

RICHARD COHEN

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 17

 

Há muitos anos, meus pais, minha mulher, meu filho e eu jantamos num desses restaurantes onde o cardápio está escrito num quadro-negro. Depois de uma ótima refeição, o garçom colocou a conta no centro da mesa. Eis o que aconteceu: meu pai não apanhou a nota.

A conversa continuou. Finalmente percebi. Era para eu me encarregar da conta. Depois de ir a centenas de restaurantes com meus pais, depois de pensar a vida toda que meu pai é que era o dono do dinheiro, tudo tinha mudado. Apanhei a nota e minha visão de mim mesmo mudou de repente.

Eu era um adulto.

Algumas pessoas demarcam a vida em anos. Eu meço a minha por pequenos fatos, por ritos de passagem. Não me tornei rapaz numa idade determinada - treze anos, por exemplo -, mas quando um garoto entrou na loja em que eu trabalhava e me chamou de "senhor". Ele repetiu "senhor" várias vezes, olhando direto para mim. Aquilo foi como um soco: era comigo! De repente passei a ser um senhor.

Houve outros fatos marcantes. Os policiais da minha juventude sempre me pareceram grandes, enormes até, e, naturalmente, eram mais velhos do que eu. Até que um dia, num instante, percebi que eles não eram nada disso. Na verdade, alguns eram garotos - e pequenos. Chegou o dia em que me dei conta de que todos os jogadores de futebol da partida a que estava assistindo eram mais novos do que eu. Eram apenas garotos altos. Com tal fato marcante foi-se embora a fantasia de que um dia, talvez, eu também pudesse me tornar um jogador de futebol. Mesmo sem jamais ter alcançado a montanha, eu a tinha transposto.

Nunca pensei que chegaria a cair no sono vendo televisão, como meu pai fazia. Agora, sou ótimo nisso. Nunca pensei que iria à praia sem nadar. E acabei de passar o verão todo no litoral sem entrar na água uma só vez. Nunca pensei que apreciaria ópera, mas agora a combinação de voz e orquestra me atraem. Nunca imaginei que ia preferir ficar em casa à noite, mas agora me vejo recusando convites para festas. Considerava estranhas as pessoas que observavam pássaros, mas nesse verão me peguei fazendo a mesma coisa. Acho até que vou escrever um livro a respeito. Anseio por uma convicção religiosa que jamais imaginei querer e sinto uma proximidade com antepassados que já partiram há muito tempo. E o mais incrível é que, nas discussões com meu filho, repito os argumentos de meu pai - e ainda saio perdendo.

Um dia, comprei uma casa. Um dia - que dia! - tornei-me pai e, não muito depois disso, paguei a conta no lugar de meu pai. Imaginava que esse dia tinha sido um rito de passagem para mim. Mas, depois, já um pouco mais velho, compreendi que fora para ele também. Um outro fato marcante.


 

ACABARAM-SE AS MATINÊS DE DOMINGO

LENNY GROSSMAN

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 20

 

Sempre gostei de cinema, desde garoto. Ia sempre às matinês de domingo no cinema Monroe, ver filmes como Se Meu Fusca Falasse e Um Astronauta Fora de Órbita. Então, quando fiz dez anos, em 1970, meus hormônios se manifestaram com vontade.

Aprontei umas confusões (o que naquele tempo significava colocar fogo em gasolina na rua e roubar gibis) e meu gosto por cinema mudou. Não me contentava mais com filmes da Disney, mas ainda não podia assistir a filmes proibidos para menores.

Foi quando começaram a aparecer na televisão as chamadas para Operação França. Eram sensacionais, cheias de vigor e mexiam com a minha testosterona. Aquele filme era mesmo coisa de homem. Mas eu ia perdê-Io porque não tinha idade suficiente. Lembro bem quando meu pai e meu irmão mais velho, Peter, foram ver o filme. Era uma noite gelada e eles disseram:

- Vamos chegar tarde.

Operação França rompeu barreiras. A perseguição de carro era ousada, nervosa e emocionante, como nunca se vira antes.

Gene Hackman, no papel de Popeye Doyle, estava distante daqueles policiais certinhos a que estávamos acostumados. Fazia um detetive nova-iorquino, um anti-herói desbocado, racista e raivoso (o filme depois receberia vários Oscar: melhor filme, diretor, ator, roteiro e edição). Eu era fanático por cinema e sentia que estava perdendo uma coisa histórica. Enquanto Peter se divertia com papai, eu estava destinado a ter outra noite monótona em casa, com mamãe e Steven, meu irmão mais novo.

Quando os dois chegaram, expressaram o que eu já sabia. O filme era sensacional. Hackman era fantástico! Ah, como eu queria ser mais velho e poder...

- Você quer ir ver o filme, Leonard?

"Era mesmo meu pai que tinha acabado de dizer aquilo? Eu tinha ouvido direito?" A confirmação veio em um segundo, de minha mãe.

- Ed, você acha mesmo que ele deve ver o filme?

"Ah, mamãe, não acabe com a minha chance. Não plante a semente da dúvida. Fique calada só mais um pouquinho, até que eu consiga arrancar uma promessa." Então as doces palavras vieram e, com elas, caiu a resistência.

- Não vejo por que não. Acho que ele já tem idade para esse tipo de filme. Podemos ir amanhã à noite.

- Mas você foi hoje com Peter. Vai ver de novo amanhã?

Meu pai olhou em minha direção. Com certeza viu meus olhos cheios de ansiedade e expectativa.

- Claro, por que não? - ele disse.

- Yes! - gritei, pulando no ar.

Na noite seguinte, eu mal conseguia jantar. Não via a hora de sair e ver o filme que imaginara que só meu irmão seria autorizado a ver.

- Leonard, se você não comer alguma coisa, vai ficar com fome no cinema - papai disse, rindo consigo mesmo.

Finalmente o jantar acabou. Vestimos nossos casacos e nos dirigimos à porta. Meu pai sorriu e avisou:

- Vamos chegar tarde.

Entramos no carro e senti o cheiro da colônia Old Spice de papai. Estava muito frio, mas o carro ficou quentinho logo que ele ligou o aquecimento. Podia perceber o amor que ele tinha por mim. Aquele era um tempo que teríamos só para nós dois.

Mesmo tendo visto o filme na noite anterior, papai ia me levar ao cinema. Nem esperou que algumas semanas se passassem.

Naquele tempo, esse tipo de filme era proibido para menores de doze anos. Eu parecia ter mais idade, mas meu pai ainda deu uma gorjeta para a moça da bilheteria para não termos problema na hora de entrar. Operação França era ainda melhor do que eu esperava, o filme mais excitante que já tinha visto. E o mais adulto.

Quando chegamos em casa depois da sessão, virei para meu pai e o olhei longamente. Queria que soubesse como me fizera feliz, como fora maravilhoso ele pensar em mim como adulto (pelo menos de alguma forma), mas tudo que consegui dizer foi:

- Obrigado por me levar, papai.

Ele me envolveu com seus braços fortes e ficamos assim num abraço apertado, mais longo do que o normal.

- O prazer foi todo meu! - ele disse.

E foi.

Depois desse dia, meu pai e eu íamos sempre ao cinema, só nós dois. A censura dos filmes perdeu a importância. Eu tinha visto um, podia ver todos. Meu rito de passagem se completara.

Quando fiz quinze anos, as coisas mudaram um pouco e passei a ir mais ao cinema com meus amigos do que com meu pai.

Em 1975, Peter, eu e dois amigos ficamos duas horas na fila para assistir a Tubarão. Voltei para casa agitadíssimo por causa disso. Que filme sensacional! Ainda me lembro de meu pai se lamentando porque nós, os adolescentes, não o deixáramos ir conosco ao que ele chamou de "evento". Minha mãe não o acompanharia de jeito nenhum e, certamente, ele não iria sozinho. Agora ele era o pai, e adolescentes realmente não querem saber de pais por perto quando vão ao cinema em grupo.

- Olha, papai - eu disse. - Você quer ir ver o filme?

Ele me pareceu um pouco surpreso.

- Claro, vou adorar.

- Tudo bem, nós vamos. Amanhã à noite. Só você e eu.

- Que máximo - ele disse, virando-se para que eu não percebesse que estava rindo de orelha a orelha.

Na noite seguinte ficamos duas horas na fila para ver Tubarão. E, dessa vez, fui eu que tive o prazer de "levar" meu pai ao cinema. O prazer foi todo meu.


 

UMA DAS MINHAS LEMBRANÇAS FAVORITAS

ROSALIE SILVERMAN

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 24

 

Quando comecei a sair com rapazes, com uns dezoito anos, minha mãe sempre ficava acordada, me esperando chegar em casa. Assim que entrava no apartamento, ela ia comigo para meu quarto, sentava-se na cama e me fazia contar sobre o encontro.

Normalmente, a essa hora, papai estava dormindo, mas nossa conversa chegava até o quarto deles, que era bem próximo.

"Vocês duas vão ficar com esse papo até de manhã?," ele reclamava. "Não podem esperar até amanhã para conversar?" Minha mãe dizia para ele ficar quieto e voltar a dormir. Ele resmungava e ficava em silêncio por um tempo, mas depois recomeçava. "Lillian, volte para a cama. Quando ela estiver pronta para se casar com o rapaz, você faz todas essas perguntas." Finalmente mamãe e eu nos dávamos um beijo de boa noite e ela voltava para o quarto para acalmar o papai.

Meu pai, quando jovem, atuara como comediante e sapateador em espetáculos de variedades. Quando esse tipo de teatro acabou, seus sonhos em relação ao mundo das artes acabaram também. Mas, ao longo dos anos, ele nunca perdeu a oportunidade de contar piadas, cantar ou sapatear um pouco.

Era uma pessoa animada e expansiva, que sempre tinha um sorriso ou uma palavra amiga para todos.

Num fim de semana, minha mãe foi visitar uns parentes, e eu tinha um encontro no sábado à noite. Prometi a papai que não chegaria tarde demais e tentei convencê-Io de que não havia necessidade de me esperar acordado. O rapaz conheceu meu pai quando foi me buscar. Os dois se cumprimentaram e nós saímos.

Acontece que voltei mais tarde do que o prometido e, quando caminhava em direção à minha casa, vi meu pai na janela do nosso apartamento no terceiro andar esperando por mim.

Continuei conversando com o rapaz, tentando distraí-Io para que não visse meu pai, porque eu ficaria tremendamente sem graça. Logo que chegamos à porta do apartamento, despedi-me rapidamente e esperei até ouvir a porta do prédio fechar, antes de pegar a chave e entrar em casa Caminhando na ponta dos pés, vi a porta do quarto de meus pais fechada. "Ótimo", pensei, achando que papai fora dormir.

Fiquei aliviada em não ter de lhe dar explicações sobre a hora tardia. Abri a porta do meu quarto, entrei e quase caí no chão.

Lá estava papai sentado na minha cama, com um largo sorriso e usando um dos vestidos de mamãe. O cabelo crespo estava eriçado para cima e as pernas cruzadas. Com uma mão no joelho e outra no quadril, ele começou a falar com voz fina:

- Então, como foi o encontro? O que ele disse e o que você disse? Aonde foram jantar? Foram ao cinema? Vão se ver de novo? Aliás, em que ele trabalha? Ele tratou você bem? Espero que tenha sido um cavalheiro. Você acha que ele tem sérias intenções?

- Papai, calma, uma pergunta de cada vez. Foi apenas nosso terceiro encontro.

- Quero todas as informações que sua mãe tem quando você fala com ela.

Devemos ter conversado e rido por quase uma hora.

Finalmente, eu disse:

- Hora de dormir, de manhã a gente conversa. Quem está cansada agora sou eu.

Papai me deu um abraço, um beijo de boa-noite e me disse:

- Temos de nos lembrar de todos os detalhes para contar à sua mãe quando chegar, para ela não achar que ficou de fora.

 

 

Rir é a melhor forma de se comunicar.

ROBERT FULGHUM

 


 

O VISITANTE DA NOITE

HARTLEY F. DAILEY

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 27

 

O vale de Greenbriar estava quase escondido pelas nuvens baixas que provocavam chuvas intermitentes. Eu caminhava com dificuldade pelo terreno cheio de lama, me preparando para os afazeres da tarde em nossa fazenda, quando olhei para a estrada que passava pela nossa casa e serpenteava pelo vale. Um carro estava parado ao lado da pista, um pouco além do pasto.

Naturalmente o carro estava com problemas. De outra forma, um homem bem-vestido não estaria tentando consertá10 sob a chuva. Via-se que ele não era um mecânico, mexendo no motor e tentando desesperadamente dar a partida.

Quando terminei o que tinha de fazer e fechei o celeiro, já era quase noite. O carro ainda estava lá. Peguei, então, uma lanterna e fui até a estrada. O homem ficou meio assustado quando me aproximei, mas se mostrou ansioso pelo meu auxílio. Era um carro pequeno, da mesma marca do meu, embora mais novo. Em minutos identifiquei o problema.

- É a bobina - eu disse.

- Mas não pode ser! - exclamou. - Acabei de instalar uma nova, há cerca de um mês.

Era um rapaz jovem, pouco mais que um menino. Tinha uns dezoito anos, no máximo. Parecia que ia chorar.

- Estou muito longe de casa. Está chovendo. E preciso dar partida no carro. Tenho de dar partida! - disse quase soluçando.

- É, mas a situação é essa - eu disse. - Bobinas são muito sensíveis. Às vezes duram por anos. Outras se acabam numa questão de horas. Posso pegar um cavalo e levar o carro até o celeiro. Daí vamos ver o que dá para fazer por você. Podemos tentar a bobina do meu carro. Se funcionar, conheço uma pessoa aqui perto que pode lhe vender uma.

Eu estava certo. Com a bobina do meu carro, o motor imediatamente pegou, como novo.

- Viu? Era simples - eu disse sorrindo. - Vamos ver Bill David ali adiante. Ele vai lhe vender uma nova bobina e você poderá seguir seu caminho. Espere só um instante enquanto aviso à minha mulher, Jane, aonde vou.

No caminho para a loja de David, achei que o rapaz estava meio estranho. Ele estacionou no escuro, atrás da loja, e não quis sair do carro.

- Estou molhado e com frio - se desculpou. - Aqui está o dinheiro. O senhor se importaria de entrar e comprar a bobina para mim?

Acabáramos de trocar a bobina quando minha filhinha, Linda, veio até o celeiro.

- Mamãe mandou dizer que o jantar está pronto - ela anunciou. E, virando-se para o jovem, acrescentou: - Ela disse para você entrar e jantar também.

- Ah, não posso - ele protestou. - Tenho de ir. Não, não, não dá para ficar.

- Não seja ridículo - eu disse. - Afinal, quanto tempo você vai levar para jantar? Além disso, ninguém vem à casa de Jane na hora da refeição e sai sem comer. Você não gostaria que ela se deitasse na lama na frente do seu carro, gostaria?

Ainda protestando, ele se deixou conduzir até a casa. Mas eu tinha a impressão de que seu protesto não era por educação.

Ele se manteve calado enquanto eu fazia a prece. Mas parecia agitado durante a refeição. Mal tocou a comida, o que foi quase um insulto a Jane, uma exímia cozinheira.

Depois do jantar, ele se levantou rapidamente e anunciou que devia partir. Mas não contava com a reação de Jane. - Olhe aqui - ela disse, me olhando em busca de apoio. Está chovendo muito lá fora. Suas roupas estão completamente molhadas e você vai acabar resfriado. Aposto que também está cansado porque deve ter dirigido muito hoje. Fique conosco esta noite. Amanhã estará aquecido, seco e descansado.

Aprovei com a cabeça, olhando para Jane. Não é aconselhável acolher estranhos dessa maneira. Infelizmente, há muitas pessoas em quem não se pode confiar. Mas eu gostara do rapaz.

Tive a certeza de que não haveria problema.

Relutante, ele concordou em ficar. Jane levou-o até o quarto de visitas e colocou suas roupas para secar perto da lareira. Na manhã seguinte ela as passou antes de servir ao visitante um belo café da manhã. Essa refeição o rapaz comeu com prazer. Parecia que estava mais calmo naquela manhã. Ele nos agradeceu efusivamente quando saiu.

Mas, quando pegou a estrada, aconteceu uma coisa estranha. Na noite anterior, ele estava descendo o vale. Ao partir, tomou a direção oposta, voltando para a capital. Ficamos pensando nisso por um bom tempo, mas concluímos que ele se confundira na estrada.

O tempo passou e nunca mais soubemos notícias do jovem.

Nem esperávamos saber, na verdade. Os dias se transformaram em meses, os meses em anos. A Grande Depressão acabou e veio a Segunda Guerra. Que, a seu tempo, acabou também. Linda cresceu e tinha agora sua própria casa. As coisas na fazenda estavam muito diferentes daqueles primeiros dias de luta. Jane e eu vivíamos de maneira confortável, rodeados pelo aprazível vale Greenbriar.

Há poucos dias recebi uma carta de Chicago. Uma carta pessoal, num papel requintado e caro. "Quem nesse mundo poderá estar me escrevendo de Chicago?", pensei. Abri a carta e li:

 

Caro Sr. McDonald:

 

Não imagino que o senhor se lembre do jovem a quem ajudou, anos atrás, quando o carro dele quebrou.

Faz muito tempo e imagino que o senhor tenha auxiliado a muitos outros. Mas duvido que tenha ajudado alguém do mesmo modo como me ajudou.

Imagine que, naquela noite, eu estava fugindo. Eu tinha no carro uma grande soma de dinheiro que eu roubara de meu patrão. Quero que o senhor saiba que tenho pais cristãos, boas pessoas. Mas esqueci seus ensinamentos e me juntei ao mau rebanho. Eu sabia que tinha cometi um erro terrível.

Mas o senhor e sua mulher foram muito bons para mim. Naquela noite, em sua casa, comecei a ver como estava errado. Antes de amanhecer, tomei uma decisão. No dia seguinte, voltei ao meu emprego e confessei o que fizera. Devolvi todo o dinheiro a meu patrão e lhe implorei perdão.

Ele podia ter me processado e me mandado para a cadeia por muitos anos. Mas, como é um homem bom, ele me devolveu o emprego. Nunca mais me desviei do bom caminho. Agora estou casado, com uma mulher adorável e temos duas lindas crianças. Trabalhei bastante e tenho uma boa posição na empresa. Não sou rico, mas estou numa boa situação.

Eu poderia recompensá-lo generosamente pelo que o senhor fez por mim naquela noite. Mas não acredito que o senhor queira isso. Então resolvi estabelecer um fundo para ajudar outras pessoas que cometeram o mesmo e quero que eu. Desta forma, acredito poder pagar pelo meu erro.

Que Deus o abençoe, senhor, e à sua bondosa esposa, que me ajudou ainda mais do que o senhor sabia.

Entrei em casa e dei a carta a Jane. Enquanto a lia, vi que seus olhos se encheram de lágrimas. Com o semblante sereno, ela colocou a carta de lado.

- "Fui peregrino e me acolhestes..." - ela citou Mateus.

- "Tive fome e me destes de comer... estava preso e viestes ver-me”.

 

 

 

Nenhum ato de bondade, por menor que seja, jamais é em vão.

Esopo

 


 

A FUNCIONÁRIA DO ANO

KEN SWARNER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 33

 

Estou gostando muito mais do meu trabalho agora que Larry Johnson arrumou suas coisas e saiu do nosso departamento. Não quero parecer insensível, mas não dá para aguentar uma pessoa que tenha tanto tempo livre e que seja tão tranquila puxando você ou os outros colegas para baixo.

Por muitos anos, meus colegas e eu trabalhamos muito bem, todos planejando nos manter no mesmo emprego até a aposentadoria.

Então, no último dezembro, Larry chegou. Dei uma olhada nele e convoquei uma reunião de emergência na sala do café.

- Não quero apavorar ninguém - eu disse. - Mas há alguma coisa esquisita com esse recém-chegado.

A equipe pareceu preocupada.

- Alguém reparou em suas roupas? Elas são passadas.

Uma onda de medo se espalhou pelos rostos.

- A pele de seu rosto é clara. O cabelo é penteado. Os sapatos engraxados.

As pessoas começaram a chorar.

- Você está querendo dizer... - balbuciou Steve, da contabilidade.

- É - interrompi. - Acho que ele não tem filhos.

Todo mundo gritou.

Mandamos um esquadrão de reconhecimento à mesa de Larry para confirmar minhas suspeitas.

- Com certeza, mas é pior do que você pensou. Ele nem sequer é casado - o líder do esquadrão contou ao retomar.

Os problemas começaram imediatamente. Enquanto estávamos fazendo o que sempre tínhamos feito - levar crianças a consultas médicas, voltar correndo em casa por uma lancheira esquecida e angariar fundos para os escoteiros no elevador -, Larry estava chegando cedo, almoçando na própria mesa de trabalho e trabalhando até tarde.

Então aconteceu o inevitável. O chefe notou.

- Alguém já notou como Larry está trabalhando? - ele rosnou.

Como explicar que tínhamos responsabilidades em relação a nossas crianças? Ele jamais compreenderia.

- Talvez Larry seja um bom candidato para o novo posto como assistente da diretoria - sugeri ao chefe. - Ia ficar bem para o senhor recomendá-lo.

E foi assim que nos livramos de Larry "Sem Filhos" Johnson.

No dia seguinte, a funcionária que veio substituir Larry

chegou com uma marquinha de leite atrás de cada orelha e com um colar feito de macarrão seco corno único enfeite. Fui o primeiro a cumprimentá-Ia.

- Você pretende trabalhar além do horário? - perguntei nervoso.

Ela estremeceu.

- Está vendo esses círculos escuros à volta dos meus olhos?

Estou acordada desde a madrugada trocando fraldas sujas e, quando sair daqui, vou ter de levar dez brownies com formato de carinha do outro lado da cidade para a festa em que meus filhos vão receber os distintivos de escoteiros. Quem tem tempo de trabalhar?

Ela tem meu voto para ser a Funcionária do Ano.

 


 

O ESTRANHO QUE SE TORNOU MEU PAI

SUSAN J. GORDON

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 36

 

Numa tarde de sábado, minha mãe insistiu para que eu pusesse minha melhor roupa porque queria me apresentar ao seu novo namorado. Ele estava agora lá fora, esperando no carro.

Ela já tivera outros namorados antes. Por que eu tinha de parar o que estava fazendo e trocar de roupa por causa dele? Por quê?

Porque, como soube depois, ele a pedira em casamento na noite anterior. Ele já conhecia meu irmão e agora queria me conhecer.

- Oi, senhor Cohan - eu disse, louca para voltar para casa e continuar a jogar.

- Oi, Susan - respondeu o homem de meia-idade e cabelos crespos. Sua voz era suave, quase tímida, quando estendeu a mão e me cumprimentou.

Depois que ele e minha mãe se casaram, eu não sabia como chamá-lo. Por um bom tempo não o chamei de nada. "Leo" não parecia certo. Ele me chamava de Susan, ou Sue, como minha mãe e meu irmão. Ele não tinha de me chamar de "filha”. Eu tinha de chamá-lo de "pai"? Quem era aquele homem para mim? Parecia ser bondoso e delicado e até gostava da minha companhia. Mas um pai? Chamá-Io de pai o tornaria um pai? Entrando para uma família que já tinha uma mãe, um garoto adolescente e uma menina de doze anos, Leo sabia que não seria automaticamente tratado como pai. Éramos um grupo há muito estabelecido. Ele era a peça nova a ser encaixada. Não que tivesse de competir com qualquer amor que sentíssemos por nosso pai "verdadeiro", um homem frio e egoísta, que nunca fora bondoso nos anos em que tivemos contato. Leo tinha de competir com uma fantasia, nossas altas e irreais expectativas do que deveria ser um pai perfeito: amoroso, disponível, generoso, inteligente, bonito e sempre pronto a nos dar apoio. E, como todo pai perfeito, alguém que considerasse os filhos perfeitos também.

Ele provavelmente tinha suas próprias fantasias. Órfão desde criança, Leo tinha sido criado por irmãos e irmãs mais velhos que, embora o amassem, jamais puseram os interesses dele em primeiro lugar, como um pai ou mãe devotados fariam.

Agora, aos cinquenta anos, ele se casara com uma mulher com dois filhos, aceitando todas as responsabilidades e obrigações financeiras que isso acarretava.

No primeiro ano em que nós quatro vivemos juntos, Leo passou um bom tempo consertando coisas em nossa casa. Era sua maneira de fincar raízes, de estabelecer uma base sólida para nossa nova família. Ele envernizou o painel de madeira do escritório, colocou papel de parede nos quartos e construiu armários de cedro no porão.

Mas, enquanto nos tornávamos uma família, eu estava virando a típica adolescente: egoísta, desafiadora e rebelde. Minha mãe e eu, que sempre fôramos próximas, agora parecíamos discutir o tempo todo.

- Por que você não pode se comportar? - ela me perguntava, zangada.

- Você não me deixa fazer nada do jeito que eu quero! - eu contestava, saindo do quarto como um tufão.

Precisava falar com alguém e encontrei Leo no porão.

Devagar, metodicamente, ele estava aplainando uma peça de madeira. Enquanto a lixava com cuidado, me deixou falar e me ofereceu um pedaço de lixa para ajudá-lo a aparar as arestas.

- Ela é impossível! - disse. - Grita comigo por qualquer coisinha. Tudo que faço tem de ser perfeito para ela aprovar.

Leo balançava a cabeça enquanto eu falava, continuando seu trabalho. Gostaria que ficasse a meu favor, mas ele sabia que estava numa situação delicada.

- Sua mãe quer apenas o melhor para você - disse suavemente.

- Isso não deve ser tão difícil para uma garota tão excepcional.

Leo e eu passamos um bocado de tempo juntos no porão naquele primeiro inverno. Ele me ensinou a trabalhar com ferramentas de modo que eu também pudesse construir, pintar e consertar coisas. Trabalhar ali com ele foi uma boa maneira de extravasar minhas frustrações adolescentes. O porão, aonde minha mãe raramente ia, tornou-se um "porto seguro" para mim.

Meu padrasto estava lá para me ajudar sempre que eu precisava. Não resolvia meus problemas, mas me encorajava a organizar as coisas dentro da minha cabeça. Eu precisava de alguém que me ouvisse e ele fazia exatamente isso.

- Sabe, você e sua mãe têm muito em comum. As duas são cheias de energia, corajosas e têm opiniões fortes. É por isso que às vezes uma irrita a outra. Mas é isso também o que eu gosto em vocês - nas duas.

Ele muitas vezes trazia surpresas para casa: um quadro para a parede do meu quarto, uma revista de esporte para meu irmão. No jantar, ouvia nossas histórias sobre o time da escola e nossas piadas bobas. Ele nos tratava como se fôssemos as crianças mais inteligentes do mundo.

- Que tal essa? - começava, e sabíamos o que vinha a seguir:

uma nova charada que ele ouvira no trabalho ou lera no jornal.

Ele ria depois de termos acertado a resposta.

- Sabia que não ia conseguir pegar vocês! - sorria, orgulhoso.

No primeiro mês de agosto que passamos juntos fui de bicicleta fazer compras na cidade, levando todo o dinheiro que recebera no mês anterior fazendo pequenos serviços para os vizinhos. Entrei numa loja de artigos masculinos e um cheiro de loção após barba me intoxicou. Aos treze anos, viera comprar meu primeiro presente de Dia dos Pais.

Escolhi uma gravata de seda azul, enfeitada com fileiras de peixinhos, e a levei para casa. No domingo de manhã, quando a dei a Leo, ele a colocou imediatamente.

- Muito obrigado, gostei muito - ele agradeceu, beijando meu rosto.

- De nada - respondi. - Feliz Dia dos Pais, papai. - Falei aquilo da maneira mais natural possível, mas vi que ele sorriu.

Tinha me ouvido.

Aos poucos, com o passar do tempo, nossa nova família criou suas próprias raízes e tradições. Leo nos viu entrar na universidade, casar e constituir nossas próprias famílias. Até morrer, aos setenta e nove anos, ele dividiu muito de seu tempo e de seu amor com nossos filhos - seus netos. Levou-os para passear em seus carrinhos, leu para eles e os ninou. Mais tarde, ensinou-os a pescar e a trabalhar com ferramentas, como fizera comigo.

Leo escolheu minha mãe - e a mim e a meu irmão também.

Éramos família e amigos por escolha. Sua amizade e seu amor foram presentes dos quais jamais me esquecerei.

 

 

Aquele que cria, não o que gera, é o pai. ÊXODO

 


 

PESCAR E SOLTAR

DEE BERRY

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 41

 

Uma antiga mágoa estava enterrada entre pai e filho, regada pelo silêncio, adubada pelo tempo. Ela cresceu forte, como tais mágoas crescem quando são negligenciadas pelo perdão.

Sarah observou isso acontecer entre o marido e o sogro.

Estava lá quando a mágoa foi plantada e sempre procurou uma forma de dar um fim àquela história. O único bálsamo que encontrara até então fora Joshua, seu filho. Os dois homens adoravam o menino, como se os sentimentos que costumavam ter um pelo outro precisassem de um escoadouro, um beneficiário, um herdeiro.

Joshua amava o avô Bill e suas histórias de como crescera na floresta. Por duas semanas, a cada verão, Sarah levava o menino à casa do avô, no lago. Ali no cais, vovô Bill e Joshua se sentavam para pescar, desde que o sol nascia até que Sarah os chamasse para jantar. Mas ela nunca deixava o menino sair no barco - era muito pequeno, dizia.

Num verão, depois de avô e neto muito insistirem, Sarah finalmente deixou Joshua sair no barco. Mas impôs como condição que o garoto esperasse até o fim do mês, quando faria sete anos.

Ted jamais acompanhava a mulher e o filho nas visitas a seu pai. Mas Sarah insistia que o garoto tinha de conhecer o avô, pois ela sempre lamentou não ter conhecido seus avós.

Como presente de aniversário, Ted deu ao filho sua primeira vara de pescar. Era apenas um caniço leve com um molinete à prova de acidentes, mas Joshua mal podia esperar a visita ao lago do avô.

Antes de lavar a louça no dia do aniversário, Sarah ligara para o sogro, combinando a saída de Joshua de barco. Quando Ted descobriu, ficou furioso!

- É a primeira vez que o garoto vai sair para pescar de barco, Sarah, e eu queria levá-lo.

- Então vá com eles - Sarah disse, enxugando a última travessa.

- Você sabe que isso não é possível - Ted respondeu secamente.

Sarah jogou o pano de prato no chão, virou-se para o marido com um olhar furioso e disse:

- Não sei de nada disso, Ted Wilkins! Tudo que sei é que Joshua quer ir pescar com o avô e com o pai. Que tipo de homem você é para deixar uma discussão antiga impedi-lo de fazer seu filho feliz?

A indignação de Ted se quebrou ante a lógica de Sarah. Ela apresentara um argumento que atingiu seu coração.

- Bem, mas ele não vai me deixar entrar na propriedade, muito menos no barco - Ted disse em voz baixa, vindo-se para o outro lado.

- Vai sim, depois que eu falar com ele! - Sarah disse, indo em direção ao telefone.

Foi uma conversa longa, mas que deu frutos. Vovô Bill, embora relutante, concordou que Ted se juntasse a eles. Depois de tantos anos, os dois se cumprimentaram friamente. Mas um olhar para o rosto de Joshua bastou para colocar os dois homens em seus lugares. O menino estava radiante.

Este fora seu desejo secreto de aniversário!

Encheram o barco com equipamento de pesca suficiente para afundar o Titanic, pois cada homem levou sua caixa de apetrechos cheia de segredos. Sarah, por precaução, colocou em Joshua um salva-vidas laranja, que quase cobriu seu nariz quando se sentou no amplo barco de alumínio.

Quando Sarah soltou a bolina e empurrou o barco para longe do cais, Ted e vovô Bill gritaram:

- Você não vem junto?

- Não, pescar é coisa de homem - ela respondeu, acenando. - Divirtam-se!

Teimosamente, Ted se sentou na proa de frente para o lado direito, com Joshua no largo assento do meio, perto das varas de pescar. Vovô Bill ficou na popa, olhando para todos os lados, menos para a proa.

Os homens se revezavam mostrando a Joshua como pescar truta e como usar a isca artificial para pegar outros tipos de peixe. Mas nem por uma vez um falou com o outro, só falavam com Joshua.

Passaram pelas pedras da margem, pelas piscinas cheias de sombras, os bancos de areia cobertos pela água, até mesmo pela escarpada pedreira de granito. Mas, depois de um dia inteiro no barco, estavam exaustos, sem terem pescado um só peixe. Finalmente tentaram fazer as minhocas flutuarem perto do banco de areia entulhado de junco.

- Isso não está sendo do jeito que eu pensei - Joshua disse, fazendo tromba, enquanto o barco balançava com os homens em silêncio. a menino percebia uma certa tensão entre o pai e o avô, mas não compreendia bem do que se tratava.

- É, Joshua, alguns dias são assim - Ted explicou.

Bem nesse instante a linha de Joshua disparou - e num minuto os dois homens começaram a falar com ele.

- Mantenha o caniço para cima! - vovô gritou, agitadíssimo.

- Enrole a linha, filho, enrole a linha! - Ted disse, com o mesmo entusiasmo. - Veja o freio.

Joshua não tinha ideia do que estava acontecendo. Ele nunca, na verdade, pescara qualquer coisa grande o suficiente para puxar tanta linha.

- Papai, vá lá e ajude com o freio, ele não sabe como fazer - Ted rapidamente acrescentou.

O peixe fez uma pausa na sua batalha pela vida e vovô Bill foi ajudar o neto, que estava completamente atrapalhado. Com habilidade, vovô Bill prendeu a linha entre o indicador e o polegar; mas um puxão avisou que o peixe resistia, a linha estava muito esticada.

A truta não estava cansada; na verdade, tinha outras ideias.

Com raiva, subiu à superfície, pulando no ar quente de verão a mais de dez metros do barco. a peixe fez um movimento rápido, parecia um arco-íris prata e verde, a água pingando de seu corpo vigoroso. Veio então o barulho que os dois homens sabiam significar desastre: o ruído seco da linha se partindo por causa da tensão.

Vovô Bill ainda tentou segurar a linha entre os dedos, mas não aguentou por muito tempo.

- Suspenda a linha na vertical, Ted - ele gritou.

Ted mergulhou para apanhar a linha que se enrolou nas guias da vara. Joshua caiu no fundo do barco e, de repente, a tensão na vara cessou. Vovô Bill segurou a linha e começou a puxá-Ia, enrolando-a na mão. Puxou o quanto pôde, mas viu as mãos se enrolarem em nós. Foi quando Ted veio ajudar e ficou preso também. Bill conseguiu se soltar e tentou novamente. A linha esticada cortava as palmas das mãos e os dedos, mas nenhum dos dois reclamava, pois, afinal, era o primeiro peixe de Joshua.

- Estou vendo o peixe! Pegue a rede, Joshua, pegue a rede gritou Ted.

O garoto foi até o lado inclinado do barco e tentou pegar a truta com a rede colorida, verde forte. Mas o peixe ainda não estava vencido. Com um golpe vigoroso da cauda, ele pulou a quase um metro de altura. Pensando rápido, Joshua ficou em pé no assento e rodopiou a rede atrás de si, conseguindo pegar o peixe no ar, como se fosse uma borboleta!

Juntos, Ted e Billy se agarraram ao colete salva-vidas de Joshua, puxando a tempo o menino para dentro do barco. Os dois homens e o menino riam histericamente enquanto a truta de uns dois quilos e meio se debatia no fundo do barco. Joshua conseguira apanhar seu primeiro peixe. Na volta para casa, os três reviveram suas proezas naquele triunfo como velhos amigos.

Sarah ficou completamente surpresa ao se aproximar do cais e ver o marido e o sogro disputando quem contaria a história.

O jeito distante e frio desaparecera de suas vozes, um interrompendo o outro para parabenizar por um ato ousado na aventura. Joshua, o peito cheio de orgulho, segurava a rede com um único peixe, que valia um troféu.

Sarah tirou uma fotografia dos três abraçados, com Joshua e o peixe no meio. Estavam rindo como se tivessem apanhado o maior peixe do mundo.

- Ei, papai, vamos ensinar a Joshua como limpar o peixe Ted disse, enquanto se encaminhavam para o cais.

Vendo-os, Sarah sorriu para si mesma. Bastou um garoto e um peixe para que voltassem a ser uma família.

 

 

 

Todo filho, em algum momento, desafia o pai, briga, se afasta, apenas para voltar - se tiver sorte ainda mais próximo e protegido do que antes.

LEONARD BERNSTEIN

 


 

A MELHOR ÉPOCA DA VIDA

JOE KEMP

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 47

 

Era quinze de junho e em dois dias eu faria trinta anos. Estava inseguro com a rapidez com que o tempo tinha passado e temia que os melhores anos tivessem ficado para trás.

Minha rotina diária incluía uma sessão de ginástica antes do trabalho. Todas as manhãs encontrava com meu amigo Nicholas na academia. Ele tinha setenta e nove anos e estava em plena forma. Quando o cumprimentei naquele dia, ele percebeu que eu não estava animado como sempre e perguntou se havia alguma coisa errada. Disse-lhe que estava ansioso por estar fazendo trinta anos. Fiquei imaginando como olharia para trás quando chegasse à idade de Nicholas, então lhe perguntei:

- Qual foi a melhor época da sua vida?

Sem hesitar, Nicholas respondeu:

- Bem, Joe, esta é minha resposta filosófica à sua pergunta filosófica: quando era criança na Áustria e meus pais cuidavam de mim, sem que eu precisasse me preocupar com nada, aquela foi a melhor época da minha vida. Quando fui para a escola e aprendi as coisas que sei hoje, aquela foi a melhor época da minha vida. Quando arrumei meu primeiro emprego, passei a ter responsabilidades e a ser pago por meu esforço, aquela foi a melhor época da minha vida. Quando conheci minha mulher e me apaixonei, aquela foi a melhor época da minha vida. Veio a Segunda Guerra e minha mulher e eu tivemos de sair da Áustria para salvar nossas vidas. Quando estávamos juntos e a salvo num navio, vindo para a América do Norte, aquela foi a melhor época da minha vida. Quando viemos para o Canadá e formamos uma família, aquela foi a melhor época da minha vida.

Quando me tornei um jovem pai e pude ver meus filhos crescerem, aquela foi a melhor época da minha vida. E agora, Joe, tenho setenta e nove anos e estou com saúde. Me sinto bem e continuo apaixonado por minha mulher, exatamente como quando a conheci. Esta é a melhor época da minha vida.

A GAROTINHA DO PAPAI

MICHELE CAMPBELL

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 49

 

- Você conta para o papai, em vez de eu contar?

Essa era a pior parte. Com dezessete anos, dizer à minha mãe que estava grávida já era difícil, mas dizer a meu pai era impossível. Papai sempre fora uma fonte constante de coragem em minha vida. Sempre me olhara com orgulho e eu sempre tentara levar a vida de modo a deixá-Io orgulhoso. Até isso acontecer. Agora estava tudo perdido. Eu não ia mais ser a garotinha do papai. Ele nunca mais me olharia da mesma maneira. Dei um suspiro derrotada e me inclinei em direção à mamãe, para ela me consolar.

- Vou ter de deixar você em algum lugar na hora de contar a seu pai. Sabe por quê?

- Sei, mamãe. Porque ele não vai conseguir olhar para mim.

Fui passar a noite com o pastor de nossa igreja, irmão Lu, a única pessoa com quem me sentia bem naquela época. Ele me deu conselhos e me confortou enquanto mamãe foi para casa e telefonou para meu pai no trabalho, para lhe dar a notícia.

Era tudo tão irreal. Naquela época, estar com alguém que não me julgasse era uma coisa boa. Rezamos, conversamos e comecei a aceitar e a entender o caminho à minha frente.

Então, vi os faróis do carro refletidos na janela.

Mamãe viera me buscar para voltar para casa e eu sabia que papai deveria estar junto. Eu tinha tanto medo. Corri da sala para o banheiro, trancando a porta. Irmão Lu me seguiu e me repreendeu.

- Menina, você não pode fazer isso. Terá de enfrentá-Io mais cedo ou mais tarde. Ele não vai voltar para casa sem você. Venha cá.

- Tudo bem, mas o senhor fica comigo. Estou com medo.

- Claro, menina, claro.

Abri a porta e, devagar, segui irmão Lu até a sala. Papai e mamãe ainda não tinham entrado. Imaginei que estivessem no carro, mamãe preparando papai para o que fosse fazer ou falar quando me visse. Minha mãe sabia o quanto eu estava apavorada. Mas eu não estava com medo de que meu pai fosse gritar ou ficar zangado. Não estava com medo dele. Era a tristeza de seus olhos que me amedrontava. Tristeza por saber que eu estava com problemas e sofrendo e que não recorrera a ele para me ajudar e apoiar. A compreensão de que eu não era mais a sua menininha.

Ouvi passos na calçada e a batida suave na porta de madeira. Meu lábio começou a tremer e me debulhei de novo em lágrimas, me escondendo atrás do pastor. Mamãe entrou primeiro e o abraçou, então me olhou com um sorriso sem graça. Seus olhos estavam inchados de chorar, e eu fiquei agradecida por ela não ter chorado na minha frente. Então vi meu pai. Ele sequer estendeu a mão a Luther, apenas cumprimentou-o com a cabeça ao entrar. Veio em minha direção e me envolveu em seus braços fortes, me segurando bem perto dele enquanto murmurava:

- Amo você. Amo você e vou amar seu bebê também.

Ele não chorou. Não o meu pai. Mas senti seu corpo tremendo. Sabia que ele fizera todo o esforço possível para não chorar e eu estava orgulhosa dele por isso. E agradecida. Quando se afastou e me olhou, havia amor e orgulho em seus olhos. Mesmo naquele momento difícil.

- Desculpe, papai. Gosto tanto de você.

- Eu sei. Vamos para casa. - E fomos.

Todo o meu medo tinha ido embora. Ainda haveria dor e provações que eu sequer podia imaginar. Mas eu tinha uma família forte e amorosa, com a qual sempre poderia contar.

Principalmente, eu era ainda a menininha do papai e, sabendo disso, não haveria montanha que não pudesse escalar ou tempestade que não pudesse aguentar.

Obrigada, papai.


 

AO DEITAR-ME EM MEU LEITO

DIANA DWAN POOLE

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 52

 

Quando garota, queria ser médica, mas não tinha dinheiro suficiente para pagar a faculdade de Medicina. Assim, fui fazer Enfermagem. Em 1966, no último ano, uma pessoa encarregada de recrutar profissionais para o Exército foi fazer uma palestra na escola. Tudo parecia tão emocionante: eu teria a chance de trabalhar, seria bem paga e, o mais importante de tudo, não teria de ir para o Vietnã se não quisesse - e eu não queria.

Eu me alistei. Depois de um treinamento básico, fui designada para o Hospital Letterman, em Presidio, São Francisco.

Durante os dois anos em que trabalhei lá fui chamada para ir ao Vietnã três vezes. Nas duas primeiras me recusei, mas na terceira achei que estava preparada para aquela experiência.

Pousamos na Base Aérea de Tan Son Nhut e, quando a porta do avião se abriu, quase caí para trás tal o calor e o mau cheiro. De repente, percebi que, aos vinte e três anos, não conhecia muita coisa da vida. Fiquei com medo, mas não havia como desistir.

Depois de uma entrevista, fui designada para o Septuagésimo Sétimo Hospital Evac, em Qui Nhon. Quando o helicóptero pousou na pista do hospital, puseram minhas coisas no chão. Desci, segurando a saia. Os soldados no helicóptero gritaram: "Boa sorte, capitão", enquanto decolavam.

Eu estava com meu uniforme classe A, o que significava que estava também de meias de náilon e salto alto. Nada menos adequado para o ambiente. Quilômetros de arame farpado, a parte de cima em espiral, rodeavam o complexo do hospital e o campo de pouso ao lado. Empinei os ombros e entrei no soturno prédio de concreto à minha frente. Disseram-me para dormir um pouco, pois começaria no dia seguinte. Foi bom dormir e, pela manhã, vesti uniforme e botas do Exército, exatamente como os soldados. Era a roupa que usaria no hospital.

Como eu era capitão, fui designada enfermeira-chefe na ala da ortopedia, que basicamente abrigava soldados com amputações traumáticas. Levei meu papel a sério e tinha reputação de rígida.

Ter sido enfermeira nos Estados Unidos por dois anos não me preparou adequadamente para o Vietnã. Testemunhei um enorme sofrimento e vi muitos homens morrerem. Uma de minhas regras era que às enfermeiras não era permitido chorar.

Os homens feridos e à beira da morte que estavam sob nossos cuidados precisavam de nossa força, eu lhes dizia. Não podíamos nos dar ao luxo de dar vazão aos nossos sentimentos.

Por outro lado, eu era sempre direta com os soldados.

Nunca dizia: ''Ah, você vai ficar bom", se isso não fosse verdade.

Eu não mentia.

Mas me lembro de um garoto a quem eu não queria contar a situação real. O soldado, muito ferido, não podia ter mais de dezoito anos. Vi imediatamente que não havia mais nada a fazer para salvá-lo. Ele jamais gritou ou se queixou, mesmo quando estava sentindo muita dor.

Um dia ele me perguntou:

- Eu vou morrer?

- Você acha que vai? - eu respondi.

Ele disse:

- Acho que sim.

- Você sabe rezar? - perguntei.

- Eu sei ''Ao Deitar-me em Meu Leito".

- Ótimo.

Quando me pediu para segurar sua mão, alguma coisa estalou em mim. O garoto merecia mais do que uma mão que apertasse a sua.

- Vou fazer melhor do que isso - eu lhe disse.

Sabia que podia ser criticada pelas enfermeiras, pelos soldados e pelos pacientes, mas não me importei. Não havia ninguém olhando e me deitei na cama com o soldado. Pus meus braços à sua volta, tocando seu rosto e seu cabelo enquanto ele se aninhava no meu colo. Beijei seu rosto e juntos recitamos:

 

“Ao deitar-me em meu leito, peço ao Senhor que guarde a minha alma.

Se eu morrer antes de acordar, peço a Deus que cuide da minha alma. "

 

Então ele me olhou e disse apenas mais uma frase: ''Amo você, mamãe, amo você", antes de morrer nos meus braços, calma e tranquilamente, como se estivesse mesmo indo dormir.

Depois de um minuto, saí furtivamente da cama e olhei à volta. Tenho certeza de que meu rosto estava com a fisionomia fechada, pronta para enfrentar qualquer um que me recriminasse. Mas eu não precisava ter me preocupado. Todas as enfermeiras e os outros soldados que ali serviam tinham quebrado a minha regra e estavam chorando, silenciosamente, as lágrimas escorrendo pelo rosto.

Pensei na mãe do soldado morto. Ela receberia um telegrama informando-a de que o filho morrera de "ferimentos de guerra”. Só isso estaria no telegrama. Imaginei que ela ficaria para sempre querendo saber o que acontecera. Será que ele morrera no campo de batalha? Havia alguém com ele? Será que sofreu? Se eu fosse sua mãe, ia precisar saber.

Assim, mais tarde, eu me sentei e lhe escrevi uma carta.

Achei que ela gostaria de saber que, nos últimos momentos, o filho pensara nela. Mas, principalmente, queria que soubesse que o filho não morrera sozinho.

 

Todos aqueles soldados pertencem a alguém.

Eles têm pai, mãe, mulheres, filhos...

Têm alguém que os ama.

LIZ ALLEN, enfermeira no Vietnã


 

SE VOCÊ ME AMA ME DIGA

MITCH ANTHONY

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 56

 

Jerry não se esquece daquele dia de inverno em que nevava e seu filho mais velho quase sofreu um acidente sério. Jeff mal tinha um ano de carteira e isso deixava Jerry nervoso toda vez que o rapaz saía de carro. A proximidade com o desastre aumentou sua ansiedade.

Um dia, logo depois do quase-acidente, Jeff disse ao pai que ia a uma festa e voltaria tarde.

- Dirija com cuidado! - Jerry advertiu.

Jeff virou-se para o pai com um olhar de tristeza e perguntou:

- Por que você sempre diz isso?

- Digo o quê?

- "Dirija com cuidado." É como se você não confiasse em mim dirigindo.

- Não, filho, não é nada disso - Jerry explicou. - É só uma maneira de dizer "Eu te amo".

- Olhe, papai, se você quer dizer que me ama, diga isso! Se não, posso confundir a mensagem.

- Mas... - Jerry hesitou. - E se seus amigos estiverem com você? Se eu disser "Eu te amo", você pode ficar sem graça.

- Nesse caso, papai, quando estiver se despedindo, basta colocar sua mão perto do coração e eu vou fazer a mesma coisa - Jeff sugeriu.

Jerry entendeu que seu filho, tanto quanto ele, queria expressar seu amor.

- Estamos combinados - ele disse.

Alguns dias depois, Jeff estava pronto para sair de novo, dessa vez com um amigo.

- Papai, pode me emprestar o carro? - ele pediu.

- Claro - Jerry respondeu. - Aonde você vai?

- Ao centro da cidade.

Jerry lhe deu as chaves.

- Jeff, divirta-se - disse o pai, colocando discretamente a mão perto do coração.

Jeff fez a mesma coisa.

- Claro, papai.

Jerry piscou. E Jeff, chegando perto do pai, falou baixinho:

- Piscar não faz parte do nosso trato.

Jerry ficou meio surpreso.

- Tudo bem, papai, até mais tarde - Jeff disse enquanto se dirigia à porta.

Antes de sair, ele se virou - e piscou.

 

 

Expressar afeto é o melhor dos métodos quando se quer acender

a paixão no coração de alguém e senti-la no seu próprio.

RUTH STAFFORD PEALE


 

É PRECISO SER UM HOMEM ESPECIAL

PARA SER UM BOM PADRASTO

BETH MULLALLY

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 58

 

Chegando o Dia dos Pais, me passou pela cabeça que, neste país, falta comemorar uma data, o Dia do Padrasto. Se há quem mereça um dia especial são as almas valentes que têm de se encaixar em famílias já prontas com o cuidado e o esmero de um neurocirurgião.

É por isso que temos o Dia do Pai Bob em nossa família. É a nossa versão do Dia do Padrasto, em homenagem a Bob, o padrasto de meus filhos. Eis por que nós celebramos esse dia.

Pai Bob acabou de se mudar.

- Se você fizer alguma coisa que magoe minha mãe, fique sabendo que mando você para o hospital - diz o rapaz que está na faculdade e que é muito maior do que o padrasto.

- Não vou esquecer - diz Pai Bob.

- Você não vai querer agora me dizer o que eu tenho de fazer - diz o garoto que está no primeiro grau. - Você não é meu Pai.

- Não vou esquecer - diz Pai Bob.

O rapaz que está na faculdade telefona. O carro quebrou a setenta quilômetros de casa.

- Já estou chegando - diz Pai Bob.

O vice-diretor da escola está no telefone. O garoto que está no primeiro grau se envolveu numa briga.

- Já estou chegando - diz Pai Bob.

- Preciso de uma gravata para usar com essa camisa - diz o rapaz que está na faculdade.

- Escolha uma no meu armário - diz Pai Bob.

- Você devia pôr um brinco na orelha - diz o garoto que está no primeiro grau.

- Você precisa parar de arrotar à mesa - diz Pai Bob.

- Vou tentar - diz o garoto.

- Não vou esquecer - diz Pai Bob.

- O que você achou da garota com quem eu saí ontem? pergunta o rapaz.

- É importante para você saber? - pergunta Pai Bob.

- É - diz o rapaz.

- Preciso falar com você - diz o garoto.

- Preciso falar com você - diz Pai Bob.

- Acho que devíamos fazer uma coisa para selar a relação entre padrasto e enteado - diz o rapaz.

- Fazendo o quê? - pergunta Pai Bob.

- Trocando o óleo do meu carro - diz o rapaz.

- Acho que devíamos fazer uma coisa para selar a relação entre padrasto e enteado - diz o garoto.

- Fazendo o quê? - pergunta Pai Bob.

- Me dando uma carona até o cinema - diz o garoto.

- Eu sabia - diz Pai Bob.

- Se beber, não dirija. Me telefone - diz Pai Bob ao rapaz.

- Obrigado. Se beber, não dirija. Me telefone - diz o rapaz.

- Obrigado - diz Pai Bob.

- A que horas tenho de chegar em casa? - pergunta o garoto.

- Às onze e meia - diz Pai Bob.

- Tudo bem - diz o garoto.

- Nunca pense em fazer nada que possa magoá-Io - o rapaz me diz. - Precisamos dele.

- Não vou esquecer - eu digo.

E por isso temos o Dia do Pai Bob. Os meninos compram para o padrasto um brinquedo novo com o qual todos possam se divertir juntos. Pai Bob faz um churrasco. E eu fico feliz pela sorte de Pai Bob ter entrado nessa família de forma tão encantadora que agora parece que ele sempre esteve ali.


 

TIO BUN

JAN NATIONS

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 61

 

Tio Bun era uma pessoa fascinante. Não nos visitava com frequência, mas ao ir a nossa casa quando eu era criança, nos anos quarenta e cinquenta, tudo ficava diferente durante o tempo que passava conosco. Éramos oito filhos e a maior parte de nossa diversão vinha de fazer tortas de lama, brincar com vaga-lumes e com outros insetos que surgiam no verão, além de construir casas de boneca no antigo galinheiro.

Para nós, tio Bun era um viajante que rodava o mundo.

Quando vinha nos visitar, contava histórias sobre os lugares em que estivera e as pessoas que conhecera. Fazia todos nós vermos a vida sob uma nova perspectiva. Normalmente trazia um presente maravilhoso para cada um e, às vezes, íamos até a pequena loja no centro da cidade e ele nos comprava um saco inteiro de balas de um centavo. O saco parecia enorme quando eu era uma garotinha.

Nunca sabíamos quando teríamos notícia de tio Bun. Eu atribuía isso ao fato de sua "carreira” - qualquer que ela fosse mantê-lo por demais ocupado para fazer planos. Às vezes, ao invés de nos visitar, enviava uma enorme caixa cheia de surpresas especiais, coisas que nunca tínhamos visto antes. Não existia maior felicidade do que abrir aqueles baús de amor feitos de papelão marrom.

Lembro que ficava imaginando como tio Bun deveria ser rico para poder nos comprar tantas coisas lindas. Não podia deixar de comparar aquele tio animado e generoso com meu próprio pai:

um homem simples, com uma vida simples, trabalhando nas minas de chumbo e fazendo pequenos consertos quando podia para manter um lar para sua mulher e filhos. Eu adorava papai e sabia que era um bom homem. Mas sua vida era sem nenhum glamour se comparada com a de seu irmão jovial, que tinha um brilho nos olhos, um largo sorriso e histórias fascinantes. Tio Bun sempre nos ligava um dia ou dois antes de chegar e, logo que papai desligava o telefone e nos contava que ele viria, ficávamos super agitados. Adorávamos tio Bun e esperávamos ansiosamente por aquela bem-vinda quebra de nossa rotina.

O que eu não sabia quando criança é que, quando tio Bun telefonava, papai ia até a cidade e mandava uma ordem de pagamento ao irmão com as economias que guardava. Cada centavo que tio Bun gastava conosco saía do bolso de papai.

Ao longo dos anos, as peças começaram a se encaixar: as muitas viagens de tio Bun eram feitas de trem, sem passagem, na traseira de vagões de carga. Suas histórias eram de pessoas que viajavam com ele, histórias que ele exagerava um pouco.

Nunca soube por que tio Bun escolheu viver como vivia ou por que meu pai manteve seu segredo durante todos aqueles anos.

O que sei é que, numa situação em que seria fácil ficar com o crédito, papai manteve um comportamento nada egoísta. Através de tio Bun, papai nos deu presentes de lugares onde nunca esteve.

E, através de nós, tio Bun participou da vida em família e recebeu o amor que não tinha na sua vida solitária. Com meu pai, que jamais disse uma palavra a respeito, aprendi tudo sobre o amor generoso e incondicional.


 

ANTES O PAI, AGORA O FILHO

W.W. MEADE

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 64

 

Numa noite de inverno, eu estava lendo e meu filho, Luke, se aproximou timidamente em silêncio. Ficou fora da meia-lua de luz que vinha de um abajur de bronze de que eu gostava muito. Antigamente ficava na mesa do consultório médico de meu pai.

Naquela época, Luke gostava de me trazer seus problemas mais sérios quando eu estava lendo. No ano anterior fazia isso sempre que eu estava trabalhando no jardim. Talvez ele se sentisse mais à vontade em relação a suas dificuldades quando eu estava fazendo aquilo que ele estava se preparando para fazer.

Quando começou a se interessar em ver as coisas crescerem, aprendeu a plantar sementes e a deixá-Ias na terra ao invés de desenterrá-Ias na manhã seguinte para ver se tinham crescido.

Agora estava começando a ler sozinho - embora ele não fosse admitir para mim.

Levantei os olhos do jornal e ele me deu um sorriso largo.

Mas, de repente, sua expressão tornou-se séria:

- Quebrei minha serra - disse, mostrando o brinquedo que tinha escondido atrás das costas. - Olhe só.

Luke não me pediu para consertá-Ia. Sua confiança de que eu poderia fazer isso era o respeito de um menininho ao milagroso consertador de triciclos, trenzinhos e vários outros brinquedos. O cabo de plástico azul da serra se partira. Meu pai, que apreciava as ferramentas de todas as profissões, não teria aprovado uma serra com cabo de plástico.

Eu disse:

- Faltam uns pedacinhos. Estão com você?

Ele abriu a mão e me estendeu os pedaços que tinham sobrado. Eu não tinha ideia de como consertar a serra.

Luke me olhou firme, a expressão revelando total confiança de que eu poderia fazer qualquer coisa. Aquele olhar revolveu lembranças. Examinei a serra cuidadosamente, remexendo as pecinhas quebradas na minha mão como remexia o passado em minha mente.

Quando tinha sete anos, fui ao consultório de meu pai depois da escola, num dia de novembro. Meu pai era realmente o melhor médico da pequena cidade de Ohio River, onde morávamos.

Ele sempre surpreendia a mim - e a seus pacientes - pelas coisas que podia fazer. Podia não apenas curar os males de qualquer pessoa, não importava o quê, mas também dominar um cavalo, fazer um pião e escorregar pela montanha em pé no meu trenó! Eu gostava de ficar na sala de espera do consultório ouvindo as pessoas me chamarem de "doutorzinho" e observando seus pacientes, que sempre saíam de sua sala melhor do que entravam.

Mas, naquele dia, quando eu tinha sete anos, estava lá para ver meu melhor amigo, Jimmy Hardesty. Ele não ia à escola há três dias, e sua mãe enviara um bilhete à enfermeira de meu pai dizendo que levaria Jimmy ao consultório naquele dia.

Quando o último paciente do dia foi embora, Jimmy ainda não chegara. Meu pai e eu saímos então para visitar doentes em casa. Ele gostava que eu fosse com ele e adorava me contar histórias enquanto dirigia. Eram quase sete horas quando terminamos. Quando voltávamos para casa, papai disse de repente: "Vamos ver como está o Jimmy." Fiquei contente e agradecido, certo de que meu pai estava fazendo aquilo para me agradar. Mas, quando chegamos à antiga casa de pedras cinza, havia uma luz acesa na janela superior da parte de trás e uma outra na varanda dos fundos - antigamente era assim que se avisava que havia algum problema na casa.

Papai estacionou o carro perto da porta de entrada. Alice, a irmã mais velha de Jimmy, saiu correndo e passou os braços à volta de meu pai, chorando e tremendo, tentando falar.

_ Ah, doutor. Jimmy está morrendo! Papai saiu à sua procura. Graças a Deus, o senhor está aqui.

Meu pai nunca se apressava. Costumava dizer que não há nenhuma razão para correr. Se você tivesse de correr, já era tarde demais. Mas disse para Alice soltá-Io e correu. Eu os segui pela cozinha, subindo pela escada estreita e escura da sala. Jimmy estava com a respiração ofegante e fazia um ruído alto, cheio de ar. O menino tinha montes de cobertores sobre ele, de modo que mal podíamos ver seu rosto na luz tremeluzente das lamparinas de querosene. Parecia exausto e sua pele brilhava.

Sua mãe estava extremamente abatida.

- Ah, doutor. Por favor, nos ajude. Era só um resfriado, então, de tarde, ele começou com esse suor terrível.

Eu nunca tinha visto a mãe de Jimmy assim antes. Ela ficou atrás de mim, com as mãos nos meus ombros, enquanto meu pai auscultava o peito de seu filho. Ele preparou uma injeção e levantou a agulha perto da luz. Eu tinha certeza de que ali estava para acontecer o milagre a que todos temos direito. Papai deu a injeção em Jimmy. Então pegou um chumaço de gaze e colocou na boca de meu amigo. Inclinou-se sobre ele e começou a respirar junto com ele. Ninguém se mexia no quarto e não havia outro som, a não ser a respiração regular de meu pai e a resposta da respiração de Jimmy, alta e sibilante.

Então, repentinamente como um raio, havia apenas o terrível som da respiração de meu pai. Senti as mãos da mãe de Jimmy pressionarem meus ombros e eu sabia, como ela sabia, que alguma coisa acontecera. Mas meu pai continuou a soprar nos pulmões de Jimmy. Passou-se um bom tempo e a senhora Hardesty foi até a cama, pôs a mão no braço de meu pai e disse:

- Ele se foi, doutor. Venha. Meu menino não está mais conosco.

Mas meu pai não se mexeu. A senhora Hardesty então me pegou pela mão e descemos, para a cozinha. Ela se sentou numa cadeira de balanço, e Alice, com um ar desamparado como eu jamais vira em ninguém, jogou-se no colo da mãe. Saí até a varanda e me sentei no degrau mais alto da escada, ali na escuridão gelada. Não queria que ninguém me visse ou falasse comigo.

Quando o senhor Hardesty chegou e viu nosso carro, entrou na casa e, por um minuto, ouvi vozes. Seguiu-se um silêncio, depois mais vozes. Finalmente meu pai saiu e o segui até o carro. Durante todo o solitário caminho de volta, ele não falou uma palavra. E eu não podia me arriscar a dizer nada para ele.

O mundo que eu pensava conhecer se partira no fundo do meu coração. Em vez de irmos para casa, fomos a seu consultório.

Ele começou a pesquisar em seus livros, procurando por alguma coisa que pudesse ter feito. Eu queria detê-Io, mas não sabia como. Não podia imaginar como a noite terminaria. De vez em quando, sem querer, eu começava a chorar novamente.

Finalmente alguém bateu à porta e fui até a sala da frente, agradecido a quem quer que fosse. Notícias sobre nascimentos e mortes correm rápido e vão longe numa comunidade como a nossa. Mamãe viera nos procurar.

Ela se ajoelhou, me abraçou, esfregou a parte de trás da minha cabeça e eu a abracei, como não fazia desde que era bebê.

_ Ah, mamãe, por que ele não conseguiu, por que ele não conseguiu? - eu soluçava, com a cabeça em seu ombro.

Ela esfregou minhas costas até me acalmar. Então disse:

_ Seu pai é maior que você, mas ele é menor que a vida. Nós o amamos pelo que ele pode fazer, não o amamos menos pelo que não pode fazer. O amor aceita o que encontra, seja o que for.

Embora eu não tenha certeza de ter compreendido o que ela quis dizer, sei que percebi a importância de suas palavras. Então ela entrou para falar com meu pai. Aquele inverno pareceu ter durado uma eternidade, mas todas essas lembranças passaram pela minha mente em segundos.

Continuei a remexer as peças do brinquedo quebrado de Luke e lhe disse:

- Não posso consertar.

- Pode, sim.

- Não, não posso. Desculpe.

Ele me olhou e a expressão de confiança desapareceu de seu rosto. Seu lábio inferior tremia e ele tentava segurar as lágrimas que surgiram.

Eu o coloquei no colo e o consolei da melhor maneira que pude - tanto pelo brinquedo quebrado quanto por ter acabado com a sua ilusão de que eu era infalível. Aos poucos o choro diminuiu. Eu tinha certeza de que ele percebera minha tristeza por tê-Io decepcionado ao demonstrar que era um simples mortal. Luke ficou aninhado em meu colo por um bom tempo, o braço à volta do meu pescoço.

Quando ele saiu da sala, me dando um olhar direto e amigável, pude ouvir a voz de minha mãe me dizendo, do seu jeito incontestável, que o amor não era condicional. Antes o pai, agora o filho. Eu sabia com certeza que da angústia daquela descoberta vinha a primeira luz, ainda fraca, da compreensão.


 

PÉS GRANDES, CORAÇÃO MAIOR AINDA

AUTOR DESCONHECIDO Do livro de Brian Cavanaugh, The Sower Seeds

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 70

 

O verão ainda não havia começado, mas fazia um calor insuportável. Parecia que todo mundo estava procurando por algum tipo de alívio e, assim, a sorveteria era um lugar natural para se ir.

Um menininha, com o dinheiro apertado na mão, entrou na loja. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, o empregado asperamente mandou que saísse e lesse o cartaz na porta - e que ficasse lá fora até que calçasse uns sapatos. A menina saiu devagar e um homem bem alto a seguiu até a calçada.

Ele ficou observando enquanto a garota leu o cartaz em frente à loja: PROIBIDO ENTRAR DESCALÇO. Lágrimas começaram a rolar pelo rosto da menina, que se virou para ir embora. Então o homem alto a chamou. Ele se sentou no meio-fio, tirou seus sapatos número quarenta e quatro e os colocou em frente à garota, dizendo:

- Tome aqui. Você não vai conseguir andar com eles, mas, se for deslizando os pés, pode buscar sua casquinha de sorvete.

O homem levantou a menina e colocou os pés dela nos sapatos.

- Não precisa ter pressa. Estou cansado de andar por aí e vou ficar muito bem aqui sentado, tomando meu sorvete.

Impossível não notar o brilho nos olhos da menina quando ela chegou no balcão e pediu a casquinha de sorvete.

Ele era um homem grande, é verdade. Tinha uma barriga grande, sapatos grandes, mas, principalmente, tinha um grande coração.

 

 

Quando as boas ações falam, as palavras não são necessárias.

PROVÉRBIO AFRICANO

 


 

PAPAI, TENHO UM BOLA DE PLÁSTICO

JEFF BOHNE

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 72

 

Estava preocupado com a minha filha. Betsy estava entrando na adolescência e passava por uma daquelas fases em que qualquer pequeno problema parece uma tragédia. Nos últimos tempos, andava cabisbaixa porque uma de suas melhores amigas resolvera implicar com suas roupas e debochar de tudo que ela dizia.

Queria encontrar uma forma de ensinar a Betsy que a vida é cheia de altos e baixos e que precisamos enfrentar as adversidades de cabeça erguida, sem deixar que afetem nossa autoestima. Mas fazer com que ela compreendesse isso não seria uma tarefa fácil. Como a maioria das meninas da sua idade, Betsy achava que os pais viviam em outro mundo e não entendiam seus problemas.

- Minha vida é uma droga. Ninguém se importa comigo e às vezes penso que ninguém ligaria se eu não estivesse mais aqui - ela me respondeu uma noite, quando tentei conversar com ela sobre a melhor maneira de lidar com as críticas da amiga.

- Eu e sua mãe nos importamos. Você é uma garota fabulosa - disse, dando-lhe um beijo de boa-noite.

Antes de dormir, conversei com minha mulher, Nancy, sobre o que podíamos fazer para ajudar Betsy. Pensamos numa boa estratégia.

No dia seguinte, durante o jantar com Betsy e o caçula, Andy, minha mulher lembrou "casualmente" de um discurso que o pastor de nossa igreja tinha feito há alguns dias. Ele tinha comparado os problemas com uma bola de plástico, daquelas bem leves que as crianças gostam de jogar na praia.

O pastor pediu que imaginássemos que estávamos no fundo de uma piscina e tentávamos manter a bola entre as pernas, sob a água. Isso era fácil por algum tempo, mas depois só havia duas possibilidades. Ou você ficava tão cansado que deixava a bola escapar e pipocar na superfície ou - o que é pior - ficava tão cansado em tentar mantê-la submersa que acabava se afogando.

A mensagem do pastor era clara: não adianta tentar esconder os problemas a qualquer custo. Mesmo usando toda nossa força e determinação, em algum momento eles virão à tona e lutar contra isso pode arruinar nossa vida. Por outro lado, ao observar as mentiras, mágoas, dúvidas e medos à luz do dia, temos muito mais chances de superar os obstáculos e perceber que não eram assim tão importantes.

Depois que Nancy contou a história, pude ver que os meninos estavam tentando entender o que aquilo tinha a ver com eles.

Expliquei que, às vezes, todos nós temos nossas "bolas de plástico", que tentamos esconder. Pedi que, a partir de então, sempre que eles tivessem dificuldade em nos contar um problema, deveriam simplesmente dizer: "Tenho uma bola de plástico." Nancy e eu prometemos que a única coisa que faríamos por vinte e quatro horas seria ouvir. Nada de gritos, julgamentos, conselhos: apenas ouvir. Depois de vinte e quatro horas, poderíamos tentar lhes ajudar a sair do problema. O fundamental era que soubessem que sempre estaríamos por perto e prontos para ouvir, independente da gravidade da situação.

Através dos anos, eles nos apresentaram muitas "bolas de plástico", normalmente tarde da noite. Algumas eram mais sérias que outras. Algumas até engraçadas e tentávamos não rir quando nos contavam. Outras jamais chegaram aos nossos ouvidos, mas foram divididas com amigos da família. Sempre nos submetemos à regra das vinte e quatro horas. Nunca voltamos atrás em nossa promessa, não importando o quanto queríamos reagir ao que contavam.

Os dois agora são adultos. Tenho certeza de que ainda têm "bolas de plástico" de vez em quando. Todos temos. Mas sabem que estaremos por perto para ouvi-los. Afinal, o que é uma bola de plástico? Algo que desaparece quando você a solta ao vento.

 


 

A ÚNICA LEMBRANÇA QUE PERMANECE

TED KRUGER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 75

 

Tenho muitas lembranças de meu pai e da minha infância com ele em nosso apartamento perto da linha do trem. Por vinte anos, ouvimos o barulho do trem como se passasse ao lado da janela do quarto.

Tarde da noite, papai esperava sozinho na estação pelo trem que o levava à fábrica, onde trabalhava no turno que começava à meia-noite.

Naquela noite especial, esperei com ele no escuro para me de pedir. Seu rosto estava crispado. O filho mais novo fora convocado para a guerra. Eu devia me apresentar às seis da manhã do dia seguinte, enquanto ele estivesse trabalhando na máquina de cortar papel.

Meu pai e eu conversamos sobre a revolta que ele sentia. Não queria que eles levassem seu filho, de apenas dezenove anos, que jamais bebera ou fumara sequer um cigarro, para lutar na Europa. Ele colocou as mãos sobre meus ombros magros:

"Tenha cuidado, Srulic, e, se precisar de alguma coisa, me escreva que eu consigo para você." De repente, ouviu-se o barulho do trem que se aproximava.

Ele me abraçou apertado e suavemente beijou-me o rosto. Com os olhos cheios de lágrimas, murmurou: “Amo você, meu filho." O trem chegou, as portas se fecharam e ele desapareceu na noite.

Um mês depois, aos quarenta e seis anos, meu pai morreu.

Tenho setenta e seis anos agora. Uma vez ouvi o repórter Pete Hamill, de Nova York, dizer que as lembranças são a maior herança de um homem e tenho de concordar. Sobrevivi a quatro invasões na Segunda Guerra. Tenho uma vida cheia de toda espécie de experiências. Mas a única lembrança que permanece é a de uma noite quando meu pai disse: “Amo você, meu filho."

 

Você nunca sabe quando está forjando uma lembrança.

RICKIE LEE JONES

RITOS DE PASSAGEM EM TURBILHÃO

STEFAN BECHTEL

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 77

 

Cheguei à região das florestas canadenses com meu filho Adam, que acabara de fazer treze anos. Eu estava pronto para alguma coisa extravagante. Se quisesse algo calmo e seguro, teria ficado em casa. "O papel da mãe é ensinar o filho a se afastar do perigo", pensei. Já o pai deve mostrar como chegar um pouco mais perto do limite.

Assim, fomos a uma loja de artigos esportivos em Minnesota e nos equipamos com mapas, barracas, material de pescaria e mantimentos para passar cinco dias na floresta. Pegamos um hidroavião para o Parque Provincial Quetico, em Ontário, dois mil e setecentos quilômetros quadrados de lagos de águas negras e florestas assombradas por lobos, mergulhões e alces, perto da fronteira de Minnesota, a partir da região dos Grandes Lagos.

No posto da ilha Hilly, onde o avião pousou num vale arborizado, pusemos o equipamento numa canoa de alumínio e partimos. Assim que ultrapassamos o primeiro ponto rochoso, estávamos completamente sós. A tarde estava nublada e uma luz cinzenta e difusa coloria as águas inclinadas das cachoeiras. À nossa volta, a margem rochosa tinha uma linha escura de árvores que se estendia na vastidão.

Paramos pela primeira vez depois de algumas horas remando para fazer uma pequena caminhada perto da cachoeira de Brewer, uma queda de uns seis metros, cheia de espuma, que se estendia por quase duzentos metros. Carregamos o equipamento até o alto da cachoeira em duas viagens. Na terceira levamos a canoa.

- Por que não descemos com o barco? - Adam perguntou de repente, quando estávamos no alto da queda-d'água, com a canoa agora vazia.

Deixando de lado momentaneamente a racionalidade, respondi:

- Claro, por que não?

Afinal, não parecia nada terrível - há pouco tempo fizéramos rafting no rio Novo, em West Virginia, e, comparando o rio e a cachoeira, parecia fácil. Adam me lembrou de colocar o colete salva-vidas. Subi na popa, ele na proa e fomos adiante. A água cor de chá puxava o bote.

- Fique na esquerda! - gritei, tentando nos guiar para fora do tumulto espumoso do centro da cachoeira.

- Não, vamos bem para o meio! - Adam gritou de volta.

E assim fizemos.

E foi quando uma queda de quase um metro, não visível da beira, apareceu à nossa frente. Num instante o barco chegou à beira do precipício, balançou de um lado para o outro e virou de cabeça para baixo. Vi Adam voando por cima do barco, o que logo  aconteceu comigo. Afundei e subi, bebendo água, mexendo as mãos, tentando segurar em alguma coisa. Com a força da torrente, afundei novamente e fui arrastado para baixo, batendo em pedras submersas. Minhas botas de caminhada, cheias d'água, instantaneamente se tornaram um peso enorme. Num relance, vi o salva-vidas roxo de Adam sendo arrastado para longe de mim.

Adam! - gritei, mas não ouvi a voz dele.

Quando comecei a planejar essa viagem, morrer afogado não era meu maior medo. O maior medo era não termos nada a dizer um ao outro, que Adam logo se cansasse da minha companhia e começasse a querer estar ali com um amigo ou - o que seria pior - com o seu Game Boy.

Quando conversei com ele sobre fazer uma viagem de aventuras para comemorar seus treze anos, Adam me disse que o que queria mesmo era descer e subir o Grand Canyon. Basicamente, queria ter uma boa história para se gabar. Mas eu preferia alguma coisa mais calma e tranquila. Queria lhe mostrar a região das florestas, mas sem ter de provar nada para ninguém. Mas, principalmente, queria me reaproximar de meu filho, que eu parecia ter perdido em meio a discos dos Smashing Pumpkins, Nintendo, bonés enfiados ao contrário na cabeça e tudo o mais. EIe estava passando tão depressa da doce vulnerabilidade da infância para a terrível teimosia da adolescência que eu às vezes imaginava que Ia acordar e descobrir que lhe nascera uma enorme barba durante a noite.

Como muitos pais de minha geração, eu também queria que houvesse, na vida de meu filho, alguma comemoração, algum rito que delineasse claramente a passagem da infância para a iminente vida adulta - um acontecimento mais espiritual do que tirar uma carteira de motorista e menos doloroso do que uma circuncisão.

Acertamos em fazer o passeio de canoa. Para meu alívio, as preocupações sobre não ter o que conversar se mostraram absurdas. Na verdade, ele parecia desejar a minha companhia tanto quanto eu desejava a dele. Redescobri, naquele rapaz crescido, o mesmo menino curioso e engraçado de anos atrás.

Remando por aqueles lagos lindos e reluzentes, os dois numa canoa estreita na água escura, fiquei surpreso em descobrir como aquele garoto pesava - já que, para o barco não inclinar, tentava manter o equilíbrio com o lastro dos nossos corpos.

Com uma onda de simpatia, percebi que o corpo daquele menino magrinho estava sofrendo uma violenta investida de testosterona e acumulando massa muscular a cada hora. Também me dei conta de que seus movimentos eram como uma série de explosões cinéticas - ele se balançava abruptamente de um lado para outro, batia na lateral do barco, não remava e, de repente, começava a remar furiosamente. Minha tarefa, concluí, não era reprimir aquela energia excessiva, mas ensiná-Io a equilibrá-Ia.

No fundo, acho que também pretendi usar a viagem para ter conversas sérias de pai para filho sobre crescer, ter responsabilidades e tudo o mais. Meu texto ensaiado era aborrecido pretensioso.

Todos esses pensamentos tomaram conta de mim em meio ao pânico, enquanto nós dois descíamos pela torrente d'água.

Consegui ver novamente o salva-vidas roxo de Adam e o localizei nadando em minha direção. Então, abruptamente fomos os dois lançados para fora do canal principal e caímos num redemoinho espumante. Surpreso, eu o ouvi rir e gritar: "Que barato, cara!" Eu estava morto de medo, mas ele estava se divertindo a valer.

Finalmente meu pé tocou o fundo e consegui me levantar.

Quando Adam também conseguiu, olhei para ele, que ainda tinha na cabeça o boné ensopado de seu time de basquete, e nós dois começamos a rir e gritar bem alto. A canoa, da qual só víamos as pontas da popa e da proa, de tão cheia d'água, tinha sido levada pelo vale e devia estar a uns duzentos metros dali.

Tivemos de atravessar o canal a nado, nos agarramos depois a um tronco que encontramos e finalmente caminhamos pela floresta para apanhar o barco, bastante avariado.

Só mais tarde percebi que, durante toda a malsucedida aventura, nós dois trocamos de lugar nos papéis de homem e garoto. Meu filho sugeriu a loucura de descer a cachoeira com a canoa, mas aconselhou que eu pusesse o colete salva-vidas. Eu concordei com seu plano nada adequado e depois tentei me comportar como adulto. Meu filho riu o tempo todo durante a descida e eu - exatamente como meu pai - estava morto de preocupação.

Eu estava ensinando Adam a ser um homem, mas, ao mesmo tempo, ele estava me lembrando de que não devia esquecer minha meninice. Ele também estava demonstrando mais uma coisa: que podia, às vezes, ser mais sensato e adulto que eu; que às vezes podia estar certo e eu errado; que alguma parte dele já era adulta. Achei esta revelação reconfortante, mas, ao mesmo tempo, perturbadora. Afinal, é inerente à noção de iniciar meu filho na idade adulta a de que estou transferindo meu papel para ele. Eu estava preparando aquele que ia me substituir. No final, minha ideia original e pretensiosa de levar meu filho para a floresta para se tornar adulto tinha se mostrado um pouco arrogante e simplista demais. Na verdade, eu parecia ter tanto a aprender quanto a ensinar.

Com dificuldade, saímos da água em direção à margem e, por alguns momentos, nos sentimos exultantes e vivos - ensopados, batizados, despertos. Tínhamos vivido juntos uma aventura. Alguma coisa nos acontecera e tínhamos sobrevivido.

A viagem tinha apenas começado.

 

Quando tiver certeza de que vai começar uma aventura,

limpe o mel do nariz e se ajeite o melhor que puder,

de modo a estar pronto para qualquer coisa que aconteça.

URSINHO PUFF, de A. A. Milne

PERMISSÃO PARA CHORAR

HANOCH MCCARTY

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 83

 

Sozinho, sentado à mesa de jantar, o resto da casa às escuras, comecei a chorar.

Finalmente tinha conseguido colocar os dois meninos na cama. Pai solteiro há pouco tempo, tinha de ser pai e mãe para meus filhos. Dera banho nos dois, com suas risadas de prazer, corridas malucas pela casa, gargalhando e jogando coisas um no outro. Mais ou menos acalmados, deitaram para eu fazer em cada um os prescritos cinco minutos de massagem. Peguei, o violão e comecei meu ritual noturno de músicas folclóricas, terminando com a favorita dos dois meninos. Cantei-a repetidamente, reduzindo aos poucos o ritmo e o volume até que tivessem aparentemente dormindo.

Recentemente divorciado, com a custódia dos filhos, estava determinado a lhes proporcionar uma vida doméstica a mais normal e estável possível. Para eles, estava sempre feliz. Tentava ao máximo manter as atividades costumeiras sem muitas alterações. Esse ritual noturno sempre acontecera. A única diferença é que agora a mãe estava ausente. Eu conseguira realizá-Io mais uma vez: outra noite concluída com sucesso.

Eu me levantei devagar, cuidadosamente, tentando não fazer qualquer barulho que pudesse despertá-Ios, pedindo mais canções e mais histórias. Saí do quarto na ponta dos pés, fechei a porta até a metade e desci as escadas.

Sentado à mesa de jantar, joguei-me na cadeira, ciente de que era a primeira vez, desde que chegara em casa do trabalho, que conseguia me sentar. Tinha cozinhado e servido o jantar aos meninos, batalhando para que comessem. Tinha lavado a louça ao mesmo tempo que tentava lhes dar a atenção que exigiam.

Ajudara o mais velho, que estava na segunda série, com o dever de casa. Tinha elogiado os desenhos do mais novo e exclamado ohs! de admiração com sua elaborada construção com os blocos de Lego. O banho, as histórias, as massagens nas costas, as canções e agora, finalmente, um pequeno momento só para mim. O silêncio era um alívio, por enquanto.

Então, tudo se acumulou em mim: a fadiga, o peso da responsabilidade, a preocupação com as contas que não tinha a certeza de poder pagar naquele mês. Os detalhes infindáveis do dia-a-dia de uma casa. Até há pouco tempo estava casado e tinha alguém para dividir essas tarefas, essas contas e essas preocupações.

E a solidão. Eu me sentia como se estivesse no fundo de um grande mar de solidão. Tudo aquilo vinha junto e eu estava completamente perdido, indefeso. Comecei a chorar, inesperada e convulsivamente. Fiquei ali, em silêncio, soluçando.

Bem nessa hora, um par de bracinhos me rodeou pela cintura e um rosto me examinou com atenção. Olhei para a carinha simpática do meu filho de cinco anos.

Fiquei envergonhado por meu filho me ver chorando.

- Desculpe, Ethan, não sabia que você ainda estava acordado.

Não sei por que isso acontece, mas tantas pessoas se desculpam quando choram e não sou exceção.

- Eu não queria chorar. Desculpe. Estou um pouco triste hoje.

- Tudo bem, papai. Não tem problema chorar, você é apenas uma pessoa.

Não posso descrever como me deixou feliz aquele garotinho que, com a sabedoria da inocência, me deu permissão para chorar. Parecia que estava dizendo que eu não tinha de ser sempre forte, que às vezes podia me permitir ser fraco e demonstrar meus sentimentos.

Ele deslizou para o meu colo e ficamos abraçados, conversando um pouco. Eu o levei de volta para a cama e o ajeitei entre as cobertas. De alguma forma, eu também consegui dormir naquela noite. Obrigado, meu filho.

 

 

 

Acima de tudo, dê valor ao amor que recebe. Ele vai sobreviver por muito tempo depois que sua riqueza e sua saúde tiverem acabado.

OG MANDINO

UMA NOVA PERSPECTIVA

SEAN COXE

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 86

 

Quando era criança, sempre podia contar com meu pai para olhar as dificuldades sob outra perspectiva, fosse uma perna quebrada ou um coração partido. Anos depois, eu estava arrasada, com uma série de problemas pessoais. Precisando de ajuda e me sentindo derrotada, gastei minhas últimas economias numa viagem à Flórida para ver papai.

Na última noite da minha visita, estávamos na ponta de um píer olhando o pôr-do-sol. Não conseguia mais conter meu amargor.

- Sabe, papai, se pudéssemos juntar todos os bons momentos da vida, não durariam vinte minutos.

- É - ele concordou.

Olhei-o, espantada. Ele ainda estava estudando o sol que se punha no horizonte. Então, olhando firmemente nos meus olhos, acrescentou tranquilamente:

- São como tesouros, não são?


 

UM ESCRITOR NA PRISÃO

CLAIRE BRAZ- VALENTINE

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 87

 

Fui convidada a ministrar uma oficina literária na prisão estadual de Susanville, perto das montanhas de Sierra Nevada, no norte da Califórnia.

Os homens que cumprem pena foram, em sua maioria, condenados por problemas com drogas. Estão alojados em grandes dormitórios com beliches. Não têm qualquer privacidade, nenhum lugar para estarem sozinhos, nenhum lugar para pensar tranquilamente. Eu sempre ficava apreensiva ao entrar em penitenciárias. Já fizera esse tipo de oficina em muitas prisões da Califórnia, mas que tinham celas. Em celas, mesmo se divididas com outro preso, pode-se encontrar um pouquinho de tempo para escrever. Com certeza esses homens em Susanville não iam se interessar pelo que eu tinha para oferecer.

Decidira passar os dois dias de curso dando um seminário sobre monólogos. Queria que aqueles homens tivessem a chance de escrever e então representar ante uma câmera. Queria que se vissem em vídeo antes que eu fosse embora no fim do segundo dia. Sentia que a vida na prisão provavelmente tirara deles a maior parte da identidade e que escrever e representar podia restaurar um pouco de quem foram ou de quem poderiam ser.

Fiquei satisfeita porque vinte presos se matricularam. Era o número máximo que eu dissera que poderia aceitar. Passei a primeira hora com eles falando sobre como era ser um escritor. Dizendo que há alegria e liberdade nas palavras. Que não interessava o quanto eram obrigados a ser como os outros, a se vestir como os outros, comer a mesma comida, ter o mesmo horário, pois, na escrita, poderiam finalmente ser diferentes - o quanto quisessem. Escrever pode ser a mais libertadora de todas as artes. Você pode ser livre através da palavra. Não há limites. Disse-Ihes que todas as vezes que pegava um lápis ou me sentava diante do computador ou da máquina de escrever era como se voltasse para casa, para a casa da minha arte, das minhas palavras. Esse era um mundo que ninguém poderia me tirar. Essa arte me sustentaria através de todos os meus dias.

Os homens prestavam atenção e, quando eu finalmente disse que começassem seus projetos de texto, eles se esforçaram.

Menos um deles. O jovem relutara em participar naquele primeiro dia, quando pedi que escrevessem seus monólogos. Todos os outros liam, reescreviam, liam novamente, mas ele ficou ali quieto, apagando, escrevendo, rasgando rascunhos, recomeçando. Sempre que me aproximava de sua mesa, ele, envergonhado, cobria a folha com os braços.

- Posso ver? - pedi.

- Prefiro que a senhora não veja - respondeu com um sorriso tímido.

Pensei, "que pena”. Mesmo que não estivesse participando como os outros, estava escrevendo. Escolheu passar o dia todo nessa sala quente e sufocante trabalhando em alguma coisa chamada monólogo. Naquela manhã, provavelmente, ele sequer conhecia o significado daquela palavra. Isso devia me deixar feliz. Mas não deixou. Estava preocupada com a necessidade de ele ter alguma privacidade, com sua inabilidade de partilhar, sabendo que ele estava pensando que seu texto não era suficientemente bom.

Eu já trabalhava em prisões há muitos anos para ser enganada por sua timidez. Sabia que muitos dos internos tinham aprendido, desde muito pequenos, que não conseguiam fazer nada direito. Tinham sofrido abusos e tormentos quando crianças e não tinham qualquer autoconfiança. Mas não importava o quanto eu elogiasse os outros internos, ele não cederia.

Voltou para o dormitório naquela noite com seu texto enfiado no bolso da calça. Muitos tinham deixado os trabalhos sobre as mesas. Mas não ele. Não se arriscou a deixar que eu lesse depois que ele estivesse atrás das grades. Tinha razão, é claro. Eu teria ido direto à sua mesa no minuto em que ele saísse pela porta. O rapaz tinha feito o julgamento certo de mim.

No segundo dia, todos os homens voltaram à sala. Aquilo me deixou especialmente satisfeita. O rapaz voltou também.

Nesse dia haveria a leitura e a gravação. Imaginei como o aluno silencioso e tímido enfrentaria isso. Estava realmente surpresa de vê-Io ali. Penteara o cabelo louro e comprido, a blusa estava bem passada. Naturalmente pensara que seria filmado e queria estar bem. Finalmente eu ia ouvir o que tinha escrito.

Ele não falou muito durante as atuações. Eu dera apenas algumas instruções, mas dissera que queria ouvir seus personagens me dizendo o que realmente sentiam, o que é que ninguém compreendia a respeito deles e por que precisavam falar. O rapaz louro ficou sentado quieto, observando os demais apresentarem os trabalhos. Um dos homens escrevera um monólogo para Deus, um outro decidira interpretar Abraham Lincoln, o outro, Martin Luther King, Jr. Alguns dos monólogos eram engraçados, outros sérios. Mesmo sem terem tido tempo para decorar os textos, quando começavam a ler, mal se viam os papéis em suas mãos. Eu estava profundamente emocionada com o resultado.

Finalmente, ele era o único que não tinha lido o monólogo.

Quando todos já tinham terminado, perguntei:

- Está pronto, agora?

- Acho que não - ele respondeu com uma voz delicada.

Então os outros começaram a cobrar.

- Cara, se eu pude fazer, você pode também. Vamos lá, tente. Você vai gostar. Vamos, cara, não seja tímido. Ninguém vai julgar você aqui.

Então ele se levantou e ficou em frente à câmera. Parecia tão jovem. Os papéis em sua mão tremiam como pássaros assustados, mas ele começou seu monólogo com determinação: "Meu nome é Bruce. Tenho vinte e um anos e estou morto. Estou morto porque fui preso por causa de drogas. Nunca liguei para nada nesta vida. Nem para mim mesmo. Só me importava em conseguir a próxima dose. Eu mataria por mais uma dose. Com certeza, mataria por mais uma dose." Ele continuou a falar de sua vida, como crescera em meio à pobreza, com pais alcoólatras, sofrendo maus-tratos e fome, sem ter uma vida própria, passando de um lar adotivo para outro. Enquanto lia, mostrava cicatrizes no corpo, marcas de queimaduras nos braços, onde seu pai embriagado apagava cigarros, os cortes nos punhos causados por uma tentativa de acabar com a vida. Não pude evitar. Fiquei com os olhos cheios d' água. Meu Deus, por que eu pedira para ele dividir essa dor terrível? Então o rapaz chegou ao fim da história.

"Embora eu tenha morrido na prisão, tenho uma coisa para lhes dizer. Eu acabo de renascer. Voltei a me levantar, como na Bíblia. Um dia uma mulher veio e me disse para escrever. Eu jamais tinha escrito antes, mas escrevi assim mesmo. Fiquei por oito horas numa cadeira e me concentrei como nunca tinha me concentrado na vida. Antes, eu sequer conseguia ficar parado!

Escrevi sobre o horror que foi a minha vida até agora e finalmente consegui sentir alguma coisa. Sentir pena. De mim mesmo. E eu senti mais uma coisa. Senti alegria. Eu estava escrevendo e o que eu estava escrevendo era bom. Eu era um escritor! E ia me levantar ante todos aqueles homens na sala e ia dizer isso..." Ao proferir essas palavras, ele levantou o pequeno manuscrito no ar. "Isso é mais importante para mim que qualquer droga. O que eu queria dizer é que morri como um viciado em drogas e renasci como um escritor."

Todos ficamos sentados ali, impressionados. A câmera continuou a filmar. Ele fez uma pequena mesura e disse "Obrigado", mais uma vez, com sua voz calma. Os outros aplaudiram fortemente. Ele andou até onde eu estava e apertou minhas mãos. Aos presos não é permitido tocar os professores, mas não contestei.

- A senhora me proporcionou uma coisa que nenhuma droga jamais proporcionou. O respeito por mim mesmo - ele disse.

Penso nele com frequência. Rezo para que tenha continuado a ter respeito por si mesmo através da palavra escrita. Sei, no entanto, que naquele dia, naquela sala, com aqueles homens, nasceu um escritor. Depois de uma longa e terrível viagem, uma alma perdida voltara para casa, a casa das palavras.


 

ESTATÍSTICAS

THE BEST OF BITS & PIECES

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 93

 

A mulher de um estatístico, disposta a procurar um emprego, persuadiu o marido a ficar em casa por um dia tomando conta das crianças.

Quando voltou, ele lhe entregou o seguinte relatório:

 

Lágrimas enxugadas, nove vezes. Sapatos amarrados, treze vezes.

Bolas de encher compradas, dezesseis.

Média de duração de uma bola, dez segundos.

Advertência às crianças para não atravessar a rua, vinte e uma vezes.

Número de vezes que as crianças atravessaram a rua, vinte e uma vezes.

Número de vezes que farei isso de novo, zero.

 


 

A PESCARIA MAIS IMPORTANTE DA VIDA

JAMES P. LENFESTEY, apresentada por Diana Von Holdt

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 94

 

Ele tinha onze anos e, a cada oportunidade que surgia, ia pescar no cais junto ao chalé da família, numa ilha no meio de um lago de New Hampshire.

A temporada de pesca só começaria no dia seguinte, mas ele e o pai saíram no fim de tarde para pegar peixes-lua e percas, cuja pesca era liberada. O menino amarrou uma isca e começou a praticar arremessos, provocando ondulações coloridas na água.

Logo as ondulações se tornaram prateadas por causa do efeito da Lua nascendo sobre o lago.

Quando o caniço vergou, soube que havia algo enorme do outro lado da linha. O pai olhava com admiração enquanto o garoto habilmente arrastava o peixe ao longo do cais.

Finalmente, com muito cuidado, ele levantou o peixe exausto da água. Era o maior que já tinha visto, mas era um dos peixes cuja pesca só era permitida na temporada.

O garoto e o pai olharam para o peixe, tão bonito, as guelras para trás e para a frente sob a luz da lua. O pai acendeu um fósforo e olhou o relógio. Eram dez da noite - faltavam duas horas para a abertura da temporada. O pai olhou para o peixe, depois para o menino.

- Você tem de devolvê-Io, filho - ele disse.

- Mas, papai! - reclamou o menino.

- Vai aparecer outro peixe - disse o pai.

- Não tão grande como este - choramingou o filho.

O menino olhou à volta do lago. Não havia outros pescadores ou barcos visíveis ao luar. Olhou novamente para o pai.

Mesmo sem ninguém por perto, o garoto sabia, pela clareza da voz do pai, que a decisão não era negociável. Devagar tirou o anzol da boca do enorme peixe e o devolveu à água escura.

A criatura movimentou rapidamente seu corpo poderoso e desapareceu. O menino desconfiou que jamais veria um peixe tão grande como aquele.

Isso aconteceu há trinta e quatro anos. Hoje, aquele garoto é um arquiteto de sucesso em Nova York. O chalé de seu pai ainda está lá, na ilha no meio do lago, e ele leva seus filhos e filhas para pescar no mesmo cais.

E ele estava certo. Nunca mais conseguiu pescar um peixe tão maravilhoso como o daquela noite, há tanto tempo. Mas ele sempre vê o mesmo peixe - repetidamente - todas as vezes que se depara com uma questão de ética.

Porque, como seu pai lhe ensinou, a ética é simplesmente uma questão de certo e errado. Apenas a prática da ética é que é difícil. Agimos corretamente quando ninguém está olhando?

Nós nos recusamos a passar por cima de regras para conseguir entregar o projeto a tempo? Ou nos recusamos a negociar ações com base em informações que sabemos que não devíamos ter?

Faríamos isso se nos tivessem ensinado a devolver o peixe para a água quando éramos jovens. Porque teríamos aprendido a verdade.

A decisão de fazer a coisa certa está vívida em nossas lembranças. É uma história que contaremos com orgulho a filhos e netos.

Não é uma história sobre como tivemos a oportunidade de derrotar o sistema e a aproveitamos, mas sobre como fizemos a coisa certa e ficamos fortalecidos para sempre.

 

 

 

As lições de moral que realmente permanecem

são as que vêm não dos livros, mas da experiência.

MARK TWAIN


 

O MOMENTO DE MOLLIE

BILL SHORE

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 97

 

Trabalhei muitos anos no meio político, numa carreira que me tomava muito tempo e exigia que viajasse com frequência.

Quando o senador Bob Kerrey concorreu à presidência dos Estados Unidos em 1992, por exemplo, ajudei-o na campanha e acabei passando um bocado de tempo longe de minha mulher, Bonnie, e de nossos dois filhos pequenos, Zach e Mollie.

Depois da campanha, vim para casa para aprender uma lição importante sobre como equilibrar carreira e família, sobre o que as crianças realmente precisam receber de um pai - e sobre como construir e demolir paredes.

Um pouco antes do terceiro aniversário de Molly, eu acabara de voltar de uma série de viagens com o senador, algumas durando seis ou sete dias, com uma rápida parada em casa para pegar mais roupa limpa.

Mollie e eu estávamos voltando do mercado na nossa vizinhança em Silver Spring, no estado de Maryland, quando ela me perguntou:

- Papai, em que rua é a sua casa?

- O quê? - Pensei ter ouvido errado.

- Em que rua é a sua casa?

Foi um momento crítico. Embora ela soubesse que eu era seu pai e que sua mãe e eu éramos casados, não sabia que eu morava na mesma casa que ela.

Embora pudesse convencê-Ia de que morávamos no mesmo endereço, sua incerteza quanto ao meu lugar em sua vida continuou a se manifestar de várias maneiras. Um joelho machucado a fazia correr para a mãe, não para mim. Uma questão levantada por alguma coisa ouvida na escola seria guardada por horas, até que a mãe estivesse por perto.

Compreendi que não só tinha de passar mais tempo com Mollie, como passar esse tempo de uma forma diferente. Quanto mais eu a sentia se distanciar de mim, mais tentava fazer coisas que nos aproximassem, como ir à piscina ou ao cinema.

Mas, se Mollie e eu não tivéssemos uma atividade programada, eu ia cuidar de afazeres em casa. Era para maximizar o tempo e ser útil.

Quando era para ler uma história na hora de dormir, Bonnie me chamava depois de vestir Mollie e colocá-Ia na cama. Eu entrava em seu quarto como um dentista que espera o paciente ser preparado porque não tem um minuto a perder.

Era assim que eu me sentia e, agora tenho certeza, era como Mollie se sentia também.

Mas tudo mudou numa noite de verão. Mollie estava ficando frustrada, tentando construir um esconderijo secreto no quintal da casa. Era fim de tarde e ela deveria estar ocupada até a hora de dormir, mas os ladrilhos acinzentados e finos que tentava apoiar uns nos outros continuavam a cair. Estava fazendo isso há dias, às vezes com um amiguinho da vizinhança, às vezes sozinha. Quando as paredes despencaram pela última vez, quebrando-se, ela começou a chorar.

- Sabe do que você precisa para conseguir fazer esse trabalho, Mollie? - perguntei.

- Do quê?

- Precisa de uns sessenta tijolos.

- É, mas não temos sessenta tijolos.

- Mas podemos conseguir.

- Onde?

- Na loja de material de construção. Vá calçar os sapatos e entre no carro.

Fomos até a loja, distante uns oito quilômetros, e achamos os tijolos. Comecei a colocá-Ios, vários de cada vez, num carrinho tipo plataforma. Eram grosseiros e pesados e percebi que era um trabalho para eu fazer. Do carrinho teriam de ser colocados no jipe e ainda descarregados em casa.

- Por favor, papai, deixe eu fazer isso. Por favor! - Mollie pediu.

Se eu deixasse, íamos ficar lá para sempre. Ela teria de usar as duas mãos para pegar apenas um deles. Olhei o relógio e tentei controlar minha impaciência.

- Mas, querida, são muito pesados.

- Por favor, papai, quero muito fazer isso - ela choramingou, dirigindo-se rapidamente à pilha de tijolos e levantando um deles com as duas mãos. Ela o arrastou até o carrinho e o colocou perto dos muitos que eu já pusera ali.

Aquilo ia levar a noite toda.

Mollie voltou até a pilha e cuidadosamente escolheu outro tijolo. Não teve pressa em escolher.

Então compreendi que ela queria que aquilo durasse a noite toda.

Era difícil nós dois termos um tempo assim, juntos e sozinhos. Isso seria o tipo de atitude impulsiva tomada por seu irmão mais velho, Zach, para ficarmos só os dois. Mas, com Zach, talvez numa maneira masculina de agir, o ideal seria terminar logo a tarefa e irmos construir a parede. Mollie queria que aquele momento durasse.

Encostei-me em um dos estrados de madeira e respirei fundo. Mollie, trabalhando firme no carregamento dos tijolos, relaxou e começou a conversar, falando sobre o que ela já construíra, sobre a escola, as amigas e a próxima aula de equitação.

Comecei a entender: estávamos ali comprando tijolos para fazer uma parede, mas, na verdade, estávamos demolindo uma parede, tijolo por tijolo - a parede que ameaçou me separar de minha filha.

Desde então aprendi o que a mãe dela já sabia: como assistir a um programa de tevê com Mollie, mesmo sendo um programa que não quero ver; como ficar com ela sem ao mesmo tempo ler um jornal ou uma revista, estando ali por inteiro.

Mollie não me quer por causa do que eu posso lhe dar, para onde posso levá-Ia ou mesmo por causa das coisas que podemos fazer juntos. Ela me quer por mim mesmo.


 

PARA MEU NETO

FLOYD WICKMAN E TERRI SLODIN

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 102

 

Ouvi num domingo, na igreja, a história de uma família de refugiados do Leste europeu, forçada a sair de casa por tropas invasoras. Perceberam que a única chance de escapar dos horrores da guerra era atravessar as montanhas que circundavam a cidade. Tinham certeza de que estariam a salvo num país vizinho e neutro, caso conseguissem fazer a travessia. Mas o avô não estava bem e a viagem seria dura.

- Me deixem para trás - pediu ele. - Os soldados não vão se importar com um homem velho como eu.

- Vão, sim - disse o filho. - Para o senhor será a morte.

- Não podemos deixar o senhor aqui, papai - reforçou a filha. - Se o senhor não for, então nós também não vamos.

O idoso finalmente cedeu e a família, composta de umas dez pessoas de diversas idades, inclusive uma netinha de um ano, partiu em direção à cadeia de montanhas que se via à distância. Caminharam em silêncio, revezando-se para carregar o bebê, o que tornou mais difícil a subida do desfiladeiro.

Depois de várias horas, o avô se sentou numa rocha e deixou pender a cabeça.

- Continuem sozinhos. Não vou conseguir - disse.

- Vai, sim - encorajou o filho. - Tem de conseguir.

- Não - disse o avô. - Me deixem aqui.

- Vamos - disse o filho. - Precisamos do senhor, é a sua vez de carregar o bebê.

O homem levantou o rosto e viu as fisionomias cansadas dos demais. Olhou para o bebê envolto num cobertor, agora no colo de seu neto de treze anos, um menino magrinho.

- Claro - disse o avô. - É a minha vez. Vamos, passem o bebê para mim. - Ele se levantou e ajeitou o bebê no colo, olhando seu rostinho inocente. De repente, sentiu uma força renovada e um enorme desejo de ver sua família a salvo numa terra em que a guerra seria uma memória distante.

- Vamos - ele disse, com determinação. - Já estou bem. Só precisava descansar um pouco. Vamos andando.

O grupo prosseguiu, com o avô carregando o bebê. E, naquela noite, a família conseguiu cruzar a fronteira a salvo. Todos os que iniciaram o longo percurso pelas montanhas conseguiram terminá-Io, inclusive o avô.

 

 

Nada como ter netos para reforçar sua crença na hereditariedade.

DOUG LARSON

 


 

TODO MUNDO CONHECE TODO MUNDO

LEA MACDONALD

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 104

 

Hoje foi um dia especial, o tipo de dia que reforça a nossa fé, mesmo que ela seja frágil.

Aprendi uma lição, ensinada por meu filho de seis anos, Brandon.

Eu o observava na mesa da cozinha, arrumando cuidadosamente sua lancheira. Ia levá-Io comigo ao trabalho. Ele dizia:

- Vou ser um trabalhador.

Ali estavam cuidadosamente dispostas todas as coisas de que ele precisaria durante o dia: um livrinho para colorir, lápis, uma caixa com bonequinhos, um bolinho de cereja, um "sandiche" (como ele dizia) de salada de ovo e três ovos de Páscoa.

Conviver com Brandon nos faz ver que o tempo não tem qualquer significado. Como estava atrasado, pedi:

- Se apresse! - Tenho certeza de que ele pensa que o relógio é uma arma secreta inventada pelos suíços.

Ele se apressou. Na verdade, deixou em casa o caprichado pacote do sanduíche, um problema que não me deixou esquecer nos quarenta e cinco minutos que levamos até a cidade.

Reclamou comigo várias vezes, dizendo:

- Papai, você me fez correr. Agora não tenho nada para comer.

Durante o tempo que durou a repreensão, ele mudou as palavras, mas o sentido permaneceu o mesmo:

- Preciso de alguma coisa para comer, você me fez esquecer o lanche.

Comprei um sanduíche e outro bolinho num restaurante da cidade. Satisfeito, Brandon carregou a sacola para a caminhonete e logo seus pensamentos rebeldes do tipo "sem sanduíche, nada de trabalho" foram embora.

Chegamos a um chalé nos arredores de Kingston, em Ontário, Canadá. Nosso serviço: instalar um carpete na casa.

Toquei a campainha. Ouvi o ferrolho sendo aberto, depois a fechadura e a correntinha de segurança. A porta se abriu devagar e surgiu um homem idoso e magro. Parecia doente. O cabelo branco cobria apenas algumas partes da cabeça. A camisa azul-clara sobrava nos ombros, como se pendurada em um cabide.

Sorri, perguntando se ele era o senhor Burch.

- Sou. Você veio colocar o carpete?

- Vim, sim.

- Tudo bem. Vou deixar esta porta aberta.

- Certo, vou começar o serviço.

- O senhor tem uma "geladelà'? - Brandon perguntou de repente. O senhor olhou para ele, que lhe esticou a mão com seu lanche.

- Tenho, sim. Você sabe onde ela está?

- Sei, sim - disse Brandon, seguindo em frente. - Está na cozinha.

Eu ia dizer a Brandon que era muito atrevimento ir entrando daquele jeito, mas, antes que pudesse fazê-Io, o senhor levou o dedo aos lábios, indicando que não havia problema.

- Tudo bem, ele não vai passar da cozinha. Ele realmente ajuda você?

Fiz que sim com a cabeça. Brandon voltou, perguntando com sua voz mais encantadora:

- O senhor tem um livro de colorir?

Mais uma vez eu quase disse a Brandon que estava sendo inconveniente. Fiz um gesto indicando que fosse para fora. O senhor segurou-me levemente a mão. Olhou para Brandon.

- Seu pai me disse que você o ajuda.

- Sou um trabalhador - Brandon respondeu, orgulhosamente.

Olhei para baixo e acrescentei:

- Parece que o trabalho dele hoje é manter o cliente ocupado.

O senhor olhou para Brandon e soltou minha mão, com um pequeno sorriso.

- Quem sabe você pode trabalhar um pouco e me mostrar como se faz para colorir?

Com um ar muito sério, Brandon perguntou:

- Papai, você vai ficar bem?

- O senhor Burch vai ficar bem? - questionei.

- Vamos ficar bem. Vamos ficar aqui na mesa. Venha me ajudar a pegar o livro, trabalhador.

Fui até a caminhonete, voltando com o material e meu bloco de anotações a tempo de ouvir Brandon comentar:

- O senhor já coloriu este livro. O senhor colore muito bem.

- Não, não fui eu que colori. Foram meus netos.

- O que são netos? - Brandon perguntou, curioso.

- São os filhos dos meus filhos. Eu sou o avô.

- O que é um avô?

- Quando você crescer, se casar e tiver seus próprios filhos, seu pai vai ser avô. E sua mãe vai ser avó. Eles vão ser os avós de seus filhos. Entendeu?

Brandon fez uma pausa e disse:

- Entendi, vovô.

- Não, eu não sou o seu avô - explicou o senhor.

Brandon afastou o cabelo dos olhos. Estudando os lápis de cor, escolheu um, continuou a colorir e disse:

- Todo mundo conhece todo mundo, o senhor sabia?

- Não tenho tanta certeza. Por que você está dizendo isso?

- O senhor perguntou, olhando com curiosidade para o meu filho, que, aplicado, continuava a colorir.

- Nós todos viemos de Deus. Ele fez todos nós. Somos uma "familà' .

- É verdade. Deus fez todas as coisas - o senhor confirmou.

- Eu sei - disse Brandon, com uma voz alegre. - Ele me disse.

Eu nunca antes ouvira meu filho falar dessas coisas, a não ser uma vez em que fôramos à igreja para assistir a um auto de Natal. Enquanto esperávamos pela apresentação, ele me perguntou por que porta Deus entraria se Ele fosse se sentar perto de nós.

- Ele lhe disse? - O senhor estava visivelmente curioso.

- É, Ele disse. Ele vive lá em cima. - Brandon apontou para o teto, olhando para o alto com respeito. - Eu "lembo" de quando estava lá e falei com ele.

- E o que foi que Ele lhe disse? - O senhor pousou o lápis sobre a mesa, prestando atenção em Brandon.

- Ele disse que somos todos uma "familà'. - Depois de uma pausa, meu filho acrescentou, com lógica: - Então o senhor é meu avô.

O senhor Burch me olhou de longe e sorriu. Fiquei envergonhado por ele ter me flagrado observando a conversa. Ele disse a Brandon que continuasse colorindo, pois ia verificar como estava indo o serviço.

O senhor caminhou vagarosamente até onde eu estava.

- Como está indo? - perguntou.

- Tudo bem - respondi. - Não vai demorar. - O senhor deu um leve sorriso.

- O menino tem um avô?

Parei um pouco o que estava fazendo.

- Não, não tem. Eles se foram quando ele nasceu. Ele tem uma avó, mas ela tem a saúde frágil, não está bem.

- Sei do que você está falando. Eu tenho câncer. Também não vou ficar nesta terra muito tempo.

- Sinto muito saber disso, senhor Butch. Perdi minha mãe com câncer.

Ele me olhou com seus olhos cansados, mas sorridentes.

- Todo garoto precisa de um avô - disse suavemente.

Concordei e disse:

- Mas esse não era o destino de Brandon.

O senhor olhou de novo para Brandon, que coloria animadamente. Virou-se para mim e perguntou:

- Você vem muito à cidade, filho?

- Eu? - perguntei.

-É.

- Venho quase todos os dias. O senhor me olhou novamente.

- Quem sabe você pode trazer o Brandon aqui de vez em quando, se estiver por perto, assim por uma meia hora? O que você acha?

Dentro da casa vi Brandon, que parara de colorir e estava prestando atenção ao que falávamos.

- Pode, papai? Somos "gandes" amigos. Podemos almoçar juntos.

- Tudo bem, se não atrapalhar o senhor Burch.

O senhor foi até a mesa, Brandon deslizou pela cadeira e foi até a geladeira.

- Hora do lanche, vovô. Aqui tem para nós dois. - Brandon voltou à mesa e tirou as coisas da sacola de papel.

- O senhor tem uma faca? - Brandon perguntou.

O senhor fez menção de se levantar.

- Deixe que eu pego. Me diga onde está - disse Brandon.

- As facas para manteiga estão no canto do balcão, na gaveta.

- Achei!

Brandon voltou à mesa. Desembrulhou o bolinho. Como se cortasse um diamante, dividiu-o em dois pedaços idênticos.

Colocou um deles sobre o plástico que o envolvia. Empurrou-o em direção ao senhor Burch.

- Este é seu. - Em seguida, desembrulhou cuidadosamente o sanduíche e partiu-o ao meio. - Este é seu também. Temos que comer o "sandiche" primeiro. É o que a mamãe diz.

- Tudo bem - respondeu o senhor Burch.

- Você gosta de suco, Brandon?

- Gosto de suco de laranja.

Caminhando devagar, o senhor Burch foi até a geladeira.

Pegou uma lata de suco e encheu dois copos pequenos. Colocou um deles em frente a Brandon.

- Obrigado, vovô.

Enquanto comiam, Brandon fazia perguntas ao senhor Burch e continuava a colorir - Você joga hóquei, Brandon?

- Jogo - Brandon respondeu, examinando a ponta do sanduíche antes de mordê-Ia. - Papai me levou, com Tyler e Adam, no inverno.

- Há muitos anos, eu jogava num time de primeira linha, estava quase pronto para jogar na Liga Nacional de Hóquei, mas nunca fui convocado. Mas uma vez participei de uma partida com um jogador que foi para a Liga. Era um ótimo profissional. Ele se chamava Bill Moore - contou o senhor Burch.

Meu coração veio até a garganta.

- Tutter Moore? - perguntei.

O senhor Burch me olhou, surpreso.

- É, era ele... foi convocado para ir a Boston várias vezes.

Você ouviu falar dele?

- Ouvi - disse com a voz embargada. - O senhor está lanchando com o neto dele.

O senhor virou-se para Brandon e fixou o olhar no menino, que o olhava inocentemente.

- É... ele se parece muito com Tutter. E o nome da avó é Lillian?

- É - respondi.

O senhor segurou a mão de Brandon.

- Brandon, tenho de lhe pedir desculpas. Você estava certo e eu errado. Todo mundo conhece mesmo todo mundo.

 

 

Se você procurar uma forma de ajudar alguém, estará se ajudando também.

AUTOR DESCONHECIDO

 


 

UM PEDAÇO DE GIZ

HOLLY SMELTZER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 112

 

Em casa, era natural termos medo de papai.

Até mesmo mamãe tinha medo dele. Quando éramos crianças, minha irmã e eu achávamos que todas as famílias eram daquela maneira. Que toda família tinha um alcoólatra imprevisível, impossível de se agradar, e uma mãe que rezava e estava sempre ali para proteger os filhos. Pensávamos que Deus tinha determinado as coisas daquele jeito.

Éramos boas crianças. Mamãe estava sempre nos dizendo isso, apesar de papai não reconhecer. Em parte, éramos boas porque não ousávamos fazer nada. Éramos crianças tranquilas, tímidas, que quase não falavam - e nunca falávamos quando papai estava em casa. As pessoas achavam que Deus abençoara mamãe com meninas tão doces. Ela tinha muito orgulho de nós!

Então chegou o dia em que descobrimos uma coisa nova e divertida para fazer.

Sabíamos que aquilo não aborreceria ninguém. Não nos arriscávamos quanto a isso. Em casa, tínhamos uma porta de madeira. Descobrimos que podíamos desenhar sobre ela com giz e apagar facilmente, esfregando. Vamos nos divertir muito.

Começamos a fazer nossos desenhos, lindas figuras traçadas em toda a porta. Foi um divertimento. Ficamos surpresas ao descobrir nosso talento. Eram bons os desenhos! Foi quando decidimos acabar nossa obra de arte. Estávamos orgulhosas do nosso trabalho. Sabíamos que mamãe ia adorar. Ia querer que todos os amigos viessem vê-Io e talvez eles quisessem que também pintássemos as portas de suas casas.

Descobríramos uma coisa em que éramos realmente boas!

Mas o elogio que esperávamos não veio. Em vez de ver a beleza do trabalho, tudo em que mamãe pensou foi no tempo que levaria e no esforço que faria para remover tudo.

Estava uma fera. Nós não compreendemos por que, mas sabíamos tudo sobre broncas - e estávamos metidas numa grande confusão!

Corremos para procurar um lugar para nos esconder. No bosque cheio de árvores que ficava atrás de casa não era difícil duas crianças pequenas se sentirem a salvo. Juntas, ficamos atrás de uma árvore, sem nos mexermos. Logo ouvimos as vozes amedrontadas de mamãe e dos vizinhos nos chamando. Mesmo assim sequer nos mexemos. Eles estavam com medo de que tivéssemos fugido e nos afogado no lago.

Estávamos com medo de sermos achadas.

O sol se pôs, começou a escurecer. As pessoas começaram a ficar mais ansiosas e nós, com mais medo. O tempo passava e, quanto mais tempo ficávamos escondidas, mais difícil era sair. Àquela altura, mamãe já estava convencida de que alguma coisa horrível nos acontecera e chamou a polícia. Sabíamos que alguma coisa estava se passando porque ouvíamos as vozes do grupo se misturando. E a busca continuava, agora com vozes fortes de homens se sobrepondo às demais. Se antes estávamos com medo, naquela hora ficamos apavoradas!

Abraçadas na escuridão, ouvimos uma outra voz, que imediatamente reconhecemos com horror: a de papai. Mas havia algo estranhamente diferente em sua voz. Nela sentíamos alguma coisa que jamais tínhamos sentido antes.

Medo, agonia, desespero - não podíamos dar um nome -, mas era assim que era. Então vieram as lágrimas mescladas às preces.

Estava nosso pai ajoelhado pedindo alguma coisa a Deus?

Nosso pai, com lágrimas no rosto, prometendo dedicar a Deus a própria vida se Ele devolvesse suas meninas a salvo?

Nada em nossa vida nos preparara para essa espécie de choque. Nenhuma de nós se lembra de ter tomado a decisão.

Fomos arrastadas até ele como um ímã, nossos medos se perdendo na floresta. Não sabemos sequer se nós é que realmente demos os passos ou se Deus de alguma forma nos deslocou e nos fez chegar a seus braços. Mas nos lembramos daqueles braços fortes e amorosos que nos envolveram, papai chorando, nos apertando como se fôssemos tesouros.

As coisas mudaram depois do que aconteceu. Tínhamos um novo pai. Era como se o antigo tivesse ficado enterrado na floresta. Deus levara aquele, substituindo-o por outro, um que nos amava e era grato por nos ter como filhas.

Mamãe sempre nos disse que Deus faz milagres. Acho que ela estava certa. Ele mudou toda a nossa família com um pedaço de giz.


 

MEU SEGREDO DE AMOR

ROBERT FULGHUM

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 116

 

Fica numa prateleira no alto do armário. Já foi uma caixa de sapatos enfeitada para o Dia dos Pais, um presente da minha filha mais velha. Dentro dela, papel-cartão rosa, vermelho e branco, desenhos e colagens com três tipos de macarrão, jujubas e confeitas - tudo aquilo grudado com um exagero de cola branca.

A caixa de sapatos está enrugada e mofada onde as jujubas e os confeitas derreteram. Está grudenta em alguns lugares. Mas é um repositório de relíquias da infância dos meus filhos.

Se levantar a tampa, você vai entender por que a guardo.

Em folhas dobradas e desbotadas de bloco pautado, agora frágeis, estão as palavras: "Oi, papai", "Felis Di dos Pais" e "Ti amo". No fundo da caixa, colados, vinte e três corações feitos de miçangas. Com seus rabiscos, cada um dos três escreveu o nome. É o produto do amor em seu estado mais puro e verdadeiro.

As crianças agora são adultas. Ainda me amam, embora tenham dificuldade, às vezes, de demonstrar. O amor se complica com a idade e o conhecimento. É amor, sim, mas não é simples. Não é uma coisa que se poderia colocar numa caixa de sapatos.

Ninguém sabe que aquele presente antigo e grudento está lá. De v~ em quando eu o desço do armário e abro a caixa. É uma coisa em que posso tocar, segurar e acreditar, agora que não há mais bracinhos ao redor do meu pescoço.

É o meu baú do tesouro. E ele significa amor. Quero que o enterrem comigo. Quero levá-Ia aonde quer que eu vá.

 


 

UMA FAMÍLIA PARA FREDDIE

ABBIE BLAIR

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 118

 

Lembro-me da primeira vez em que vi Freddie. Estava em pé no seu cercadinho na agência de adoção onde trabalho. Ele me deu um sorriso cheio de dentes. "Que bebê bonito", pensei.

- Será que você vai conseguir achar uma família para Freddie? - a moça que tomava conta dele na agência me perguntou.

Foi quando percebi. Freddie tinha nascido sem os braços.

- Ele é tão esperto. Só tem dez meses, já anda e fala. - Ela o beijou. - Diga "bolá' para a senhora Blair.

Freddie sorriu para mim e escondeu a cabeça no ombro da encarregada.

- Vamos, Freddie, não faça assim - ela disse. - Ele é realmente muito afável, um garoto muito, muito bonzinho.

Freddie me fazia lembrar meu próprio filho com aquela idade, os mesmos cachos escuros e espessos, os mesmos olhos marrons.

- Não vai se esquecer dele, senhora Blair? Vai tentar?

- Não vou me esquecer.

Fui para o andar de cima e peguei minha lista atualizada de "crianças de difícil colocação".

 

Freddie é um menino de dez meses de idade, branco, de origem protestante, inglesa e francesa. Tem olhos e cabelos castanhos e pele clara. Freddie nasceu sem os braços, mas goza de boa saúde. A pessoa que se ocupa dele na agência considera sua inteligência superior à média e ele já está andando, além de dizer algumas palavras. É uma criança carinhosa e amorosa. Freddie foi abandonado por sua mãe biológica e está pronto para ser adotado.

 

"Ele está pronto", pensei. "Mas quem está pronto para ele?" Eram dez horas de uma linda manhã de fim de verão e a agência estava cheia de casais - casais sendo entrevistados, conhecendo bebês, famílias sendo formadas. Esses casais quase sempre têm o mesmo sonho: querem uma criança parecida com eles, com pouca idade e - o mais importante - sem problemas.

- Se ele tiver um problema depois de o levarmos, tudo bem.

É um risco que corremos, como quaisquer outros pais. Mas escolher um bebê que já tem um problema, aí é demais - eles dizem.

E quem pode culpá-Ios?

Eu não era a única a procurar pais para Freddie. Todas as pessoas encarregadas das entrevistas com novos casais interessados começavam a conversa com uma esperança: talvez aqueles quisessem ficar com Freddie. Mas o verão passou, chegou o outono e Freddie ainda estava conosco no seu primeiro aniversário.

- Freddie é gaaande - dizia o menino, rindo. - Gaaande.

E então eu os encontrei.

Começou como sempre começa: uma mensagem impessoal na secretária eletrônica, um novo caso, uma nova família a ser analisada, duas pessoas que queriam uma criança. Eram Frances e Edwin Pearson. Ela com quarenta e um anos, ele com quarenta e cinco. Ela dona-de-casa, ele motorista de caminhão.

Fui vê-los. Viviam numa casa de madeira branca bem pequena, num grande terreno cheio de sol e árvores antigas.

Juntos me receberam à porta, ansiosos e mortos de medo.

A senhora Pearson serviu um café quentinho e biscoitos assados no forno. Sentaram à minha frente, num sofá, bem perto um do outro, de mãos dadas. Depois de um momento, a senhora Pearson falou.

- Hoje é nosso aniversário de casamento. Dezoito anos.

- Anos muito bons, com a exceção... - disse o senhor Pearson, olhando para a mulher.

- É. Com a exceção, sempre a exceção... - Ela olhou em volta. - A casa está arrumada demais, dá para entender?

Pensei na sala da minha casa e nos meus três filhos, agora adolescentes.

- Dá, dá para entender - respondi.

- Será que estamos muito velhos?

Sorri.

- Vocês não se acham velhos e nós também não achamos.

- A gente sempre pensa que vai ser num mês, depois no próximo. Exames. Testes. Todas essas coisas. Um monte de vezes. Mas nunca aconteceu nada. Você fica com aquela esperança e o tempo vai passando - disse a senhora Pearson.

- Já tentamos adotar antes. Uma agência nos disse que nosso apartamento era pequeno demais, então compramos esta casa. Em outra agência nos disseram que eu ganhava muito pouco. Resolvemos nos conformar, mas um amigo nos indicou a sua agência e decidimos fazer uma última tentativa - o marido acrescentou.

- Fico contente com isso - eu disse.

A senhora Pearson olhou orgulhosa para o marido.

- Será que podemos escolher? - ela perguntou. - Conseguir um menino para meu marido?

- Vamos tentar arrumar um garoto - eu disse. - Que tipo de garoto?

A senhora Pearson riu.

- Quantos tipos existem? Basta que seja menino. Meu marido gosta muito de esportes. Jogava futebol e basquete quando estava no colégio. Ele será um ótimo pai.

O senhor Pearson me olhou.

- Sei que a senhora não pode dizer exatamente agora, mas pode nos dar uma ideia de quando será? Já esperamos tanto tempo!

Hesitei. Sempre faziam essa pergunta.

- Talvez no próximo verão - a senhora Pearson falou. Poderíamos levá-Io à praia.

- A senhora não teria um garoto para nós? Deve haver um menininho em algum lugar. - Depois de uma pausa, o senhor Pearson continuou. - Claro que não podemos dar a ele o mesmo que outras pessoas. Não temos muito dinheiro guardado.

- Mas temos um monte de amor - acrescentou a mulher. Amor nós guardamos bastante.

- Bem, há um menininho. Ele tem treze meses - eu disse, cautelosa.

- Ah, uma bela idade - disse a senhora Pearson.

- Tenho uma fotografia dele. É um menino maravilhoso, mas nasceu sem os braços - disse, mostrando a foto de Freddie.

Olharam a fotografia em silêncio, estudando-a. O senhor Pearson olhou para a mulher.

- O que você acha, Fran?

- Futevôlei. Você pode ensinar futevôlei para ele - a senhora Pearson disse, entusiasmada.

- O esporte não é a coisa mais importante. O importante é aprender como usar a cabeça. Ele pode viver sem os braços. Mas nunca sem a cabeça. Pode ir à faculdade. Vamos economizar para isso - o senhor Pearson falou.

- Um menino, é um menino - insistiu a senhora Pearson. - Ele precisa jogar alguma coisa. Você pode ensinar.

- Vou ensinar. Os braços não são tudo. Talvez consigamos uns braços para ele.

Eles se esqueceram de que eu estava ali. Mas talvez o senhor Pearson estivesse certo. Talvez um dia Freddie pudesse ter braços artificiais. Na verdade ele tinha protuberâncias onde os braços deveriam estar.

- Então vocês gostariam de vê-Io?

Eles me olharam.

- Quando podemos apanhá-Io?

- Vocês acham que podem querer ficar com ele?

A senhora Pearson me olhou.

- Se podemos? - ela disse. - Podemos?

- Nós o queremos - disse o marido.

Olhando para a fotografia novamente, a senhora Pearson perguntou:

- Você estava esperando por nós, não estava?

- O nome dele é Freddie, mas vocês podem trocar.

- Não. Frederick Pearson - o nome combina com o nosso.

E assim foi.

Houve formalidades, é claro. E, quando marcamos a data para a entrega de Freddie, as luzes de Natal enfeitavam as ruas da cidade e havia guirlandas penduradas em todos os lugares.

Encontrei os Pearson na sala de espera. Em seus casacos, uns flocos de neve.

- Seu filho já está aqui - lhes disse. - Vamos subir, que vou trazê-Io para vocês.

- Estou nervosa! - disse a senhora Pearson. - E se ele não gostar de nós?

Pus a mão sobre seu braço.

- Vou apanhá-Io - eu disse.

A pessoa encarregada de Freddie o vestira com uma roupa nova, branca, com um ramo de azevinho e tiutinhas vermelhas bordados na gola. Seu cabelo brilhava, um monte de cachos escuros.

- Para casa - Freddie me disse, sorrindo, quando a encarregada o colocou no meu colo.

- Eu disse isso a ele. Disse que ele estava indo para sua casa nova - ela falou.

Ela o beijou, os olhos cheios de lágrimas.

- Até logo, querido. Seja um bom menino.

- Bom menino - disse Freddie alegremente. - Para casa.

Levei-o ao andar de cima, até a sala onde os Pearson estavam esperando. Quando cheguei, coloquei-o no chão e abri a porta.

- Feliz Natal- eu disse.

Freddy deu uns passos cambaleantes, sem muito equilíbrio, olhando firmemente para as duas pessoas à frente dele. Os Pearson ficaram maravilhados.

O senhor Pearson se apoiou em um dos joelhos.

- Freddie, venha cá. Venha aqui com o papai.

Freddie olhou para trás, me procurando. Mas logo se virou e andou devagar até eles, que abriram os braços e o envolveram carinhosamente.

UMA BOA AÇÃO A MITZVAH

ARNOLD GEIER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 125

 

Era o outono de 1945 e voltei a Viena com as primeiras tropas americanas de ocupação. Estivera lá três meses antes como intérprete de alemão numa missão especial destinada a negociar a divisão da cidade em quatro zonas de aliados, parecido com o que fora feito em Berlim. Eu era fluente em alemão porque, apenas seis anos antes, emigrara de Berlim para os Estados Unidos. Assim que foi possível, me alistei no Exército americano para servir meu novo país e estava orgulhoso em vestir seu uniforme.

Numa sexta-feira à noite, sentindo saudades de casa, dirigi-me à única sinagoga que restara em Viena para assistir à cerimônia. As pessoas que vi ali davam pena. Cerca de cinquenta homens e mulheres, magros e pobremente vestidos. Falavam com sotaque ídiche e presumi que eram remanescentes de prósperas comunidades judaicas da Europa, agora reunidos naquele lugar, separados do resto do mundo. Quando viram meu uniforme americano, todos se reuniram à minha volta para ver um soldado amigo numa sinagoga. Para surpresa geral, eu era capaz de conversar com eles em ídiche fluente.

Enquanto conversávamos, percebi que minhas suspeitas estavam certas. Aquelas pessoas eram sobreviventes do Holocausto, que tinham se reunido na sinagoga para ver se podiam achar alguém, qualquer pessoa, que pudesse dar notícias de um parente ou amigo que também tivesse sobrevivido. Como não havia nenhum correio civilizado da Áustria para o resto do mundo, essas reuniões eram a única esperança para os sobreviventes terem notícias de suas famílias.

Um dos homens timidamente me pediu se eu poderia fazer a gentileza de mandar uma mensagem para um parente na Inglaterra, que ele sabia estar vivo. Eu sabia que o correio militar não é para enviar cartas de civis, mas como podia dizer não? Aquelas pessoas, que literalmente tinham vivido o inferno, precisavam que parentes preocupados soubessem que elas tinham sobrevivido. Quando concordei, todo mundo queria mandar uma mensagem.

Cinquenta mensagens eram muito mais que uma: eu tinha de pensar rápido. Anunciei, então, que voltaria à sinagoga na próxima sexta-feira à noite e receberia mensagens curtas escritas em inglês, alemão ou ídiche, colocadas em envelopes abertos. Se as cartas preenchessem tais requisitos, eu as mandaria pelo correio do Exército.

Na semana seguinte, como prometera, voltei à sinagoga.

Quando abri a porta, fiquei chocado. O lugar estava lotado, cheio de pessoas que correram em minha direção, me estendendo seus envelopes. Eram tantos que tive de pedir a alguém para me arrumar uma caixa para colocá-los. Passei a semana seguinte verificando cada mensagem por razões de segurança, me certificando de que continham apenas o permitido. Então mandei as cartas para o mundo inteiro. Eu me senti maravilhosamente bem em saber que aquelas talvez fossem as primeiras notícias para a maioria daqueles parentes, comunicando que as pessoas que amavam tinham sobrevivido aos horrores do Holocausto. "Uma boa ação, uma pequena mitzvah" - pensei.

Passou-se cerca de um mês. Aquilo tudo já estava se dissolvendo na minha mente quando o "carteiro" do Exército de repente entrou tropeçando na minha sala, carregado com sal os cheios de pacotes.

O que está acontecendo? - ele perguntou. Os pacotes que ele colocava no chão vinham de todos os lugares, endereçados às pessoas que eu encontrara na sinagoga, aos meus cuidados, cabo Arnold Geier. Eu não esperava esse resultado.

O que devia fazer?

Walter, um colega com quem trabalhara numa equipe de interrogatório, também antigo refugiado da Alemanha, riu quando viu a pilha de cartas.

- Vou ajudar você a distribuir as cartas - se ofereceu.

O que mais podíamos fazer? Eu guardara uma lista dos nomes e endereços das pessoas que tinham me dado mensagens, então pedi um jipe fechado, equipado para o inverno, e o enchi com os pacotes. À noite e pela madrugada, Walter e eu percorremos as ruas de pedra de Viena entregando pacotes para sobreviventes surpresos e agradecidos. A maioria deles vivia na zona soviética da cidade. Tínhamos de entrar naquela área tarde da noite e as patrulhas soviéticas muitas vezes nos paravam, desconfiadas. Mas éramos tecnicamente aliados, de modo que pudemos explicar que estávamos entregando pacotes a sobreviventes do terror nazista e fomos autorizados a entrar, sem problemas.

Os pacotes continuaram a chegar por mais uma semana e o volume de correspondência começou a aborrecer os encarregados do Exército. Continuamos com nossas entregas noturnas por toda Viena, mas eu estava preocupado com o descontrole surgido da minha oferta bem-intencionada.

Finalmente, uma manhã, nosso comandante me chamou ao escritório. Queria saber por que eu estava recebendo tantos pacotes. Sabendo que o oficial era judeu e assim entenderia minha motivação, decidi dizer a verdade. Admiti ter feito mau uso do correio militar para ajudar sobreviventes e fazer uma boa ação tão necessária. Não esperava que meu simples gesto se transformasse naquilo. Ele me advertiu duramente e então sorriu.

- Bem, por essa vez passa - ele disse, me dispensando.

Às vezes me lembro do caminho que minha boa ação tomou.

Sim, eu perdera o controle da situação, mas somente da maneira que acontece com uma verdadeira mitzvah: aumentando e devolvendo o bem realizado, até que tenha preenchido seu propósito.

Eu fui o instrumento escolhido para permitir que famílias ansiosas soubessem que aqueles que amavam estavam vivos.


 

OS VERÕES DOS CHUCHUZINHOS

SUSAN ARNETT-HUTSON

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 129

 

Em todos os verões no final dos anos sessenta, minhas duas irmãs e eu pegávamos o ônibus para ir do Arizona até Arkansas, ficar com papai.

Veterano da Segunda Guerra, papai tinha muitos problemas de saúde e qualquer um deles seria capaz de fazer uma pessoa perder o senso de humor. Mas não ele.

Tenho memórias vívidas de papai nos acordando de manhã.

Como havia perdido as pernas, ele andava pela casa numa cadeira de rodas, gritando: "Upa, upa, upa! Levantem-se e venham aproveitar este lindo dia!" Se não nos levantávamos imediatamente, ele repetia sua música em cadência, batendo palmas. Isso não era um teatro que fazia para nós. Cada dia era, para ele, realmente um lindo dia.

Voltando aos anos sessenta, é bom lembrar que naquela época não havia lugares para os deficientes estacionarem, nem rampas de acesso a cadeiras de rodas, como hoje, então cada ida ao mercado era uma tarefa difícil. Papai não queria ajuda de ninguém. Ele se movimentava devagar, mas seguro, assobiando o tempo todo. Como adolescente, eu sentia vergonha, mas, se papai percebia, nada dizia.

Uma vez, numa loja, ele nos encontrou na seção de maquiagem e resolveu olhar os produtos conosco. Apanhou um estojo de pó e começou a ler a etiqueta em voz alta. "Deixa sua pele macia como seda, da cabeça aos pés. Bem, isso deixa metade de mim de fora”, ele disse, rindo. Nós acabamos rindo também.

Ele tinha um talento para encontrar humor em tudo que fazia.

Aqueles verões sempre acabavam cedo demais. Ele nos levava de carro ao Arizona todos os anos. Quando lhe perguntavam no posto de controle na fronteira entre o Novo México e o Arizona se estava trazendo frutas ou vegetais, ele respondia:

"Apenas três chuchuzinhos." Já faz muito tempo que papai se foi, mas ficaram as lições que nos ensinou: você só será deficiente se permitir isso. Sei agora, tarde demais, que qualquer dos seus "chuchuzinhos" teria orgulho de andar a seu lado - assobiando - e ficaria feliz em acordar ao som de sua voz, levantar e apreciar um daqueles lindos dias.

 

Em memória de Marian Segal Arnett Jr.,

veterano da Segunda Guerra, 1928-1970


 

NÃO ME SOLTE, PAPAI

RICHARD H. LOMAX

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 131

 

Faz mais de doze anos. Às vezes parece que foi ontem, às vezes parece uma eternidade. Minha garotinha finalmente ganhou sua bicicleta. Não um triciclo, mas uma bicicleta de duas rodas. Foi o resultado de uma bem-sucedida visita a um bazar de objetos de segunda mão na vizinhança. Uma bicicleta de menina, num perfeito cor-de-rosa. Minha filha logo se apaixonou. Conseguida a pechincha, coloquei nosso novo tesouro na caminhonete e fui para casa. Mal consegui tirar a novidade do carro, pois minha filha queria começar a pedalar imediatamente! Era um dia quente e ensolarado, ideal para se aprender a andar de bicicleta.

Ser pai implica participar de uma série de acontecimentos que se encaixam de um modo ou de outro numa contradição básica: queremos que nossos filhos cresçam e sejam independentes, ao mesmo tempo que desejamos que continuem a depender de nós. Ficamos relutantes em aceitar que o amor que os filhos sentem por nós se baseia no que sentem, não no que fazemos por eles.

Posso ver minha garotinha em sua nova bicicleta. Ainda é tão pequena, mas está toda ansiosa. Sua voz rouca me pede:

- Não me solte, papai!

Com uma das mãos seguro o assento e com a outra o guidão. Corro devagar ao lado da bicicleta. Às vezes, levanto uma das mãos, mas ouço:

- Não me solte, papai!

Mesmo levando em conta as imprecisões da minha memória, lembro que ela conseguiu dominar a complexa atividade com rapidez, depois de um certo desapontamento por não adquirir perícia instantânea na matéria. Ela enfrentava o desafio com um vigoroso e quase comovente desejo de sucesso, o que viria a se tornar uma característica sua. Mais uma vez tentei largar a bicicleta.

- Não me solte, papai!

Ela almoça correndo, pois só pensa na bicicleta. Voltamos para a pista de testes, a calçada. Apesar do medo que ela sente, a cambaleante roda da frente começa a se estabilizar. Falta pouco agora. Posso sentir que sua confiança aumenta. Tenho de apressar meu passo a seu lado. Suas pernas se movimentam com renovadas força e confiança.

Que acontecimento durante a fase de crescimento de uma criança representa melhor a conquista da independência?

Aprender a andar é um início de independência. Aprender a falar e a expressar pensamentos originais é mais um passo nessa estrada. Mas são passos lentos e permitem que os pais se acostumem aos poucos. Aprender a andar de bicicleta é aprender a voar - uma experiência que quase instantaneamente dá à pessoa uma liberdade nova, permanente e irrevogável.

Chegou a hora. Há alguns minutos eu já percebera que ela conseguira alcançar o momento mágico que torna possível essa improvável forma de transporte. Minha filha percebe também.

Agora, minha mão não lhe serve mais de equilíbrio, mas a faz hesitar. Meu corpo se move pesada e desajeitadamente a seu lado e não lhe oferece mais conforto - agora faz com que perca a concentração.

- Solte, papai!

Ela acelera e sai correndo. As marias-chiquinhas voam no ar. Ela anda pelo menos uns quinze metros antes de parar num canteiro ao lado da calçada. Está radiante de felicidade.

No rosto, um sorriso que só pode ser de enorme satisfação.

Sorrio também. Não apenas por compartilhar de sua realização, mas porque me dou conta de que ela iniciou um caminho. E vai seguí-Io, tranquila.

Ser pai significa ter alegrias e tristezas. Há acontecimentos que, inexplicavelmente, causam as duas coisas ao mesmo tempo. Algumas vezes seguramos, às vezes soltamos. Uma pequena ajuda com a bicicleta. Um abraço e uma bênção na hora de ir para a escola. Como pais, somos destinados a segurar e a soltar, cada coisa na sua hora. De bom grado deixo meus filhos se lançarem em direção ao futuro. Encorajo sua independência para descobrirem suas potencialidades e seus talentos. Mas soltá-Ios? Nunca.


 

VOCÊ PODE FAZER QUALQUER COISA

TINA KARRATTI

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 135

 

Há muitos anos, meu pai recebeu o diagnóstico de uma doença cardíaca terminal. Ele se aposentou por incapacidade permanente e não podia ter um emprego fixo. Ficou bem por um período, mas de repente teve um problema e precisou ser hospitalizado.

Como queria fazer alguma coisa para se manter ocupado, ele resolveu trabalhar como voluntário no hospital infantil local. Papai adorava crianças. Era a ocupação perfeita para ele. Acabou trabalhando no setor onde estavam crianças em estado crítico e terminal.

Conversava e brincava com elas e faziam trabalhos manuais e artesanato. Às vezes, uma das crianças não resistia. Para confortar os familiares, papai lhes dizia que em breve estaria com seus filhos no Céu e cuidaria deles até sua chegada. Também perguntava ao pai ou à mãe se gostariam de mandar, através dele, uma mensagem para o filho.

As atitudes de meu pai pareciam ajudar as famílias a superar o sofrimento. Certa vez, uma menina de oito ou nove anos foi internada com uma doença rara que a paralisara do pescoço para baixo. Não sei o nome da doença ou qual o prognóstico, mas sei que tudo aquilo era muito triste para a garotinha. Ela não podia fazer nada, estava muito deprimida. Meu pai decidiu tentar ajudá-Ia. Começou a visitá-Ia no quarto, levando tintas, pincéis e papel. Ele arrumava o papel num apoio, punha o pincel na boca e começava a pintar. Ele não usava as mãos de forma alguma. Somente a cabeça se mexia. Ele a visitava sempre que podia e pintava para ela. Durante todo o tempo dizia: "Olhe, você pode fazer qualquer coisa que sua mente quiser." A menina começou então a pintar usando a boca, e ela e meu pai se tornaram amigos. Logo depois, a garotinha saiu do hospital porque os médicos acharam que nada mais poderiam fazer por ela. Meu pai também deixou um pouco o voluntariado no hospital infantil porque ficou doente. Algum tempo depois, ele se recuperou e voltou ao hospital para trabalhar no balcão de atendimento que ficava no hall de entrada. Um dia, as portas da frente se abriram. A menininha que estivera paralisada entrou, mas, dessa vez, andando. Foi até meu pai e o abraçou bem forte. Ela lhe deu um desenho que fizera usando as mãos. Na parte de baixo estava escrito: "Muito obrigada por me ajudar a andar." Papai chorava sempre que nos contava essa história - e nós também. Ele dizia que, às vezes, o amor tem mais poder do que os médicos. Meu pai - que morreu apenas alguns meses depois que a menina lhe deu o desenho - amava cada criança naquele hospital.

 

 

Você não vai aprender a ser forte, paciente e corajoso

se apenas lhe acontecerem coisas maravilhosas.

MARY TYLER MOORE

 


 

A BATALHA FINAL

SENADOR DANIEL INOUYE

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 137

 

Itália, 1945. Quando o primeiro e o segundo pelotões da Companhia E da Quadragésima Segunda Equipe do Regimento de Combate Nipo-Americano se aproximaram das defesas alemãs, podíamos ouvir o ruído de tiros de fuzil e, de vez em quando, uma metralhadora disparar à direita.

Então tudo começou, metralhadoras e granadas devolvendo os ataques em violentas saraivadas. Fui atingido por uma bala na barriga, mas continuei a me movimentar, conduzindo meus homens e ainda lançando granadas.

Quando levei meu braço para trás, num relance de luz e escuridão, eu o vi, o alemão sem rosto, como uma tira de filme rodando num projetor desregulado. Num instante eu podia vê-lo até a altura da cintura, em pé, na casamata e, no seguinte, ele estava apontando para meu rosto um rifle com lança-granadas, a uma distância de menos de dez metros. Mesmo eu levantando o braço para lançar a granada, ele atirou e sua granada explodiu no meu cotovelo direito. Olhei para meu braço pendurado e vi minha granada pendendo de um punho que, de repente, não me pertencia mais.

Passou-se um tempo e, finalmente, o socorro veio e me aplicaram uma injeção de morfina. Então me levaram para o pé da montanha.

Era o dia 21 de abril. A resistência alemã no nosso setor acabou no dia 23 de abril. Nove dias depois, a guerra na Itália tinha terminado e, uma semana depois disso, o inimigo se rendeu incondicionalmente.

Eu ainda tinha outra guerra pela frente. Quando se convenceram de que eu não ia morrer, fui transferido para o hospital-geral de Leghom. E foi lá, no dia 1 de maio, que amputaram meu braço direito. Não foi, emocionalmente, um grande problema para mim. Sabia o que ia acontecer e, de fato, por um tempo, parara de pensar no braço como se ele me pertencesse. Mas aceitar o fato e enfrentar a reabilitação eram coisas completamente diferentes. Eu me acostumei com a ideia antes da operação. Minha reabilitação começou quase imediatamente após.

Estava olhando para o teto na tarde do meu primeiro dia como amputado quando uma enfermeira chegou perto da cama e perguntou se eu estava precisando de alguma coisa.

- Um cigarro cairia bem - eu disse.

- Claro - ela sorriu e se afastou, retomando em alguns minutos com um pacote novinho de Camels. - Tome aqui, tenente - disse, ainda sorrindo, e simplesmente colocou o maço sobre meu peito e continuou a fazer seu trabalho. Por um instante, fiquei apenas olhando. Então toquei o maço com os dedos da mão esquerda, tentando imaginar como seria se eu resolvesse me aventurar a abri-lo com uma só mão. Olhei pela ala para ver se havia alguém ali que estivesse bom o suficiente para me ajudar, mas todos pareciam tão mal quanto eu: naturalmente aquela não era a ala reservada para oficiais com problemas de pé-de-atleta e cãibras. Então comecei a manusear sem jeito aquele maldito maço, segurando-o sob o queixo e tentando abri-lo com as unhas. Ele continuava a escorregar e a se afastar, eu tentando pegá-lo, suando com raiva e frustração, como se estivesse fazendo uma marcha forçada. Em quinze minutos consegui rasgar em pedaços o maço e metade dos cigarros, mas finalmente consegui colocar um deles entre meus lábios. Foi quando percebi que a enfermeira não me trouxera fósforos.

Toquei a campainha e ela veio se requebrando, sorrindo, ainda com aquela aura de animação que me fez ter vontade de lhe dar um soco.

- Preciso de um fósforo - eu disse.

- Ah, claro que precisa - ela disse, encantadora. Tirou uma caixinha de fósforos do bolso e cuidadosamente a colocou na minha mão. E foi embora novamente!

Se tivesse seguido meu primeiro impulso, teria gritado com ela, com raiva. Se tivesse seguido o segundo, teria começado a chorar. Mas, encaremos a situação, eu já era bem crescido, um oficial, e não podia deixar uma enfermeira qualquer levar a melhor. Simplesmente não podia.

Então comecei a tentar me entender com os fósforos. Eu segurava a caixa, a empurrava, virava e a deixava cair, sem nunca conseguir pegar um dos fósforos, muito menos acendê-lo. Mas, àquela altura, decidira que preferia ferver em óleo a pedir a ela qualquer coisa novamente. Então fiquei ali deitado, enfurecido, tendo pensamentos pouco cristãos em relação ao anjo da misericórdia.

Eu estava quase cochilando quando ela apareceu novamente, sempre sorrindo.

- Qual é o problema, tenente? - perguntou, com um tom de satisfação. - Decidiu deixar de fumar? Ah, mas isso é bom... cigarros fazem tossir e...

- Não consegui acender a porcaria.

Ela fez um estalido com a língua, lamentando não ter pensado nisso e sentou-se graciosamente na beirada da cama.

- Eu devia ter imaginado - ela disse, tirando da minha mão a caixa de fósforos destroçada. - Alguns amputados gostam de tentar por si mesmos. Isso lhes dá uma sensação de, digamos, realização. Mas não tem importância. Há muitas outras coisas que o senhor vai aprender sozinho. Nós apenas damos a partida.

Olhei para ela embasbacado. Eu sequer sabia sobre o que ela estava falando. A partida em quê? Quem precisava dela?

- Olhe, apenas acenda o cigarro, está bem? Faz três horas que estou tentando fumar esse troço - rosnei.

- É, eu sei. - Nada a alterava. Realmente nada. - Mas o senhor entende. Não vou estar por perto o tempo todo para acender seu cigarro. O senhor não pode depender de outras pessoas. Agora tem apenas uma mão para fazer tudo o que antes fazia com duas. E tem de aprender como. Vamos começar com os fósforos, está bem?

Ela abriu a caixa, uma daquelas que têm tampa, dobrou um fósforo para a frente, fechou a parte de cima, fez um movimento rápido com o fósforo para baixo e o acendeu. Tudo com uma só mão, em meio segundo.

- Viu só? - ela disse.

- Vi - disse num sussurro.

- Agora é a sua vez.

E eu consegui. Acendi o cigarro. E imediatamente ela deu um sorriso sincero. Foi adorável. Gostaria de me lembrar de seu nome - jamais me esquecerei de seu rosto -, mas tudo que lembro é que era de Eagle Pass, Texas, e, no que me diz respeito, a melhor das malditas enfermeiras do Exército dos Estados Unidos.

Num instante me fizera ver o trabalho que eu tinha pela frente e, nas semanas seguintes, encontrou mil maneiras sutis de me ajudar a lidar com isso. E, no ano e meio que levei para voltar a ser um cidadão com capacidade plena, ninguém jamais fez alguma coisa mais importante para mim do que aquela enfermeira na tarde em que me mostrou como acender um cigarro. Na tarde em que minha reabilitação começou.


 

DOCE COMO CHOCOLATE

ROGER DEAN KISER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 142

 

Imagino que todos conhecemos alguém na vizinhança que fica meio isolado e tem pouco a ver com o resto da comunidade.

Você conhece o tipo, certo? Bem, eu não sou exatamente assim, embora não esteja longe disso.

Já fui casado muitíssimas vezes. Na verdade, seria embaraçoso mencionar o número exato de vezes. Todos os casamentos foram muito bons, no que me diz respeito, embora tenham terminado porque eu era incapaz de demonstrar plenamente amor ou afeição. Achava muito fácil ser agradável, bom e responsável. Quer dizer, o que há além de ser bom, generoso, honesto e responsável? Fui criado num orfanato e não imaginava que alguém pudesse dar - ou querer - mais do que isso.

Até que um dia aquela garotinha apareceu na minha porta com as mãos sujas e chocolate espalhado por todo o rosto.

- Não se mexa, quer dizer, não mexa nem um músculo gritei com ela, correndo para buscar uma toalha molhada.

"Essas crianças não conseguem fazer nada sem me criar um problema”, pensei, enquanto voltava para limpar suas mãos e seu rosto. Pelo resto do dia fiquei como um carcereiro vigiando aquela encrenqueira. Não queria que ela encostasse nas minhas coisas. Mas tudo o que ouvi foi "Posso pegar isso?" e "Posso pegar aquilo?". Pensei que ia perder o resto de cabelo que ainda tinha antes do dia acabar. Graças a Deus, o telefone finalmente tocou. Respirei aliviado, vinham buscá-la. Mas não! Eles não iriam voltar da cidade e queriam saber se eu podia ficar com ela aquela noite. Procurando uma aspirina, balancei a cabeça e me conformei: "Acho que não tenho escolha." Mais tarde, naquela noite, coloquei Chelsey para dormir e estava para sair do quarto quando ela me olhou e perguntou:

- Vovô, você me ama?

- Claro que amo! Sou seu avô! - gritei, fechando rapidamente a porta do quarto.

- Amo você também, vovô - ouvi através da porta.

Fiquei alguns segundos com a cabeça encostada na parede.

Imediatamente abri a porta e fiquei ali olhando para ela na cama. Ela se aproximou e beijou minha mão. Agarrei aquela garotinha de três anos e abracei-a o mais apertado que pude. Eu não sabia, até aquele momento, como era o sentimento do amor e nunca percebera isso - eu não o conhecia.

Agora vovô e sua menininha querida comem chocolate na poltrona favorita da vovó, até que vovó apanhe a vassoura e nos expulse para o quarto onde assistimos juntos a desenhos animados e sujamos tudo de chocolate. Essa garotinha nunca mais vai ter de perguntar a seu avô, nunca mais, se ele a ama.

É verdade que temos de aprender a amar antes de começarmos a viver de verdade, mesmo aos cinquenta e três anos.

 

Se meu coração pode se tornar puro e amoroso como o de uma criança,

acho que não deve haver felicidade maior. 

KITARO NISHIDA


 

NO BANCO

JAMES ROBINSON

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 145

 

Lembro-me de quando nosso filho Randy jogava muitíssimo bem na Liga Infantil de Futebol. Ele tinha feito uma série de gols incríveis naquele ano e ajudado seu time a chegar à final do campeonato. Era o ano de sua vida e eu, como qualquer pai, estava todo orgulhoso.

Mesmo tendo um desempenho excepcional, Randy foi diversas vezes para o banco de reservas porque os técnicos queriam dar oportunidade ao maior número de garotos possível. Sempre educado, Randy não se queixava e parecia contente em dar aos outros a chance de brilhar. Ele não estava lutando pelo lugar.

Mas eu estava!

Mais de uma vez disse ao treinador como me sentia sobre o fato. Como ele podia deixar no banco um garoto que se saíra tão bem naquele ano? Como podia substituí-lo por meninos que não se importavam tanto, nem jogavam tão bem? Ele não queria vencer? Não estava enviando os sinais errados, deixando de lado o garoto que se esforçava mais e jogava melhor?

Na verdade havia realmente sinais errados naquele campo. Mas não vinham do técnico. Era a minha impaciência, minha atitude do tipo vencer-a-qualquer-preço, que estava enviando os sinais errados!

Randy não gostava de ver o pai conversando com o técnico.

Isso o deixava nervoso e o envergonhava. Ele ficava olhando por cima do ombro, imaginando como o pai iria reagir a essa ou àquela decisão. Havia uma nuvem ameaçando aquele ano espetacular. No fundo do coração, eu sabia que minhas atitudes o aborreciam - e pedi a Deus que me ajudasse a dar uma freada naquilo.

Quando Randy foi chamado para o time juvenil, todos ficamos eufóricos. Lembro que cheguei um pouco atrasado a um dos jogos porque vinha de uma viagem e fui direto do aeroporto. Andando do estacionamento para o estádio, vi que a equipe de Randy já estava em campo e meu coração começou a bater mais depressa.

Mas onde estava Randy? Cheguei perto das arquibancadas e lá estava ele, sentado no banco. O que era aquilo? Não fazia o menor sentido! Aquele era o artilheiro do time. E ele estava começando o jogo no banco?

Sério, Randy olhou por cima do ombro, observando enquanto eu me sentava na arquibancada. Vendo a expressão de seu rosto, honestamente me senti como se pudesse ler seus pensamentos.

Ele estava pensando: "Ah, Senhor. Eu sei que papai está muito desapontado e aborrecido por me ver no banco. Meu Deus, por favor, não o deixe dizer nada, nem demonstrar o que sente." Pela graça divina, aquele foi o momento em que finalmente compreendi. Enquanto dirigia do aeroporto para o estádio, me senti impressionado por, de alguma forma, ter de convencer aquele jovem de como me orgulhava dele - e de que ele não precisava estar em campo para receber minha aprovação.

Cheguei perto da cerca e me inclinei. Meu filho olhou para cima, um pouco apreensivo.

- Randy, quero que você saiba que papai está tão contente em ver você no banco como estaria se você estivesse jogando e fazendo gols. Eu não podia estar mais orgulhoso. Você é meu filho e não tem que fazer nada para me agradar ou receber minha aprovação. Minha aprovação é de cem por cento. Amo você, meu filho.

Seus olhos se encheram de lágrimas, e ele sorriu. De alguma maneira, eu sabia que tinha tocado num ponto delicado. E agradeci a Deus de coração, pois sabia que tinha feito exatamente o que era certo.

 

 

 

Um casaco rasgado logo é consertado,

mas palavras ásperas machucam o coração de uma criança.

HENRY WADSWORTH LONGFELLOW

O DESPERTAR DE RYAN

BOB WELCH

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 148

 

Estava sentado numa banheira cheia de chapas de gesso mofadas quando meu filho de treze anos perguntou:

- Qualquer dia desses você me leva para jogar golfe?

Eu tinha um banheiro para reformar e queria dizer não, mas falei:

- Claro, qual é a sua sugestão?

- Bem, talvez você pudesse pegar meu amigo Jared e eu no colégio, na sexta-feira, e nos levar até Oakway.

- Boa ideia.

Caía uma chuva fina na sexta-feira e, olhando pela janela, pensei em desistir do programa. A escolha mais racional seria continuar trabalhando na reforma do banheiro. Mas, na hora marcada, troquei o uniforme de "cuidados com o lar" pelo de "cuidados com a chuva” e coloquei os tacos na mala do carro, os meus e os dos meninos. Em frente à escola, Ryan e Jared me esperavam. Ryan me olhou com uma expressão perplexa.

- Para que o chapéu de golfe, papai?

Era uma pergunta boba, como se alguém perguntasse a um mergulhador para que as nadadeiras.

- Bem, eu imaginei que íamos jogar golfe.

Seguiu-se uma pausa peculiar, como uma linha de telefone que ficou temporariamente muda.

- Ah, você também vai jogar? - ele perguntou.

De repente, a pergunta me atingiu como um soco no estômago.

Treze anos de paternidade passaram ante meus olhos. O nascimento. As fraldas. As mamadeiras tarde da noite. Ajudando nos deveres do colégio. Construindo fortes. Consertando bicicletas. Indo a jogos. Acampando. Indo juntos a todos os lugares meu filho e eu.

Agora, eu não tinha sido convidado. Era isso. Era o fim do nosso relacionamento da forma como eu sempre o conhecera.

Isso era: "Adios, pai, obrigado pelas lembranças, mas agora já sou grande o bastante para fazer meus próprios swings, então volte para sua cadeira de balanço e para suas palavras cruzadas." Todas essas lembranças passaram em dois segundos, como um raio, me deixando uns três segundos para responder antes que Ryan ficasse desconfiado e pensasse que eu estava realmente querendo ir jogar golfe com ele e o amigo.

Eu tinha de dizer alguma coisa. O que eu queria dizer era:

"Como você pôde fazer isso comigo? Me jogar para o lado, assim, como se eu fosse uma isca de caranguejo que não se usou?" Éramos uma dupla. Isso era abandono.

Por que tudo tinha de mudar?

Chega dessas divagações. Precisava ser sincero com ele.

Precisava dizer o quanto estava magoado. Dividir com ele meus sentimentos mais profundos. Reunir toda a coragem que encontrasse e abrir meu coração.

Então eu disse:

- Eu? Jogar? Você sabe que estou cheio de coisa para fazer com aquela reforma em casa.

Continuamos em silêncio por alguns momentos.

- Como você pretende pagar? - perguntei, meu ego ferido procurando o punhal.

- Você pode me emprestar o dinheiro?

Ah, então entendi. Ele não queria a mim, mas aceitaria meu dinheiro sem problemas.

- Tudo bem - respondi.

Deixei Ryan e Jared no clube, desejei-Ihes boa sorte e voltei para casa. Meu filho estava sozinho, agora, sem ninguém para lhe dizer como acertar uma bola difícil em declive, ou como tirar a bola da banca de areia. E se caísse um raio? E se ele tivesse hipotermia? Se fosse atropelado por um carrinho? E se aparecesse um bando de esquilos agressivos? Ele é tão pequeno. Quem tomaria conta dele?

Lá estava eu, sozinho, cada vez mais longe dele. Não apenas agora, mas para sempre. Era isso. O elo se rompera. A vida nunca mais seria a mesma.

Entrei em casa.

- O que você está fazendo aqui? - minha mulher perguntou.

Eu sabia que ia parecer um garoto de treze anos, o único da turma a não ser convidado para a festa, mas, mantendo minha hesitação imatura, falei assim mesmo, com um tom mal-humorado:

- Não fui convidado.

Seguiu-se outra daquelas pausas peculiares. Então minha mulher riu. Gargalhou. No início aquilo me magoou. Aí também ri e a situação foi se tornando mais clara.

Voltei à reforma do banheiro e comecei a entender que a vida é assim mesmo: em última análise, pais e filhos têm de mudar. Eu tinha preparado Ryan para aquele momento desde que ele nasceu: não para jogar golfe comigo, mas para se jogar no mundo sem mim. Com seus próprios tacos de golfe. Suas próprias estratégias. Sua própria confiança.

Deus estava transformando meu filho num homem.

Aumentando o espaço aqui, adicionando uma nova característica ali. Em resumo, permitindo que ele se tornasse mais do que seria se eu continuasse a protegê-lo. Exatamente como quando eu era garoto e, com a idade de Ryan, jogava minha bolsa xadrez de golfe nas costas e pedalava oito quilômetros para jogar num campo público pequeno chamado Marysville que eu imaginava ser o chiquérrimo Augusta National Golf Club.

Lembro-me como me sentia adulto, entrando na sede escura, onde a fumaça levantava da mesa de pôquer, e orgulhosamente pagando dois dólares por nove buracos. Será que gostaria que meu pai estivesse ali comigo? Não. Um garoto tem de fazer o que um garoto tem de fazer: crescer.

Voltei à reforma do banheiro. Algumas horas depois, ouvi Ryan entrar em casa. Reclamou com a mãe que não embocava seus putts, que cortava seus slices, que o campo parecia um lago.

Parecia que eu estava ouvindo alguém que conhecia bem. Com seus tênis encharcados, eu podia ouvir os passos se dirigindo ao banheiro onde eu estava trabalhando.

- Papai - ele disse, molhando o chão. - Meu jogo está horrível. Você pode me levar para jogar qualquer hora? Estou precisando de ajuda.

Tive vontade de abraçá-lo e levantar a serra que estava usando para celebrar e gritar: "Ele ainda precisa de mim!" Eu queria dizer a Deus: "Obrigado por me deixar fazer parte desse processo de transformação." Em vez disso, coloquei no rosto um olhar de pai sério e, estoicamente, disse:

- Claro, Ry, quando você quiser.


 

ÚLTIMAS PALAVRAS

H. L. "BUD" TENNEY

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 153

 

Eu chegara do trabalho há uns quinze ou vinte minutos quando meu filho mais velho, Eduardo, que estava brincando do lado de fora, entrou em casa - estava muito sério. Tinha apenas seis anos à época. Marco, dois anos e meio mais novo, estava logo atrás dele.

Eu assistia ao noticiário da televisão quando Eduardo ficou na minha frente. Sabia que ele tinha alguma coisa em mente.

Meu filho podia falar comigo sobre qualquer assunto. E achava que eu tinha respostas para tudo.

Fiquei imaginando se havia alguma coisa errada ou se ia apenas me fazer uma de suas perguntas sérias sobre as regras do jogo em que estava envolvido com o irmão. Mas estava concentrado demais para esse tipo de assunto. Resolvi lhe dar toda a atenção.

Ele disse bem devagar:

- Papai, preciso falar com você.

- Tudo bem, Dudu, o que é?

- Já sou grande agora, não sou?

- Claro que é. Me diga em que está pensando.

- Não quero que você me chame mais de "Dudu", quero que você me chame de "Duda”, e não quero mais chamar você de "papai", quero chamar você de "pai".

Tendo dito isso, parecia ainda mais sério e nervoso. Dei o sorriso mais orgulhoso da minha vida.

- Tudo bem, Duda. Vou chamar você de "Duda" ou de "Eduardo" e vou esperar ansiosamente para você me chamar de "pai". Mas nunca me chame pelo nome, está bem?

Ele pareceu mais calmo e disse, numa voz forte:

- Posso ir lá fora de novo e brincar, pai?

Respondi que sim.

- Ainda quero chamar você de "papai" - disse o meu filho mais novo.

- Que coisa boa! - respondi.

Nos dias seguintes, todas as vezes que Eduardo tinha qualquer coisa para me falar, ele começava com "pai".

Mesmo se quisesse saber o que tínhamos para o jantar, perguntava: "Pai, qual é o jantar?" Não demorou muito para Marco seguir os passos do irmão.

Eu não pude deixar de sorrir. Minha mulher virou o rosto para sorrir também.

Meu filho Eduardo morreu em 1993. Um dia antes nos falamos ao telefone sobre como estava se sentindo. Seis semanas antes, ele fora submetido a uma operação para remover um câncer em um dos testículos. Mas este não fora atingido, graças a Deus.

Eduardo me disse que estava com a vista embaçada e os dedos dormentes, além de dificuldades para pronunciar as palavras. Eu lhe disse que ficaria bem. O problema era que tinha voltado a trabalhar logo depois da cirurgia. Ele concordou e disse que ia diminuir um pouco o ritmo. Os dois rimos porque sabíamos que ele não faria isso.

- Amo você, Dudu - eu disse.

- Amo você também, papai - ele respondeu com uma risada adorável.

- Boa-noite, Dudu.

- Boa-noite, papai - ele disse ao desligar.

Foram as últimas palavras que trocamos. No dia seguinte, lá pelo meio-dia, soube que Eduardo estava no hospital. Quando cheguei, ele estava em coma. A tarde, o médico nos avisou que um aneurisma se rompera no cérebro do meu filho. Ele morreu à noite, às sete horas e seis minutos.

Enquanto eu estava rezando por sua vida, muitas coisas me passaram pela mente. Sobretudo, serei sempre agradecido a Deus pelas últimas palavras de meu filho. Não ficara nenhuma questão pendente entre nós. Tivéramos um bom relacionamento. Embora sua morte tenha sido obviamente dolorosa - para ele física e para mim emocionalmente -, a inocência e a doçura daquela recordação da infância partilhada por nós ofereceram uma lembrança comovente para um pai que viu seu filho partir cedo demais.

 

 

 

Não há amizade, não há amor que se compare ao amor de um pai pelo filho.

HENRY WARD BEECHER

 


 

QUANDO ESTAMOS SOZINHOS PODEMOS DANÇAR

BETH ASHLEY

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 9

 

O navio estava cheio de passageiros, muitos deles aposentados, todos animados para os próximos três dias de divertimento.

Na minha frente, no corredor acarpetado, vi uma mulher pequena com uma calça marrom de poliéster, ombros curvados, cabelos brancos e bem curtos.

Pelo alto-falante, a familiar Begin the Beguine, com Arrie Shaw. De repente, aconteceu uma coisa maravilhosa.

A mulher, sem perceber que havia alguém atrás dela, começou a balançar e sacudir. Estalava os dedos. Girava os quadris.

Fazia passos rápidos e graciosos - para a frente, arrastando os pés, para o lado.

Quando alcançou a porta que levava ao restaurante, ela parou, deixou sua dança para trás e entrou no salão como se fosse outra pessoa.

Na verdade, voltou a ser aquela senhora corcunda.

Muitas vezes eu me lembro dessa cena. E penso nela agora, no dia do meu aniversário. Muita gente nem imagina que eu ainda possa dançar.

Os jovens pensam que as pessoas da minha idade não têm mais direito a música, romance, dança ou sonhos.

Eles nos veem como a idade nos moldou: camuflados em rugas, cinturas grossas e cabelos grisalhos.

Não veem todas as outras pessoas que existem dentro de nós.

Mostramos ao mundo uma certa aparência porque essa é a regra que o costume impõe. Somos os velhos sábios amalucados, as dignas matronas.

Não temos liberdade de movimento para deixar as outras pessoas que existem em nós agirem - ou para usar nossas outras vidas.

Ninguém imagina, por exemplo, que ainda sou a moça magrinha que cresceu num lindo lugar perto de Boston.

Dentro de mim, ainda me vejo como a mais nova de quatro filhos de uma família feliz, com uma linda mãe e um pai sempre alegre. Não importa que meus pais já tenham morrido há muito tempo e que sejamos agora apenas três irmãos.

Ainda sou a criança meio presunçosa, acostumada com carrões e empregadas - embora meu pai tenha perdido seu dinheiro na Grande Depressão e eu viva hoje em dia de contracheque em contracheque.

 

 

Você nunca perde amando. Sempre perde deixando de amar.

BARBARA DE ANGELIS


 

A CICATRIZ

JOANNA SLAN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 11

 

Ele passou o dedo polegar suavemente sobre a pele da minha face. a cirurgião plástico, uns quinze anos mais velho do que eu, era bastante atraente. Um homem viril, de olhar intenso, quase irresistível.

- Humm - o médico fez calmamente. - Você é modelo?

"Isso só pode ser uma piada. Ele está de brincadeira?", pensei, procurando em seu rosto bonito sinais de zombaria. Não tinha como alguém jamais me confundir com uma modelo. Eu era feia. Minha mãe costumava casualmente se referir à minha irmã como "minha filha bonita”. Qualquer um podia ver que eu era feia. Afinal, eu tinha a cicatriz para provar.

O acidente tinha acontecido quando eu estava na quarta série. Um menino da vizinhança lançou um pedaço de concreto que bateu na lateral do meu rosto. Um médico do pronto socorro juntou com pontos os fragmentos da pele machucada da face e suturou a carne em pedaços do lado de dentro da boca.

Pelo resto do ano usei um enorme curativo da maçã do rosto ao queixo, cobrindo a feia cicatriz.

Algumas semanas após o acidente, um exame de vista revelou que eu era míope. Acima do desajeitado curativo havia, agora, um grande e pesado par de óculos. À volta da cabeça, um monte de cachos crespos, que parecia bolor crescendo num pão velho. Para economizar, mamãe me levara a um salão de beleza-escola, onde uma aprendiz cortara meu cabelo. A moça, super cuidadosa, usou alegremente a tesoura, fazendo empilhar tufos de cabelo no chão. Quando o instrutor veio conferir, o mal estava feito. Seguiu-se uma rápida conferência e acabamos ganhando um vale para um penteado grátis na próxima visita.

- Bem - meu pai suspirou -, você sempre será bonita para mim. - E, hesitando, acrescentou: - Mesmo que não seja para o resto do mundo.

Tudo bem. Obrigada. Como se eu não pudesse ouvir as brincadeiras das outras crianças na escola. Como se não pudesse ver como era diferente das outras meninas que as professoras paparicavam. Como se eu, às vezes, não desse uma olhada em mim mesma no espelho do banheiro. Numa cultura que valoriza a beleza, uma menina feia se sente exilada. Minha aparência me causava uma dor sem fim. Eu me sentava no quarto e chorava toda vez que a família via na tevê um concurso de beleza ou um show "caça-talentos".

Finalmente decidi que, se não podia ser bonita, seria, pelo menos, bem-arrumada. Os anos foram se passando e aprendi a pentear o cabelo, a usar lentes de contato e a tirar proveito da maquiagem. Observando o que funcionava para as outras mulheres, aprendi a me vestir valorizando meu tipo. E agora eu estava noiva para casar. A cicatriz, que ficou menor e esmaecida com a idade, se interpunha entre mim e uma vida nova.

- Claro que não sou uma modelo - respondi com uma certa dose de indignação.

O cirurgião plástico cruzou os braços sobre o peito e me olhou, como se estivesse me avaliando.

- Então por que você está preocupada com a cicatriz? Se não há uma razão profissional para removê-Ia, o que a trouxe aqui hoje?

De repente, ele representava todos os homens que eu já conhecera. Os oito garotos que, na adolescência, recusaram meu convite para uma festa onde as meninas é que tinham de chamar os meninos. Os poucos rapazes com quem saí quando estava na faculdade. Os vários homens que me ignoraram desde então. O homem cujo anel eu usava na mão esquerda. Toquei meu rosto. A cicatriz confirmava: eu era feia. A sala parecia girar e meus olhos se encheram de lágrimas.

O médico puxou uma banqueta para perto de mim e se sentou. Seus joelhos quase tocavam os meus. Sua voz era baixa e suave.

- Deixe-me dizer o que eu vejo. Vejo uma bela mulher. Não uma mulher perfeita, mas uma mulher bonita. Lauren Hutton tem os dentes da frente separados. Elizabeth Taylor tem uma cicatriz bem pequena na testa - ele disse, quase sussurrando.

O cirurgião parou de falar e me estendeu um espelho.

- Tenho para mim que toda mulher notável tem uma imperfeição e acredito que esta imperfeição faz sua beleza mais notável, porque isso nos garante que ela é humana.

Ele empurrou a banqueta e se levantou:

- Eu não vou tocar na cicatriz. Não deixe ninguém fazer brincadeiras sobre seu rosto. Você é encantadora do jeito que é.

A beleza, na verdade, vem de dentro da mulher. Acredite. Saber isso faz parte da minha especialidade.

E ele saiu.

Eu me olhei no espelho. Ele tinha razão. De alguma maneira, através dos anos, aquela criança feia se tornara uma mulher bonita. Desde aquele dia no consultório do médico, já ouvi muitas vezes, dito por homens e mulheres, que sou bonita. E sei que sou.

Quando mudei minha maneira de me ver, os outros foram forçados a mudar o modo como me viam. O médico não removeu a cicatriz do meu rosto, ele removeu a cicatriz da minha alma.


 

SEGUNDA PELE

CAROLINE CASTLE HICKS

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 15

 

Meu velho par favorito de jeans nunca mais caberá em mim.

Finalmente aceitei esta verdade imutável. Depois de ter tido dois filhos a quem amamentei, meu corpo sofreu uma metamorfose.

Posso ter voltado ao meu peso de antes, mas mudanças sutis e expansões aconteceram - minha própria versão de um deslocamento continental. Quando adolescente, nunca entendi a diferença entre tamanhos de criança e de moças. As roupas de moças pareciam de gente velha. Agora é tão claro que cinturas de vespa e bumbuns minúsculos são armadilhas fugazes da juventude. Mas está tudo bem porque, enquanto os velhos jeans não fecham mais, a vida que troquei por eles me cabe melhor que tudo.

Para mim, é uma época da vida de pés descalços, shorts e camiseta. Rapidamente me ambientei à maternidade em idade jovem. É o melhor papel que já representei. Nada de costuras apertadas, zíperes atrapalhando. Apenas um sentimento de que saí do quarto de vestir com algo que finalmente me cai bem. Adoro sentir o bebê no meu colo: sua cabecinha cabe direitinho debaixo do meu queixo, as mãozinhas se espalhando como pequenas estrelas-do-mar cor-de-rosa nos meus braços.

Adoro o jeito com que minha filha de oito anos anda ao nosso lado enquanto atravessamos o estacionamento ensolarado do mercado. Nos lindos dias de primavera a brisa levanta seu delicado rabo-de-cavalo e rimos ao ver como o sol faz o bebê fungar e apertar os olhinhos. Quero sempre estar com eles, como uma costureira diante de duas medidas de seda perfeita, imaginando o que fazer com elas, embora hesitante em alterá-Ias, com medo de perder o peso de sua inteireza.

Nas poucas manhãs em que acordo antes deles, entro em seus quartos e os olhos enquanto dormem, os rostos amarrotados e rosados. Finalmente se contorcem e se espreguiçam, prontos para um abraço. Eu os pego em meus braços, enterro meu rosto neles e respiro fundo. São como toalhas que acabei de tirar da secadora, macios e quentinhos.

Às vezes eu sigo as vozes das meninas no quarto da minha filha, onde ela e as amigas brincam, todas arrumadas, entaladas até o joelho num chiffon de bazar caseiro, experimentando a vida através das roupas. Exageradas e envaidecidas diante do espelho, se enfeitam com contas baratas e colocam tiaras de lantejoulas e papelão. Vejo essas meninas com seus cabelos lisos e brilhantes que elásticos e fivelas não conseguem domar. Estão sempre ajeitando fios rebeldes atrás das orelhas e, nesse gesto adulto, vejo lampejos das mulheres em que se transformarão.

Sei que muito em breve essas nuvens de organdi e renda ficarão para sempre em caixas amassadas, as que agora servem de baús de tesouros e tronos de princesas. Vão se tornar trajes inúteis da meninice de minha filha que serão devolvidos para mim.

Por ora, entretanto, meus filhos se aninham comigo no sofá à noite, muitas vezes adormecendo, braços e pernas bambos e macios contra o meu corpo, como as dobras de uma camisola bem usada. Por ora ainda enfeitamos uns aos outros, e eles ficam felizes em serem vestidos pelo meu abraço. Sei que vão existir situações que serão como usar suéteres de lã malfeitos e salto de um centímetro. Temos de, juntos, experimentar novos modelos, puxando e amassando, mas tentando deixar o tecido básico intacto. Nesse ponto, teremos tecido uma complicada tapeçaria de padrão peculiar, com seus fios puxados, esgarçada e rasgada.

Mas não vou me esquecer desta época, das cabeças sonolentas no meu ombro, de pijamas com pezinhos e vestidos iguais para mãe e filha, de mãozinhas agarradas na minha mão. Esta época me cai bem. Tenho planos de usá-Ia da melhor maneira possível.

 

 

 

Vejo a educação de uma criança não só como um trabalho de amor e um dever, mas como uma profissão tão interessante,

desafiadora e honrosa como qualquer outra no mundo e

 aquela que exigiu de mim o melhor que eu podia dar.

ROSE KENNEDY

 


 

UM DE CADA VEZ

JAROLDEEN EDWARDS

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 18

 

Era um dia muito frio e chuvoso e eu não tinha a menor vontade de dirigir da praia até a montanha gelada em Lake Arrowhead, onde minha filha Carolyn morava.

Uma semana antes, ela telefonara insistindo que eu fosse ver os narcisos que algumas mulheres tinham plantado no alto da montanha. Assim, aqui estava eu, fazendo, relutante, a viagem de duas horas.

Quando vi como o nevoeiro estava espesso na estrada cheia de vento que levava ao alto, já estava longe demais para voltar.

Então, avancei pela perigosa autoestrada chamada Aba do Mundo, na direção da casa de minha filha.

- Não dirijo nem mais um metro! - anunciei. - Vou parar e almoçar e, assim que o nevoeiro baixar, vou descer.

- Mas eu preciso que você me leve até a garagem para eu pegar meu carro - Carolyn disse. - Não podemos pelo menos fazer isso?

- Quanto tempo até lá? - perguntei, prudente.

- Uns três minutos - ela respondeu. - Deixe que eu dirijo, estou acostumada.

Depois de dez minutos de estrada e olhei para ela ansiosamente.

- Entendi você dizer que era coisa de três minutos.

Ela sorriu:

- É um desvio.

Voltamos à estrada da montanha, com um denso nevoeiro.

"Nada pode valer isso", pensei. Mas era tarde demais para voltar. Dobramos num caminho estreito que levava a um estacionamento ao lado de uma pequena igreja de pedra. O nevoeiro começava a ceder e uns raios de sol, ainda fracos, num lusco-fusco, tentavam passar por ele.

Carolyn saiu do carro e eu, relutante, a segui. O caminho que seguimos era cheio de agulhas de pinheiros. E a montanha se derramava bem à direita.

Aos poucos, a paz e o silêncio do lugar começaram a relaxar minha mente. Foi quando, virando uma curva, prendi a respiração, maravilhada. Do alto da montanha, descendo por vários acres entre recôncavos e vales, entre árvores e arbustos, seguindo o terreno, havia rios de narcisos de um viço radiante. Cada matiz do amarelo - do mais pálido marfim ao mais profundo limão até o mais vivo salmão-laranja - resplandecia como um tapete à nossa frente.

Era como se o sol tivesse deixado cair gotas de ouro em riachos montanha abaixo. No centro dessa coloração fantástica havia jacintos roxos, que caíam como em cascata. Por todo o jardim havia plataformas para meditação, enfeitadas com barris de tulipas cor de coral. E como se essa mina de cores não bastasse, acima dos narcisos, azulões se moviam rapidamente e brincavam, com seus peitos cor de magenta e asas de safira, como se fossem joias em movimento.

Uma profusão de perguntas encheu minha mente: Quem criou tal beleza nesse lugar afastado? Quanto tempo levou para fazer um jardim tão magnífico? Como?

À medida que nos aproximávamos da casa que ficava no centro da propriedade, vimos um cartaz: Respostas às perguntas que eu sei que você está fazendo.

A primeira resposta era Uma Mulher - Duas Mãos, Dois Pés e Muito Pouco Cérebro. A segunda era Iniciado em 1958. E a terceira, Um de Cada Vez.

Voltando para casa, fiquei em silêncio no carro. Estava tão emocionada com o que vira que mal podia falar.

- Ela mudou o mundo - eu disse finalmente. - Um bulbo de cada vez. Pense só. Ela começou há mais de cinquenta anos.

E o mundo ficou para sempre diferente e melhor porque ela fez um pouco com um esforço constante.

A maravilha que eu presenciara não me saía da cabeça.

- Imagine se eu tivesse tido uma visão e trabalhado nela, um pouquinho a cada dia, por todos esses anos perdidos. O que eu teria realizado?

Carolyn me olhou de lado, sorrindo.

- Comece amanhã - ela disse. - Melhor ainda, comece hoje.

 

 

Se eu tivesse dois pedaços de pão, eu venderia um e compraria jacintos, porque eles alimentariam minha alma.

ALCORÃO


 

O ESPELHO TEM TRÊS FACES

KRISTINA CLIFF-EVANS

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 22

 

Tenho cinquenta e um anos. A idade de minha mãe quando morreu. Lembro-me claramente do seu último dia de vida. Era uma segunda-feira chuvosa e minha mãe não conseguia respirar.

- É fluido - disse o médico. - Vamos extrair o líquido dos pulmões.

Sentaram minha mãe na cama do hospital e introduziram uma longa agulha em suas costas. Tentaram repetidas vezes, mas não conseguiram retirar qualquer líquido. Nem aliviar sua dor.

- Não há fluido - o médico disse. - É só tumor. Não podemos ajudá-la a respirar.

Lembro as palavras desesperadas de minha mãe:

- Não consigo respirar. Aumentem o oxigênio por favor.

Mas aumentar o oxigênio não ajudou. Seus pulmões, tomados pelo câncer, lutavam pelo ar. Minha mãe sussurrou para mim suas últimas palavras:

- Quero que seja bem rápido.

Minha mãe devia ter envelhecido. Seu cabelo escuro, salpicado de cinza, devia ter se tornado branco como neve. As linhas do rosto, delineadas pelos sorrisos, deviam ter-se tornado rugas suaves. Seu caminhar rápido devia ter-se tornado um andar mais lento, mais maduro.

Minha mãe devia ter vivido para ver seus cinco netos crescerem. Para envolvê-los com seu jeito de amar tão especial e ensinar-lhes coisas com sua sabedoria. Ela devia ter partilhado, mão na mão, seus anos dourados com papai - ela foi a única mulher a quem ele amou. Mas nada disso aconteceu. Ela não estava mais aqui, nunca teve a oportunidade. Tinha cinquenta e um anos e morreu.

Eu tinha vinte e sete anos, então. Ao longo dos anos, nunca se passou um dia sem que eu pensasse em alguma coisa que quisesse lhe dizer, perguntar ou mostrar a ela. Eu me revoltava contra a injustiça dessa situação. Não era justo minha mãe ter morrido com cinquenta e um anos.

Agora sou eu que tenho cinquenta e um anos. Olho no espelho e me espanto: sofri transformações lentas, mas inegáveis. Ali está ela com seu cabelo salpicado de cinza, os olhos escuros e intensos, aquela expressão no meu rosto. Quando ouço minha voz, é a voz dela. Eu me tornei minha mãe.

Estou entrando num novo e estranho estágio da vida. Eu sempre olhei adiante para ver minha mãe. Num instante cheguei perto dela. Agora estou começando a ficar mais velha que minha mãe. A direção em que eu olhava para vê-la vai mudar.

Em breve terei de olhar para trás.

Aos poucos, minha mãe vai se tornar jovem em comparação a mim. No lugar dela, quem vai ficar velha sou eu - sou eu quem vai ficar com a cabeça branquinha, do jeito que ela devia ter ficado. Quem vai ficar com aquele modo de andar mais maduro, quem vai ver as rugas suaves que ela nunca viu. E isso vai continuar até o dia em que eu tiver setenta e cinco anos, a idade que ela teria hoje. Nesse dia, completada a inversão de papéis, eu me virarei para ela a fim de olhá-Ia, mas verei, no seu lugar, minha própria filha, com cinquenta e um anos - minha mãe.

 

Sou um reflexo das minhas gerações passadas

e a essência das que vêm depois de mim.

MARTHA KINNE


 

O MELHOR DE TODOS OS DISTINTIVOS

GERRY NISKERN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 25

 

Quando me tornei escoteira, minha mãe me contou esta história acontecida com a sua tropa de escoteiras há muito tempo, durante a Segunda Guerra Mundial.

 

Na manhã de um sábado gelado de dezembro, as meninas de onze anos da nossa tropa de escoteiras se reuniram, agitadas, no ponto de ônibus, onde já estava nossa chefe, a Sra. Taylor. Carregávamos grandes bolsas de papel com frigideiras, tigelas e artigos diversos de mercearia. Nesse dia, há muito esperado, nós, as garotas da Tropa 11, iríamos receber nossos distintivos de cozinheiras.

- Nada é tão saboroso quanto a primeira refeição que você mesma faz, especialmente quando se cozinha a lenha, num acampamento dizia, sorrindo, a Sra. Taylor.

Teríamos de fazer três baldeações até nosso destino, no deserto. No primeiro ônibus, estávamos todas agarradas aos nossos produtos como se fossem bolsas de joias. Diversas mães tinham contribuído generosamente com preciosos cupons de racionamento para que pudéssemos comprar o material para um verdadeiro café da manhã: panquecas com manteiga de verdade, bacon e até um pouco de açúcar mascavo para urna calda caseira! Nós, as escoteiras, receberíamos nossos distintivos apesar da adversidade, apesar da guerra. Nas nossas cabeças, não estávamos apenas aprendendo a cozinhar no deserto, estávamos fazendo nossa parte para manter a vida seguindo seu curso no front doméstico.

Finalmente chegamos ao Parque Papango, um lindo refúgio no deserto, cheio de árvores de tronco verde, arbustos cinzentos e maciças formações de rocha vermelha. Quando começamos a caminhar pela estrada de barro que conduzia ao parque, um caminhão do exército americano, cheio de prisioneiros de guerra alemães, passou por nós, indo também na direção do parque.

- Lá vão aqueles alemães! - disse urna das garotas, com desprezo. - Eu os odeio!

- Por que eles tiveram de iniciar a guerra? – urna outra reclamou. - Meu pai está fora há tanto tempo.

Nós todas tínhamos pais, irmãos ou tios lutando na Europa.

Com determinação, chegamos até o local do nosso acampamento e logo o bacon estava crepitando nas frigideiras, enquanto as panquecas ficavam com as beiradas douradas.

A refeição foi um sucesso. A previsão da Sra. Taylor sobre nosso prazer gastronômico estava correta.

Depois de comermos, urna das meninas começou a cantar urna canção de escoteiros enquanto limpávamos o espaço que tínhamos usado. Urna a urna, todas nós nos juntamos a ela. Nossa chefe iniciou urna outra canção e continuamos a cantar com entusiasmo.

Foi quando, inesperadamente, ouvimos vozes masculinas. Urna linda melodia cantada em tons profundos e fortes encheu o ar de dezembro e chegou até nós.

Erguemos o olhar para ver a caverna natural em forma de concha formada pelas grandes pedras vermelhas, chamada Buraco na Rocha, onde estavam agora os prisioneiros alemães e seus vigias.

Quando os soldados estrangeiros terminaram a canção, nós começamos outra. Responderam com outra persistente melodia. Não compreendíamos urna só palavra do que diziam, mas, para nosso prazer, nós continuamos a trocar canções na clara manhã do deserto.

Finalmente uma das garotas começou a cantar Noite Feliz e nós todas juntamos nossas vozes ao cântico de Natal. Seguiram-se alguns momentos de silêncio e então... a melodia, tão familiar, voltou para nós:

"Stille Nacht, Heilige Nacht..." - Como eles podem saber nossos cânticos de Natal? - uma das meninas perguntou à chefe. Eles são inimigos do nosso país!

Continuamos a ouvir com admiração. Por um momento peculiar e inesquecível, os homens na caverna se tornaram pais e irmãos de alguém e eles nos viram como suas amadas filhas e irmãs.

Nos anos que se seguiram provavelmente outras pessoas olharam nossos novos distintivos como prova de que poderíamos cozinhar a lenha, num acampamento. Mas, para nós, eles eram lembranças da necessidade de paz, de uma estranha transformação que aconteceu numa época de Natal.


 

UM PRESENTE PARA ROBBY

TONI FULCO

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 33

 

O pequeno Robby, sobrinho de nossa vizinha, tirou, com cuidado, uma colherada de sua ração de água, colocou o líquido num pires e se dirigiu à porta. Como eu odiava aquele racionamento de água! Éramos forçados a tomar banho sem sabonete no pequeno reservatório que dividíamos com Jessie, nossa vaca. Ela era tudo que tínhamos agora. Os poços estavam secos, a safra tinha virado pó, levando nossos sonhos, durante a pior seca já vista em nossa pequena comunidade rural.

Segurei a porta de tela para Robby e o observei, sorrindo, enquanto ele sentava, devagar, nos degraus. Parecia um anjo, com dúzias de abelhas à volta de seus cachos desalinhados, como se formassem um halo. Ele imitava o zumbido, o que as atraiu para o pires a fim de beber o precioso líquido.

As palavras de sua tia ecoavam nos meus ouvidos:

"Não sei o que estava pensando quando fiquei com ele. Os médicos dizem que ele não se machucou no acidente que matou minha irmã, mas ele não fala. Tudo bem, faz uns ruídos, mas que não são humanos. Ele vive num mundo particular, este garoto positivamente não é como meus filhos." Por que ela não conseguia ver os dons maravilhosos que aquele menino de quatro anos possuía? Meu coração doía por Robby. Ele se tornara a melhor parte de nosso mundo, me ajudando, animado, com o jardim, andando no trator ou carregando feno com meu marido. Ele fora abençoado com uma natureza amorosa e uma profunda admiração por todas as coisas vivas, e eu sabia que ele podia conversar com os animais.

Nós nos alegrávamos com as descobertas que ele, feliz, dividia COI1OSco. Seus olhos marrons, inquisitivos e, muitas vezes, inquietos, espalhavam total compreensão do que era dito. Eu gostaria de adotá-Io. Sua tia já sugerira isso muitas vezes. Nós nos denominávamos mamãe c papai para Robby e, antes da seca, faláramos sobre adoção. Mas os tempos eram tão duros que eu não tinha como abordar o assunto com Tom. O trabalho que ele fora obrigado a aceitar na cidade para comprar comida para Jessie e suprir nossas necessidades básicas já cobrava um alto preço a seu espírito.

A tia de Robby, sem hesitar, concordou com o pedido que o menino passasse o verão em nossa casa. De qualquer maneira, ele estava conosco todos os dias. Enxuguei uma lágrima, lembrando como ele parecia pequeno e frágil quando rapidamente colocou sua mão na minha e me entregou um saco amarrotado de papel pardo. Nele havia duas camisetas desbotadas que tínhamos comprado para ele na feira do condado no ano passado e um par de

shorts bastante surrados. Isso e as roupas que levava no corpo eram seus únicos pertences, com a exceção de um objeto muito estimado.

Numa corda de seda à volta do pescoço estava pendurado um apito feito a mão. Tom o fizera no caso de Robby estar perdido ou em perigo. Afinal de contas, ele não podia gritar por socorro. O garoto sabia perfeitamente que o apito não era um brinquedo. Era apenas para emergências e, se ele apitasse, Tom e eu iríamos correndo. Eu lhe contara a história do menino que dera um alarme falso e sabia que Robby me entendera.

Dei um suspiro enquanto secava e guardava a louça do jantar. Tom entrou na cozinha e apanhou a bacia de lavar louça.

Toda gota de água reciclada era usada na pequena horta que Robby plantara ao lado da varanda. Ele se orgulhava tanto dela que tentávamos desesperadamente salvá-Ia. Mas, sem chuva, logo estaria perdida. Tom pôs a bacia no balcão e me disse:

- Sabe, querida - ele começou -, tenho pensado muito sobre Robby ultimamente.

Meu coração começou a bater, ansioso, mas, antes que ele continuasse, um som agudo veio do jardim, fazendo-nos pular.

"Meu Deus! É o apito de Robby!" Quando chegamos à porta, o apito silvava febrilmente. Visões de uma cascavel me vinham à cabeça enquanto corríamos para o jardim. Corremos até Robby, que apontava freneticamente em direção ao céu sem deixar que tirássemos o apito de sua mão.

Olhamos na mesma direção e tivemos a mais bela das visões.

Nuvens de chuva, enormes nuvens de chuva, pretas de dar medo!

Robby, ajude, depressa! Precisamos de todos os recipientes!

O apito caiu de seus lábios e ele correu comigo até a casa. Tom correu em direção ao celeiro para trazer uma velha tina. Quando todos os baldes foram colocados no jardim, Robby voltou às pressas para a casa. Veio com três colheres de madeira que apanhou na gaveta. Ficou com uma e entregou as outras para Tom e para mim.

Apanhou um pote de mantimento dos grandes e se sentou, de pernas cruzadas. Virou o pote ao contrário e, com a colher, marcava um ritmo. Tom e eu pegamos outros potes e nos juntamos a ele.

- Chuva para Robby! Chuva para Robby! - eu entoava a cada batida.

Uma gota d'água bateu no meu pote, depois outra.

Logo o jardim estava completamente encharcado por uma chuva gloriosa. Ficamos ali parados, rostos erguidos, para sentir o luxo daquela chuva. Tom pegou Robby no colo e dançou entre os baldes, gritando com alegria e entusiasmo. Foi quando ouvi - suavemente a princípio, depois cada vez mais alto - a risada mais maravilhosa, impetuosa e alegre. Tom se virou para me mostrar o rosto de Robby. Com a cabeça pendendo para trás, ele estava rindo alto, claramente! Eu abracei os dois, deixando as lágrimas se misturarem com a chuva. Robby soltou Tom e se agarrou no meu pescoço.

- Do W-W-Wobby! - ele gaguejou. Estendendo sua mãozinha, como se para colher a chuva que caía, ele riu novamente.

- Suva... do W-W-Wobby... Mamã - ele sussurrou.


 

PRONTA PARA PATNAR

BETSY HALL HUTCHINSON

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 36

 

Meus olhos pararam no item idade do formulário que estava preenchendo para alugar os patins in-line. Será que era mesmo necessário colocar no papel o número que me rotulava como cidadã idosa? Minha idade não parecia apropriada à atividade. Mas qual seria a idade "correta”? Que número eu deveria escrever?

Apesar desse pequeno desvio de pensamento, não pude resistir à oportunidade de ouro: depois de mais de quarenta anos de formadas, seis amigas da época do segundo grau estavam se reunindo para um fim de semana na praia.

Dorothy trouxera seus patins in-line para aproveitar as calçadas lisas, largas e cheias de curvas. Algumas de nós estávamos ansiosas para nos juntarmos a ela nessa aventura. Outras hesitavam. As desculpas eram várias: "Não patino desde a época da escola”, "Meu joelho não está bom”, “Tenho medo de me machucar", "Patins in-line são diferentes dos roller”.

Cada uma de nós ficava mais agitada à medida que experimentava as joelheiras, os patins e as munhequeiras (nesta ordem) de Dorothy. Gentilmente auxiliadas por ela, decidimos tentar dar uma volta perto de uma parede, o que imaginávamos ser mais seguro. Ajudava o fato de algumas de nós saberem esquiar - movimento de parar parecia semelhante.

Quando começamos a trocar socos com aquela que estava sobre os patins e a discutir como crianças para saber de quem era a vez de patinar, sabíamos que estávamos prontas. Estávamos todas dispostas a alugar o equipamento.

Era inegável meu entusiasmo! Aquela sensação na sola dos pés me levou de volta à infância. Ainda me lembro do gostoso clique-clique-clique de quando corria a toda velocidade sobre as fissuras dos quadrados de cimento das calçadas da minha cidade natal.

Naquela época, as ruas, as calçadas e terrenos vazios da vizinhança eram nosso playground. Sob a sombra de árvores majestosas, o grupo de crianças patinava, pulava corda, brincava de amarelinha e andava de bicicleta durante todo o verão. As mais velhas organizavam projetos mais ambiciosos: carnavais, produções teatrais, exposições de cachorro e desfiles. Os irmãos menores ficavam de ajudantes.

Ao pôr-do-sol nos reuníamos sob as árvores para tocar violão e cantar.

Mas em qualquer dia do verão eu estava sobre meus patins roller, com a chave dos patins balançando num fio de algodão encardido pendurado ao redor do pescoço, os joelhos cheios de cascas de machucados, Normalmente realizávamos nossas proezas mais ousadas descendo a ladeira íngreme que levava à rua seguinte no final do nosso quarteirão. Em altíssima velocidade, descíamos berrando até pararmos lá embaixo, com uma guinada de corpo para a esquerda. Batíamos ruidosamente contra uma porta de garagem estrategicamente localizada. A porta (para desprazer do dono da casa) estava permanentemente marcada com uma fileira de mãos de crianças.

Agora, quase cinco décadas depois, alegremente protegida por joelheiras e munhequeiras, tendo nos pés os patins alugados, sigo Dorothy (minha amiga desde a quarta série) pelo caminho que leva ao passeio largo e liso, onde poderemos realmente decolar. Virando a cabeça, Dorothy sorri para mim e diz:

Agora temos oito anos!

Com certeza - concordo, Este era o número que eu estava procurando.

 

 

Vou envelhecer, mas sem perder o gosto pela vida,

porque a última curva da estrada vai ser a melhor.

HENRY VAN DYKE


 

AS MULHERES QUEREM LINGERIE

ROBERT FULGHUM

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 40

 

"As mulheres PRECISAM de roupa de baixo, mas QUEREM lingerie." Essa frase do presidente da Victoria's Secret abria uma grande matéria na revista Forbes. "Ele deve conhecer o assunto, já que tem seiscentas lojas e uma companhia com um catálogo de vendas de dois bilhões de dólares para respaldar tal afirmativa", pensei. De alguma forma, hoje posso atestar que isso é verdade.

Estava em um shopping center em Cleveland fazendo hora antes de ir a um lançamento de livro e passei numa loja da Victoria's Secreto Entrei, olhei as peças, a vendedora ofereceu ajuda. Enquanto conversávamos, a moça me contou que a loja começara como um lugar onde um homem poderia comprar lingerie para agradar uma mulher. Agora, o objetivo era conquistar mulheres que quisessem agradar a si mesmas - que desejassem se sentir bonitas e sensuais.

Enquanto falávamos, percebi uma senhora vestida de forma conservadora que entrou devagarinho na loja, com um deliberado ar de dignidade. Examinou as peças delicadas nas prateleiras. Sentia as texturas dos tecidos de vez em quando. Dispensando a ajuda da vendedora, a senhora saiu da loja. Quando eu saí, vi que ela estava em frente à vitrine, olhando atentamente a lingerie exposta.

Uma hora depois, passei novamente no corredor e vi a mulher no mesmo lugar, em pé, enxugando os olhos com um lenço, Chorando.

- Desculpe, não pude deixar de perceber a sua aflição. Está tudo bem?

Não, não estou bem. Estou apaixonada. - E ela me contou a sua história, do jeito que as pessoas só fazem com quem não conhecem.

Era uma viúva de setenta e dois anos. Filhos criados, netos. E tudo mais.

Num impulso fora à festa de comemoração de cinquenta anos de formatura de sua antiga turma da faculdade, em St. Louis. E ele estava lá. O homem por quem fora apaixonada naquela época. Completamente apaixonada. Sua família proibira o casamento por considerá-lo de classe inferior, segundo seus padrões. Ela fora enviada à Costa Leste para terminar o curso. Não teve mais notícias e alguém lhe dissera que ele tinha morrido na guerra.

Mas lá estava ele. Tivera uma próspera carreira no ramo de seguros, se casara, tivera filhos l' agora estava viúvo. E era ainda muito alinhado. Além do mais, ele fora à reunião na tentativa de encontrá-la. "Buá" (estou repetindo a senhora). Parecia que o tempo não tinha passado.

Eles conversaram, riram, dançaram, beberam um monte de ponche e acabaram um nos braços do outro, se beijando. "Beijando" (estou de novo repetindo). A parte do beijo a deixou nervosa. A senhora contou que estava sentindo coisas que não sentia há muito tempo.

Quando ele fez alguns movimentos, sugerindo que iria além do beijo, ela se afastou. Uma parte dela dizia que já estava muito velha para aquele tipo de coisa. Mas uma outra parte dizia que a verdade era que sua roupa de baixo é que estava velha demais para esse tipo de coisa.

Ela foi para casa. Trocaram cartas. Conversaram pelo telefone. Decidiram que a vida era curta demais para ser desperdiçada e que deveriam passar um fim de semana juntos. Ela o convidou para ir a Oberlin, onde morava. Ele chegaria na sexta-feira. Então ali estava ela, num shopping elegante, soluçando do lado de fora da loja da Victoria´s Secret. Não estava se sentindo nem bonita nem sexy, mas velha e boba.

Não posso contar como essa história terminou realmente muito menos o que aconteceu no fim de semana em Oberlin.

Não é da minha conta. Mas posso dizer que o senhor de St. Louis pode, mais cedo ou mais tarde, ter uma surpresa.

Ela não vai contar a ele que um estranho a encontrou chorando em frente à vitrine da Victoria´s Secret, a pegou pelo braço e entrou com ela na loja. Ou que esse estranho disse à vendedora que sua tia precisava de uma lingerie bonita para uma amiga que tinha mais ou menos o mesmo corpo que ela, que tal amiga estava apaixonada, mas tinha vergonha de ir à loja. Não, o conjunto preto feito para seduzir falaria por si.

Quando as mulheres precisam de roupa de baixo, mas querem lingerie, a idade não deveria jamais ser um problema. A senhora podia não ser tão jovial quanto antes, mas se sentia atraente, pelo menos mais uma vez, como nunca fora. Por que querer viver tanto tempo a não ser que coisas assim sejam possíveis?

 

 

A idade não protege você do amor.

Mas o amor, de alguma forma, protege você da idade.

JEANNE MOUREAU

 


 

CARTA DE UMA MÃE AO MUNDO

AUTOR DESCONHECIDO

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 40

 

Caro mundo,

 

Meu filho começou hoje na escola. Por um tempo, tudo vai ser estranho e diferente para ele. E eu gostaria que você o tratasse com carinho.

Veja bem, até agora, ele tem vivido como um rei. É o mandachuva aqui em casa. Eu estou sempre ao lado dele, curando suas feridas e aquietando seu coração.

Mas agora tudo vai ser diferente.

Esta manhã ele vai sair pela porta da rua, acenar para mim e começar sua grande aventura, que provavelmente incluirá guerras, tragédia e sofrimento.

Para viver neste mundo é preciso fé, amor e coragem.

Por isso, mundo, eu gostaria que você o pegasse pela mão e ensinasse o que ele precisa saber. Ensine-o, mas com carinho, se possível. Ensine-o que, para cada malandro que existe por aí, existe também um herói. Que para cada político corrupto existe um líder dedicado. Que para todo inimigo existe também um amigo. Ensine-o sobre as maravilhas dos livros.

Dê a ele um momento de silêncio para que possa ponderar sobre o mistério eterno dos pássaros no céu, das abelhas ao sol e das flores nas campinas. Ensine-o que é muito mais digno fracassar do que trapacear.

Ensine-o a ter fé nas próprias ideias, mesmo quando todo mundo lhe disser que ele está errado. Ensine-o a vender seu cérebro e seus músculos pelo mais alto preço, mas que seu coração e sua alma nunca estejam à venda.

Ensine-o a fechar os ouvidos para o clamor da multidão... e manter-se firme e disposto a lutar quando achar que está certo.

Ensine-o com carinho, mundo, mas não o mime, pois é o teste do fogo que produz o aço mais resistente.

Essa é a lei, mundo, mas veja o que você pode fazer por mim. Ele é um rapazinho tão especial!


 

ATRÁS DE TODO GRANDE HOMEM

EXISTE UMA GRANDE MULHER

THE BEST OF BITS e PIECES

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 42

 

Thomas Wheeler, alto executivo de uma multinacional, viajava com sua mulher por uma estrada interestadual quando notou que o carro estava com pouca gasolina. Ele parou num posto muito simples, com apenas uma bomba de combustível. Pediu ao único atendente que enchesse o tanque e verificasse o óleo enquanto ele dava lima volta para esticar as pernas.

Ao retomar para o carro, percebeu que o frentista e sua mulher estavam num papo animado. A conversa parou enquanto Wheeler pagava pela gasolina. Mas, quando voltava para o carro, ele viu o rapaz acenar e dizer:

- Foi ótimo falar com você.

Ao sair do posto, o marido perguntou mulher se ela conhecia o atendente. Ela imediatamente admitiu que sim. Tinham frequentado a mesma escola e ela o namorara por cerca de um ano.

- Puxa, você teve sorte de eu ter aparecido - Wheeler se vangloriou. - Se tivesse se casado com ele, seria agora a esposa de um frentista de posto de gasolina em vez de ser esposa de um alto executivo.

- Meu querido - respondeu a mulher -, se eu tivesse me casado com ele, ele seria o alto executivo e você o frentista do posto de gasolina.


 

NUNCA É TARDE DEMAIS

MILDRED COHN

Extraído de Chocolate for a Woman´s Soul de Kay Allenbaugh

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 44

 

Num estalo o sonho da minha vida se realizou. Aos sessenta e oito anos, terminei meu curso universitário - com louvor.

Foi uma realização triunfante, embora um pouco amarga.

Eu tinha um casamento amoroso e feliz, preenchido com viagens, amigos e filhos. Então meu marido morreu. Eu jamais tinha feito nada sozinha. Nunca.

Vi que podia ficar em casa c lamentar a minha perda ou fazer alguma coisa que eu desejara toda a minha vida. Eu poderia ir para a faculdade.

Nunca tive tanto medo em tomar uma decisão.

Mas tomar a decisão era uma coisa. Fazer realmente o curso era outra. Eu estava muito nervosa no primeiro dia de aula. Estava apavorada. Eu conseguiria achar a sala? Será que eu ia chamar atenção pela minha incapacidade? Será que os professores pensariam que eu estava ali por falta do que fazer? Conseguiria dar conta do recado? E se todos fossem mais inteligentes do que eu?

No fim do primeiro dia estava exausta.

Mas também estava entusiasmada. Sabia que ia conseguir. Embora fosse difícil, o estímulo de aprender coisas novas valia a pena. Meu amor pela arte me levou a concentrar minhas cadeiras no curso de história da arte. Era um prazer passar os dias ouvindo os professores.

Um dos meus prazeres inesperados foi estar com os outros alunos. A diferença de idade não era problema, embora tivesse sido um choque, no início, os meninos me chamarem pelo primeiro nome. Eles eram ótimos, discutíamos a matéria, estudávamos e andávamos juntos. Um rapaz até me ensinou a usar computadores. E o melhor de tudo: ninguém falava sobre colesterol.

Também recebia muita atenção de meus professores (a maioria deles com idade para ser meus filhos). Imagino que não estavam acostumados a ter um aluno tão interessado em suas aulas. Com o passar do tempo, muitos me usavam como fonte. Na aula de história, ninguém mais podia dizer como foi ter vivido na época da Grande Depressão. Eu podia e, assim, me pediam para falar sobre minhas experiências. Muitos de meus conhecidos pensavam que eu estava louca. Às vezes eu também pensava. Os trabalhos, as provas, as horas de pesquisa, as corridas para atravessar o campus e chegar a tempo na próxima aula, a exaustão. Entretanto, nada disso me impediu de preencher todos os requisitos acadêmicos, inclusive fazer aulas de educação física. Estava determinada a cumprir tudo que fosse necessário para obter o diploma.

Minhas filhas me deram todo o apoio. Falavam sobre inversão de papéis. Nós planejávamos nossas visitas na época das minhas férias escolares. Elas me ajudavam com minhas tarefas de casa, se condoíam quando eu falava de problemas com algum professor e diziam para eu não me preocupar em tirar boas notas. (Juravam que eu estava me vingando delas por todas as vezes que me ligaram em pânico quando estavam na escola.) Além de frequentar as aulas, aprendi que podia estudar no exterior, fazendo excursões acompanhadas por professores durante o verão. Uma das viagens foi para a Europa Oriental (antes da queda do comunismo). Em outra, o roteiro era explorar os principais museus da Itália. Eu viajara bastante com meu marido, mas nunca sozinha. Fiquei apreensiva na primeira vez, mas conheci pessoas maravilhosas que me colocaram sob suas asas. Tinha conseguido dar mais um passo para fazer as coisas por mim mesma.

Eu mal sabia que minha experiência na faculdade me daria um conhecimento que não vem só dos livros. Olhando para trás, compreendo que ir à faculdade me manteve jovem. Eu nunca estava aborrecida. Estava sendo exposta a novas ideias e pontos de vista. O mais importante é ter ganho confiança, saber que posso realizar coisas por mim mesma.

No dia antes de sua morte, meu marido me perguntou se eu voltaria à faculdade. Ele estava me dizendo para continuar a viver e realizar um sonho. No dia da minha formatura, quatro anos mais tarde, quando atravessei o palco para receber meu diploma, eu o senti ali, me aplaudindo de pé.

 

 

 

A maior recompensa pelo esforço de uma pessoa

não é o que ela ganha com isso, mas o que ela se torna através dele.

JOHN RUSKIN

 


 

MINHA ÁRVORE DE DINHEIRO

RUTH SZUKALOWSKI

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 47

 

Por anos desejei ter um jardim. Passava horas pensando nas coisas diferentes que eu poderia plantar para fazer um bonito conjunto.

Mas então tivemos Matthew. E Marvin. E os gêmeos, Alisa e Alan. E então Helen. Cinco filhos. Eu estava muito ocupada com a educação deles para pensar em cuidar de um jardim.

Tempo e dinheiro eram curtos. Com frequência, quando meus filhos eram pequenos e um deles queria alguma coisa que custava muito caro, eu costumava dizer: "Você está vendo alguma árvore de dinheiro lá fora? Dinheiro não dá em árvores, você sabe." Finalmente, todos os cinco concluíram o segundo grau e a faculdade e seguiram seus caminhos. Comecei a pensar novamente em ter um jardim.

Mas não tinha tanta certeza. Quer dizer, jardins custam realmente caro e, depois de todos esses anos, eu estava acostumada a viver com um orçamento apertado, sem supérfluos.

Então, numa manhã de primavera, no Dia das Mães, estava na cozinha quando percebi que os carros buzinavam quando passavam pela frente da casa. Olhei pela janela e lá estava uma árvore nova plantada bem no meu jardim. Pensei ser um salgueiro-chorão, porque eu via que havia coisas penduradas em todos os galhos. Resolvi colocar os óculos - e não pude acreditar nos meus olhos.

Havia uma árvore de dinheiro no meu jardim!

Fui olhar de perto. Era verdade! Havia notas, uma centena delas, coladas em toda a árvore. Imagine todas as flores que poderia comprar com aquele dinheiro! Havia também um bilhete grudado: "Eu lhe devo oito horas de capina. Com amor, Matthew." Matthew também manteve sua promessa. Ele preparou um canteiro medindo 3m x 4,5m para mim. E meus outros filhos me deram de presente ferramentas, enfeites, uma treliça, uma passadeira de girassol e livros de jardinagem.

Isso aconteceu há três anos. Meu jardim agora está uma beleza, exatamente como eu queria. Quando vou tirar as ervas daninhas ou cuidar das flores, não sinto tanta falta de meus filhos como antes. Parece que eles estão ali comigo.

Moro numa região onde os invernos são longos e muito frios, enquanto os verões são curtos demais. Mas agora, a cada ano, quando o inverno chega, olho pela janela e penso nas flores que verei na próxima primavera no meu pequeno jardim.

Penso no que meus filhos fizeram por mim e fico com os olhos cheios de lágrimas - todas às vezes. Ainda não tenho certeza de que dinheiro cresce em árvores. Mas sei que o amor nasce.

 

Enquanto tentamos ensinar a nossos filhos tudo sobre a vida,

eles nos mostram que a vida é tudo.

ANGELA SCHWINDT


 

A FLOR NO CABELO

BETTIE B. YOUNG De Gifts of the Heart

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 50

 

Ela sempre usava uma flor no cabelo. Sempre. Eu achava aquilo meio esquisito. Uma flor ao meio-dia? Para trabalhar? Para reuniões do escritório? Ela era uma estagiária de design gráfico no grande e movimentado escritório onde eu trabalhava. Todo dia ela chegava com seu estilo próprio e ultramoderno, com uma flor no cabelo. Normalmente, a flor combinava com o resto da roupa e era como se estivesse ali desabrochando, como um guarda-sol de cor vívida, preso nas ondas castanhas do cabelo. Às vezes, como na comemoração de Natal da firma, a flor dava um ar de festa e parecia adequada. Mas, para trabalhar, era estranho. Algumas das mulheres mais convencionais do escritório se indignavam e achavam que alguém deveria informá-Ia sobre as "regras", que devem ser "levadas a sério", no mundo dos negócios. Outras - eu inclusive - pensavam que era só o jeito dela.

Entre nós, a chamávamos de flower power ou "a garota da flor".

- A garota da flor já fez o design preliminar daquele projeto? - alguém perguntava, com um risinho.

- Claro, ficou muito bom. O talento dela realmente floresceu - seria a resposta debochada. E nós nos divertíamos.

Pensávamos, naquela época, que era apenas uma brincadeira inocente. Ninguém, que eu saiba, perguntou à moça por que ela usava sempre uma flor no cabelo. Na verdade, acho que perguntaríamos se aparecesse sem ela.

O que aconteceu um dia. Quando ela deixou um. projeto na minha sala, disse casualmente:

- Vi que hoje você não colocou a flor no cabelo. Estou tão acostumada a vê-la com a flor que me pareceu que está faltando alguma coisa.

- Ah, é - ela respondeu baixinho, num tom sombrio, diferente do seu jeito normalmente vivo e alegre. A pausa significativa que se seguiu pareceu estranha e me fez perguntar:

- Tudo bem com você?

Embora esperasse um "Tudo bem", eu sabia que havia alguma coisa mais séria do que uma flor faltando.

- Ah - ela disse com uma expressão triste e serena. - Hoje é aniversário da morte de minha mãe. Eu sinto muita falta dela.

Acho que estou um pouco triste.

- Compreendo - eu disse, com pena, mas sem querer entrar em conversas sentimentais. - Tenho certeza de que é um assunto difícil para você - continuei, o meu lado profissional querendo que ela concordasse, mas meu coração entendendo que havia mais.

- Não, está tudo bem. Sei que estou muito sensível hoje. É um dia de luto, eu acho. Veja só... - e ela começou a me contar.

Minha mãe teve um câncer e ficou muito mal. Ela era amorosa e generosa. Como sabia que ia morrer, ela gravou em vídeo várias mensagens para eu ver a cada aniversário, dos dezesseis aos vinte e cinco anos. Hoje é meu vigésimo quinto aniversário e essa manhã eu vi a última fita. Acho que ainda estou digerindo isso. E querendo que ela estivesse viva.

- Sei como você se sente - eu disse.

- Obrigada por sua delicadeza. Quanto a não ter colocado a flor... quando eu era menina, minha mãe sempre punha flores no meu cabelo. Um dia, quando ela estava no hospital, eu levei uma enorme rosa do jardim de casa. Quando a aproximei dela para que pudesse sentir o perfume, ela pegou a flor, acariciou meu cabelo, afastando-o do rosto e prendeu a rosa num grampo, como fazia quando eu era pequena. Ela morreu naquele mesmo dia.

Fiquei com os olhos cheios d'água quando ela disse:

- Sempre uso uma flor no cabelo, desde então. Me faz pensar que ela está comigo mesmo em espírito. Mas...

Ela suspirou e continuou:

- Hoje, na fita, ela me dizia que lamentava não estar aqui para me ver crescer e que esperava ter sido uma boa mãe, mas gostaria de ter um sinal de que eu estava me tornando autossuficiente. Era como minha mãe pensava, como ela falava. Ela era tão sábia...

- É, me parece muito sábio - concordei com a cabeça.

- Então eu pensei que sinal poderia ser. E imaginei que poderia ser a flor. Vou sentir falta dela, do que representa.

Seus olhos castanhos pareciam perdidos em lembranças quando ela falou:

- Tive tanta sorte em tê-la como mãe... - Sua voz foi sumindo até que ela me olhou de novo e riu tristemente. - Mas não acho que eu tenha de usar uma flor para me lembrar dessas coisas. Sei disso. Era só um sinal externo das minhas queridas lembranças. Elas ainda estão comigo, mesmo sem a flor, mas ainda sinto falta dela... Ah, aqui está o projeto. Espero que você aprove. - Ela me entregou o trabalho, assinado com uma flor desenhada, sua marca registrada, sob seu nome.

Quando eu era jovem, me lembro de ter ouvido: "Nunca julgue os outros até passar pela mesma situação." Pensei sobre todas as vezes em que fui insensível em relação a essa moça com a flor no cabelo e que triste que, infelizmente, eu tenha feito isso por falta de informação, sem saber de sua história e da cruz que ela tinha de carregar. Eu me orgulhava de conhecer detalhadamente cada faceta da minha empresa e sabia o papel e a função de cada empregado.

Foi terrível o que eu fiz, convicta de que a vida pessoal da pessoa não tem nada a ver com sua vida profissional, devendo ser deixada na porta da empresa quando ela vai trabalhar. Naquele dia, eu soube que a flor que a jovem usava era a expressão do seu amor - uma forma de permanecer ligada à jovem mãe, que ela perdera ainda menina.

Examinei o projeto que ela apresentara e me senti feliz em saber que fora desenvolvido por alguém com tanta capacidade de sentir... de ser. Não me admira que seu trabalho fosse realmente excelente. Ela vivia com seu coração e me fez revisitar o meu.

 

O maior presente é um pedaço de você mesmo.

RALPH WALDO EMERSON

 


 

UM ANJO DE CHAPÉU VERMELHO

TAMI Fox

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 54

 

Sentada na lanchonete em frente à clínica, não queria admitir o meu medo. No dia seguinte eu seria internada para fazer uma cirurgia na espinha, uma operação de alto risco. Eu tinha perdido meu pai havia poucas semanas e me sentia desamparada:

Era como se a luz que me guiava tivesse retomado ao Céu. Mas eu tentava encontrar forças na minha fé.

"Oh, Senhor, nessa época de provações, mande-me um anjo.

Quando me preparava para sair, vi uma senhora idosa se dirigindo vagarosamente para o caixa. Fiquei atrás dela, admirando sua elegância - um lindo vestido xadrez vermelho e preto, um lenço, um broche e um chapéu vermelho-escarlate.

- Desculpe, senhora, mas não posso deixar de lhe dizer como é bonita. Vê-la assim tão elegante encheu-me de alegria.

Ela segurou a minha mão e disse:

- Minha doce criança, Deus a abençoe. Eu tenho um braço artificial, uma placa de metal no outro e esta perna não é minha.

Levo um bom tempo para conseguir me vestir. Tento me arrumar da melhor maneira possível, mas, à medida que os anos passam, parece que as pessoas pensam que não tem importância vestir-se bem. Você hoje fez com que eu me sentisse uma pessoa especial. Que o Senhor possa protegê-la e abençoá-Ia porque você deve ser um anjinho enviado por Ele.

A senhora se foi sem que eu conseguisse dizer uma só palavra. Ela tocou a minha alma de tal forma que só podia ser o anjo que eu pedira.

 

 

Se quiser ser amado, ame e seja amável.

BENJAMIN FRANKLIN

O MÁGICO E A MOÇA CEGA

MICHAEL JEFFREYS

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 56

 

Meu amigo Whit é mágico profissional e foi contratado por um restaurante para fazer mágicas durante o jantar, distraindo os clientes. Uma noite ele se aproximou de uma família e, depois de se apresentar, puxou um baralho e começou seu número. Virando-se para uma moça sentada à mesa, pediu que ela escolhesse uma carta. O pai da moça lhe disse que a filha, Wendy, era cega.

Whit disse:

- Tudo bem. Se ela concordar, eu gostaria de fazer um número com ela.

Virando-se para a moça, meu amigo perguntou:

- Wendy, você gostaria de me ajudar numa mágica?

Um tanto tímida, ela encolheu os ombros e respondeu:

- Tudo bem.

Whit se sentou em frente à moça e disse:

- Vou segurar uma carta, Wendy, que será vermelha ou preta. O que eu quero é que você use seus poderes psíquicos e me diga de que cor é a carta, vermelha ou preta. Você entendeu?

Wendy concordou com a cabeça. Whit segurou o rei de paus e perguntou:

- Wendy, esta carta é preta ou vermelha?

Depois de um momento, a moça cega respondeu:

- Preta.

Sua família sorriu. Whit levantou o sete de copas e disse:

- Esta carta é vermelha ou preta?

- Vermelha - Wendy respondeu.

Então Whit levantou uma terceira carta, o três de ouros, e perguntou:

- Vermelha ou preta?

- Vermelha! - Wendy disse sem hesitar.

Seus pais riram nervosamente. O mágico levantou mais três cartas e a moça acertou todas. Incrivelmente, ela acertou as seis vezes! Sua família não podia acreditar em sua sorte. Na sétima carta, Whit levantou o cinco de copas e falou:

Wendy, quero que você me diga qual é a carta e de que naipe ela é... se é de copas, ouros, paus ou espadas.

Depois de um momento, Wendy respondeu, confiante:

- É o cinco de copas.

Os parentes deixaram escapar um grito. Eles estavam aturdidos! O pai de Wendy perguntou a Whit se ele estava fazendo algum tipo de truque ou mágica mesmo. Whit respondeu:

- O senhor terá de perguntar a Wendy.

O pai, então, perguntou à filha:

- Wendy, como você fez isso?

Ela sorriu e disse:

- É mágica!

Whit cumprimentou a família, deu um abraço em Wendy, deixou seu cartão de visitas e se despediu. Estava claro que ele havia criado um momento mágico que aquela família jamais esqueceria.

A questão, naturalmente, é como Wendy sabia a cor das cartas? Já que Whit nunca a havia encontrado até aquele momento no restaurante, ele não poderia ter lhe dito antes que cartas eram vermelhas e quais eram pretas. E, já que Wendy era cega, era impossível para ela ver as cores ou o valor das cartas quando ele as levantou. Como foi, então?

Whit pôde criar seu milagre usando um código secreto e rapidez de pensamento. No início de sua carreira, ele havia criado um código para que uma pessoa pudesse passar informações para outra com os pés, sem usar palavras. Ele nunca tivera a chance de usar o código até aquele momento no restaurante.

Quando Whit se sentou em frente a Wendy e disse "Vou segurar uma carta, Wendy, e ela será vermelha ou preta, ele bateu de leve no pé dela (sob a mesa) uma vez quando disse a palavra "vermelha” e duas vezes quando disse "preta”.

Para ter' certeza de que ela o havia entendido, ele repetiu os sinais secretos, dizendo: "O que eu quero é que você use seus poderes psíquicos e me diga de que cor é a carta, vermelha (um toque) ou preta (dois toques). Você entendeu?"

Quando Wendy concordou com a cabeça, ele sabia que ela havia compreendido o código e estava disposta a colaborar com o truque. Sua família supôs que, quando ele perguntou se ela "havia entendido", estava se referindo às suas instruções verbais.

Como ele passou para ela a informação sobre o cinco de copas? Simples. Ele tocou no pé dela cinco vezes para ela saber que ele tinha um cinco. Quando ele perguntou se a carta era de copas, espadas, paus ou ouros, ele comunicou o naipe tocando no pé dela ao dizer "copas".

A mágica real desta história é o efeito que teve em Wendy.

Não só lhe deu a chance de brilhar por uns momentos e se sentir especial diante da família, mas tornou-a uma estrela em casa, pois sua família contou a todos os amigos sobre a espantosa experiência “psíquica”.

Alguns meses depois, Whit recebeu um pacote de Wendy.

Nele, um baralho em braile, com um bilhete. No bilhete, ela lhe agradecia por tê-la feito sentir-se tão especial e por ter lhe permitido "ver", mesmo que por apenas alguns momentos.

Ela disse que ainda não contara à família como acertara as cartas, apesar de eles continuarem a lhe perguntar. Ela terminava dizendo que lhe enviava o baralho em braile para ele poder fazer mais mágicas com pessoas cegas.


 

NAS RAIAS DA LOUCURA

ERMA BOMBECK

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 60

 

De vez em quando, algo acontece em nossa vida que nos leva a reavaliar nossas prioridades. Às vezes é um aniversário traumático ou um amigo passando por uma crise. Para mim, foi o enterro de um grande amigo que me deixou vulnerável, confusa e incerta quanto ao meu papel nesta vida.

Eu queria tirar todas as minhas economias do banco e ir para o Taiti. Queria pôr os pratos de plástico no asfalto e dar marcha à ré, passando sobre eles. Queria ter aulas de balé. Jogar fora todas as flores artificiais e substituí-las por uma selva de trepadeiras e folhagens. Queria tirar todos os tapetes e deixar a poeira se espalhar por onde quisesse.

Nessa mesma noite, refleti sobre a minha vida, mudei as estratégias e fiz um juramento. Eu não seria como a mulher do Titanic que, ao subir no bote salva-vidas rumo a um destino incerto, lamentou, arrependida: "Se eu soubesse que isso iria acontecer, teria pedido mousse de chocolate de sobremesa." Então, prepare-se, mundo! A Madame Praticidade vai começar a viver cada dia como se fosse o último.

Lembra-se daquela grande vela em formato de rosa que juntou poeira na sala de estar e acabou ficando toda mole no verão?

Eu a acendi ontem.

E o vidro do carro, aquele do meu lado, que tinha urna pequena rachadura e que eu disse que substituiria quando fosse vender o carro? Bem, já mandei pôr outro no lugar.

Adivinhe quem está vindo para jantar esta noite? Eva e Jack, com quem me encontrei em dezesseis casamentos e para os quais eu dizia sempre a mesma coisa:

- Precisamos nos encontrar um dia destes!

E sabe aquela lata de pescado que eu não queria abrir porque sou a única que come peixe e não conseguia suportar a ideia de desperdiçar o resto? Adivinhe o que aconteceu com ela!

Enquanto eu lavava as mãos com um sabonete cor-de-rosa em formato de concha, meu marido disse:

- Pensei que você fosse guardar alguns desses sabonetes.

Você os molhou e eles não se parecem mais com uma concha. Olhei para baixo, para a mão cheia de espuma e pensei: ''A concha só serve para aprisionar a vida, eu queria lhe dar a chance de ser uma outra coisa."


 

O DOTE

ROY EXUM

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 62

 

No distante Pacífico Sul há uma ilha chamada Nurabandi e, perto dela, uma outra, de nome Kiniwata.

Os nativos dessas ilhas são pessoas maravilhosas, boas e altivas, mas entre eles existe o antigo costume de se oferecer um dote para a família de uma moça quando ela é pedida em casamento.

Johnny Lingo vivia na ilha de Nurabandi. Era elegante e rico, talvez o homem de negócios mais capaz em toda a ilha.

Todos sabiam que, jovem e solteiro, ele poderia se casar com qualquer das meninas da região.

Mas Johnny só tinha olhos para Sarita, que morava em Kiniwata, o que intrigava muitas pessoas.

Sarita era uma moça simples, pouco atraente. Quando andava, seus ombros se curvavam e sua cabeça se abaixava.

Mas Johnny estava apaixonado por Sarita e combinou de se encontrar com o pai da moça, um homem chamado Sam Karoo, para pedir sua mão em casamento e combinarem o dote.

O dote era sempre pago em vacas, animais muito valorizados nas pequenas ilhas do Pacífico. Contava-se que as famílias de algumas das moças mais bonitas da região recebiam quatro vacas como dote e, em casos excepcionais, cinco.

Johnny Lingo era o comerciante mais sagaz da ilha de Nurabandi, e o pai de Sarita era um nada na ilha de Kiniwata.

Sabendo disso, Sam Karoo, preocupado, reuniu a família na véspera do encontro e, nervosamente, anunciou sua estratégia: ele pediria a Johnny três vacas, acenando com a possibilidade de receber duas, até ter certeza de que o noivo daria pelo menos uma.

No dia seguinte, logo no início da reunião, Johnny olhou firmemente nos olhos de Sam Karoo e disse tranquilamente: - Venho pedir a mão de Sarita em casamento e gostaria de oferecer oito vacas como dote.

Sam, gaguejando, disse que estava bem assim. O casamento foi maravilhoso, mas ninguém na ilha conseguiu compreender por que Johnny dera oito vacas como dote para se casar com Sarita.

Seis meses depois, um visitante americano, o talentoso escritor Pat McGerr, encontrou-se com Johnny Lingo em sua bela casa em Nurabandi e perguntou-lhe sobre as oito vacas.

O escritor já estivera na ilha de Kiniwata, onde soube que os moradores ainda comentavam o fato de o simplório Sam ter passado Johnny para trás com o dote de oito vacas por Sarita, tão simples e sem graça.

Mas, em Nurabandi, ninguém ousava rir de Johnny Lingo, pois ele era muito considerado na ilha. Quando o escritor finalmente encontrou Johnny, os olhos do recém-casado brilhavam durante a conversa:

- Soube que falam de mim em Kiniwata. Minha mulher é de lá.

- É, eu sei - disse o escritor.

- Pois me conte, o que dizem? - perguntou Johnny.

O escritor, tentando usar toda a sua diplomacia, respondeu:

- Bem, que você se casou com Sarita numa linda festa.

Johnny pressionou o escritor até que ele finalmente lhe contou:

- Comentam que você deu oito vacas como dote por sua mulher e ninguém compreende por que fez isso.

Quando o escritor acabou de dizer essas palavras, a mulher mais bonita que já vira entrou na sala para colocar flores sobre a mesa.

Era alta, tinha um lindo porte. O queixo era reto. E, quando seus olhos cruzaram com os de Johnny, havia uma inegável faísca.

- Esta é minha mulher, Sarita - disse Johnny, que agora se divertia com a situação, ao ver o escritor completamente assombrado. Sarita pediu licença, e então Johnny começou a explicar.

- Você nunca pensou o que deve significar para uma mulher saber que o marido ofereceu por ela o valor mínimo pelo qual poderia ser comprada? Depois do casamento, as mulheres falam entre si, se vangloriam de quanto os maridos deram por elas. Uma diz quatro vacas, outra diz três. Mas como se sente a mulher pela qual o marido deu apenas uma vaca? - questionou Johnny. - Eu não deixaria isso acontecer com a minha Sarita. Queria que ela ficasse contente, sim, mas era mais que isso.

Você diz que ela não se parece com a descrição que fizeram dela.

É verdade, mas muitas coisas mudam uma mulher. Acontecem coisas no interior e também no exterior das pessoas, mas o mais importante é o que cada uma pensa sobre si mesma. Em Kiniwata, Sarita acreditava que nada valia, mas agora sabe que vale mais que qualquer das mulheres dessas ilhas.

Johnny Lingo fez uma pausa e acrescentou:

- Eu queria me casar com Sarita desde o início. Eu a amava, não a qualquer outra. Mas eu também queria ter uma mulher que valesse oito vacas e, como você pode ver, meu sonho se tornou realidade.


 

DESPESA ZERO

M. ADAMS

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 66

 

Uma noite, minha mulher estava na cozinha preparando o jantar quando nosso filho veio falar com ela e lhe entregou um papel em que andara escrevendo. A mãe enxugou a mão no avental e leu:

 

Por cortar a grama 7 reais

Por arrumar meu quarto esta semana 5 reais

Por ir ao mercado com você 1 real

Por tomar conta de meu irmãozinho enquanto você ia fazer compras 1 real

Por levar o lixo para fora 75 centavos

Por ter boas notas 5 reais

Por limpar o quintal e juntar as folhas caídas 2,5 reais

Total devido 22,25 reais

 

A mãe ficou olhando para ele, espantada, e - posso lhe garantir - dava para ver as lembranças passando por sua mente.

Então ela pegou a caneta e escreveu no verso do mesmo papel:

Pelos nove meses em que eu o carreguei na barriga, enquanto você crescia dentro de mim. Despesa zero.

Por todas as noites em que eu fiquei acordada, cuidando de suas febres e rezando por você. Despesa zero.

Por todos os momentos dolorosos e todas as lágrimas que você me fez derramar nesses anos. Despesa zero.

Por todas as noites cheias de apreensão e pelas preocupações que eu sabia que viriam. Despesa zero.

Pelos brinquedos, pela comida, pelas roupas e até por assoar o seu nariz. Despesa zero, meu filho.

Quando você somar tudo isso, verá que o verdadeiro amor não tem preço, seu custo é zero.

Bem, meus caros, quando o filho acabou de ler o que a mãe escrevera, seus olhos estavam cheios d'água e ele olhou firme para ela e disse:

- Mamãe, eu te amo muito.

Aí ele pegou a caneta e escreveu em letras bem grandes: TOTALMENTE PAGO.


 

MUDANDO DE IDÉIA

MURIEL J. BUSSMAN Enviada por Winnie Luttrell

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 68

 

Quando nossa irmã mais nova nasceu, sessenta anos atrás, meu irmão tinha seis anos e eu oito. Eu sempre fora a "irmã grande", e ele sempre fora "o bebê".

A chegada da menininha foi uma surpresa para nós dois.

Naquela época, não se falava muito sobre "rivalidade entre irmãos" e nenhum "especialista" nos ensinou como lidar com uma criança nova em casa. Mas tínhamos avós inteligentes e amorosos.

Eu estava maravilhada com a neném, gostava de segurá-Ia no colo e de ajudar minha mãe. Mas os sentimentos de meu irmão eram diferentes. Ele a olhava rapidamente e saía, preferindo ir para o quarto. Eu o chamava para brincar, mas ele não queria saber de nada.

- Por que eles tinham de arrumar esse bebê?

Um dia, vovô veio nos visitar e, com nossa irmãzinha no colo, disse a meu irmão:

- Sabe, ela se parece com o carneirinho que nasceu lá em casa e que estou alimentando na mamadeira. Tenho de ficar tomando conta dele e dar de mamar várias vezes ao dia, exatamente como sua mãe faz com o bebê.

Num sussurro, mas que meu avô pôde ouvir, meu irmão disse:

Pois eu preferia o carneirinho.

Embora vovô, para mim, parecesse velho (eu imaginava que ele tinha uns cinqüenta anos), ele podia escutar muito bem.

- Bem - disse vovô -, se você preferia ter um carneiro, quem sabe podemos fazer uma troca? Eu lhe dou um dia para pensar e, se você amanhã ainda quiser trocar, fazemos negócio.

Achei ter visto vovô piscar para mamãe, mas sabia que devia estar errada, pois meu avô nunca piscava para ninguém.

Depois que meu avô saiu, mamãe se ofereceu para ler uma história para meu irmão. Ele se aninhou na cama, e ela leu para de por um bom tempo.

Meu irmão não parava de olhar para o bebê e mamãe pediu-lhe que o segurasse um instante, enquanto apanhava uma fralda. Quando voltou, meu irmão tinha nossa irmãzinha no colo gentilmente acariciava seus cabelos negros e macios. Ficou deslumbrado quando ela agarrou o dedo que ele oferecia.

- Mamãe, veja, ela está segurando minha mão!

- CIaro, ela sabe que você é seu irmão querido - disse mamãe sorrindo.

Ele ainda ficou com o bebê no colo por alguns minutos e parecia muito mais contente quando foi dormir. Nosso avô voltou na noite seguinte, como prometera, e conversou com meu irmão.

- Então, está pronto para trocar a neném por um carneiro?

Meu irmão pareceu surpreso com o fato de vovô se lembrar do acordo.

- Ela agora vale dois carneiros.

Vovô fingiu espanto com a quebra do contrato. Ele disse que tinha de pensar sobre o assunto e que conversariam no dia seguinte.

Como o dia seguinte era sábado, meu irmão e eu ficamos em casa, segurando nossa irmãzinha, vendo-a tomar banho, ser colocada no berço. Meu irmão não a tirava do colo. Pareceu preocupado quando vovô veio visitar-nos à noite e falou sobre a troca combinada.

- Olhe, andei pensando sobre aquela história de trocar a neném pelo carneiro e acho que você está jogando duro. Mas acho que ela pode valer mesmo dois carneiros. Podemos fazer negócio.

Meu irmão hesitou um pouco antes de responder:

- Ela agora está um dia mais velha, acho que já vale cinco carneiros.

Vovô demonstrou surpresa e balançou lentamente a cabeça.

- Não sei, não. Vou ter de ir para casa e pensar sobre a oferta. Talvez tenha de conversar com o gerente do banco.

Quando vovô foi embora, meu irmão parecia preocupado.

Chamei-o para brincar, mas ele foi para o quarto de mamãe e ficou segurando nossa irmãzinha um tempão.

No domingo, vovô veio à nossa casa logo depois do almoço.

Explicou a meu irmão que viera cedo porque ainda tinha de reunir os cinco carneiros e arrumar o quarto da neném em sua casa.

Meu irmão respirou Fundo, olhou vovô direto nos olhos e anunciou:

- Ela vale cinqüenta carneiros agora!

Vovô o olhou incrédulo e balançou a cabeça.

- Acho que não dá para fazer negócio. Não tenho cinqüenta carneiros para dar por um único bebê. Você vai ter que ficar com sua irmã e ajudar seus pais a tomarem conta dela.

Meu irmão deu um sorriso que ele não sabe que eu percebi e, dessa vez, tenho certeza de que vi vovô piscar para mamãe.


 

O DIA NA PRAIA

ARTHUR GORDON Enviada por Wayne W. Hinckley

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 72

 

Não faz muito tempo que passei por um daqueles períodos de desânimo que muitos de nós enfrentam de tempos em tempos, uma queda súbita no gráfico da vida, quando tudo fica chato e desinteressante, a energia diminui e o entusiasmo acaba. O efeito que isso teve sobre o meu trabalho foi assustador. Toda manhã eu cerrava os dentes e murmurava: "Hoje a vida vai recuperar um pouco do significado que costumava ter antigamente. Você vai conseguir superar isso. Você vai conseguir." Mas os dias modorrentos se repetiam e a apatia ficava cada vez maior. Até que chegou o dia em que eu percebi que precisava de ajuda.

O homem a quem recorri era médico. Não psiquiatra, só médico. Ele era mais velho do que eu e escondia sob a aparente rispidez uma grande experiência e sabedoria.

- Não sei o que há de errado - eu disse desolada -, parece que estou num beco sem saída. Você pode me ajudar?

- Não sei - ele respondeu sem pressa.

Com os dedos formando uma tenda, ele ficou ali me olhando com um ar pensativo por um longo tempo. Então, abruptamente, perguntou:

- Em que ocasião você foi mais feliz na infância?

- Na infância? - repeti. - Bem, na praia, eu acho. Tínhamos uma casa de veraneio lá. Todos nós a adorávamos.

Ele olhou pela janela e fitou as folhas de outono que caíam numa ciranda.

- Você poderia seguir algumas instruções por apenas um dia?

- Acho que sim - disse, disposta a tentar qualquer coisa.

- Muito bem. Eis o que eu quero que você faça.

Ele me disse para ir à praia sozinha na manhã seguinte, procurando chegar lá antes das nove horas. Eu poderia comer alguma coisa, mas não deveria ler, escrever, ouvir rádio ou conversar com quem quer que fosse.

- Além disso - ele continuou -, darei a você uma prescrição que terá de seguir de três em três horas.

Ele destacou quatro folhas em branco do bloco de receitas, escreveu alguma coisa em cada uma delas, dobrou-as, numerou-as e me entregou as folhas.

- Tome isso às nove, ao meio-dia, às três e às seis da tarde.

- Está falando sério? - perguntei.

Ele soltou uma risadinha.

- Você não vai achar que estou brincando quando tiver de pagar a consulta!

Na manhã seguinte fui de carro para a praia, sem dar muito crédito à coisa toda. Estava sozinha. O nordeste soprava, o mar parecia cinzento e tempestuoso. Sentei no carro, com o dia todo pela frente, sem ter muito o que fazer. Então peguei a primeira folha dobrada. Nela estava escrito: OUÇA ATENTAMENTE.

Fiquei olhando aquelas duas palavras. "Ora essa”, pensei, "o homem deve estar maluco." Ele tinha proibido música, noticiários e qualquer conversa. O que mais havia ali para ouvir?

Levantei a cabeça e apurei os ouvidos. Não havia nenhum som além do rugido das ondas, do grito de uma gaivota, do zumbido de um avião em algum lugar no céu. Todos esses sons eu já conhecia.

Saí do carro. Uma rajada de vento fez bater à porta num golpe. É esse tipo de coisa, perguntei a mim mesma, que tenho de ouvir atentamente?

Escalei uma duna e avistei a praia deserta. Ali o mar bramia com tal fúria que encobria todos os outros sons. Mesmo assim deve haver sons por trás de outros sons - o atrito suave da areia levada pela maré, os sussurros do vento na relva das dunas - se chegarmos perto o suficiente para ouvi-los.

Impulsivamente me abaixei e, sentindo-me um tanto ridícula, enfiei a cabeça num emaranhado de algas marinhas. Fiz então uma descoberta: se ouve atentamente, existe uma &ação de segundo em que tudo faz uma pausa e fica em suspenso. Nesse instante de quietude, o pensamento parece parar. A mente sossega.

Voltei para o carro e escorreguei para trás do volante. OUÇA ATENTAMENTE. Enquanto voltava a ouvir o rugido profundo do mar, dei por mim pensando na fúria desenfreada de suas tempestades. Então percebi que eu estava pensando em coisas maiores do que eu mesma - e que isso trazia um certo alívio.

Ainda assim, a manhã passou devagar. O hábito de remoer problemas era tão forte que eu me sentia perdida sem ele.

Perto do meio-dia o vento já havia varrido as nuvens do céu e o mar tinha um brilho sólido, lustroso e aprazível. Desdobrei a segunda "receita”. E mais uma vez fiquei ali sentada, num misto de espanto e exasperação. Dessa vez eram três palavras:

TENTE VOLTAR NO TEMPO.

A que tempo? Ao passado, obviamente. Mas para quê, se todas as minhas preocupações estavam relacionadas ao presente ou ao futuro?

Saí do carro e comecei a vagar pelas dunas em reflexão. O médico me mandara ir à praia porque aquele era um lugar que me trazia boas lembranças. Talvez fossem essas lembranças que eu devesse evocar: a grande felicidade que eu deixara para trás, meio esquecida.

Decidi trabalhar nessas vagas impressões como faria um pintor, retocando as cores, avivando os contornos. Eu selecionaria algumas ocasiões e recapitularia tudo da forma mais detalhada possível. Faria uma imagem mental completa das pessoas, com suas roupas e gestos. Ouviria (atentamente) o timbre exato de cada voz, o eco deixado pelas risadas.

A maré estava baixando agora, mas eu ainda ouvia o estrondo da arrebentação. Então optei por voltar vinte anos no tempo, à época da minha última pescaria com meu irmão mais novo.

Ele morrera durante a Segunda Guerra, mas eu descobri que, se fechasse os olhos e fizesse um esforço, eu conseguiria vê-lo com espantosa nitidez, até mesmo seu estado de espírito e a animação em seus olhos.

Na verdade, eu conseguia ver tudo: a baía onde costumávamos pescar, o horizonte borrado com as cores do sol nascente, os vagalhões se desmanchando em espuma, com imponência e vagar. Eu sentia o torvelinho cálido das marolas nos joelhos, via o arquear repentino do caniço do meu irmão quando ele fisgava um peixe, ouvia seu grito exultante. Pedaço por pedaço, reconstruí a cena, intacta e cristalina sob o verniz transparente do tempo. Então ela se desvaneceu.

Levantei-me devagar. TENTE VOLTAR NO TEMPO. As pessoas felizes costumam ser seguras e confiantes. Será que, se tentássemos voltar no tempo e tocar essa felicidade, não seria possível resgatar um brilho fugaz de poder, fontes diminutas de força?

Esse segundo período do dia passou mais rápido. Enquanto o sol iniciava sua longa jornada oblíqua rumo ao horizonte, meus pensamentos vagavam pelo passado, revivendo alguns episódios, descobrindo outros que tinham sido completamente esquecidos.

Repassei mentalmente todos aqueles anos, recordei acontecimentos e percebi, pelo entusiasmo repentino em meu peito, que nenhuma gentileza é jamais desperdiçada ou esquecida.

Lá pelas três horas a maré já baixara e o som das ondas era apenas um sussurro ritmado, como a respiração de um gigante.

Demorei-me no meu ninho de areia, sentindo-me relaxada e satisfeita - e um pouquinho envaidecida também. As prescrições do médico eram fáceis de seguir.

Mas eu não estava preparada para o que veio depois. Desta vez as palavras não eram uma amável sugestão. Elas pareciam mais uma ordem. REAVALIE A SUA MOTIVAÇÃO.

Minha primeira reação foi puramente defensiva. Não há nada de errado com a minha motivação. Quero ter sucesso na vida - e quem não quer? Quero conseguir um certo reconhecimento, mas isso todo mundo quer. Quero ter mais segurança.

E por que não?

Talvez, disse uma vozinha em algum lugar dentro da minha cabeça, isso não baste. Talvez seja por isso que a engrenagem tenha começado a parar.

Peguei um punhado de areia e deixei que escorresse por entre meus dedos. No passado, sempre que meu trabalho ia bem, era porque havia uma certa espontaneidade, um certo improviso, uma certa liberdade. Mais tarde acabei ficando calculista, competente e desanimada. Por quê? Porque eu tinha perdido de vista o trabalho em si e visado apenas as recompensas que ele supostamente me traria. O trabalho deixara de ser um fim em si mesmo e passara a ser um meio de ganhar dinheiro, de pagar as contas. O sentimento de dar algo de si mesmo, de ajudar as pessoas, de fazer uma contribuição, acabara esquecido em meio à busca frenética por segurança.

Num lampejo de lucidez, vi que, com a motivação errada, nada pode dar certo. Não importa se você é cabeleireira, vendedora de seguros, dona-de-casa ou mãe de cinco filhos - ou outra coisa qualquer. Quando sente que está fazendo algo pelos outros, você trabalha bem. Quando só está preocupada consigo mesma, seu desempenho nunca é tão bom. Essa é uma lei tão inexorável quanto a gravidade.

Fiquei sentada ali por muito tempo. Ao longe, no baixio, eu ouvia o murmúrio das ondas se transformando num rugido abafado, à medida que a maré subia. Às minhas costas, os raios de sol eram quase horizontais. Meu tempo na praia se esgotara e eu sentia uma relutante admiração pelo médico e pelas "prescrições" que, de modo tão improvisado e habilidoso, ele me aconselhara seguir. Constatei, então, que havia nelas uma progressão terapêutica que poderia ajudar qualquer um que passasse por dificuldades.

OUÇA ATENTAMENTE: acalmar uma mente em turbilhão, imprimir-lhe um ritmo mais lento, mudar o foco de atenção dos problemas para fatos externos.

TENTE VOLTAR NO TEMPO. Como a mente humana só consegue se concentrar numa ideia de cada vez, você esquece o presente quando evoca a felicidade do passado.

REAVALIE A SUA MOTIVAÇÃO: essa era a parte central do tratamento. Desafiava a pessoa a reconsiderar, a fazer com que sua motivação entrasse em sintonia com suas capacidades e com sua consciência. Mas a mente tem de estar lúcida e tranquila para fazer isso - por isso as seis horas precedentes de silêncio.

O poente era uma chama carmesim quando abri a última folha de papel. Cinco palavras desta vez. Caminhei vagarosamente pela praia. Uns poucos metros abaixo da marca da maré alta, eu parei e li novamente: ESCREVA SEUS PROBLEMAS NA AREIA.

Deixei que o vento levasse o papel, abaixei-me e peguei um fragmento de concha. Ajoelhada ali, sob a abóbada celeste, escrevi várias palavras na areia, uma sobre a outra. Então me afastei sem olhar para trás. Eu inscrevera minhas preocupações na areia. E a maré estava subindo. Em breve, meus problemas seriam apagados pelas ondas do mar. E só restariam a paz e o silêncio.

 

 

Guarde suas preocupações num bolso furado.

CARTÃO-POSTAL ANTIGO


 

O AMOR SÃO AS AVÓS

ERMA BOMBECK Apresentada por Tonette Holle

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 80

 

Uma criança pequena, que mora na minha rua, estava curiosa sobre avós e isso me fez pensar que, para uma criança, elas são uma espécie de aparição inexplicada, sem descrição de tarefas e com poucas credenciais. Parecem apenas fazer parte do cenário.

Esta história, então, é para os pequenos que querem saber o que são as avós.

Você sempre pode contar com uma avó para comprar todos os seus doces, sementes de flores, os cartões mais bonitos da papelaria, fita adesiva de bichinhos, estojo novo, amendoim torradinho e dez tíquetes para andar de pônei. (Também uma caixa de bala puxa-puxa, se sua avó ainda tem dentes fortes.) Avós ajudam você a lavar a louça, quando é a sua vez.

Assistem por três horas a uma comédia grega se o neto está atuando e ficam imaginando como é que Aristófanes teve tempo de escrever peças se ele era casado com Jackie Onassis.

São as únicas babás que não cobram extra depois da meia-noite - ou melhor, que nunca cobram nada nem antes, nem depois da meia-noite.

Avós compram os presentes que sua mãe diz que você não precisa.

Chegam três horas mais cedo para o seu batismo, a sua formatura e seu casamento porque querem se sentar num lugar de onde possam ver tudo.

Fingem que não o reconhecem sob a fantasia da festa de Halloween.

Avós o adoram quando você é um bebê careca, mesmo quando se torna um pai careca e também o adoram com todo o cabelo entre essas duas fases.

Uma avó vai colocar um suéter em você quando ela estiver com frio, alimentá-Io quando ela está com fome e colocá-Io na cama quando ela estiver cansada.

Vai morrer de orgulho ao vê-la nas apresentações de balé, não importa que você esteja lá no fundo do palco, atrás de outras trinta garotas.

Avós vão emoldurar o desenho que você fez da própria mão e colocá-Io num lugar de destaque na sua sala de visitas estilo mediterrâneo.

As avós são aquelas que põem um dinheiro escondido na sua mão um pouco antes do Dia das Mães.

Que ajudam você com seus botões, zíperes e laços de sapato e que não têm nenhuma pressa em ver você crescer.

Quando ainda é um bebê, as avós vão ver se você está chorando exatamente quando está no maior sono.

Quando um neto diz: "Vovó, como é que pode você não ter nenhum filho?", ela segura a vontade de chorar.


 

A BEIRA DO PENHASCO

KATHLEEN LOUISE SMILEY

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 83

 

Na noite anterior à minha partida para Israel, meu pai e eu tivemos o mesmo tipo de conversa que durara toda a semana.

- Mas por que Israel? - ele perguntara no mesmo tom usado para "Por que China?" ou "Por que Rússia?" ou qualquer outro país que eu anunciava que ia visitar.

- Está acontecendo uma guerra lá, você sabe – ele acrescentara.

- Eu sei, papai. Há guerras em todo lugar.

Por que eu insistia em ir a lugares tão perigosos?, ele perguntou antes de dizer as palavras de sempre:

- Bem, você nunca me deu ouvidos antes. Por que eu vou achar que vai me ouvir agora? - Como era de seu feitio, fechou os olhos, soltou um suspiro e balançou a cabeça.

No meio dessas "discussões", minha irmã sempre procurava desanuviar o ambiente. Embora ela já soubesse que não adiantava nada, bem que tentava.

- Kath - sugeriu -, por que você não faz um curso de férias na Inglaterra? Lá não é perigoso.

Como sempre, ela não conseguia entender.

Ninguém na família jamais me compreendeu realmente.

Nunca consegui viver de acordo com as ideias que eles tinham quanto à forma de eu levar a vida. A Inglaterra não era divertida na medida certa. Eu queria ir a outro lugar e experimentar alguma coisa diferente. Minha alma sempre fora inquieta e queria se aventurar em lugares desconhecidos. Mamãe dizia que eu tinha sangue cigano.

Minha irmã e eu temos três anos e meio de diferença, mas todo um mundo nos separa no que se refere ao modo como vivemos. Ela é conservadora e calma. Eu me arrisco muito, e a única hora em que estou calma é quando estou dormindo. Passei a maior parte da minha vida adulta me desculpando com ela e com o resto da família por ser diferente, por causar-lhes embaraço por alguma roupa que vestia, algo que fazia ou falava.

Sou aquela que usa um chapéu enfeitado de frutas ou uma roupa toda colorida quando todo mundo está de preto básico.

A que conta uma piada inadequada no meio do jantar. A que chora assistindo a um lacrimejante filme antigo. Como ficam embaraçados! Alguém uma vez me disse que não invejava minha tarefa de despertar emoções em toda a família.

Como minha irmã é totalmente diferente de mim - ou como eu sou tão diferente dela -, não somos muito chegadas.

Quanto mais velhas e mais ocupadas, menos nos vemos, embora moremos perto uma da outra. Quando estamos juntas, sinto que ela fica segurando a respiração, esperando que eu faça ou diga alguma coisa "errada”, enquanto eu caminho em ovos e rezo para que isso não aconteça. Mas sempre acontece.

Já que minha irmã parecia a menos aborrecida com meus planos de verão, humildemente perguntei se ela poderia me levar ao aeroporto.

- Tudo bem, mas não conte a papai! - sorri e concordei.

Não é que nosso pai seja algum tirano. Sabemos que ele nos ama bastante. Isso fica claro por todos os sacrifícios que fez por nós. Eu não teria cursado Direito se não fosse por ele. Na verdade, ele só fica preocupado e custa-lhe muito separar sua preocupação do seu amor.

Na ida para o aeroporto, no dia seguinte, minha irmã estava calada como sempre. Mas, pela primeira vez desde que eu decidira viajar, começou a fazer perguntas: por onde planejara passar, onde ia ficar. Parecia sinceramente interessada.

Minha família não é de despedidas emocionadas. Então, com um "divirta-se" e um rápido "amo você também", minha irmã foi embora. Fiquei triste porque senti que ela não conseguia me entender. Queria que, naquele momento, ela fosse comigo, mas sabia que não faria isso.

Despachei a bagagem, sentei e comecei a me organizar. Abri a bolsa que minha irmã arrumara antes de sairmos. Ali, com o passaporte, os cheques de viagem e outros papéis importantes, estava um pequeno envelope branco escrito com a caligrafia de minha irmã. Abri o envelope e achei um cartão de boa viagem. Era um cartão engraçado, com um desenho na frente. Minha família sempre gostou de dar cartões divertidos e este não era diferente - ou eu pensava que não era.

Quando abri o cartão, entendi que minha irmã, que eu já decidira que não conseguia me compreender, realmente entendera tudo. Parecia que existia uma pequena parte dela que queria ser eu, talvez uma pequena parte dela que sempre quis que ela fosse eu. No cartão, apenas as palavras que minha irmã escrevera:

 

Eu realmente admiro você por levar sua vida de maneira tão plena.

Sua irmã, Kristy.

E do outro lado estava escrito:

ApoIo estava no alto do penhasco: "Venham para a beira”, ele disse.

"Não podemos", eles disseram, "é muito alto." "Venham para a beira." "Não podemos", responderam, "é muito alto." "Venham para abeira", ApoIo insistiu.

"Não podemos, vamos cair." "Venham para a beira”, ele disse.

Eles vieram e ele os empurrou.

E eles voaram.

Minha irmã, por um breve instante, me mostrou um lado muito precioso dela mesma, escondido até aquele dia.

Ou talvez eu nunca tivesse prestado bastante atenção. Com as lágrimas escorrendo, virei-me e olhei pelo vidro. No terminal, minha irmã sorria e acenava para mim. Pude ver seus lábios dizendo "Eu te amo". Sorri de volta, porque, pela primeira vez, eu sabia que ela me amava de verdade.


 

MAIS BONITAS DO QUE SARDAS

SUE MONK KIDD

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 88

 

Aconteceu num dia em que estava com minha filha no zoológico. Vi uma avó com uma garotinha cujo rosto era todo salpicado de sardas vermelhas e brilhantes. As crianças estavam esperando numa fila para que um artista pintasse suas faces com patinhas de tigre.

- Você tem tantas sardas que ele não vai ter onde pintar um menino gritou na fila. Sem graça, a menininha abaixou a cabeça.

A avó ajoelhou-se perto dela e disse:

- Adoro suas sardas.

- Mas eu detesto - ela replicou.

- Quando eu era menina, sempre quis ter sardas - disse a senhora, passando o dedo pela face da neta. - Sardas são tão bonitas!

A menina levantou o rosto:

- São mesmo?

- Claro - disse a avó. - Quer ver? Me diga uma coisa mais bonita que sardas.

A garotinha, olhando para o rosto sorridente da senhora, respondeu suavemente:

- Rugas.

Aquele momento me ensinou para sempre que, se olharmos para os outros com os olhos do amor, não veremos o que possam ter de feio. Apenas o que têm de bonito.

 

 

As rugas deviam indicar apenas onde os sorrisos estiveram.

MARK TWAIN


 

ROMANCE AOS 75 ANOS

LILLIAN DARR

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 90

 

Ali estava ele, alto e bonito nos seus setenta e um anos. Ali estava eu, com quase setenta, quando sua figura atingiu em cheio meu coração.

Esperávamos na antessala do mesmo médico. Folheávamos revistas, sentados perto um do outro. Mas tenho certeza de que eu não conseguia prestar a mínima atenção no que estava lendo...

Uma hora depois, surpreendi-me ao vê-la no balcão da farmácia enquanto eu falava com o atendente.

- Temos de parar de nos encontrar assim - eu disse. Ele respondeu gentilmente, mas percebi que nem havia me notado no consultório.

Seu nome era Bill. Este estranho que tanto me atraíra era o pai da professora de minha neta no jardim-de-infância. Seu próprio neto era da mesma turma e, curiosamente, as crianças se adoravam.

Cada um de nós se mudara para Iowa para ficar perto dos filhos c netos. Tínhamos deixado histórias de romances infelizes trás e, de certa forma, estávamos recomeçando.

Quanto mais eu conhecia esse homem, mais ficava impressionada. Ele se preocupara em construir sua casa respeitando o meio ambiente. Era um artista e professor de história da arte.

Pacifista, tinha recusado se alistar na época da guerra. Cada vez mais eu me dava conta de como nossos valores coincidiam.

Um dia, Bill me telefonou para se desculpar por não ter me acompanhado até a porta na véspera. Eu lhe garanti que, sendo uma mulher liberada, não precisava daqueles mimos.

O que quero dizer é que, se a tivesse acompanhado, eu poderia ter-lhe dado um beijo de boa-noite - ele respondeu.

Dizem que tudo tem hora certa para acontecer. E tem mesmo. Eu dividia temporariamente um quarto apertado na casa de meu filho, planejando me mudar para um quarto alugado.

Bill e eu estávamos, digamos, namorando há apenas alguns dias quando ele disse:

- Seria divertido planejar nosso jardim juntos.

Isso significava que nossas vidas estavam se entrelaçando e nada poderia me deixar mais feliz. Logo, de forma doce e sensível, Bill sugeriu que nos casássemos para proteger-me de falatórios em nossa pequena comunidade. Eu disse que não me importava com as aparências. Depois de algumas semanas, surpreendi-me, um dia, sentada em seu colo. Ele me olhou e disse calmamente:

- Seria divertido planejarmos juntos o nosso casamento. Eu não sabia que meu coração era capaz de bater daquela maneira. Como eu poderia dizer não?

Organizamos um casamento elegante e refinado, numa lua cheia de junho. Tantas pessoas demonstraram vontade de comparecer à cerimônia que pusemos um anúncio no jornal local, em que nossos quatro netos convidavam para o casamento dos avós.

No altar, eu disse as palavras que me vinham do coração:

- Tudo em minha vida me preparou para este momento mágico.

Tenho a certeza de que nada foi em vão. Bill e eu nos unimos num período da vida em que cada um já tinha passado por muitas vivências, momentos de dor e também de alegria. Finalmente chegamos a um estágio de paz interior, autossuficiência e amor-próprio.

Quando penso na nossa história, lembro-me da seguinte passagem:

Devo conquistar minha solidão por mim mesmo.

Devo estar bem comigo mesmo ou nada terei para oferecer.

Duas metades não têm escolha a não ser se unirem e, sim, com certeza, elas formarão um inteiro.

Mas dois inteiros quando combinam...

É a beleza. É o amor.

 

 

 

As melhores e mais belas coisas da vida não podem ser vistas nem tocadas.

Precisam ser sentidas com o coração.

HELEN KELLER


 

QUE LINDO DIA, NÃO É?

ADAPTADO POR BARBARA JOHNSON

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 93

 

O dia já começou errado. Ela perdeu a hora, estava atrasada para o trabalho. Tudo que aconteceu no escritório contribuiu para deixá-la ainda mais nervosa. Quando chegou ao ponto de ônibus de volta para casa, o estômago era um grande nó.

Como sempre, o ônibus estava atrasado - e cheio. Teve de ficar em pé no corredor. O veículo chacoalhava e ela mal conseguia se equilibrar, ficando ainda mais desanimada.

Até que ela ouviu uma voz que vinha da parte da frente do ônibus. Por causa do monte de gente, não podia ver o homem, mas podia ouví-Io comentar o cenário de primavera, chamando atenção para cada ponto de referência que se aproximava. Esta igreja. Aquele parque. O cemitério. O corpo de bombeiros. Logo todos os passageiros estavam olhando pelas janelas. O entusiasmo do homem era tão contagiante que ela sorriu pela primeira vez naquele dia.

O ônibus chegou ao ponto em que ela deveria saltar.

Tentando chegar à porta, deu uma olhada no guia: um senhor mais velho, de barba, usando óculos escuros e carregando uma bengala fina e branca.

 

 

Pior que não ver é não ter visão.

HELEN KELLER


 

NOSSO MENINO DO NATAL

SHIRLEY BARKSDALE

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 95

 

Sendo filha única, o Natal era calmo demais na minha casa.

Imaginei um dia me casar, ter seis filhos e um Natal cheio de energia e amor.

Encontrei o homem que tinha o mesmo sonho, mas não considerávamos a possibilidade da infertilidade. Sem hesitar, entramos numa fila de adoção e, dentro de um ano, ele chegou.

Nós o chamamos nosso Menino do Natal porque o recebemos durante o período de festas, apenas com seis dias de vida. Então a natureza nos surpreendeu mais uma vez. Numa rápida sucessão, acrescentamos dois filhos biológicos à família. Não eram exatamente tantos como esperávamos, mas, comparando com a minha infância, três crianças já formavam uma multidão inteiramente satisfatória.

À medida que crescia, nosso Menino do Natal foi deixando claro que escolher e decorar a árvore de Natal era sua tarefa. Ele se antecipava e fazia sua lista de presentes antes de terminarmos de comer o peru da festa de Ação de Graças. Ele nos fazia entoar cânticos, nossas vozes terríveis contrastando com o seu diapasão perfeito. A cada Natal ele nos enlouquecia, levando-nos a um caos de pura felicidade.

Nossos amigos têm razão ao dizer que crianças adotadas não são iguais às outras. Através de sua hereditariedade, nosso menino alegrou nossas vidas com sua disposição incontida, sua evidente sagacidade. Ele fazia com que nos comportássemos melhor do que éramos.

Mas, no seu vigésimo sexto Natal, ele partiu tão inesperadamente quanto chegou. Morreu num acidente de carro numa rua de Dênver cheia de gelo, quando voltava para casa, onde o esperavam a mulher e a filha pequena. Mas antes estivera em nossa casa para decorar a árvore, ritual que nunca abandonara.

Abalados pelo luto, meu marido e eu vendemos a casa cheia de lembranças. Mudamos para a Califórnia, deixando para trás nossos amigos e nossa congregação.

Nos dezessete anos seguintes, sua mulher se casou novamente e sua filha terminou o colégio. Meu marido e eu envelhecemos e nos aposentamos e, em dezembro de 1986, decidimos voltar a Denver.

Chegamos à cidade junto com uma tempestade de neve, as luzes da cidade iluminando a escuridão. Olhei para as montanhas onde nosso filho costumava ir na época do Natal para buscar a árvore perfeita. Estava enterrado ali, mas eu não conseguia visitar seu túmulo.

Fomos para uma casa pequena, muito diferente daquela onde tínhamos vivido. Era silenciosa, como a da minha infância. Nosso outro filho se casara, morava em outro estado e tinha agora suas próprias tradições natalinas. Nossa filha, uma artista, parecia preenchida pela carreira.

Um dia, olhava para as montanhas cobertas de neve quando ouvi um carro chegando e a insistente campainha da porta.

Lá estava nossa neta e, nos seus olhos verdes e no sorriso atrevido, vi o reflexo do nosso Menino do Natal.

Atrás dela, puxando um enorme pinheiro, a mãe, o padrasto e o meio-irmão de dez anos. Passaram por nós com uma lufada de risos, abriram uma garrafa de vinho e brindaram à nossa volta. Decoraram a árvore e empilharam lindos embrulhos de presentes sob os galhos.

- Você reconhece os enfeites? - perguntou minha ex-nora.

Eram dele; guardei-os para você.

Quando murmurei, numa dolorosa lembrança, que há dezessete anos não tínhamos uma árvore, nossa atrevida neta disse:

Então está na hora de mudar isso.

Saíram num turbilhão, empurrando um ao outro pela porta, mas pedindo-nos que fôssemos com eles à igreja na manhã seguinte e nos convidando para a ceia de Natal.

- Não, não podemos - comecei a falar.

- Claro que podem - ordenou nossa neta, mandona como o pai. - Vou cantar um solo e quero que estejam lá.

Há muito tempo havíamos desistido de assistir às emocionantes cerimônias de Natal, mas agora, sob pressão, estávamos firmes no banco da frente, segurando as lágrimas.

Chegou a hora do solo. A linda voz de soprano de nossa neta elevou-se, fervorosa e verdadeira, em perfeito diapasão. Ela cantou Noite Feliz, que trouxe amargas lembranças. Numa resposta emocional e rara, a congregação aplaudiu com prazer.

Como seu pai gostaria de viver este momento!

Fomos avisados de que haveria "um monte de gente" na ceia - mas não esperávamos trinta e cinco! Os parentes enchiam a casa.

Crianças pequenas, barulhentas e agitadas, pareciam saltar das paredes. Eu não identificava quem era filho de quem, mas isso não tinha importância. Eles nos deixaram à vontade e nos incluíram no sentimento de alegre companheirismo. Entoávamos cânticos em voz alta e fora do tom, salvos apenas pela aturdida soprano.

Um pouco depois do jantar ocorreu-me que uma família de verdade nem sempre é formada apenas pelo mesmo sangue e carne. O que importa é o que vem do coração. Se não fosse por nosso filho adotado, não estaríamos agora rodeados por estranhos que se importavam conosco.

Mais tarde, nossa neta pediu que saíssemos com ela.

- Eu dirijo - ela disse. - Há um lugar aonde gosto de ir. Ela pulou ao volante do carro e, com a confiança de quem acabara de tirar a carteira, foi em direção às montanhas. Ao lado da lápide havia uma pedra em formato de coração, meio quebrada, pintada por nossa filha artista. Na superfície desgastada ela escrevera: ''Ao meu irmão, com amor." Em cima do túmulo, uma guirlanda de Natal. Nosso outro filho, soubemos, envia uma todos os anos.

Em meio a um silêncio reconfortante, apesar do frio, não esperávamos a atitude imprevista de nossa neta. Mais uma vez naquele dia ela soltou a voz, bela como a de seu pai, e, ali nas montanhas, cantou Joy to the World, que o eco repetiu diversas vezes.

Quando a última nota se ouviu, eu senti, pela primeira vez desde a morte de nosso filho, um sentimento de paz, da continuidade positiva da vida, de renovada fé e esperança. O real significado do Natal nos havia sido devolvido. Aleluia!


 

SEMPRE AO MEU LADO

SUZANNE THOMAS LAWLOR

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 100

 

Mamãe e eu saímos da mesma fôrma. O mesmo cabelo liso e escuro, os mesmos olhos míopes e o mesmo tipo de corpo.

Minha mãe era o meu porto seguro. Apesar de todo o preparo e estudo, eu era tímida e insegura. Ela estava sempre a meu lado, me apoiando, me dando força. Era professora de estudos sociais na escola onde eu cursava o segundo grau e todos os meus amigos a conheciam e gostavam dela.

Eu tinha dezesseis anos quando um simples resfriado se transformou numa pneumonia que levou minha mãe em uma semana.

De repente, meu mundo desmoronou. As portas pareciam se fechar e eu me via no meio de um túnel escuro. Pensava em todas as perguntas que gostaria de ter feito à minha mãe - desde coisas maiores sobre sua vida e o que ia no seu coração até questões mais simples, como a receita dos doces do Natal ou a medida de açúcar de sua famosa torta de limão e merengue.

Minha mãe nunca mais estaria a meu lado. Eu me sentia profundamente triste, sozinha e desamparada.

A partir daí, eu, antes aberta e idealista, me transformei em uma garota amarga e sarcástica, como se meu coração tivesse uma couraça de tristeza e culpa. Eu me torturava pensando no que poderia ter feito ou dito para manifestar meu amor nas vezes em que a percebi triste e não dei atenção, em alguma palavra áspera que lhe dissera. Era tarde demais.

Quando estava no segundo ano da faculdade, aprendi a fazer meditação e, aos poucos, comecei a sair da armadura que usava para me proteger. Sentada, olhos fechados, eu sentia aflorarem as lágrimas purificadoras que me restauravam.

Uma manhã, durante a meditação, as lembranças tristes e geradoras de culpa voltaram a me assaltar. Lembrei-me então de uma história que minha mãe me contara sobre meu avô, acometido por um câncer de garganta quando ela só tinha oito anos. Pouco antes de morrer, ele lhe dissera:

- Evelyn, lembre-se disso: se alguma coisa me acontecer e você realmente precisar de mim, me chame. Estarei por perto para ajudar.

Minha mãe me contou que, na época da faculdade, ela se apaixonara por um rapaz que lhe partiu o coração. Ela se sentiu tão triste que, dentro dela, chamou pelo pai.

- De repente eu senti que ele estava ali, no meu quarto.

Senti todo o seu amor e soube que tudo ficaria bem.

Achei que valia a pena tentar. Então, chamei minha mãe em pensamento. "Me desculpe", repeti várias vezes, soluçando.

Alguma coisa mudou naquele momento. Foi como se colocassem sobre meus ombros um manto de paz. No meu coração, ouvi minha mãe dizer: "Agora eu posso compreender tudo. Não há do que se desculpar. Acredite no meu amor." Eu me livrei do peso que carregara por tantos anos. Senti, naquele momento, uma espécie de liberdade inebriante.

Alguns anos depois, na véspera de meu casamento com Tony, meu marido querido, senti falta de minha mãe como jamais sentira. Gostaria que ela dividisse comigo aquele momento. Precisava de sua sabedoria e queria sua bênção. Mais uma vez chamei por ela.

Logo depois da cerimônia, uma amiga da família de meu noivo me chamou à parte:

- O nome Forshay diz alguma coisa para você? - perguntou.

- Claro - respondi. - É o nome de solteira de minha mãe.

Por quê?

Ela falou pausadamente:

- Durante a cerimônia, aconteceu uma coisa extraordinária.

Eu pude ver você e Tony envolvidos por um espírito de muita luz que transmitia um grande amor a vocês. Foi tão bonito que não pude me conter e comecei a chorar. Ouvi então um nome sussurrado no meu ouvido: Forshay.

Eu não conseguia dar uma só palavra. Ela continuou:

- E o espírito trouxe uma mensagem para você. Quer que você saiba que sempre será amada, que nunca deve duvidar disso. E que esse amor chegará a você através dos seus amigos.

Nesse momento eu entendi profundamente que o amor sobrevive à morte. A partir desse dia, às vezes percebo alguma coisa nos olhos de um amigo ou de alguém de quem gosto - ou mesmo nos meus próprios olhos, no espelho, e sei que minha mãe está ao meu lado me amando com carinho.


 

HISTÓRIA E QUÍMICA

E. LYNNE WRIGHT

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 104

 

No outro dia estava no cabeleireiro e ouvi algumas mulheres se queixando porque não havia mais em seus casamentos o romance, as centelhas e a animação dos primeiros anos. Não havia mais arrebatamento, elas diziam, nem emoção.

- A vida é assim - uma delas falou. - É inevitável. O tempo passa. As coisas mudam.

- Queria ter aquela química de volta - uma outra disse, suspirando. - Tenho inveja dos jovens apaixonados. Violinos e fogos de artifício.

Lembrei os primeiros tempos do meu próprio e especial romance, quando eu mais flutuava do que andava. Nunca tinha fome e muitas vezes me esquecia de comer. Meu cabelo brilhava, minha pela era lisinha e eu era educada, simpática e estava sempre bem-humorada. Quando meu amor e eu estávamos longe um do outro, eu passava cada minuto pensando nele. Ficava infeliz até nos vermos novamente, às vezes um espaço de duas ou três horas. A vida era composta de maraviIhosos sobressaltos, um atrás do outro: quando será que o telefone iria tocar, será que ele apareceria de surpresa na minha casa ou quando as nossas mãos iriam esbarrar por acaso.

Agora, este é o mesmo homem que, hoje, só se lembra do nosso aniversário de casamento de cinco em cinco anos, que dificilmente fecha a porta ou a gaveta do armário da cozinha que acabou de abrir, que resiste a comprar roupas novas até que eu, às escondidas, me livre de algumas coisas do armário para preservar a dignidade da família.

Eu não diria que ele é previsível, mas ele pergunta "O que você fez para o almoço?" seis dias na semana, depois de termos concordado, desde sua aposentadoria, que cada um cuidaria da própria comida na hora do almoço. Há pouco tempo ele me perguntou "O que você quer de presente de aniversário?" tantas vezes que, finalmente, pressionada, eu disse o que queria. Ele me deu outra coisa.

Ele só gosta de filmes ou programas de tevê se neles há perseguições de carros, explosões ou tiroteios a cada sete minutos e, naturalmente, sempre num volume de estourar os tímpanos. Ele considera que é seu direito, por ter nascido homem, comandar o controle remoto da televisão. É incapaz de falar em voz baixa ou fechar a porta da frente sem fazer estremecer a casa.

Mas... este é também o homem que, quando eu decido fazer dieta, diz: "Por quê? Para mim, você está bem." Que se levanta numa noite fria para apanhar mais um cobertor porque sabe que estou com frio. Que me deu um colar maravilhoso pelo meu mencionado aniversário depois de eu ter pedido um agasalho para velejar, me dizendo que eu mesma devia comprar aquele outro negócio.

Ele tem mais dignidade no dedo mindinho do que qualquer outra pessoa que eu conheço tem no corpo inteiro. Há pouco tempo, contou com orgulho aos meus parentes que eu me ocupei das despesas quando ele estava no início de carreira e o dinheiro era curto - isso trinta e quatro anos depois do acontecido. É um homem que, apesar de sua frugalidade causada pelas épocas de vacas magras, empresta grandes quantias a nossos filhos adultos sem hesitar, sem prazo e sem cobrar juros. Pode-se sempre contar com ele numa crise - calmo, racional, forte, justo e amoroso.

Durante todos esses anos, ele esteve ao meu lado, me abraçando e apoiando: quando minha mãe morreu, durante os partos dos nossos filhos e quando eu fiquei doente de cama. Meu marido tomou conta do meu coração desde a primeira vez que o vi.

Outro dia fiquei me lembrando das mulheres no cabeleireiro enquanto esperava no carro por ele, que tinha ido do outro lado da rua dar um recado. O que vi na calçada foi um homem magro, bem-apessoado e forte. Sua cabeça estava abaixada e ele caminhava, com as mãos no bolso, assobiando.

Muito atraente. Ele levantou a cabeça e sorriu. Zing!

O pai de meus filhos. O outro nome no meu talão de cheques. O homem por quem me apaixonei.

História e química. Não há nada melhor.


 

O DIA EM QUE EU CHOREI

MEG HILL

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 107

 

Eu não chorei quando o médico disse para mim e para o meu marido que Kristi, nossa filha de dois anos, tinha - como suspeitávamos - uma deficiência mental.

-Vamos, chore - aconselhou gentilmente o médico. - Chorar ajuda a prevenir dificuldades emocionais sérias.

Apesar da imensa dor que eu sentia, não consegui chorar naquele momento, nem durante os muitos meses que se seguiam.

Quando Kristi já tinha idade para ir à escola, nós a matriculamos no jardim-de-infância do colégio do nosso bairro. Ela estava com sete anos.

Eu achei que fosse chorar no dia em que a deixei naquela sala cheia de crianças de cinco anos. Fiquei na escola, vendo Kristi passar horas e horas brincando sozinha, uma criança "diferente" no meio de outras vinte. Senti um aperto enorme no coração, mas nenhuma lágrima saiu de meus olhos.

Com o passar do tempo, coisas positivas começaram a acontecer com Kristi e seus colegas de classe. Quando se vangloriavam de suas proezas, os colegas de Kristi sempre tinham o cuidado de elogiá-la: "Kristi escreveu todas as palavras certas hoje." Ninguém acrescentava que os exercícios dela eram mais fáceis do que os dos outros. Os avanços de Kristi eram registrados com alegria pela turma.

Foi no segundo ano de Kristi na escola que ela enfrentou sua experiência mais desafiante. O grande evento do final do ano era uma competição, o ponto culminante das atividades de educação física. Kristi estava muito atrás da turma em coordenação motora. Meu marido e eu temíamos aquele dia.

No dia do evento, Kristi fingiu que estava doente. Eu fiquei extremamente dividida, tentada por um lado a deixá-Ia em casa, mas também consciente de que seria importante para ela vencer o medo. Com um nó na garganta, levei uma Kristi pálida e relutante até o ônibus da escola e me preparei para assistir à competição.

Sentada no meio dos outros pais, sentia meu coração bater forte. Quando chegou a vez de Kristi, eu entendi o que a preocupava. Sua classe estava dividida em times de revezamento.

Com suas reações desengonçadas, hesitantes e lentas, ela com certeza iria prejudicar o seu time.

No entanto, a apresentação foi correndo bem, até a hora da corrida de sacos. Cada criança tinha que entrar em um saco na linha de partida, pular até a linha de chegada, fazer o caminho de volta sem sair do saco.

Observei minha filhinha de pé, perto do fim da sua fila de companheiros, com uma aparência assustada.

Mas, quando se aproximou o momento de Kristi participar da corrida, ocorreu uma troca de lugares em seu time. O menino mais alto da fila foi para trás de Kristi e segurou-a pela cintura. Dois outros meninos ficaram um pouco à frente dela.

Quando chegou a vez de Kristi, aqueles dois meninos pegaram o saco vazio e o abriram. O menino mais alto suspendeu Kristi e a colocou suavemente dentro do saco. Uma menina à frente de nossa filha pegou-a pela mão e a sustentou brevemente, enquanto Kristi recuperava o equilíbrio. E então lá foi ela, pulando, sorridente e orgulhosa.

Em meio às aclamações dos professores, colegas e pais de alunos, eu me afastei lentamente, agradecendo a Deus por aquelas pessoas calorosas e compreensivas que tinham tornado possível para a minha filha deficiente agir como seus semelhantes.

E então, finalmente, eu chorei.


 

PERSEVERANÇA

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 110

 

 

Quando o mundo inteiro escurece

E nada se pode enxergar,

Quando pairam tantas sombras,

Senhor, que eu possa perseverar.

Quando tudo já foi tentado,

Todo caminho explorado,

Faça-me apenas lembrar

Que às vezes o percurso é lento

E é preciso ir mais devagar.

Que no caminho a percorrer

Talvez seja este o momento

De parar e repousar,

De tentar compreender

E com meu Deus conversar.

Ganho forças, prossigo, quero,

Sem duvidar nem temer,

Sei sem ter como saber,

Que tudo vai se acertar.

E, por isso, eu persevero.

 

ANNE STORTZ


 

A LISTA

AGNES MOENCH

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 112

 

Muitas vezes minha amiga June dizia: "Se eu ficar rica, vou me mudar para um apartamento maior e comprar um guarda-roupa inteiramente novo." Eu ouvia e pensava: "Vai sonhando, minha amiga. Suas chances de ficar rica são tantas quanto as minhas." Mas, para surpresa de todos, há alguns anos, June recebeu uma herança considerável.

A princípio, June não falou nada sobre o dinheiro. Mas, depois do choque inicial, só pensava nisso. Como ela acredita piamente em fazer listas para tudo, não fiquei surpresa ao encontrá-Ia um dia anotando as maneiras de gastar sua riqueza recém-conquistada.

À medida que o tempo passava, ela mudava a lista. O que antes ficava na parte de baixo agora estava na de cima. Ouvi falar das mudanças por algum tempo e acabei lhe dizendo:

- June, não precisa gastar toda a sua herança de uma vez só.

Pense um pouco, reze, peça orientação a Deus.

- Você tem razão - ela respondeu, meio irritada.

Depois disso, fiquei de lado, só observando a lista mudar a cada dia. Até que uma manhã June me telefonou.

- Decidi como quero usar minha herança - ela disse. - Você pode passar por aqui? Quero ouvir sua opinião.

Eu não estava exatamente ansiosa para ouvir, mas éramos amigas há muito tempo e decidi ir até lá. Estava determinada a ficar de boca fechada, o que quer que estivesse na lista.

June me serviu um café e colocou uma folha de papel sobre a mesa. Para minha mais completa surpresa, só havia t rês palavras escritas, em grandes letras de fôrma: IGREJA, CARIDADE, NETOS - nesta ordem. Embora eu tivesse resolvido ficar calada, não podia deixar de perguntar como chegara a tal decisão.

- Bem - ela disse -, segui seu conselho e rezei, não uma, mas muitas vezes. A Igreja significa muito para mim. Deste modo, espero que a minha doação possa ajudar na realização de sua missão.

June continuou:

- Foi um pouco mais difícil optar pelas obras de caridade.

Mas, como sempre quis ajudar as crianças, este é um caminho para fazer alguma coisa por elas.

E emendou:

- Quanto aos netos, eles vão dividir parte da herança.

Mas não acho que tenham de receber tudo de mão beijada. É importante saberem o que significa trabalhar e guardar o próprio dinheiro.

Não resisti:

- E o tal apartamento grande que você sempre quis ter?

- Não parece mais tão importante - ela respondeu com um sorriso.

Então June moveu a mão e pude ver algumas poucas palavras escritas em letras minúsculas no cantinho inferior da folha. Apontei com o dedo e perguntei:

- O que é isso?

- Ah - ela exclamou, corando. - Uma anotação para mim.

Inclinei-me para ler as letras miúdas e caí numa gargalhada.

June escrevera:

E TAMBÉM um novo guarda-roupa.

 

 

Não somos ricos pelo que temos, mas sim pelo que não precisamos ter. EMMANUEL KANT


 

O JARDIM DE VOVÓ

LEANN THIEMAN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 115

 

Eu adorava observar minha avó capinando o solo de argila no meu jardim.

- Não sei como você pode cultivar qualquer coisa nisso ela resmungava.

- O solo do Colorado não se compara com o seu, em Iowa, vovó! - eu disse, olhando-a com admiração, gravando aquele momento em minha memória para sempre. Mechas prateadas escapavam do lenço de cabelo enquanto o corpo magro se inclinava para arrancar do chão um punhado de erva daninha.

- Essa porcaria cresce em qualquer lugar - ela ria. - Até neste solo!

Embora vivesse sozinha em sua fazenda em Iowa, onde ela e vovô tinham se instalado há meio século, ela ainda mantinha um pomar que podia sustentar toda a vizinhança!

Alguns dos dias favoritos da minha infância foram passados no verão, em seu jardim, ajudando-a a arrancar as plantas que ela identificava como ervas daninhas ou plantando vegetais e flores. Ela me ensinara que jardinagem não era só cultivar plantas, mas cultivar fé. Cada semente plantada era uma prova disso. Quando eu tinha sete anos, perguntei a ela: - Vovó, como é que as sementes sabem que as raízes devem crescer para baixo e a parte verde deve crescer para cima?

- Fé - era sua resposta.

Quando eu cresci e me casei, meu marido reconheceu a marca que a terra de vovó deixara sob minhas unhas e no meu coração.

Ele apoiou meu sonho de viver fora da cidade e no nosso pedaço de terra de dois acres havia cavalo, cachorro, gato, coelho, seis galinhas e, naturalmente, um grande pomar. Eu me sentia privilegiada e contentíssima por ter vovó ali, cuidando da terra.

Vovó encostou a enxada perto da cerca e veio até o canteiro de flores para me ajudar a plantar as margaridas que trouxera do seu jardim para o meu. Ela não sabia que eu a estava observando enquanto dava batidinhas na terra à volta da base de uma planta. Fazendo com a mão o sinal-da-cruz sobre a planta, ela sussurrava: "Deus a abençoe. Cresça." Eu quase me esquecera da bênção do jardim da época da minha juventude. Dez anos depois disso, essas margaridas ainda dão flores.

Vovó agora está cuidando do jardim de Deus, mas ainda sinto sua influência a cada dia. Sempre que jogo sementes na terra, faço um sinal-da-cruz sobre elas e digo: "Deus as abençoe, cresçam.

E, quando o silêncio se faz, posso ainda ouvir sua bênção, alimentando minha fé: "Deus a abençoe. Cresça."

 

Cada lâmina de grama tem um anjo

que se inclina sobre ela e sussurra: "Cresça! Cresça!"

TALMUDE


 

RON

DAN CLARK

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 118

 

Ron era um adolescente de quinze anos, estudante da primeira série do segundo grau da sua escola. Era dia de final do campeonato do colégio e ele era o único de sua turma na equipe principal de futebol. Entusiasmado, convidou sua mãe para assistir à partida. Seria a primeira vez que ela assistiria a um jogo e prometeu comparecer e levar várias de suas amigas. O jogo finalmente terminou e ela foi esperar o filho na porta do vestiário para levá-lo de carro para casa.

- O que você achou do jogo, mamãe? Você viu os três gols sensacionais do nosso time e a nossa defesa cerrada? E o contra-ataque do time adversário quando deixamos a bola escapar logo nos primeiros minutos do segundo tempo, mas que conseguimos recuperar? - Ron perguntou.

A mãe respondeu:

- Ron, você foi magnífico. Você teve tanta presença, e fiquei tão orgulhosa. Você levantou suas meias até o joelho onze vezes durante o jogo e sei que você estava transpirando muito porque tomou quatro bebidas energéticas e jogou água no rosto duas vezes. Gostei quando você saiu do seu lugar para dar tapinhas nas costas do número nove, do número cinco e do dezoito quando eles foram substituídos.

- Mamãe, como é que você sabe isso tudo? E como você pode dizer que eu fui magnífico? Eu nem joguei essa partida.

A mãe sorriu e abraçou o filho.

- Ron, eu não entendo nada de futebol. Não vim aqui para ver o jogo. Vim aqui para ver você!


 

O QUE SIGNIFICA SER APAIXONADA

BARBARA DE ANGELIS

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 120

 

O que significa ser uma pessoa apaixonada? É mais do que ser casada ou fazer amor com alguém. Milhões de pessoas são casadas, milhões de pessoas fazem sexo, mas poucas são realmente apaixonadas. Para ser na apaixonada, você tem de se entregar e se comprometer numa eterna troca de intimidade com seu companheiro.

Você é apaixonada quando reconhece que a vida lhe deu aquele companheiro como uma dádiva e você se alegra por isso todos os dias.

Você é apaixonada quando se lembra de que seu companheiro não lhe pertence - é apenas um empréstimo do universo.

Você é apaixonada quando entende que nada que acontece entre vocês deixa de ter significado, que tudo que diz tem o poder de deixar o seu amor alegre ou triste e tudo o que faz fortalece a ligação ou a enfraquece.

Você é na apaixonada quando compreende tudo isso e, assim, acorda cada manhã agradecida por ter mais um dia para amar e desfrutar esse amor com seu companheiro.

Ser apaixonada por alguém é uma bênção. Você recebeu a dádiva de ter alguém escolhido para caminhar ao seu lado, alguém com quem partilhará seus dias e suas noites, sua cama e seus problemas. Essa outra pessoa poderá ver partes secretas do seu eu que ninguém mais poderá ver. Tocará partes do seu corpo que ninguém mais tocará. Vai procurar você no seu esconderijo e lhe oferecerá seus braços como um refúgio seguro e amoroso.

Seu amor lhe oferece vários milagres a cada dia. Tem o poder de fazê-la feliz com um sorriso, com sua voz, seu perfume, o modo de caminhar. Tem o poder de acabar com sua solidão e de tornar sublime o que é comum. Ele é seu caminho para alcançar o Céu aqui na Terra.

 

 

Estar presente é mais do que apenas estar aqui.

MALcoM FORBES


 

NEGÓCIO ARRISCADO

JÔ COUDERT

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 122

 

Uma mulher que diz sua idade é capaz de dizer qualquer coisa, de acordo com Oscar Wilde. Sendo assim, não tenho a menor intenção de declarar a minha, embora admita que não estou mais na primeira juventude. Na verdade, qualquer música da época da Segunda Guerra Mundial que você mencione eu poderei cantar inteirinha.

Isso já lhe dá uma ideia de por que eu me senti uma boba quando comprei a motocicleta. Enquanto assinava o cheque, não podia acreditar que eu estava mesmo fazendo uma compra tão inconsequente. É verdade que, por anos, eu pensara como seria divertido ter uma motocicleta.

- Para quê? - debochavam minha família e amigos.

- Para me aventurar por pequenas estradas escondidas - eu respondia.

- Mas você pode usar o carro - diziam. Sim, mas numa motocicleta eu poderia parar e admirar as flores do campo e 'prestar atenção no suave barulho de um rio.

- Você vai acabar se matando - todos me desanimavam.

Foi por isso que nunca me dispus seriamente a comprar uma motocicleta.

Então por que, quando um amigo sugeriu que parássemos numa loja, eu me vi comprando uma daquelas perigosas engenhocas? Tudo bem, a motocicleta era elegante, novinha e veio no meu tom favorito de azul.

Mas o verdadeiro motivo era que eu tinha de deixar cair minha máscara. Por anos eu dissera que queria uma motocicleta. Ali estava minha oportunidade. Se fraquejasse, tenho a impressão de que minha vida começaria a declinar. Já vira isso acontecer com outras pessoas - recusar aquele emprego dos sonhos por medo de mudar de cidade, deixar de fazer rafting num rio porque o barco pode virar. Eu percebia que a vida da pessoa ficava mais estreita, mais restrita, como se fechar uma porta tivesse fechado outras, ainda desconhecidas.

Preenchi o cheque e paguei.

O próximo passo seria cuidar da habilitação. Quando apresentei minha carteira de motorista para a jovem loura no balcão do departamento de trânsito, ela a conferiu indiferente até chegar à "data de nascimento". Os olhos se desviaram para o meu rosto, ela deu um sorriso zombeteiro.

- A senhora já não está meio velha para se juntar aos Hell´s Angels? - perguntou numa voz arrastada.

Quando saí pela primeira vez com a moto, concordei plenamente com suas palavras. Eu estava nervosa. Ficava me dizendo o tempo todo onde eram o acelerador e os freios. Um carro vinha atrás de mim e acabei deslizando no cascalho e me esborrachando no chão. Onde era o freio? Por que eu estava indo tão depressa?

O pânico tinha congelado minha mão no acelerador. E os freios não eram nos pedais, mas no guidom. Assim que descobri como parar, saí da moto e fui a pé com ela para casa.

Tentei novamente no dia seguinte e no outro. No quarto dia, relaxei o suficiente para fazer uma maravilhosa descoberta: eu podia sentir o cheiro do campo - a relva, as margaridas, a terra molhada e as rosas selvagens. E podia ver de onde vinham as flores. A paisagem não era como um filme que passa rapidamente, mas uma tapeçaria de folhas e galhos costurados e pétalas bordadas. Quer dizer, se eu conseguisse levantar os olhos da estrada o tempo suficiente para dar uma olhada.

Procurando um lugar seguro para praticar, descobri um caminho asfaltado, que levava até uma fábrica. A cada dia eu aumentava a velocidade, inclinando nas curvas, ousando mais nas manobras. Não tinha ideia de que deixar o vento bater no rosto livremente podia ser tão divertido.

Um dia, com confiança redobrada, ousei ir até a cidade que ficava a uns três quilômetros, acompanhando o rio. Parei a moto junto à margem e peguei um saco com pão velho que guardara para alimentar os patos. Vi que por ali estavam dois garotos que ficaram admirando a motocicleta. Um deles me chamou, batendo no meu ombro.

- Eu e ele - ele disse, apontando o amigo - queremos trocar nossas bicicletas pela sua moto.

Comecei a rir, mas seu rosto sardento estava totalmente sério. Com uma voz grave, eu disse:

- É uma bela oferta, mas acho que não vou ter muito o que fazer com duas bicicletas.

Ele balançou a cabeça. Compreendia minha situação.

Como você se chama? Quanto que a motocicleta corre?

Alguma coisa parecia não bater bem enquanto conversávamos. Então compreendi que era exatamente isso: nós estávamos conversando. Para eles, eu não era uma mulher idosa. Era a dona de um brinquedo maravilhoso e isso eliminou o abismo entre nós.

Os vizinhos tinham um sentimento parecido. Quando eu passava com a moto, eles riam, acenavam e, muitas vezes, gritavam:

E aí, como está se saindo?

Primeiro pensei que era porque eu parecia engraçada com meu capacete branco, óculos de aro de chifre e luvas e jaqueta de couro mesmo nos dias mais quentes (para proteção, no caso de queda). Mas, quando eu tirava os olhos da estrada, percebia que seus rostos eram amáveis e que sentiam uma espécie de prazer indireto com a minha aventura.

Mas eu sabia que fora realmente aceita quando um adolescente a cabeça do lado de fora de seu carro envenenado, e gritava com sorriso de aprovação:

- Vamos lá, minha senhora!

- Eu consegui! - respondia. E estou feliz, é o que tenho pensado desde então. A motocicleta realmente me levou a caminhos desconhecidos. Ela me proporcionou novas aventuras.

Mas, principalmente, me fez sentir que as portas da minha vida continuam abertas. Tudo é possível.

É claro que há riscos. Não mudei de opinião quanto a isso. Por outro lado, uma amiga que falara muito sobre os perigos de uma motocicleta levou um tombo na banheira e quebrou braço. Uma outra, viúva, que estava para voltar para a faculdade, mas desistiu com medo de ser ridicularizada, entrou em profunda depressão.

Penso nelas e vejo que a única coisa mais perigosa que não correr riscos é não se arriscar. Talvez as pessoas esperem que você se torne inconsequente à medida que envelhece. É a forma de continuar dizendo sim à vida. E, talvez, dizer sim, não ser prudente, seja o que realmente é importante na vida.

 

 

 

Eu me arrisquei a tudo que desejei... e o que eu desejo eu faço.

HERMAN MELVILLE


 

AJUDA PARA QUEM AJUDA

MARLENA THOMPSON

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 127

 

Aos dezoito anos, deixei minha casa no Brooklyn, Nova York, para ir estudar história na Universidade de Leeds, em Yorkshire, na Inglaterra. Foi uma época cheia de novidades, mas estressante, pois tinha de me adaptar a um lugar novo, sem ter ainda me acostumado com a dor da perda recente de meu pai - fato que ainda não conseguira assimilar.

Um dia, no mercado, tentando decidir que flores alegrariam meu quarto de estudante, confortável, mas sem graça, vi um senhor com dificuldade para se apoiar em sua bengala enquanto carregava um saco de maçãs. Corri para apanhar as maçãs, dando-lhe tempo de recuperar o equilíbrio.

- Obrigado, querida - ele disse, com aquela cadência característica de Yorkshire, que não me canso de ouvir. - Já estou bem, agora, não se preocupe - acrescentou, sorrindo para mim, não só com os lábios, mas com um par de brilhantes olhos azuis.

- Posso caminhar com o senhor - disse. - Só para ter certeza de que essas maçãs não vão virar purê antes da hora.

Ele riu e disse:

- Você está bem longe de casa, não é, moça? Você é dos Estados Unidos?

- Só de um dos estados, Nova York. Vou lhe falar sobre isso enquanto caminhamos.

Assim começou minha amizade com o Sr. Burns, um homem cujo sorriso e carinho logo se tornariam muito importantes para mim.

No caminho, o Sr. Burns (a quem eu sempre me dirigia assim, nunca o chamava pelo primeiro nome) se inclinava pesadamente sobre a bengala, resistente e enfeitada com os nós da madeira, que me lembrava um cajado bíblico. Quando chegamos à casa dele, ajudei-o a colocar os pacotes sobre a mesa e insisti em auxiliar na preparação do "chá" - quer dizer, sua refeição.

Interpretei seu débil protesto como um agradecimento.

Depois de fazer o chá, perguntei se haveria problema de eu voltar para visitá-lo. Pensei em estar com ele de vez em quando, para ver se precisava de alguma coisa. Com uma piscadela e um sorriso, ele respondeu:

- Eu jamais recusaria uma oferta vinda de alguém de tão bom coração, moça.

Voltei no dia seguinte, mais ou menos na mesma hora, de modo a poder ajudar mais uma vez na hora da refeição. A bengala era uma lembrança silenciosa de seu problema e, embora nunca pedisse ajuda, não protestava quando era auxiliado.

Nessa mesma noite tivemos nossa primeira conversa "de abrir o coração". O Sr. Burns me perguntou sobre meus estudos, meus planos e, principalmente, sobre minha família. Disse-lhe que perdera meu pai há pouco tempo, mas não falei muito mais sobre o relacionamento que tinha com ele. Em resposta, meu amigo apontou duas fotografias em porta-retratos na mesa perto de sua cadeira. Eram duas mulheres, uma bem mais velha que a outra. Mas a semelhança entre elas era surpreendente.

Esta é Mary - ele disse, indicando a fotografia da mulher mais velha. - Ela se foi há seis anos. E aquela é nossa Alice. Era uma ótima enfermeira. Minha Mary não suportou a dor de perdê-la.

Derramei ali as lágrimas que eu não conseguira chorar pela minha própria dor. Chorei por Mary. E por Alice. Chorei pelo Sr.Burns. E chorei por meu pai, a quem nunca pude dizer adeus.

Eu visitava o Sr. Burns duas vezes por semana, sempre no mesmo dia. Invariavelmente ele estava sentado em sua cadeira, a bengala encostada à parede. A pequena televisão em preto-e-branco estava sempre desligada, pois meu amigo preferia se distrair com seus livros e discos. Ele parecia sempre contente em me ver. Embora eu dissesse a mim mesma que sentia prazer em ser útil, na verdade me sentia ainda melhor por ter conhecido alguém a quem podia revelar meus pensamentos e sensações que, até então, eu mal revelara a mim mesma.

Enquanto eu fazia o chá, conversávamos. Eu lhe contei que me sentia terrivelmente culpada por não estar bem com meu pai nas duas semanas antes de sua morte. Não tive a oportunidade de lhe pedir perdão. Nem ele de pedir o meu.

Embora o Sr. Burns também falasse, contava muito menos coisas do que eu. Lembro-me bem dele prestando atenção no que eu dizia. E muita atenção! Ele não só se mostrava atento, mas absorvia as informações, acrescentando detalhes da sua própria experiência e imaginação para compreender melhor.

Depois de um mês mais ou menos, resolvi visitar meu amigo num "dia de folga". Nem me preocupei em telefonar antes, pois imaginei que este tipo de cerimônia não cabia no nosso relacionamento. Quando cheguei, eu o surpreendi trabalhando no jardim, inclinando-se com facilidade e levantando-se igualmente sem qualquer problema. Fiquei confusa. Aquele era o mesmo homem que usava aquela bengala que parecia um cajado?

De repente, o Sr. Burns olhou em minha direção. Percebendo minha surpresa, acenou mais do que encabulado. Sem nada dizer, aceitei seu convite para entrar.

- Bem, moça. Deixe que dessa vez eu lhe prepare o chá.

Você parece exausta.

- Mas, como? - eu comecei. - Eu pensei...

- Eu sei o que você pensou, querida. Quando você me viu a primeira vez, no mercado, eu tinha torcido o tornozelo um pouco mais cedo naquele dia. Tropeçara numa pedra enquanto cuidava do jardim. Sempre fui um desajeitado.

Mas... quando foi que o senhor voltou a andar normalmente?

Seus olhos, não sei como, pareciam felizes e arrependidos ao mesmo tempo.

- Ah, bem... acho que no dia seguinte ao nosso encontro.

- Mas, por quê? - perguntei, completamente perplexa.

Com certeza ele não podia ter fingido precisar de ajuda só para eu lhe fazer o chá de vez em quando.

- Da segunda vez que você veio aqui, querida, foi quando percebi como você estava infeliz. Sozinha, triste a respeito de seu pai e tudo o mais. Pensei que podia lhe emprestar meu ombro calejado para você se apoiar. Mas eu sabia que você achava que estava vindo aqui por minha causa, não por causa de seus problemas. Achei que não voltaria se achasse que eu estava bem.

E eu sabia que você estava precisando conversar com alguém.

Alguém mais velho, até mesmo mais velho que seu pai. E ainda alguém que soubesse ouvir.

- E a bengala?

- Ah, é uma bonita bengala, não é? Eu a uso quando vou fazer algum passeio em terreno mais difícil. Vou chamar você para ir comigo no próximo.

E foi assim. O homem que eu me dispusera a ajudar foi quem me ajudou. Ele me deu de presente um pouco do seu tempo, doou atenção e bondade a uma jovem que precisava das duas coisas.

 

 

Uma das mais bonitas compensações da vida é que ninguém pode sinceramente tentar ajudar a outra pessoa sem ajudar a si mesmo.

RALPH WALDO EMERSON


 

NUNCA LHE DISSEMOS QUE ELE NÃO CONSEGUIRIA

KATHY LAMANCUSA

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 132

 

Quando meu filho Joey nasceu, seus pés eram torcidos para cima, a parte inferior encostava em sua barriga. Como mãe de primeira viagem, achei aquilo estranho, mas não percebi exatamente o que significava. Na verdade, Joey nascera com uma deformação nos pés. Os médicos asseguraram que, com tratamento adequado, ele poderia andar normalmente, mas provavelmente não seria capaz de correr muito bem. Os primeiros três anos de vida, Joey passou entre cirurgias, gessos e aparelhos. Massagens, fisioterapia, exercícios. Quando tinha uns sete ou oito anos, quem o visse caminhar não perceberia que tivera um problema.

Se andasse grandes distâncias, como em parques de diversão ou no zoológico, reclamava que sentia as pernas cansadas e doídas. Tinha de parar, tomar um refrigerante ou um sorvete e conversar sobre o que já vira e o que ainda ia ver. Jamais lhe contamos porque suas pernas ficavam doloridas e porque eram fracas. Nem que aquilo era normal para quem tinha uma deformidade de nascença. Nunca lhe dissemos, então ele nunca soube.

As crianças da vizinhança, brincando, corriam para lá e para cá, como todas as crianças. Joey brincava com elas e corria também. Nunca lhe dissemos que provavelmente nunca poderia correr tão bem como os amiguinhos. Não lhe dissemos que era diferente. Nunca lhe dissemos, então ele nunca soube.

Na sétima série, decidiu fazer parte da equipe de atletismo da escola. Treinava todos os dias com os outros garotos. Parecia que era o mais esforçado do grupo e que corria mais que qualquer um deles. Talvez percebesse que habilidades tão naturais nos outros não eram naturais nele mesmo. Não lhe dissemos que, embora pudesse correr, provavelmente seria sempre um dos últimos a chegar. Não lhe dissemos que não devia esperar fazer parte do "primeiro time", elite composta pelos melhores corredores. Não lhe dissemos que dificilmente faria parte do "primeiro time", então ele nunca soube.

Joey continuou a correr de seis a oito quilômetros por dia, todos os dias. Jamais vou me esquecer de quando estava com mais de trinta e nove graus de febre e não quis ficar em casa porque tinha treino. Preocupei-me o dia inteiro. Imaginava que logo receberia um telefonema para que fosse buscá-lo. Ninguém telefonou.

No horário do término das aulas fui até a área de treinamento, imaginando que, se Joey me visse por lá, talvez decidisse faltar ao treino naquela tarde. Mas, quando cheguei, eu o vi correndo sozinho. Aproximei-me com o carro e fiquei dirigindo devagar, emparelhada com ele. Perguntei como estava se sentindo. "Bem" - respondeu. Faltava fazer pouco mais de três quilômetros. O suor lhe escorria pelo rosto, os olhos estavam vidrados pela febre. Mesmo assim, olhava firme para a frente e continuava a correr. Nunca lhe dissemos que ele não podia correr quilômetros com mais de trinta e nove graus de febre. Nunca lhe dissemos, então ele nunca soube.

Duas semanas depois, na véspera da penúltima corrida da temporada, os nomes dos componentes do "primeiro time" foram anunciados. Joey era o sexto da lista. Ele conseguira estar entre os melhores. Era o único aluno da sétima série. Os demais eram todos da oitava. Nunca lhe dissemos que não devia esperar fazer parte da elite. Não lhe dissemos que não seria capaz. Nunca lhe dissemos que não conseguiria, então ele nunca soube. E ele conseguiu.

 

 

Eles conseguem porque pensam que conseguem.

VIRGÍLIO


 

UM BEIJO DE BOA-NOITE

PHYLLIS VOLKENS, com supervisão de Jane Hanna

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 135

 

Sou enfermeira e sempre que chegava ao asilo para trabalhar no turno da noite percorria os corredores para conversar e ver se estava tudo em ordem. Muitas vezes encontrava Kate e Chris sentados com seus álbuns no colo, vendo fotos e relembrando o passado. Com orgulho, Kate me mostrava retratos antigos em que Chris aparecia, alto, louro e alinhado, e ela, bonita, morena e sorridente. Dois namorados lembrando alegremente a sua história. Como era lindo vê-los juntos. A luz do sol refletindo em seus cabelos brancos, os rostos vincados pela idade iluminados pelas lembranças capturadas para sempre nas fotos dos álbuns.

Às vezes a equipe do turno da noite via Kate e Chris caminhando de mãos dadas. O assunto passava a ser o amor do casal e o que aconteceria quando um deles morresse. Todos conhecíamos a força de Chris e sabíamos o quanto Kate dependia dele. Muitas vezes nos perguntávamos como ficaria Kate se Chris morresse primeiro.

A hora de dormir tinha todo um ritual. Eu trazia a medicação da noite e encontrava Kate na sua cadeira, de camisola e chinelos, me esperando. Chris e eu a observávamos enquanto ela tomava seu remédio. Então, com muito cuidado, Chris a ajudava a passar da cadeira para a cama, ajeitando as cobertas ao redor do corpo frágil.

Observando esse ato de amor, eu pensava pela milésima vez:

"Meu Deus, por que os asilos não têm camas de casal? Marido e mulher dormem juntos a vida inteira e justamente num asilo, onde mais precisam de aconchego, são privados de um costume que os confortou toda a vida."

"Como são tolas essas regras”, eu pensava enquanto o observava Chris se levantar e desligar a luz sobre a cama de Kate.

Então ele se curvava para beijá-Ia docemente, acariciando seu rosto, e os dois sorriam enquanto ele levantava a grade lateral da cama. Do corredor, eu podia ouvir Chris dizer "Boa-noite, Kate" e ela responder "Boa-noite, Chris". Depois ele se dirigia para sua cama, no outro extremo do quarto.

Cumprindo a escala, fiquei dois dias sem trabalhar e, quando voltei, a primeira notícia que me deram foi "Chris morreu ontem de manhã".

- Como?

- Um ataque cardíaco fulminante.

- Como está Kate?

-Mal.

Fui ao quarto de Kate. Ela se encontrava em sua cadeira sem se mexer, mãos no colo, olhos parados. Pegando as suas mãos nas minhas, eu disse:

- Kate, é Phyllis.

Ela nem piscou, seus olhos permaneceram fitando o nada.

Segurei seu queixo com a mão e, devagarinho, virei seu rosto para que ela me olhasse.

- Kate, acabo de saber que aconteceu com Chris. Sinto muito.

Ouvindo o nome "Chris", seus olhos brilharam. Ela me olhou, confusa a princípio, aos poucos me reconhecendo.

- Chris se foi - ela sussurrou.

- Eu sei - respondi. - Eu sei.

Nós nos desdobramos nos cuidados e no carinho com Kate.

Gradativamente ela retomou sua rotina. Muitas vezes, quando passava pelo seu quarto, eu a observava sentada em sua cadeira, álbum no colo, olhando com tristeza as fotos de Chris.

Para Kate, a pior parte do dia era a hora de dormir. Ela pedira para dormir na cama do marido, mas, apesar de tentarmos reproduzir os gestos dele, Kate permanecia em silêncio, tristemente retraída. Uma hora depois de ter sido colocada na cama, ela continuava acordada, olhos fixos no teto.

.As semanas se passaram e a hora de dormir ainda era muito difícil. Kate parecia sempre inquieta e insegura. Eu pressentia que devia haver uma razão para isso, mas não encontrava a causa. Então, uma noite, quando estava saindo do quarto depois de várias tentativas inúteis para tranquilizar Kate, ocorreu-me uma ideia. Voltei atrás, aproximei-me dela, acariciei seu rosto e, debruçando-me, beijei-a, dizendo "Boa-noite, querida".

Foi como se eu tivesse aberto uma comporta. Lágrimas caíam pelo rosto de Kate, suas mãos seguravam as minhas.

- Chris sempre me dava um beijo de boa-noite - ela disse, chorando.

- Eu sei - sussurrei.

- Eu sinto tanta falta dele, tanta falta do beijo que ele me dava na hora de dormir. - Ela fez uma pausa enquanto eu enxugava suas lágrimas. - Sem o beijo dele parece que eu não estou indo dormir. Muito obrigada por me dar um beijo.

Kate ensaiou um sorriso.

- Sabe - ela me confidenciou -, Chris costumava cantar uma canção para mim. E eu deito aqui à noite e penso nisso.

- Como era?

Kate sorriu, segurou minha mão e limpou a garganta. Então ela cantou, com sua voz pequena, mas ainda melodiosa:

 

Me beije, meu amor, e então nos separaremos

E quando eu estiver muito velha para sonhar

Este beijo estará bem vivo no meu coração.


 

TOMANDO FÔLEGO

THE BEST OF BITS e PIECES

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 139

 

Trabalhar fora pode ser duro, mas ter um emprego e criar filhos pode ser pior ainda.

Existe uma história sobre a mãe de três garotos levados que, numa noite de verão, brincavam de polícia-e-Iadrão no quintal de casa.

Um dos meninos "atirou" na mãe e gritou:

- Bangue! Matei você!

Ela desabou no chão e, como não voltou a se levantar, um vizinho veio correndo para ver se ela se machucara ao cair.

Quando o vizinho se ajoelhou ao lado dela, a mãe, sobrecarregada de trabalho, abriu um olho e disse:

- Psiiiu! Não me entregue. É a minha única chance de descansar.

 


 

AS COISAS QUE DESEJO A VOCÊ

LEE PITTS

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 140

 

Tentamos de todas as maneiras facilitar as coisas para nossos filhos e isso acaba piorando as coisas.

Com os meus netos, vou fazer diferente.

Gostaria realmente que aprendessem a aproveitar as roupas do irmão mais velho, a apreciar sorvete caseiro e bolo de carne feito com as sobras do almoço. Gostaria mesmo.

Meu neto querido, espero que aprenda a ser humilde ao descobrir seus erros e a ser honesto mesmo se ninguém estiver olhando.

Espero que aprenda a arrumar a cama e a aparar o jardim, além de lavar o carro - e que ninguém lhe dê um carro novinho quando você tiver dezesseis anos.

Será bom se, pelo menos uma vez, você vir um bezerrinho nascer e tiver um bom amigo ao seu lado se precisar sacrificar o seu cachorro de estimação.

Espero que consiga um olho roxo lutando por alguma coisa em que acredite.

Que divida um quarto com seu irmão mais novo. Tudo bem se você desenhar uma linha no chão, demarcando o seu lado.

Mas, se ele quiser ir para sua cama porque está com medo, espero que você deixe.

E, quando você quiser ir ver um filme da Disney e seu irmão quiser ir junto, espero que você o leve.

Espero que escale montanhas com seus amigos e que more numa cidade onde possa fazer isso com segurança.

Se você quiser um estilingue, espero que seu pai o ensine a fazer um, em vez de comprar. Também espero que aprenda a mexer na terra e a ler livros. E que, além de usar máquinas de calcular e computadores, aprenda a somar e a diminuir de cabeça.

Espero que seus amigos gozem você quando se apaixonar pela primeira vez. Quando você responder atravessado à sua mãe, espero que aprenda que gosto tem o sabão de coco.

Que machuque o joelho subindo uma montanha, queime a mão no fogão e queime a língua num café muito quente. Sem gravidade, lógico.

Espero que fique enjoado se alguém fumar perto de você.

Não me importo se experimentar cerveja uma vez. Mas espero que não goste. E, se um amigo lhe oferecer um baseado ou qualquer droga, espero que seja esperto o bastante para saber que essa pessoa não é sua amiga.

Espero, é claro, que encontre tempo para se sentar na varanda com seu avô e para ir pescar com seu tio.

Espero que sua mãe castigue você quando jogar uma bola de futebol na janela do vizinho e que ela o abrace e beije quando você lhe der um molde de gesso da sua mão.

São essas as coisas que desejo a você - dificuldades e desapontamento, trabalho duro e felicidade.

 

Não se pode ensinar as crianças a cuidarem de si mesmas sem que as deixemos tentar. Elas cometerão erros e desses erros virá a sabedoria.

H.W. BEECHER


 

VENDO COM OS OLHOS DO CORAÇÃO

BARBARA JEANNE FISHER

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 143

 

Eu estava cega! Foi apenas por seis semanas, mas pareceu uma eternidade.

Nesse período, eu fiquei internada sozinha, com multo medo e morta de saudade do meu marido e dos meus cinco filhos. Tenho certeza de que a escuridão exagerava todos esses sentimentos. Eu levava horas, dias até, imaginando se poderia ver meus filhos novamente. Passei tanto tempo com pena de mim mesma que, quando a enfermeira avisou que eu teria uma colega de quarto, nem me animei. Ironicamente, não queria que ninguém me visse naquela situação.

O nome da minha companheira de quarto era Joni. Gostei dela imediatamente. Joni estava sempre alegre e nunca se queixava de sua doença. Quando sentia que eu estava com medo ou deprimida, ela dizia, brincando, que eu tinha sorte em não poder me ver no espelho durante aquele período. Meu cabelo estava emaranhado por ficar sempre na cama e eu engordara muito por causa da cortisona.

Depois das visitas do meu marido, Joe, e das crianças, era Joni quem lia para mim todos os bilhetinhos e cartões recheados de "Eu te amo" e "Fique logo boa, mamãe". Era Joni quem abria minha correspondência, descrevia as flores que eu recebia de parentes e amigos e me ajudava na hora das refeições. Para me alegrar, ela dizia que eu tinha sorte de não poder ver a comida do hospital!

Uma tarde, meu marido veio me visitar sozinho. Eu e ele conversamos sobre a possibilidade de eu não voltar a enxergar. Joe me assegurou que isso não afetaria em nada seus sentimentos por mim e que, não importava o que acontecesse, teríamos sempre um ao outro. Juntos, continuaríamos a criar nossos filhos. Por horas, ele apenas me segurou em seus braços, deixou-me chorar e tentou iluminar um pouquinho meu mundo tão escuro.

Joni deve ter sentido que precisávamos ficar a sós e permaneceu tão quieta durante a visita que eu achei que ela não estava no quarto. Depois que Joe saiu, ela disse:

- Você não sabe como é feliz em ter tantas pessoas que a amam! Seu marido e seus filhos são tão lindos! Você tem tanta sorte!

Naquele momento percebi, pela primeira vez, que durante as semanas que passamos juntas no hospital minha companheira não havia recebido a visita de marido nem de filhos. Sua mãe e o padre vinham de vez em quando, mas ficavam pouco tempo.

Eu estivera tão envolvida com meus problemas que sequer permitira que ela se abrisse comigo. Pelas visitas do médico, eu sabia que seu estado era delicado, mas nunca perguntara sobre a sua doença. Entendi, então, como fora egoísta e me odiei por isso. Virei para o lado e comecei a chorar. Pedi a Deus que me perdoasse. Prometi que, logo pela manhã, eu perguntaria a Joni sobre sua vida, sua doença e seus problemas e diria como estava agradecida por tudo que ela fizera por mim. Eu lhe diria como realmente gostava dela.

Nunca tive a oportunidade. Quando acordei, a cortina estava puxada entre as duas camas. Eu podia perceber pessoas sussurrando e tentei escutar o que diziam. Então ouvi o padre repetir:

- Que ela possa descansar em paz.

Antes que eu pudesse dizer-lhe que a amava, Joni tinha morrido.

Soube depois que ela sabia, ao se internar no hospital, que jamais sairia dali. Mesmo assim, nunca se queixou e passou seus últimos dias me dando esperança.

Joni deve ter sentido que sua vida estava no fim exatamente na noite em que falou sobre como eu tinha sorte. Depois que chorei até dormir, ela me escreveu um bilhete. A enfermeira o leu para mim naquela manhã e, quando voltei a enxergar, eu o reli muitas vezes:

 

Minha amiga, Obrigada por tornar meus dias tão especiais!

Fiquei muito feliz com nossa amizade. Sei que você também se importa comigo, a 'sua vista que não é vista': Algumas vezes, para que prestemos atenção, Deus nos derruba, ou ao menos nos torna cegos. Nesse meu último suspiro, rezo para que você logo volte a enxergar, mas não especificamente como pensa. Você só pode aprender a ver se o fizer com o coração. Sua vida, então, será completa.

Lembre-se de mim com carinho,

 

Joni

 

Naquela noite acordei de um longo sono. Deitada na cama, percebi que podia identificar algum brilho na pequena lâmpada na mesinha-de-cabeceira. Minha visão estava voltando! Era só um pouquinho, mas eu podia ver!

Mais importante ainda era que, pela primeira vez na vida, eu podia ver também com o coração. Mesmo que eu jamais venha a saber como era o rosto de Joni, tenho certeza de que ela era uma das pessoas mais bonitas do mundo.

Perdi minha visão muitas vezes desde então, mas, graças a Joni, nunca me permitirei "perder de vista” as coisas que são importantes na vida, como carinho, amor e, às vezes, arrependimento.

 

 

Nunca a vida é tão dura que você não possa

torná-la melhor pelo modo como a leva.

ELLEN GLASGOW


 

JUNTOS NÓS VAMOS CONSEGUIR

DAN CLARK

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 147

 

Bob Butler perdeu as pernas em 1965, na explosão de uma mina, no Vietnã. Voltou para casa como herói. Vinte anos depois, ele provou, mais uma vez, que o heroísmo vem do coração.

Ele estava trabalhando em sua garagem, numa pequena cidade do Arizona, num dia quente de verão, quando ouviu gritos de mulher vindo de uma casa vizinha. Butler foi em direção aos gritos, empurrando sua cadeira de rodas, mas a vegetação densa não permitia que ele chegasse à porta dos fundos. O veterano de guerra saiu da cadeira e foi se arrastando pelo chão, entre os arbustos.

"Tinha de conseguir", ele conta. "Não importava o quanto doesse".

Quando Butler chegou à casa, viu que os gritos vinham da piscina, no fundo da qual estava uma menininha de três anos.

Ela nascera sem os braços e caíra na água. Não tinha como nadar. Na beira, a mãe da criança gritava histericamente. Butler mergulhou até o fundo da piscina, trazendo a pequena Stephanie. Seu rosto estava azul, ela não tinha pulso e não respirava.

Butler imediatamente iniciou manobras de ressuscitação na criança, enquanto a mãe telefonava para os bombeiros. Mas lhe disseram que os paramédicos estavam em outro atendimento.

Impotente, a mulher chorava e segurava o ombro de Butler.

Continuando a socorrer Stephanie, ele calmamente assegurou à mãe:

- Não se preocupe. Eu fui os braços dela para sair da piscina. Tudo vai dar certo. Agora sou os seus pulmões. Juntos, nós vamos conseguir.

Segundos depois, a menininha tossiu, recobrou a consciência e começou a chorar. Enquanto se abraçavam alegremente, a mãe de Stephanie perguntou a Butler como ele sabia que tudo ia dar certo.

- Quando perdi as pernas na guerra, estava sozinho num campo - ele contou. - Não havia ninguém para ajudar, apenas uma menininha vietnamita. Enquanto lutava para me arrastar até seu vilarejo, ela sussurrou num inglês atravessado: "Está tudo bem. Você vai viver. Eu ser suas pernas. Juntos nós conseguir." Agora foi a minha oportunidade de retribuir o favor Butler disse à mãe da criança.

 

 

Somos todos anjos de uma única asa.

Só quando ajudamos uns aos outros é que conseguimos voar.

LUCIANO DE CRESCENZO


 

O HOMEM SEM NOME

NAOMI JAMES

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 149

 

- Saiam, saiam! Está pegando fogo!

Fui acordada repentinamente por uma voz que eu não reconhecia e pulei da cama. Depressa! Depressa! Levantem! Levantem!

Eram as únicas palavras em que eu podia pensar ou dizer enquanto corria pelo apartamento, acordando meus filhos e netos.

O aviso veio a tempo e todos pudemos sair. Naquela fria manhã do Dia de Ação de Graças, meu marido Bobby, dois de nossos três filhos, já crescidos, o irmão gêmeo de meu marido, com seus dois netos se juntaram do lado de fora e viram nosso apartamento e nosso restaurante queimar por inteiro. Quando o dia clareou, só a lareira de tijolos estava de pé.

Mas estávamos agradecidos por estarmos vivos. Quem nos acordara? Como poderíamos agradecer a essa pessoa?

O hotel de cento e vinte e quatro quartos ao lado do restaurante também era da família e estava intacto. A encarregada da recepção, que não percebera o fogo, nos disse que um homem numa caminhonete parara no meio da estrada deserta, entrara correndo no saguão do hotel e lhe dissera para ligar para os bombeiros. Logo depois ele começou a bater nas portas.

Quem era o homem? Perguntamos a todos - aos bombeiros, aos policiais, aos hóspedes. Ninguém o vira, a não ser a atendente da recepção. Pusemos um anúncio no jornal, pedindo informações. Nunca poderíamos lhe agradecer o suficiente por ter salvo as vidas de nossa família, mas queríamos expressar nossa gratidão de alguma forma.

Nos anos que se seguiram, agradecíamos a Deus, a cada Dia de Ação de Graças, por essa pessoa que tanto fizera por nós e que Ele sabia quem era.

No dia de Natal, em 1994, meu marido Bobby e eu, nossos três filhos, suas mulheres e nossos nove netos nos reunimos na casa de nosso filho mais velho. Mais uma vez nos lembramos do homem que salvara nossas vidas. Sem ele, nossos netos sequer teriam nascido. Pedimos a Deus que o abençoasse e que um dia nos permitisse conhecê-lo.

Uns dias depois do Natal, Bobbye eu fomos à casa de Ray Horton, um de nossos chefes de carpinteiros, para pegar umas ferramentas. Ele nos convidou para tomar um café e começamos a conversar, falando sobre lugares em que estivéramos e coisas que tínhamos feito.

Ray nos contou que construíra casas em Portland, Texas, em 1969 e 1970. Contamos que tivéramos um restaurante e um hotel lá.

Ray virou-se para sua mulher e disse:

- Você se lembra de eu ter lhe contado sobre um incêndio naquele hotel?

No mesmo momento, Bobby e Ray se deram conta de que ele estava falando sobre o nosso hotel. Os dois se levantaram, ficaram um em frente ao outro e se abraçaram chorando. E nós todos nos abraçamos e choramos, sabendo que tínhamos encontrado a pessoa que Deus enviara para salvar nossas vidas.

Naquele instante, finalmente, pudemos agradecer ao homem que permanecera sem nome por vinte e cinco anos.

 

 

 

A gratidão nasce nos corações que

se preocupam em considerar benevolências recebidas.

CHARLES E. JEFFERSON


 

LEMBRANDO DE ESQUECER

AMY SEEGER

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 152

 

Clara Barton, que fundou a Cruz Vermelha americana quando tinha cinquenta e um anos, era considerada "tímida como um rato, mas brava como um leão". Comprometida com sua missão, continuou a exercê-Ia mesmo na velhice. Não deixou que a idade a atrapalhasse.

Ela ia aonde quer que houvesse alguém precisando de conforto, em áreas de guerra, locais onde havia enchentes, terremotos ou febre amarela. Aos setenta e sete anos, estava nos campos de batalha de Cuba, na guerra hispano-americana. Clara continuou seu trabalho até morrer, aos noventa e um anos.

Um dia, já bem velhinha, alguém a lembrou de uma ofensa que lhe fora dirigida, anos antes. Mas ela agiu como se jamais tivesse ouvido falar daquilo.

- Não se recorda? - a amiga perguntou.

- Não - Clara respondeu. - Lembro-me nitidamente de ter esquecido isso.

 

 

 

Se realmente desejamos amar, devemos aprender a perdoar.

MADRE TERESA


 

O ÚLTIMO POTE DE GELEIA

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 153

 

A infância de nossos filhos foi marcada por uma coisa muito simples: sanduíches de geleia que até meu marido e eu gostávamos de saborear. Mas não eram quaisquer sanduíches, porque a geleia que os recheava era preparada especialmente por minha sogra com as frutas colhidas em seu sítio.

Minha sogra só fazia geleia de uva ou amora. A minha colaboração consistia apenas em guardar os potes de papinha de bebê e enviá-los para sua casa. Ela então os enchia com a deliciosa geleia, fechava com cera e nos mandava de volta. Durante os meus vinte e dois anos de casada, toda vez que queria fazer um sanduíche de geleia bastava esticar a mão e apanhar um dos potinhos na despensa ou na geladeira. Estavam sempre lá. Fazer geleia era uma alegria para minha sogra.

Meu sogro faleceu há muitos anos, e neste último dezembro minha sogra também se foi. Entre as coisas a serem divididas entre os filhos estava o estoque da despensa. Cada filho escolheu o que queria entre os muitos vidros de suco de tomate, sementes cruas e geleia. Quando meu marido trouxe para casa os potes que ficaram para ele, nós os colocamos cuidadosamente na despensa.

Outro dia, quando fui fazer um sanduíche, eu o vi. Sozinho, no canto da prateleira, um pequeno pote de geleia de uva. A tampa tinha até uns pontos de ferrugem. Sobre a tampa, com pincel atômico, estava escrito UVA e o ano em que a geleia fora feita.

Só quando peguei o pote foi que me dei conta. Abri novamente a porta da despensa para ter certeza. Era o último pote da geleia feita pelas mãos amorosas e pacientes da minha sogra.

Durante esse ano após a sua morte, cada vez que abríamos um pote de geleia no café da manhã, ela se fazia presente. De repente' tomamos consciência de que nossos filhos nunca passaram um dia sem a geleia feita pela avó. Aquilo que nos parecia a coisa mais natural do mundo hoje se transformara num grande tesouro.

Com o pote nas mãos, meu coração se encheu de lembranças. Podia ver minha sogra chorando no dia do nosso casamento e, mais tarde, beijando e mimando nossos filhos. Podia vê-la andando pela fazenda, colhendo uvas, ou percorrendo o bosque em busca de amoras. Depois, debruçada sobre o tacho esperando a geleia ficar no ponto. Foram muitas as imagens que desfilaram na minha frente e em todas aparecia aquela mulher alegre, generosa, capaz de tanto afeto.

Coloquei o pote de volta na prateleira. Não se tratava mais de um simples pote de geleia. Era o fim de uma tradição da família. Imagino que eu acreditei que, enquanto ele estivesse ali, uma parte de minha sogra permaneceria viva.

Temos em casa muitas coisas que pertenceram aos pais do meu marido, coisas que irão passar para nossos filhos. Mas não estou pronta para abrir mão desse último pote de geleia e da riqueza de lembranças que ele me traz. Um dia vamos ter de abri-lo ou jogá-lo fora... mas não hoje.

ANDY SKIDMORE


 

RESISTINDO

DEBORAH SHOUSE

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 156

 

Quando criança, costumava acordar, vestir meu jeans e descer correndo a rua até a casa de Ann.

Hoje não me apresso. Passeio pela nossa antiga vizinhança, prestando atenção ao arbusto de murta cujas frutas Ann e eu costumávamos roubar, nas árvores de magnólia que ainda embelezam os gramados, no banco de cimento onde Ann e eu nos sentávamos para rogar pragas nos outros.

Respiro fundo e bato na porta da casa da família de Ann.

Seu pai chega à porta.

- Ela está no quarto - ele diz.

A entrada parece menor do que eu me lembrava.

- Entre - diz Ann, quando bato timidamente na porta.

Antes de girar a maçaneta, observo as fotografias que estão na parede do saguão: Ann sem os dois dentes da frente, Ann com um vestido amarelo de babados, Ann em cima de um cavalo, Ann em sua beca de formatura. Nos anos que passamos sem nos ver, acrescentamos às nossas vidas carreiras, maridos e filhos.

Nos últimos cinco anos, Ann vem lutando contra um câncer.

Ela parece frágil e bonita, apoiada nos travesseiros, numa camisola de cetim rosa. Um lenço vermelho lhe cobre a cabeça.

Um cigarro tremula em sua mão direita.

Quando tinha quatorze anos, Ann acordava e riscava um fósforo na parede para acender o primeiro cigarro do dia. Eu adorava ver as marcas de carvão pela superfície, como símbolos orientais. Decadente, eu pensava, sendo invejosa. Ela podia fazer o que quisesse porque seu pai nunca se zangava.

O pai de Ann entra no quarto, trazendo xícaras de chá de ervas.

- Você precisa de mais alguma coisa? - pergunta. Fios prateados agora suavizam seu cabelo, antes tão escuro.

Ann sorri e faz que não com a cabeça. Bate levemente na cama, indicando um lugar, e eu me sento a seu lado, abraçando-a gentilmente. Eu a seguro como se ela fosse um segredo se revelando.

- Veja só! Finalmente, estou mais magra que você - ela diz, rindo e esticando as pernas que agora parecem de criança em sua magreza.

A morfina que lhe permite sentar-se sem dor suavizou seu discurso. Mas seu riso é o mesmo. A doçura de seu rosto redondo é a de quando tinha quatro anos e nos tornamos amigas.

- Vamos ser melhores amigas? - Ann me perguntara. As duas em pé, apenas uma cerca nos separando. As famílias tinham acabado de se mudar para a vizinhança.

- Claro - respondi.

- Debbie, venha jantar - minha mãe chamou pela segunda vez.

Vi Ann descer a rua até sua casa, se inclinando para colher dentes-de-Ieão pelo caminho. Então atravessei o pátio, a grama nova beliscando meus pés. Eu me sentia como um balão que finalmente se soltara em direção ao céu. Algo importante acontecera: eu não dependia mais de pai e mãe para ser amada. Eu tinha uma amiga.

- Com licença, preciso ir ao banheiro - Ann diz.

Ela sempre me ganhava no revezamento. Agora ela caminha com cuidado, como se tivesse ovos nos bolsos. Penso em nós quando crianças, socadas no banheiro da casa, nos alternando, uma no vaso, a outra pendurada na lateral da banheira. Ir ao banheiro era o mesmo que jogar xadrez ou trocar a roupa de bonecas.

Não víamos motivo de nos separarmos naquele momento.

Mas nós nos separamos por anos, embora sempre em contato quando precisávamos de apoio e de uma boa conversa. Ela conhece minhas filhas sem jamais tê-Ias visto, e eu adoro seu marido pelo carinho e apoio que ele lhe dedica. Olho à volta de seu antigo quarto e vejo a prateleira com os velhos exemplares dos livros que teceram um caminho em nossa infância.

- Você quer ver minha cabeça? - Ann pergunta, quando volta ao quarto.

- Quero - respondo.

Seguro a respiração quando ela tira o lenço. Ann parece luminosa sem ele. A curva poderosa da cabeça é suavizada por algumas mechas de cabelo.

Toco meu próprio cabelo, lembrando as horas de agonia que passei enrolando-o, para ter as mesmas ondas suaves de Ann. Seu cabelo escuro sempre ondulava da maneira certa, enquanto o meu era um emaranhado de cachos.

- No início, eu estava com medo de andar sem a peruca.

Mas meu marido acabou gostando de me ver assim. Peguei-o olhando para mim e sorrindo - ela conta.

Lentamente Ann se ajeita na cama e, como fizemos tantas vezes, conversamos. Costumávamos falar sobre rapazes, agora falávamos de homens. Antes falávamos sobre a escola, agora o assunto era o trabalho. Falávamos sobre o que gostaríamos de ser e o que considerávamos importante: ainda fazemos isso.

Nossa história nos une, como berloques numa pulseira de prata.

Ann me fala de seu ano, no qual suportou dores terríveis, incapaz de comer, imaginando-se sem forças sequer para acabar a série de quimioterapia. Fico em silêncio ante sua coragem, admirada com sua força.

- Fale-me de você - ela insiste. - Sobre suas filhas.

Quando começo a falar, vejo seus olhos fechados e tremulando.

Também fecho os meus. Quando crianças, dormíamos juntas em muitos lugares diferentes: o banco de trás dos carros de nossos pais, sua casa de boneca perto da macieira, minha cama dupla, um cobertor estendido no gramado da frente.

Acordo sentindo um cobertor sobre mim. O pai de Ann está me cobrindo. Minha amiga já está sob uma colcha marrom.

- Você estava dormindo tão serena - ele sussurra. - Lembrei a época em que eram meninas.

Eu sinto ali aconchego e carinho. Observo Ann dormindo, reconhecendo seu rosto como uma canção familiar.

Ela abre os olhos e sorri para mim.

- Eu não teria adormecido na frente de uma pessoa qualquer - ela diz.

- Nem eu - retruco.

Chego mais perto e toco seu pulso. Lembro-me de nossas brincadeiras, quando nos dávamos as mãos e as crianças tentavam passar pela barreira que formávamos. Provocávamos Billy, que batia em nossas mãos grudadas. Conseguíamos nos manter firmes, mãos sempre unidas.

Ann segura minha mão. Seu rosto se crispa de dor. Entrelaço meus dedos com os dela e aperto firmemente.

 

 

Um amigo pode ser considerado a obra-prima da natureza.

RALPH WALDO EMERSON


 

O POTE RACHADO

WILLY McNAMARA

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 161

 

Um carregador de água indiano servia seu mestre transportando água de um riacho até sua casa. Ele carregava a água em dois potes pendurados nas extremidades de uma vara que equilibrava sobre os ombros.

Um dos potes tinha uma rachadura, o outro estava intacto. O pote sem rachaduras sempre chegava cheio à casa do mestre, enquanto o outro chegava pela metade.

Essa mesma história se estendeu por dois anos inteiros.

Todos os dias o carregador de água entregava na casa do mestre um pote cheio e o outro pela metade. O pote que chegava cheio naturalmente sentia orgulho do serviço que prestava, consciente de que cumpria o fim para o qual fora feito. Mas o pote rachado era infeliz, envergonhava-se da sua condição imperfeita, sentindo-se miserável por ser capaz de cumprir apenas metade da tarefa para a qual se destinava.

Depois de uma eternidade do que lhe parecia um terrível fracasso, o pote rachado falou para o carregador de água:

- Sinto tanta vergonha de mim mesmo! Queria lhe pedir desculpa.

- Mas por quê? - perguntou o carregador de água.

- Nos últimos dois anos essa rachadura na minha lateral fez com que a água vazasse pelo caminho até a casa do mestre, fazendo com que eu só conseguisse entregar metade da minha carga.

Você fez o seu trabalho, mas, por causa do meu defeito, não pôde beber o valor integral pelos seus esforços - lastimou o pote aflito.

Gentilmente, o carregador de água disse ao pote:

- Quando voltarmos da casa do mestre hoje, repare nas flores adoráveis às margens do caminho.

Quando o trio fez o caminho de volta, colina acima, o velho pote rachado notou as belas flores do campo - o sol fazendo cintilar suas faces brilhantes, a brisa curvando seus caules. Mas ainda assim, no fim da trilha, o pote defeituoso sentiu-se mal porque novamente tinha deixado vazar metade do seu conteúdo. Por isso, mais uma vez, pediu desculpas ao carregador pela sua falha.

Mas o carregador disse ao pote:

- Você notou que só havia flores de um lado da estrada? Como eu sempre soube dessa sua "falha”, semeei flores nesse lado do caminho e todo dia, ao fazermos o trajeto de volta, você rega essas flores. E todos os dias posso colher essas lindas flores e enfeitar a mesa do nosso mestre. Se você não fosse do jeito que é, o mestre não poderia apreciar a beleza graciosa dessas flores em sua casa.


 

PAPÉIS TROCADOS

THE BEST OF BITS e PIECES

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 163

 

Mary tinha um marido muito machista. Ambos trabalhavam em horário integral, mas ele não a ajudava em nada que se referisse à casa, muito menos no serviço doméstico. Isso, ele dizia, era trabalho de mulher.

Mas, numa noite, Mary chegou e encontrou as crianças já de banho tomado, a máquina de lavar batendo roupas, um outro tanto na secadora. O jantar estava pronto e a mesa lindamente posta, até com um arranjo de flores.

Mary ficou atônita, e imediatamente quis saber que milagre era aquele. Acontece que Charley, o marido, lera um artigo de revista segundo o qual mulheres que trabalham fora se comportariam de maneira mais romântica se não ficassem tão cansadas, tendo de fazer todo o serviço de casa depois de darem duro o dia inteiro.

No dia seguinte, Mary mal podia esperar para contar a novidade às colegas do escritório.

- Como foi? - elas perguntaram.

- Bem, o jantar foi ótimo - Mary disse. - Charley inclusive lavou a louça, ajudou as crianças com os deveres da escola, dobrou a roupa limpa e pôs tudo nos lugares.

- Mas e depois? - as amigas queriam saber.

- Não aconteceu nada - Mary disse. - Charley estava cansado demais.


 

ENCONTRO COM BETTY FURNESS

BARBARA HAINES HOWETT

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 165

 

Era o ano de 1964, quando os turistas disputavam o famoso calçadão de Atlantic City com a Convenção Nacional Democrática.

Na ocasião, eu trabalhava como garçonete num restaurante muito frequentado, além de criar cinco filhos e ajudar meu marido com o nosso mais novo empreendimento - um jornal semanal. Portanto, apesar da minha euforia e da abundância de gorjetas, eu estava simplesmente exausta e só via a hora de tudo aquilo acabar.

Uma noite, aproximei-me da mesa de uma cliente sem muito entusiasmo. Ela era mais magra e delicada do que eu podia me lembrar dos anos em que passou abrindo e fechando geladeiras nos comerciais da década de 1950, mas a voz firme e agradável era inconfundível. A mulher que iria jantar ali sozinha era Betty Furness.

Seu jeito caloroso e amigável amenizou o meu espanto por ter de servir uma celebridade. Soube então que ela viera a Atlantic City para fazer a cobertura jornalística da Convenção Nacional Democrática para um programa de rádio. Quando trouxe sua conta, juntei coragem para lhe pedir uma entrevista para o nosso pequeno jornal de subúrbio. Ela aceitou, convidando-me para almoçar.

Dois dias depois, ao me aproximar do hotel onde ela se hospedava, eu me sentia ora exultante com a sorte que tivera, ora nervosa diante da perspectiva de entrevistar uma mulher que um dia já chegara a receber mil e trezentas cartas de fãs semanalmente.

Eu já sabia um bocado sobre o meu tema. Modelo de uma grande agência aos catorze anos e estrela de cinema aos dezesseis, ela acabou se tornando um sucesso nos palcos. Mas era mais conhecida pela carreira brilhante como a mulher número 1 em vendas em todo os Estados Unidos. O nome Betty Furness era sinônimo de eletrodoméstico.

Por isso, durante a entrevista, me surpreendi com sua eloquência:

- Nunca mais farei outro comercial de TV na minha vida ela afirmou.

Betty me explicou que, quando fechou pela última vez a porta de uma geladeira nos comerciais da década de 1960, ela estava determinada a seguir uma outra carreira, desta vez no campo dos noticiários.

- Eu sabia que o mundo estava cheio de informações e que as pessoas estavam ávidas por elas - contou-me Betty. - Queria fazer parte disso.

E, no entanto, apesar de trabalhar nos noticiários da CBS, ela só ouvia-lhe dizerem que, tecnicamente, ela não era uma repórter.

- Isso era o que eu mais queria ser, mas a imprensa e o público se recusavam a levar a sério o meu desejo de fazer noticiários.

Havia alguma coisa na história dela que me pareceu extremamente familiar. Todo mundo me via como uma "simples garçonete", não como uma escritora. "Escritor é quem escreve", as pessoas diziam. Mas quando eu teria o dinheiro, o tempo, a força e a perseverança suficiente para me transformar no que eu queria - alguém como essa mulher, que tivera três carreiras pelas quais a maioria das mulheres daria tudo e que agora buscava uma outra para se realizar plenamente.

Mas a medida real do caráter dela, as "dimensões" do mundo dessa mulher, revelou-se no seu comentário final.

- Toda a minha vida se baseou numa única filosofia. Tenha o trabalho que tiver, faça-o da melhor forma possível e você acabará topando com as oportunidades certas de fazer o que realmente quer.

Nos anos que se seguiram a esse maravilhoso encontro com Betty, pude vê-Ia colocar sua sabedoria em prática. Pouco tempo depois da convenção, sua incrível força de vontade e sua visão positiva levaram-na a conseguir uma nova e desafiadora carreira como assistente especial de Lyndon Johnson para assuntos relacionados ao consumidor. Ela progrediu mais ainda e tornou-se chefe do Conselho de Proteção ao Consumidor em Nova York e membro da comissão encarregada dos assuntos ligados ao consumidor. Quando ouvi essa notícia, lembrei-me da filosofia dela e desejei-lhe felicidades.

Nos últimos anos, costumo vê-Ia toda noite no canal 5 de Nova York, como a primeira repórter de TV sobre assuntos relacionados ao consumidor. Rio em reconhecimento quando ela comenta sobre fabricantes de lençóis que não cabem nos colchões. Fiquei satisfeita quando soube através dela o que de fato continham alguns remédios comprados sem receita médica. E uma das suas reportagens mais recentes era típica de Betty: como se proteger dos hospitais - isso enquanto ela mesma entrava e saía de hospitais para se tratar de um câncer.

Ao longo dos anos, continuei estudando as palavras de Betty, que eu anexei à sua foto autografada. Coisas extraordinárias aconteceram na minha vida depois que me empenhei em colocar essas palavras em prática - algumas depois reforçadas pelo especialista em mitologia Joseph Campbell, que escreveu: "Siga a sua brisa interior e portas se abrirão onde antes não havia portas." Empregos que eu nunca quis ou imaginei que um dia teria passaram a ser apaixonantes, caminhos inesperados levaram-me a lugares com que nunca sonhei. Tudo começou aos trancos e barrancos. Passei de garçonete a gerente de relações públicas de um hospital, de repórter de jornal a editora associada de várias revistas, de consultora editorial a instrutora internacional - até finalmente realizar meu sonho de ser escritora profissional.

No dia em que vi o obituário de Betty soube que, aos setenta e seis anos, ela recebera o título de "a repórter mais idosa da TV". Enquanto lia sobre a vida dela e suas realizações, voltei à época daquela entrevista, quando ela contou seus segredos para mim. Mal sabia eu a grande dádiva que estava recebendo dessa generosa mulher que, naquele dia, percebera minha frustração.

Lembro-me dos participantes da convenção passando rapidamente por mim, enquanto eu pensava que minha vida não era exatamente o que eu pretendia. No entanto, eu tive a oportunidade de entrevistá-Ia, não tive? Tenha o trabalho que tiver, faça-o da melhor forma possível e você acabará topando com as oportunidades certas de fazer o que realmente quer.

Sim, ao longo dos anos tínhamos perseguido nossos sonhos separadamente e encontrado nossas oportunidades. Foi preciso talento, visão, comprometimento, perseverança e, o que é mais importante, uma fé inquebrantável de que podíamos reinventar a nós mesmas.

Mas tudo começou naquele momento, ali nas ruas de Atlantic City. Respirando fundo, forcei passagem entre a multidão, deixando um pouco de lado minhas ideias piramidais para a matéria que eu queria escrever aquela noite sobre Betty Furness.

Primeiro, eu tinha um trabalho para fazer da melhor maneira possível. Precisava alimentar minha família.


 

UM CÂNTICO NA ESCURIDÃO

Max Lucado

Histórias Para o Coração 15

 

Se fosse em qualquer outro dia, provavelmente eu não teria parado. Assim como a maioria das pessoas que caminhavam por aquela avenida movimentada, eu não teria notado a presença dele ali, em pé. Porém, em minha mente, eu sabia qual era o verdadeiro motivo de ele estar naquele lugar, por isso parei.

Eu havia passado parte da manhã preparando um estudo sobre o capítulo nove de João, aquele que narra a história do homem cego de nascença. Eu já havia almoçado e retornava a meu escritório quando o avistei. Ele estava cantando. Segurava uma bengala de alumínio na mão esquerda; a mão direita estava estendida e aberta, aguardando esmolas. Ele era cego.

Passei por ele e, após uns cinco passos, parei e resmunguei alguma coisa para mim mesmo a respeito da hipocrisia e dei meia-volta.

Coloquei alguns trocados na mão dele.

- Obrigado - ele disse. Em seguida, proferiu uma frase muito comum no Brasil: - Deus lhe pague e lhe dê muita saúde.

Desejo irônico.

Mais uma vez, segui meu caminho. Novamente, o estudo daquela manhã sobre o capítulo nove de João me fez parar: "Jesus viu um homem cego de nascença". Parei e meditei. Se Jesus estivesse aqui. teria visto esse homem. Eu não tinha certeza do que aquilo significava, mas sabia que não havia feito o que devia. Dei meia-volta outra vez.

Imaginando que minha esmola tivesse dado a mim o direito de fazer o que fiz em seguida, parei perto de um carro nas proximidades e fiquei observando. Forcei-me a olhar para ele. Eu ficaria ali até ver nele mais do que um simples indigente cego em uma via movimentada do centro do Rio de Janeiro.

Eu o vi cantar. Alguns pedintes encolhem-se em uma esquina suplicando piedade. Outros deitam seus filhos em cobertores no meio da calçada, sem nenhum pudor, imaginando que somente as pessoas de coração empedernido não dariam atenção a um bebê sujo e desnudo pedindo um pedaço de pão.:..

Aquele homem, porém, não fazia nada disso. Estava em pé. Tinha um porte altivo. E cantava. Cantava alto. Até mesmo com orgulho.

Qualquer um de nós teria mais motivos para cantar do que ele, más ele era o único que cantava. E mais: cantava canções folclóricas.

Em determinado momento, achei que ele cantou um hino, mas não tive certeza.

Sua voz rouca não combinava com o burburinho de um centro comercial. Igual a um papagaio que conseguiu entrar em uma fábrica barulhenta, ou a uma corça perdida em um cruzamento viário, seu cântico evocava um estranho casamento entre o progresso e a simplicidade.

Os passantes reagiam de maneiras diferentes. Alguns olhavam descaradamente para ele, com ar de curiosidade. Outros pareciam desconfortáveis. Abaixavam a cabeça ou desviavam o caminho.

- Nada de tristeza hoje, por favor.

A maioria, contudo, mal notava a presença dele. Tinham a mente ocupada, a agenda cheia, e ele não passava de... bem, ele não passava de um mendigo cego.

Fiquei satisfeito por aquele homem não poder ver o modo como as pessoas olhavam para ele. Após alguns minutos, voltei a aproximar-me dele.

- Você almoçou? - perguntei.  Ele parou de cantar. Virou a cabeça na direção de minha voz e dirigiu o rosto para um ponto além de minha orelha. Seu olhar era vazio. Ele disse que estava com fome. Dirigi-me a uma lanchonete nas proximidades e comprei um sanduíche e um refrigerante gelado para ele.

Quando voltei, ele continuava a cantar com as mãos vazias.

Agradeceu-me a comida. Sentamo-nos em um banco perto dali. Entre uma mordida e outra, ele me contou um pouco de sua vida. Tinha 28 anos. Era solteiro._ Vivia com os pais e sete irmãos.

- Você é cego de nascença?  Não. Sofri um acidente quando era menino.

Ele não se dispôs a contar detalhes, e eu não tive coragem de perguntar.

Apesar de termos quase a mesma idade, estávamos a anos-luz de distância. Minhas três décadas de vida consistiam de férias de verão em excursões com a família, Escola Dominical, equipes de debate, futebol e uma busca pelo Todo-Poderoso. Crescer cego no Brasil certamente não oferecia nenhuma dessas regalias.

Minhas preocupações diárias atuais estavam voltadas para pessoas, pensamentos, conceitos e comunicação. O dia dele era feito de preocupações de sobrevivência: moedas, donativos e comida. Eu iria para casa - um belo apartamento com comida quente e uma esposa bondosa. Eu detestava pensar no lar para o qual ele voltaria.

Já havia visto barracos apinhados de gente nos morros do Rio de Janeiro e podia imaginar como seria o dele. E a recepção que ele teria... haveria alguém para fazê-la sentir-se especial quando voltasse para casa?

Estive a ponto de -perguntar-lhe: "Você não fica furioso por eu não ser você? Não fica acordado à noite se perguntando por que o quinhão que lhe coube foi tão diferente do de alguém que ganhou muito dinheiro ou de outras pessoas nascidas 30 anos atrás?" Eu trajava camisa, gravata e sapatos novos. Os sapatos dele tinham furos, e a roupa era volumosa, bem maior que seu corpo.

Uma das pernas da calça estava rasgada no joelho.

Mesmo assim, ele cantava. Apesar de cego e sem dinheiro, ele havia encontrado uma canção e a cantava com intrepidez. (Eu me perguntei de que compartimento de seu coração teria surgido aquela canção.) Na pior das hipóteses, imaginei, ele cantava por desespero. A canção era tudo o que ele possuía. Mesmo quando não recebia nenhuma moeda, ele tinha, ao menos, uma canção. Contudo, parecia ter uma grande paz interior para estar cantando apenas para sobreviver.

Ou talvez cantasse por ignorância. Talvez não soubesse o valor daquilo que nunca teve.

Não. Eu decidi que a motivação que explicava sua conduta era a última imaginável. Ele estava cantando de alegria. Talvez aquele pobre homem cego tivesse descoberto uma vela chamada satisfação, que iluminava seu mundo totalmente escuro. Alguém deve ter-lhe dito, ou talvez ele tivesse descoberto sozinho, que a alegria de amanhã origina-se da aceitação do hoje. Aceitação daquilo que pelo menos momentaneamente, não podemos modificar.

- Olhei para aquela imensidão de rostos que passavam por nós.

Semblantes carrancudos. Profissionais. Alguns determinados. Outros disfarçados. Mas ninguém estava cantando, nem mesmo silenciosamente. Como seria se o rosto de cada pessoa demonstrasse o que realmente se passava em seu coração? Quantos diriam "Desesperado! Dificuldades nos negócios!" ou "Quebrado:

Necessitando de Conserto" ou "Decepcionado, Agitado e Apavorado"? Pouquíssimos.

A ironia era dolorosamente engraçada. Aquele cego podia ser o homem mais sereno da rua. Sem nenhum diploma, sem nenhum

reconhecimento, sem nenhum futuro pelo menos no sentido estrito da palavra. E eu me perguntei quantas pessoas naquela cidade tresloucada trocariam suas salas de reuniões e ternos elegantes, por um segundo sequer, para ter a oportunidade de beber um pouco da água do poço daquele jovem.

"Fé é o pássaro que canta enquanto o dia ainda não clareou."

Antes de ajudar meu amigo a voltar à sua posição de pedinte, tentei verbalizar minha empatia.

- A vida é dura, não?

Um ligeiro sorriso. Novamente, ele virou o rosto na direção de minha voz e ameaçou dar uma resposta, mas fez uma pausa e disse:

- É melhor eu voltar ao meu trabalho.

Mesmo a uma distância de quase um quarteirão, eu ainda o ouvia cantar. E podia vê-lo com os olhos da mente. Porém, o homem que agora eu' via era diferente daquele a quem eu dera alguns trocados. Apesar de continuar cego, ele possuía um discernimento extraordinário. E, apesar de ser eu quem enxergava; foi ele quem me deu uma nova visão.


 

SEMPRE RESTA ALGUMA COISA PARA AMAR

Tony Campolo

Histórias Para o Coração 20

 

 

Alguns anos atrás, assisti à peça Raisin in the Sun (Uva Passa ao Sol), de Lorraine Hansberry, e ouvi um trecho que até hoje não me sai da memória. Na peça, uma família afro-americana recebe US$ 10.000 provenientes do seguro de vida do pai. A dona da casa vê no dinheiro a oportunidade de deixar o gueto onde vivia no Harlem e de mudar-se para uma casa no campo, enfeitada com jardineiras. À filha, uma moça muito inteligente, vê no dinheiro a oportunidade de realizar seu sonho de estudar medicina.

O filho mais velho, contudo, apresenta um argumento difícil de ser ignorado. Quer o dinheiro para que ele e um "amigo" iniciem um negócio juntos. Diz à família que, com o dinheiro, ele poderá trabalhar por conta própria e facilitar a vida de todos. Promete que, sê puder lançar mão do dinheiro, proporcionará à família todos os confortos que a vida lhes negou.

Mesmo contra a vontade, a mãe cede aos apelos do filho. Ela tem de admitir que as oportunidades nunca foram tão boas para ele e que ele merece a vida boa que esse dinheiro pode oferecer-lhe.

Conforme você deve ter imaginado, o tal "amigo" foge da cidade com o dinheiro. Desolado, o filho é forçado a voltar para casa e dizer à Família que suas esperanças para o futuro lhe foram roubadas e que seus sonhos; de uma vida melhor foram desfeitos. A irmã atira-lhe no rosto toda sorte de insultos. Qualifica-o com as palavras mais grosseiras que se possa imaginar. Seu desprezo em relação ao irmão não tem limites.

Quando ela pára um pouco para respirar, a mãe a interrompe e diz:

- Pensei que tivesse ensinado você a amar seu irmão.

Beneatha, a filha, responde:

- Amar meu irmão? Não restou nada nele para eu amar.

E a mãe diz:

- Sempre sobra alguma coisa para amar. E, se você não aprendeu isso, não aprendeu nada. Você chorou por ele hoje? Não estou perguntando se você chorou por causa de si mesma e de nossa família, por termos perdido todo aquele dinheiro. Estou perguntando se chorou por ele: por aquilo que ele sofreu e pelas conseqüências que terá de enfrentar. Filha, quando você acha que é tempo de amar alguém com mais intensidade: no momento em que faz coisas boas e facilita a vida de todos? Bem, então você ainda não aprendeu nada, porque esse não é o verdadeiro momento de amar. Devemos amar quando a pessoa está se sentindo humilhada e não consegue acreditar em Si mesma, porque o mundo a castigou demais. Se julgar alguém, faça-o da forma  certa; filha, da forma certa. Tenha a certeza de que você levou em conta os revezes que ele sofreu antes de chegar ao ponto em que está agora.

Essa é a graça misericordiosa! É o amor ofertado quando não se fez nada para merecê-lo. É o perdão concedido quando não se fez nada para conquistá-lo. É a dádiva que flui como as águas refrescantes de um riacho para extinguir as labaredas provocadas por palavras de condenação carregadas de ira.

O amor que o Pai nos oferece é muito mais abundante e generoso.

A graça que Deus nos dá é muito mais copiosa.

 


 

ACEITAÇÃO

Paul Brad e Philip Yancey

Histórias Para o Coração 22

 

 

John Karmegan, um paciente leproso, foi me procurar em Vellore na Índia. Sua enfermidade se encontrava-se em estado avançado. Pouco podíamos fazer  por ele em termos cirúrgicos,  seus pés e mãos já haviam sofrido lesões irreparáveis.

Podíamos, contudo, oferecer-lhe um lugar para morar e um emprego no Centro Vida Nova.

Uma paralisia de um dos lados da face o impedia de sorrir normalmente. Quando John tentava dar um sorriso, suas feições ficavam distorcidas, chamando a atenção para a paralisia. Normalmente as pessoas reagiam com um grito sufocado ou com um gesto de medo e por isso ele aprendeu a não sorrir. Margaret minha esposa, havia suturado parcialmente suas pálpebras para proteger-lhe a visão. A paranoia de John foi aumentando cada vez mais em relação ao que os outros pensavam dele.

- John teve problemas terríveis no convívio social, talvez como forma de reagir à sua aparência desfigurada. Demonstrava raiva pelo mundo e agia como um baderneiro. Lembro-me de várias situações tensas que tivemos de enfrentar pelo fato de haver provas contra John de envolvimento em roubos e em outros atos de desonestidade.

Ele tratava seus companheiros enfermos com crueldade e resistia a toda sorte de autoridade chegando ao ponto de organizar greves de fome para nos hostilizar. Na opinião da maioria das pessoas ele era um homem irrecuperável.

Essa condição irrecuperável de John deve ter atraído a atenção de minha mãe, porque ela sempre dedicou-se a compreender os elementos mais indesejáveis da espécie humana. Ela preocupou-se com ele e passava horas a seu lado, até o dia em que o levou aceitar a fé cristã e foi batizado em um tanque de cimento nas instalações do leprosário.

A conversão, contudo, não diminuiu os acessos de raiva de John contra o mundo. Ele fez alguns amigos entre os companheiros de enfermidade, mas uma vida inteira de rejeição e de maus-tratos deixaram marcas permanentes de exacerbação contra todas as outras pessoas. Certo dia, John me perguntou, de maneira quase desafiadora, o que aconteceria se ele visitasse a igreja Tamil de Vellore.

Fui falar com os líderes da igreja, descrevi John e assegurei-Ihes que, apesar de suas deformidades marcantes, ele havia entrado em uma fase da doença que não poria em risco a saúde dos membros da congregação. Os líderes concordaram com a visita de John. Ele pode participar da Ceia? - perguntei, sabendo que a igreja usava o mesmo cálice para todos.

Eles se entreolharam, refletiram por alguns instantes e concordaram em que John também poderia participar.

Pouco tempo depois, levei John à igreja, que se reunia em uma casa simples A Igreja era uma casa de tijolos caiados, com teto de chapas de ferro onduladas. Foi um momento tenso para ele. Todos nós, pessoas sadias, mal podemos imaginar o trauma e a paranoia que ocorrem dentro de um paciente leproso que tenta, pela primeira vez, entrar em um ambiente como aquele. Fiquei em pé ao lado dele nos fundos da igreja. Seu rosto paralisado não expressava nenhuma reação, mas um ligeiro tremor deixava transparecer seu turbilhão interior. Orei silenciosamente para que nenhum membro da Igreja demonstrasse o mais leve sinal de rejeição.

Assim que entramos na igreja, durante o cântico do primeiro hino, um indiano virou-se para trás e nos viu. Devíamos ser a dupla estranha: um branco de pé ao lado de um leproso com um rosto desfigurado. Prendi a respiração.

E vejam o que aconteceu. O homem fechou o hinário, deu um largo sorriso e apontou para a cadeira a seu lado, convidando John a sentar-se ali. John foi pego de surpresa. Altivo, ele caminhou com passos arrastados até a fileira de cadeiras e sentou-se. Murmurei uma oração de gratidão.

Aquele único incidente marcou uma mudança radical na vida de John. Anos mais tarde, retomei a Vellore e fiz uma visita a uma fábrica que havia sido instalada para dar emprego a deficientes físicos. O gerente queria mostrar-me um equipamento que produzia minúsculos parafusos para peças de máquinas de escrever. Enquanto caminhávamos pela fábrica barulhenta, o gerente gritou para mim que me apresentaria a um funcionário exemplar, o qual acabara de receber um prêmio da matriz, representando todas as filiais da Índia, pela excelente qualidade de seu trabalho, com um número extremamente baixo de peças rejeitadas. Quando chegamos ao seu focal de trabalho, o operário virou-se para nos cumprimentar, e eu vi o inconfundível rosto desfigurado de John Karmegan. Ele limpou a graxa de sua mão rechonchuda e contorceu o rosto, dando o sorriso mais feio, mais encantador e radiante que já vi. Em seguida, ele me mostrou, para minha avaliação, um punhado daqueles minúsculos parafusos que o fizeram ganhar o prêmio.

Um simples gesto de aceitação talvez não signifique muito, mas, para John Karmegan, provou ser decisivo. Após ter sido ignorado a vida inteira por sua imagem física ele finalmente foi acolhido por causa de outra Imagem. Eu acabara de ver uma reprodução da própria reconciliação de Cristo. Seu Espírito havia induzido seu Corpo na terra a adotar um novo membro, e, finalmente, John soube que pertencia a ele.

 


 

CORAGEM

Histórias Para o Coração 26

 

 

Aconteceu algumas semanas antes do Natal de 1911. As lindas paisagens cobertas de neve da Europa estavam enegrecidas pela guerra.

As trincheiras, de um lado, abrigavam alemães e, do outro, norte-americanos. A Primeira Guerra Mundial estava em curso. A troca de tiros era intensa. Separando os inimigos havia uma faixa de terra muito estreita, que não pertencia a nenhum dos lados. Um jovem soldado alemão que tentara cruzá-la foi baleado e acabou enroscado na cerca de arame farpado. Ele gritou de desespero, gemia de dor. Entre uma bomba e outra, todos os norte-americanos daquele setor podiam ouvir seus gritos. Não suportando mais aquilo, um soldado norte-americano saiu da trincheira e rastejou em direção ao soldado alemão. Quando os norte-americanos perceberam o que o colega estava fazendo, imediatamente pararam de atirar, mas os alemães prosseguiram. Um oficial alemão viu o gesto altruísta do jovem norte americano e ordenou que seus comandados cessassem fogo. Houve um silêncio estranho naquela faixa de terra. O norte-americano rastejou até o soldado alemão e o desenroscou do arame farpado. Em seguida, ele se levantou, apoiou o alemão, e caminhou em direção às trincheiras inimigas e o deixou nos braços dos companheiros. Após ter feito isto, virou-se para voltar às trincheiras norte-americanas.

De repente, sentiu uma mão pousar em seu ombro e olhou para trás. Lá estava um oficial alemão que havia recebido a Cruz de Ferro, a mais alta condecoração alemã por bravura. Ele arrancou a medalha da farda e a colocou na do norte-americano, que retornou para sua trincheira. Quando chegou são e salvo, todos voltaram a ocupar-se com a loucura da guerra!

 

 


 

HUMPTY DUMPTY RECEBE NOVA VISTA

Vic Pentz

Histórias Para o Coração 28

 

 

 

Mas, logo a seguir, o Rei tomou conhecimento da queda de Humpty e ficou muito preocupado.  Deixando de lado

seus aparatos reais e disfarçado como um mendigo  qualquer,  o  Rei atravessou, despercebido, os majestosos portões do palácio e misturou-se à vida agitada e confusa do povo de seu reino.

O Rei andou a esmo  por  ruas secundárias  e vielas à procura de Humpty. Após vários dias e noites, o persistente monarca o encontrou. Os fragmentos do corpo de Humpty estavam em uma viela espalhados em um raio de mais de três metros, misturados com cacos de vidro e latas de cerveja amassadas. Apesar de sentir-se fraco por ter andado tanto tempo à procura de Humpty, o Rei ficou muito feliz ao vê-lo. Correu para perto dele e gritou:

- Humpty! Sou eu, o seu Rei! Tenho poderes maiores que os de meus homens e cavalos, que não conseguiram juntar seus pedaços. Fique tranquilo.  Estou aqui para ajudar!

- Deixe-me em paz - disse Humpty, com a boca retorcida. - Já me acostumei a esta nova vida. Estou até gostando dela.

- Mas ... - foi tudo o que o Rei pôde dizer antes de Humpty prosseguir.

- Não se preocupe, estou bem.  Gosto daqui.  Daquelas latas amassadas ... da maneira como a luz do Sol brilha nos vidros quebrados... Aqui deve ser o jardim mais famoso do mundo!

O Rei tentou novamente.

- Eu lhe asseguro que meu reino tem muito mais a oferecer do que esta viela escura. Lá existem montanhas verdejantes, ondas quebrando na praia, cidades exuberantes...

Mas Humpty não queria saber de nada disso. E, assim, o Rei retornou aborrecido ao palácio.

Uma semana depois, um dos olhos de Humpty virou em direção ao céu, e ele viu mais uma vez o rosto preocupado do Rei pairando sobre os fragmentos de seu corpo.

- Eu vim para ajudar - disse o Rei, com firmeza.

- Deixe-me em paz, está bem? - disse Humpty. -Acabei de falar com meu psiquiatra, e ele me garantiu que vou viver bem neste ambiente, da forma como ele é. Você é um medroso. Um homem te m de  lidar com a vida como ela é. Sou realista.

- Mas você não gostaria, pelo menos, de andar?  -  perguntou o Rei.

- Olhe - retrucou Humpty-, assim que eu me levantar e começar a andar, vou ter de permanecer em pé e continuar a andar. A esta altura da vida, não estou disposto a me submeter a isso. Agora, com licença. Você está fazendo sombra, impedindo que eu receba a luz do Sol.

O Rei deu meia-volta com relutância e atravessou as ruas de seu reino em direção ao palácio.

Depois de um ano, o Rei aventurou-se a visitar Humpty novamente.

Por incrível que possa parecer, em uma bela manhã ensolarada os ouvidos de Humpty captaram os passos firmes do Rei. Desta vez, ele 'estava preparado. O olho de Humpty fixou-se naquela figura alta e, no mesmo instante; ele conseguiu proferir as palavras:

- Meu Rei!

Imediatamente, o Rei ajoelhou-se  sobre o chão forrado de cacos de vidro. Suas mãos fortes e hábeis começaram a ajuntar cuidadosamente os fragmentos de Humpty. Algum tempo depois de completar seu trabalho, o Rei ficou em pé, levantando do chão a figura de um jovem vigoroso.

Os dois caminharam de mãos dadas por todo o reino. Juntos escalaram montanhas verdejantes. Juntos correram pelas praias desertas. Juntos riram e divertiram-se, caminhando pelas cidades deslumbrantes dos domínios do Rei. Essa aventura jamais  teve fim. E a profundidade, a largura e a altura da amizade entre eles também jamais teve fim.

Certo dia, enquanto ambos caminhavam pela calçada de uma das cidades do Rei, Humpty ouviu uma observação que fez seu coração saltar de alegria por sua nova vida e lembrar-se com tristeza da antiga viela. Alguém perguntou:

- Quem são aqueles dois homens? Outro respondeu:

- O da esquerda é o velho Humpty Dumpty. Não sei quem é o da direita, mas os dois parecem irmãos!

 

 

 

N. da T: Humpty Dumpty é um personagem de poemas infantis ingleses, com a forma de um ovo, que cai de um muro e se espatifa.


 

LIÇÕES DE UMA JOVEM ENFERMEIRA

Rebecca Manley Pippert

Histórias Para o Coração 31

 

 

Eileen foi uma de suas primeiras pacientes, um caso completamente sem esperanças. "Um aneurisma cerebral (rompimento de veias no cérebro)", escreve a enfermeira, "impedia que ela tivesse consciência do que ocorria em todo o seu corpo." Logo os médicos concluíram que Eileen estava totalmente inconsciente, incapaz de sentir dor e alheia a tudo o que se passava a seu redor. A equipe de enfermagem do hospital tinha a responsabilidade de virá-la no leito a cada hora para evitar a formação de escaras e de alimentá-la duas vezes por dia "com uma espécie de mingau ralo que passava por um tubo até chegar ao estômago". Cuidar dela era uma tarefa ingrata.

- Em estados tão graves como esse - dissera-lhe uma enfermeira mais antiga do hospital -, você precisa desligar-se emocionalmente da situação.

Em consequência disso, Eileen começou a ser tratada cada vez mais como um objeto, um vegetal...

A jovem enfermeira, porém, decidiu que não trataria aquela paciente assim. Ela conversava com Eileen, cantava para ela, incentivava-a e chegou até a presenteá-la com algumas lembrancinhas. Certo dia, quando a situação ficou realmente muito complicada, sendo   a ocasião ideal  para  a jovem enfermeira  descarregar  toda sua frustração sobre a paciente, ela, pelo contrário, agiu com extrema bondade. Era o Dia de Ações de Graças, e a enfermeira disse à paciente:

- Eu estava muito mal-humorada esta manhã, Eileen, porque hoje seria o meu dia de folga. Mas, agora que estou aqui, sinto-me feliz. Eu não poderia deixar de vê-la no Dia de Ação de Graças. Você sabia que hoje é Dia de Ação de Graças?

Nesse exato momento, o telefone tocou. Enquanto se virava para atendê-lo, a enfermeira olhou de relance para a paciente. Ela relatou: Eileen estava "olhando para mim ... chorando. Grandes lágrimas caíam sobre o travesseiro, e seu corpo inteiro tremia".

Aquela única manifestação de emoção que Eileen deixou transparecer foi suficiente para mudar a atitude de todos os funcionários do hospital em relação a ela. Pouco tempo depois, Eileen faleceu. A jovem enfermeira encerra seu artigo dizendo: "Continuo a pensar nela... Ocorreu-me que devo muito a ela. Se não fosse Eileen, eu jamais saberia o que significa dedicar-se a alguém que não pode oferecer nada em troca."


 

É IMPORTANTE

Jeff Ostrander

Histórias Para o Coração 34

 

 

No litoral do imenso oceano Atlântico, vivia um senhor idoso. Todos os dias, quando a maré baixava, ele fazia uma caminhada de quilômetros ao longo da praia. Outro homem que morava nas proximidades o observava desaparecer na distância e, mais tarde, retomar ao ponto de partida. O vizinho também via que, enquanto caminhava, o velho curvava-se, de tempos em tempos, para pegar alguma coisa na areia e a atirava na água.

Certo dia, enquanto o velho caminhava pela praia, o vizinho o seguiu para matar a curiosidade. Da mesma maneira de sempre, o velho curvou-se e pegou delicadamente alguma coisa da areia e a atirou no mar. Quando o velho curvou-se novamente, o vizinho encontrava-se a uma distância razoável para ver que ele estava pegando uma estrela-do-mar que ficara presa na areia quando a maré baixou e que, evidentemente, morreria de desidratação antes que a maré voltasse a subir. Quando o velho virou-se para devolver a estrela-do-mar ao oceano, o vizinho o chamou com um tom zombeteiro na voz:

- Ei, velhote! O que você está fazendo? Esta praia estende-se por centenas de quilômetros, e existem milhares de estrelas-do-mar sendo atiradas aqui todos os dias! Você não acredita mesmo que seja importante devolver algumas ao mar...

O velho ouviu com atenção. Depois de uma pausa, levantou a estrela-do-mar diante do rosto de seu vizinho e disse:

- Para esta aqui é importante.

 


 

O SIGNIFICADO DE MISERICÓRDIA

Alice Gray

Histórias Para o Coração 35

 

 

Havia um jovem no exército de Napoleão que cometeu um ato tão terrível a ponto de ser condenado à morte. Na véspera de seu fuzilamento, a mãe do jovem foi falar com Napoleão e implorou misericórdia para o filho.

Napoleão replicou:

- Mulher, seu filho não merece misericórdia.

- Eu sei - ela disse. - Se ele a merecesse, não seria misericórdia.


 

ESCOLHIDO

Histórias Para o Coração 37

 

 

Todas as vezes que fico decepcionada com o que me acontece nesta vida, paro e penso no pequeno Jamie Scott. Jamie estava tentando conseguir um papel na peça da escola. A mãe dele me contou que ele havia se dedicado de todo o coração àquela tarefa, mas ela receava que o filho não fosse escolhido. No dia marcado para a distribuição dos papéis, fui com ela buscar Jamie após as aulas. Jamie correu para a mãe, com os olhos brilhando, cheios de orgulho e euforia.

- Sabe o que aconteceu, mãe? - ele gritou, animado, em seguida proferindo estas palavras que até hoje me servem de lição:

- Fui escolhido para bater palmas e dar vivas.


 

O PRIMEIRO PÁSSARO

William E. Barton

Histórias Para o Coração 39

 

 

O inverno havia sido longo. Muito frio, com bastante neve, e a primavera ainda não tinha chegado. Levantei-me bem cedo, olhei através de minha janela e contemplei um pássaro.

Em seguida, chamei Keturah e disse:

- Vem rápido e apressa-te para ver quem chegou à janela. Aqui está um amigo nosso que veio de um país longínquo para nos visitar.

Keturah aproximou-se da janela e também viu o pássaro.

O pássaro olhou para nós e saiu saltitando pela terra tria e árida à procura da minhoca madrugadora, porém o pássaro foi mais madrugador que a minhoca. E Keturah correu à cozinha para ver o que poderia encontrar para o pássaro comer.

Eu me dirigi ao pássaro e disse:

- Estiveste em um lugar quente, onde o sol brilhou. E poderias ter continuado lá. Mas estás aqui. E vieste enquanto ainda é inverno, porque a profecia da primavera está em teu sangue. Tua fé é a essência de coisas que esperaste e a evidência de coisas que não viste. Chegaste aqui depois de voares muitos quilômetros, sim, centenas de quilômetros, rumo a uma terra desolada, porque tens dentro de tua alma a certeza de que a primavera está próxima. Oh, oxalá houvesse entre os seres humanos certeza tal que encaminhasse alguém para seu alto destino com uma convicção tão grande quanto a tua!

E eu pensei nos olhos, formados na escuridão, mas feitos para enxergar a luz; e nos ouvidos maravilhosamente modelados no silêncio, mas feitos para ouvir música; e na alma humana, que nasceu em um mundo onde existe o pecado, mas que também nasceu com a esperança da retidão.

E eu abençoei o passarinho que me fez pensar nessas coisas. E, quando fui à cidade naquele dia, as pessoas diziam:

- Que coisa! O inverno não está muito frio e longo? E eu respondi:

- Não quero mais ouvir falar do inverno. E elas perguntaram:

- Por que não devemos falar do inverno? Não estás vendo o termômetro e as latas de carvão vazias?

Ergui a cabeça com orgulho e disse:

- Não quero mais ouvir falar do inverno. Esta manhã vi o primeiro pássaro. Para mim, a primavera já chegou.


 

NÃO DESISTA

Charles Swindow

Histórias Para o Coração 41

 

 

Ignace Jan Paderewski, famoso compositor e pianista, estava programado para apresentar-se em um grande salão de concertos nos Estados Unidos. Foi uma noite inesquecível – smokings e vestidos longos, uma ostentação da alta sociedade. Presente na plateia naquela noite estava uma mãe acompanhada de seu irrequieto filho de nove anos. Cansado de esperar, o filho se mexia constantemente na poltrona. A mãe tinha esperança de que ele se animasse a estudar piano ao ouvir o imortal Paderewski tocar.

Mesmo contra a vontade, o menino estava ali. Enquanto ela virou-se para conversar com alguns amigos, o menino desistiu de ficar sentado. Afastou-se dela estranhamente atraído pelo enorme piano de ébano Steinway e pela macia banqueta de couro instalados no imenso palco, cujas inúmeras lâmpadas acesas chegavam a ofuscar os olhos. Sem atrair a atenção da requintada plateia, o menino sentou-se na banqueta, com os olhos arregalados diante das teclas brancas e pretas. Em seguida, colocou seus dedos pequenos e trêmulos nas teclas certas e começou a tocar o "Bife".

O vozerio da plateia cessou, e centenas de rostos carrancudos voltaram-se em direção ao garoto. Irritadas, as pessoas começaram a gritar:

"Tirem essee garoto daí!"

"Quem trouxe essae moleque aqui?"

"Onde está a mãe dele?"

"Mandem o garoto parar!"

Dos bastidores, o mestre ouviu a gritaria e pôs-se a imaginar o que estaria acontecendo. Apressado, ele pegou sua casaca e correu para o palco. Sem dizer uma só palavra, curvou-se sobre o garoto, passou os braços ao redor dele e começou a improvisar uma música que se harmonizava com o Bife para torná-Io mais melodioso.

Enquanto os dois tocavam. Paderewski sussurrava o tempo todo ao ouvido do garoto:

- Continue. Não desista. Continue tocando... não pare... não desista.

O mesmo acontece conosco. Esforçamo-nos para Ievar adiante um projeto, que parece tão insignificante quanto o "Bife" em um salão de concertos. E. quando estamos prontos para desistir, chega o Mestre, que se curva sobre nós e sussurra:

Continue... Não desista. Vá em frente... não pare, não desista. enquanto Ele improvisa uma melodia para nos ajudar, proporcionando o toque certo no momento certo.


 

O CONVIDADO DO MAESTRO

Max Lucado

Histórias Para o Coração 43

 

 

O que acontece quando um cão interrompe um concerto? Para responder a essa pergunta, acompanhe-me em uma visita a Lawrence, Kansas, em uma noite de primavera.

Sente-se no Hoch Auditorium e contemple a Orquestra Leipzig:

Gewandhaus - a mais antiga orquestra em atividade no mundo.

Ela já foi regida pelo; maiores compositores e maestros da história e existe desde os tempos de Beethoven (alguns músicos foram substituídos).

Você vai ver homens elegantes, vestidos à moda europeia, tomando assento no palco. Vai ouvir os profissionais afinando cuidadosamente seus instrumentos. A percussionista aproxima o ouvido do timbale. O violinista tange a corda de náilon. O clarinetista ajusta a palheta. E você endireita o corpo na poltrona, enquanto as luzes diminuem de intensidade e as afinações terminam. A música já vai começar.

O maestro, trajando fraque, caminha com passos firmes pelo palco, sobe ao pódio e faz um gesto para que a orquestra se levante. Você e outras duas mil pessoas aplaudem. Os músicos voltam a sentar-se, o maestro posiciona-se corretamente: e a plateia prende a respiração.

Existe um segundo de silêncio entre o relâmpago e o trovão. E há um segundo de silêncio entre o levantar da batuta e a explosão da música. Quando a orquestra começa a tocar, os céus abrem-se e todos ficam deliciosamente enlevados com a melodia da Terceira Sinfonia de Beethoven.

Foi esse o poder daquela noite de primavera em Lawrence, Kansas. Daquela noite quente de primavera em Lawrence, Kansas.

Mencionei a temperatura para você compreender por que as portas ficaram abertas. Estava quente. O Hoch Auditorium, um edifício histórico, não tinha ar condicionado. O resultado da combinação de luzes brilhantes no palco com trajes formais e música arrebatadora é uma orquestra cheia de vivacidade. As portas laterais do "'palco foram abertas para que uma brisa fortuita pudesse penetrar no ambiente.

Surge, do lado do palco um cão. Não um cão feroz. Não um cão louco. Apenas um cão curioso. Ele passa pela dupla de contrabaixos, segue em direção aos segundos-violinos e passeia por entre os violoncelos.

O cão passa em meio aos componentes da orquestra. Todos olham para ele,  uns para os outros e, em seguida, tocam o próximo compasso.

O cão dá preferência a um determinado violoncelo. Talvez por causa do arco ferindo lateralmente as cordas. Talvez porque as cordas estivessem no nível de seus olhos. Por um motivo ou outro, o violoncelo atraiu a atenção do cão, e ele parou e pôs-se a observar. O violoncelista não sabia ao certo o que fazer. Ele nunca havia tocado para uma plateia canina.

Mas o cão não fez nada, a não ser olhar por alguns instantes, e continuou a andar. 

Se ele tivesse passado pela orquestra inteira, a música teria continuado. Se ele tivesse atravessado o palco, indo parar nas mãos de um funcionário do teatro, a plateia talvez não tivesse notado sua presença. Mas ele não arredou pé. Continuou no palco. Parecia à vontade diante daquele esplendor. Andando a esmo entre os acordes da música.

Aproximou-se dos instrumentos de sopro, virou a cabeça em direção aos pistons, deu alguns passos entre os flautistas e parou ao lado do maestro. E a Terceira Sinfonia de Beethoven foi interrompida. Os músicos riram. A plateia riu. O cão olhou para o maestro e fungou. E o maestro abaixou a batuta.

A orquestra mais histórica do mundo. Uma das mais comoventes obras compostas até hoje. Uma noite envolta em glória. Tudo arruinado por causa dos caprichos de um cão.

Os risos cessaram assim que o maestro olhou para trás. Haveria uma reação de fúria? A plateia silenciou diante do olhar firme do maestro. Um pavio curto teria sido aceso? O refinado diretor alemão olhou para a plateia, olhou para o cão. Em seguida, tornou a olhar para o povo, levantou as mãos em sinal de rendição encolheu os ombros.

Todos caíram na gargalhada.

Ele desceu do pódio e coçou o cão atrás da orelha. A cauda do cão voltou a balançar. O maestro falou com o cão. Falou em alemão, e aparentemente o cão compreendeu. Os dois conversaram por alguns instantes até que, por fim, o maestro pegou seu novo amigo pela coleira e o retirou do palco. Pela maneira como o cão foi aplaudido, você poderia pensar que ele era Pavarotti. O maestro voltou ao seu lugar, a música recomeçou. Beethoven não foi prejudicado de maneira alguma por causa do incidente. Você é capaz de se imaginar vivenciando essa cena no lugar do cão? Eu sim. Digamos que nosso nome seja Fido. E imagine que Deus seja o Maestro.

E visualize o momento em que vamos entrar no palco que pertence a Ele. Não merecemos. Não fazemos nada para merecer. Poderemos até surpreender os músicos com nossa presença.

A música será grandiosa como nunca ouvimos. Caminharemos em meio aos anjos e os ouviremos cantar. Fixaremos o olhar nas luzes do céu e prenderemos a respiração diante de seu intenso fulgor.

E nos aproximaremos do Maestro, ficaremos a seu lado adorando-o enquanto Ele rege... Veremos o que não pode ser visto e viveremos esse evento. [Somos convidados] a aguçar os ouvidos para a canção celestial e a ansiar pelo momento em que ficaremos ao lado do Maestro.

Ele também nos acolherá. E Ele também conversará conosco.

Mas não nos mandará embora. Ele nos convidará a ficar para sempre no palco, como seus convidados.


 

JIMMY DURANTE

Histórias Para o Coração 47

 

 

 

Há uma história maravilhosa a respeito de Jimmy Durante, um dos grandes comunicadores da geração passada. Ele foi convidado a participar de uma apresentação para os veteranos da Segunda Guerra Mundial. Jimmy disse que sua agenda estava lotada. Poderia estar lá por apenas alguns minutos. Só iria à apresentação caso pudesse fazer um curto monólogo e sair imediatamente  para o compromisso seguinte. Evidentemente, o diretor concordou, satisfeito.

Porém, enquanto Jimmy estava no palco, aconteceu uma coisa interessante. Ele terminou o curto monólogo e continuou  no lugar.

Os aplausos eram cada vez mais intensos, e ele não se afastou dali. Passaram-se 15 minutos, 20, 30. Finalmente, ele curvou o corpo em sinal de agradecimento e saiu do palco. Nos bastidores, alguém o parou e disse:

- Pensei que você tivesse de ir embora logo. O que houve?

- E eu precisava ir mesmo - Jimmy respondeu -, mas posso mostrar-lhe por que fiquei. Vai entender se olhar para a primeira fila.

Na primeira fila, havia dois homens. Ambos tinham perdido um braço na guerra. Um perdera o braço direito, e o outro, o esquerdo. Juntos, conseguiam bater palmas, e era exatamente o que estavam fazendo: batendo palmas com força e gritando de entusiasmo.


 

O DIA EM QUE BART SIMPSON OROU

Lee Strobel

Histórias Para o Coração 48

 

 

Bart não estava indo bem na quarta série. Ser reprovado pelo péssimo resumo que fez do livro A Ilha do Tesouro, do qual conhecia apenas o que estava escrito na capa, foi a gota d'água. Sua professora convocou uma reunião com os pais de Bart e o psiquiatra da escola, e  todos chegaram à conclusão de  que o garoto deveria repetir a quarta série.

Bart ficou assustado demais!

- Olhem dentro de meus olhos - ele disse. - Os senhores estão vendo minha sinceridade? Estão vendo convicção? Estão vendo medo? Eu juro que posso melhorar!

Afinal de contas, não há nada pior a um garoto de dez anos do que repetir um ano na escola.

Bart elaborou um plano. Fez um acordo com um estudante inteligente chamado Martin. Ensinaria Martin a ser malandro se o colega o ajudasse a passar na prova de História dos Estados Unidos. O exame final seria extremamente importante, porque, se fosse aprovado,  Bart receberia o diploma.

Bart ensinou a Martin todos os macetes de malandragem, tais como: arrotar a um sinal de comando, pichar portas das garagens, atirar pedras

com estilingue em garotas sem que elas desconfiassem de onde partiram. E, certamente, Martin tornou-se o garoto mais popular da escola - tão popular que não teve tempo de ajudar Bart nos estudos.

Agora imagine esta cena: noite anterior à grande prova. Bart, sentado  diante  da escrivaninha em  seu quarto,  olhando fixamente para um livro  aberto,  tentava  estudar,  quando  sentiu  um  arrepio ao se dar conta de que era tarde demais. Ele não podia gravar tudo na memória em uma só noite para ser aprovado. Depois de algum tempo, sua mãe espiou dentro do quarto e disse:

- Já passa da hora de dormir, Bart.

Bart fechou lentamente o livro. A poucas horas do exame, parecia que todas as suas opções haviam evaporado. Foi quando ele ajoelhou-se ao lado da cama e orou a Deus:

 

Não há mais esperança. Bem, meu  Velho Amigo, acho que chegarei ao fim da estrada. Sei que não tenho sido um bom garoto e, se tiver de ir à  escola amanhã, vou fracassar e perder o ano. Só preciso de mais um dia para estudar Senhor. Preciso de ajuda! Uma greve de professores, falta de energia elétrica, uma nevasca - qualquer coisa que faça a escola não funcionar amanhã. Sei que estou pedindo demais, mas ninguém pode fazer nada por mim, a não o Senhor. Desde já, obrigado. Seu amigo, Bart Simpson.

 

A cena muda do lado de fora da casa de Bart. As luzes de seu quarto apagaram-se. Estava frio e escuro.  Após alguns  instantes, um único floco de neve caiu no chão.  Em  seguida,  outro.  Mais outro. De repente, começou uma verdadeira nevasca.  Na verdade, foi a maior  na  história  da  cidade!  Ao  fundo,  ouvia-se  um  coro de "Aleluias".

No  dia  seguinte,  a  escola  não  funcionou.  Bart lutou contra a tentação de andar de trenó com seus amigos e ficou em casa estudando com afinco. Quando chegou a hora da prova, um dia depois, ele fez o melhor que pôde, mas respondeu errado a uma pergunta. Aparentemente, havia sido reprovado - até que, no último instante, Bart conseguiu somar milagrosamente mais um ponto e passou no exame pela tangente, com um -D. Bart ficou tão contente que beijou sua professora antes de atravessar a porta de saída da escola. Homer [seu pai]  ficou  tão  feliz que colou  a  prova de  Bart na porta da geladeira e disse:

- Estou orgulhoso de você, garoto. Ao que  Bart respondeu:

- Obrigado, pai. Mas parte deste pertence a Deus.


 

NO BALCÃO

Paula Kirk

Histórias Para o Coração 50

 

 

O feriado da Páscoa foi terrível. Enquanto eu cruzava os corredores do aeroporto, tinha o coração apertado diante da devastação ocorrida na vida de minha filha. Após um ano de casamento, seu marido a abandonara, e ela quase entrou em estado de choque por causa de tanta tristeza. Minha filha era controladora de tráfego aéreo e estava muito preocupada, sem saber se teria condições de concentrar-se no trabalho.

Parei para comprar algumas lembrancinhas para meus netos quando retornasse a meu lar. Enquanto o cartão de crédito era processado, a sorridente recepcionista perguntou se eu havia gostado de sua terra natal.

- É linda - eu disse. - Como outras cidades que já visitei.

- É verdade - ela concordou. - Deus criou um mundo maravilhoso de que podemos desfrutar. Há tanta diversidade! O que a senhora notou aqui de especial neste feriado?

Imediatamente, meus olhos encheram-se de lágrimas. O sofrimento era recente e ameaçava vir à tona.

- Não viajei por causa do feriado. Houve um problema muito sério na família. Minha filha está atravessando uma fase difícil. Detesto ter de deixá-la sozinha - eu disse, com certa dificuldade.

- Oh, mas Deus é bom.  Ele vai ajudar sua filha.

- Eu sei - murmurei por entre as lágrimas que agora corriam livremente pelo meu rosto.

Levei daquele balcão mais do que algumas lembrancinhas. Levei um pouco do poder da ressurreição de Cristo - o poder do amor de Deus para alcançar e curar um coração ferido.


 

TODAS AS COISAS BOAS

Irmã Helen P. Mrosla

Histórias Para o Coração 51

 

 

Ele foi meu aluno na terceira série do  Colégio Santa Maria, de Morris, Minnesota. Todos os meus 34 alunos eram muito importantes para mim, mas Mark Eklund era especial, um em um milhão. Muito cuidadoso com a aparência, ele estampava no rosto uma alegria tão  grande  de  viver  que  suas travessuras ocasionais chegavam a ser encantadoras.

Mark também falava sem parar. Eu precisava dizer-lhe repetidas vezes que não era permitido conversar sem autorização. Porém, o que mais me impressionava era a resposta sincera que ele me dava todas as vezes que eu o repreendia por mau comportamento:

- Obrigado por ter-me corrigido, Irmã!

A princípio, eu não sabia como reagir, mas, com o passar do tempo, acostumei-me a ouvir essa frase várias vezes ao dia.

Certa manhã, minha paciência estava chegando ao fim quando, mais uma vez, Mark começou a tagarelar. Foi então que cometi o erro de   toda  professora novata.  Olhei firme para Mark e disse:

- Se você disser mais uma palavra, vou colar um esparadrapo em sua boca!

Menos de dez segundos depois, Chuck deixou escapar:

- Mark está conversando novamente.

Eu não havia pedido a nenhum dos alunos que me ajudasse a tomar conta de Mark, mas tive de  cumprir  com  a palavra por ter feito a ameaça diante da classe.

Lembro-me da cena como se tivesse acontecido esta manhã. Caminhei  até minha mesa, abri deliberadamente a gaveta  e peguei um rolo de esparadrapo. Sem dizer uma só palavra, dirigi-me à carteira de Mark, cortei dois  pedaços  de esparadrapo  e os colei em formato de X em sua boca. Em seguida, voltei ao meu lugar e fiquei de frente para a classe.

Quando olhei para Mark para ver sua reação, ele piscou para mim. Foi o suficiente para eu começar a rir. A classe inteira aplaudiu quando me aproximei da carteira de Mark, retirei o esparadrapo e encolhi os ombros. Suas primeiras palavras foram:

-  Obrigado por ter-me corrigido, Irmã.

No final do ano, fui designada para lecionar  matemática  para os alunos da penúltima série. Os anos seguintes voaram, e, de repente, Mark voltou a ser meu aluno. Ele estava muito mais bonito e continuava educado. Ouvia atentamente minhas instruções sobre a "nova matemática" e já não conversava tanto na nona série como fazia na terceira.

Em uma determinada sexta-feira, as coisas não correram como deveriam. Depois de estudarmos um novo conceito durante toda a semana, percebi que os alunos estavam frustrados consigo mesmos, demonstrando irritação uns com os outros. Eu teria de pôr 6m a essa situação antes que o controle da classe me fugisse das mãos. Pedi aos alunos que relacionassem os nomes de todos os colegas de classe em duas folhas de papel, deixando uma linha em branco depois de cada um. Em seguida, pedi a eles que pensassem na coisa mais bonita que poderiam dizer a respeito de cada colega e que a escrevessem no espaço correspondente.

A tarefa durou o restante da aula. Ao saírem da classe, os alunos me entregaram os papéis. Charlie sorriu, e Mark disse:

- Obrigado pela aula, Irmã. Tenha um bom fim de semana.

Naquele sábado, escrevi o nome de cada aluno em folhas de papel individualizadas e relacionei os comentários de seus colegas. Na segunda-feira, entreguei a cada aluno a folha de papel que lhe pertencia. Dentro de poucos minutos, a classe inteira estava sorrindo.

- Será verdade? - ouvi alguém sussurrar.

- Eu nunca imaginei ser tão importante assim para alguém!

- Eu não sabia que meus colegas gostavam tanto de mim!

Ninguém voltou a falar daquelas folhas de papel na classe. Eu nunca fiquei sabendo se eles trocaram ideias entre si ou com os pais, mas isso não importava. A tarefa havia alcançado seu objetivo. Os alunos ficaram felizes consigo mesmos e com os colegas.

Aquele grupo de alunos deixou o colégio. Anos mais tarde, após eu ter retornado de férias, meus pais foram encontrar-se comigo no aeroporto. Enquanto nos dirigíamos para casa, minha mãe fez as perguntas rotineiras sobre a viagem: o clima, minhas experiências em geral. Havia uma atmosfera  um tanto estranha em nossa conversa. A certa altura, minha mãe olhou de esguelha para meu pai e disse simplesmente:

- E então?

Meu pai limpou a garganta,  conforme  costumava  fazer antes de dizer algo importante:

- Os Eklunds telefonaram ontem à noite - ele começou a dizer.

- Verdade? -  eu disse. -  Faz anos que não tenho notícias deles.

Gostaria de saber como Mark está. Papai respondeu serenamente:

- Mark foi morto no Vietnã. O funeral será amanhã, e os pais dele gostariam que você comparecesse.

Até hoje me lembro do local exato da estrada I-494, onde meu pai me falou sobre Mark.

Eu nunca havia visto um militar das Forças  Armadas dentro de um caixão. Mark tinha urna fisionomia tão bonita, tão amadurecida. Tudo o que pensei naquele momento foi: Mark, eu daria todos os esparadrapos do mundo para que você pudesse conversar comigo.

A igreja estava lotada de amigos de Mark. A irmã de Chuck cantou o "Hino da Batalha da República". Por que teve de chover no dia do funeral? Foi difícil chegar à beira da sepultura. O pastor proferiu as orações costumeiras, e ouvimos o toque de silêncio. Uma a uma, todas as pessoas que amaram Mark passaram pela última vez diante do caixão e o olharam.

Eu fui a última. Naquele momento, um dos soldados que ajudara a carregar o esquife aproximou-se de mim e perguntou:

- A senhora foi professora de matemática de Mark?

Assenti com a cabeça, sem tirar os olhos do caixão.

- Mark falava muito a seu respeito.

Após o funeral, a maioria dos ex-colegas de classe de Mark dirigiu-se à casa da fazenda de Chuck para almoçar. Os pais de Mark estavam presentes, obviamente aguardando minha chegada.

- Queremos mostrar-lhe uma coisa- disse o pai dele, tirando uma carteira do bolso. - Quando Mark foi morto, encontraram isso aqui com ele. Achamos que a senhora reconheceria.

Ele abriu a carteira e  retirou  cuidadosamente  duas  folhas de caderno amassadas e que,  por  certo,  haviam sido dobradas  e redobradas várias  vezes.  Mesmo  antes  de olhar,  eu sabia  que naqueles papéis estavam relacionadas todas as coisas boas que  os colegas de Mark escreveram sobre ele.

- Muito obrigada por ter feito isso - disse a mãe de Mark. - Como a senhora pode ver, Mark guardava esses papéis como se fosse um tesouro.

Os colegas de Mark começaram a se reunir ao redor de nós.

Charlie sorriu timidamente e disse:

- Eu ainda guardo minha lista. Está em casa, na primeira gaveta de minha escrivaninha.

A esposa de Chuck disse:

- Chuck me pediu que colocasse a dele em nosso álbum de casamento.

- Eu também guardei a· minha- disse Marilyn. - Está no meu diário.

Em seguida, Vicki, outra colega de classe de Mark, enfiou a mão no bolso, tirou uma carteira e mostrou ao grupo a sua lista surrada.

- Carrego sempre esta lista comigo- ela disse sem pestanejar. - Acho que ela salvou a vida de todos nós.

Foi então que eu me sentei e chorei. Chorei por Mark e por todos os seus amigos que nunca mais o veriam.


 

A MÃO

Histórias Para o Coração 55

 

 

O editorial do jornal no Dia de Ação de Graças contava a história de uma professora que pediu a seus alunos da primeira série que desenhassem alguma coisa pela qual eles se sentissem agradecidos. Ela não podia imaginar o que aquelas crianças, criadas em bairros tão pobres, teriam para agradecer.

Porém, ela sabia que a maioria desenharia perus sobre mesas fartas de alimentos. A professora ficou muito surpresa com o desenho que Douglas lhe entregou... uma simples mão desenhada com dificuldade.

De quem seria aquela mão? A classe foi atraída por aquela imagem enigmática.

- Acho que deve ser a mão de Deus que traz alimentos para nós - disse uma das crianças.

- É a de um fazendeiro - disse outra -, porque ele cria perus.

Depois que todas as crianças retornaram a seus lugares, a professora curvou-se sobre a carteira de Douglas e perguntou-lhe de quem era aquela mão.

- Sua mão da senhora, professora - ele murmurou.

A professora lembrou-se de que costumava conduzir Douglas, um menino pobre e raquítico, ao recreio, segurando-o pela mão.

Às vezes, ela ajudava outras crianças também, mas aquele gesto significava muito para Douglas. Talvez seja esse o verdadeiro sentido do Dia de Ação de Graças. Ser grato não pelas coisas materiais que conquistamos, mas pela oportunidade de ser útil aos outros, mesmo que a ajuda pareça insignificante.

 

 


 

O TRANSEUNTE

Histórias Para o Coração 58

 

 

Eu o via quase todas as manhãs quando olhava pela janela da sala de estar de minha casa. Ele passou a fazer  parte de meu dia-a-dia. Com o corpo ligeiramente curvado, ele arrastava um pouco uma das pernas. O pé era tão torto que ele pisava mais com a lateral do que com a sola do  sapato.  Eu  calculava  que  ele tivesse uns 80 anos. Vestia uma simples camisa  de flanela.  Ao vê-lo sair sob o ar gelado das manhãs de  inverno,  eu  me perguntava  se ele não estaria  sentindo frio.

Certa manhã, enquanto eu cuidava do jardim, vi o velho homem sorrir e despentear  o cabelo  de   um  garotinho  que  passava  por  ele a caminho da escola.

É agora ou nunca, pensei, atravessando corajosamente a rua e apresentando-me  a ele.

Seus olhos azuis desbotados criaram vida, e seu rosto contorceu-se em outro sorriso, desta vez para mim.

- Minha esposa e eu somos suíços. Viemos primeiro para o Canadá e depois para os Estados Unidos - ele disse. - Já faz muitos anos. Trabalhamos muito.  Conseguimos  economizar  um  pouco de dinheiro, o suficiente para comprarmos um pedaço de terra. Como eu não falo inglês muito bem, pego as cartilhas das crianças e estudo-as sozinho até aprender. - Ele riu ao olhar para a escola de ensino fundamental do outro lado da cerca. Em seguida, seu semblante ficou circunspecto. - Não temos filhos.

Refleti sobre a conversa na quietude daquela manhã, profundamente emocionada pela solidão que senti em sua voz enquanto ele falava dos parentes que restaram em sua terra natal, cuja distância não era apenas medida em quilômetros. Eles viviam em mundos completamente diferentes.

- Minha esposa não está muito bem - ele me disse quando perguntei sobre ela.

Eu queria aproximar-me dele,  oferecer  ajuda,  ser  sua  amiga, mas achei que já havia me intrometido demais na vida daquele desconhecido. A palavra apropriada para o momento era discrição. Comecei a volta r para minha casa.

- Por favor - eu disse, deixando um convite em aberto-, qualquer dia desses, quando o senhor estiver passando por aqui, entre e tome uma xícara de café comigo.

Durante alguns dias, eu não o vi passar diante de minha casa, mas pensava nele com frequência. Estaria ele confinado em casa ou enfermo? Será que a saúde de sua esposa havia piorado repentinamente? Se ao menos eu soubesse o nome dele ou onde morava... Meu convite desajeitado não me saía da cabeça. Eu queria tanto ser amiga dele!

Depois de alguns meses, eu o vi novamente. Enquanto eu passava por um local a cerca de 15 minutos a pé de minha casa, avistei o seu familiar jeito de andar com dificuldade e mancando. Ele caminhava lentamente, com os ombros caídos e um dos pés tão  retorcido que o calcanhar não se encaixava no sapato. Seu rosto pálido estava mais magro que da última vez, mas seus olhos ainda brilhavam, e ele sorriu reconhecendo-me quando voltei a me apresentar. Fique i sabendo que o nome dele era Paul.

- Não ando mais como costumava - ele explicou. - Não posso deixar minha esposa muito tempo sozinha. A cabeça dela não está muito boa. - Ele fez uma careta e tocou a testa com a mão. - Esquece tudo. - Em seguida, fez um gesto em direção a uma casa verde e branca, de madeira, do outro lado da rua e perguntou:

- A senhora gostaria de ir até lá para ver meus desenhos?

- Estou indo buscar meu carro na oficina - eu disse, desculpando-me -, mas adoraria vê-los em outra ocasião.

- Então, venha esta noite, está bem? - Ele tinha um ar esperançoso.

- Oh, sim - eu disse-, está combinado.

Naquela noite, o aroma forte que exalava dos pinheiros tomava conta do ar gelado e causticante. Paul aguardava com olhar esperançoso perto da janela. Quando ele abriu a porta, vi que estava bem arrumado para receber uma visita.

Sua esposa, magra e franzina, apareceu na porta da cozinha, enrolando os cabelos brancos em formato de birote.

- Entre, entre - ela insistiu, com um sorriso bonito para sua idade, estendendo a mão macia e enrugada.

- Esta - disse Paul - é Bertha, minha esposa. - Ele endireitou o corpo e ficou mais alto. - Estamos casados há 56 anos.

Naquela noite, conheci os desenhos de Paul feitos com caneta e tinta. Percorremos cômodo por cômodo. Os quadros com molduras simples estavam pendurados nas paredes, e as folhas avulsas, guardadas dentro de gavetas. Havia esboços de pessoas famosas, paisagens, qualquer coisa que lhe viesse à mente. Cada um tinha sua história.

Contudo, a mais comovente era a dura realidade de um talento como o dele sendo ignorado pelas pessoas de  sua  geração. Seu pai lhe dizia:

- Não vou gastar dinheiro à toa com você. Se ficar sentado desenhando desse jeito, nunca vai ser nada na vida.

A mãe morreu quando ele tinha nove anos. Ele se lembrava da varinha batendo-lhe na cabeça todas as vezes que ela o encontrava com um lápis e um bloco na mão.

- Faça alguma coisa útil. Não perca seu tempo - ela ralhava.

Quando retornamos à cozinha, Bertha procurava alguma coisa com que pudesse expressar sua hospitalidade.

- Eu gostaria de ter alguns bolinhos para lhe oferecer. Não posso mais cozinhar como fazia antes.

 - Agradeço muito. Acabei de jantar - eu disse.

O jantar deles era entregue de carro por uma instituição filantrópica três vezes por semana.

- Não  podemos comer muito. Sempre sobra alguma coisa para o dia seguinte. Menos às segundas-feiras. Nesse dia, temos de preparar nossa comida.

Eles pediram  que  eu ficasse  mais um pouco. Sentamos e conversamos. A dignidade tomava conta de toda a casa.

Paul atendeu à porta na segunda-feira seguinte. Seus olhos voltaram-se para a bandeja que eu carregava.

Ele ficou  feliz  com  minha chegada,  mas seu semblante  aflito  e agitado deixava transparecer que eu presenciaria uma briga.

Bertha, pálida e nervosa, tentava controlar-se.

- Não estamos nos sentindo bem hoje, e eu não consigo me lembrar de nada. - Ela levantou as mãos em sinal de rendição. - Acho que é... velhice!

Eles me conduziram à cozinha. A sopa em lata havia derramado no fogão.

As mãos de Paul tremiam. Ele me mostrou o buraco provocado pelo fogo na manga de sua camisa enquanto tentava aquecer a sopa. A labareda, abafada no momento de minha chegada, havia provocado aquele estrago. Ele pôs a mão na testa e suspirou, tentando readquirir o controle.

- É isso que me aborrece às vezes - ele disse, arrumando as facas e os garfos na mesa enquanto eu colocava ali a comida que havia preparado.

Bertha continuava nervosa, sem saber onde colocara a colher de pau, que agora não era mais necessária. Senti pena dela.

A fragilidade, as irritações, as frustrações, as limitações e os temores causados pela idade haviam sido demais para eles naquela manhã. Comovida ao ver tudo aquilo,  segurei  as  mãos trêmulas de Bertha.

- Podemos nos sentar e orar? - perguntei.

- Oh! - exclamou Bertha. - É disso que precisamos. Paul sentou-se em uma cadeira ao lado do sofá.

Depois de orar, olhei para os dois. Gratidão e alívio estavam estampados no rosto deles. Toda a tensão desaparecera. Abracei-os com força e fiquei feliz quando eles também me abraçaram.

- Você é muito boa para nós - disse Paul, dirigindo-se à mesa da sala de jantar e puxando uma cadeira para sua esposa.

Não, pensei, Deus é muito bom para mim. Ele permitiu que eu compartilhasse esse momento em que tocava o coração de duas pessoas a quem Ele ama muito.

Como me senti abençoada por isso! Eu queria me tornar amiga daquele casal, pois Ele colocara esse desejo em meu coração.

O MENINO COM PARALISIA CEREBRAL

Tony Campolo

Histórias Para o Coração 63

 

 

Fui convidado para ser conselheiro de um acampamento de alunos da penúltima série. Todo mundo deveria fazer isso pelo menos uma vez na vida. A ideia fixa de garotos dessa idade.

durante um bom período. é atormentar as pessoas. E. nesse caso particular, nesse acampamento específico, havia um menino que sofria de paralisia cerebral. Seu nome era Billy. E seus colegas o atormentavam.

Ah, e como o atormentavam! Quando Billy atravessava o acampamento sem conseguir coordenar os movimentos, eles se aproximavam e imitavam seus movimentos grotescos. Certo dia, eu o vi indagando como chegar a determinado lugar.

- Qual... é..: o caminho... até... a loja... de... artesanatos? - ele gaguejou com a boca contorcida.

E os garotos o imitaram, gaguejando da mesma maneira.

- É... logo... ali... Billy - disseram, rindo em seguida.

Fiquei furioso.

Minha raiva chegou ao ponto máximo na manhã de quinta-feira, quando foi a vez de Billy dirigir a devocional. Eu me perguntei o que aconteceria, porque eles haviam designado Billy para ser o orador. Eu sabia que os garotos só queriam divertir-se à custa dele. Enquanto Billy caminhava com passos lentos até a frente do auditório, eu podia ouvir risadinhas vindas de todos os lados. Billy levou quase cinco minutos para proferir sete palavras:

- Jesus... me... ama... e... eu... amo... Jesus.

Quando ele terminou, houve um silêncio mortal. Olhei por cima do ombro e vi, em seguida, garotos da penúltima série gritando de alegria por todo lado. Houve um reavivamento naquele local após o curto testemunho de Billy. Em minhas viagens pelo mundo todo, encontro missionários e pregadores que dizem:

- Lembra de mim? Estive naquele acampamento para alunos da penúltima série.

Nós, os conselheiros havíamos feito todas as tentativas possíveis para atrair aqueles garotos para Jesus. Chegamos a trazer para dar testemunho jogadores de beisebol, cuja média; de pontos por jogo haviam melhorado sensivelmente desde que começaram a orar. Mas Deus não escolheu -usar aqueles exímios jogadores e, sim, um menino com paralisia cerebral para quebrantar os espíritos arrogantes. Esse menino é uma dádiva de Deus.


 

DIA DOS NAMORADOS

Dalle Galloway

Histórias Para o Coração 67

 

 

O pequeno Chad era um menino tímido e calado. Certo dia, ao  retornar  para casa,  contou  à mãe que  gostaria de dar um cartão a cada colega de classe. Sua mãe ficou angustiada. Eu não gostaria que ele fizesse, ela pensou, porque costumava observar as crianças quando voltavam da escola para casa. Chad sempre caminhava atrás dos colegas. Eles riam, brincavam e  conversavam entre si, mas Chad sempre era deixado de lado. Todavia, ele decidiu que colaboraria com o filho. Comprou papel, cola e lápis de cor. Durante três semanas, trabalhando dias a fio, Chad conseguiu, com muito esforço, confeccionar 35 cartões.

O Dia dos Namorados começava a amanhecer, e Chad não cabia em si de contentamento! Empilhou os cartões cuidadosamente, colocou-os na mochila e disparou porta afora. Sua mãe resolveu assar os biscoitos favoritos do filho e servi-los com um copo de leite geladinho assim que ele chegasse da escola. Ela sabia que Chad voltaria desapontado... e aquele lanche  poderia  aliviar  um pouco o seu sofrimento. Era angustiante pensar que Chad não receberia muitos cartões - talvez nenhum.

Naquela tarde, ela arrumou a mesa com os biscoitos e o leite. Quando ouviu o vozerio dos garotos lá fora, olhou pela janela. Como sempre, lá vinham eles, rindo e se divertindo. E, como sempre, lá vinha Chad atrás do grupo. Ele caminhava um pouco mais rápido do que o normal. Ela esperava que o filho se desmanchasse em lágrimas assim que entrasse em casa. Ele chegou com as mãos vazias e, quando abriu a porta, a mãe lutava para conter o choro.

 

- A mamãe preparou biscoitos quentes e leite para você.

Mas Chad não prestou atenção no que ela disse. Caminhando com passos firmes e o rosto brilhando de alegria, ele proferiu apenas estas palavras:

- Nenhum... nenhum.

E, em seguida, complementou:

- Não esqueci nenhum, nenhum deles!

 

 

" Nos Estados Unidos, comemorado em 14 de fevereiro. Nesse dia, as pessoas enviam cartões não só aos namorados, mas também a amigos e pessoas queridas.


 

DECIDIR

Viktor E. Frankl

Histórias Para o Coração 69

 

 

O Dr. Victor E. Frankl, que sobreviveu a três terríveis anos em Auschwitz e em outras prisões nazistas, registrou suas observações sobre a vida nos campos de concentração de Hitler:

 

Nós, que vivemos em campos de concentração, lembramo-nos dos homens que caminhavam pelos alojamentos confortando os companheiros, oferecendo-lhes seu último pedaço de pão. Eles eram poucos em número, mas deram provas suficientes de que tudo pode ser tirado de um homem, menos uma coisa: a expressão última da liberdade humana - o poder de decidir que atitude tomar em determinadas circunstâncias e que caminho seguir.

 


 

APENAS UM COMEÇO

Gary Smalley e John Trent

Histórias Para o Coração 70

 

 

Conhecemos um casal abastado de Dallas que enfrentou grandes dificuldades para ensinar a seus filhos a arte de servir ao próximo. O problema era que, durante anos, as crianças sempre tiveram tudo o que desejaram. Acostumaram-se tanto a ter seus desejos satisfeitos que a ideia de "servir" alguém parecia coisa da Idade Média... ou de Marte.

O pai daquela família compreendeu que estava começando um pouco tarde, mas, um momento! começar tarde é melhor do que não começar!

Cerca de uma semana antes do feriado de Ação de Graças, ele disse à família:

- Vamos fazer uma coisa diferente neste Dia de Ação de Graças. Seus  filhos  adolescentes  ficaram  alerta  e  prestaram atenção.

Normalmente, quando o pai dizia coisas desse tipo, elas significavam algo exótico.  Por exemplo,  navegar de barco a vela nas  Bahamas.

Mas desta vez não foi nada  disso.

- Vamos trabalhar na missão - ele disse. - Vamos servir a ceia do Dia de Ação de Graças a pessoas pobres e sem-teto.

- Fazer o quê?

- Ah, papai, você está brincando... não é verdade? Diga que está brincando...

Ele não estava brincando.  Os  filhos concordaram  por causa da insistência do pai, mas não ficaram nada felizes diante dessa perspectiva.  Por um motivo qualquer, o pai havia tomado uma "atitude excêntrica" e, aparentemente, tirara aquela ideia da própria cabeça. Trabalhar na missão! E se os seus amigos soubessem disso?

Ninguém poderia prever o que aconteceria naquele dia.  E ninguém da família podia lembrar-se de um dia melhor que passaram juntos. Eles se aglomeraram na cozinha, colocaram o peru com o molho em travessas enfeitadas, fatiaram a torta de abóbora e encheram um sem-número de xícaras de café. Depois, brincaram com as crianças e ouviram os mais velhos contarem histórias sobre o Dia de Ação de Graças que haviam acontecido muito tempo atrás e bem longe dali.

O pai ficou muito satisfeito (e por que não dizer atônito?) diante da reação dos filhos. Mas não estava preparado para o pedido que lhe foi feito algumas semanas depois.

- Papai... queremos voltar à missão para servir a ceia de Natal!

E eles serviram. Enquanto as crianças brincavam, eles reencontraram algumas pessoas que conheceram no Dia de Ação de Graças. Uma determinada família carente não lhes saía do pensamento, e todos ficaram felizes quando a viram novamente na fila da sopa. Desde aquela ocasião, as famílias têm-se visitado. Os adolescentes mimados arregaçaram as mangas outra vez para servir pessoas de um dos bairros mais pobres de Dallas.

Houve uma mudança importante, e ao mesmo tempo sutil, dentro daquela casa. Os adolescentes deixaram de ter a certeza de que conseguiriam tudo na vida. Seus pais notaram que eles ficaram mais sérios... mais responsáveis. Sim, foi um começo tardio. Mas foi um começo.


 

COMO E A SUA CIDADE?

Histórias Para o Coração 72

 

 

Havia um homem idoso e muito sábio. Todos os dias, ele se sentava em sua cadeira de balanço, ao lado de um posto de gasolina, e esperava para cumprimentar os motoristas que transitavam por sua pequena cidade. Certo dia, a neta desse homem ajoelhou-se aos pés de sua cadeira e passou um longo tempo fazendo-lhe companhia.

Enquanto eles observavam as pessoas chegando e partindo, um homem alto, que parecia um turista - pois o avô e a neta conheciam todos os moradores da cidade -, começou a andar de um lado para o outro como se estivesse examinando o local para morar ali. O forasteiro aproximou-se dos dois e perguntou:

- Como é esta cidade?

O senhor idoso virou-se lentamente e disse:

- E como é a cidade de onde o senhor vem?

- Na cidade de onde venho - respondeu o turista -, todo mundo critica todo mundo. Os vizinhos fazem mexericos. É um lugar péssimo para viver. Estou feliz por sair de lá. Não é muito agradável.

O homem sentado na cadeira de balanço olhou para o forasteiro e disse:

- Sabe de uma coisa? Esta cidade é exatamente assim.

Mais ou menos uma hora depois, uma família que também estava de passagem pela cidade fez uma parada para reabastecer. O carro rodou lentamente e parou diante do local onde o senhor idoso e

 


 

NÃO ERA IMPORTANTE

Charles Colson

Histórias Para o Coração 74

 

 

Os jovens da Igreja Cristã de Shively, dirigidos na época pelo pastor da  mocidade  Dave  Stone,  competiam bravamente

com a igreja vizinha, a Batista de Shively, em tudo, principalmente nos jogos de softball [forma modificada de beisebol, jogado com bola mais macia e maior]. Eles levavam a sério o Cristianismo, frequentando assiduamente o acampamento bíblico de verão dirigido pelo jovem pastor.

O estudo bíblico de uma das semanas referia-se ao capítulo 13 do Evangelho de João, que menciona o episódio em que Jesus lavou os pés de seus discípulos.  Para enfatizar a lição sobre a  humildade, o pastor Stone dividiu os jovens em grupos e pediu-lhes que saíssem para encontrar  uma maneira  prática de ajudar alguém .

- Quero que vocês sejam como Jesus nesta cidade durante as próximas duas horas - ele disse. - Se Jesus estivesse aqui, o que Ele faria? Imaginem como Ele ajudaria o povo.

Duas horas depois, os jovens reuniram-se novamente na sala de estar da casa do pastor para relatar o que haviam feito.

Um grupo trabalhou durante duas horas no jardim de um senhor idoso. Outro comprou sorvetes e os serviu a  várias  viúvas  da igreja. Um terceiro grupo visitou um membro da igreja que estava hospitalizado e entregou-lhe um cartão. Outro foi a uma casa de repouso e cantou cantigas natalinas - sim, cantigas natalinas em pleno mês de agosto. Um idoso que morava ali comentou que foi o Natal mais feliz do qual ele se lembrava.

Porém, quando o quinto grupo levantou-se e relatou o que havia feito, todos deram um gemido de desgosto. Esse grupo visitara a igreja rival, a Batista de Shively, e perguntara ao pastor se ele conhecia alguém que necessitava de ajuda. O pastor os encaminhou ao lar de uma senhora idosa que precisava de alguém para cuidar de seu jardim. Ali, eles trabalharam durante duas horas, cortando a grama, varrendo as folhas secas e aparando a cerca viva.

Quando eles estavam prontos para partir, a senhora chamou o grupo e agradeceu o trabalho de todos.

- Eu  não sei o  que  faria sem sua  ajuda -  ela disse. -  Vocês, da Batista de Shively, estão sempre vindos aqui para me socorrer.

- Batista de Shively! - interrompeu o pastor Stone. - Espero que vocês tenham dito a ela que pertenciam à Igreja Cristã de Shively.

- Por  quê?  Não,  não  dissemos  -   retrucou  um dos  jovens .

- Achamos que  não era importante.


 

GALINHAS

Anne Padden

Histórias Para o Coração 76

 

 

No maravilhoso clássico de Jack London, White Fang [Caninos Brancos], conta a história de um animal, metade cão e metade lobo, que luta para sobreviver na floresta e, depois, aprende a viver no meio dos homens. Há um trecho em particular que ficou gravado em meu coração.

White Fang tinha predileção por galinhas e, em certa ocasião, invadiu um galinheiro e matou 50. Seu dono, Weeden Scott, a quem White Fang considerava um deus e "amava de todo o coração", chamou-lhe a atenção e, depois, colocou-o dentro do galinheiro. Quando viu seu alimento favorito andando de um lado para o outro debaixo de seu nariz, White Fang obedeceu a seu  impulso natural e atacou uma das galinhas. Imediatamente, seu dono o repreendeu com voz forte. Os dois ficaram juntos no galinheiro por algum tempo. Todas as vezes que White Fang ameaçava atacar uma galinha, a voz do dono o impedia. Assim, ele aprendeu aquilo que seu dono queria não importunar as galinhas.

O pai de Weeden Scott argumentou que "não podemos dominar o instinto de um matador de galinhas", mas Weeden o desafiou e ambos concordaram  em trancar White  Fang no galinheiro durante a tarde inteira.

 

Trancado no galinheiro e sem o olhar vigilante do dono, White Fang deitou-se e dormiu. Levantou-se apenas uma vez e caminhou até a tina para beber água. As galinhas não lhe deram atenção. Para White Fang, as galinhas simplesmente não existiam. Às 16 horas, ele correu e deu um impulso com o corpo, indo parar no telhado do galinheiro. Em seguida, saltou no chão do lado de fora e dirigiu-se para a casa. Ele havia aprendido a regra.

 

Por amor a seu dono e desejo de obedecer-lhe, White Fang dominou seus instintos naturais. Talvez ele não tenha compreendido o motivo de ter-se curvado à vontade do dono.

As histórias sobre animais têm o dom de quebrantar nosso coração e, geralmente, nos revelam uma grande verdade. A simplicidade e a pureza do amor e devoção de White Fang a seu dono ajudaram-me a compreender que minha vida estará sempre rodeada de "galinhas". Eu só preciso decidir uma coisa: a quem vou servir?


 

O MILIONÁRIO E A LAVADORA DE ESCADAS

William E. Barton

Histórias Para o Coração 78

 

 

Há um certo milionário que tem um Escritório no Segundo Andar do Edifício do First National Bank. Para subir até seu Escritório, ele usa o Elevador, mas, para descer, usa as Escadas.

Ele é um Homem Arrogante, que um dia foi pobre e progrediu no Mundo. É um Homem que se fez por conta  própria  e adora seu criador.

Paga o Aluguel regularmente no primeiro dia do mês e não se importa com os Seres Humanos que dirigem os Elevadores, nem com quem Limpa  as  Janelas  dependurado  a  uma grande  altura da Calçada, nem com quem atira Carvão com a pá  nas fornalhas das Caldeiras. No Natal, ele também não se lembra de dar uma Gorjeta ou um Peru a eles.

Há naquele Edifício uma Mulher Pobre que Lava as Escadas e os Corredores. Ele passa por ela com frequência, mas só notou sua presença recentemente, porque sua cabeça estava nas alturas, e ele só pensava em ganhar Mais Milhões.

Um dia, ele saiu de seu Escritório e começou a descer as Escadas.

A Lavadora de Escadas encontrava-se um pouco abaixo; porque ela começou a lavar de cima para baixo e estava conferindo seu Trabalho.  No degrau mais alto da Escada, em um local molhado  e ensaboado, havia um Grande Pedaço de Sabão. E o Milionário pisou nele.

O pé com o qual ele pisou no Sabão escorregou para o leste, onde nasce o Sol, e o outro dirigiu-se por conta própria para o Ocaso. E o Milionário caiu sentado no Primeiro Degrau,  mas não  permaneceu ali. Como tinha a intenção de Descer, ele Desceu, mas não de acordo com seu Plano Original. E, enquanto descia, ia batendo em cada degrau, provocando  o som de um Tambor.

A Lavadora de Escadas afastou-se gentilmente para deixar o caminho livre.

Ao chegar ao último degrau, ele levantou-se e refletiu se devia dirigir-se à Administração do  Edifício  e exigir  que  a  Lavadora de Escadas fosse demitida; mas achou que, se revelasse o motivo, provocaria muitos Risos entre os ocupantes do Edifício. Portanto, resolveu manter a calma.

Porém, a partir daquele dia, ele começa a notar a presença da Lavadora de Escadas e passa por ela com Circunspecção.

Porque não existe ninguém tão importante ou poderoso que possa dar-se ao luxo de desprezar outro ser humano. Porque uma Lavadora de Escadas muito Humilde e uma barra de Sabão Amarelo comum podem afastar os Problemas Comerciais da mente de um Grande Homem com uma rapidez surpreendente.

Portanto, medita sobre estas coisas e não te consideres tão importante, mesmo que estejas perante os mais humildes filhos de Deus.

Se, por acaso,  tiveres de descer  de teu  pedestal  de orgulho  e te afastares dali com tuas feridas doendo um pouco mais porque suspeitas que a Lavadora de Escadas está Sorrindo em meio à Espuma, enfrenta o dia de trabalho com mais ânimo por causa da alegria que deste a ela.

Porque estes são dias solenes, e aquele que põe um sorriso no rosto de uma Lavadora de Escadas não viveu em vão.


 

O SINAL

Alice Gray

Histórias Para o Coração 80

 

 

O jovem estava sentado sozinho no ônibus e passava a maior parte do tempo olhando pela janela. Ele tinha cerca de 25 anos, bela aparência e rosto bondoso. A camisa azul-marinho combinava com a cor de seus olhos. O cabelo era curto e bem penteado. Vez por outra, desviava o olhar da janela, e a ansiedade estampada em seu semblante tocou o coração de uma avó sentada do outro lado do corredor. Quando o ônibus já se aproximava dos limites de uma pequena cidade, ela sentiu uma compaixão tão grande pelo jovem que atravessou o corredor e pediu licença para sentar-se ao lado dele.

Após alguns momentos de conversa amena sobre o clima quente da primavera, ele disse inesperadamente:

- Fiquei dois anos na prisão. Saí esta manhã e estou indo para casa.

Suas palavras fluíram com mais facilidade quando ele contou que sua família era pobre, porém orgulhosa, e que seu crime trouxera vergonha e desgosto a todos. No decorrer daqueles dois anos, ele não recebeu nenhuma notícia deles. Sabia que eram muito pobres para fazer uma viagem tão longa até a prisão e que seus pais provavelmente se consideravam incultos demais para escrever.

Ele parou de escrever para a família por não ter recebido nenhuma resposta.

Três semanas antes de ser libertado, ele escreveu uma carta desesperada a seus familiares dizendo que lamentava muito ter causado tanto desapontamento a eles e pedindo perdão.

Contou-lhes que seria solto da prisão e que pegaria um ônibus para sua cidade natal, que passava em frente da casa onde ele havia crescido e onde seus pais ainda moravam. Disse que compreenderia se eles não o perdoassem.

Na tentativa de facilitar as coisas para a família, o jovem pediu que eles providenciassem um sinal que pudesse ser visto do ônibus.

Se eles o tivessem perdoado e o aceitassem de volta, deveriam amarrar uma fita branca na antiga macieira que ficava na frente da casa. Se a fita não estivesse lá, ele continuaria no ônibus, iria embora da cidade e da vida deles sempre.

À medida que o ônibus se aproximava de sua rua, o jovem foi ficando cada vez mais nervoso, a ponto de ter medo de olhar pela janela, porque estava certo de que não haveria nenhuma fita.

Depois de ouvir a história, a senhora perguntou:

- Você se sentiria melhor se trocássemos de lugar e eu me sentasse perto da janela para ver se a fita está lá?

O ônibus rodou mais alguns quarteirões e, em seguida, a senhora avistou a árvore. Ela tocou carinhosamente o ombro do rapaz e, sufocando as lágrimas, disse:

- Olhe! Olhe! A árvore inteira está coberta de fitas brancas!


 

O BOM SAMARITANO

Tim Hazel

Histórias Para o Coração 83

 

Em um semestre do ano letivo, um professor do seminário planejou sua aula de pregação de maneira diferente. Queria que seus alunos pregassem sobre a Parábola do Bom Samaritano e, no dia da aula, ele pôs seu plano em prática pedindo aos alunos e alunas que fossem, um de cada vez, a uma classe vizinha onde deveriam pregar um sermão. O professor deu a alguns alunos o prazo de dez minutos para eles voltarem; a outros, deu menos tempo, forçando-os a correr para cumprir o prazo. Os alunos tinham de atravessar um corredor e passar por um mendigo, que estava plantado ali de propósito, aparentemente necessitando de ajuda.

Os resultados foram surpreendentes e ofereceram uma excelente lição para eles. A porcentagem dos alunos generosos que pararam para ajudá-lo foi extremamente baixa, principalmente por parte daqueles que tinham prazo mais curto. Quanto mais escasso era o tempo, menos alunos paravam para ajudar o indigente. Quando o professor revelou o que havia feito, você pode imaginar o impacto sobre aquela classe de futuros líderes espirituais. Apressados para pregar um sermão sobre o Bom Samaritano, eles passaram de largo pelo mendigo, conforme diz a parábola. Devemos ter olhos para ver e mãos para ajudar, ou podemos não ajudar nunca. Penso que este poema tão conhecido serve para expressar esse conceito:

 

Eu estava faminto, e você organizou um clube humanitário para discutir minha fome.

Obrigado.

Eu estava preso, e você se retirou tranquilamente para sua capela a fim de orar por minha Libertação.

Que bom!

Eu estava nu e em sua mente você debateu a moralidade de minha aparência.

Qual foi o proveito disso?

Eu estava doente, e você ajoelhou-se e agradeceu sua saúde a Deus.

Mas   eu precisava de você.

Eu não tinha onde morar, e você fez um sermão para mim sobre a proteção do amor de Deus.

Eu queria que você me levasse para casa.

Eu estava abandonado, e você me deixou sozinho para orar por mim.

Por que não ficou comigo?

Você parece tão Janto, tão próximo de Deus, mas eu continuo faminto, abandonado, com frio e sofrendo.

Isso faz diferença para você?


 

CONTENTAMENTO É...

Ruth Senter

Histórias Para o Coração 85

 

 

Eu ouvia a voz, mas não tinha condição de enxergar a pessoa.

Ela estava do outro lado do armário do vestiário. Acabara de chegar da aula de natação matinal. Sua voz assemelhava-se à própria manhã: forte, animada, cheia de vida. Às 6h15 da manhã, atrairia a atenção de qualquer pessoa. Eu ouvi sua voz firme:

- Dolores, gostei muito do livro que você pegou para mim na semana passada. Sei que a biblioteca fica fora de seu caminho. Não consegui parar de ler. Solzhenitsyn é um grande escritor. Estou feliz por você ter-me sugerido o livro dele.

- Bom-dia, Pat - ela cumprimentou outra nadadora. Por um instante, a voz melodiosa  calou-se.  Em seguida,  ouvi-a dizer:

- Você já viu um dia tão esplêndido como este? Vi um par de cotovias enquanto caminhava  esta  manhã.  Isso  nos traz  alegria de viver, não?

O tom da voz era bom demais para ser verdade. Quem pode ser tão agradecido a essa hora da manhã? A voz dela tinha um certo requinte. Talvez fosse uma mulher rica, sem nada para fazer o dia inteiro, a não ser tomar uma xícara de chá em sua varanda e ler Solzhenitsyn. Eu ficaria animada às 6 horas da manhã se pudesse nadar e ler um livro ao longo do dia. Ou se possuísse uma casa de campo nos bosques do Norte.

Contornei o armário em direção aos chuveiros e fiquei frente a frente com a dona daquela voz jovem. Ela estava arrumando seus apetrechos. O uniforme amarelo de faxineira ficava bem assentado naquela mulher de uns 50 anos. Era um uniforme que eu conhecia, acompanhado de vassouras, esfregões, panos de pó e baldes. Uma empregada do local onde eu nadava. Ela deu um leve sorriso para mim, pegou sua sacola de plástico das Lojas Americanas e caminhou apressada em direção à porta, dizendo: "Tenha um glorioso  dia" a todos que encontrava.

Eu não consegui tirar da mente aquele uniforme amarelo, enquanto dava minhas braçadas e afundava o corpo na espuma da piscina de hidromassagem. Meus dois companheiros estavam entretidos em uma conversa. Pelo menos um deles  estava.  Sua voz cansada e triste falava de dores nos joelhos causadas por artrite, aneurisma no coração, noites sem dormir e dias  repletos de mal-estar.

Nada estava bom ou na medida certa. A água estava quente demais, os jatos d'água não eram suficientemente fortes para seus joelhos endurecidos, e os médicos haviam demorado muito para diagnosticar seu caso. Com sua mão enfeitada com um anel de brilhante, ele retirou a espuma branca do rosto. Parecia um ancião, mas suspeitei que também tivesse uns 50 anos.

O uniforme amarelo e o anel de brilhante, surpreendente e silencioso contraste, provaram mais uma vez para mim que, quando Deus diz que "religiosidade acompanhada de contentamento significa prosperidade", Ele quer dizer exatamente isso. Naquela manhã, eu vi contentamento e descontentamento . Tomei a decisão de jamais me esquecer disso.

 

Oração de São  Francisco de Assis

 

Senhor,

Faze de mim um instrumento de tua paz.

Onde houver ódio, que eu leve amor;

onde houver desespero, que eu leve esperança;

onde houver tristeza, que eu leve alegria;

onde houver trevas, que eu leve luz.

Ó Divino Mestre,

permite que eu procure mais consolar que ser consolado;

amar que ser amado.

Pois é dando que recebemos,

é perdoando que somos perdoados,

e é morrendo que nascemos

para a vida eterna.

EDUCAÇÃO

Histórias Para o Coração  89

 

 

Se a sua visão for para um ano, plante trigo.

Se a sua visão for para dez anos, plante árvores.

Se a sua visão for para a vida inteira, plante pessoas.

 

Provérbio Chinês


 

O ZELADOR DA FONTE

Charles Swindoll

Histórias Para o Coração 91

 

 

O "Zelador da Fonte" era um pacato habitante da floresta que vivia em um povoado da Áustria nas encostas dos Alpes. O idoso cavalheiro fora contratado havia muitos anos pelo então recém-constituído conselho municipal para retirar entulhos das piscinas formadas pela água que descia pelas encostas da montanha e abastecia a encantadora fonte da cidade. Com fiel e silenciosa regularidade, ele inspecionava as colinas, retirava folhas e galhos secos e limpava o limo que poderia obstruir ou contaminar o fluxo daquela corrente de água fresca. Aos poucos, o povoado começou a atrair a atenção dos turistas. Cisnes graciosos nadavam pela água cristalina. Rodas-d'água de várias empresas localizadas na região giravam dia e noite. As plantações eram naturalmente irrigadas, e a paisagem vista dos restaurantes tinha uma beleza indescritível.

Os anos foram passando. Certa noite, o conselho da cidade reuniu-se para o encontro semestral. Enquanto seus membros examinavam o orçamento, os olhos de um deles fixaram-se no salário pago ao humilde zelador da  fonte. O responsável pelas finanças perguntou:

- Quem é esse velho? Por que está sendo pago todos  esses anos? Ninguém o vê. Pelo que sabemos, esse estranho guarda da reserva florestal não tem nenhuma utilidade para nós. Ele não é mais necessário!

Por unanimidade, resolveram dispensar os serviços do homem idoso.

Nada mudou durante algumas semanas. No início do outono, as árvores começaram a perder as folhas. Pequenos galhos desprendiam-se e caíam nas piscinas formadas pelas nascentes, obstruindo o fluxo da água borbulhante. Certa tarde, alguém notou uma leve coloração marrom-amarelada na fonte. Dois dias depois, a água estava mais escura. Após uma semana, uma película de lodo cobria toda a superfície ao longo das margens, provocando mau cheiro. As rodas-d'água movimentavam-se com mais lentidão, e algumas chegaram a parar. Os cisnes abandonaram o local, e os turistas também. Houve um surto de enfermidades no povoado.

Constrangido, o conselho convocou rapidamente uma reunião extraordinária de emergência. Depois de reconhecer o erro grosseiro que haviam cometido, contrataram novamente o zelador da fonte... e, algumas semanas depois, as águas do autêntico rio da vida começaram a clarear. As rodas-d'água voltaram a funcionar e, mais uma vez, a vida nos Alpes retomou o seu curso.

Por mais fantasiosa que possa parecer, essa história é mais do que uma simples lenda. Ela contém uma relevante e clara analogia diretamente relacionada à época em que vivemos. Os cristãos representam para o nosso mundo o mesmo que o zelador da fonte para o povoado. Um leve sabor do sal misturado com raios de luz brilhantes e cheios de esperança podem parecer insignificantes e desnecessários..., mas Deus vem em socorro de qualquer sociedade que tente existir sem esses dois elementos! Veja, o povoado sem o Zelador da Fonte é uma representação perfeita do sistema mundial sem o sal e sem a luz.


 

UM HOMEM NÃO PODE FICAR SENTADO À TOA

Howard Hendricks com Chip MacGregor

Histórias Para o Coração 93

 

 

Larry Walters era motorista de caminhão, mas o sonho de sua vida era voar. Quando formou-se no II Grau, alistou-se na Força Aérea, mas não conseguiu seu intento por ter visão fraca para vôo.  Teve de contentar-se em ver outras pessoas pilotando os caças a jato que cruzavam os céus, sobrevoando seu quintal. Todos os dias, sentado em sua cadeira de preguiça no fim da tarde, ele sonhava com a mágica de voar.

Mas certo dia ele teve uma ideia. Dirigiu-se ao depósito de materiais excedentes da Aeronáutica de sua cidade e comprou um tanque de hélio e 45 balões atmosféricos. Voltou ao seu quintal e usou tiras para amarrar os balões à sua cadeira de balanço. Depois de tudo pronto, fez um pacote com sanduíches e refrigerantes e carregou uma arma, imaginando que poderia usa-la para estourar alguns balões quando chegasse o momento de aterrissar. Seu plano era subir devagar, flutuar lentamente por algum tempo e depois retornar à terra firme. Mas as coisas não funcionaram como ele havia planejado. Assim que cortou o fio que prendia seu “balão” ao jipe, ele não flutuou, mas projetou-se para cima como um tiro de canhão! Também não subiu algumas centenas de metros, mas em pouco tempo estava a mais de 3 mil metros de altitude. E ali não podia arriscar-se a estourar 1 único balão pois temia desequilibrar a carga e sair voando como uma bexiga esvaziando. Assim, resolveu ficar ali, flutuando até cair. Mas esse pequeno passeio durou 14 horas, sem que ele soubesse o que poderia fazer para descer.

Finalmente Larry foi levado pelo vento às proximidades do aeroporto internacional de LA. Um piloto da Pan-Am chamou a torre pelo rádio e informou que acabara de ver um sujeito sentada em uma cadeira preguiçosa a 3 mil metros, segurando uma arma no colo.

Quando escureceu Larry começou a voar em direção ao mar. Nessa altura, a Marinha já havia enviado um helicóptero para resgata-lo. Mas era difícil faze-lo pois o vento provocado pelas hélices afastava cada vez mais a engenhoca de Larry. Depois de muito trabalho, um bombeiro conseguiu descer do helicóptero até ele, e içados, resgata-lo.

Assim que pisou em terra firme, Larry foi preso. Enquanto estava sendo conduzido à prisão, algemado, um repórter de televisão perguntou:

- Sr. Walters, por que o senhor fez isso?

Larry parou, encarou o repórter e respondeu com indiferença:

- Um homem não pode ficar sentado à toa enquanto vê seu sonho passar e nada fazer para alcança-lo.

 


 

VAMOS, AGUENTEM FIRMES!

Howard Hendricks

Histórias Para o Coração 95

 

 

Há pouco tempo, perdi uma de minhas melhores amigas, uma professora secular de 86 anos, a pessoa mais cheia de entusiasmo que já conheci. A última vez que a vi no planeta Terra foi em uma daquelas festas cristãs desinteressantes. Estávamos sentados ali, com ar piedoso, quando ela chegou e disse:

- Hendricks! Faz tempo que não o vejo. Quais foram os cinco livros que você leu no ano passado?

Mary foi professora por toda a vida. Mas os que a conheceram testemunham que nunca viram alguém com tanto entusiasmo para viver. Depois de aposentada, quando convidada a ir àquelas festas nostálgicas tão desinteressantes, ela mudava o clima. Sua filosofia era:

- Não devemos ficar entediados um com o outro; devemos provocar uma discussão, e, se não encontrarmos nada para discutir, vamos procurar um motivo.

Geralmente perguntava às amigas mais íntimas:

- Colega, quais foram os 5 livros que você leu no ano passado?

Quando Mary fez sua última viagem à Terra Santa, estava com 83 anos. E foi acompanhando a delegação da Liga Nacional de Futebol profissional americano. E não se engane: durante os jogos, ela ficava nas arquibancadas, aos berros, gritando: Vamos, rapazes, aguentem firme! Ela morreu dormindo, aos 86 anos. A filha contou que, pouco antes de morrer, ela havia escrito numa caderneta seus objetivos para os 10 anos seguintes!


 

A BATALHA MAIS PRÓXIMA

Richard C. Halverson

Histórias Para o Coração 96

 

 

Você quer ser um vencedor? Concorra consigo mesmo, não com outras pessoas.

Vencer seu parceiro de xadrez não significa necessariamente que tenha sido o seu melhor jogo. Passar na frente de seu rival não significa que tenha sido a sua melhor corrida. Você pode vencer outra pessoa e, mesmo assim, não usar todo o seu potencial.

Tudo na vida é assim. Para ser o melhor, você precisa competir consigo mesmo. Essa é a maior competição da vida.

Um perdedor é vencedor - não importa quantas derrotas  ele teve - se vencer a si próprio.

Um vencedor é perdedor - não importa quantas vitórias ele teve se perder a batalha travada consigo mesmo. Alexandre, o Grande, conquistou o mundo e deplorou sua falta de autocontrole.

A vitória sobre os outros pode ser o verdadeiro motivo que contribui para que o vencedor perca a luta contra si mesmo. A vitória o deixa orgulhoso, arrogante, autossuficiente, descuidado e, às vezes, cruel.

Em outras palavras, não é o que acontece com você que faz a diferença,  mas a maneira como você lida com isso.

Aquele que pára de amadurecer espiritualmente por pensar que conhece mais a Bíblia que os outros ou por ter tido mais sucesso em seu ministério, está muito longe de ser aquilo que Cristo planejou para ele.

Se você tiver de se comparar a alguém, compare-se a Cristo. Permita que Ele modele sua vida em todo o seu potencial, de acordo com seus planos divinos.


 

MENTOR

Howard Hendricks com Chip McGregor

Histórias Para o Coração 97

 

 

Em 1919, um homem que se recuperava dos ferimentos sofridos na Grande Guerra da Europa alugou um pequeno apartamento em Chicago. Ele escolheu um local nas proximidades da casa de Sherwood Anderson, o autor famoso. Anderson havia escrito o aclamado romance Winesburg, Ohio e era conhecido por sua disposição em ajudar escritores mais jovens.

Os dois homens tornaram-se amigos e passaram a encontrar-se quase que diariamente durante dois anos. Faziam as refeições juntos, davam longas caminhadas e discutiam, até altas horas da noite, a arte de escrever bem. O rapaz sempre levava rascunhos de seu trabalho a Anderson, e o autor veterano reagia com críticas cruelmente honestas. Todavia, o rapaz nunca desanimou. Ele ouvia com atenção, fazia anotações e retornava à máquina de escrever para aperfeiçoar sua obra. Não tentava defender-se, porque, conforme comentou posteriormente: "Eu não sabia escrever até conhecer Sherwood Anderson." Uma das coisas que Anderson fez para ajudar seu jovem protegido foi apresentá-lo a seus colegas do mundo editorial. Em breve, o rapaz já estava escrevendo sem ajuda. Em 1926, ele publicou seu primeiro romance, que foi aclamado pela crítica. Seu título era The Sun Also Rises [O Sol Também se Levanta], e o nome do autor era Ernest Hemingway.

Mas esperem um pouco! A história não termina aqui. Depois que Hemingway partiu de Chicago, Anderson mudou-se para Nova Orleans. Lá, ele conheceu outro jovem escritor, um poeta com um desejo insaciável de aperfeiçoar seu talento. Anderson o fez passar pelos mesmos testes de Hemingway - escrever, criticar, discutir, incentivar - e escrever cada vez mais. Ele entregou exemplares de seus romances ao jovem e o incentivou a lê-los atentamente, observando as palavras, os temas e o desenvolvimento do personagem e da história. Um ano depois, Anderson ajudou o jovem a publicar seu primeiro romance, Soldier Pay [O Pagamento do Soldado].

Três anos depois, aquele brilhante novo talento, William Faulkner, escreveu The Sound and the Fury [O Som e a Fúria], que rapidamente se tornou uma obra-prima norte-americana.

O papel de Anderson como mentor de autores aspirantes não parou aí. Na Califórnia, ele passou vários anos trabalhando com o dramaturgo Thomas Wolfe e com um jovem chamado John Steinbeck, entre outros. Em resumo, três dos protegidos de Anderson ganharam o Prêmio Nobel de Literatura e quatro Prêmios Pulitzer na mesma categoria. O famoso crítico literário Malcolm Cowley disse que Anderson foi "o único escritor de sua geração que deixou sua marca no estilo e na visão da geração seguinte".

Por que Anderson dedicou seu tempo e conhecimentos com tanta generosidade para ajudar os mais jovens? Entre outros motivos, talvez porque tivesse recebido a influência de um autor mais velho, o grande Theodore Dreiser. Também passou um bom tempo ao lado de Carl Sandburg.

Considero instrutivo esse tipo de comportamento. Além de refletir minha própria experiência, ele também ilustra o princípio fundamental da experiência humana: a melhor maneira de causar impacto no futuro é ajudar a construir a vida de outra pessoa. Isso é que é ser um mentor.


 

SUCESSO

RECONTADA POR ALICE GRAY

Histórias Para o Coração 99

 

 

Madre Teresa participou de reuniões com reis, presidentes e chefes de Estado do mundo inteiro. Eles compareciam usando coroas, joias e roupas de seda, enquanto Madre Teresa usava seu tradicional sári, preso por um alfinete de segurança.

Um nobre conversou com ela a respeito de seu trabalho com a camada mais pobre da população de Calcutá. Ele perguntou se ela não se sentia desanimada ao ver tão pouco sucesso em seu ministério.

Madre Teresa respondeu:

- Não, eu não me sinto desanimada. Veja, Deus não me chamou para um ministério de sucesso. Ele me chamou para um ministério de misericórdia.

 

 


 

O GUARDA-CHUVA VERMELHO

por Tania Gray

Histórias Para o Coração 100

 

 

A seca parecia não ter fim, e uma pequena comunidade de fazendeiros do meio-oeste estava em dúvida sobre o que fazer. A chuva era importante não apenas para manter a plantação viçosa, mas também para prover meios de subsistência para os habitantes da cidade. Quando o problema se tornou mais urgente, a igreja local achou que era tempo de envolver-se e planejou uma reunião de oração para pedir chuva.

Como nos antigos rituais dos indígenas norte-americanos, as pessoas começaram a chegar à igreja. Em breve, o pastor também chegou e observou sua congregação afluindo ao local. Ele foi passando lentamente de grupo em grupo, enquanto se dirigia ao púlpito para iniciar oficialmente a reunião. Todas as pessoas que ele encontrou estavam conversando, apreciando a oportunidade de rever os amigos. Quando o pastor postou-se diante de seu rebanho, sua prioridade era silenciar o povo e dar início à reunião.

Assim que começou a pedir silêncio, ele observou uma menina de 11 anos sentada na primeira fileira. Seu rosto angelical brilhava de alegria e, a seu lado, havia um lindo guarda-chuva vermelho, pronto para ser usado. A beleza e a inocência dessa cena fizeram o pastor sorrir para si mesmo quando ele se deu conta da fé daquela menina, uma fé que o restante das pessoas parecia ter esquecido. Todos haviam comparecido para orar pedindo chuva... ela, para presenciar a resposta de Deus.

 


 

SÓ É NECESSÁRIO UM POUCO DE MOTIVAÇÃO

Zig Ziglar

Histórias Para o Coração 101

 

 

Gosto muito de uma história que o falecido Dr. Ken McFarland gostava de contar. Um homem, que trabalhava das 16 horas até a meia-noite, costumava ir a pé para casa após o expediente. Certa noite, a Lua estava tão clara que ele resolveu cortar caminho pelo cemitério, poupando-se de uma volta de uns 800 metros. Como não houve nenhum incidente, ele passou a fazer isso regularmente, sempre seguindo o mesmo caminho. Uma noite, enquanto atravessava o cemitério, ele não percebeu uma cova que havia sido aberta durante o dia e caiu dentro dela. Imediatamente, ele começou a fazer um esforço desesperado para sair dali. Suas tentativas fracassaram e, depois de alguns minutos, ele decidiu relaxar e aguardar até o dia amanhecer para que alguém o ajudasse a sair.

Ele sentou-se em um canto e estava quase adormecendo quando um bêbado também caiu dentro da cova. Sua chegada despertou o trabalhador, porque o bêbado tentava desesperadamente sair, agarrando-se nas laterais da cova. Nosso herói esticou o braço, tocou a perna do bêbado e disse:

- Amigo, você não pode sair daqui...

Mas o bêbado saiu! -

Isso é que é motivação!


 

UMA AUTOBIOGRAFIA EM CINCO PARÁGRAFOS CURTOS

Portia Nelson

Histórias Para o Coração 102

 

 

1.

Eu caminho pela rua. Há um buraco muito fundo na calçada.

Caio dentro dele. Estou perdida. Fico desesperada. A culpa não foi minha. Vai demorar uma eternidade para eu sair daqui.

 

2.

Eu caminho pela rua. Há um buraco muito fundo na calçada.

Finjo que não o vejo. Caio dentro dele. Não posso acreditar que caí no mesmo buraco, mas a culpa não é minha. Vai demorar muito para eu sair daqui.

 

3.

Eu caminho pela rua. Há um buraco muito fundo na calçada.

Eu o vejo. Mesmo assim, caio dentro dele. É um hábito. Meus olhos estão abertos. Eu sei onde estou. A culpa é minha. Saio imediatamente.

 

4.

Eu caminho pela rua. Há um buraco muito fundo na calçada.

Eu passo ao redor dele.

 

5.

Eu caminho por outra rua.


 

NÃO DESANIME...

Alice Gray

Histórias Para o Coração 103

 

 

Um jovem caminhava por uma estrada deserta quando ouviu um som semelhante a um gemido. Ele não sabia ao certo que ruído era aquele, mas parecia vir de algum lugar embaixo da ponte. Conforme ele ia se aproximando dela, o som ficava mais forte.

Foi então que ele viu uma cena comovente. Deitado no leito do rio lamacento estava um cachorrinho de cerca de dois meses de idade. Ele tinha um ferimento na cabeça e o corpo coberto de lama. As patinhas da frente estavam amarradas com uma corda e inchadas.

Imediatamente, o jovem foi tomado de compaixão e dispôs-se a ajudar o cachorrinho, mas, quando ele se aproximou, o gemido cessou e o animal arreganhou os dentes e começou a rosnar. O jovem, porém, não desanimou. Abaixou-se e passou a conversar carinhosamente com o animalzinho. Depois de um certo tempo, o cachorrinho parou de rosnar e o jovem pôde aproximar-se mais um pouco, até tocá-Io e começar a desamarrar a corda. O jovem levou o cachorrinho para casa, cuidou de seus ferimentos, deu-lhe comida e água e um lugar quentinho para dormir. Mesmo depois de tudo isso, o cachorro continuava a arreganhar os dentes e a rosnar todas as vezes que o jovem se aproximava. Ele, contudo, não desanimou.

Semanas depois, ele continuava cuidando do cachorrinho até que, um dia, ao ver o jovem aproximar-se, o animal abanou a cauda.

O amor e a bondade persistentes venceram, dando início a uma longa amizade baseada em lealdade e confiança.


 

O HEAD HUNTER"

Josh McDowell

Histórias Para o Coração 105

 

 

Um "head hunter", pessoa especializada em contratar executivos para empresas, contou-me o seguinte:

- Quando descubro um executivo para uma organização, gosto de deixá-la desarmado. Ofereço um drinque, tiro o paletó e o colete, afrouxo o nó da gravata, coloco os pés em cima da mesa e falo sobre beisebol, futebol, família ou qualquer outro assunto, até que ele se sinta à vontade. Quando percebo que ele está descontraído, debruço-me sobre a mesa, olho firme dentro de seus olhos e pergunto:

"Qual é seu objetivo na vida?" É impressionante ver como os executivos de alto nível se intimidam diante dessa pergunta. Um dia, durante uma entrevista com um candidato, procedi de maneira semelhante: coloquei os pés em cima da mesa e falei sobre futebol.

Em seguida, coloquei os cotovelos na mesa e perguntei: "Qual é seu objetivo na vida, Bob?" E ele respondeu, sem pestanejar:

"Ir para o céu e levar comigo o maior número de pessoas que puder." Pela primeira vez em minha carreira eu fiquei sem saber o que dizer.


 

SE EU PUDESSE RECOMEÇAR MINHA VIDA

Irmão Jeremiah

Histórias Para o Coração 106

 

 

Se eu pudesse recomeçar minha vida, tentaria cometer mais erros. Encontraria tempo para relaxar. Seria mais transigente.

Seria mais tolo do que tenho sido. Levaria poucas coisas a sério.

Viajaria mais. Escalaria mais montanhas, nadaria mais e contemplaria mais crepúsculos. Faria mais caminhadas e observaria a natureza.

Tomaria mais sorvetes e comeria menos feijão. Teria mais problemas reais e menos problemas imaginários. Sou uma daquelas pessoas que vive de maneira regrada, sensata e racional, hora após hora, dia após dia. Oh, já tive bons momentos; e, se eu recomeçasse minha vida, teria muitos outros. Na verdade, eu não tentaria ter mais nada. Apenas viveria um momento após o outro, em vez de viver diariamente os anos seguintes. Sou aquele tipo de pessoa que não sai de casa sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um antisséptico bucal, uma aspirina, uma capa e um guarda-chuva.

Se eu tivesse de começar de novo, passearia bastante, faria muitas coisas e levaria a vida de maneira mais amena.

Se eu tivesse de recomeçar minha vida, rodaria mais vezes no carrossel - colheria mais margaridas.


 

CARTA A UM TREINADOR

Pai de um atleta

Histórias Para o Coração 109

 

 

Prezado treinador, Acabei de ler sua carta dirigida a meu filho e a nós (os pais) sobre as esperanças que você deposita nos atletas sob seu comando. A mãe de Johnny e eu concordamos plenamente porque reconhecemos os benefícios provenientes das práticas esportivas realizadas no ensino médio.

Seu currículo deixa claro que você é um ótimo treinador. Isso é muito importante.

Existe outra fase referente ao treinamento, acredito eu, que é mais importante ainda. Permita-me explicar o que quero dizer.

Treinador, a mãe de John e eu estamos lhe entregando nosso bem mais valioso para ser treinado por várias semanas. Durante esse período e ao longo dos próximos quatro anos, nosso filho vai torná-lo o tema número uma das conversas aqui em casa. Ele vai contar que você poderia ter vencido os Packers se não tivesse machucado o joelho em 1965. Vai contar sobre a sua emoção ao contar que veio de um time pequeno e que venceu o Rivaltown. Vamos ouvi-lo dizer que você ainda sabe jogar futebol americano. Enquanto estivermos ouvindo tudo isso, os olhos de nosso filho estarão brilhando.

Treinador, você é um ídolo para ele.

Não temos mais muitos heróis. Joe Willie já não é mais o mesmo!

Muitos profissionais venderiam a alma para marcar um ponto.

Alguns atletas da faculdade foram notícia este ano de maneira muito negativa. Todos sabem que os atletas da faculdade não são ladrões, ou coisa assim, mas é isso que ouvimos falar.

Você é o herói de nosso filho. Confiamos em você. Os músculos dele estão praticamente desenvolvidos, mas sua mente ainda é frágil e fácil de ser manipulada. Sua responsabilidade é grande. Incuta coisas boas na cabeça dele, treinador. Aos poucos!

ARMAS OU SEMENTES

Richard C. Halverson

Histórias Para o Coração 112

 

 

Você pode apresentar suas ideias a outros como armas ou sementes.

Você pode dispará-Ias ou plantá-Ias; pode ferir a cabeça das pessoas com elas ou plantá-Ias em seus corações.

Ideias usadas como armas matam a inspiração e neutralizam a motivação. Usadas como sementes, criam raízes, desenvolvem-se e tornam-se realidade na vida das pessoas nas quais foram plantadas.

O único risco da semente é este: assim que ela crescer e tornar-se parte da pessoa na qual foi plantada, você provavelmente não terá nenhum mérito por ter sido o autor da ideia. Mas se você estiver disposto a fazer isso sem receber mérito... terá uma colheita abundante.


 

ROSAS NA LAPELA

Max Lucado

Histórias Para o Coração 115

 

 

John Blanchard levantou-se do banco, ajeitou o uniforme do Exército e observou a multidão que tentava abrir caminho na Estação Ferroviária Central de Nova York. Procurou avistar a moça cujo coração ele conhecia, mas não o rosto - a moça com a rosa.

Seu interesse por ela começara 13 anos antes, em uma biblioteca da Flórida. Ao retirar um livro da estante, ele ficou intrigado, não com as palavras impressas, mas com as anotações escritas à mão na margem. A letra delicada indicava ser a de uma pessoa ponderada e sensível. Na primeira página do livro, ele descobriu o nome da proprietária anterior: Srta. Hollis Maynell.

Depois de algum tempo e de várias tentativas, conseguiu localizar o endereço dela. Morava em Nova York. Escreveu-lhe uma carta apresentando-se e propondo uma troca de correspondência. No dia seguinte, ele foi convocado para servir em uma base do outro lado do oceano. Era a Segunda Guerra Mundial. Durante os 13 meses seguintes, os dois passaram a se conhecer por correspondência.

Cada carta era uma semente caindo em um coração fértil. Florescia um romance.

Blanchard pediu uma fotografia, mas ela recusou-se a enviá-Ia.

Achava que, se ele realmente gostasse dela, não haveria necessidade de fotografia.

Quando ele retornou da Europa, marcaram o primeiro encontro às 19 horas na Estação Ferroviária Central de Nova York.

"Você me reconhecerá", ela escreveu, "pela rosa que estarei usando na lapela." Assim, às 19 horas, Blanchard estava na estação à espera da moça cujo coração ele amava, mas cujo rosto nunca vira.

Deixemos que o próprio Blanchard conte o que aconteceu.

Em minha direção vinha uma jovem alta e esbelta. Seus cabelos loiros encaracolados caíam pelos ombros, deixando à mostra delicadas orelhas; os olhos eram azuis da cor do céu. Os lábios e o queixo tinham uma firmeza suave; trajando um costume verde-claro, parecia a própria chegada da primavera. Comecei a caminhar em sua direção sem notar que não havia rosa em sua lapela.

Quando me aproximei, um sorriso leve e provocante brotou-lhe nos lábios.

- Gostaria de me acompanhar, marujo? - ela murmurou.

De maneira quase incontrolável, dei um passo em sua direção, e foi então que avistei Hollis Maynell.

Ela estava em pé atrás da jovem. Aparentava bem mais de 40 anos, e seus cabelos, presos sob um chapéu surrado, deixavam entrever alguns fios brancos. Seu corpo era roliço, tinha tornozelos grossos e usava sapatos de salto baixo. A moça de costume verde-claro distanciava-se rapidamente. Senti-me dividido, desejando ardentemente seguí-Ia, mas, ao mesmo tempo, profundamente interessado em conhecer a mulher cujo entusiasmo me acompanhara e me sustentara.

E lá estava ela. Seu rosto redondo e pálido estampava delicadeza e sensibilidade; os olhos cinzentos irradiavam meiguice e bondade.

Não hesitei. Peguei o pequeno livro azul, de capa de couro, para me identificar. Não seria um caso de amor, mas poderia ser algo precioso, algo talvez melhor que amor" uma amizade pela qual eu era e seria eternamente grato.

Endireitei os ombros, cumprimentei e entreguei o livro à mulher, apesar de sentir-me sufocado pela amargura de meu desapontamento enquanto lhe dirigia a palavra.

- Sou o tenente John Blanchard, e você deve ser a Srta. Maynell.

Estou satisfeito por você ter vindo encontrar-me. Aceita um convite para jantar?

No rosto da mulher surgiu um sorriso largo e bondoso.

- Não sei do que se trata, filho - ela respondeu -, mas a jovem de costume verde, que acabou de passar por aqui, pediu-me que usasse esta rosa na lapela. Instruiu-me também que, se você me convidasse para jantar, eu deveria dizer que ela está à sua espera no restaurante do outro lado da rua. Ela me contou que se tratava de uma espécie de teste! Não é difícil compreender e admirar a sabedoria da Srta. Maynell...


 

REFLEXÕES

Charles R. Swindoll

Histórias Para o Coração 118

 

 

Aconteceu na semana passada. Depois que todos da família se recolheram a seus quartos, coloquei um pouco mais de lenha na lareira, sentei-me em minha cadeira favorita e li por mais de uma hora. No decorrer da leitura, encontrei alguns pensamentos compilados por Ed Dayton, um antigo líder do ministério Visão Mundial. Suas palavras fizeram-me retroceder muitos anos no tempo, quando ele mencionou ter assistido a um filme de curta-metragem chamado The Giving Tree [A Árvore Generosa], uma história simples e fantasiosa sobre uma árvore que amava um garoto.

Quando era pequeno, o garoto balançava-se em seus galhos, subia nela, comia suas maçãs e dormia à sua sombra. Eram tempos felizes e sem preocupações. A árvore gostava muito dessa época.

Porém, à medida que foi crescendo, o garoto passava cada vez menos tempo com a árvore.

- Vamos brincar - convidou a árvore um dia, mas o rapaz estava interessado apenas em dinheiro. - Apanhe minhas maçãs e venda-as.

a rapaz aceitou a sugestão, e a árvore ficou feliz.

Ele ficou muito tempo sem aparecer, mas, no dia em que retornou, a árvore sorriu.

- Vamos brincar - ela disse, mas o jovem tornara-se adulto e estava cansado deste mundo. Queria sumir.

- Derrube-me ao chão - prosseguiu a árvore. - Pegue meu tronco e faça um barco para você e navegue com ele.

O homem aceitou a sugestão, e a árvore ficou feliz.

Muitos anos se passaram - verões e invernos, dias de vento e noites solitárias - e a árvore continuou esperando. Finalmente, o homem retornou, velho e cansado demais para brincar, para sair em busca de riqueza, para navegar os mares.

- Fui cortada, mas ainda sobrou um toco, meu amigo. Que tal sentar-se aqui e descansar? - disse a árvore.

O velho aceitou a sugestão, e a árvore ficou feliz.

Com os olhos fixos no fogo, eu fiz uma retrospectiva de minha vida, comparando-a com a da árvore e a daquele menino. Identifiquei-me com ambos - e me entristeci.

Quantas árvores generosas eu tive na vida? Quantas me deram parte delas para que eu crescesse, alcançasse meus objetivos, fosse um homem realizado, encontrasse satisfação? Muitas, muitas mesmo. Obrigado, Senhor, por todas elas. Seus nomes não caberiam nesta folha de papel.

O fogo extinguiu-se, e a lenha transformou-se em carvão incandescente. Já era tarde da noite quando me deitei. Eu havia chorado, mas agora sorria.

- Boa-noite, Senhor - eu disse.

Eu era um homem agradecido. Agradecido por ter tido tempo de refletir.


 

O PEQUENO PRESENTE

Morris Chalfant

Histórias Para o Coração 120

 

 

O Rev. Chalfant conta a história de um casal que estava comemorando bodas de ouro. Alguém perguntou ao marido qual era o segredo do sucesso de seu casamento. Como as pessoas mais idosas costumam fazer, o marido respondeu à pergunta com uma história.

Sua esposa, Sarah, foi sua única namorada. Ele cresceu em um orfanato e trabalhou muito para conquistar o que desejava.

Nunca teve tempo para namorar até o dia em que conheceu Sarah.

Antes que o jovem pudesse refletir, Sarah fez com que ele a pedisse em casamento.

Depois das promessas feitas no dia da cerimônia nupcial, o pai de Sara chamou o noivo de lado e entregou-lhe um pequeno presente, dizendo:

- Dentro deste presente, está tudo o que você necessita saber para ser feliz no casamento.

Nervoso, o jovem noivo rasgou a fita e o papel para abrir o presente.

Dentro da caixa, havia um grande relógio de ouro. Ele o pegou com cuidado... Depois de examiná-lo atentamente, ele viu no mostrador uma frase que leria, obrigatoriamente, todas as vezes que quisesse saber as horas... palavras que continham o segredo de um casamento feliz: "Diga alguma coisa bonita a Sarah."


 

POR MINHA IRMÃ

Histórias Para o Coração 121

 

 

Esta é uma história verdadeira de um menino cuja irmã necessitava de uma transfusão de sangue. O médico informou à família que a menina tinha a mesma doença da qual o menino se recuperara dois anos antes. Sua única chance de cura seria por meio da transfusão de sangue de alguém que já houvesse contraído aquela doença. Como os dois irmãos tinham o mesmo tipo raro de sangue, o menino seria o doador ideal.

- Você concorda em doar seu sangue a Mary? - perguntou o médico.

Johnny hesitou. Seu lábio inferior começou a tremer. Em seguida, ele sorriu e disse:

- Claro, por minha irmã.

Os dois irmãos foram conduzidos a uma sala do hospital. Mary, pálida e magra. Johnny, robusto e sadio. Nenhum dos dois falou, mas, quando seus olhos se encontraram, Johnny sorriu para a irmã.

Quando a enfermeira picou o braço de Johnny com a agulha, o sorriso desapareceu. Ele viu o sangue passando pelo tubo.

No momento em que a transfusão estava quase terminando, a voz de Johnny, levemente trêmula, quebrou o silêncio: - Doutor, quando vou morrer?

Foi então que o médico entendeu por que Johnny havia hesitado, por que seu lábio tremera quando concordou em doar seu sangue.

Ele pensou que doar sangue à irmã o levaria à morte. Naquele breve momento, ele havia tomado uma grande decisão.


 

ENTREGA POSTERIOR

Cathy Miller

Histórias Para o Coração 122

 

 

O inverno nunca havia sido tão rigoroso. Do aconchego de sua poltrona, Stella observava a violenta precipitação dos flocos de neve açoitados pelo vento. Ela receava ficar perto da janela, com um temor injustificado de que a nevasca pudesse atingi-Ia, cortar-lhe a respiração, atraí-Ia para fora, para o caos. As casas do outro lado da rua estavam quase ocultas pela fúria arrebatadora dos flocos de neve. Com um gesto distraído, a anciã alisou a capa que cobria os braços da poltrona, sem tirar os olhos do espetáculo que se desenrolava do outro lado da vidraça.

Quando conseguiu desviar o olhar da cena, levantou-se com muito esforço da poltrona e aguardou alguns instantes para equilibrar-se e firmar os pés no chão. Endireitando as costas e vencendo a dor que ameaçava deixá-Ia com o corpo curvado para a frente, ela dirigiu-se com determinação para a cozinha.

Ao chegar à porta da sala contígua, ela parou, incapaz de lembrar-se do motivo que a conduzira até ali. O vento sibilante ameaçava atravessar o cano da chaminé acima do fogão e entrar na pequenina casa. Stella fixou os olhos castanhos no relógio na prateleira acima do fogão. A hora - 15h15 - a fez lembrar-se de que se dirigira à cozinha para retirar alguma coisa do freezer para preparar uma sopa. Outra refeição solitária que ela não tinha vontade nenhuma de preparar e, muito menos, saborear.

De repente, ela segurou a maçaneta da porta da geladeira e encostou a testa naquela superfície branca e fria, enquanto uma onda de auto piedade ameaçava subjugá-la. A perda de seu querido Dave naquele verão causava-lhe um sofrimento grande demais, difícil de aguentar. Como poderia suportar aquela angústia, aquele vazio do dia-a-dia? Sua garganta começou a doer, e ela fechou os olhos com força para conter as lágrimas.

Stella forçou-se a endireitar o corpo e sacudiu a cabeça em atitude de autopunição. Repetiu sua lista de agradecimentos. Tinha saúde, uma casa pequenina e renda suficiente para viver o restante de seus dias. Tinha livros, assistia à TV, fazia trabalhos manuais.

Gostava de cuidar do jardim na primavera e no verão, caminhar pelo parque deserto no final da rua e contemplar, da janela da cozinha, os pássaros do inverno ajuntando-se ao redor do comedouro. Mas hoje tudo está triste, ela pensou pesarosa, enquanto a nevasca batia na parede da cozinha, no lado leste da casa.

- Ah, Dave, que falta você me faz! Eu nunca fiz caso das tempestades quando você estava aqui.

O som de sua voz provocou um eco na cozinha. Ela ligou o rádio que estava no balcão ao lado de uma fileira de caixas de madeira muito bem alinhadas, começando com as mais altas e terminando com as mais baixas. Um coral de alegres músicas natalinas subitamente tomou conta da cozinha, mas aquilo só serviu para aumentar sua solidão.

Stella havia-se preparado para a morte do marido. A partir do momento em que o médico diagnosticou câncer terminal, ambos tiveram de enfrentar a luta inevitável para passarem juntos a maior parte do tempo que lhes restava. Dave sempre manteve suas finanças em ordem. Stella não tinha problemas dessa natureza na viuvez. Havia apenas aquela terrível solidão... dias sem nenhum propósito.

Eles não tiveram filhos por opção. A vida lhes deu satisfação e conforto. Ambos se contentavam com suas carreiras agitadas e viviam felizes um com o outro.

Tiveram muitos amigos. Tiveram. Essa palavra era bem apropriada para o momento atual. É muito difícil perder a pessoa que amamos de todo o coração. Mas, ao longo dos anos, ela e Dave precisaram enfrentar, reiteradas vezes, a morte de amigos e conhecidos. Todos eles tinham mais ou menos a mesma idade - aquela idade em que o corpo humano começa a desistir de tudo, morrer. Mas era necessário enfrentar - eles eram velhos!

E agora, no primeiro Natal sem Dave, Stella estava sozinha.

Mabel e Jim a convidaram para passar os feriados natalinos com eles na Flórida, mas viajar seria pior que ficar sozinha em casa.

Além de sentir falta do marido, ela também sentiria falta da neve, do inverno e do aconchego de seu lar.

Com os dedos trêmulos, ela abaixou o volume do rádio para ouvir a música bem baixinho. Olhou para a geladeira rapidamente e decidiu que um prato de sopa quente seria uma refeição reconfortante naquela noite.

Para sua surpresa, Stella viu que o carteiro havia deixado correspondência em sua casa. Ela não ouvira o barulho das cartas sendo colocadas por debaixo da porta. Pobre carteiro, andando na rua sob esta neve! "Não há neve, nem tempestade que..." Com um inevitável estremecimento de dor, ela curvou-se para pegar os envelopes brancos e úmidos do chão. Entrou na sala de estar e sentou-se na banqueta do piano para abri-los. Eram, na maioria, cartões de Natal, e seus olhos sorriram tristemente diante da familiaridade das paisagens tradicionais e das mensagens cheias de amor. Com os dedos doloridos pela artrite, ela os arrumou cuidadosamente ao lado dos outros em cima do piano. Os cartões eram as únicas decorações de Natal da casa. Faltava apenas uma semana, mas ela não tinha ânimo para montar uma árvore simples nem o presépio que Dave confeccionara com as próprias mãos.

De repente, mergulhada naquela solidão, Stella cobriu o rosto enrugado com as mãos, apoiou os cotovelos nas teclas do piano, provocando um som forte e desafinado, e deixou que as lágrimas corressem livremente. Como seria possível atravessar o Natal e o inverno inteiro? Seu desejo era deitar-se na cama e cobrir-se com uma pilha de cobertores, e só sair de lá quando a primavera e seus amigos retornassem.

A campainha da porta tocou forte, abafando o som desafinado do piano. O toque foi tão inesperado que Stella teve de sufocar um grito de surpresa. Quem poderia ter tido a ideia de visitá-Ia em um dia como aquele? Enxugando as lágrimas, ela percebeu pela primeira vez quanto a sala estava escura. A campainha tocou de novo.

Usando o piano para equilibrar-se, ela se levantou e dirigiu-se para a porta de entrada, acendendo a luz da sala de estar. Abriu a porta de madeira e olhou, cheia de compaixão, pela tela da porta de proteção contra tempestades. Na varanda, açoitado pelo vento e pela neve, estava um jovem desconhecido, cuja cabeça descoberta mal podia ser vista por causa do grande pacote que ele carregava nos braços. Ela desviou o olhar para a rua, mas só avistou um pequeno carro, que não lhe deu nenhuma pista sobre a identidade do desconhecido. Voltando a olhar para o jovem, Stella notou que as mãos dele estavam sem luvas, e as sobrancelhas erguidas, com um ar esperançoso que começou a desaparecer por causa da neve que se formava no vidro. Reunindo coragem, a anciã abriu uma fresta da porta, e ele afastou o rosto do pacote para falar com ela.

- Sra. Thornhope?

Ela fez um movimento afirmativo com a cabeça. Seu braço começava a tremer de frio e pelo esforço de manter a porta aberta contra o vento. Ele prosseguiu, dizendo o que ela já esperava:

- Trago uma encomenda para a senhora.

A curiosidade afastou o receio instalado em sua mente. Ela abriu mais a porta, o suficiente para o desconhecido passar, e recuou um pouco para dar-lhe espaço. Ele entrou trazendo consigo uma rajada de vento gelado. Sorrindo, colocou cuidadosamente a encomenda no chão e pegou um envelope do bolso. Enquanto ele lhe entregava o envelope, um som partiu de dentro da caixa. Stella deu um salto.

O jovem riu desculpando-se e curvou-se para levantar as abas da tampa da caixa e segurou-as para que Stella pudesse olhar dentro.

Ela aproximou-se cautelosamente e olhou para baixo.

Era um cão! Para ser mais exato, um pequenino cão de pêlos dourados, da raça Labrador. O jovem segurou o trêmulo cãozinho nos braços e explicou:

- Ele é seu, senhora. Tem seis semanas de idade e é um cão doméstico.

O cãozinho abanou a cauda, feliz por ter sido libertado do cativeiro, e começou a lamber o rosto de seu benfeitor.

- Tínhamos a intenção de entregá-lo na véspera de Natal - ele prosseguiu com um pouco de dificuldade, tentando desviar o rosto das lambidas do cãozinho -, mas hoje é o último dia de expediente no canil. Espero que a senhora não se importe por ter recebido o presente antecipadamente.

Estarrecida e sem poder raciocinar com clareza, incapaz de formar frases coerentes, ela gaguejou:

- Mas... eu não... isto é... quem...?

O jovem colocou o animal no capacho entre eles e apontou para o envelope que ela continuava a segurar.

- Há uma carta aí dentro explicando tudo, e muito mais. O cão foi comprado em julho, quando a mãe dele ainda estava prenhe, para ser oferecido como presente de Natal. Se a senhora puder aguardar um instante, vou buscar mais algumas coisas que deixei no carro.

Antes que Stella pudesse dizer alguma coisa, ele já havia partido, retornando momentos depois com uma caixa enorme de alimentos para cães, uma correia e um livro intitulado Como Cuidar de Seu Cão Labrador. O cãozinho ficou o tempo todo sentado aos pés de Stella, fungando feliz e olhando para ela com seus olhos castanhos.

O jovem já se preparava para ir embora. Palavras aflitas brotaram dos lábios dela:

- Mas quem... comprou este cãozinho?

Parado na porta entreaberta, ele deu a resposta que quase foi levada pelo vento, que despenteava seus cabelos:

- Seu marido, minha senhora.

E desapareceu de vista.

 

Acarta explicava tudo. Esquecendo-se completamente do cãozinho aí:> ver aquela grafia tão familiar, Stella caminhou como uma sonâmbula até sua poltrona perto da janela. Sem se dar conta de que o cãozinho a havia seguido, ela forçou os olhos rasos de água a lerem a carta do marido. Ele a escrevera três meses antes de morrer e a deixara com os proprietários do canil para que fosse entregue posteriormente com o cão. Na carta, ele dizia que aguardava com ansiedade o dia em que ambos voltariam a ficar juntos. Era seu último presente de Natal para ela. A carta continha palavras de amor, incentivo e conselhos para que ela fosse forte. E ele havia enviado aquele animal para fazer-lhe companhia.

Lembrando-se do cãozinho pela primeira vez, ela surpreendeu-se ao vê-lo sentado e olhando para ela, com uma espécie de sorriso cômico na boca. Stella pôs as páginas de lado e estendeu a mão para pegar aquele animalzinho de pêlos dourados. Havia imaginado que ele era mais pesado, mas tinha o peso e tamanho da almofada do sofá. Ela o segurou nos braços, e ele lambeu-lhe o queixo; depois, aninhou-se perto do pescoço dela. As lágrimas voltaram a correr diante dessa troca de afeto, e o cão ouviu o choro sem se mexer.

Finalmente, Stella o colocou no colo e olhou para ele solenemente.

Ela enxugou as lágrimas e tentou sorrir.

- Bem, criaturinha, aqui estamos, você e eu.

Com a língua rosada de fora, o cachorrinho fungou concordando.

O sorriso de Stella tornou-se mais radiante, e ela desviou o olhar para a janela. Era hora do crepúsculo, e a nevasca parecia ter abrandado. Através dos flocos de neve que agora caíam com mais suavidade, ela avistou as lâmpadas de Natal que enfeitavam as beiras dos telhados das casas vizinhas. Os acordes da música "Alegria do Mundo" ecoavam da cozinha.

De repente, Stella foi tomada por uma enorme sensação de bênção e de paz, como se estivesse recebendo um abraço carinhoso.

Seu coração batia penosamente, mas de alegria e de surpresa, não de sofrimento ou de solidão. Ela nunca mais se sentiria sozinha.

Voltando a atenção para o cão, ela lhe disse:

- Sabe de uma coisa, meu amiguinho? Tenho uma caixa no porão de que você vai gostar muito. Dentro dela, há uma árvore e alguns enfeites e luzes que vão deixar você encantado! E acho que aquele antigo presépio também está lá. Vamos procurá-los? O cachorrinho latiu feliz, como se tivesse entendido cada palavra.


 

NAS TRINCHEIRAS

Stu Weber

Histórias Para o Coração 129

 

 

Você já deve ter ouvido a comovente história sobre a grande amizade entre dois soldados nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Dois colegas serviam juntos em meio à miséria de um deplorável campo de batalha na Europa. (Há uma versão que identifica os dois como irmãos.) Eles passaram meses nas trincheiras, no frio e na lama, sob o tiroteio dos inimigos e o comando de seus superiores.

De tempos em tempos, uma das tropas inimigas investia contra a outra e retornava às suas trincheiras para cuidar de seus ferimentos, enterrar seus mortos e aguardar o momento de repetir o ataque.

Durante esse período, muitas amizades tiveram início em meio à desgraça. Dois soldados tornaram-se amigos íntimos. Dia após dia, noite após noite, medo após medo, eles conversavam sobre a vida, a família, a esperança ou sobre o que fariam quando (e se) conseguissem sair do horror daquela guerra.

Em uma daquelas investidas infrutíferas, "Jim" tombou gravemente ferido. Seu amigo Bill conseguiu retornar à relativa segurança das trincheiras. Jim ficou estendido no chão sob os clarões das explosões noturnas. Entre as trincheiras. Sozinho.

O tiroteio continuava. O perigo havia atingido seu ponto máximo.

Aquele lugar entre as trincheiras era o mais perigoso de todos. Mesmo assim, Bill queria ficar perto de seu amigo, consolá-lo, animá-lo como só os amigos sabem fazer. O oficial encarregado não permitiu que Bill saísse da trincheira. Era perigoso demais. Porém, assim que o oficial virou as costas, Bill saiu da trincheira. Sem importar-se com o cheiro de pólvora no ar, os abalos provocados pelos tiroteios e as batidas fortes de seu coração, Bill chegou ao local onde Jim estava.

Algum tempo depois, ele conseguiu levar Jim de volta para a segurança das trincheiras. Tarde demais. O amigo estava morto. Ao ver o corpo de Jim, o oficial perguntou com ar de cinismo a Bill se "valeu a pena". Bill respondeu sem hesitação:

- Sim, senhor, valeu. As últimas palavras de meu amigo valeram a pena. Ele olhou para mim e disse: "Eu sabia que você viria".


 

A FOTOGRAFIA AMASSADA

Philip Yancey

Histórias Para o Coração 131

 

 

Em um feriado, fui visitar minha mãe, que mora a uns 1.200 quilômetros de minha casa. Lembramo-nos dos tempos antigos, como as mães e os filhos costumam fazer. Inevitavelmente, a velha caixa de fotografias foi retirada do armário, deixando à mostra uma pilha de retratos, registros de uma série de acontecimentos de minha infância e adolescência: fantasias de cowboys e de índios, traje de Coelho Pernalonga da peça do curso primário, meus animais de estimação, vários recitais de piano e formaturas do curso primário, secundário e da faculdade.

Entre essas fotografias, encontrei a de um bebê, com meu nome escrito no verso. Era um retrato comum. Eu era parecido com qualquer outro bebê: bochechas redondas, pouco cabelo e olhar desfocado e arredio. A fotografia, porém, estava amassada e mutilada, como se tivesse sido mordida por um animal doméstico. Perguntei à minha mãe por que ela guardava uma fotografia naquele estado, uma vez que havia muitas outras intactas.

Existe um pormenor a respeito de minha família que você precisa saber: quando eu tinha dez meses de idade, meu pai contraiu poliomielite na região lombar da coluna vertebral. Ele morreu três meses depois, logo após meu primeiro aniversário. Ele ficou totalmente paralisado aos 24 anos, com os músculos tão fracos a ponto de precisar viver dentro de um enorme cilindro de aço, que lhe permitia respirar artificialmente. Recebia poucas visitas. Na década de 1950, o pavor que as pessoas sentiam da poliomielite era o mesmo que hoje sentem em relação à Aids. A única visitante fiel era minha mãe, que se sentava em um determinado lugar para que ele pudesse vê-la por um espelho instalado ao lado do pulmão artificial.

Minha mãe explicou-me que guardava aquela fotografia como uma relíquia, porque, diante a enfermidade de meu pai, ela a colocou no aparelho de respiração artificial. Ele pediu fotos dela e dos dois filhos, e minha mãe teve de encaixá-las entre dois botões do aparelho. Era por isso que minha foto estava tão estragada. Vi meu pai raras vezes depois que ele deu entrada no hospital, porque não era permitida a entrada de crianças nas alas reservadas a pacientes com poliomielite. Além disso, eu era um bebê e, se tivesse conseguido entrar, não teria guardado sua fisionomia na memória.

Quando minha mãe me contou a história da fotografia amassada, eu tive uma reação estranha e inesperada. Para mim, parecia esquisito demais imaginar alguém se preocupando comigo, alguém de quem eu nem me lembrava. Durante os últimos dias de vida, meu pai passou suas horas de agonia olhando para aquelas três fotografias de sua família, de minha família. Não havia mais nada ali para ser visto. O que ele fazia o dia inteiro? Orava por nós? Sim, claro. Ele nos amava? Sim. Mas como uma pessoa completamente paralisada pode manifestar amor, principalmente quando seus filhos são impedidos de visitá-Ia?

Hoje penso sempre naquela fotografia amassada, porque ela é uma das únicas ligações que tenho com aquele homem desconhecido que foi meu pai, um desconhecido que morreu com dez anos menos do que tenho agora. Alguém de quem eu não me lembro, que praticamente não conheci, passava o dia inteiro pensando em mim, dedicando-se a mim, amando-me o mais que podia. Talvez um dia eu tenha tempo, muito tempo, para restabelecer um relacionamento cruelmente interrompido logo depois de ter começado.

Estou contando esta história porque a emoção que vivenciei quando minha mãe me mostrou aquela fotografia amassada foi a mesma que senti naquela noite de fevereiro, no alojamento da faculdade, quando, pela primeira vez, acreditei em um Deus de amor. Eu me dei conta que Alguém estava lá. Alguém observa a vida enquanto ela se desenrola neste planeta. E mais, Alguém que me ama está lá. Foi uma estranha sensação de esperança, uma sensação tão nova e poderosa que fazia valer a pena aceitar os desafios da vida.


 

CEDER

Autor Desconhecido

Histórias Para o Coração 134

 

 

Ceder não significa parar de me preocupar; significa que eu não posso resolver os problemas da outra pessoa.

Ceder não significa isolar-me; significa que não posso controlar a vida da outra pessoa.

Ceder não é tornar as coisas mais fáceis, mas extrair lições das consequências de nossos atos.

Ceder é admitir que tenho limitações, o que significa que o resultado final não depende de mim.

Ceder é não tentar modificar ou culpar outras pessoas; eu só posso modificar a mim mesmo.

Ceder não significa deixar de prestar assistência; significa continuar a demonstrar interesse.

Ceder não é jogar a culpa no outro, mas ter espírito de solidariedade.

Ceder não é julgar, mas admitir que a outra pessoa é um ser humano.

Ceder é não se intrometer tentando resolver problemas alheios; é permitir que as pessoas encontrem as soluções por conta própria.

Ceder é deixar de ser protetor; é permitir que a outra pessoa enfrente a realidade.

Ceder não é rejeitar, mas aceitar.

Ceder não significa resmungar, censurar ou discutir; significa aceitar as próprias falhas e corrigi-las.

Ceder não significa adaptar tudo conforme meus desejos, mas aceitar cada dia como ele é e apreciar cada momento.

Ceder é não criticar nem controlar o outro, mas tentar me transformar na pessoa que eu gostaria de ser.

Ceder não é arrepender-se do passado, mas adquirir experiência e viver para o futuro.

Ceder é temer menos e amar mais.


 

O PODER DO AMOR

Allan Loy McGinnis

Histórias Para o Coração 136

 

 

Victor Frankl, um judeu vienense, foi prisioneiro dos alemães durante mais de três anos. Transferido de um campo de concentração para outro, chegou a passar vários meses em Auschwitz. O Dr. Frankl contava que logo aprendeu uma forma de sobreviver: teria de barbear-se diariamente, por mais enfermo que estivesse, mesmo que precisasse usar um caco de vidro como lâmina.

Existia uma razão para isso: todas as manhãs, os prisioneiros tinham de apresentar-se para a revista diária. Os enfermos que não tinham condições de trabalhar naquele dia eram enviados para as câmaras de gás. Se o prisioneiro estivesse barbeado, com aspecto sadio, suas chances de escapar da morte naquele dia seriam maiores.

A parca ração diária para um trabalho tão pesado consistia de 300g de pão e 800ml de uma sopa rala de aveia. Eles dormiam em prateleiras, cujas tábuas tinham pouco mais de dois metros de largura. Em cada prateleira, dormiam nove homens. Esses nove homens tinham apenas dois cobertores para repartir entre eles.

Três apitos agudos os despertavam para iniciarem o trabalho às três horas da madrugada.

Certa manhã, enquanto eles marchavam para colocar os dormentes da ferrovia sobre o chão coberto de gelo a quilômetros de distância do campo de concentração, os guardas que os escoltavam gritavam o tempo todo e os empurravam com a coronha de seus rifles. Quem estivesse com o pé machucado apoiava-se no braço do companheiro.

O homem ao lado de Frankl sussurrou, escondendo a boca sob a gola da camisa:

- Se nossas esposas nos vissem! Espero que elas estejam em melhor situação nos campos de concentração femininos e não saibam o que está acontecendo conosco.

Frankl escreve:

"Aquelas palavras trouxeram-me lembranças de minha esposa.

Enquanto percorríamos cambaleantes aquela distância enorme, escorregando no gelo, apoiando-nos uns nos outros, arrastando nossos companheiros e sendo arrastados, nada foi dito, mas nós dois sabíamos: cada um de nós estava pensando em sua esposa. Vez por outra, eu olhava para o céu, onde as estrelas desapareciam pouco a pouco e a luz rosada da manhã começava a brilhar atrás das maciças nuvens escuras. Minha mente, porém, visualizava a imagem de minha esposa, e essa imagem tinha uma nitidez fantástica. Eu a ouvia conversando comigo, via seu sorriso, sua expressão sincera e encorajadora." Um pensamento veio-me à mente: pela primeira vez na vida, eu enxerguei a verdade declamada em versos por muitos poetas e proclamada como sabedoria final por muitos filósofos. A verdade é: o amor é o derradeiro e mais sublime objetivo ao qual o homem pode aspirar. Então compreendi o significado do maior segredo que a poesia humana, a fé e o pensamento humanos precisam divulgar: a salvação do homem é alcançada por meio do amor e no amor.

 

1 Coríntios 13.13 NVI


 

O PRESENTE DOS MAGOS

O. Henry

Histórias Para o Coração 138

 

 

Um dólar e 87 centavos. Só isso. E 60 centavos dessa quantia eram em trocadinhos. Moedas economizadas de uma em uma, ou de duas em duas, depois de muitas pechinchas ao dono da mercearia, ao verdureiro e ao açougueiro até que o rosto da pessoa ficasse corado de vergonha após aquela silenciosa admissão de avareza que costuma estar implícita nessas situações. Della contou o dinheiro três vezes. Um dólar e 87 centavos. No dia seguinte, seria o Natal.

Não havia mais nada a fazer a não ser afundar-se no pequeno sofá e chorar. E foi o que Della fez. Esse comportamento induz à reflexão de que a vida é feita de soluços, choros contidos e sorrisos, sendo que os choros contidos sempre predominam.

Enquanto a dona da casa passa gradualmente do primeiro para o segundo plano, dê uma olhada no local. Um apartamento mobiliado, alugado a 8 dólares por semana. Não foi difícil descrevê-lo com precisão, mas vamos acrescentar ainda que se enquadrava nos ideais de um bando de mendigos.

No vestíbulo de baixo, havia uma caixa de correio, onde nunca eram colocadas cartas, e um botão de campainha que nenhum ser mortal tocava. Havia também no local um cartão de visitas com um nome: "Sr. James Dillingham Young".

O nome "Dillingham" fora muito conhecido durante um período anterior de prosperidade, quando seu dono recebia 30 dólares por semana. Agora, com a renda reduzida a 20 dólares, as letras do nome "Dillingham" estavam quase apagadas, como que pensando seriamente em reduzir-se a um modesto e despretensioso "D".

Porém, todas as vezes que voltava para casa e subia a escada que dava acesso a seu pequeno apartamento, o Sr. James Dillingham Young era chamado de Jim e recebia um abraço amoroso da Sra.

James Dillingham Young, já apresentada a vocês como Della.

Até aí, tudo bem.

Della parou de chorar e empoou um pouco o rosto com uma esponja gasta. Aproximou-se da janela e observou, com ar inexpressivo, um gato cinzento andando sobre uma cerca cinzenta de um quintal cinzento. Amanhã seria dia de Natal, e ela possuía apenas 1 dólar e 87 centavos para comprar um presente para Jim. Durante meses, economizou cada moeda que pôde, e o resultado era esse. Uma renda de 20 dólares por semana não dura muito tempo.

As despesas foram maiores do que ela calculara. Era sempre assim.

Apenas 1 dólar e 87 centavos para comprar um presente para Jim.

O seu Jim. Ela passara horas felizes planejando comprar um lindo presente para ele. Algo bem refinado, raro e valioso, digno da honra de pertencer a Jim.

Havia um aparador com espelho alto que cobria o espaço de parede entre as duas janelas da sala. É comum ver um móvel desses em apartamentos de 8 dólares por semana de aluguel. Ao observar seu reflexo em uma rápida sequência de faixas longitudinais, uma pessoa muito magra e ágil podia ter uma ideia razoável de seu aspecto. Della, por ser esguia, havia dominado essa arte.

De repente, ela se afastou da janela e postou-se diante do espelho. Seus olhos estavam brilhantes, mas, em seguida, seu rosto perdeu a cor. Ela soltou rapidamente os cabelos deixando-os cair por inteiro.

Havia duas propriedades na família James Dillingham Young das quais ambos tinham muito orgulho. Uma delas era o relógio de ouro de Jim, que pertencera a seu pai e a seu avô. A outra eram os cabelos de Della. Se a rainha de Sabá morasse no apartamento do outro lado do poço de ventilação, Della penduraria seus cabelos na janela para secá-los, só para protestar contra as joias e presentes de Sua Majestade. Se o rei Salomão fosse o porteiro, com todos os seus tesouros empilhados no porão. Jim tiraria seu relógio de ouro do bolso todas as vezes que passasse por ele, só para vê-lo arrancar as barbas de inveja.

E agora, os lindos cabelos ondulados e brilhantes de Della caíam ao redor de seu corpo, formando uma cascata marrom. O comprimento chegava até o joelho, envolvendo-a como se fosse um belo vestido. Em seguida, ela ergueu os cabelos com nervosismo e rapidez. Após um leve vacilo, endireitou o corpo, enquanto uma lágrima ou duas caíam no surrado carpete vermelho.

Entra em cena o velho casaco marrom; entra em cena o velho chapéu marrom. Dando uma voltinha para admirar-se e com um brilho nos olhos, ela atravessou a porta, desceu correndo a escada e chegou à rua.

Parou diante de uma placa e leu: "Mme. Sofronie. Comércio de Cabelos de Todos os Tipos". Della subiu apressada um lance de escada e parou, ofegante. A senhora, uma mulher gorda e de pele muito branca, pouco cordial, não parecia chamar-se "Sofronie".

- A senhora compraria os meus cabelos? - perguntou Della.

- Eu compro cabelos - disse a madame. - Tire o chapéu para eu dar uma olhada.

Os cabelos ondulados marrons caíram em forma de cascata.

- Vinte dólares - disse a madame erguendo os cabelos volumosos com mãos hábeis.

- Negócio fechado - disse Della.

Oh, as duas horas seguintes foram de pura embriaguez. Esqueçam a metáfora confusa. Ela vasculhou as lojas à procura de um presente para Jim.

Por fim. o encontrou. Tinha sido feito especialmente para Jim e para mais ninguém. Não havia nada semelhante em qualquer outra loja, e não se esqueçam de que Della havia virado todas do avesso. Era uma simples corrente de platina para relógio, de traçado modesto, exibindo seu valor pela peça em si e não por enfeites espalhafatosos - como todas as coisas boas deviam ser. Era digna do relógio. Assim que viu a corrente, Della teve a certeza de que a compraria para Jim. Era parecida com ele. Modéstia e valor a descrição aplicava-se a ambos. Ela pagou 21 dólares e voltou apressada para casa com 87 centavos. Com seu relógio preso àquela nova corrente, Jim poderia orgulhosamente ver as horas em qualquer empresa. Apesar de o relógio ser grande, Jim consultava as horas discretamente por causa da velha correia de couro que fazia as vezes de corrente.

Quando Della chegou ao apartamento, a euforia deu lugar à prudência e ao bom senso. Procurou os frisadores de cabelo, acendeu o gás e começou a trabalhar para reparar os estragos provocados pela generosidade acompanhada de amor. O que sempre é uma tarefa insidiosa, caros amigos - uma tarefa monumental.

Após 40 minutos, a cabeça de Della estava coberta de pequenas peças de ferro para frisar os cabelos, que a deixaram parecida com um garoto de rua. Ela olhou-se no longo espelho com atenção e ar de crítica.

Se Jim não me matar, ela pensou, antes de olhar uma segunda vez para mim, vai dizer que estou parecida com uma corista de Coney Island. Mas o que eu poderia fazer... oh, o que eu poderia fazer com 1 dólar e 87 centavos?

Às 19 horas, o café estava coado e a frigideira colocada sobre a parte posterior do fogão, pronta para fritar a carne picada.

Jim nunca se atrasava. Della pegou a corrente e sentou-se em um dos cantos da mesa~ perto da porta por onde ele sempre entrava. Em seguida, ouviu os passos dele subindo o primeiro lance da escada.

Seu rosto empalideceu por alguns instantes. Della tinha o hábito de murmurar pequenas orações sobre as coisas simples do cotidiano, e naquele momento ela orou: Por favor, Deus, peço-te que ele continue me achando bonita.

A porta foi aberta. Jim entrou e fechou-a. Parecia abatido e muito circunspecto. Pobre homem! Tinha apenas 22 anos e a responsabilidade de sustentar uma família! Precisava de um novo sobretudo e estava sem luvas.

Assim que fechou a porta, Jim ficou tão imóvel quanto um cão de caça ao sentir o cheiro de uma codorniz. Seus olhos fixaram-se em Della com uma expressão que ela não conseguia entender, e isso a deixou aterrorizada. Não era uma expressão de raiva, nem de surpresa, nem de desaprovação, nem de horror, nem de outra emoção que ela estava preparada para ver no rosto do marido. Ele simplesmente olhava firme para ela com aquela expressão estranha no rosto.

Della afastou-se repentinamente da mesa e foi ao encontro dele.

- Jim, querido - ela choramingou -, não me olhe desta maneira.

Cortei meus cabelos e os vendi porque não poderia passar o Natal sem ter um presente para lhe dar. Eles vão crescer novamente...

Você não se importa, não é? Eu tive de fazer isso. Meus cabelos crescem rápido. Diga "Feliz Natal! ", Jim, e vamos voltar a ser felizes. Você não sabe que coisa linda, muito linda, maravilhosa, eu comprei para lhe dar.

- Você cortou os cabelos? - perguntou Jim penosamente, como se não tivesse entendido o óbvio, mesmo depois de um grande esforço mental.

- Cortei-os e vendi-os - disse Della. - Você não gosta mais de mim? Mesmo de cabelos curtos, sou a mesma pessoa, não sou?

Jim olhou ao redor da sala com curiosidade.

- Você disse que seus cabelos desapareceram? - ele perguntou com ar meio abobalhado.

- Não adianta procurá-los - disse Della. - Eles foram vendidos.

Hoje é véspera de Natal, meu jovem. Seja bondoso comigo, porque fiz isso por sua causa. Talvez os fios de cabelo de minha cabeça estivessem contados. - A voz dela tinha agora uma súbita doçura.

- Mas ninguém pode contar o meu amor por você. Posso fritar a carne, Jim?

Jim pareceu despertar do transe em que se encontrava e passou os braços ao redor de Della. Vamos nos afastar durante dez segundos 1 e desviar os olhos com discrição para um objeto qualquer do apartamento. Oito dólares por semana ou um milhão por ano - que diferença faz? Um matemático ou uma pessoa muito inteligente daria a resposta errada. Os magos levaram presentes valiosos, mas não tinham nada a ver com o momento presente. Essa sombria assertiva será ilustrada mais adiante.

Jim tirou um pacote do sobretudo e o colocou em cima da mesa.

- Não se engane a meu respeito, Dell - ele disse. - Não há corte t de cabelo, nem xampu, nem maneira de barbear que me faça igualar à minha menina. Mas, se você desembrulhar este pacote, vai saber por que estou divagando um pouco.

Dedos brancos e ágeis rasgaram a fita e o papel. E, a seguir, um grito de alegria, de êxtase; e, depois, um suspiro, uma rápida mudança de comportamento feminino para lágrimas e gemidos, necessitando imediatamente de toda espécie de amparo por parte do chefe da casa.

Porque ali estavam Os Pentes - um conjunto de pentes para serem colocados dos lados da cabeça e atrás, aqueles que Della namorara tanto tempo em uma das vitrinas da Broadway. Pentes lindos, de tartaruga, com enfeites de pedras preciosas - um ornamento para ser usado nos lindos cabelos de antes. Ela sabia que eram pentes caros e os desejara de todo o coração, sem a mínima esperança de possuí-los. E, agora, eram dela, mas as madeixas que deveriam ser enfeitadas com aqueles lindos e almejados ornamentos não mais existiam.

Della os segurou de encontro ao peito, e finalmente conseguiu olhar para cima com uma expressão indefinida, dar um sorriso e dizer:

- Meus cabelos crescem muito rápido, Jim!

Em seguida, ela levantou-se, ágil como um gato, e deu um grito:

- Oh, oh!

Jim ainda não havia visto seu lindo presente. Ela o segurou na palma da mão para que ele o visse. O frio metal precioso parecia refletir o brilho do espírito ardente de Della.

- Não é linda, Jim? Rodei a cidade inteira à procura dela. A partir de agora, você vai ter de consultar as horas centenas de vezes por dia. Dê-me seu relógio. Quero ver como ele fica com a corrente.

Em vez de entregar-lhe o relógio, Jim afundou-se no sofá, colocou as mãos atrás da cabeça e sorriu.

- Dell- ele disse -, vamos deixar os presentes de Natal de lado por algum tempo. Eles são lindos demais para serem usados neste momento. Vendi o relógio para conseguir dinheiro e comprar os pentes. E, agora, acho que você deve fritar a carne.

Os magos, conforme você sabe, eram homens sábios maravilhosamente sábios - que levaram presentes para o Bebê na manjedoura. Eles inventaram a arte de oferecer presentes de Natal.

Por serem sábios, seus presentes também foram sábios, talvez com a possibilidade de poderem ser trocados em caso de duplicidade. E aqui eu relatei de modo imperfeito a você uma crônica comum de dois jovens tolos, que sacrificaram insensatamente, um em prol do outro, os maiores tesouros que tinham em casa. Mas, para os sábios de nossos dias, digo que, dentre todos os que oferecem presentes, esses dois foram os mais sábios. Dentre todos os que dão e recebem presentes, os que agem como eles são os mais sábios. Por todos os lugares onde andam, são os mais sábios. Esses são os magos.

ACREDITANDO UM NO OUTRO

Steve Stephens

Histórias Para o Coração 145

 

 

Em 1910, De Witt Wallace desenvolveu uma nova ideia para uma revista. Consistia de uma coleção de artigos condensados, à qual ele deu o nome de Reader´s Digest [Seleções]. De Witt elaborou um exemplar de amostra e o enviou a todas as editoras do país. Ninguém demonstrou interesse. De Witt ficou terrivelmente desanimado.

Por volta da mesma época, ele conheceu Lila Bell Acheson, filha de um pastor presbiteriano. Em breve, ambos se apaixonaram perdidamente. Lila acreditou no sonho de DeWitt. Não permitiu que ele desistisse e o incentivou a prosseguir com sua ideia maravilhosa de publicar a revista. Encorajado pela confiança que Lila depositava nele, De Witt enviou uma circular pelo correio a todas as pessoas consideradas assinantes em potencial.

Em outubro de 1921, Lila casou-se com De Witt. Ao retomarem da lua-de-mel, eles encontraram uma pilha de cartas de pessoas interessadas em assinar a revista. Juntos eles trabalharam no Volume 1, Número 1, que foi publicado em fevereiro de 1922.

De Witt incluiu Lila Bell Acheson como cofundadora, coeditora e coproprietária. A revista expandiu-se ao longo dos anos. Agora, impressa em pelo menos 18 idiomas, a Reader´s Digest é a revista de maior vendagem no mundo inteiro.

De Witt e Lila foram mais que marido e mulher; foram amigos verdadeiros. Incentivaram e apoiaram um ao outro. Acreditaram um no outro. Trabalharam lado a lado para concretizar seu sonho, e sempre se respeitaram mutuamente. De Witt disse certa vez:

- Foi Lila quem transformou a revista em realidade.

Imagino que Lila tenha dito o mesmo a respeito de De Witt.

Sim, o amor acredita em todas as coisas. Ele idealiza sonhos praticamente impossíveis, incentiva enquanto estão sendo levados adiante e aplaude quando se tornam realidade.


 

ATO DE AMOR

Alice Gray

Histórias Para o Coração 147

 

 

Esta é a história de uma mãe que voltou para casa após um árduo dia de trabalho. Sua filhinha apareceu na porta e correu para abraçá-la.

- Mamãe, mamãe, aconteceram muitas coisas hoje e quero contar tudo a você.

Depois de ouvir algumas frases, a mãe fez um gesto indicando que ouviria o restante da história mais tarde, porque precisava preparar o jantar. Durante a refeição, o telefone tocou, e a mãe teve de ouvir outras histórias da família, mais longas e contadas em voz mais alta que a da menina. Depois que a cozinha foi arrumada e as dúvidas sobre os deveres de casa de seu irmão foram solucionadas, a menina tentou novamente contar as novidades à mãe, mas já havia chegado a hora de ir para a cama.

A mãe dirigiu-se ao quarto da filha para ajeitar suas cobertas e ouviu-a orando. Quando ela se curvou para afagar seus cabelos encaracolados e beijar-lhe o rosto, a menina olhou para cima e perguntou:

- Mamãe, você me ama mesmo quando não tem tempo para me ouvir?


 

VOLTE PARA CASA

Max Luccado

Histórias Para o Coração 148

 

 

A casa pequenina era simples, mas adequada. Consistia de um único cômodo grande e localizava-se em uma Tua de terra.

Sua cobertura de telhas vermelhas era igual à de várias outras de um bairro pobre na periferia de uma cidade brasileira. Era uma casa confortável. Maria e a filha, Cristina, haviam feito o que podiam para dar um toque colorido às paredes cinzas e um ar de limpeza ao chão duro e empoeirado: um antigo calendário, uma fotografia desbotada de um parente, um crucifixo de madeira. A mobília era modesta: duas camas toscas, uma pia para lavar o rosto e um fogão de lenha.

O marido de Maria morreu quando Cristina ainda era bebê. A jovem mãe, que se recusou obstinadamente a casar-se novamente, conseguiu um emprego para poder criar a filha pequena. E agora, 15 anos depois, o pior já havia passado. Embora o salário de Maria como empregada doméstica não lhe permitisse comprar uma ou outra futilidade, era suficiente para proporcionar alimentos e roupas a ela e à filha. Agora, porém, Cristina já tinha idade para conseguir um emprego e ajudar a mãe.

Algumas pessoas diziam que Cristina herdara o espírito de independência da mãe. Ela resistia à ideia tradicional de casar-se jovem e de constituir família. Não porque fosse incapaz de conseguir um marido. Sua pele morena e olhos castanhos atraíam um grande número de admiradores à sua porta. Ela possuía um jeito todo especial de jogar a cabeça para trás e contagiava a todos com suas gargalhadas. Possuía também aquela certa magia, inerente a poucas mulheres, que fazem os homens se sentirem reis só por estarem perto delas. Mas era aquele ar de curiosidade que mantinha os rapazes ao alcance de sua mão.

Ela dizia sempre que queria conhecer uma cidade grande.

Sonhava em trocar seu vilarejo pobre e empoeirado pela vida exuberante da cidade. Aquela ideia deixava sua mãe horrorizada.

Maria sempre mencionava a Cristina as dificuldades de se morar em uma cidade grande.

- Lá, você vai ser uma desconhecida. Os empregos são difíceis de conseguir, e a vida é cruel. Além disso, se você for morar lá, o que vai fazer para ganhar a vida?

Maria sabia exatamente o que Cristina faria ou teria de fazer para ganhar a vida.

Por isso um dia, com o coração apertado, acordou certa manhã e viu a cama da filha vazia. Imediatamente entendeu que Cristina havia partido. E imediatamente decidiu o que deveria fazer para encontrá-la. Colocou algumas roupas em uma sacola, pegou todo o dinheiro que possuía e deixou sua casa para trás.

A caminho do ponto de ônibus, ela decidiu fazer uma última coisa: tirar uma fotografia. Entrou em um pequeno estúdio, fechou as cortinas, e gastou tudo o que podia em fotografias. Com a bolsa cheia de pequenos retratos branco e preto, ela entrou no ônibus com destino ao Rio de Janeiro.

Maria sabia que Cristina não tinha meios de ganhar dinheiro.

Sabia também que a filha era teimosa demais para desistir. Quando o orgulho se choca com a fome, o ser humano é capaz de fazer coisas realmente  inconcebíveis. Sabendo disso, Maria começou suas buscas.

Bares, hotéis, boates, qualquer canto que abrigasse pessoas de rua ou prostitutas. Percorreu todos esses lugares e, em cada um, deixava uma foto sua - pendurada em espelhos de banheiro, pregada em quadro de avisos de hotéis, presa em cabinas telefônicas. E, no verso de cada foto, ela escreveu um bilhete.

Pouco tempo depois, o dinheiro e as fotografias acabaram, e Maria teve de voltar para casa. Vencida pelo cansaço, ela chorou quando o ônibus começou a longa viagem de volta para seu vilarejo.

Algumas semanas depois, Cristina estava descendo a escada de um hotel. Seu rosto jovem tinha um ar cansado. Seus olhos castanhos não mais brilhavam com a euforia da juventude. Só estampavam sofrimento e medo. As gargalhadas desapareceram. Os sonhos transformaram-se em pesadelo. Como seria bom, ela pensara milhares de vezes, trocar aquele grande número de camas pela segurança de seu leito aconchegante. Porém, em vários sentidos, o seu vilarejo estava longe demais.

Quando ela chegou ao pé da escada, seus olhos avistaram um rosto conhecido. Ela olhou mais uma vez, e lá estava, no espelho do saguão uma pequena fotografia de sua mãe. Os olhos de Cristina começaram a arder, e ela sentiu um aperto na garganta enquanto atravessava o saguão e pegava a foto. No verso, estava escrito este convite irrecusável: "Não importa o que você fez, não importa em quem você se transformou. Por favor, volte para casa." Ela voltou.


 

UM DIA

Charles R. Swindoll

Histórias Para o Coração 153

 

 

UM DIA, QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM, as coisas vão ser bem diferentes. A garagem não ficará lotada de bicicletas, de trilhos de trenzinhos elétricos sobre madeira compensada, de cavaletes rodeados de tábuas, pregos, martelo e serra, de "projetos experimentais" inacabados e da gaiola do coelho. Poderei estacionar os dois carros nas vagas certas e nunca mais tropeçarei em pranchas de skate, pilhas de papéis (guardados para colaborar com as obras assistenciais da escola) ou sacos com comida para coelhos - tudo espalhado pelo chão.

UM DIA, QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM, a cozinha ficará incrivelmente arrumada. A pia não ficará cheia de pratos sujos, a lixeira não ficará abarrotada de elásticos e de copos de papel, a geladeira não ficará lotada de frascos de leite, e nunca mais perderemos as tampas dos vidros de geleia e de ketchup e dos potes de manteiga de amendoim, de margarina e de mostarda. A jarra d'água não será recolocada vazia, as fôrmas de gelo não ficarão fora durante a noite, o liquidificador não ficará sujo, seis horas a fio, de resíduos de vitamina preparada à meia-noite, e o mel ficará dentro do seu pote.

UM DIA, QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM, minha querida esposa terá tempo para vestir-se vagarosamente. Terá tempo para um banho quente demorado (sem receio de ser interrompida por gritos assustados), tempo para cuidar das unhas da mão (e dos pés, se desejar!) sem ter de responder a uma dúzia de perguntas e de revisar a grafia correta das palavras, tempo para cuidar dos cabelos durante a tarde sem ter de marcar um horário espremido entre uma visita ao veterinário para levar um cão doente ou uma ida ao ortodontista para levar uma criança de mau humor por ter perdido seu boné.

UM DIA, QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM, o aparelho chamado "telefone" ficará desocupado, sem parecer ter nascido grudado ao ouvido de um adolescente. Ele simplesmente ficará lá... silencioso e, por incrível que pareça, pronto para ser usado! Não ficará melado de batom, saliva, maionese, migalhas de salgadinhos ou com palitos de dentes enfiados nos pequenos orifícios.

UM DIA, QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM, eu serei capaz de enxergar através dos vidros do carro. Impressões digitais de mãos e pés, lambidas e sinais de patas de cachorro (ninguém sabe como) serão inexistentes. O banco traseiro não ficará em completa desordem, não nos sentaremos mais em cima de pedrinhas e lápis de cor, o tanque de combustível estará sempre cheio e (glória a Deus!) não terei de limpar mais uma vez a sujeira do cachorro.

UM DIA, QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM, poderemos voltar a conversar normalmente, isto é, conversar como qualquer pessoa normal. As frases não serão intercaladas de grosserias. "Legal!" será uma expressão em desuso. Não haverá batidas na porta do banheiro acompanhadas de "Ande logo, estou apertado!" e "É a minha vez" não necessitará da presença de um árbitro. E aquele artigo de revista será lido sem interrupções e, depois, discutido longamente, sem que o pai e a mãe tenham de esconder-se no sótão para terminar a conversa.

UM DIA, QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM, não vamos mais precisar correr atrás do rolo de papel higiênico. Minha esposa não vai perder as chaves. Não esqueceremos a porta da geladeira aberta. Eu não vou ter de inventar novas maneiras de desviar a atenção das máquinas que vendem gomas de mascar... nem ter de responder à pergunta "Papai, não é pecado você dirigir a 75 quilômetros por hora quando a placa diz que o limite é de 55?.... nem prometer dar um beijo de boa-noite no coelho... nem ter de ficar acordado até altas horas esperando a chegada deles... nem ter de pedir licença para falar durante o jantar... nem ter de suportar socos de brincadeira, mas que são realmente doloridos.

Sim, um dia, quando as crianças crescerem, as coisas vão ser bem diferentes. Elas começarão a partir, uma após a outra, e a casa voltará a ficar em ordem e talvez até com um toque de elegância. O tinir da porcelana e da prata será ouvido em ocasiões especiais. O som do fogo crepitando na lareira ecoará por todo o saguão da casa.

O telefone estará estranham ente mudo. A casa estará sossegada... calma... sempre limpa... e vazia... e passaremos o tempo aguardando a chegada de um dia, mas lembrando-nos do ontem. E pensando:

"Talvez a gente possa cuidar dos netos para que esta casa volte a ter vida!"

 

 

 

Nenhum sucesso na vida - ser presidente de uma nação, ser rico, frequentar faculdade, escrever um livro ou qualquer outra coisa - é capaz de sobrepujar o sucesso do homem que tem a sensação do dever cumprido e cujos filhos e netos se levantam e o chamam abençoado.

THEODORE ROSEVELT, 1917

 


 

MAIS PAPAI

John Trent

Histórias Para o Coração 156

 

 

Recentemente, uma mulher segurou meu braço após uma palestra que fiz a respeito da enorme necessidade que temos de autoafirmação.

- Dr. Trent, posso contar-lhe minha história? - ela perguntou.

- Na verdade, é uma história a respeito do que meu filho fez com minha neta e que ilustra o que foi dito aqui, a importância da autoafirmação.

- Meu filho tem duas filhas - ela prosseguiu -, uma com cinco anos e outra com aquela "terrível" idade de dois anos.

Quando uma avó usa a palavra "terrível" para descrever um neto ou uma neta, podem acreditar, porque é verdade!

- Nesses últimos anos, meu filho tem levado a menina mais velha para passear com ele, mas só levou a mais nova recentemente. No primeiro passeio com ela, levou-a para tomar o café da manhã em uma lanchonete.

Quando chegaram as panquecas, meu filho achou que o momento seria propício para dizer à filha quanto ele a amava.

- Jenny - ele disse à filha - quero que você saiba quanto eu a amo e como você sou especial para a mamãe e para mim. Oramos por você durante anos, e, agora que está aqui e se transformou em uma menina tão linda, estamos muito orgulhosos de você.

Depois de dizer isso, ele parou de falar e esticou o braço para pegar o garfo e começar a comer, mas não chegou a colocá-lo na boca. A menina pôs a mão sobre a do pai. Ele olhou para a filha e, com voz meiga e suplicante, ela disse:

- Mais, papai... mais.

Ele pousou o garfo na mesa e prosseguiu, apresentando outros motivos que o levavam a amar tanto a filha, e, em seguida, fez menção de pegar o garfo novamente. Pela segunda vez... terceira vez... e quarta vez, ele ouviu as palavras:

- Mais, papai... mais.

Aquele pai quase não conseguiu saborear o desjejum naquela manhã, mas sua filha recebeu o sustento emocional de que tanto necessitava. Alguns dias depois. ela correu espontaneamente em direção à mãe e disse:

- Eu sou uma filha muito especial, mamãe. Foi o papai que disse.


 

O QUE É UMA AVÓ?

Carta de um aluno da terceira série

Histórias Para o Coração 159

 

 

Avó é uma senhora que não tem filhos para cuidar. Ela gosta dos filhos e filhas das outras pessoas. O avô é igual à avó, só que é homem. Ele faz passeios com os meninos e conversa com eles sobre pescaria e outros assuntos interessantes.

As avós não têm nada para fazer a não ser ficar paradas. São muito velhas para brincar ou correr. Basta que elas nos levem ao mercado onde existe um cavalinho de brinquedo e tenham bastante dinheiro para gastar. E, se nos levarem para passear, devem passar devagarinho para observar coisas como folhas bonitas e lagartas.

Elas nunca devem dizer "ande mais depressa".

Geralmente, as avós são gordas, mas não tão gordas que não consigam amarrar nossos sapatos. Elas usam óculos e roupas de baixo esquisitas. Podem tirar da boca os dentes e as gengivas.

As avós não precisam ser espertas, precisam apenas responder a perguntas do tipo "Por que Deus não é casado?" ou "Por que os cachorros perseguem os gatos?".

As avós não falam linguagem de criancinha igual às visitas, porque é difícil de entender. Quando elas lêem para nós, não pulam trechos nem se importam de contar a mesma história outra vez.

Todos deveriam ter uma avó, principalmente se não tiverem televisão, porque elas são as únicas pessoas adultas que têm tempo para nós.


 

PAREDES

Richard A. McCray

Histórias Para o Coração 160

 

 

A fotografia do casamento sobre a mesa zombava deles, daqueles dois cujas mentes não mais se entendiam.

 

Entre eles, uma enorme barricada, que um tiroteio de palavras ou a mais pesada artilharia não seriam capazes de derrubar.

 

Em algum momento da vida, entre o nascimento do primeiro dente do filho mais velho e a formatura da filha mais nova, eles se afastaram um do outro.

 

Ao longo dos anos, cada um desembaraçou lentamente aquela bola de fios emaranhados chamada "eu", e, à medida que tentavam desatar os nós apertados, cada um escondeu do outro o que estava procurando.

 

Às vezes, ela chorava à noite e, sussurrando, implorava à escuridão que lhe dissesse quem ela era.

Ele, deitado a seu lado como um urso hibernando, não se dava conta do inverno que ela atravessava.

 

Um dia, depois de terem feito amor, ele quis dizer a ela que tinha medo de morrer, mas, temeroso de desnudar sua alma, resolveu falar da beleza dos seios dela.

 

Ela se matriculou em um curso de arte moderna, tentando encontrar-se nas cores pinceladas na tela, queixando-se dos homens às outras mulheres, dizendo que são insensíveis.

 

Ele subiu em um túmulo chamado "O Escritório", embrulhou sua mente em uma mortalha de números, e enterrou-se no meio dos clientes.

 

Lentamente, a parede entre eles foi subindo, cimentada pela argamassa da indiferença.

 

Um dia, quando ambos tentaram se tocar, encontraram uma barreira impossível de atravessar, e, recuando diante da frieza da pedra, cada um afastou-se do estranho do outro lado.

 

Quando o amor morre, ele não morre em momentos de ira, nem quando corpos ardentes perdem o calor.

 

Fica estagnado, ofegante, exausto, expirando aos pés de uma parede que não consegue escalar.


 

GENEROSIDADE

James Dobson

Histórias Para o Coração 162

 

 

Meu pai sempre esteve pronto a ajudar os que tinham fome. Ele era um evangelista que viajou a vários lugares para realizar reuniões de avivamento. As viagens eram caras, e o dinheiro que possuíamos era suficiente apenas para as necessidades básicas.

Um dos problemas era a maneira como as igrejas pagavam os pastores e evangelistas naquela época. Os pastores recebiam salário durante o ano inteiro, mas os evangelistas eram pagos somente quando trabalhavam. Por conseguinte, a renda de meu pai cessava abruptamente durante os feriados do Dia de Ação de Graças, do Natal, das férias de verão ou de qualquer período em que ele precisasse descansar. Talvez tenha sido por isso que o dinheiro era escasso quando ele ficava em casa. Mas isso não impedia meu pai de ser generoso.

Eu me lembro de vê-lo partir para falar em uma igreja pequenina e voltar para casa dez dias depois. Minha mãe o recebeu com entusiasmo e perguntou sobre o avivamento. Ele sempre se empolgava ao falar desse assunto. Nessas ocasiões, minha mãe o deixava falar e, depois, perguntava sobre o dinheiro. As mulheres têm a mania de preocupar-se com essas coisas.

- Quanto eles lhe deram? - ela perguntou.

Tenho gravada na memória a expressão de meu pai, quando ele sorriu e olhou para o chão.

- Eu... - ele gaguejou.

Minha mãe afastou-se e o encarou.

- Ah, já entendi - ela disse. - Você devolveu o dinheiro novamente, não?

- Myrt - ele disse -, o pastor de lá está atravessando um momento difícil. Seus filhos necessitam de muita coisa. Fiquei com o coração partido. Os sapatos das crianças estão furados na sola e, numa dessas manhãs frias, uma delas foi para a escola sem agasalho. Achei que devia deixar com eles os 50 dólares que recebi.

Minha boa mãe olhou atentamente para ele por alguns instantes e sorriu.

- Se Deus pediu a você que fizesse isso, tudo bem.

Após alguns dias, o inevitável aconteceu. A família Dobson ficou completamente sem dinheiro. Não havia reservas para lançarmos mão. Foi então que meu pai nos reuniu no quarto para passarmos alguns momentos em oração. Eu me lembro daquele dia como se fosse ontem. Ele orou em primeiro lugar.

"Oh, Senhor, tu prometeste que, se fôssemos fiéis contigo e com teu povo em tempos de bonança, não te esquecerias de nós em tempos de necessidade. Temos tentado ser generosos com aquilo que nos deste, e agora estamos implorando tua ajuda." Um menino muito sensível de dez anos, chamado Jimmy, observou e ouviu atentamente o que se passou naquele dia. O que vai acontecer?, ele pensou. Será que Deus ouviu a oração do papai?

No dia seguinte, um cheque inesperado de 1.200 dólares chegou, pelo correio. Verdade! Foi assim que aconteceu, não apenas uma, mas várias vezes. Eu vi o Senhor devolver a meu pai tudo o que ele deu aos outros. Não, Deus não fez de nós uma família rica, mas minha fé tempos de juventude aumentou consideravelmente. Aprendi que não podemos exceder a Deus em generosidade.

Meu pai continuou a agir da mesma maneira durante a meia-idade e depois dos 60 anos. Eu me preocupava querendo saber como ele e minha mãe sobreviveriam após a aposentadoria, porque o dinheiro era escasso e não podia ser poupado. Se meu pai conseguisse muitos dólares, com certeza os distribuiria aos necessitados. Eu me perguntava como eles viveriam com a ninharia que era paga aos pastores e evangelistas jubilados. (Como viúva, minha mãe recebia apenas 80 dólares e 50 centavos por meu pai ter trabalhado 44 anos na igreja.) É tremendamente injusto o tratamento que os pastores e evangelistas jubilados e suas esposas recebem.

Certo dia, meu pai estava deitado na cama, enquanto minha mãe se vestia. Ela olhou para ele, e ele estava chorando.

- O que houve? - ela perguntou.

- O Senhor acabou de falar comigo - ele respondeu.

- Você quer me contar o que Ele falou?

- Ele me falou sobre você.

Minha mãe pediu-lhe que contasse qual foi a mensagem do Senhor.

Meu pai disse:

- Foi uma experiência estranha. Eu estava deitado aqui pensando em muitas coisas. Não estava orando nem pensando em você quando o Senhor me disse: "Eu vou cuidar de Myrtle." Nenhum deles entendeu a mensagem, deixando-a guardada na lista das coisas imponderáveis. Cinco dias depois, meu pai teve um ataque cardíaco de grandes proporções e faleceu após três meses.

Aos 66 anos de idade, aquele homem bondoso cujo nome eu levo, partiu para encontrar-se com Cristo, a quem ele amou e serviu durante todos aqueles anos.

Foi emocionante testemunhar a maneira como Deus cumpriu sua promessa de cuidar de minha mãe. Mesmo quando ela estava sofrendo em fase terminal do mal de Parkinson e necessitando de constantes cuidados a um custo astronômico, Deus a sustentou. A pequena herança que meu pai deixou à sua esposa multiplicou-se nos anos após sua partida. Foi suficiente para pagar tudo o que elã necessitou, inclusive os incessantes cuidados de que precisava.

Deus também esteve com ela de outra maneira, carregando-a e protegendo-a em seus braços até o dia em que a levou consigo. Em suma, meu pai nunca chegou perto de exceder a generosidade de Deus!


 

QUANDO VOCÊ PENSOU

QUE EU NÃO ESTAVA OLHANDO

Mary Rita Schilke Korzan

Histórias Para o Coração 165

 

 

Quando você pensou que eu não estava olhando, eu o vi pendurar minha primeira pintura na geladeira e quis fazer outra.

Quando você pensou que eu não estava olhando, eu o vi dar comida a um gato de rua e achei muito bom alguém gostar de animais.

Quando você pensou que eu não estava olhando, eu o vi preparar o meu bolo favorito e descobri que pequenas coisas são muito significativas.

Quando você pensou que eu não estava olhando, eu o ouvi proferir uma oração e acreditei que existe um Deus com quem eu posso sempre conversar.

Quando você pensou que eu não estava olhando, senti seu beijo de boa-noite e me senti amada.

Quando você pensou que eu não estava olhando, eu vi lágrimas em seus olhos e aprendi que, nos momentos em que nos sentimos magoados, é bom chorar.

Quando você pensou que eu não estava olhando, eu vi que você se preocupa comigo e desejei ser a melhor pessoa possível.

Quando você pensou que eu não estava olhando, eu olhei... e quis agradecer todas as coisas que vi quando você pensou que eu não estava olhando.


 

CRESCER

Marilyn K. McAuley

Histórias Para o Coração 166

 

 

Danny tinha apenas três anos de idade quando ele e seu pai vieram morar conosco durante um ano. Todas as manhãs, ficávamos em pé na porta para jogar beijos de despedida ao vovô e ao papai quando eles saíam para trabalhar. Em seguida, Danny e a vovó entravam de volta na casa para construir arranha-céus com tijolinhos de brinquedo e fazer longas viagens a lugares maravilhosos lendo livros e mais livros. Mais tarde, caminhávamos pela estradinha em direção à rodovia para pegar a correspondência diária e ouvíamos o sussurro do vento por entre os galhos dos altos pinheiros.

Certa noite, depois de voltar do trabalho, o vovô pegou Danny no colo e disse:

- Vamos comer um hambúrguer.

No carro, enquanto fazíamos o percurso de 45 minutos até a cidade, cantamos e conversamos. De repente, houve um grande silêncio. Depois de pensar um pouco, Danny disse:

- O vovô tem um emprego, e o papai tem um emprego. Quando eu crescer, vou ter um emprego.

- Muito bem, Danny - disse o vovô.

Após mais alguns instantes de reflexão, Danny complementou:

- E, quando a vovó crescer, ela também vai ter um emprego.


 

MESMO QUANDO ESTÁ ESCURO

Ron Mehl

Histórias Para o Coração 167

 

 

Ele era um homem forte que estava enfrentando um inimigo muito mais forte. Sua jovem esposa ficou gravemente enferma e faleceu, deixando o homenzarrão sozinho e uma filha loirinha, de olhos grandes, que ainda não havia completado cinco anos.

A cerimônia fúnebre na pequena capela da cidade foi simples e carregada de dor. Após o sepultamento no pequeno cemitério, os vizinhos do homem reuniram-se ao redor dele.

- Por favor, venha com sua filha passar alguns dias conosco disse alguém. - Vocês não devem voltar para casa ainda.

Mesmo diante de tanto sofrimento, o homem disse:

- Obrigado, meus amigos, pela oferta generosa. Mas nós precisamos voltar para casa. Minha filhinha e eu precisamos enfrentar esta dor.

Assim, o homenzarrão e a menina voltaram para casa, que agora parecia vazia e sem vida. O pai colocou a cama da filha em seu quarto, para que eles pudessem passar juntos a escuridão da primeira noite.

Os minutos passaram lentamente, e a menina estava tendo grande dificuldade para dormir... a mesma de seu pai. O que pode afligir mais o coração de um pai que ver uma criança soluçando de saudades da mãe que nunca mais vai voltar?

A menina continuou a chorar noite adentro. O homem esticou o braço para tentar consolá-la da melhor maneira possível. Após alguns instantes, a menina conseguiu parar de chorar. Pensando que a filha já estava dormindo, o pai olhou para cima e orou, com a voz entrecortada:

- Eu confio em ti, ó Pai, a noite está escura demais!

Ao ouvir a oração do pai, a menina começou a chorar novamente.

- Eu pensei que você estivesse dormindo, querida - ele disse.

- Eu tentei, papai. Estava triste por você. Eu tentei de verdade.

Mas não consegui dormir. Papai, você já viu uma noite tão escura assim? Por que, papai? Eu não posso ver você. Está escuro demais.

- Em seguida, por entre as lágrimas, a menina disse baixinho:

- Mas você me ama mesmo quando está escuro, não é verdade, papai? Você me ama mesmo quando eu não posso enxergar você, não é verdade, papai?

Como resposta, o homem pegou a filha da cama com suas mãos enormes, colocou-a de encontro ao peito e segurou-a carinhosamente até ela dormir.

Quando ela se aquietou, o homem voltou a orar. Assumiu para si todo o choro da filha e o transferiu para Deus.

"Pai, a noite está escura demais. Não posso te enxergar. Mas tu me amas, mesmo quando está escuro e eu não posso te enxergar, não é verdade, Pai?" Naquelas horas tão tenebrosas, o Senhor o tocou dando-lhe novas forças para prosseguir. Ele sabia que Deus continuaria a amá-Io, mesmo no escuro.


 

VOCÊ TEM UM MINUTO?

David Jeremiah

 

 

Uma mãe que acabara de ler um livro sobre a arte de educar filhos... estava convicta a respeito de alguns de seus fracassos como mãe. Ao sentir isso, ela subiu a escada para conversar com o filho. Quando chegou ao pavimento superior da casa, escutou a barulheira da bateria que estava sendo tocada com força no quarto do filho. Ela queria dizer-lhe uma coisa, mas, quando bateu na porta, sentiu-se acovardada.

- Você tem um minuto? - ela perguntou, assim que o filho abriu a porta.

- Você sabe que sempre tenho um minuto para você, mãe respondeu o garoto.

- Sabe, filho, eu... eu... eu adoro a maneira como você toca bateria.

- Você gosta? - disse o garoto. - Que bom! Obrigado, mãe.

Ela afastou-se do quarto e dirigiu-se para a escada. Depois de descer alguns degraus, ela se deu conta de que não dissera o que desejava. Resolveu voltar e bateu outra vez na porta.

- Sou eu novamente! Você tem mais um minuto? - ela perguntou.

- Eu já disse que sempre tenho um minuto para você, mãe.

Ela entrou e sentou-se na cama.

- Quando estive aqui antes, eu tinha uma coisa para lhe dizer e não disse. O que eu queria dizer era que... seu pai e eu... achamos que você é um ótimo filho.

- Você e meu pai? - ele perguntou.

- Sim, seu pai e eu.

- Que bom, mãe! Muito obrigado.

Ela saiu do quarto e, mais uma vez, depois de ter descido alguns degraus se deu conta de que havia chegado perto de dizer o que desejava, mas não dissera ao filho que o amava. Subiu novamente a escada e voltou a bater na porta do quarto. Desta vez, ele a ouviu chegando. Antes que ela tivesse tempo de perguntar, ele gritou:

- Sim, eu tenho um minuto!

A mãe sentou-se na cama mais uma vez.

- Sabe, filho, tentei duas vezes e não consegui. Eu subi até aqui para lhe dizer isso. Eu amo você. Eu amo você de todo o coração. Eu não vim aqui dizer que seu pai e eu amamos você, mas que eu amo você.

- Mãe, isso é bom demais! Eu também amo você! - ele disse.

dando-lhe um grande abraço.

Ela saiu do quarto e estava chegando ao topo da escada quando ouviu o filho perguntar, com a cabeça para fora da porta:

- Mãe, você tem um minuto?

Ela riu e disse:

- Claro!

- Mãe, você acabou de voltar de um seminário?


 

ORAÇÃO DE UM PAI

John Ellis

 

 

Querido Pai celestial, podes me perdoar por eu ter magoado meus filhos?

Por ter nascido em lar humilde, pensei que uma casa grande fizesse com que meus filhos se sentissem importantes. Eu não me dei conta de que eles só precisavam de meu amor.

Pensei que o dinheiro Ihes trouxesse felicidade, mas ele os fez pensar que os bens materiais são mais importantes que as pessoas.

Pensei que, se lhes desse umas surras de vez em quando, eles seriam valentes, capazes de se defender sozinhos. Com isso, eu cessei de buscar sabedoria para poder discipliná-los e ensiná-Ios.

Pensei que, se os deixasse agir por conta própria, eles seriam independentes. Só consegui fazer com que meu filho mais velho se considerasse pai do mais novo.

Pensei que, se encobrisse todos os problemas da família, eu estaria mantendo a paz no lar. Eu os ensinei a fugir em vez de liderar.

Pensei que, se fingisse em público que minha família era perfeita, eu estaria transmitindo respeitabilidade a meus filhos. Eu os ensinei a viver uma mentira e a guardar segredo a respeito da verdade.

Pensei que tudo o que precisava fazer como pai seria ganhar dinheiro, estar sempre presente em casa e suprir todas as necessidades materiais de meus filhos. Eu lhes ensinei a maneira errada de ser pai. O problema é que eles vão ter de aprender sozinhos o que é ser um pai de verdade.

E, querido Deus, Espero que consigas ler esta oração. A maior parte das palavras ficou borrada por minhas lágrimas.


 

FÉRIAS DE VERÃO

Bruce Larson

 

 

Tenho um grande amigo em Montgomery, Alabama. Poucos anos atrás, esse amigo me contou uma história inesquecível de umas férias de verão que ele planejou para a esposa e filhos.

Impossibilitado de acompanhá-los por motivos profissionais, ele os ajudou a planejar cada dia da viagem, na perua da família, a um acampamento de férias, desde Montgomery até a Califórnia e a costa oeste, e de volta a Montgomery.

Ele conhecia muito bem o caminho e sabia o momento exato em que a família estaria atravessando as Montanhas Rochosas. Assim, meu amigo pegou um avião até o aeroporto mais próximo daquele local e alugou um carro com motorista para levá-lo ao ponto da estrada que era passagem obrigatória para todos os carros. Ele ficou sentado várias horas à beira da estrada aguardando a chegada da perua da família. Quando a avistou, foi para o meio da estrada e fez um sinal com o dedo polegar pedindo carona à família, que imaginava que o pai estivesse a quase 5.000 quilômetros de distância.

- Coleman - eu disse a meu amigo -, eu não ficaria surpreso se eles tivessem acelerado estrada afora de tanto susto ou que tivessem morrido de ataque cardíaco. Que história incrível! Por que você inventou toda essa cena?

- Bem, Bruce - ele disse -, um dia eu vou morrer, e, quando esse dia chegar, quero que meus filhos e minha esposa digam: "O papai era um sujeito muito divertido."

Vejam só, pensei. Aqui está um homem cujo objetivo é divertir e proporcionar felicidade a outra pessoa. Esse pensamento me fez imaginar o que minha família vai dizer de mim após minha morte. Tenho certeza de que vão dizer: "O papai era um sujeito legal, mas se preocupava demais em apagar as luzes, fechar as janelas, inspecionar a casa e cortar a grama." Mas eu também gostaria que eles dissessem que o papai era um sujeito que fez da vida uma grande diversão.


 

PARA MEU FILHO ADULTO

Autora Desconhecida

 

 

Minhas mãos trabalhavam sem parar;

Eu não tinha tempo para brincar com seus joguinhos, quando você me pedia.

Eu não tinha tempo para você durante o dia.

Lavava suas roupas, costurava e cozinhava;

Mas quando o caderno de desenhos você pintava

E queria que brincássemos juntos, só nós dois,

Eu sempre lhe dizia: "Depois. meu filho, depois."

 

Eu arrumava suas cobertas antes de me deitar,

Apagava a luz depois de ouvir você orar.

Em seguida, saía do quarto de mansinho...

Eu gostaria de ter ficado mais um pouquinho.

 

Porque a vida é curta, os anos passam rapidamente...

E um menino cresce rápido, tão de repente.

E agora ele não está mais a meu lado.

Contando-me histórias ou um segredo guardado.

Não há mais desenhos para pintar;

Não existem mais joguinhos para brincar.

Nem beijos de boa-noite, nem as orações de antes.

Tudo isso pertence a tempos tão distantes.

Minhas mãos, outrora ocupadas, não têm mais o que fazer.

Os dias são longos, difíceis demais para preencher.

Eu gostaria de voltar no tempo e com você repartir

As pequenas coisas que você costumava me pedir.


 

27 COISAS QUE NÃO SE DEVE DIZER AO CÔNJUGE

Steve Stephens

 

 

Não há nada mais penoso que a falta de um bom diálogo com a pessoa que você ama. É por meio do diálogo que estabelecemos uma ligação recíproca e que nossos espíritos se tocam.

Se, porventura, essa ligação for contaminada, em breve todo o relacionamento ficará envenenado. É apenas uma questão de tempo.

E, para que exista um bom diálogo, é necessário saber o que não' se deve dizer, em vez de saber o que se deve dizer...

Portanto, eu reuni alguns amigos íntimos e pedi-Ihes que relacionassem o que não se deve dizer ao cônjuge. Esta é a lista que me foi apresentada:

 

Eu já lhe disse isso.

Você é igual à sua mãe.

Você sempre está de mau humor.

Parece que você não pensa.

A culpa é sua.

O que há de errado com você?

Você só sabe reclamar.

Você não gosta de nada que eu faço.

Você tem o que merece.

Por que você nunca me ouve?

Você não pode ser um pouco mais responsável?

O que você tem na cabeça?

É impossível viver com você!

 

Não sei como eu consigo aguentar você.

Mesmo que eu repita mais de mil vezes, não vai adiantar nada.

Posso fazer o que eu quiser.

Se você não gosta, vá embora.

Você não sabe fazer nada certo?

Aquilo foi uma estupidez.

Você só pensa em si mesmo(a).

Se você me amasse de verdade, faria o que peço.

Você não passa de uma criancinha.

Uma reviravolta até que seria bom.

Você merece receber uma dose de seu veneno.

Qual é o seu problema?

Eu não consigo entender você.

Por que você sempre está com a razão?


 

37 COISAS QUE SE DEVE DIZER AO CÔNJUGE

Steve Stephens

 

 

Um casamento feliz é um porto seguro onde podemos relaxar e nos recuperar das tensões do dia-a-dia. Precisamos ouvir coisas positivas de nosso companheiro ou companheira. Da mesma forma que eu reuni alguns amigos para relacionarem uma lista do que não se deve dizer ao cônjuge, eles também sugeriram o que gostariam de ouvir.

Belo trabalho!

Você é maravilhoso(a).

O que você fez foi muito bom.

Você está deslumbrante hoje. Eu não me completo sem você.

Agradeço tudo o que você tem feito por mim em todos esses anos.

Você está em primeiro lugar na minha vida, antes dos filhos, da carreira, dos amigos, de tudo.

Estou feliz por ter-me casado com você.

Você é o(a) meu (minha) melhor amigo(a).

Se tivesse de começar tudo de novo, eu me casaria com você.

Corno quis ter você ao meu lado hoje!

Senti sua falta hoje.

Não consegui parar de pensar em você hoje.

É bom acordar a seu lado.

Você sempre será o meu amor.

Adoro ver o brilho em seus olhos quando você sorri.

Como sempre, você está com uma ótima aparência hoje.

Eu confio em você.

Eu sempre posso contar com você.

Você faz com que eu me sinta bem.

Estou muito orgulhoso(a) por ter-me casado com você.

Sinto muito.

O erro foi meu.

Do que você gosta?

Em que você está pensando?

Quero ouvir com atenção.

Você é muito especial.

Não posso imaginar viver sem você.

Eu gostaria de ser um(a) companheiro(a) melhor.

O que posso fazer para ajudar você?

Ore por mim.

Estou orando por você hoje.

Eu aprecio cada momento que passamos juntos.

Obrigado(a) por me amar.

Obrigado(a) por me aceitar.

Obrigado(a) por ser meu (minha) companheiro(a).

Você torna meus dias mais brilhantes.

DE MAIOR VALOR

Jerry B. Jenkins

 

 

Um amigo meu, pai de duas filhas, admite que não se importa de amedrontar um pouco os rapazes. Suas filhas sentem-se constrangidas quando ele pede para ficar alguns momentos a sós com os namorados delas, e acham que seria melhor ele transmitir aos rapazes a ideia de que é um pai legal, não um pai mesquinho e protetor. Mas existem certas situações que merecem um tratamento meio desajeitado. Os rapazes podem pensar que esse tipo de pai é superprotetor. Contudo, para os pais que têm filhas, isso não existe.

Outro amigo meu usa a analogia de um carro esportivo para expressar-se com mais precisão. Ele diz ao rapaz:

- Se eu tivesse um carro esportivo raro e caríssimo e lhe emprestasse para dar uma voltinha com ele, você tomaria muito cuidado, não é verdade?

- Oh, claro que sim, senhor.

- E você cuidaria melhor dele do que do seu, certo?

- Sim, senhor.

- Eu também não deveria imaginar que você sairia por aí cantando pneus, deveria?

- Não, senhor.

- Então, deixe-me dizer uma coisa, de homem para homem, para que as coisas fiquem bem claras. Para mim, minha filha tem um valor infinitamente maior que qualquer carro. Você entende aonde quero chegar? Eu a estou emprestando a você por algumas horas, e não gostaria de saber que ela foi tratada com menos cuidado ou respeito que recebe de mim. Sou responsável por ela. É minha filha.

Eu estou confiando em você. E essa confiança não admite uma segunda chance. Entendeu?

A essa altura, o rapaz deve estar imaginando por que não escolheu outra garota para sair. Ele se limita a balançar a cabeça positivamente, incapaz de falar. Na maioria das vezes, leva a moça para casa antes do horário prometido. Talvez a filha se queixe da atitude do pai, mas, no fundo, sente-se amada e querida, e você pode ter certeza de que ela se casará com um homem que a tratará dessa maneira.


 

UM FILHO QUE CAUSOU TANTAS LÁGRIMAS

Ruth Bell Graham

 

 

Santo Agostinho não foi sempre uma pessoa piedosa. Sua mãe, Mônica, ensinou-lhe as doutrinas do Cristianismo e orava por ele, mas a mente incrível de seu filho a deixava atormentada. Certo dia, quando era adolescente, ele avisou que estava abandonando sua fé em Cristo para seguir uma heresia moderna P Passou a ter uma vida imoral. E Agostinho nunca fez as coisas pela metade. Foi o melhor e o primeiro aluno no colégio e tornou-se o melhor e o primeiro nas festas mundanas da juventude.

Eu não conseguia distinguir a diferença entre o claro brilho da afeição e a escuridão da luxúria... Eu não conseguia permanecer dentro do reino da luz, onde a amizade liga uma alma a outra...

E, assim, eu poluí o riacho da amizade com as águas imundas da luxúria.2 Não dei ouvidos ao clangor dos grilhões de minha mortalidade, ao castigo do orgulho que existia em minha alma, e afastei-me de Ti, e Tu me deixaste sozinho. Fui atirado de um lado para o outro, vivi de maneira dissoluta e desregrada, mergulhei fundo em minhas fornicações, e Tu preservaste a Tua paz, oh, Tu, minha alegria tardia!...3

Cada um de nós tem uma maneira própria de pecar. Alguns se deixam enganar porque seu pecado é socialmente aceitável; afinal, aquele pecado não é tão grave assim. Outros sofrem as consequências porque seu pecado não é aceito pela sociedade; vão parar na cadeia ou são desprezados pelas pessoas que costumavam chamá-los de amigos. A história de Agostinho é igual à nossa:

A perda da fé sempre ocorre quando os sentidos começam a despertar. Nesse momento crítico, em que os instintos naturais afloram, na maioria das vezes a consciência das coisas de natureza espiritual fica ofuscada ou totalmente destruída. Não é a razão que afasta o jovem de Deus, é a carne. O ceticismo só serve para criar desculpas para a nova vida que ele está levando.

Mônica, contudo, continuou a orar. Orava pelos pecados e pela heresia do filho. Orava pela luta do filho com Deus. E Agostinho sabia disso.

Passaram quase nove anos, nos quais eu chafurdei na lama do mais profundo abismo e na escuridão da hipocrisia... Durante todo esse tempo, aquela viúva casta, piedosa e sensata... não cessou de orar a Ti, suplicando em meu favor. E suas orações chegaram à Tua presença; contudo, Tu continuaste a permitir que eu me envolvesse cada vez mais naquela escuridão.

Aqueles anos não foram fáceis para Mônica. Qualquer mãe que tenha um filho perdido na escuridão sabe disso. Foram anos de sofrimento. Finalmente, ela recorreu ao bispo, um homem devoto que conhecia muito bem a Bíblia, e pediu-lhe que conversasse com Agostinho para apontar seus erros. O bispo recusou-se.

Naquela época, Agostinho tinha a fama de ser um ótimo orador e debatedor.

Em vez de conversar com Agostinho, o bispo dirigiu sábias palavras de conforto a Mônica, dizendo que uma mente tão inteligente como a de seu filho enxergaria o caminho certo por meio das decepções. Citou o próprio exemplo - ele havia sido maniqueísta.

Mônica não se sentiu confortada com aquelas palavras. Continuou a implorar ao bispo em meio a rios de lágrimas. Finalmente, cansado diante da tenacidade daquela mulher e, ao mesmo tempo, sem saber o que fazer diante de tanto sofrimento, o bispo disse:

- Vá, vá! Deixe-me em paz. Continue a viver sua vida. Não é possível que um filho, que lhe causa tantas lágrimas, possa se perder.

Palavras ásperas entremeadas de bondade e compaixão.

O filho rebelde continuou a fugir de sua mãe e de Deus. Fugiu durante muitos anos. Um dia, porém, Agostinho deu ouvidos a Santo Ambrósio, bispo de Milão, o religioso mais conceituado da época.

Exausto depois de tantos anos de fuga, convicto e quebrantado, Agostinho arrependeu-se e aceitou Jesus.

Segundo os historiadores e estudiosos cristãos, Santo Agostinho modificou o curso da História. Suas obras foram e continuam sendo mais lidas do que as de quase todos os outros autores ao longo dos séculos. Ele também é capaz de falar à geração atual como que transmitindo uma mensagem de coração para coração. Santo Agostinho levou a bom termo as esperanças e as orações piedosas de sua mãe. Alguns dizem que ele foi uma ferramenta usada por Deus para manter acesa a chama do Novo Testamento quando o Império Romano desmoronou. Pouco tempo depois que o Filho Pródigo voltou para casa, sua mãe lhe disse que não tinha mais motivos para viver. Passara a vida inteira desejando vê-lo voltar e aceitar Jesus. Nove dias depois, ela morreu.

O pai do Filho Pródigo do livro de Lucas estava tão ansioso por ver o filho retomar que o avistou quando "vinha ele ainda longe".

Mônica fez o mesmo. Ela o seguia de longe enquanto ele fugia; reclamava de seus modos rebeldes quando ele voltava para casa. Nunca parou de orar pelo filho que lhe causou tantas lágrimas. Agostinho aprendeu com ela uma lição que muitos filhos pródigos têm aprendido a respeito de nosso Pai celestial: "A única maneira de um homem se perder é afastando-se de Ti; e, se ele afastar-se de Ti, para onde irá? Ele só poderá fugir de Tua misericórdia rumo à Tua ira. " Deus deseja ardentemente mudar as pessoas, afastando-as do foco de sua ira e levando-as em direção à sua misericórdia. É terrivelmente penoso ver um filho ou uma filha escolher o próprio caminho e segui-lo, mas devemos fazer o mesmo que a mãe de Agostinho. Foi assim que Jesus nos ensinou. Espere por eles, ore por eles e nunca pare de orar por eles. E, depois, olhe para a estrada com esperança. Talvez você possa ver seu filho, aquele que lhe causou tantas lágrimas, surgindo em meio a uma nuvem de poeira no horizonte.


 

CONCEDE-ME UM FILHO

General Douglas A. MacArthur

 

 

Concede-me um filho, ó Senhor, que seja forte o suficiente para entender quando está fraco, que seja corajoso o suficiente para admitir que está com medo: um filho que tenha orgulho e que não se curve diante de uma derrota honesta, e que seja humilde e cavalheiro diante da vitória.

Concede-me um filho cuja espinha dorsal não se dobre: um filho que te conheça - e que saiba que a pedra fundamental do conhecimento é conhecer a si mesmo.

Conduze-o, eu oro, não no caminho da facilidade e do conforto, mas sob a força e o aguilhão das dificuldades e desafios. Permite que ele aprenda a permanecer firme na tempestade: permite que ele aprenda a ter compaixão pelos que caem.

Concede-me um filho cujo coração seja límpido, cujos objetivos sejam altos: um filho que saiba dominar-se e não que tente dominar outros homens: um filho que aprenda a rir, mas que também nunca desaprenda a chorar; um filho que pense no futuro, sem nunca esquecer o passado.

E depois que meu filho for tudo isto, eu oro, acrescenta-lhe um pouco de senso de humor, de modo que ele possa ser sempre sério, mas que nunca se comporte de maneira muito séria. Dá-lhe humildade para que ele possa sempre lembrar-se da simplicidade da verdadeira grandeza, da mente aberta para a verdadeira sabedoria, da humildade da verdadeira força. E, depois, permite que eu, seu pai, me atreva a murmurar: "Minha vida não foi em vão."


 

GRANDE DAMA

Tim Hansel

 

 

Lembro-me dos tempos em que eu estava na quarta série e você costumava ficar acordada até altas horas só para me fazer uma fantasia de Zorro para a festa de Halloween. Eu sabia que você era uma boa mãe, mas não imaginava que fosse uma grande dama.

Lembro-me de quando você tinha dois empregos, de quando você corria para o salão de beleza em frente a nossa casa para que nossa família não passasse necessidades. Você trabalhava horas a fio e, mesmo assim, conseguia sorrir o tempo todo. Eu sabia que você trabalhava muito, mas não imaginava que fosse uma grande dama.

Lembro-me do dia em que cheguei tarde em casa... na verdade, era perto de meia-noite, talvez um pouco mais, e eu lhe contei que ia representar o papel de rei na peça da escola no dia seguinte. Você ficou entusiasmada e deu um jeito de criar um manto púrpura de rei com pele de arminho (feita de algodão com leves pinceladas de tinta preta). Depois de todo aquele trabalho, eu esqueci de me virar no palco, e ninguém viu o resultado de todo o seu esforço. Mesmo assim, você foi capaz de rir, amar e apreciar aqueles momentos. Eu sabia que você era uma mãe inigualável, que podia transmitir ânimo em qualquer situação, mas não imaginava que fosse uma grande dama.

Lembro-me de quando parti a cabeça ao meio pela sexta vez consecutiva, e você disse ao pessoal da escola:

- Ele vai ficar bom. Só não pode esforçar-se muito. Vou voltar mais tarde para ver como ele está.

O pessoal da escola e eu sabíamos que você era durona, mas eu não imaginava que fosse uma grande dama.

Lembro-me dos tempos do grupo escolar e do ginásio quando você me ajudava a fazer os deveres de casa, quando você fazia roupas para eu usar nas festas da escola, quando você assistia a todos os meus jogos. Naquela época, eu sabia que você faria de tudo para ajudar seus filhos, mas não imaginava que fosse uma grande dama.

Lembro-me do dia em que levei 43 colegas para casa às 3h30 da madrugada, quando eu trabalhava na Young Life [uma organização cristã de jovens] e perguntei a você se eles poderiam passar o resto da noite em casa e tomar o café da manhã. Lembro-me de que você se levantou às 4h30 para fazer esse trabalho heroico. Naquela época, eu sabia que você era uma mãe alegre e generosa, mas não imaginava que fosse uma grande dama.

Lembro-me de quando você assistia a meus jogos de basquete e de futebol no ginásio e ficava tão empolgada que chegava a bater na pessoa à sua frente com aquelas bolas de lã coloridas. Lembro-me até de ver você torcendo por mim no meio da quadra ou do campo. Naquela época, eu sabia que você era uma pessoa incentivadora, mas não imaginava que fosse uma grande dama.

Lembro-me de todos os sacrifícios que você fez para que eu fosse estudar na faculdade de Stanford - de seus trabalhos extras, das encomendas que você me mandava regularmente, das cartas que me transmitiam a certeza de que eu não estava só. Eu sabia que você era uma grande amiga, mas não imaginava que fosse uma grande dama.

Lembro-me do dia da formatura em Stanford, quando decidi trabalhar por 200 dólares por mês para cuidar de crianças do ministério de jovens Young Life. Embora você e papai tivessem pensado que eu havia voltado ao primeiro degrau da escada, você continuou a incentivar-me. Lembro-me de quando você foi me ajudar a instalar-me no pequeno apartamento de um cômodo. Você deu um toque especial, de amor, a uma moradia tão simples. Naquela época - e em várias outras - eu me dei conta de que você era muito criativa, mas não imaginava que fosse uma grande dama.

O tempo passou, eu fiquei mais velho, casei e constituí família.

Você assumiu o papel de avó, apesar de nunca ter envelhecido.

Naquela época, eu sabia que Deus havia esculpido um lugar especial na vida quando a criou, mas não imaginava que você fosse uma grande, uma grande dama.

Sofri um acidente. A vida tornou-se difícil para mim. Mas, como sempre, você permaneceu a meu lado. Algumas coisas, pensei, nunca mudam, e fiquei profundamente grato por- isso. Eu me dei conta do que já sabia havia muito tempo - que você era uma ótima enfermeira - mas não imaginava que fosse uma grande, uma grande dama.

Escrevi alguns livros e, aparentemente, os leitores gostaram deles. Você e papai ficaram tão orgulhosos que chegaram a oferecer exemplares dos livros a seus amigos, só para mostrar as proezas de um de seus filhos. Naquela época, eu me dei conta da grande promotora de vendas que você era, mas não imaginava que fosse uma grande, uma grande dama.

Os tempos mudaram... os anos passaram, e um dos homens mais notáveis que conheci morreu. Ainda me lembro de você no culto fúnebre, em pé e com o corpo ereto, usando um lindo vestido roxo e dizendo às pessoas:

- Somos uma família muito abençoada e estamos agradecidos por essa "vida tão bem vivida".

Naqueles momentos, eu vi uma mulher que conseguia permanecer firme e agradecida em meio a circunstâncias tão difíceis. Comecei a descobrir que você é uma grande, uma grande dama.

Neste último ano, quando você teve de viver mais sozinha que nunca, tudo o que observei e passei em todos aqueles anos juntou-se e transformou-se em uma coisa nova para mim. Agora seu riso é mais feliz, sua força é mais intensa, seu amor é mais profundo e estou descobrindo que você é verdadeiramente uma grande, uma grande dama.

Obrigado por ter-me escolhido para ser um de seus filhos.


 

SE TIVÉSSEMOS ANDADO MAIS DEPRESSA

Billy Rose

 

 

Havia um rapaz que cuidava, com o pai, de um pequeno pedaço de terra. Várias vezes por ano, eles lotavam o velho carro de boi com legumes e dirigiam-se até a cidade mais próxima para vender sua produção. Com exceção do nome e dos cuidados dedicados ao pedaço de terra, pai e filho tinham poucas coisas em comum. O homem mais velho levava a vida de maneira pacata. O mais novo estava sempre com pressa... era "dinâmico".

Certa manhã ensolarada, eles se levantaram bem cedo, atrelaram o boi ao carro e iniciaram a longa viagem. O filho imaginou que, se eles andassem mais depressa, rodando o dia inteiro e a noite inteira, conseguiriam vender a mercadoria no início da manhã seguinte. Com essa ideia em mente, ele cutucava o boi com uma varinha, insistindo para que o animal andasse mais rápido.

- Vá com calma, filho - disse o pai -, para você ter vida mais longa.

- Se chegarmos ao mercado antes dos outros, vamos ter mais chances de conseguir preços melhores - argumentou o filho. O pai não replicou. Cobriu os olhos com o chapéu e começou a cochilar. Ansioso e irritado, o rapaz voltou a cutucar o boi para que ele andasse mais rápido, mas seus passos continuavam no mesmo ritmo.

Depois de levarem quatro horas para percorrer um trecho de mais de seis quilômetros, eles chegaram diante de uma casinha. O pai despertou, sorriu e disse:

- Aqui é a casa de seu tio. Vamos entrar para cumprimentá-lo.

- Mas já estamos uma hora atrasados - queixou-se o apressadinho.

- Alguns minutos a mais não vão fazer diferença. Meu irmão e eu moramos tão perto, mas só nos vemos raramente - disse o pai, com voz pausada.

Impaciente e zangado, o rapaz ouviu os dois homens conversarem e rirem por quase uma hora. No restante da viagem, o pai assumiu o comando do carro de boi. Quando eles chegaram a uma bifurcação na estrada, o pai conduziu o carro para a direita.

- O caminho pela esquerda é mais curto - disse o filho.

- Eu sei - replicou o pai -, mas este é mais bonito.

- O senhor não se preocupa com o horário? - perguntou o jovem, com impaciência.

- Claro que me preocupo! É por isso que gosto de ver o que é bonito e de apreciar cada momento.

Ao longo do caminho sinuoso, havia lindas campinas, flores silvestres e um riacho de águas formando pequenas ondulações.

O rapaz não viu nada disso por estar zangado, preocupado e fervendo de ansiedade. Não chegou sequer a ver o lindo pôr-do-sol naquele dia.

No momento do crepúsculo, eles estavam passando por um imenso jardim colorido. Ao sentir o perfume das flores e ao ouvir o borbulhar das águas do riacho, o pai parou o carro.

- Vamos dormir aqui - ele disse, com um suspiro.

- É a última vez que viajo com o senhor - vociferou o filho. O senhor está mais interessado em ver o pôr-do-sol e em sentir o perfume das flores do que em ganhar dinheiro!

- Essa foi a coisa mais bonita que você disse nesse tempo todo - sorriu o pai.

Alguns minutos depois, ele estava roncando - enquanto o filho olhava para as estrelas. A noite arrastou-se lentamente, e o rapaz não conseguiu descansar.

Antes do alvorecer, o jovem sacudiu o pai para despertá-Io. Atrelaram novamente o boi ao carro e prosseguiram a viagem.

Depois de rodarem quase dois quilômetros, eles avistaram outro fazendeiro - um homem totalmente desconhecido - tentando tirar seu carro de boi de uma vala.

- Dê uma mãozinha a ele - cochichou o pai.

- Para perdermos mais tempo ainda? - explodiu o rapaz.

- Relaxe, filho... você também poderia ter caído em uma vala.

Devemos ajudar quem precisa, não se esqueça disso.

O rapaz olhou para o outro lado, zangado.

Já eram quase 8 horas da manhã quando eles conseguiram tirar o carro de boi da vala. De repente, um grande clarão iluminou o céu, seguido de um ruído semelhante ao de um trovão. O céu estava escuro atrás das montanhas.

- Parece que está chovendo muito na cidade - disse o pai.

- Se tivéssemos andado mais depressa, já teríamos vendido toda a nossa mercadoria - resmungou o filho.

- Vá com calma... para ter vida mais longa, para apreciar a vida por mais tempo - aconselhou o bondoso pai.

A tarde já estava terminando quando eles chegaram ao topo da montanha, de onde se avistava a cidade. Eles pararam e ficaram olhando para baixo durante um longo, longo tempo. Nenhum dos dois proferiu uma só palavra. Finalmente, o jovem pousou a mão no ombro do pai e disse:

- Agora entendo o que o senhor queria dizer, pai.

Eles deram meia-volta com o carro de boi e começaram a afastar-se lentamente do local onde antes existia a cidade de Hiroshima.

 


 

O MARTELO, A LIMA E A FORNALHA

Charles R. Swindoll

 

 

Foi o encantador Rutherford quem disse, em meio a dolorosas provações e magoas:

- Louvado seja Deus pelo martelo, pela lima e pela fornalha!

Vamos pensar nisso. O martelo é um instrumento útil e jeitoso. É uma ferramenta essencial e de grande serventia para fincar os pregos no lugar. Cada martelada força-os a se aprofundar, enquanto a cabeça do martelo os golpeia.

Mas, se o prego tivesse sensibilidade e inteligência, nos contaria o outro lado da história. Para o prego, o martelo é um patrão bruto e implacável - um inimigo que adora dominar pela força. Essa é a visão que o prego tem do martelo. É correta, exceto por um detalhe.

O prego se esquece de que tanto ele como o martelo são dominados pelo mesmo operário. O operário decide que "cabeça" deverá ser martelada... e que martelo será usado para fazer o trabalho.

Essa decisão depende da soberania do carpinteiro. Deixemos o prego de lado, mas sempre nos lembrando de que ele e o martelo são dominados pelo mesmo operário e que seu ressentimento vai desaparecendo à medida que ele se rende ao carpinteiro sem queixar-se. A mesma analogia se aplica ao metal que suporta o desgaste da lima e o calor da fornalha. Se o metal esquecer-se de que ele e as ferramentas são objetos dos cuidados do mesmo artesão, isso aumentará o ódio e o ressentimento. O metal deve ter em mente que o artesão sabe o que está fazendo... e que faz o que é melhor.

As mágoas e as decepções são semelhantes ao martelo, à lima e à fornalha. Apresentam-se de todas as formas e tamanhos: um romance rompido, uma enfermidade prolongada que leva à morte prematura, um objetivo não alcançado na vida, um lar ou casamento desfeito, uma amizade desfeita, uma criança desobediente e rebelde, um diagnóstico médico aconselhando "cirurgia imediata", uma repetição de ano no colégio, uma depressão que não desaparece, um hábito que não podemos dominar. Às vezes, as mágoas surgem inesperadamente... outras vezes, surgem depois de muitos meses, minando lentamente como se corroessem a terra.

Será que estou me dirigindo a um "prego" que começou a ressentir-se dos golpes do martelo? Você está à beira do desespero, pensando que não tem condições de suportar mais um dia de mágoas?  É isso que o abate? Por mais dificuldade que você tenha em acreditar nisso hoje, o Mestre sabe o que está fazendo. Seu Salvador conhece até onde você pode chegar. Os golpes, os desgastes e os pontos de fusão existem para remodelá-Io, não para destruí-lo. Seu valor aumenta cada vez mais quando Ele passa longo tempo debruçado sobre sua vida.


 

TRÊS HOMENS E UMA PONTE

Sandy Snavely

 

 

Aponte passou a ser uma espécie de boa amiga para mim. Quando comecei a atravessá-Ia todas as manhãs a caminho do trabalho, ela era o sinal de que minha longa viagem estava quase no fim. Porém, depois de algum tempo, comecei a observar as pessoas que a atravessavam a pé. A Ponte de Ross Island é uma das poucas de Portland que permite o trânsito de pedestres e de veículos. Havia um jovem negro por quem eu passava quase todas as manhãs. Seu rosto inteligente e bonito demonstrava determinação e motivação. Comecei a orar por ele, por seu dia e por sua vida.

Quando não o via na ponte, eu me preocupava. Agora, ele não passa mais por ali. Eu gostaria de saber onde ele está, como está. Seria um estudante? Teria terminado o curso no colégio? Teria ficado doente por ter enfrentado os dias frios e impiedosos do inverno? Ou teria comprado um carro e passara a percorrer diariamente, como eu, aquele trecho sobre quatro rodas?

Há também o homem idoso que, vez por outra, é visto carregando uma enorme cruz de metal no ombro e um cartaz nas costas onde se lê: "Jesus salva o pecador do inferno". Sinto sempre um nó no estômago quando o vejo. Ele não é uma pessoa por quem eu possa orar com tanta facilidade como oro por meu jovem amigo negro.

Talvez porque minha fé não seja tão ousada quanto a dele. Talvez porque a cruz que ele carrega, embora aparentemente grande e pesada, seja transportada com a ajuda de um carrinho com rodas.

Existe alguma coisa naquela cena que me deixa perturbada.

Mas a imagem que está gravada mais fundo em minha memória é a de um homem sem teto e seu cão. O homem estava com a barba

por fazer e os cabelos desgrenhados. Usava uma velha jaqueta de camuflagem do exército, calça e botas militares. Seus cabelos eram compridos e ainda não tinham tons grisalhos de velhice. Sua mochila era muito pesada, forçando seus ombros para a frente. Embora a cena fosse comum naquele local, cheguei à conclusão de que era o cão que transmitia tanto amor a ela. Era um cão Labrador preto, grande, velho e visivelmente leal. Também carregava uma mochila. A mochila tinha bolsos, cujos pesos eram distribuídos proporcionalmente de cada lado do corpo. O homem e seu cão deixavam transparecer uma imagem comovente de verdadeira amizade. Quantas vezes em minha vida eu desejei que meus fardos fossem carregados de maneira tão carinhosa.

Meu jovem amigo negro me fez pensar em orar em seu favor, porque ele era carente, espiritualmente falando. O senhor idoso com a cruz ilustrou de modo cruel a necessidade de bondade e de autenticidade quando falo de minha fé. Mas foi o homem sem-teto e seu cão que me fizeram lembrar do profundo anseio que cada alma sente, do grito de cada coração: ter alguém ao nosso lado cujo amor seja tão incondicional e tão desinteressado que se recuse a censurar ou julgar os "comos" e os "porquês" da carga, mas que nos acompanhe e nos ajude a carregar nosso fardo. Existe um enorme privilégio tanto em se ter uma carga para carregar como em ser o carregador da carga, tanto em necessitar de ajuda como em prestar ajuda.

Em minha caminhada pela vida, sei que haverá muitas pontes para eu atravessar. Quer seja tentando prosseguir, quer lutando ao lado de um amigo para chegar ao outro lado, vou guardar em meu coração as preciosas lições que aprendi com os três homens e a ponte.


 

INCRÍVEL

David Jeremiah

 

 

Aconteceu por volta das 12 horas do Dia das Mães. De acordo com uma notícia divulgada em todo o país, Michael Murray, de 27 anos, resolveu levar seus dois filhos ao hospital de Massachusetts, onde a mãe deles estava trabalhando como enfermeira no centro cirúrgico. A família queria levar um presente do Dia das Mães para ela: um colar de ouro com a inscrição "Mãe Número Um" e uma rosa. Depois de cumprirem a missão, o pai e os dois filhos retornaram à garagem interna e escura para pegar o carro.

Murray pôs Matthew, de três meses, no assento de bebê, colocou-o em cima do teto solar do carro e dirigiu a atenção à irmãzinha de Matthew, de 21 meses, para prender o cinto de segurança ao redor dela. Distraído, Murray sentou-se no banco do motorista e deu partida, esquecendo-se de Matthew no teto do carro.

Saindo lentamente da garagem escura, Murray dirigiu o carro pelas ruas movimentadas em direção à rodovia interestadual 290.

Apesar do trânsito pesado, ninguém buzinou nem chamou-lhe a atenção para dizer que havia alguma coisa errada. Ao entrar na via expressa que corta a cidade, Murray acelerou até atingir a velocidade de 80 km/h. De repente, ele ouviu um barulho no teto. Foi quando o assento de bebê, com Matthew amarrado nele, começou a escorregar. Ele conta:

- Olhei para o lugar no carro onde Matthew deveria estar e depois para o espelho retrovisor. Vi meu filho escorregando em direção à pista, preso ao assento de bebê. E foi ali que ele caiu. No meio da pista, onde outros carros deveriam passar...

O assento de bebê voou do teto do carro, caiu na pista e foi deslizando com quase a mesma velocidade dos veículos que vinham no mesmo sentido. O dono de um antiquário chamado James Boothby, que vinha atrás do carro de Murray, acompanhou o desenrolar de toda a cena. Viu o peque nino Matthew voar do teto do carro e cair na pista.

Ele conta:

 

Vi uma coisa no ar. A princípio, pensei que alguém tivesse atirado um objeto pela janela do carro. Em seguida, notei algo parecido com uma boneca. Quando a boneca abriu a boca, eu me dei conta de que era um bebê caído na pista. Ele deu um ou dois saltos sobre o asfalto, mas não chegou a se inclinar. Simplesmente caiu na pista e deslizou um pouco. Pisei com força no freio e atravessei o carro na estrada para que nenhum outro veículo conseguisse passar. Saltei do carro, corri e avistei um bebê, sem nenhum arranhão, preso ao assento. Peguei-o nos braços e entreguei-o a seu pai, que estava petrificado.

 

Essa história verdadeira tem de ser creditada a um milagre nota 10, que eu e você já conhecemos. Deus interveio naquela situação para que não acontecesse uma incrível tragédia.


 

LUTAS

Recontada por Alice Gray

 

 

Quando ele era menino, adorava borboletas. Oh, não para capturá-las nem para  colocá-las  em molduras,  mas para admirar  seus desenhos e hábitos.

Agora, depois de adulto e tendo um filho recém-nascido, ele voltou a ficar fascinado por um casulo encontrado à margem de um caminho no parque. Um ramo havia despencado da árvore, e o casulo preso a ele caiu intacto ao chão.

Conforme havia visto sua mãe fazer, o homem enrolou o casulo com extremo cuidado em um lenço e o levou para casa. O casulo passou a morar temporariamente dentro de um pote de conservas de boca larga com furos na tampa. Foi colocado sobre a estante acima da lareira para  poder  ser  visto  facilmente  e  protegido  do gato curioso da família, que  adoraria  ver aquela  bolinha  de fios de seda entre suas patas.

O homem observava o casulo com atenção. O interesse de sua esposa durou apenas alguns minutos, mas ele continuou a examiná-lo. A princípio, quase imperceptivelmente, o casulo movimentou-se. O homem aproximou-se mais um pouco e viu que o casulo estremecia pela atividade que havia dentro dele. Nada mais aconteceu. O casulo continuou grudado ao ramo e não havia nenhum sinal de asas.

De repente, o estremecimento intensificou-se, fazendo o homem imaginar que a borboleta morreria de tanto lutar para sair. Ele tirou a tampa do pote, pegou uma espátula afiada na gaveta de sua escrivaninha e fez uma minúscula incisão no lado do casulo.

Quase que imediatamente, uma asa apareceu seguida da outra. A borboleta estava livre!

Ela parecia feliz por estar livre e caminhou ao redor da boca do pote e pela beira da estante sobre a lareira. Mas não voou. O homem imaginou que as asas necessitassem de tempo para secar, mas o tempo passou e a borboleta não saiu do lugar.

Preocupado, o homem chamou um vizinho, professor de ciências no colégio. Contou-lhe que havia encontrado o casulo e que o colocara no pote. Relatou a respeito do estremecimento do casulo enquanto a borboleta tentava sair. Quando ele descreveu a pequena incisão que fez no casulo, o professor o interrompeu:

- Ah, então o motivo foi esse. A luta é que dá ·forças para a borboleta voar.

O mesmo acontece conosco. Às vezes, são as lutas na vida que fortalecem nossa fé.


 

VOCÊ QUER SER CURADO?

Kay Arthur

 

 

"Você quer ser curado?" Superficialmente, parece uma pergunta tola! A princípio, pensamos: "Quem  não gostaria de ser curado?".

Enquanto faço essas perguntas, minha mente voa até um homem sentado diante de um dos portões da Cidade Velha de Jerusalém. Recentemente, um homem sentado no chão chamou-me a atenção, enquanto eu saía da Cidade Velha em direção ao tráfego barulhento dos ônibus lotados de árabes até a porta, enquanto eu ouvia os sons das buzinas dos impacientes motoristas de táxi, enquanto eu via o brilho do sol desaparecendo em meio às ruas estreitas, muradas e apinhadas da Cidade Velha. Ele ficava conversando alegremente com os outros colegas mendigos até aparecer um turista.  Naquela altura, a conversa cessava, e ele levantava os olhos tristes em silêncio e estendia a mão pedindo uma esmola. Com a outra mão, ele levantava a perna da calça para exibir uma ferida aberta - uma ferida arroxeada, coberta de manchas brancas purulentas que brilhavam ao sol.

Meu coração de enfermeira me fez parar. Eu queria curvar-me e cobrir a ferida aberta para protegê-la da poeira levantada pelos carros que passavam em velo c id a d e pelo portão. Sua  perna  necessitava de  cuidados.  A  ferida  deveria  ser  lavada ,  medicada  e  tratada por alguma pessoa de sensibilidade. Se não recebesse cuidados, aumentaria de tamanho até alcançar o osso, e talvez aquele homem perdesse  a perna!

Atraída por suas súplicas, parei para examinar a perna e olhei dentro de seus olhos tristes, mas minha amiga puxou-me gentilmente pelo braço,  forçando-me a seguir  nosso rumo. Eu  era uma turista e não entendia nada dessas coisas. No caminho, ela me contou que aquele homem não queria ser curado. Ganhava a vida com aquela ferida. Uma pessoa que ficava sentada ali, em meio ao pó e à sujeira de Jerusalém,  recebendo  a  piedade  das  pessoas  acompanhada de algumas moedas, não tinha necessidade de enfrentar as responsabilidades como qualquer outro cidadão de Israel.

Aquele me digo ferido poderia ter sido curado. As portas do hospital estavam abertas para ele e havia remédios para tratá-lo, mas o mendigo não queria sarar. Quando me virei para trás com curiosidade, dirigi um último olhar a alguém que poderia estar em condições melhores.

O homem mencionado em João 5 estava enfermo havia 38 anos. Não sabemos por quanto tempo ele ficou estendido ao lado do tanque de Betesda. Só sabemos que, quando Jesus passou por ali e perguntou-lhe se ele queria ficar curado, o homem teve de fazer uma escolha: continuar com a mesma vida ou aceitar ser curado.

Imagine, querido leitor, se Jesus lhe perguntasse se você gostaria de ficar curado - emocional, física e espiritualmente. O que você responderia?


 

HERANÇA

Sally J. Knower

 

 

A velha cadeira de balanço rangeu e estalou quando Jenny a empurrou com a mão. As molas do assento haviam furado a almofada de crina de cavalo e estavam à mostra. Apesar da iluminação fraca do sótão, ela podia enxergar a madeira manchada e o verniz descascado. Ela arrastou aquela relíquia até a escada e começou a descer com a cadeira, degrau por degrau, equilibrando-se desajeitadamente por causa de seu ventre volumoso. Quando chegou ao pé da escada, ela esticou os músculos das costas.

- Jenny Lester, o que você fez? Você não devia ter descido a escada com essa cadeira - repreendeu Audrea Lester.

- Não se preocupe, eu estou bem, mãe Lester.

O bebê contorceu-se e chutou em sinal de protesto. Sorrindo, ela passou a mão de leve na barriga para agradar aquele ser rebelde lá dentro e disse a ele:

- Espere um pouco. Um dia, vou balançar você na cadeira da vovó Lester.

Clara e Harry Lester compraram a cadeira de balanço logo após o casamento, em 1889. Ela foi adquirida em uma loja de móveis usados em Lincoln, Nebraska, e transportada de carroça até a fazenda do casal nos arredores de Fairbury. Harry poliu a madeira.

Clara revestiu o encosto e o assento com almofadas de crina de cavalo. Até as crianças nascerem, somente visitas especiais, como o reverendo Jorganson, sentavam-se nela. Depois, Clara a colocou entre o fogão de lenha e a mesa na cozinha, um cômodo da casa com muitas utilidades.

Clara apossou-se da cadeira para embalar as crianças. Ela as deixava ali balançando, enquanto mexia a panela para evitar que o cozido queimasse. Entre o preparo de um pote de geleia em conserva e outro, ela dava um empurrãozinho na cadeira, à qual as crianças ficavam presas com uma toalha para que não caíssem.

Quando seu terceiro filho contraiu febre escarlate e começou a delirar, ela arrastava a cadeira para todos os lugares aonde ia.

Deus, se é verdade que estás aí, ela suplicava em tom afrontoso, ajuda-me a cuidar deste pequenino. Quando ele ficou curado, lágrimas de alívio molharam seu avental. Deus, acredito que tu és real. Obrigada por ter teres salvado meu filho. Agora ele é teu, Senhor; e eu também.

A cadeira tornou-se seu altar e seu pódio. Ela se sentava com as pernas cruzadas e inclinava o corpo em direção à lâmpada para ler a Bíblia. Depois, colocava-a de frente para um dos cantos da sala a fim de isolar-se para orar.

A cadeira acompanhava o ritmo das cantigas de ninar e dos hinos de louvor. Acompanhava também as batidas de seu pé quando Harry extraía uma música de sua concertina.

Clara remendava as meias de seus filhos e abria vagens de feijão sentada na ampla almofada da cadeira de balanço. Quando os netos nasceram, eles se balançavam nos braços da cadeira.

Sentada na cadeira, ela cativava sua descendência contando histórias de aventuras verdadeiras, como aquela sobre o dia em que o cão raivoso entrou correndo na fazenda sem morder ninguém, ou sobre o tornado que arrancou as telhas da casa e ninguém ficou ferido. Contava a história de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que sobreviveram depois de ficarem dentro de uma fornalha ardente, e a história de Davi, quando ele matou Golias.

A cadeira foi colocada perto do leito de Harry, enquanto ele lutava contra o câncer. Clara sentava-se atenta ao lado dele e segurava-lhe a mão. Depois que ele morreu, ela levou a cadeira para perto do fogão, perguntando a si mesma se um dia voltaria a sentir-se aquecida.

Os impostos aumentaram, mas o dinheiro não. Os recursos de Clara começaram a diminuir. A fazenda precisava ser vendida. Ela sentou-se na cadeira, balançando para a frente e para trás, enquanto as peças, os equipamentos e os móveis eram leiloados. Cada objeto que ia embora parecia uma parte dela que estava sendo arrancada.

Clara ficou apenas com a cadeira. Levou-a consigo quando foi morar com o filho mais novo, Robert, e sua esposa, Audrea.

Audrea abriu espaço para colocar a cadeira. Não combinava com a mobília francesa provençal da casa da cidade. Ela acolheu a sogra, mas Clara sentia-se desconfortável, como se fosse um grão de milho dentro de um sapato domingueiro.

Foi, então, que Jimmy nasceu. O último neto a ser embalado nos seus braços e a puxar seus cabelos. À medida que ele crescia, ela encolhia. A baixa oxigenação no cérebro apagou, aos poucos, sua memória. Ela só se lembrava de Deus e de sua cadeira. Ruídos estranhos - motores de carro, buzinas e brecadas bruscas interrompiam-lhe o sono. Clara passava horas agitadas, embrulhada em um cobertor, orando e desejando voltar para casa.

Após sua morte, a velha e desgastada cadeira foi deixada no quarto de Jimmy. Ele adorou a ideia. Usava-a para caçar tigres.

Usava-a como charrete puxada por cavalos. Fazia os deveres de casa sentado nela, ao mesmo tempo em que ouvia o som barulhento de seu rádio. Ali, ele sonhava e planejava seu futuro.

A cadeira começou a estalar sob o peso de um menino que se transformou em homem.

Quando ele foi para a faculdade, seu velho quarto ficou destinado a hóspedes e servia como sala de leitura. A cadeira de balanço sumiu.

Uma colega com o rosto cheio de sardas chamou a atenção de Jimmy, e ele tornou-se seu namorado quando estava no último ano.

Os dois se casaram. Jenny trabalhava enquanto ele frequentava o seminário. Recebeu o primeiro convite para ser pastor de uma igreja na mesma época em que ia ser pai.

O primeiro filho do casal começou a crescer no ventre de Jenny.

- Eu gostaria de ter conservado a cadeira de minha avó - disse Jimmy, acariciando o ventre de Jenny. - Você poderia embalar nosso filho nela.

- Ou nossa filha - contra-argumentou Jenny.

- A velha cadeira de balanço era especial. Fiquei muito orgulhoso quando ganhei aquela cadeira. Eu gostaria de saber onde ela está agora.

- Mãe Lester - perguntou Jenny na primeira ocasião em que viu a sogra depois daquela conversa com o marido. - O que foi feito da cadeira de balanço que Jimmy tinha no quarto dele?

- Está no sótão - respondeu Audrea.

- Eu gostaria de vê-la. Tive uma ideia.

- Vou mostrá-Ia a você. Está mal conservada. Você vai ver que o enchimento está saindo para fora da capa da almofada e a madeira está manchada - disse Audrea assim que acendeu a luz do sótão.

Jenny passou a mão pelo encosto da cadeira.

- As manchas não são tão fortes. Acrescentaram um toque especial à cadeira. Vai dar um pouco de trabalho, mas acho que ela pode ser restaurada. Posso tentar? Eu gostaria de fazer uma surpresa a Jimmy. Seria um ótimo presente de aniversário.

- Você pode fazer o que quiser com ela. Pode até trabalhar nela no antigo quarto de Jimmy.

Enquanto mãe Lester arrumava o quarto de visitas, Jenny desceu a escada com a cadeira. Estava ansiosa demais para iniciar o trabalho.

A linda cor de carvalho reapareceu depois que Jenny lixou cuidadosamente a antiga superfície. A madeira brilhou sob a nova camada de verniz. Jenny prendeu as molas no lugar. Ficaram escondidas debaixo de uma nova capa.

No dia da festa de aniversário de Jimmy, Jenny passou uma fita ao redor do espaldar da cadeira, como se fosse a faixa de "Miss América".

- Que arte você está aprontando, Jenny Lester? - perguntou Jimmy quando ela o conduziu escada acima até seu antigo quarto.

- O seu sorriso diz tudo.

- Feche os olhos até eu abrir a porta. Melhor ainda, cubra os olhos com as mãos. - Ele obedeceu sem pestanejar. - Não vale espiar por entre os dedos!

- Você está parecendo uma criança feliz - disse Jimmy, rindo. Tem certeza de que já está na idade deter um filho?

- Está bem - ela disse depois de tê-lo posicionado em frente à cadeira. - Pode olhar. Feliz aniversário!

- A cadeira de balanço da vovó Lester! Oh, querida, que maravilha! - ele exclamou enquanto passava a faixa de Miss América ao redor do corpo de Jenny.

Naquela noite, em casa, Jimmy colocou a cadeira ao lado da cama de casal e sentou-se nela com Jenny no colo.

- É melhor eu sair daqui - disse Jenny quando a cadeira começou a ranger e a estalar. - Ela está reclamando.

- Não - disse Jimmy enquanto Jenny tentava levantar-se. Você não vai a lugar nenhum. Ela não está reclamando. Está apenas conversando conosco.

- Quer dizer que ela também fala? Parece que tem vida própria - brincou Jenny.

- Ela representa uma herança - disse Jimmy. - Quando nosso filho nascer, vou contar a ele sobre a herança de fé que começou com a vovó Lester e atravessou quatro gerações para chegar até ele.

- Ou ela - contra-argumentou Jenny, sonolenta.


 

VELHICE - CHEGA MAIS CEDO DO QUE VOCÊ PENSA

Anônimo

 

 

Ela chega mais cedo do que você pensa - tudo fica mais distante agora do que era antes.

A esquina ficou duas vezes mais longe - e, no caminho, apareceu uma subida.

Observo que desisti de correr para pegar o ônibus - agora, o ponto ficou mais distante.

Parece que estão construindo escadas com degraus mais altos que antigamente, e você já notou como as letras dos jornais diminuíram?

Parece um absurdo pedir que alguém fale mais alto... todos falam tão baixo que mal consigo ouvi-los.

As roupas ficaram muito apertadas, principalmente nos quadris.

É praticamente impossível amarrar meus sapatos.

As pessoas estão mudando parecem mais jovens do que quando eu tinha a idade delas.

Por outro lado, as pessoas de minha idade estão muito mais velhas do que eu.

Outro dia, encontrei uma antiga colega de classe; ela estava tão velha que nem se lembrou de mim.

Eu me pus a pensar nessas coisas enquanto penteava os cabelos hoje de manhã.

Olhei no espelho e não me reconheci. Já não fazem mais espelhos como antigamente...


 

A ORQUESTRA

Judy Ursehel Straalsund

 

 

Havia uma cidade com uma orquestra. A Orquestra tinha todos os tipos de instrumentos que você pode imaginar.

De banjos a gaitas de fole, de flautins a pianos, de castanholas a cornetins.

Era uma honra e um privilégio fazer parte da Orquestra, apesar de não haver nenhuma exigência para ingressar nela. O Maestro havia convidado qualquer pessoa para participar, com uma condição: o contrato era para o resto da vida. Alguns músicos recusaram-se a fazer parte por temer que um contrato dessa natureza pudesse sufocar sua criatividade artística. Outros se preocuparam imaginando o que aconteceria se não gostassem da música que o Maestro escolhesse para eles tocarem.

O Maestro entregou a todos os seus músicos a partitura de uma peça que Ele havia composto chamada Grand Finale e pediu-lhes que a praticassem para tocá-Ia no Dia do Concerto. Cada setor da Orquestra assumiu seu papel com seriedade e estudou sua parte com esmero. Mas os músicos notaram que alguns setores da Orquestra estavam ensaiando a peça de maneira diferente.

- Vejam aqueles violinos - queixou-se o setor dos pistons. - Não existe harmonia nem motivo para eles tocarem daquela maneira.

Cada vez eles tocam diferente. Por que eles não fazem como nós, praticando as escalas e os estudos? Eles nem conhecem os princípios musicais básicos!

- Vou dizer uma coisa - resmungou um dos violinistas ao observar o ensaio dos pistons. - É difícil de acreditar que eles sempre fazem a mesma coisa. Deve ser cansativo demais! Por que eles não fazem como nós, permitindo que a alegria da música os conduza?

- Vocês acreditam nisso? - disse um dos percussionistas, com um suspiro. - Os fagotistas ficam o tempo todo naquela sala de estudos abafada e, depois, voltam para casa. Eles não têm experiência em tocar para outras pessoas. Ficaram parados no tempo.

- Chegamos até a duvidar de que eles assinaram o contrato disseram os fagotistas. - Aqueles percussionistas são muito ocupados.

Saem todas as noites e frequentam os piores lugares possíveis.

Devem ter pouco tempo para praticar.

Certo dia, os músicos tiveram a oportunidade de se reunir.

A conversa, é claro, girou em torno da maneira como cada um interpretava a partitura.

- É uma marcha de vitória - disse o trompetista, com convicção.

- Deve ser tocada com ar solene e triunfal.

- Não, não - afirmou o harpista. - É uma canção de amor... doce, alegre e terna.

- Que loucura! - interrompeu o clarinetista. - É um hino... para ser tocado com reverência e adoração.

Embora cada setor tivesse ensaiado várias vezes separadamente, os músicos não chegaram a um acordo na hora do ensaio geral.

Ninguém sabia como a peça ficaria no conjunto. E eles discordaram de maneira tão violenta sobre o momento e as condições da execução que acharam melhor não continuar a discutir o assunto.

A cidade ainda tem sua orquestra. Os grupos de músicos continuam a ensaiar. Mas aqueles que os ouvem se perguntam:

Estarão eles prontos para tocar juntos quando o Maestro levantar a batuta no Dia do Concerto?


 

RENDA-SE!

Billy Graham

 

 

Certo dia, enquanto brincava com um vaso muito valioso, um garotinho colocou a mão dentro dele e não conseguiu tirá-Ia.

Seu pai tentou ajudá-lo, mas não obteve êxito. Eles já estavam pensando em quebrar o vaso quando o pai disse:

- Vamos, meu filho, faça mais uma tentativa. Abra a mão, estique os dedos da maneira como estou fazendo e puxe-a com força.

Para sua surpresa, o garotinho disse:

- Não posso, papai. Se eu esticar os dedos, minha moeda vai cair dentro do vaso.

Sorria, se você quiser... quase todos nós somos iguais a esse garotinho, tão apegados às pequenas coisas do mundo que não podemos aceitar a libertação. Renda-se! Solte-a e permita que Deus conduza a sua vida.


 

DESGOVERNADOS

Cliff Schimmels

 

 

Em uma manhã de inverno, um ano antes de eu ingressar na escola, meu pai me convidou para ajudá-lo a alimentar as vacas. Achei que seria divertido. Vesti roupas grossas, calcei minhas luvas de couro amarradas por cordões, e saí com meu pai para assumir meu lugar no mundo do trabalho.

Era uma manhã agradável. Apesar do frio, o sol brilhava com intensidade, e o chão estava coberto com uma camada de neve.

Arreamos a dupla Babe e Blue e subimos a montanha com uma carroça cheia de feno. Quando encontramos as vacas, descarregamos o feno e iniciamos o caminho de volta para casa. De repente, meu pai teve uma ideia:

- Você gostaria de dirigir a carroça? - ele perguntou.

Eu respondi de maneira tipicamente machista. Gosto de dirigir qualquer coisa: carros, caminhões, carrinhos de golfe ou carroças puxadas por burros. Penso que isso me dá poder. Há uma sensação muito grande de poder quando estou no controle de alguma coisa maior do que eu, e isso faz bem ao meu ego masculino.

Peguei as rédeas, prendi-as nas mãos conforme meu pai me mostrou, e seguimos lentamente para casa. Piquei emocionado.

Estava no controle. Estava dirigindo. Mas a caminhada lenta deixou-me entediado. Decidi que, enquanto eu estivesse no controle, devíamos acelerar mais. Aticei os cavalos, e eles começaram a correr. A princípio, eles trotaram, e eu achei que o ritmo estava bom. Chegaríamos mais rápido em casa. Mas Babe e Blue tiveram outra ideia. Decidiram que, se corressem, chegaríamos mais rápido ainda.

Os cavalos puseram em prática sua ideia e começaram a correr.

De acordo com o que me lembro, eles estavam correndo rápido demais, como cavalos no hipódromo, porém essa observação deve conter um certo grau de exagero. Mas eles estavam correndo. A carroça sacolejava ao cruzar a esburacada estrada de terra. Quando passamos voando pelas campinas, concluí que estávamos em perigo e comecei a fazer o melhor que podia para reduzir a velocidade daqueles cavalos desgovernados. Puxei as rédeas com tanta força que cheguei a sentir cãibras nas mãos. Gritei e supliquei, mas de nada adiantou. Babe e Blue continuavam a correr.

Olhei de relance para meu pai e vi que ele estava sentado calmamente, olhando a pastagem e observando o mundo passar por ele. Naquela altura, eu estava apavorado. As rédeas cortavam minhas mãos, e lágrimas corriam por meu rosto quase congelado por causa do frio. E meu pai continuava tranquilo, observando o mundo passar por ele.

Finalmente, no auge do desespero, eu me virei e disse a ele da maneira mais calma que consegui:

- Pegue as rédeas, papai, não  dirigir.

Agora que sou mais velho e as crianças me chamam de vovô, eu me lembro daquela cena pelo menos uma vez por dia. Independentemente de quem somos, da idade que temos, de nossa experiência ou influência, existe sempre aquele momento em que nossa única reação é nos virarmos para o Pai e dizer:

- Pegue as rédeas, não quero mais dirigir.


 

SIGNIFICATIVO

Joni Eareckson Toda

 

 

Todas as manhãs, Connie abre a porta do quarto de Diane e começa a longa rotina de exercitar sua amiga paralítica e de dar banho nela.

Os raios de sol atravessam as persianas, inundando o quarto com seu brilho suave e dourado. As cobertas estão no mesmo lugar desde que Connie as arrumou por cima de Diane na noite anterior. Apesar disso, ela sabe que sua amiga já acordou.

- Você está pronta para levantar?

- Não... ainda não - soa a voz fraca debaixo das cobertas.

Connie dá um longo suspiro, sorri e sai fechando a porta.

A história se repete a cada manhã no apartamento de Connie e Diane. t>- rotina raramente muda. Os raios de sol já estão banhando a metade da manhã quando Diane está pronta para sentar-se em sua cadeira de rodas. Aquelas longas horas na cama, porém, são significativas.

Em seu santuário silencioso, Diane vira levemente a cabeça no travesseiro e olha para o painel de cortiça pendurado na parede.

Seus olhos esquadrinham cada cartão pregado com percevejo.

Cada fotografia. Cada pedaço de papel preso com alfinete. O silêncio é quebrado quando Diane começa a murmurar.

Ela está orando.

Algumas pessoas olham para Diane - rígida e imóvel- e balançam a cabeça de um lado para o outro. Ela necessita que alguém lhe dê comida, que alguém a conduza na cadeira de rodas. As limitações causadas por esclerose múltipla aumentam a cada ano. Seus dedos estão curvos e imóveis. Sua voz não passa de um sussurro. As pessoas olham para ela e dizem:

- Que situação. A vida dela não tem sentido. Ela não pode fazer nada.

Mas Diane é uma mulher confiante, convencida de que sua vida tem um significado. Suas orações intercessoras são importantes.

Ela move as montanhas que bloqueiam o caminho dos missionários.

Ela ajuda a abrir os olhos das pessoas espiritualmente cegas do sudeste da Ásia.

Ela afasta o reino das trevas que obscurece os becos e ruas dos baderneiros da região leste de Los Angeles.

Ela ajuda mães sem-teto... mães ou pais solteiros... crianças que sofrem maus-tratos... adolescentes sem esperanças... meninos com deficiência física... e anciãos agonizantes ou esquecidos na casa de repouso na rua onde ela mora.

Diane trabalha na linha de frente, levando adiante o evangelho de Cristo, amparando as pessoas piedosas e fracas, transmitindo entusiasmo a crentes em dúvida, dando força a outros guerreiros da oração e amando seu Senhor e Salvador.

Essa mulher humilde e serena enxerga o seu lugar no mundo; não interessa se outras pessoas não reconhecem sua Importância no grande esquema das coisas. Ela é igual a Emily, personagem do livro Our Town [Nossa Cidade], que indica seu endereço da seguinte forma:

 

Grovers Comer

New Hampshire

Estados Unidos da América

Hemisfério Ocidental

Planeta Terra

Sistema Solar

O Universo

Mente de Deus

 

Na mente de Deus... que é o lugar mais significativo que você pode habitar, não importa se você trabalha sentada diante de uma máquina de escrever, diante do volante de um ônibus, diante de uma mesa em uma sala de aula, em uma cadeira perto da mesa da cozinha ou deitada na cama e orando. Sua vida está oculta com Cristo.

Você enriquece a herança dele. Você é seu embaixador. Nele, sua vida tem profundidade, significado e propósito, não importa o que você faça.

Alguém disse: "O objetivo desta vida é tornar-se a pessoa que Deus pode amar perfeitamente para satisfazer sua sede de amor. Ser é mais importante que fazer. O cantor é mais importante que a canção. Precisamos parar de fugir pelo alçapão, porque este é o nosso lugar." Oro para que você descubra a importância que tem como filho ou filha do Rei. Talvez você não seja capaz de entender o significado de cada acontecimento, mas saiba que todo acontecimento é significativo. E você é importante.


 

A VOLTA PARA CASA

Recontada por Alice Gray

 

 

Um médico missionário passou 40 anos de sua vida cuidando dos habitantes dos povoados primitivos da África. Um dia, ele decidiu aposentar-se. Enviou um telegrama para sua terra natal dizendo que voltaria de navio e informou a data e o horário da chegada.

Enquanto cruzava o Atlântico, ele fez uma retrospectiva de todos aqueles anos que passou ajudando a curar o povo da África, tanto física como espiritualmente. Em seguida, seus pensamentos passaram a girar em torno da grande recepção que o aguardava nos Estados Unidos, depois de 40 anos de ausência.

Quando o navio atracou no porto, o coração daquele homem encheu-se de orgulho quando ele viu a recepção que havia sido preparada em sua homenagem. No meio de uma grande multidão, havia um enorme cartaz com estes dizeres: "Bem-vindo de volta ao lar". Assim que ele desceu do navio e pôs os pés no cais, aguardando uma enorme ovação, seu coração ficou apertado. Imediatamente, ele se deu conta de que a multidão não se reunira ali por sua causa, mas para prestar homenagem a um ator de cinema que viajara no mesmo navio.

Depois de aguardar alguns instantes, angustiado, o homem viu que não havia ninguém à sua espera. A multidão dispersou-se, e ele ficou sozinho. Olhando em direção ao céu, ele proferiu estas palavras:

- Oh, Deus, depois de ter dedicado todos estes anos de minha vida para ajudar os necessitados, seria demais pedir que apenas urna pessoa... urna única pessoa... estivesse aqui aguardando minha chegada?

Na quietude de seu coração, ele pareceu ouvir a voz de Deus murmurar:

- Você ainda não voltou para casa. Quando você voltar para mim, será bem-vindo.

 

MATEUS 19.29 NVI


 

EU PEDI

Anônimo

 

 

Eu pedi força a Deus, para poder alcançar o que queria.

Ele me fez fraco, para que eu aprendesse a obedecer...

 

Eu pedi saúde,

 

para poder realizar grandes coisas.

 

Recebi doença,

 

para que eu pudesse fazer coisas melhores...

 

Eu pedi riquezas, para poder ser feliz.

Recebi pobreza, para que eu pudesse ser sábio...

 

Eu pedi poder, para receber elogios dos homens.

Recebi fraqueza, para que pudesse sentir a necessidade de Deus...

 

Eu pedi tudo,

 

para poder desfrutar a vida.

Recebi vida,

 

para que eu pudesse desfrutar tudo...

 

Não recebi nada do que pedi, mas recebi tudo o que esperava.

Apesar de ser como sou, Minhas orações foram respondidas.

 

Sou, dentre todas as pessoas, a mais ricamente abençoada!


 

PARA ONDE VOCÊ CORRE?

Kay Arthur

 

 

Um amigo meu conta um fato acontecido com seu pai quando caçava cervos nas florestas do Oregon.

 

Carregando o rifle no braço, seu pai caminhava por uma velha estrada que havia sido invadida pelas árvores da floresta. A noite aproximava-se, e ele estava pensando em retornar ao acampamento, quando ouviu um barulho em um arbusto. Antes que ele tivesse tempo de apontar o rifle. um vulto marrom e branco apareceu na trilha bem à sua frente.

Meu amigo ri muito quando conta esta história.

- Tudo aconteceu tão rápido que meu pai não teve tempo de pensar. Olhou para baixo e lá estava um pequeno coelho selvagem marrom, cansado demais, enroscado em suas pernas, entre as botas. O corpo inteiro do animalzinho tremia, mas ele continuou ali. sem se mexer.

- Foi um fato muito estranho. Os coelhos selvagens têm medo de gente, e é difícil alguém vê-los... e muito menos assim, agarrado nos pés...

- Enquanto papai se refazia do susto, outro personagem entrou em cena. Mais adiante na estrada. Talvez a uns 200 metros, uma doninha saiu inesperadamente do meio do arbusto. Ao ver meu pai e sua presa enroscada em suas pernas, ela parou apoiada nas patas traseiras, ofegante, olhos vermelhos brilhando.

- Foi então que meu pai compreendeu que estava presenciando um pequeno drama de vida ou morte na floresta. O coelho selvagem, exausto pela perseguição, estava apenas a alguns instantes da morte.

Meu pai era sua última esperança de refúgio. Esquecendo-se de seu medo e cautela naturais, o animalzinho enroscou-se instintivamente nele para proteger-se dos dentes afiados do inimigo implacável.

O pai de meu amigo não decepcionou o coelho. Apontou o rifle e atirou no chão, bem perto da doninha. O animal deu um salto de mais de meio metro no ar e correu em direção à floresta o mais rápido que pôde.

O coelho continuou imóvel por alguns instantes, enroscado nas pernas do pai de meu amigo enquanto o céu escurecia. O homem dirigiu-se carinhosamente ao coelho:

- Para onde ela foi, criaturinha? Acho que ela não vai aborrecer você por uns tempos. Parece que levou um grande susto hoje.

O coelho afastou-se correndo de seu protetor rumo à floresta.

Para onde. amado leitor. você corre em tempos de necessidade? Para onde você corre quando os predadores dos problemas, das preocupações e do medo o perseguem?

Onde você se esconde quando seu passado o persegue como um lobo implacável, querendo destruí-lo?

Onde você busca proteção quando as doninhas da tentação, da corrupção e do mal ameaçam subjugá-lo?

A quem você recorre quando sua energia está exaurida... quando a fraqueza mina seu corpo e você não consegue mais fugir?

Você recorre a seu Protetor, àquele que permanece de braços abertos, aguardando sua chegada para que você usufrua toda a segurança que Ele pode dar?


 

O MALABARISTA

Billy Graham Recontada por Alice Gray

 

 

Ele nasceu na Itália e veio para os Estados Unidos, ainda jovem. Aprendeu malabarismo e tornou-se famoso no mundo inteiro.

Finalmente, resolveu aposentar-se. Queria retornar a seu país natal e fixar residência lá. Vendeu todas as suas propriedades, comprou uma passagem de navio para a Itália, investiu o resto do dinheiro em um único diamante e escondeu-o em sua cabina do navio.

Durante a viagem, ele mostrou a um menino como fazer malabarismo com maçãs. Em breve, havia um grupo de pessoas ao redor dele. O orgulho do momento subiu-lhe à cabeça. Ele correu até sua cabina e pegou o diamante. Explicou ao grupo que aquela pedra representava uma vida inteira de economias e começou a fazer malabarismo com ela, com movimentos cada vez mais ousados.

Em um determinado ponto, ele atirou o diamante muito alto, e as pessoas prenderam a respiração. Conhecendo o valor do diamante, elas pediram-lhe que não repetisse a façanha. Levado pela euforia do momento, ele o atirou mais alto ainda. Novamente, as pessoas prenderam a respiração e suspiraram de alívio quando ele conseguiu pegá-lo.

Tendo total confiança em si mesmo e em sua habilidade, o malabarista disse às pessoas que atiraria o diamante para cima mais uma vez e tão alto que a pedra desapareceria da visão de todos por alguns instantes. Novamente, as pessoas pediram-lhe que não repetisse a façanha.

Cheio de confiança depois de tantos anos de experiência, ele atirou o diamante para o alto. A pedra desapareceu por alguns instantes. Em seguida, reapareceu brilhando à luz do sol. Naquele exato momento, o navio balançou e o diamante caiu no mar, perdendo-se para sempre.

Todos nós ficamos muito tristes por aquele homem ter perdido seus bens materiais. Mas Deus considera a nossa alma muito mais valiosa que todas as riquezas do mundo.

Assim como o homem dessa história, a maioria de nós faz malabarismo com sua alma. Confiamos em nós mesmos, em nossa habilidade e em nossa experiência. Existem pessoas a nosso redor implorando para não nos arriscarmos, porque elas reconhecem o valor de nossa alma.

Mas continuamos a fazer malabarismos mais uma vez, sem jamais saber quando o navio vai balançar, levando nossa chance embora para sempre.


 

UMA VIDA SOLITÁRIA

AUTOR DESCONHECIDO

 

 

Ele nasceu em um vilarejo humilde, filho de uma camponesa.

Cresceu em outro vilarejo humilde, onde trabalhou em uma carpintaria até completar 30 anos. Depois disso, passou três anos como pregador itinerante.

Nunca escreveu um livro.

Nunca dirigiu um escritório.

Nunca teve família nem casa própria.

Não frequentou a faculdade.

Nunca viajou para lugares além de 300 quilômetros de distância do local onde nasceu.

Não realizou nada que pudesse ter sido relacionado a grandeza.

Não teve nenhuma credencial, a não ser sua presença.

Tinha apenas 33 anos quando a opinião pública se voltou contra ele. Seus amigos o abandonaram. Ele foi entregue a seus inimigos e sofreu a humilhação de passar por um interrogatório. Foi pregado na cruz entre dois ladrões.

Quando estava morrendo, seus executores repartiram entre si a sua roupa, a única coisa que ele possuía na Terra. Quando morreu, foi enterrado em uma sepultura emprestada, graças à piedade de um amigo.

Decorridos 19 séculos, Ele continua sendo a figura central da raça humana, o líder do progresso da humanidade.

Todos os exércitos que já marcharam, todos os navios que já navegaram, todos os parlamentos que já se reuniram, todos os reis que já reinaram - todos juntos - não exerceram tanta influência sobre a vida dos seres humanos como aquele que viveu Uma Vida Solitária.


 

CECIL B. DE MILLE

Billy Graham

 

 

Cecil B. De Mille contou-me, certa vez, que seu filme O Rei dos Reis, produzido na época do cinema mudo, foi visto por 800 milhões de pessoas, segundo seus cálculos. Perguntei por que ele não reproduziu O Rei dos Reis com som e em cores.

Ele respondeu:

- Jamais serei capaz de fazer isso, porque, se eu der a Jesus um sotaque sulino, os nortistas não o aceitarão como o seu Cristo. Se eu lhe der um sotaque estrangeiro, os norte-americanos e os britânicos não o aceitarão como o seu Cristo.

E ele complementou:

- Da maneira como Ele é apresentado no filme, os povos de todas as nações, raças, credos e tribos o aceitam como o seu Cristo.


 

LIÇÃO PRÁTICA

John MacArthur

 

 

Um pastor foi visitar um homem que não frequentava assiduamente a igreja. Ele estava sentado diante de uma lareira, observando o brilho dos carvões incandescentes. Era um dia frio de inverno, e a lareira estava bem aquecida. O pastor pediu ao homem que frequentasse a igreja com mais assiduidade para congregar-se com o povo de Deus.

Ao ver que seus pedidos pareciam não surtir efeito, o pastor pegou as tenazes ao lado da lareira, afastou a tela e começou a separar os carvões. Depois de constatar que todos estavam completamente separados, ele parou diante da lareira e ficou em silêncio. Em questão de minutos, os dois estavam gelados.

O homem entendeu a mensagem.


 

NO MOMENTO CERTO

Ron Mehl

 

 

Roger Simms tinha acabado de prestar o serviço militar e estava ansioso por tirar a farda de uma vez por todas. Na volta para casa, seguiu a pé pela estrada tentando conseguir uma carona, mas sua mochila pesada era um empecilho a mais para que alguém parasse. Ao fazer um sinal com o polegar para um carro que passava, ele perdeu as esperanças ao ver que se tratava de um carro preto, reluzente e caro, tão novo que tinha uma licença provisória colada no vidro traseiro... um tipo de carro cujo dono di6cilmente pararia para dar carona a alguém.

Porém, para sua surpresa, o motorista parou e abriu a porta do lado do passageiro. Roger correu até o carro, colocou sua mochila com cuidado no banco traseiro e sentou-se no banco de couro ao lado do motorista. Foi saudado com um sorriso amistoso de um senhor distinto, de cabelos grisalhos e pele bronzeada.

- Oi, filho. Você está de folga ou voltando definitivamente para casa?

- Acabei de servir ao exército e estou voltando para casa pela primeira vez depois de muito tempo - respondeu Roger.

- Você tem sorte se estiver indo para Chicago - disse o homem sorrindo.

- Não vou para tão longe assim, mas minha casa 6ca no caminho.

O senhor mora lá?

- Meu nome é Hanover. Sim, dirijo um negócio em Chicago.

Dito isso, eles seguiram viagem.

Depois de cada um ter contado resumidamente a história de sua vida e conversado sobre tudo o que existe debaixo do sol, Roger (que era cristão) sentiu um grande desejo de falar de Cristo ao Sr. Hanover. Mas a ideia de dar um testemunho a um empresário mais velho e rico, que devia ter tudo o que queria, era um tanto assustadora. Roger resolveu esquecer o assunto, mas, quando se aproximou de seu destino, ele se deu conta de que seria agora ou nunca.

- Sr. Hanover - Roger começou a dizer -, eu gostaria de conversar com o senhor sobre uma coisa muito importante.

Roger prosseguiu falando da salvação até chegar ao ponto de perguntar ao Sr. Hanover se ele gostaria de aceitar a Cristo como seu Salvador. Para grande surpresa de Roger, o Sr. Hanover dirigiu-se para o acostamento. Por um instante, Roger imaginou que seria atirado para fora do carro. Em seguida, aconteceu um fato estranho e maravilhoso: o empresário curvou a cabeça sobre o volante e começou a chorar, afirmando que desejava aceitar a Cristo em seu coração. Agradeceu a Roger e disse:

- Essa foi a coisa mais maravilhosa que já me aconteceu!

Em seguida, ele deixou Roger em casa e seguiu viagem rumo a Chicago.

Passaram cinco anos. Roger Simms casou-se, teve um filho e começou a dirigir um negócio próprio. Certo dia, enquanto arrumava a mala para fazer uma viagem de negócios a Chicago, ele encontrou, por acaso, o pequeno cartão de visitas, com letras douradas, que o Sr. Hanover lhe dera anos antes.

Quando chegou a Chicago, Roger procurou as Empresas Hanover na lista telefônica. Localizava-se no centro da cidade em um edifício comercial muito alto e de fina aparência. A recepcionista lhe disse que seria impossível ver o Sr. Hanover, mas, como Roger era um velho amigo, poderia conversar com a Sra. Hanover. Um pouco desapontado, ele foi conduzido a um elegante escritório onde havia uma senhora de uns 50 anos sentada diante de uma enorme mesa de carvalho.

Ela estendeu-lhe a mão.

- Você conheceu meu marido?

Roger contou que o Sr. Hanover havia sido muito bondoso ao lhe dar uma carona até sua casa.

Um olhar de interesse passou pelo rosto da mulher.

- Você saberia me dizer em que data isso aconteceu?

- Claro - disse Roger. - Foi no dia 7 de maio, cinco anos atrás, o dia em que fui dispensado do exército.

- E aconteceu alguma coisa especial durante a viagem... uma coisa diferente?

Roger hesitou. Deveria mencionar o testemunho que deu? Teria havido alguma discussão entre o casal, que resultou em separação ou desquite? Porém, mais uma vez, ele sentiu o desejo de falar do Senhor.

- Sra. Hanover, seu marido aceitou a Cristo naquele dia. Eu lhe falei sobre a mensagem do evangelho. Ele dirigiu o carro para o acostamento e chorou. Em seguida, quis fazer a oração da salvação.

De repente, ela começou a chorar copiosamente. Depois de alguns minutos, conseguiu recompor-se para explicar o que acontecera: - Fui criada em um lar cristão, mas meu marido não. Orei pela salvação dele durante muitos anos e acreditava que Deus o salvaria.

Mas, logo após você ter descido do carro, no dia 7 de maio, ele morreu vítima de uma violenta colisão frontal. Não voltou para casa.

Pensei que Deus não tivesse cumprido sua promessa. Faz cinco anos que parei de viver para o Senhor, porque o culpava por Ele não ter cumprido sua palavra.

Eu me identifico com a Sra. Hanover. Talvez você também.

Existem longos e solitários períodos da vida em que parece que Deus simplesmente se tornou indiferente aos nossos apelos ou que está cansado e apático diante de nossas orações fervorosas.

A situação é semelhante à de alguém que vê um presente sob uma árvore de Natal, muito bem embrulhado, misterioso e inacessível. À medida que o tempo passa e as esperanças diminuem, começamos a questionar se Deus tem realmente algum presente para nós.

Talvez você esteja aguardando muito tempo para que ocorra uma transformação em sua vida. Talvez esteja aguardando uma mudança em seu estado de saúde, em seus relacionamentos, em seu cônjuge, em seus filhos, em seu trabalho, em suas finanças, em sua vida espiritual. E a impressão é a de que a situação não vai mudar nunca. Parece que o Natal nunca vai chegar. Parece que a luz nunca vai mudar. Parece que você pediu socorro ao Senhor mais de mil vezes e ele nunca respondeu.

Maria e Marta conhecem muito bem esse assunto. Elas viram seu irmão enfraquecer e definhar. Sua vida escapou-Ihes pelos dedos como se fosse grãos finos de areia. Elas não puderam fazer nada, e o Senhor não chegava.

Mas, de repente, Ele chegou. E já era tarde. Mas não era tarde demais, porque o que Ele tinha em mente era muito maior que os pensamentos, as esperanças e os sonhos que aquelas duas mulheres sequer imaginaram pedir.

Foi uma Coisa Muito Boa embrulhada em uma Coisa Muito Ruim.

E Ele próprio entregou a encomenda... no momento certo.

Ele sempre faz isso.


 

O SALTO

Recontada por Tania Gray

 

 

Após um longo dia de trabalho em um cubículo, o jovem só queria ir para casa relaxar e preparar-se para o expediente do dia seguinte. Enquanto caminhava em direção ao elevador, ele ouviu gritos e avistou uma coluna de fumaça negra e labaredas partindo do corredor. Ele foi tomado de pânico, e uma sucessão de pensamentos passou-lhe pela mente: Eu estou no sexto andar. Não vou conseguir descer. Vou morrer! O único local pelo qual ele poderia fugir era o corredor, mas estava em chamas. Seria impossível passar por ali. Enquanto os pensamentos passavam, velozes, por sua mente, ele ouviu a sirene do carro de bombeiros e lembrou-se de que, naquele andar, o escritório era todo rodeado de janelas altas. Tossindo, ele cambaleou até as janelas na esperança de ser resgatado rapidamente.

Porém, quando olhou para baixo, não enxergou nada por causa da cortina de fumaça que cobria a área. Através da fumaça e das chamas, percebeu que havia uma multidão perto dos bombeiros que gritava:

- Salte! Salte!

Uma onda de medo tomou conta do jovem. Pelo alto-falante, ele ouviu a voz de alguém, talvez de um dos bombeiros:

- Você só vai sobreviver se saltar. Não há outro meio. Instalamos uma rede de segurança. Não tenha medo.

A multidão continuava a gritar. O jovem sabia que não teria coragem de saltar sem conseguir enxergar a rede. Seus pés estavam colados no chão. De repente, ele ouviu a voz de seu pai pelo alto-falante:

- Está tudo certo, filho. Pode saltar.

Quando aquela voz familiar chegou aos ouvidos do jovem, o medo desapareceu. A confiança e o amor que havia entre pai e filho deram-lhe coragem para saltar com segurança na rede.

Você confia tanto assim no amor de nosso Pai celestial?

ENCONTRO MARCADO COM A MORTE

Recontada por Alice Gray

 

 

Há uma lenda antiga sobre um rico comerciante de Bagdá que enviou seu criado ao mercado. Enquanto tentava abrir caminho em meio à multidão, alguém o empurrou. Ao virar-se, ele viu uma mulher trajando uma longa capa preta e a reconheceu como sendo a Morte. a criado voltou correndo para casa do patrão e, com voz trêmula, relatou seu encontro com a Morte, dizendo que ela o havia encarado e feito um gesto ameaçador.

O criado suplicou ao patrão que lhe emprestasse um cavalo para que pudesse fugir para Samarra e esconder-se da Morte. O patrão concordou, e o criado partiu a galope.

Mais tarde, o comerciante foi ao mercado e viu a Morte rondando o local. a comerciante perguntou:

- Por que você fez um gesto ameaçador para meu criado e o assustou?

- Eu não fiz nenhum gesto ameaçador - respondeu a Morte. Apenas fiquei surpresa quando o encontrei em Bagdá, porque tenho um encontro marcado com ele esta noite em Samarra!


 

A HISTÓRIA DAS MÃOS EM ORAÇÃO

Autor Desconhecido

 

 

Por volta de 1490, dois jovens amigos, Albrecht Dürer e Franz Knigstein, queriam ser artistas, mas estavam enfrentando muitas dificuldades. Por serem pobres, eles trabalhavam para sustentar-se, enquanto aprendiam; pinta; quadros.

O trabalho tomava grande parte do tempo deles e, por conseguinte, o progresso nos estudos era lento. Um dia, chegaram a um acordo: tirariam a sorte, e aquele que perdesse trabalharia para sustentar os estudos do outro. Albrecht foi o vencedor e continuou a estudar, enquanto Franz trabalhava em um serviço pesado. Pelo acordo, quando Albrecht se tornasse famoso, sustentaria Franz nos estudos.

Albrecht partiu para as cidades da Europa para concluir os estudos. Hoje, o mundo todo sabe que ele não tinha apenas talento; era um gênio. Quando ficou famoso, ele voltou para cumprir sua parte no acordo com Franz. Logo a seguir, porém, Albrecht constatou o preço enorme que Franz havia pago. Por ter trabalhado com as mãos executando tarefas pesadas para sustentar o amigo, Franz ficou com os dedos rígidos e tortos. Suas mãos, antes esguias e sensíveis, estavam arruinadas para sempre. Ele não podia mais realizar as delicadas pinceladas necessárias para produzir uma bela pintura. Apesar de não poder concretizar seus sonhos artísticos, ele não se tornou uma pessoa amargurada. Ao contrário, alegrou-se com o sucesso do amigo.

Um dia, Dürer encontrou Franz casualmente e o viu ajoelhado, com as mãos retorcidas em atitude de oração, suplicando silenciosamente pelo sucesso do amigo, embora ele próprio não pudesse mais ser um artista. Albrecht Dürer, o grande gênio, fez um esboço rápido das mãos de seu fiel amigo e, mais tarde, completou a magnífica obra-prima conhecida como As Mãos em Oração.

Hoje, as galerias de arte de todos os lugares exibem as obras de Albrecht Dürer, e essa obra-prima em particular retrata uma eloquente história de amor, sacrifício, trabalho e gratidão. Nela, os povos do mundo inteiro também encontro conforto, coragem e força.


 

O SEGREDO DOS PRESENTES

Paul Flucke

 

 

A história de que Gaspar, Melquior e Baltazar levaram presentes ao rei recém-nascido tem sido contada ao longo dos séculos. Ah, você vai dizer, todos conhecem essa história. Eles levaram ouro, incenso e mirra. É assim que a história é contada.

Mas ela está incompleta. Ouça o restante. Você vai conhecer o segredo dos presentes.

Os que estavam mais próximos, viram o primeiro dos três visitantes parar na porta: era Gaspar, um homem rico trajando uma bela capa de veludo enfeitada com peles de excelente qualidade.

Antes de Gaspar parar ali, eles não podiam ver que era o anjo Gabriel que guardava o lugar santo.

- Todos os que entrarem devem ter um presente para oferecer – disse Gabriel a Gaspar. -Levantando com esforço a linda caixa pesada, Gaspar disse:

- Eu trouxe barras do mais fino ouro.

- Seu presente - disse Gabriel - precisa ser algo que faça parte de você, algo que seja precioso à sua alma.

- Foi exatamente o que eu trouxe - disse Gaspar.

Porém, quando se ajoelhou para depositar o ouro diante do bebê, ele parou e endireitou o corpo. Em sua mão não havia ouro, mas sim um martelo. A cabeça grosseira e preta do martelo era maior que a mão de um homem; seu cabo, de madeira robusta, tinha o comprimento do antebraço de um homem. Gaspar começou a gaguejar, completamente aturdido, o anjo disse suavemente:

- O que você tem nas mãos é o martelo de sua ganância, usado para destruir a riqueza daqueles que trabalham arduamente para você poder levar uma vida de ostentação e construir uma mansão para morar, enquanto seus servos moram em choupanas.

Envergonhado, Gaspar abaixou a cabeça e fez menção de partir.

Mas GabrieI impediu-lhe a passagem:

- Não, você não ofereceu seu presente.

- Um presente como este? - disse Gaspar, horrorizado. - Ele não é digno de um rei!

- Foi por isso que você veio - disse Gabriel. - Não pode levar o presente de volta. É pesado demais. Deixe-o aqui para que você não seja destruído por ele.

- Mas como? Essa criança não tem condições de levantá-Io do chão - protestou Gaspar.

- Ele é o único que pode - replicou o anjo.

Perto da porta, estava Melquior, o sábio que tinha barba comprida e rugas na testa para evidenciar sua sabedoria. Ele também parou diante da porta. - O que você trouxe? - perguntou Gabriel.

- Incenso, a fragrância das terras secretas e dos tempos passados - respondeu Melquior.

- Seu presente - advertiu Gabriel - precisa ser algo que seja precioso à sua alma.

Melquior ajoelhou-se reverentemente e pegou um frasco de prata de dentro de seu manto. Mas o frasco em sua mão já não era de prata. Era tosco e manchado, feito de argila comum. Atônito, ele tirou a tampa do frasco e cheirou o conteúdo.

- É vinagre! - resmungou MeIquior.

- É disso que você é feito - disse Gabriel. - Amargura. O vinho azedo se deteriorou por causa da inveja e do ódio que você carrega dentro de si, lembranças de mágoas antigas, ressentimentos acumulados e raiva latente. Você buscou sabedoria, mas encheu sua vida de veneno.

 

Melquior curvou os ombros, desviou o olhar e tentou esconder o frasco de argila. Gabriel tocou o braço de Melquior:

- Espere, você precisa deixar seu presente aqui.

Melquior deu um longo suspiro de sofrimento.

- Mas este é um presente desprezível - ele protestou. - E se a criança levá-lo à boca?

- Você deve deixar essa preocupação a cargo do céu - replicou Gabriel. - Lá, até o vinagre é útil.

O terceiro visitante apresentou-se: Baltazar, líder de muitas legiões e flagelo de cidades muradas. Ele segurava uma caixa de metal.

- Eu trouxe mirra - ele disse -, a recompensa mais preciosa de minha conquista mais arrojada. Muitos lutaram e morreram por causa disso, a essência da mais rara erva.

- E ela é a essência de sua vida? - perguntou Gabriel.

O soldado inclinou-se para à frente, curvou a cabeça até quase tocá-Ia no chão e apresentou seu presente. Mas o que ele depositou aos pés do bebê era a sua lança.

- Não pode ser! - ele murmurou com voz rouca. - Algum inimigo deve ter feito um feitiço. Isso é mais verdadeiro do que você pensa - disse Gabriel. Mil inimigos fizeram feitiços contra você e transformaram sua alma em uma lança. Vivendo apenas para vencer, você foi vencido. Cada batalha que você ganha leva a outra, e assim por diante.

Baltazar pegou a lança e virou-se para sair.

- Não posso deixar isso aqui.

- Tem certeza? - perguntou Gabriel.

- Claro - murmurou o guerreiro. - Ele é um bebê. A lança pode espetar sua carne.

- Você deve deixar esse medo a cargo do céu - replicou Gabriel.

Existe outra história que conta que eles foram vistos mais uma vez, anos depois, em uma colina solitária nos arredores de Jerusalém.

Mas não se preocupe. Esse é um fardo que o céu toma conta como só o céu pode fazer.


 

VENDENDO GADO

Howard Hendricks

 

 

Logo após ter sido fundado em 1924, o Seminário [de Dallas] quase sucumbiu. Chegou ao ponto de decretar falência.

Todos os credores estavam prontos para penhorá-Io às 12 horas de um determinado dia. Naquela manhã, os fundadores do seminário reuniram-se na sala do presidente para suplicar a ajuda de Deus.

Harry Ironside estava presente naquela reunião de oração. Quando chegou sua vez de orar, ele disse de maneira simples: Senhor, sabemos que o gado daquelas inúmeras colinas é teu. Suplicamos que vendas algumas cabeças e nos envies o dinheiro.

Naquele exato momento, um texano alto, usando botas e camisa esporte, entrou no escritório do seminário.

- Olá! - ele disse à secretária. - Acabei de vender dois vagões de gado em Fort Worth. Estou tentando fazer uma transação comercial, mas não está dando certo. Acho que Deus deseja que eu dê este dinheiro ao seminário. Não sei se vocês precisam dele ou não, mas aqui está o cheque.

A secretária pegou o cheque e, sabendo que algum assunto crítico estava sendo tratado, dirigiu-se à porta da sala da reunião de oração e bateu timidamente. O Dr. Lewis Sperry Chafer, fundador e presidente do seminário, abriu a porta e pegou o cheque da mão dela. Quando viu o valor, constatou que era a soma exata da dívida.

Em seguida, reconheceu a assinatura no cheque. Era do pecuarista.

Virando-se para o Dr. Ironside, ele disse:

- Harry, Deus vendeu o gado.


 

E SE EU ME CANSAR DE FICAR NO CÉU?

Larry Lihby

 

 

Se você está pensando que pode cansar-se ou aborrecer-se de ficar no céu... não se preocupe! Tente imaginar uma coisa comigo. Imagine que você é um passarinho que vive em uma pequenina gaiola feita de metal enferrujado. Dentro da gaiola, há um pratinho de alimento, um espelho pequeno e um minúsculo poleiro para você se balançar.

Um dia, uma pessoa bondosa pega sua gaiola e a leva para uma floresta grande e linda. A floresta é banhada pelos raios do sol.

Árvores altas, imponentes, cobrem os montes e vales até onde sua vista consegue alcançar. Há cascatas volumosas, amoreiras cobertas de amoras maduras, árvores frutíferas, tapetes de flores silvestres e um lindo e imenso céu azul para você voar. E, além de tudo isso, há milhões de outros passarinhos...

pulando de galho em galho comendo tudo o que gostam criando suas famílias cantando a plenos pulmões durante o dia inteiro.

E agora, passarinho? Você acha que vai querer continuar dentro de sua gaiola? Acha que vai dizer: "Oh, por favor, não me solte.

Vou sentir falta de minha gaiola. Vou sentir falta de meu pratinho com sementes. Vou sentir falta de meu espelho de plástico e de meu pequenino poleiro. Vou me cansar de ficar naquela enorme floresta. " Seria uma tolice, não? Também é uma tolice pensar que não teremos nada para fazer no céu!


 

O APLAUSO DO CÉU

Max Lucado

 

 

Em breve você estará em casa. Talvez ainda não tenha notado, mas está cada vez mais perto de casa. Cada momento é um passo dado. Cada respiração é uma página virada. Cada dia é um quilômetro percorrido, uma montanha escalada. Você está mais perto de casa do que imagina.

Antes que você perceba, seu dia marcado chegará; você descerá a rampa e entrará na Cidade. Verá rostos familiares aguardando por você. Ouvirá seu nome ser proferido por aqueles que o amam.

E, talvez, digo talvez - no fundo, atrás da multidão - Aquele que preferiu morrer a viver sem você retirará as mãos feridas de dentro de seu manto celestial e... aplaudirá.

 


 

COMPAIXÃO

Charles Swindoll

Histórias Para o Coração 2 13

 

 

Uma menina, cuja amiguinha morrera, contou à sua família que havia ido confortar a mãe enlutada.

- O que você disse? - perguntou o pai da menina.

- Nada - ela respondeu. - Eu me sentei no colo dela e chorei com ela.


 

EU QUERO AQUELE

Charles Stanley

Histórias Para o Coração 2 15

 

 

Li, certa vez, a história de um fazendeiro que queria vender alguns cachorrinhos. Ele confeccionou uma placa, oferecendo os animais, e pregou-a em um poste ao lado de seu jardim. Enquanto pregava a placa no poste, alguém puxou seu casaco. Ele olhou para baixo e viu um garotinho segurando alguma coisa e mostrando um largo sorriso no rosto.

- Senhor - ele disse -, quero comprar um desses cachorrinhos.

- Bem - disse o fazendeiro -, esses cachorrinhos são de uma raça especial e custam muito caro.

O menino abaixou a cabeça por alguns instantes. Em seguida, olhou para o fazendeiro e disse:

- Tenho 39 centavos. Com esse dinheiro, posso dar uma olhada?

- Claro - respondeu o fazendeiro. Ele assobiou e chamou: - Dolly.

Aqui, Dolly.

Dolly saiu de sua casinha e desceu a rampa, seguida por quatro bolinhas felpudas. Os olhos do menino brilharam de alegria.

Em seguida, saiu mais uma bolinha felpuda da casinha, visivelmente bem menor que as outras. O cachorrinho desceu a rampa e correu, mancando. o mais rápido que podia, tentando alcançar os outros. Era. sem dúvida alguma. o menor da ninhada.

O garotinho encostou o rosto na cerca e gritou, apontando para o menor:

- Eu quero aquele!

O fazendeiro abaixou-se e disse:

- Filho, você não deve querer aquele cachorrinho. Ele nunca será capaz de correr e brincar como você gostaria.

Ao ouvir isso, o garotinho curvou-se e levantou uma perna da calça, deixando à mostra um suporte de aço que passava pelos dois lados de sua perna e se prendia a um sapato especial. Olhando para o fazendeiro, ele disse:

- Veja, senhor, eu também não corro muito bem, e ele vai necessitar de um amigo como eu.


 

ELE NECESSITAVA DE UM FILHO

Autor Desconhecido

Histórias Para o Coração 2 17

 

 

A enfermeira acompanhou um jovem cansado e ansioso até o leito de um senhor idoso.

- Seu filho está aqui - murmurou a enfermeira ao paciente.

Ela teve de repetir as palavras várias vezes até o paciente abrir os olhos. Ele havia recebido uma forte dose de sedativo, em razão de uma dor no peito causada por um ataque cardíaco. Com a vista turva, ele viu o jovem em pé, perto do balão de oxigênio.

O paciente estendeu a mão, e o jovem apertou-a com força para transmitir-lhe uma mensagem de ânimo. A enfermeira colocou uma cadeira ao lado do leito. O jovem passou a noite toda segurando a mão do ancião e proferindo delicadas palavras de esperança. O moribundo não disse nada, limitando-se a segurar com força a mão do seu filho.

Quando o dia começou a clarear, o paciente morreu. O jovem colocou a mão sem vida no leito e saiu para avisar a enfermeira.

Enquanto a enfermeira tomava as providências necessárias, o jovem permaneceu ali, esperando. Ao terminar sua tarefa, a enfermeira virou-se para lhe dar os pêsames. Mas ele a interrompeu:

- Quem era aquele homem? - perguntou o jovem.

Perplexa, a enfermeira replicou:

- Pensei que fosse seu pai.

- Não, ele não era meu pai. Nunca o vi em toda a minha vida.

- Então por que você não me contou isso quando o levei até ele? perguntou a enfermeira.

O jovem respondeu:

- Eu sabia que ele necessitava da companhia de seu filho, e seu filho não estava aqui. Quando percebi que o seu estado era tão grave que ele não poderia saber se eu era ou não o seu filho, compreendi quanto ele necessitava de mim.


 

PEQUENINA FLOR

James McCutcbeon

Histórias Para o Coração 2 19

 

 

Fiorello LaGuardia foi prefeito de Nova York na pior época da Grande Depressão e durante toda a Segunda Guerra Mundial. Ele era chamado pelos cidadãos apaixonados por Nova York de "Pequenina Flor", porque tinha apenas 1,60m de altura e sempre usava uma flor vermelha na lapela. LaGuardia era urna figura pitoresca, que costumava andar nos carros de bombeiros da cidade, invadir botequins com a polícia, e levar um orfanato inteiro a um jogo de beisebol. Quando os jornais de Nova York entravam em greve, ele se dirigia a urna emissora de rádio e lia a seção recreativa da edição de domingo para as crianças.

Numa noite muito fria, em janeiro de 1935, o prefeito apareceu num tribunal noturno que atendia o bairro mais pobre da cidade. Naquela noite, LaGuardia dispensou o juiz e assumiu o seu lugar. Após alguns minutos, uma senhora vestida com trajes esfarrapados foi trazida diante dele, acusada de ter roubado um filão de pão.

A senhora contou a LaGuardia que seu genro abandonara o lar, deixando sua filha doente e seus dois netos passando fome. Mas o padeiro de quem ela havia roubado o pão recusava-se a retirar a queixa.

- Eles são péssimos vizinhos, Excelência - disse o homem ao prefeito. - Ela precisa ser punida para que isso sirva de lição às outras pessoas da redondeza.

LaGuardia deu um longo suspiro. Virou-se para a mulher e disse:

- Eu preciso punir a senhora. A lei não permite exceções. Dez dólares ou dez dias na cadeia.

Enquanto pronunciava a sentença, o prefeito enfiou a mão no bolso, retirou uma nota, atirou-a dentro de seu famoso sombreiro e disse:

- Aqui estão os dez dólares da multa que eu cancelo neste momento; e agora vou multar cada pessoa desta sala, em 50 centavos, por viver em uma cidade onde uma cidadã necessita roubar pão para dar de comer a seus netos. Sr. Bailiff, faça a coleta das multas e entregue-as à ré.

No dia seguinte, os jornais de Nova York noticiaram que os US$47.50 arrecadados foram entregues à assustada senhora que havia roubado um 6lão de pão para alimentar seus netos, sendo que 50 centavos dessa quantia foram pagos pelo padeiro, que tinha o rosto ruborizado de vergonha, enquanto cerca de 70 pessoas acusadas de pequenos delitos ou violações das leis de trânsito e alguns policiais de Nova York, que se sentiram privilegiados em contribuir com 50 centavos, levantavam-se para ovacionar o prefeito.


 

UM ATO SIGNIFICATIVO

R. C. Sproul

Histórias Para o Coração 2 21

 

 

Tive um colega na faculdade, vítima de paralisia cerebral. Ele conseguia andar, mas com grande dificuldade, porque suas pernas e braços movimentavam-se em todas as direções, sem a coordenação motora que transforma a caminhada em uma tarefa simples e normal. Suas palavras eram balbuciadas, lentas e pausadas, exigindo grande atenção do ouvinte para entendê-Ias. Contudo, não havia nenhum problema com sua mente. E sua personalidade vibrante, bem como seu sorriso espontâneo, serviam de estímulo aos colegas de classe e a todos os que tinham contato com ele.

Certo dia, ele se aproximou de mim angustiado por causa de um problema, pedindo-me que orasse em seu favor. Durante a oração, proferi algumas palavras rotineiras como estas: Ó Senhor, ajuda este homem a vencer o seu problema. Quando abri os olhos, meu colega estava chorando, em silêncio.

Perguntei-lhe o que havia de errado, e ele respondeu, gaguejando:

- Você me chamou de homem. Nunca ninguém me chamou de homem antes.


 

INFORMAÇÕES, POR FAVOR!

Paul Villiard

Histórias Para o Coração 2 22

 

 

Quando eu era criança, minha família era proprietária de um dos primeiros telefones da vizinhança. Eu me lembro bem da lustrosa caixa de carvalho instalada na parede embaixo da escada. O fone reluzente ficava dependurado do lado da caixa. Lembro-me até do número: 105. Eu era pequeno demais para alcançar o telefone, mas costumava ouvir, fascinado, quando minha mãe o utilizava. Certa vez, ela me levantou para que eu pudesse falar com meu pai, que estava viajando a negócios. Foi um momento mágico!

Depois, descobri que, em algum lugar dentro daquele aparelho sensacional, morava uma pessoa maravilhosa. O nome dessa pessoa era "Informações, por Favor! ", e não havia nada que ela não soubesse.

Minha mãe sempre recorria a ela para saber o número do telefone de alguém; quando nosso relógio não funcionava, "Informações, por Favor!" fornecia imediatamente a hora certa.

Minha primeira experiência pessoal com aquele "gênio da caixa" ocorreu, certo dia, quando minha mãe se encontrava na casa de uma vizinha. Enquanto eu brincava com a caixa de ferramentas no porão, dei uma martelada no dedo. A dor foi terrível, mas de nada adiantava chorar porque não havia ninguém em casa para me consolar. Caminhei pela casa chupando o dedo machucado até chegar perto da escada. O telefone! Corri para pegar o banquinho na sala de visitas e arrastei-o para perto do telefone. Subi no banquinho, tirei o fone do gancho e encostei-o na orelha.

- Informações, por Favor! - eu disse, tentando alcançar o bocal, um pouco acima de minha cabeça.

Após um clique ou dois, uma voz clara falou ao meu ouvido:

- Informações.

- Eu machuquei o dedo - choraminguei ao telefone.

Agora que eu tinha com quem falar, as lágrimas começaram a correr.

- Sua mãe não está em casa? - foi a pergunta.

- Não, estou sozinho - respondi por entre as lágrimas.

- Está saindo sangue?

- Não. Dei uma martelada no dedo e está doendo.

- Você sabe abrir a geladeira? - ela perguntou.

Respondi que sabia.

- Então, pegue um pedacinho de gelo e segure-o em cima do dedo.

Vai parar de doer. Mas tome cuidado com o gelo - ela me advertiu.E não chore. Vai dar tudo certo.

Depois disso, passei a ligar para "Informações, por Favor! ", para conseguir qualquer coisa. Pedi ajuda para minhas lições de geografia, e ela me disse onde ficava a cidade de Filadélfia e o Orinoco o romântico rio que eu viria a explorar quando crescesse. Ela me ajudou na aritmética e me contou que o esquilo - que eu pegara no parque no dia anterior - comia frutas e nozes.

E chegou o dia em que Petey, nosso canarinho, morreu. Liguei para "Informações, por Favor!" e lhe contei minha triste história.

Ela ouviu e repetiu aquelas palavras que os adultos costumam dizer para consolar uma criança. Mas eu estava inconsolável: Por que os passarinhos, que cantam tão bonito e alegram a família inteira, acabam se transformando em um montinho de penas com os pés para cima no fundo de uma gaiola?

Ela deve ter percebido a intensidade de minha tristeza, porque disse em voz baixa:

- Paul, lembre-se sempre de que existem outros mundos em que podemos cantar.

Eu me senti melhor.

No dia seguinte, lá estava eu ao telefone.

- Informações - disse a voz que eu agora conhecia bem.

- Como se escreve "consertar"? - perguntei.

- No sentido de consertar alguma coisa? C-O-N-S-E-R-T-A-R.

Naquele momento, minha irmã, que tinha o péssimo hábito de me assustar, saltou da escada em minha direção e gritou:

- Iaaaaaaa!

Eu caí do banquinho e arranquei, sem querer, o fone da caixa com todos os fios. Minha irmã e eu ficamos aterrorizados. "Informações, por Favor!" não respondia mais, e eu não sabia se a magoara por ter arrancado o fone da caixa.

Minutos depois, apareceu um homem na varanda.

- Sou funcionário da companhia telefônica. Eu estava trabalhando lá embaixo, nesta rua, e a telefonista me disse que deve haver algum problema com este número de telefone. - Ele pegou o fone da minha mão e perguntou:

- O que aconteceu?

Eu lhe contei o que havia acontecido.

- Bem, podemos resolver esse problema em um minuto ou dois.

Ele abriu a caixa do telefone, deixando à mostra uma confusão de fios e molas, e começou a mexer no fio principal do telefone, prendendo tudo com uma pequena chave de fenda. Depois de levantar e abaixar o gancho algumas vezes, ele falou ao telefone.

- Oi, aqui é Pete. Está tudo em ordem com o 105. A irmã do garoto o assustou, e ele puxou os fios da caixa.

O homem desligou, sorriu, deu um tapinha em minha cabeça e atravessou a porta.

Tudo isso aconteceu em uma cidadezinha a noroeste do Pacífico.

Quando eu tinha nove anos, mudamos para Boston - do outro lado do país -e passei a sentir falta de minha mentora. "Informações, por Favor!" pertencia àquela velha caixa de madeira da outra casa, e eu nunca pensei em tentar procurá-Ia naquele novo e imponente telefone que ficava na mesinha do hall.

Mesmo quando cheguei à adolescência, as lembranças daquelas conversas dos tempos de infância nunca me abandonaram; em momentos de dúvidas e dificuldades, eu me lembrava da voz serena que me transmitia segurança quando eu ligava para "Informações, por Favor!" e obtinha a resposta certa. Hoje eu entendo a paciência, a compreensão e a bondade daquela pessoa que perdia o seu precioso tempo com um garotinho.

Alguns anos mais tarde, quando eu estava a caminho da faculdade, no Oeste, meu avião pousou em Seattle. A conexão com o vôo seguinte levaria cerca de meia hora. Passei 15 minutos ou mais ao telefone conversando com minha irmã, que agora era uma senhora casada, mãe e se sentia feliz. Em seguida, sem pensar no que estava fazendo, disquei para a telefonista de minha cidade natal e disse:

- Informações, por Favor!

Como se fosse um milagre, ouvi novamente a voz clara e firme, que eu conhecia tão bem:

- Informações.

Eu não tinha planejado nada, mas me ouvi dizendo:

- Por favor, poderia me informar como se escreve a palavra " consertar"?

Depois de uma longa pausa, ouvi a voz delicada responder:

- Acho - disse "Informações, por Favor!" - que seu dedo já deve estar curado.

Eu ri.

- Quer dizer que você continua aí. Acho que você não faz idéia do significado que teve em minha vida durante todo aquele tempo...

- Acho - ela replicou - que você não sabe o significado que teve em minha vida. Não tive filhos e ficava aguardando, ansiosa, suas ligações. Bobagem, não?

Não era bobagem, mas eu não disse isso. Eu lhe contei que pensei nela com muita freqüência durante aqueles anos e perguntei se poderia ligar novamente quando voltasse a visitar minha irmã, depois do encerramento do primeiro semestre.

- Por favor, ligue. Peça para falar com Sally.

- Até logo, Sally. - Parecia estranho que "Informações, por Favor!" tivesse nome. - Se eu encontrar algum esquilo, vou dizer a ele para comer frutas e nozes.

- Faça isso - ela disse. - E espero que num desses dias você vá conhecer o Orinoco. Bem, até logo.

Três meses depois, eu estava de volta ao aeroporto de Seattle. Uma voz diferente atendeu:

- Informações.

Pedi para falar com Sally.

- Você é amigo dela?

- Sim - respondi. - Um velho amigo.

- Lamento muito informar, mas Sally só trabalhava meio expediente nos últimos anos porque estava muito doente. Ela morreu há cinco semanas.

Antes que eu tivesse tempo de desligar, ela continuou:

- Espere um momento. Você disse que seu nome é Villiard?

-Sim.

- Bem... Sally deixou um recado escrito para você.

- Que recado? - perguntei, quase adivinhando do que se tratava.

- Aqui está. É o seguinte: "Diga a ele que eu continuo a achar que existem outros mundos em que podemos cantar. Ele vai entender." Agradeci e desliguei. Eu entendi o que Sally quis dizer.


 

O DOM DE BEETHOVEN

Philip Yancey

Histórias Para o Coração 2 27

 

 

Conta-se que Beethoven era um homem tido como pouco sociável. Em razão de sua surdez, ele considerava a conversa uma prática difícil e humilhante. Quando soube da morte do filho de um amigo, Beethoven correu para a casa desse amigo, dominado pelo sofrimento. Ele não tinha palavras de conforto para oferecer, mas viu um piano na sala. Durante a meia hora que se seguiu, ele tocou piano, extravasando suas emoções da maneira mais eloquente que podia.

Assim que terminou, ele foi embora. Mais tarde, o amigo comentou que nenhuma outra visita havia sido tão significativa para ele.


 

ABANDONADO

Autor Desconhecido 1904

Histórias Para o Coração 2 29

 

 

O menino estava sentado tão próximo à senhora de roupa cinza que todos tinham certeza de que ele era alguém de sua família; por isso, quando, inconscientemente, ele encostou seus sapatos enlameados na ampla saia da mulher que estava à sua esquerda, ela virou-se para a senhora de cinza e disse:

- Desculpe-me, maJa.me, mas a senhora poderia ter a bondade de ordenar a seu filho que tenha modos? Ele está sujando minha saia com seus sapatos enlameados.

A senhora de roupa cinza corou um pouco e empurrou levemente o menino.

- Meu filho? - ela disse. - Por favor, ele não é meu filho.

O menino demonstrou inquietação. Era tão peque nino que não podia encostar os pés no chão. Então, esticou-os diante de si, como se fossem dois varais para dependurar roupas, e olhou para eles com ar de culpa.

- Sinto muito ter sujado sua roupa - ele disse à mulher à sua esquerda. - Espero que seja fácil limpar.

- Ah, não tem importância - ela disse. Ao ver os olhos do menino fixos nos dela, complementou: - Você está indo para aquele lado da cidade sozinho?

- Estou, senhora - ele disse. - Sempre vou sozinho. Não tenho ninguém para ir comigo. Meu pai morreu, e minha mãe morreu também. Moro com a tia Clara, no Brooklyn, mas ela diz que a tia Anna também precisa ajudar a tomar conta de mim. Por isso, uma vez ou duas vezes por semana, quando ela está cansada e quer ir a algum lugar para descansar, me manda passar uns dias com tia Anna. Estou indo para lá agora. Às vezes, eu não encontro tia Anna em casa, mas espero que ela esteja lá hoje, porque parece que vai chover, e eu não gosto de ficar andando na rua debaixo de chuva.

A mulher sentiu certo desconforto na garganta e disse, um tanto hesitante:

- Você é muito pequeno para andar por aí sozinho.

- Eu não me importo - ele disse. – Eu nunca fico perdido. Mas às vezes, me sinto sozinho durante a viagem. Quando vejo alguém que poderia ser meu parente, fico bem perto dessa pessoa, só para fazer de conta que é verdade. Esta manhã eu estava fingindo que era parente desta senhora que está do meu lado e me esqueci de tomar cuidado com meus pés. Foi por isso que sujei a roupa da senhora.

A mulher passou o braço ao redor do rapazinho e puxou-o para perto dela com tanta força que quase chegou a machucá-lo. Os olhares lançados por todas as outras mulheres que ouviram aquela confidência sincera deram a entender que ela permitiria que o menino limpasse os sapatos em sua melhor roupa e que isso a deixaria satisfeita.

 


 

ENQUANTO VOCÊ PRECISAR DE MIM

Wendi Fay Green Do Grupo de Cantores Cristãos Contemporâneos "Sierra"

Histórias Para o Coração 2 31

 

 

Sou autora de letras para músicas, e a maioria das canções que escrevo são inspiradas em minha vida. No entanto, em algumas ocasiões, eu escrevo uma canção que reflete as experiências de outras pessoas. Esta canção nasceu de uma situação difícil vivida por uma amiga muito especial.

Minha querida amiga, JoDee, estava em viagem de férias e havia pedido à sua mãe, Charlene, que ficasse em sua casa tomando conta de seu filhinho de três anos, enquanto ela estivesse fora. Num determinado dia, o filhinho de JoDee tropeçou acidentalmente numa lata de gasolina, na garagem da casa. Charlene levou-o para brincar no quintal e retomou à garagem para limpar o chão. Enquanto ela estava na garagem, a gasolina espalhou-se e pegou fogo, por causa do aquecedor de água quente. Em questão de segundos, a casa explodiu, levando Charlene à morte. Quando JoDee telefonou-me para contar o que havia acontecido, ela não conseguia parar de chorar.

Charlene era muito especial para mim. Ela e JoDee haviam permanecido no hospital, acompanhando-me durante as 16 horas que antecederam o nascimento de meu filho, Cooper. JoDee pediu que eu comparecesse ao funeral e dissesse algumas palavras sobre sua querida mãe. Voei até o Texas, onde elas moravam, e assisti ao ofício fúnebre, ao lado de JoDee e de sua família. Quando voltei para casa, escrevi esta canção, porque aquele tinha sido um desses momentos da vida em que é muito difícil encontrar palavras para serem ditas. Tudo o que pude fazer foi amparar JoDee, chorar com ela, e orar para que o maravilhoso conforto do Espírito Santo estivesse com ela e com sua família, durante aquele período tão doloroso.

Esta canção é difícil de ser cantada porque, nela, eu conto a história de JoDee e de Charlene. Quando cantada em nossas apresentações, ela transforma o momento em algo comovente e maravilhoso. Costumo dizer às pessoas que esta é uma canção de amizade, que fala sobre estar presente em todas as situações. Todos nós já estivemos de um lado ou do outro, em circunstâncias difíceis da vida. Precisamos nos ajudar uns aos outros - chorar juntos, orar juntos, sentar lado a lado, em silêncio, amar muito. Espero que esta canção nos inspire a fazer isto!

 

Enquanto Você Precisar de mim

 


 

"QUERO SER IGUAL AO JOE!"

Tony Campolo

Histórias Para o Coração 2 33

 

 

Joe era um bêbado que se converteu milagrosamente, em uma Missão. Antes de sua conversão, ele ganhou a fama de ser um alcoólatra sem recuperação, que passaria sua miserável existência em um gueto. Porém, após sua conversão e uma nova vida com Deus, tudo mudou. Joe tornou-se a pessoa mais zelosa que aqueles que eram ligados à Missão conheceram. Joe passava dias e noites trabalhando na Missão, fazendo tudo o que precisasse ser feito. Nada do que lhe fosse pedido era considerado por ele uma tarefa humilhante. Quer fosse limpar o vômito de um bêbado que ingeriu violentas doses de álcool, quer os imundos vasos sanitários dos banheiros masculinos, Joe fazia o que lhe pediam com um sorriso no rosto, como se estivesse grato pela oportunidade de ajudar. Diziam que ele alimentava homens fracos que vagueavam pelas ruas e os levava para a Missão, conseguindo roupas limpas e um leito para aqueles que não tinham forças para cuidar de si mesmos.

Certa noite, quando o dirigente da Missão estava proferindo sua mensagem evangelística à costumeira audiência composta de homens mal-humorados e cabisbaixos, houve um que levantou a cabeça, caminhou pelo corredor em direção ao púlpito e ajoelhou-se para orar, clamando a Deus para ajudá-lo a mudar de vida. O bêbado arrependido gritava repetidas vezes:

- Ó Deus! Quero ser igual ao Joe! Quero ser igual ao Joe! Quero ser igual ao Joe! Quero ser igual ao Joe!

O dirigente da Missão curvou-se e disse ao homem:

- Filho, acho que você deveria orar: "Quero ser igual a Jesus!" O homem olhou para o dirigente com uma expressão estranha no rosto e perguntou:

- Ele é igual ao Joe?


 

MADAME, A SENHORA E RICA?

Marion Doolan

Histórias Para o Coração 2 34

 

 

Elas haviam atravessado a porta, refugiando-se da tempestade, e permaneciam abraçadas para se protegerem - duas crianças vestidas com casacos grandes e esfarrapados.

- A senhora tem jornais velhos, madame?

Eu estava atarefada. Queria dizer não, mas olhei para os pés daquelas crianças. Sandálias pequenas e franzinas, encharcadas da chuva de granizo.

- Entrem. Vou dar-lhes uma xícara de chocolate quente.

Não houve diálogo. As sandálias encharcadas deixaram marcas nas pedras da lareira.

Servi-Ihes chocolate e torradas com geleia para fortalecê-las contra o frio lá fora. Em seguida, retomei à cozinha e recomecei meu trabalho de preparar o orçamento da casa...

O silêncio na sala da frente causou-me espanto. Resolvi olhar.

A menina segurava a xícara vazia diante de si, olhando para ela. O menino perguntou com voz inexpressiva:

-Madame... a senhora é rica?

- Eu, rica? Misericórdia! Claro que não!

Olhei para as capas surradas de minha mobília.

A menina colocou a xícara no pires... com muito cuidado e comentou:

- As xícaras da senhora combinam com os pires.

Sua voz era fraca e cansada, com uma fome que não vinha do estômago.

As crianças saíram, segurando os fardos de jornal para se protegerem do vento. Não me agradeceram. Não precisavam agradecer. Elas tinham feito mais do que isso. Conjuntos simples de xícaras e pires azuis. Mas combinavam. Provei as batatas e mexi o molho. Batatas com molho substancioso de carne, um teto para morarmos, meu marido com um emprego fixo - estas coisas também combinavam.

Recoloquei as cadeiras da lareira no lugar e arrumei a sala de estar. As marcas de lama das pequeninas sandálias continuavam nas pedras da lareira. Resolvi não limpá-Ias. Queria que estivessem ali.

caso viesse me esquecer novamente de que era muito rica.


 

PARA MEU VIZINHO

Madre Tereza

Histórias Para o Coração 2 36

 

 

Certa noite, um homem chegou a nossa casa e me disse:

- Há uma família na minha rua com oito filhos. Faz dias que eles não comem.

Peguei um pouco de comida e fui até lá.

Quando me aproximei daquela família, vi os rostos das criancinhas desfigurados pela fome. Não havia mágoa ou tristeza naqueles rostos;

apenas sofrimento causado por uma fome terrível.

Entreguei o arroz à mãe. Ela dividiu o arroz e saiu levando a metade. Quando voltou, perguntei-lhe:

- Aonde você foi?

Ela me deu uma simples resposta:

- Fui à casa de meus vizinhos. Eles também estão com fome!

...Não me surpreendi com a atitude daquela senhora, porque as pessoas pobres são realmente muito generosas. O que me surpreendeu foi que ela sabia que seus vizinhos estavam com fome. Como regra geral, quando estamos sofrendo, concentramo-nos tanto em nós mesmos que não temos tempo para os outros.


 

UM RAPAZ CHAMADO BILL

Rebecca Manley Pippert Adaptação

Histórias Para o Coração 2 37

 

 

O nome dele é Bill. Ele não penteia os cabelos, usa camiseta furada, calça jeans e anda descalço. Esse foi, literalmente, o seu guarda-roupa durante os quatro anos que estudou na faculdade.

Ele é muito inteligente, um pouco excêntrico, e muito, muito esperto. Converteu-se ao Cristianismo quando estudava na faculdade.

Em frente ao campo, do outro lado da rua, existe uma igreja de bela aparência e muito conservadora, que deseja expandir seu ministério aos alunos, mas não sabe ao certo como proceder.

Certo dia, Bill decide ir até lá. Ele chega descalço, de camiseta e calça jeans e, como sempre, com os cabelos despenteados. O culto já havia começado, e Bill caminha pelo corredor à procura de um lugar.

A igreja está lotada, e ele não encontra um lugar para se sentar. As pessoas olham para ele um pouco constrangidas, mas ninguém diz nada.

Bill aproxima-se cada vez mais do púlpito. Quando percebe que não há nenhum lugar vago, ele se senta no chão, em cima do carpete.

(Embora este tipo de comportamento seja perfeitamente aceitável em reuniões informais da faculdade, acreditem em mim, nunca antes havia acontecido naquela igreja!) As pessoas demonstram nervosismo, e a tensão no ambiente é visível.

A essa altura, o pastor observa um diácono vindo dos fundos do templo, caminhando lentamente na direção de Bill. O diácono é um homem de mais de 80 anos, tem cabelos cinza-prata, e usa terno com colete e um relógio de bolso. Ê um homem piedoso - muito elegante, muito respeitado, muito cortês. Apoiado em uma bengala, ele se dirige ao jovem, enquanto todos dizem a si mesmos: Não se deve censurar a atitude do diácono. Não se pode esperar que um homem, na idade dele e com a sua experiência, entenda o que se passa na cabeça de um universitário sentado no chão.

Demora um certo tempo para o homem chegar perto do jovem. A igreja permanece em completo silêncio, quebrado apenas pelo som da bengala daquele irmão. Todos os olhares concentram-se nele; não se ouve a respiração de ninguém. As pessoas estão pensando: O pastor não poderá pregar o sermão enquanto o diácono não fizer o que tem em mente.

Agora, elas vêem o ancião derrubar a bengala no chão. Com grande dificuldade, ele se abaixa, senta-se ao lado de Bill e participa do culto ao seu lado, para que ele não se sinta sozinho. Todos se emocionam.

Depois de readquirir o controle, o pastor diz:

- O que vou pregar agora jamais será lembrado por vocês. O que vocês acabaram de ver jamais será esquecido.


 

DANÇA DE OUTONO

Robin Jones Gunn

Histórias Para o Coração 2 39

 

 

Ela estava no parque esta tarde, a pouca distância de sua tutora.

Os traços de seu rosto revelavam que, embora o porte físico fosse o de uma jovem, sua mente sempre continuaria a de uma criança. Meus filhos corriam, saltavam e peneiravam a areia, com seus dedinhos perfeitos e bem coordenados. Brincando entretidos com uma pá, eles não notaram que o vento mudara de direção. Mas ela notou. As fortes rajadas do vento de outono revolviam as folhas cor de âmbar.

Chamei meu filho, um menino muito ativo, e peguei minha filha pela mão. Está na hora de ir. A mamãe ainda tem muitas coisas a fazer hoje. Meu filho, com suas bochechas rosadas, empertigou o corpo e olhou fascinado, com os olhos arregalados, a dança da menina com síndrome de Down. Ela colhia as folhas do chão e jogava-as por cima da cabeça, como se fosse uma chuva cintilante e jubilosa de outono.

A cada giro com o corpo, ela pulava e cantava, com voz deficiente vinda do fundo do coração - um cântico de louvor especial Àquele cuja respiração faz as folhas despencarem das árvores.

Rápido. Vamos embora. Já prenderam os cintos de segurança?

Dou partida no carro. Pelo espelho retrovisor, eu olho para a menina mais uma vez, através de meus olhos embaçados. Em seguida, lágrimas surgem. Não são lágrimas de piedade por ela. As lágrimas são por mim. Porque sou muito orgulhosa para louvar publicamente o meu Criador.

Sou uma pessoa inteira, normal e inteligente, e choro porque nunca serei capaz de conhecer a maravilhosa misericórdia que liberta uma criança como aquela e a leva a dançar no meio das folhas de outono.


 

UMA SEGUNDA CHANCE

Billy Graham

Histórias Para o Coração 2 43

 

 

A Escola Técnica da Georgia estava jogando contra a Universidade da Califórnia, no Rose Bowl (jogo de futebol americano, disputado, depois da temporada, entre os melhores times) de 1929. Durante a partida, um jogador recuperou uma bola perdida, mas confundiu-se e correu na direção errada. Quando seu companheiro de time o segurou para detê-lo, ele se atrapalhou e fez um gol contra. No intervalo, os jogadores correram para o vestiário e sentaram-se, aguardando o que o treinador diria. O jovem que fizera o gol contra sentou-se isolado dos outros, colocou uma toalha em cima da cabeça e chorou.

No momento em que os jogadores estavam prontos para retornar ao campo para o segundo tempo, o treinador os surpreendeu ao anunciar que não haveria alteração no time para aquele segundo tempo. Todos os jogadores deixaram o vestiário, menos o que tinha feito o gol contra. Ele não saiu do lugar. Quando o treinador olhou para trás e o chamou novamente, viu o rosto do jovem molhado de lágrimas. O jogador disse:

- Treinador, eu não posso jogar. Eu prejudiquei o senhor. Desgracei a Universidade da Califórnia. Não tenho coragem de enfrentar os torcedores novamente.

O treinador pousou a mão no ombro do jogador e disse:

- Levante-se e volte ao campo. O jogo ainda não terminou.

Quando penso nesta história, digo para mim mesmo:

- Que treinador!

Quando leio a história de Jonas [na Bíblia] e as histórias de milhares de pessoas como ele, digo:

- E pensar que Deus me daria outra chance!


 

ETERNA HARMONIA

John MacArthur

Histórias Para o Coração 2 44

 

 

Séculos atrás, correu pelo mundo a história do chefe de uma determinada tribo que era superior aos chefes de todas as outras tribos. Na época em que o poder era medido pela superioridade da força física, a tribo mais poderosa de todas era a que possuía o chefe mais forte.

Mas o chefe tribal de que estamos falando também era conhecido por sua sabedoria. No intuito de ajudar seu povo a viver em segurança e em paz, ele emitiu leis abrangendo todos os aspectos da vida tribal.

Fazia cumprir essas leis rigorosamente e adquiriu a fama de ser um juiz imparcial.

Apesar das leis, havia problemas na tribo. Um dia, chegou ao conhecimento do chefe que alguém da tribo estava cometendo pequenos furtos. Ele reuniu o grupo.

- Todos aqui sabem que as leis foram feitas para proteger vocês, para ajudar vocês a viverem em segurança e em paz - ele os fez lembrar, com grande tristeza no olhar por causa do amor que lhes dedicava. - Esses furtos precisam parar. Todos nós temos tudo aquilo de que necessitamos. a castigo será aumentado de 10 para 20 chibatadas em quem for surpreendido furtando os furtos, porém, continuaram a chefe voltou a reunir o grupo.

- Por favor, ouçam-me - ele pediu. - Esses furtos precisam parar. O ambiente entre nós está ficando cada vez pior, a castigo será aumentado para 30 chibatadas.

Apesar disso, os furtos não cessaram, a chefe reuniu mais uma vez o grupo.

- Por favor, eu estou suplicando. Para o bem de vocês, os furtos precisam parar. Eles estão causando muito sofrimento entre nós, a castigo será aumentado para 40 chibatadas.

O povo conhecia o grande amor do chefe pela tribo, mas apenas os que estavam mais próximos dele viram uma lágrima correr por seu rosto quando ele dispersou o grupo.

Finalmente, um homem disse que a pessoa havia sido identificada.

A notícia espalhou-se. Todos se reuniram para ver quem era.

Um murmúrio de espanto foi dado por todos quando a pessoa foi apresentada entre dois guardas. O rosto do chefe empalideceu de susto e sofrimento.

A ladra era sua mãe, uma senhora idosa e frágil.

O que ele vai fazer? - pensou o povo em voz alta. Será que ele faria cumprir a lei, ou o amor por sua mãe o impediria de cumpri-la?

O povo aguardou, conversando em voz baixa, com a respiração ofegante.

Finalmente, o chefe falou.

- Meu amado povo. - Sua voz ficou embargada. Quase que sussurrando as palavras, ele prosseguiu. - Estou fazendo isto pela nossa segurança e paz. Devem ser aplicadas 40 chibatadas; o sofrimento que este delito nos causou foi grande demais.

Ele fez um movimento afirmativo com a cabeça, e os guardas fizeram sua mãe dar um passo à frente. Um deles retirou cuidadosamente o manto dela, deixando à mostra as costas ossudas e arqueadas. O homem designado para aplicar o castigo começou a desenrolar o chicote.

Nesse momento, o chefe deu um passo à frente e também retirou seu manto, deixando à mostra os ombros largos, bronzeados e firmes.

Carinhosamente, ele passou os braços ao redor de sua querida mãe, protegendo-a com o próprio corpo.

Enquanto ele murmurava algumas palavras com o rosto encostado ao da mãe, suas lágrimas misturavam-se às dela. Ele fez outro movimento afirmativo com a cabeça, recebendo uma chibatada após outra.

Foi um momento singular. Mas, nele, o amor e a justiça entraram em eterna harmonia.


 

VOCÊ É DEUS?

Charles Swindoll

Histórias Para o Coração 2 46

 

 

Logo depois do término da Segunda Guerra Mundial, a Europa começou a ajuntar os cacos que restaram. Grande parte da Inglaterra fora destruída e encontrava-se em ruínas. Talvez o lado mais triste da guerra tenha sido assistir às criancinhas órfãs morrendo de fome nas ruas das cidades devastadas.

Certa manhã muito fria de Londres, um soldado americano estava retomando ao acampamento. Quando ele virou a esquina dirigindo um jipe, avistou um menino com o nariz pressionado contra o vidro de uma confeitaria. Lá dentro, o confeiteiro sovava a massa para uma fornada de rosquinhas. Faminto e com os olhos arregalados, o menino observava todos os movimentos do confeiteiro. O soldado parou o jipe junto ao meio-fio, desceu, e caminhou em silêncio até o local onde o menino se encontrava. Através do vidro embaçado pela fumaça, ele viu aquelas rosquinhas quentes e de dar água na boca sendo retiradas do forno. O menino salivou e deu um leve gemido quando o confeiteiro as colocou no balcão de vidro com todo o cuidado.

Em pé, ao lado do menino, o soldado comoveu-se diante daquele órfão desconhecido.

- Filho... você gostaria de comer algumas rosquinhas?

O menino assustou-se.

- Ah, sim... eu gostaria!

O soldado entrou na confeitaria e comprou uma dúzia de rosquinhas; colocou-as dentro de um saco de papel e dirigiu-se ao local onde o menino se encontrava sob a neblina gelada da manhã de Londres. Ele sorriu, entregou-lhe as rosquinhas, e disse simplesmente:

- Aqui estão.

Quando o soldado se virou para se afastar, sentiu um puxão em sua farda. Ele olhou para trás e ouviu o menino perguntar baixinho:

- Moço... você é Deus?


 

SR. ROTH

Autor Desconhecido

Histórias Para o Coração 2 49

 

 

Um senhor idoso apareceu na porta dos fundos da casa que alugamos. Cautelosos, entreabrimos a porta e vimos seus olhos vítreos e seu rosto enrugado brilhando sob a barba curta e grisalha. Ele segurava uma cesta de vime contendo alguns legumes com aspecto pouco atraente. Desejou-nos um bom dia e ofereceu seu produto. Estávamos preocupados em fazer uma compra rápida, para aliviar nossa piedade misturada com medo.

Para nosso aborrecimento, ele retornou na semana seguinte, apresentando-se como Sr. Roth, o homem que morava no barraco no fim da rua. Quando nossos temores cessaram, aproximamo-nos mais dele e compreendemos que não era o álcool, mas a catarata, que deixava seus olhos com aquele aspecto vidrado. Nas visitas subsequentes, ele chegou arrastando os pés calçados com sapatos diferentes um do outro e tirou uma harmônica do estojo. Com o olhar fixo em uma glória futura, ele começou a tocar hinos antigos, entre uma conversa e outra que entabulamos sobre legumes e religião.

Em uma das visitas, ele exclamou:

- O Senhor é tão bondoso! Saí de meu barraco hoje cedo e encontrei, na porta da frente, uma sacola cheia de sapatos e roupas.

- Isto é maravilhoso, Sr. Roth - dissemos. - Estamos felizes pelo senhor.

- E sabem o que é mais maravilhoso ainda? - ele perguntou. Ontem conheci algumas pessoas que podem usar os sapatos e as roupas.


 

EU NÃO ACREDITO EM UMA SÓ PALAVRA

Howard Hendricks

Histórias Para o Coração 2 50

 

 

Quando cheguei à quinta série, eu carregava comigo todos os problemas de um garoto que se sentia inseguro, carente de amor e de mal com a vida. Em outras palavras, eu era um furacão destruidor. Porém, a Srta. Simon, minha professora, aparentemente imaginava que eu desconhecesse o meu problema, porque costumava dizer-me:

- Howard, você é o aluno mais mal comportado desta escola!

Eu gostaria que você me dissesse alguma coisa que eu ainda não sabia! - pensava comigo mesmo, enquanto continuava a melhorar (ou piorar) a opinião dela a meu respeito...

É desnecessário dizer que a quinta série foi, provavelmente, o pior ano de minha vida escolar. Finalmente, recebi o diploma - por motivos óbvios. Mas as palavras da Srta. Simon continuavam a soar em meus ouvidos: "Howard, você é o aluno mais mal comportado desta escola!" Você pode imaginar quais eram as minhas expectativas quando entrei na sexta série. No primeiro dia de aula, minha professora, a Srta. Noe, começou a fazer a chamada, e não demorou muito para dizer meu nome.

- Howard Hendricks - ela disse bem alto, desviando os olhos da lista para o lugar em que eu estava sentado com os braços cruzados, apenas aguardando o momento de entrar em ação. Ela olhou para mim por alguns instantes e prosseguiu: - Tenho ouvido falar muito de você. - Em seguida, sorriu e complementou: - Mas eu não acredito em uma só palavra!

Vou contar-lhe uma coisa. Aquele momento foi o ponto decisivo, não apenas em minha educação, mas também em minha vida. De repente, inesperadamente, alguém acreditou em mim. Pela primeira vez na vida, alguém enxergou potencial em mim. A Srta. Noe incumbiu-me de tarefas especiais. Ela me solicitava pequenos serviços.

Convidava-me para ir a sua casa depois da escola para me dar aulas de reforço sobre leitura e aritmética. Ela me desafiava a alcançar padrões cada vez mais altos.

Eu não queria desapontá-Ia por nada deste mundo. Certa vez, envolvi-me tanto com um dever de casa que fiquei acordado até lh30 da madrugada para terminá-Io! Meu pai apareceu no hall e perguntou:

- O que houve, filho? Você está doente?

- Não, estou fazendo meu dever de casa - respondi.

Ele piscou e coçou os olhos para ter certeza de que estava acordado.

Ele nunca me ouvira dizer tal coisa antes...

O que fez a diferença entre a quinta e a sexta séries? O fato de alguém estar disposto a dar-me uma chance. Alguém se dispôs a acreditar em mim e me desafiou a ter expectativas mais amplas.

Aquilo foi um risco, porque não havia garantias de que eu mereceria a confiança da Srta. Noe.

Todos apreciam o bom trabalho de um mentor, principalmente quando seus esforços resultam em sucesso - um atleta famoso, um empresário próspero, um advogado brilhante, um comunicador de grande talento. Mas quantos de nós desejamos dar início a esse trabalho?


 

UM BULE DE CHÁ ESPECIAL

Roberta Messner

Histórias Para o Coração 2 52

 

 

Uma multidão impaciente de quase 200 pessoas, ávidas por encontrar uma pechincha, acotovelava-se na imensa sala de estar da antiga propriedade rural da família Withers. A temperatura abafada, de cerca de 33°C, não impediu nenhuma delas de sair à cata de uma boa oferta de verão.

A senhora que conduzia as vendas, uma conhecida minha de longa data, observava os madrugadores e movimentava a cabeça em sinal de aprovação.

- Você está gostando da bagunça? - ela me perguntou, dando uma risadinha.

Concordei com um sorriso.

- Eu não deveria estar aqui. Preciso chegar ao aeroporto em menos de uma hora - admiti. - Em meus tempos de adolescente, vendi cosméticos nessas imediações. E Hillary Withers era minha cliente favorita.

- Então corra até o sótão - ela sugeriu. - Há uma boa quantidade de antigos cosméticos lá.

Apressada, eu me espremi entre a multidão cada vez maior e subi a escada até o terceiro pavimento. No sótão, havia apenas uma pequenina senhora idosa supervisionando várias mesas lotadas de sacos de embalagem amarelados, de todos os tamanhos.

- O que a trouxe até aqui? - ela perguntou enquanto abria um vidro de perfume. - Não há nada aqui em cima, a não ser alguns produtos antigos da Avon, da Tupperware e das Escovas Fuller. Dei um longo e precavido suspiro. A fragrância inconfundível do perfume "Aqui Está Meu Coração" transportou-me ao passado, quase 20 anos atrás.

- Que coisa! Isto aqui foi escrito por mim! - exclamei quando pousei os olhos em uma fatura grampeada em uma das embalagens. O conteúdo intacto conservava mais de cem dólares em cremes e colônias. Tinha sido minha primeira venda para a Sra. Withers.

Naquele remoto dia de junho, eu tinha percorrido a larga avenida de três pistas durante quase quatro horas, mas nenhuma dona-de-casa convidou-me a entrar. Quando toquei a campainha da última casa, estava preparada para receber mais um não.

- Com licença, madame, sou sua nova representante da Avon gaguejei, assim que a pesada porta de madeira entalhada foi aberta. Tenho alguns ótimos produtos e gostaria de mostrá-Ios à senhora.

Quando, finalmente, reuni coragem para encarar aquela mulher em pé na soleira da porta, me dei conta de que se tratava da Sra.

Withers, a radiante e corpulenta soprano do coro de nossa igreja.

Eu admirava seus lindos vestidos e chapéus, sonhando que um dia também usaria roupas da moda. Dois meses antes daquele dia, eu tinha viajado a uma cidade distante para ser submetida a uma cirurgia do cérebro. A Sra. Withers me enviou lindos cartões com votos de ponto restabelecimento.

- Roberta, minha querida, entre, entre - disse a Sra. Withers, com voz melodiosa. - Estou precisando de um milhão de coisas. Que bom você ter vindo me visitar.

Entusiasmada, acomodei-me no sofá branco imaculado e abri o zíper de minha bolsa de tecido grosso, abarrotada de amostras de todos os tipos de cosméticos que poderiam ser adquiridos por cinco dólares. Quando entreguei o catálogo de vendas à Sra. Withers, senti-me a garota mais importante do mundo.

- Sra. Withers, temos dois tipos de creme: um para peles coradas e outro para peles pálidas - expliquei com palavras confiantes recém-estudadas. - E eles também são excelentes para combater rugas.

- Ótimo, ótimo - ela disse alegremente.

- Qual dos dois a senhora gostaria de comprar? - perguntei, ajeitando a peruca que escondia a enorme cicatriz de minha cirurgia.

- Oh, vou querer um de cada - ela respondeu. - E que perfumes você tem aí?

- Experimente este, Sra. Withers. Eles recomendam que se coloque uma gota no pulso para obter melhor efeito - eu instruí, apontando para seu pulso onde havia uma pulseira de ouro e brilhantes.

- Estou gostando de ver, Roberta! Você conhece muito bem estas coisas. Deve ter estudado durante dias. Que moça inteligente você é!

- A senhora acha mesmo?

Naquele remoto dia de junho, eu tinha percorrido a larga avenida de três pistas durante quase quatro horas, mas nenhuma dona-de-casa convidou-me a entrar. Quando toquei a campainha da última casa, estava preparada para receber mais um não.

- Com licença, madame, sou sua nova representante da Avon gaguejei, assim que a pesada porta de madeira entalhada foi aberta. Tenho alguns ótimos produtos e gostaria de mostrá-Ios à senhora.

Quando, finalmente, reuni coragem para encarar aquela mulher em pé na soleira da porta, me dei conta de que se tratava da Sra.

Withers, a radiante e corpulenta soprano do coro de nossa igreja.

Eu admirava seus lindos vestidos e chapéus, sonhando que um dia também usaria roupas da moda. Dois meses antes daquele dia, eu tinha viajado a uma cidade distante para ser submetida a uma cirurgia do cérebro. A Sra. Withers me enviou lindos cartões com votos de pronto restabelecimento.

- Roberta, minha querida, entre, entre - disse a Sra. Withers, com voz melodiosa. - Estou precisando de um milhão de coisas. Que bom você ter vindo me visitar.

Entusiasmada, acomodei-me no sofá branco imaculado e abri o zíper de minha bolsa de tecido grosso, abarrotada de amostras de todos os tipos de cosméticos que poderiam ser adquiridos por cinco dólares. Quando entreguei o catálogo de vendas à Sra. Withers.

senti-me a garota mais importante do mundo.

- Sra. Withers, temos dois tipos de creme: um para peles coradas e outro para peles pálidas - expliquei com palavras confiantes recém-estudadas. - E eles também são excelentes para combater rugas.

- Ótimo, ótimo - ela disse alegremente.

- Qual dos dois a senhora gostaria de comprar? - perguntei, ajeitando a peruca que escondia a enorme cicatriz de minha cirurgia.

- Oh, vou querer um de cada - ela respondeu. - E que perfumes você tem aí?

- Experimente este, Sra. Withers. Eles recomendam que se coloque uma gota no pulso para obter melhor efeito - eu instruí, apontando para seu pulso onde havia uma pulseira de ouro e brilhantes.

- Estou gostando de ver, Roberta! Você conhece muito bem estas coisas. Deve ter estudado durante dias. Que moça inteligente você é!

- A senhora acha mesmo?

- Tenho certeza. E o que você planeja fazer com o dinheiro ganho?

- Estou economizando para fazer o curso de enfermagem na faculdade - respondi, surpresa com minhas palavras. - Mas hoje estou pensando em comprar uma malha de lã para dar de presente de aniversário à minha mãe. Ela sempre me acompanha nos exames médicos, e, quando viajamos de trem, uma malha de lã é sempre útil.

- Que maravilha, Roberta, quanta consideração por sua mãe! E que produtos você tem para oferecer como presente? - ela perguntou.

Em seguida, solicitou dois de cada um dos que recomendei.

O extravagante pedido totalizou US$117.42. Será que a Sra. Withers queria mesmo gastar tanto dinheiro? Mas ela sorriu e disse:

- Vou aguardar a entrega de meu pedido, Roberta. Você disse que será na próxima terça-feira?

Eu já estava me preparando para sair quando a Sra. Withers disse:

- Você parece estar com fome. Gostaria de tomar um chá, antes de ir?

Aqui em casa, consideramos o chá uma "bebida com o brilho do sol".

Concordei com um movimento de cabeça e acompanhei a Sra.

Withers até sua reluzente cozinha, repleta de todos os tipos de novidades. Observei, fascinada, enquanto ela preparava um chá - como eu havia visto no cinema - só para mim. Ela encheu cuidadosamente a chaleira com água fria, esperou levantar fervura, acrescentou as folhas de chá e aguardou exatamente cinco longos minutos.

- É para que o aroma se desprenda - ela explicou.

Em seguida, ela pegou uma bandeja de prata onde colocou um delicado conjunto de xícaras de porcelana, um abafador de tecido para o bule, tentadores biscoitinhos de morango e outros petiscos deliciosos. Em nossa casa, às vezes, tomávamos chá gelado em copos de geléia, e, agora, eu me sentia uma princesa convidada para o chá da tarde.

- Desculpe-me, Sra. Withers, mas não existe um modo mais rápido de preparar chá? - perguntei. - Em casa, usamos chá em saquinhos.

A Sra. Withers passou o braço ao redor de meu ombro.

- Existem coisas na vida que não devem ser feitas às pressas - ela confidenciou. - Aprendi que deixar o chá em infusão em um bule especial é semelhante a ter uma vida correta. Dá um pouco mais de trabalho, mas sempre vale a pena. Veja seu exemplo, com todos os seus problemas de saúde. Você é "macerada", com determinação e ambição, da mesma forma que um bule de chá especial. Muitas pessoas em seu lugar teriam desistido; mas você, não. Roberta, você pode conseguir qualquer coisa que tenha em mente.

Minha viagem ao passado terminou abruptamente, no momento em que a senhora do sótão abafado e úmido me perguntou:

- Você também conheceu Hillary Withers?

Limpei o suor que escorria em minha testa e respondi:

- Sim... certa vez, vendi um destes cosméticos para a Sra. Withers.

Mas não entendo por que ela nunca os usou nem os repassou para alguém.

- Ela repassou grande parte - disse a senhora, com a voz um tanto emocionada. - Mas alguns foram esquecidos e terminaram aqui.

- Mas por que ela comprou os produtos e não os usou? perguntei.

- Ah, ela comprava uma marca especial de cosméticos para uso próprio. - A senhora abaixou a voz e disse em tom confidencial:

- Hillary tinha um carinho especial pelos vendedores de porta em porta. Ela nunca os dispensava. Costumava dizer-me: "Eu poderia dar dinheiro a eles; mas o dinheiro em si não compra auto-estima.

Por isso, dou a eles um pouco de meu dinheiro, empresto um ouvido amigo e compartilho meu amor e minhas orações. Nunca se sabe até onde alguém pode chegar se for movido por um pouco de incentivo.

Fiz uma pausa, lembrando-me do quanto minhas vendas aumentaram após a primeira visita à Sra. Withers. Comprei a malha de lã para minha mãe com a comissão da venda e ainda fiquei com um pouco de dinheiro para pagar minha dívida na faculdade. Cheguei a receber vários prêmios como vendedora distrital e nacional. Consegui terminar a faculdade com meu dinheiro e realizei o sonho de ser enfermeira. Posteriormente, recebi grau de mestrado e doutorado.

- A Sra. Withers preocupava-se mesmo com os vendedores? perguntei àquela senhora, apontando para as dezenas de embalagens amareladas sobre a mesa.

- Ah, sim - ela me assegurou. - Fazia isso sem que ninguém soubesse.

Paguei as minhas compras - um conjunto de cosméticos que vendi à Sra. Withers e um pequenino medalhão de ouro em formato de coração. Coloquei o medalhão na corrente de ouro em meu pescoço. ~ Em seguida, rumei para o aeroporto; mais tarde, naquele mesmo dia, eu faria uma palestra em um congresso médico em Nova York.

Quando cheguei ao salão de convenções do elegante hotel, caminhei até a tribuna e examinei minuciosamente uma profusão de rostos especialistas da área de saúde, vindos de todas as partes do país. De repente, senti-me tão insegura quanto naquele dia longínquo, quando bati, de porta em porta, para vender cosméticos em um bairro de pessoas abastadas e desconhecidas.

Será que vou conseguir?, pensei.

Com os dedos trêmulos, segurei o medalhão. Ele se abriu, deixando à mostra uma fotografia da Sra. Withers. Ouvi novamente suas palavras carinhosas, porém enfáticas: "Roberta, você pode conseguir qualquer coisa que tenha em mente." - Boa-tarde - comecei a dizer vagarosamente. - Obrigada por terem me convidado para falar sobre como devolver a saúde pública ao seu devido lugar. Costuma-se dizer que o trabalho de enfermagem significa tornar visível o amor. Mas, nesta manhã, aprendi uma lição inesperada sobre o poder do amor silencioso manifestado em segredo. O tipo de amor manifestado não para ser exibido, mas para o bem que ele pode fazer na vida das outras pessoas. Alguns de nossos gestos mais importantes de amor geralmente passam despercebidos. Um dia, eles vão florescer - quando seu aroma se desprender.

A seguir, contei a meus colegas a história de Hillary Withers. Para minha surpresa, recebi um estrondoso aplauso. E pensar que tudo começou com um bule de chá especial...


 

PALAVRAS DE INCENTIVO

Susan Maycinik

Histórias Para o Coração 2 57

 

 

- Posso falar com a gerente?

- A súbita pergunta de minha amiga à garçonete me surpreendeu. Nosso jantar em uma pizzaria popular havia transcorrido sem nenhuma anormalidade, e eu me perguntava o que Eileen tinha em mente.

A gerente se aproximou de nossa mesa alguns minutos depois.

- Em que posso ser útil? - ela perguntou hesitante, como se estivesse esperando mais uma reclamação de uma cliente zangada.

- Eu só queria lhe contar que a garçonete que nos atendeu hoje foi excelente - Eileen começou a dizer, descrevendo, em seguida, as várias coisas que a atendente havia feito e que tanto a impressionaram.

Evidentemente, a gerente ficou aliviada - e encantada. O mesmo aconteceu com a garçonete, que estava em pé, ao lado da mesa.

Nós quatro rimos e conversamos por alguns minutos. Eileen havia transformado em sucesso o dia de duas mulheres esforçadas... e fez com que ficasse gravada em minha mente uma impressão indelével do poder das palavras positivas.

Quando pensamos em nossas palavras, é fácil nos concentrar nas pessoas que gostaríamos de censurar. Felizmente, existem certas frases que quase sempre têm um momento certo de ser proferidas palavras que transmitem amor e incentivo. Aqui estão algumas delas:

 

"Seu trabalho foi excelente."

"Posso orar por você neste momento?"

"Como você realmente está?"

"Suas palavras me ajudaram."

"Eu estava errado(a)."

"Obrigado(a) por me conduzir/servir."

"Eu ofendi você?"

"Gosto da maneira como você _____”.

"Em que posso ser útil?"

"Conte-me sobre seu dia, seu trabalho, seus filhos..."

"Por favor, perdoe-me."

"Deus é tão grande a ponto de "Estou orgulhoso(a) de você."

"Você está se desenvolvendo bem."

"Por favor, venha jantar conosco."

"Senti sua falta."

"Estou muito feliz por você."

"Orei por você hoje." "Deve ter sido muito difícil!" "Aceito com satisfação!"

 

Em resumo, se existem palavras que voei gostaria de ouvir, tenha certeza de que elas também servem para encorajar os outros.


 

TRÊS CARTAS DE TEDDY

Elizabeth Silance Ballarian

Histórias Para o Coração 2 59

 

 

A carta de Teddy chegou hoje, e, agora que já a li, vou guardá-la em meu baú de cedro, com as outras coisas que são importantes para a minha vida.

"Eu queria que a senhora fosse a primeira a saber." Sorri ao ler estas palavras, e meu coração se encheu de um orgulho que eu não deveria sentir.

Não vejo Teddy Stallard há 15 anos, época em que ele foi meu aluno na quinta série. Eu estava no início de carreira e começara a lecionar havia apenas dois anos.

Não gostei de Teddy, desde o primeiro dia que ele entrou em minha classe. Os professores (embora nem todos saibam fazer a diferença) não devem demonstrar preferência por nenhum aluno e, acima de tudo, não devem demonstrar antipatia por uma criança, por qualquer criança.

Contudo, todos os anos aparecem uma ou duas crianças pelas quais não podemos deixar de sentir certa afeição, porque os professores são humanos, e faz parte da natureza humana gostar de pessoas espertas, bonitas e inteligentes, quer tenham dez ou 25 anos de idade. E, às vezes, com pouca freqüência, felizmente, há um ou dois alunos com os quais o professor não consegue ter um bom relacionamento.

Eu me considerava perfeitamente capaz de lidar com meus sentimentos em tais situações, até o dia em que Teddy entrou em minha vida. Naquele ano, não havia nenhum aluno especial do qual eu gostasse; mas Teddy era, certamente, um menino com quem eu não me simpatizava.

Ele era um garoto sujo. Não de vez em quando, mas sempre. Seu cabelo caía por cima das orelhas, e ele precisava afastá-Io dos olhos para conseguir escrever. Naquela época, o cabelo comprido, não era moda! Além disso, seu corpo exalava um odor que nunca consegui identificar.

Sua aparência física era horrível, e seu intelecto deixava muito a desejar. No final da primeira semana, eu já sabia que ele não acompanharia os demais alunos. Além de não acompanhar, era lento demais! Comecei a afastar-me dele imediatamente.

Qualquer professor vai dizer que se sente mais do que satisfeito quando ensina uma criança inteligente. É muito mais compensador para o ego. Porém, qualquer professor que se preze deve canalizar o trabalho para o aluno inteligente, no intuito de estimulá-Io, enquanto dedica maior empenho às crianças mais lentas. Qualquer professor pode fazer isso. A maioria faz, mas eu não fiz. Não naquele ano.

A bem da verdade, concentrei-me em meus melhores alunos e deixei que os outros os acompanhassem dentro do possível. Embora me sinta envergonhada por ter de admitir, eu nutria um perverso prazer em usar a caneta vermelha; e, todas as vezes que eu corrigia as provas de Teddy, as cruzes vermelhas (e havia muitas) eram sempre um pouco maiores e um pouco mais acentuadas do que o necessário.

"Insatisfatório!" - eu escrevia, com letras floreadas.

Apesar de não ridicularizar o garoto, minha atitude era visível aos outros alunos, porque ele passou rapidamente a ser a "ovelha negra" da classe, o excluído: aquele que não era digno de ser amado.

Teddy sabia que eu não gostava dele, mas não sabia por quê. Eu também não sabia - nem naquela época, nem agora - por que sentia tamanha antipatia por ele. Só sei que ninguém gostava dele, e eu não fiz nenhum esforço para mudar essa situação.

Os dias foram passando. Comemoramos o Festival de Outono e o Dia de Ação de Graças, e eu continuava a usar minha caneta vermelha com grande satisfação.

Quando o Natal se aproximou, eu sabia que Teddy não teria condições de se recuperar a tempo de passar para a sexta série. Ele repetiria o ano.

Para justificar-me, eu relia seu currículo escolar, de tempos em tempos. Suas notas haviam sido muito baixas nos quatro primeiros anos, mas ele nunca foi reprovado. Como ele conseguiu essa façanha, eu não sabia. Resolvi concentrar-me nas anotações sobre sua personalidade.

Primeira série: Teddy demonstra ter futuro, em razão de seu trabalho e atitudes; mas o ambiente em seu lar não é bom. Segunda série: Teddy poderia ser melhor aluno. A mãe está doente e em estado terminal. Ele recebe pouca ajuda em casa. Terceira série: Teddy é um menino amável. Prestativo, mas muito sério. Lento para aprender. A mãe morreu no fim do ano. Quarta série: Muito lento, porém bem comportado. O pai não demonstra nenhum interesse pelo filho.

Bem, ele foi aprovado quatro vezes. Mas certamente repetirá a quinta série! Faça alguma coisa por ele! - eu disse a mim mesma.

Chegou o último dia de aula, antes do Natal. Nossa pequenina árvore em cima da mesa de leitura estava enfeitada com papel e pipoca. Havia muitos presentes amontoados embaixo dela, à espera do grande momento.

Os professores sempre recebem vários presentes no Natal, mas, naquele ano, os meus foram em número muito maior e eram muito mais requintados. Não houve um só aluno que não me tivesse trazido um presente. Cada pacote desembrulhado provocava gritos de alegria, seguidos de efusivos agradecimentos àquele que o oferecera.

O presente de Teddy não foi o último que peguei; estava no meio da pilha, acondicionado num saco de papel marrom, enfeitado com desenhos de árvores de Natal e sinos vermelhos, feitos por ele mesmo.

A boca do saco estava amarrada com fita adesiva invisível.

"Para a Srta. Thompson, de Teddy" - ele havia escrito.

Um completo silêncio abateu-se sobre o grupo, e, pela primeira vez, eu me senti observada e constrangida, porque todos estavam aguardando que eu abrisse o presente.

Quando retirei o último pedaço da fita adesiva, dois objetos caíram em minha mesa: um vistoso bracelete imitando jóia, no qual faltavam várias pedras, e um pequeno frasco de colônia barata - pela metade. Ouvi as risadinhas e os cochichos, e eu não tinha certeza se poderia olhar para Teddy.

- Não é lindo? - perguntei, colocando o bracelete no pulso. Teddy, você poderia ajudar-me a fechá-Io?

Ele sorriu com timidez, enquanto prendia o fecho, e eu levantei o braço para que todos admirassem o bracelete.

Ouvi alguns "ooohs" e "aaahs" hesitantes; mas, quando coloquei uma gota da colônia atrás da orelha, todas as meninas se enfileiraram para receber uma gota também.

Continuei a abrir os presentes, até chegar ao último da pilha.

Comemos alguns petiscos, e a sineta tocou.

As crianças se despediram com gritos de "Até o ano que vem!" e "Feliz Natal". Mas Teddy continuou sentado em sua carteira.

Depois que todos saíram, ele caminhou em minha direção, segurando firme contra o peito os livros e o presente que ganhou.

- A senhora é parecida com minha mãe - ele disse mansamente. O bracelete dela também fica muito bonito no pulso da senhora. Que bom que a senhora gostou! . Após essas palavras, ele saiu rapidamente. Tranquei a porta, sentei-me diante de minha mesa e chorei, resolvida agora, a oferecer a Teddy tudo o que eu, deliberadamente, lhe negara o carinho de uma professora.

Depois dos feriados de Natal, passei todas as tardes com Teddy, até o último dia de aula. Às vezes, trabalhávamos juntos. Outras, ele trabalhava sozinho, enquanto eu preparava as aulas ou as provas.

Lentamente, mas com determinação, ele alcançou o restante da classe. Na verdade, suas médias finais ficaram entre as mais altas da classe. Apesar de saber que Teddy se mudaria para outro Estado quando as aulas terminassem, eu não sentia preocupação em relação a ele. Teddy havia atingido um estágio que o levaria a manter um bom nível no ano seguinte, em qualquer colégio que estudasse. Ele havia desfrutado uma boa dose de sucesso, e, conforme aprendemos no curso de magistério, "o sucesso consolida o sucesso".

Só recebi notícias de Teddy 7 anos depois, quando encontrei sua primeira carta em minha caixa de correio.

 

Prezada Srta. Thompson, Eu queria que a Senhora fosse a primeira a saber. Vou receber o diploma como segundo aluno da classe, no próximo mês.

Cordialmente, Teddy Stallard

 

Enviei-lhe um cartão de congratulações e um pequeno presente: um conjunto de caneta e lápis. Eu gostaria de saber o que ele faria após receber o diploma.

 

Quatro anos depois, chegou a segunda carta de Teddy.

 

Prezada Srta. Thompson, Eu queria que a senhora fosse a primeira a saber. Fui informado de que vou receber o diploma como primeiro aluno da classe. O curso na faculdade não foi fácil, mas eu gostei. - Cordialmente, Teddy Stallard

 

Enviei-lhe um belo par de abotoaduras de prata, com suas iniciais, acompanhado de um cartão. Estava tão orgulhosa dele que parecia que ia explodir!

E hoje... chegou a terceira carta de Teddy.

 

Prezada Srta. Thompson, Eu queria que a senhora fosse a primeira a saber. A partir de hoje, sou o médico, Dr. Theodore Stallard. Que ta!!!??

Vou me casar em julho. No dia 27, para ser mais exato. Eu gostaria que a senhora comparecesse e se sentasse no lugar onde minha mãe se sentaria. Não tenho mais família, porque meu pai morreu no ano passado.

Cordialmente, Teddy Stallard

 

Não sei ao certo que tipo de presente se deve enviar a um médico, quando efe conclui a faculdade de medicina. Talvez seja melhor aguardar e levar um presente de casamento. Mas a carta não pode esperar.

 

Prezado Ted, Parabéns! Você conseguiu, e conseguiu com o próprio esforço! Apesar de pessoas como eu, e não por minha causa, o seu dia chegou.

Deus o abençoe. Estarei presente ao casamento quando os sinos estiverem tocando!


 

DAR E RECEBER

Billie Davis

Histórias Para o Coração 2 66

 

 

Uma professora da rede pública de ensino deixou claras para mim as ideias complexas a respeito de dar e receber.

Evidentemente, ela notou alguma coisa sobre a maneira como eu segurava o livro na aula de leitura e concluiu que eu deveria fazer um exame de vista. Ela não me enviou a uma clínica; levou-me a seu oftalmologista, não para fazer-me caridade, mas como uma amiga.

Fiquei tão intrigada com os exames que não me dei conta exatamente do que havia acontecido, até o dia em que ela me entregou os óculos, na escola.

- Não posso ficar com eles. Não tenho dinheiro para pagar - eu disse, constrangida, diante da pobreza de minha família.

Ela me contou uma história:

- Quando eu era criança, uma vizinha comprou óculos para mim.

Ela disse que eu deveria pagar por eles, no dia em que eu comprasse óculos para outra menina. Portanto, veja só. Os óculos foram pagos antes de você nascer.

Em seguida, a professora me disse as palavras mais agradáveis que já ouvi:

- Algum dia, você vai comprar óculos para outra menina.

Ela viu em mim alguém que faria isso. Tornou-me responsável.

Acreditou que eu teria algo a oferecer a outra pessoa. Aceitou-me como membro do mesmo mundo em que ela vivia. Saí daquela sala, segurando firme os óculos, não como alguém que recebeu uma caridade, mas como uma mensageira confiável.


 

O PROFESSOR DAN

PAMELA REEVE

Histórias Para o Coração 2 67

 

 

Oi, professor Dan! - disse, em coro, a classe lotada de alunos da pré-escola.

Dan tem a aparência de um avô, com seus cabelos grisalhos, um grande sorriso no rosto e olhos azuis que revelam um caráter bondoso.

Ele sorri e cumprimenta as crianças. Duas vezes por semana, ele faz uma breve visita àquela escola, antes de se dirigir a outra sala de aula.

Ele passa pela garagem transformada em pré-escola, entra na casa e segue até o hall. Pára diante de uma porta aberta. É uma classe sem quadro-negro e sem quadro de avisos. Não existem fileiras de carteiras nem sineta. É um quarto extra da casa, onde há uma mesa grande para computador, um computador novo, duas cadeiras e um sofá.

Seu aluno, Jason, está sentado diante do computador. Os cabelos ondulados e escuros se agitam de um lado para o outro enquanto Jason acompanha com o corpo os movimentos do seu cantor de rock favorito. Longos dedos tocam um piano imaginário enquanto ele ouve a música.

Dan aguarda.

Jason é um menino puro. Muitas pessoas diriam que a vida não foi justa com ele; Jason passou parte de seus 18 anos sofrendo de convulsões. Quando ele chegou à puberdade, as convulsões aumentaram tanto, em frequência e intensidade, que ele precisou passar a receber aulas em casa. Sua fala é lenta e moderada. Os passos são trôpegos. Sua capacidade de transformar pensamentos em palavras é demorada por causa do problema que afeta seu cérebro.

Dan, um professor aposentado, com especialidade em ensino para excepcionais, passa dois dias por semana lecionando para Jason, que acaba de iniciar seus estudos no curso médio, e é mais alto que seu professor, que mede 1,80m. O formato quadrado do rosto de Jason confere-lhe uma fisionomia bonita. Ele gosta de provocar os outros e adora fazer brincadeiras. Também possui perfeito entendimento do que é certo e errado, e sua fé em Deus é firme.

Os movimentos de Jason são um tanto desencontrados quando ele se vira para ver Dan. Ambos têm esperança de que Jason não terá nenhuma convulsão durante os 90 minutos de aula.

Com voz grave e tranquila, ele cumprimenta o professor.

- Oi, D-an.

- Como você está hoje? - Dan pergunta.

- Ó-timo. Sen-ti a su-a fal-ta outro di-a. Que b-om que vo-cê já sa-rou.

- Eu preferia ter vindo a ficar em casa cuidando de uma gripe.

- A gri-pe é ter-rí-vel.

- Ótimo, Jason. Estou gostando de ver você usar palavras novas.

Acho que "terrível" é uma de suas prediletas, não?

Jason sorriu. - Eu gos-to de ter-rí-vel.

- Bem, podemos começar?

Como qualquer outro adolescente faria, Jason protela um pouco.

- Vo-cê sa-bia que não es-tão mais fa-zen-do ba-na-nas?

- Por que, Jason? Por que não estão mais fazendo bananas?

Jason ri e bate na mesa com a palma da mão. - Por-que nin-guém faz ba-na-nas. E-las nas-cem na ba-na-nei-ra.

Ele pega sua pequena toalha e enxuga a boca. Seus olhos brilham ao ver q~ Dan gosta da brincadeira.

- Esta foi boa, Jason. Eu caí mais uma vez.

Dan sentiu-se muito orgulhoso por Jason ser capaz de fazer esse tipo de brincadeira, fazendo sempre a pergunta certa.

Depois de conversar sobre os acontecimentos recentes, Jason deve escrever três frases sobre o que eles falaram. O tempo passa... cinco minutos... dez... Nada acontece.

Dan aguarda.

Olhando para a cabeça curvada de Jason, ele diz:

- Jason, você está pensando no que deseja escrever?

Ele não responde. Olha para o teclado. Lentamente, começa a digitar uma palavra. Depois de 25 minutos, ele consegue digitar três frases. Gramaticalmente, elas não são frases completas - apenas frases de cinco a dez palavras.

Dan ouve Jason ler as frases em voz alta. Ambos conversam sobre as modificações que podem ser feitas. Jason não gosta de cometer erros. Ele tenta, de todas as maneiras, ser perfeito. Sua mente é ágil.

O problema é transformar os pensamentos em palavras. Apenas uma palavra está correta. Eles fazem uma pausa de cinco minutos. O dia está indo bem.

- Vamos olhar seu dever de casa.

- De-ver de ca-sa é ter-rí-vel!

- Acho que você aprendeu bem essa palavra.

Depois das lições, Jason escolhe um jogo educativo, no computador, para desafiar Dan. Novamente, Jason vence.

- D-an, faz qua-se dois a-nos que vo-cê é meu pro-fes-sor.

Isso é muito significativo para Jason. Dan tem levado solidariedade à vida de Jason - algo de que ele necessitava após ter tido quatro professores em um só ano.

Os 90 minutos terminaram. Dan pergunta:

- Qual é o seu dever de casa para quinta-feira?

- Ter-rí-vel ma-te-má-ti-ca - ele responde.

Os dois riem. Dan pega sua maleta, e Jason o acompanha até a porta.

- Até quinta-feira.

- A-deus, Dan.

Jason permanece em pé, na porta, e acena. Ele aprecia o tempo que passou com Dan, porque é tratado com dignidade e respeito.

--Dan coloca a maleta no banco traseiro do carro. Quando ele se vira, Jason está vindo em sua direção. A garoa fina molha sua camiseta.

- Jason, tome cuidado - adverte Dan, falando com calma. Devagar! Cuidado para não cair!

Jason acabou de se recuperar de uma cirurgia na mandíbula resultado de uma queda.

Jason continua a andar, e Dan vai ao encontro dele.

O rapaz aproxima-se de Dan e dá-lhe um enorme abraço. Jason nunca havia demonstrado esse tipo de sentimento. Dan retribui o abraço e o conduz carinhosamente de volta a casa. Enquanto caminha em direção ao carro, Dan ouve:

- Eu a-mo vo-cê, D-na. O professor Dan afasta-se dali. Lágrimas umedecem os cantos de seus olhos. Se Jason tivesse sido seu único aluno, já teria valido a pena ser professor.


 

O RESTAURADOR

Ruth Reli Graham

Histórias Para o Coração 2 71

 

 

Ele construiu uma casa imponente para si mesmo, numa das ilhas do Caribe. É uma casa digna de ser contemplada, com vistosas colunas de ferro com sinais de ferrugem, restauradas por meio de uma engenhoca doméstica. A Casa Imponente é uma obra-prima feita com sucata.

Além de ser colecionador e vendedor de sobras de metal e de antiguidades, ele também é um homem fascinado por objetos de louça quebrados, escavados do jardim de sua casa. Seus amigos, John e June Cash, comentaram, sorrindo, que foi a primeira vez que ouviram falar de uma venda feita no jardim, em que o homem vendeu o próprio jardim. Ele ajuntou cuidadosamente os cacos e os colou. Poucos deles conseguiram formar uma peça inteira. Eles simplesmente continuam a fazer parte da coleção de alguém que se preocupa em ajuntá-Ios.

Quando manifestei interesse, ele me ofereceu um prato azul e branco, colado com muito cuidado - faltando alguns pedaços.

- Você me faz lembrar Deus - eu disse.

Pela expressão de seu rosto, percebi que o havia chocado, e apressei-me em explicar:

- Deus cola carinhosamente os cacos da vida. Às vezes, um deles se perde irremediavelmente. Mesmo assim, Deus ajunta os que Ele pode e nos restaura.


 

VISÃO DE LONGO ALCANCE

Howard Hendricks

Histórias Para o Coração 2 72

 

 

Quando eu era menino, gostava de andar a esmo pelo parque perto de casa e observar alguns homens idosos jogando damas.

Certo dia, um deles convidou-me para jogar. A princípio, o jogo parecia fácil. "Comi" uma peça dele e, depois, outra. De repente, ele pegou uma peça e foi saltando várias outras pelo tabuleiro, até chegar ao lado oposto, e gritou:

- Fiz uma dama!

Após dizer isso, ele "comeu" todas as minhas peças.

Naquele dia, aprendi o que significa visão de longo alcance.

Ninguém se importa em perder algumas peças se estiver com os olhos fixos no lado oposto do tabuleiro, ou seja, no território da dama.


 

O CASACO VERMELHO

Melody Carlson

Histórias Para o Coração 2 73

 

 

Era um dia frio e ventava muito. O outono chegava ao fim, tendo o inverno em seu encalço. Ela foi buscar Abby na escola, e ambas pegaram o ônibus rumo ao centro da cidade. Abby usava um casaco que pertencera à sua prima, Linda Sue. Estava em boas condições de uso, com a gola de pele de coelho um pouco surrada. As duas saltaram do ônibus, e ela segurou a mão de Abby, para chegarem ao outro lado da rua. O vento revolveu uma folha de jornal e atravessou seu ralo casaco marrom - o mesmo casaco que ela comprara pouco antes da guerra. A moda havia mudado, desde então, e as barras subiam e desciam, como se fossem um elevador. Agora, pouco havia sobrado do casaco para ser alterado de acordo com a moda, e sua saia aparecia por baixo dele, como se fosse franzida.

John voltou para casa em setembro, e o único emprego que conseguiu foi o de vigia no hospital. Ele esperava começar a estudar à noite, em janeiro; o estudo parecia ser a porta de entrada para um emprego melhor. Ultimamente, ele havia poupado algum dinheiro e, naquela manhã, lhe entregou 12 dólares, dizendo:

- Vá até a loja Harricks e compre um bom casaco de inverno para você.

Ela aceitou o dinheiro, imaginando que seria muito difícil encontrar um casaco por 12 dólares. Sabia que as intenções dele eram boas, mas teria sido bem melhor se o dinheiro ficasse guardado debaixo do colchão, para acudi-Ios em tempos de necessidade. O Senhor sabia que eles teriam muitos desses dias pela frente.

Ela e Abby entraram na Harricks e, de repente, ela se lembrou de que costumava fazer compras ali com sua mãe, quando o dinheiro era farto, antes de casar-se com John, contra a vontade da família. Agora, a loja parecia um local estranho, e ela se sentia uma intrusa.

- Posso ajudá-la? - perguntou uma mulher de formas arredondadas, que esticava um par de luvas sobre o balcão.

- Não, obrigada. Eu só queria dar uma olhada.

De nada adiantaria contar que estava à procura de um casaco, tendo apenas 12 dólares na bolsa. A mulher poderia achar graça.

Ela atravessou a loja, fingindo olhar muitas coisas bonitas. Abby apontou para um vestido de baile azul-pavão e disse:

- Aquele vestido ficaria lindo em você, mamãe.

Ela acariciou os cabelos lisos e castanhos da filha, da mesma cor que os seus, e sorriu. Finalmente, chegaram aos fundos da loja, e ela deu meia-volta, pronta para desistir, sentindo um alívio misturado com desapontamento. Em um dos cantos, porém, havia um cavalete com vários artigos pendurados e uma tabuleta onde se lia: Liquidação.

Ela olhou para o cavalete, e uma peça vermelha lhe chamou a atenção.

Era um casaco de lã em um lindo tom vermelho, ou melhor, vermelho-escuro. Ela retirou o cabide do cavalete e procurou o preço na etiqueta. Apesar de ser artigo de liquidação, deveria custar muito caro.

- Mamãe, a etiqueta diz que ele custa 12 dólares! - disse Abby, com alegria, segurando a manga onde havia uma etiqueta amarela. Você pode comprar este casaco, mamãe. Veja só o preço!

- Ora, acho que ele está com a etiqueta errada. É muito bonito.

Deve ter havido algum engano.

- Experimente, mamãe. Veja se serve - disse Abby, puxando a manga do velho casaco dela.

- Acho que o manequim não é o meu.

Em seguida, ela tirou o casaco velho e vestiu o vermelho. Não sabia explicar por que razão, mas o casaco tinha a textura de mel. Era maravilhoso.

- Serviu, mamãe. E é lindo. Você parece uma princesa.

Abby puxou-a em direção ao espelho. Parecia um artigo fino, provavelmente fino demais. E talvez aquele tom vermelho, apesar de ser lindo, fosse muito berrante para uma mulher de quase 30 anos.

Ela pendurou o casaco de volta no cabide e afastou-se um pouco, para examiná-lo novamente. Era um modelo bonito, com casas bem-acabadas e botões grandes de madrepérola. A textura de mel era resultado do forro macio e resistente de cetim.

- Você vai comprar o casaco, mamãe?

- Ah, não sei, Abby. Acho que deve haver algum engano. Este casaco é muito bem-feito. O preço marcado na etiqueta deve estar errado. Casacos como este não ficam pendurados no setor de liquidação, principalmente no mês de novembro.

- A etiqueta diz que ele custa 12 dólares e deve estar certa. - Abby cruzou os braços e bateu os pés no chão com impaciência. - Papai disse que você deveria comprar um casaco. É melhor você comprar este aqui.

Ela sorriu para Abby, colocou o casaco no braço e dirigiu-se ao balcão, onde uma senhora idosa estava sendo atendida. A vendedora colocou cuidadosamente dentro de uma caixa um chapéu de feltro marrom com uma longa pena preta e registrou o preço na máquina. A gaveta abriu-se automaticamente.

- São 32 dólares - disse a vendedora.

A senhora preencheu o cheque em um piscar de olhos. Pegou a caixa e despediu-se da vendedora.

- Posso ajudá-la? - perguntou a vendedora gentilmente, com as mãos estendidas na expectativa de pegar o casaco.

- Não, eu... eu acho que vou dar mais uma olhada.

Ela se afastou e examinou mais uma vez o casaco. O preço na etiqueta devia estar errado. Se um chapéu sem graça valia 32 dólares, como o casaco poderia custar só 12?

- O que você está fazendo, mamãe? - queixou-se Abby, acompanhando-a de volta ao setor de liquidações.

- Querida, eu sei que houve um engano. Não se pode comprar um casaco como este por 12 dólares. Não há razão nem para perguntar.

Nós ficaríamos com cara de bobas.

- Mas a etiqueta diz...

- Silêncio, querida, não faça uma cena aqui.

Ela olhou ao redor. Agora, havia várias compradoras por perto. Ela reconheceu Lily Andrews, uma senhora da igreja. Estava morando havia pouco tempo na cidade, e seu marido era médico. A Sra. Andrews sorriu para elas e caminhou em direção ao cavalete. Parecia estranho que uma pessoa tão abastada demonstrasse interesse por artigos em liquidação. A Sra. Andrews parou perto do casaco vermelho e tirou-o do cavalete.

- Posso ajudá-la? - perguntou a vendedora.

- Que casaco lindo! E custa só 12 dólares?

- Exatamente. É do ano passado. Alguém o devolveu em julho, acredite se quiser. Uma mulher o guardou durante o inverno inteiro e nunca o usou. Nem chegou a tirar a etiqueta. O proprietário da loja quis ficar livre deste casaco porque ele saiu de moda. O preço é uma pechincha...

Ela não quis ouvir mais nada. Pegou Abby pela mão e a conduziu para fora.

- Mas mamãe, aquele casaco é seu...

- Silêncio, querida...

As lágrimas fizeram seus olhos arder por causa do vento frio que soprava lá fora. Ainda era cedo para que o ônibus retornasse, mas elas o aguardaram sentadas no banco do ponto do ônibus, encostando-se uma na outra para se aquecerem.

- Por que você não comprou o casaco, mamãe? - A voz de Abby era triste.

- Eu não sei, querida...

Como dizer à filha que ela havia sido uma tola? Além de tola, orgulhosa demais para perguntar. Como explicar a John que sua filha de oito anos tinha mais percepção do que ela própria? Ela tremia de frio. Merecia passar outro inverno com aquele casaco velho e surrado. Serviria de lição para ela!

- Com licença - disse alguém.

Ela ergueu a cabeça e viu Lily Andrews. - Pois não.

- Sei que isto vai parecer muito estranho. E, creia-me, não costumo fazer coisas como esta. Mas senti um forte impulso de dar isto a você.

Não tenho ideia do motivo... - disse ela entregando-lhe uma sacola.

- Eu não estou entendendo...

- Nem eu. Mas foi como se Deus me tivesse pedido para fazer isto.

Sei que é muito estranho, e você vai pensar que sou louca... - É estranho mesmo. - Ela olhou dentro da sacola. - Eu quase comprei este casaco alguns minutos atrás. Por favor, quero pagar por ele. - Ela pegou a bolsa para abri-la.

- Não, por favor. Senti a necessidade de dar este casaco a você.

Não quero que me pague. Sinto muito. Devo estar parecendo uma louca...

O rosto da Sra. Andrews estava vermelho e havia lágrimas em seus olhos.

- Mas eu não posso ficar com ele. Parece um ato de caridade.

- Não, não é um ato de caridade. Dê o dinheiro a alguém que esteja necessitando, se você quiser. Só sei que devo dar este casaco a você.

Sinto muito se estou parecendo maluca. Talvez eu me sinta muito sozinha, mas é a primeira vez que ouvi Deus me dizer para eu fazer alguma coisa. Você precisa aceitar. Pense no casaco como se fosse um presente de Deus. Como a fé.

Esta história aconteceu quatro décadas atrás. Ela usou o casaco durante muitos invernos. Ele ficou tão fora de moda que até Abby pediu que ela o deixasse de lado. Mas ela nunca quis desfazer-se dele. Ficou guardado em um baú durante muitos anos, e ela só se lembrou dele na semana anterior, quando o Dr. Andrews morreu. Ela queria fazer alguma coisa especial por sua amiga Lily. Agora, estava, cuidadosamente, cortando retalhos para fazer uma manta para sua boa amiga colocar em cima das pernas. Esperava que a manta a aquecesse e servisse para lembrá-Ia de que a fé pode ser encontrada nas pequenas coisas, como, por exemplo, casacos de lã vermelhos e amizades que atravessam anos.

 

 

 

As cores dos quadrados e triângulos da manta estão amontoadas sobre o seu colo, como se fossem joias. Retalhos amarelos da cor de ouro, verdes e vermelhos. Ela passa a mão sobre uma pilha de retalhos de lã

vermelho-escuros e sorri. Esta é exatamente a cor da fé.

 


 

A JOVEM VIÚVA

Alice Gray

Histórias Para o Coração 2 78

 

 

Seu marido morreu em um acidente, e ela ficou sozinha com dois filhos pequenos para criar. No início, foi cercada de amigas preocupadas e solidárias. Elas lhe traziam refeições, enviavam cartões, telefonavam, oravam. Então, as semanas se transformaram em meses, e, agora, parecia que o mundo inteiro havia esquecido o que tinha acontecido. Ela ansiava por ouvir o nome do marido ser mencionado nas conversas, ansiava por conversar sobre seus passos largos durante as caminhadas, sobre a vivacidade de seu riso fácil e o calor de suas mãos fortes entre as dela. Ela queria que os vizinhos viessem até sua casa pedir emprestadas as ferramentas dele, ou que algum rapaz mais velho fosse jogar basquete com seus filhos.

Era o início da manhã do primeiro aniversário da morte do marido.

O orvalho ainda estava úmido sobre a relva quando ela atravessou o gramado do cemitério. De repente, ela avistou alguma coisa perto do túmulo dele. Alguém havia estado lá antes dela, e deixou ali um pequeno buquê de flores recém-colhidas, amarradas com uma fita.

Um ato de gentileza e carinho que tocou seu coração solitário como se fosse um terno abraço. Com lágrimas correndo pelo rosto, ela leu o bilhete sem assinatura. As palavras diziam simplesmente: "Eu também me lembrei."


 

A HISTÓRIA DE MICHAEL COMEÇA

AOS SEIS ANOS DE IDADE

Charlotte Elmore

Histórias Para o Coração 2 79

 

 

Desesperada, perguntei se ele poderia ser submetido a um novo teste. Ela meneou a cabeça e disse não. Na tentativa de mostrar quanto Michael era "normal", comecei a contar a ela todas as coisas que meu filho sabia fazer bem. Ela, porém, não deu atenção aos meus comentários e levantou-se, dispensando-me.

- Michael vai ficar bem - ela disse.

No final daquele mesmo dia, depois que Michael e Linda, sua irmãzinha de três anos, estavam dormindo, contei a Frank, entre lágrimas, o que ficara sabendo. Depois de discutirmos o assunto, concordamos que nosso filho estava acima de um teste de QI.

Concluímos que a fraca pontuação de Michael no teste devia ter sido um engano.

Da mesma forma que eu, Frank não podia acreditar que nosso filho fosse "quase retardado". Ele me contou algumas coisas que Michael tinha feito recentemente que provavam que nosso filho era inteligente... Frank disse que, certa noite, Michael demonstrou interesse nas plantas de engenharia que ele estava projetando. Frank pegou alguns blocos para fazer casinhas de brinquedo e desenhou duas plantas bidimensionais. Em seguida, ele pediu a Michael que separasse os blocos próprios para cada desenho. Frank disse que ficou satisfeito ao ver a facilidade com que nosso filho conseguiu separar os blocos e montar casinhas com base nos diagramas que acompanhavam o brinquedo.

Em 1962, mudamo-nos para Fort Wayne, Indiana, e Michael ingressou no Colégio Luterano Concórdia. Suas notas garantiram-lhe vaga nos cursos preparatórios para a faculdade, que incluíam Biologia, Latim e Álgebra. Quando nosso filho estava na primeira série, fomos informados de que ele jamais seria capaz de aprender álgebra. Biologia passou a ser sua matéria preferida. Ele começou a contar a todos que iria ser médico.

Michael ingressou na Universidade de Indiana, em Bloomington, em 1965, como aluno do curso pré-médico. No meio do ano, após ter obtido uma média de 3,47, ele conseguiu fazer parte da lista do reitor, e o conselheiro do corpo docente lhe concedeu permissão especial para assistir a um número de aulas maior que o recomendado.

Michael conquistou os créditos necessários para ser aceito na Escola de Medicina da Universidade de Indiana, em Indianápolis, no final daquele ano.

Durante seu primeiro ano na Faculdade de Medicina, Michael foi submetido a um novo teste de QI e alcançou 126 pontos, ou seja, 36 pontos a mais do que ele alcançara no teste anterior, um nível aparentemente inatingível para ele.

No dia da formatura - 21 de maio de 1972 -, Frank, Linda e eu comparecemos à cerimônia e abraçamos nosso Dr. Mike! Depois de encerrada a solenidade, contamos a Michael e a Linda sobre o baixo número de pontos atingido por Michael, quando ele foi submetido a um teste de QI, aos seis anos de idade, e o que havíamos planejado fazer. A princípio, os dois pensaram que estivéssemos brincando. A partir daquele dia, Michael, às vezes, olha para nós e diz com um largo sorriso:

- Meus pais nunca me contaram que eu não poderia ser médico...

Isto é, só me contaram depois que recebi o diploma na Faculdade de Medicina!

Esta é a maneira de nosso filho nos agradecer a fé que depositamos nele.

Costuma-se dizer que, no decorrer da vida, as crianças tornam-se naquilo que os adultos esperam delas. Se você chamar uma criança de "idiota", talvez ela passe a representar esse papel. De vez em quando, nós nos perguntamos o que teria acontecido se tivéssemos tratado Michael como uma criança "quase retardada", impondo limites aos seus sonhos.


 

MAIS UMA CHANCE

H. Stephen Glenn e Jane Nelsen

Histórias Para o Coração 2 81

 

 

Jonas Salk, o grande cientista descobridor da vacina contra a poliomielite, compreendeu o conceito de ser corajoso. Certa vez, alguém lhe perguntou:

- Depois de ter conseguido esta façanha extraordinária, que pôs fim à palavra poliomielite em nosso vocabulário, como o senhor encara seus 200 fracassos anteriores?

Sua resposta (parafraseada) foi:

- Eu nunca tive 200 fracassos na vida. Minha família nunca os considerou fracassos. Eles serviram de experiência para que eu pudesse aprender mais. Acabo de realizar minha 201ª descoberta.

Ela não teria sido possível se eu não tivesse aprendido com as 200 experiências anteriores.

Winston Churchill também foi um homem de coragem. Ele não se intimidava diante de seus erros. Quando cometia um, ele o analisava cuidadosamente. Alguém lhe perguntou:

- Sir Winston, qual foi a sua experiência na escola que melhor preparou-o para liderar a Grã-Bretanha nas horas mais sombrias?

Winston pensou por alguns instantes e respondeu:

- Quando fui repetente no curso médio.

- O senhor considerou isso um fracasso?

- Não - replicou Winston. - Tive duas oportunidades para acertar.


 

CHEGAR JUNTO

Stu Weber

Histórias Para o Coração 2 82

 

 

Corríamos todos os dias; mas aquela corrida foi especial.

Estávamos transpirando desde o momento em que saímos da cama, antes do amanhecer, mas agora o suor gotejava por todos os poros de nossos corpos. Evidentemente, tratava-se de um treinamento físico na escola de soldados da tropa de choque do exército norte-americano, e esperávamos que o esforço fosse enorme. Até mesmo que chegasse à exaustão. Mas, naquela manhã, não estávamos correndo de camiseta.

Estávamos correndo com a farda completa. Como de costume, a palavra de ordem era: "Saiam juntos, corram juntos, trabalhem juntos e cheguem juntos. Se vocês não chegarem juntos, nem precisam se preocupar em chegar!" Em algum lugar, ao longo da corrida, em meio ao esforço, à sede e ao cansaço, meu cérebro registrou alguma coisa estranha em nossa formação. Notei que, duas fileiras adiante de mim, um soldado corria fora do compasso.

Ele era um rapaz grandalhão, ossudo e ruivo, chamado Sanderson.

Suas pernas movimentavam-se com rapidez, mas suas passadas estavam desencontradas das nossas. De repente, a cabeça dele começou a pender para um lado e para o outro. O rapaz estava se esforçando demais. Quase a ponto de perder o equilíbrio.

Sem perder o passo, o soldado à direita de Sanderson esticou o braço e pegou o rifle do companheiro exausto. Agora, um dos soldados estava carregando dois rifles nas costas. O dele e o de Sanderson. O grandalhão ruivo conseguiu correr mais um pouco.

Mas, enquanto o pelotão continuava a avançar, a mandíbula do rapaz arriou, seus olhos ficaram vidrados e as pernas movimentavam-se como pistons. Em seguida, sua cabeça começou a pender novamente.

Desta vez, o soldado à sua esquerda esticou o braço, retirou o capacete de Sanderson, colocou-o debaixo do braço e continuou a correr. O pelotão prosseguiu. Nossas botas batiam na trilha de terra com som cadenciado. Toc-toc-toc-toc-toc-toc.

Sanderson estava passando mal. Muito mal. Estava arqueado, prestes a cair. Mas não caiu. Dois soldados atrás dele levantaram a mochila de suas costas, e cada um segurou uma alça com a mão livre.

Sanderson reuniu as forças que ainda lhe restavam. Endireitou os ombros. E o pelotão continuou a correr. Sempre em frente, até a linha de chegada.

Saímos juntos. Retomamos juntos. E todos nós nos fortalecemos com ISSO.

Chegar junto é melhor.


 

PRIORIDADES

Tony Campolo

Histórias Para o Coração 2 84

 

 

Quando eu era garoto, conheci um homem que, para mim, parecia ser maior que a vida. Seu nome era Edwin E. Bailey.

Ele dirigia o observatório astronômico do Instituto Franklin, da Filadélfia. Eu ia ao Instituto Franklin quase todos os sábados, só para passar um pouco de tempo com ele. Sua mente enciclopédica fascinava-me. Ele parecia conhecer um pouco de tudo.

Minha amizade com Ed Bailey durou até o dia em que ele morreu, vários anos atrás. Fui visitá-lo quando ele esteve internado no hospital, após ter sofrido um grave derrame cerebral. Na tentativa de conversar sobre algumas amenidades, comecei a falar dos lugares em que fiz palestras e contei que viera direto do aeroporto pra- visitá-lo.

Ele me ouviu atentamente e, em seguida, disse-me de maneira um tanto sarcástica:

- Você viaja pelo mundo inteiro para atender pessoas que, daqui a dez anos, não se lembrarão de seu nome. Mas não reserva tempo para as pessoas que realmente se importam com você.

Aquelas palavras simples me atingiram em cheio e mudaram minha vida. Decidi, a partir de então, não permitir que meu tempo fosse gasto com pessoas para quem eu não fizesse diferença, enquanto negligenciava aquelas para quem eu era insubstituível.  Recentemente, um amigo meu recebeu um telefonema da Casa Branca, convidando-o a falar com o presidente dos Estados Unidos.

Ele recusou, porque prometera passar aquele dia com sua netinha na praia. O país sobreviveu sem ele, o presidente não sentiu sua falta, e sua netinha passou momentos preciosos com o vovô.

As prioridades sempre devem ser respeitadas.


 

POR QUE SOU UMA MÃE ESPORTISTA

Judy Bodmer

Histórias Para o Coração 2 91

 

 

Hoje é um sábado do mês de maio. Eu poderia estar em casa, acomodada no sofá, assistindo a um bom filme de mistério. No entanto, estou sentada em um banco frio de metal, na arquibancada de um campo de beisebol. Um vento gelado atravessa minha jaqueta de inverno. Sopro as mãos para aquecê-Ias, arrependida de não ter trazido minhas luvas de lã.

- Sra. Bodmer! - É a voz do treinador de meu filho. - Pensei que a senhora gostaria de saber. Seu filho vai começar a jogar, hoje, no campo da direita. Ele esforçou-se muito este ano. Achamos que merece a oportunidade.

- Obrigada - eu digo, orgulhosa de meu filho, que deu o máximo de si a esse homem e a esse time. Sei quanto ele queria começar a jogar. Estou feliz porque seu esforço está sendo recompensado.

De repente, sinto-me nervosa por ele. Vou até a lanchonete e peço um chocolate quente. De volta ao meu lugar, seguro o copo entre as mãos, deixando que a fumaça aqueça meu rosto.

Trajando uniforme branco com listras azuis, o time entra em campo. Todos os jogadores são mais ou menos parecidos. Procuro o número da camisa de meu filho. Ele não está ali. É Eddie quem está no campo da direita. Procuro mais uma vez, sem acreditar. Sim, é Eddie, o jogador mais inexperiente do time. Como pode ser? Olho para o treinador, mas ele está concentrado no jogo. Quero correr até lá e perguntar o que houve, mas sei que meu filho não gostaria desta minha atitude. Aprendi, ao longo dos últimos oito anos, como as mães devem comportar-se. E conversar com o treinador, durante o jogo, é definitivamente inaceitável.

Meu filho está agarrado à cerca que protege o banco das bolas desviadas e grita palavras de incentivo a seus companheiros. Tento adivinhar seus pensamentos, mas sei que ele aprendeu, como a maioria dos homens, a esconder seus sentimentos.

Sinto o coração despedaçado. Tanto esforço, tanto desapontamento.

Não compreendo o que leva os garotos a passarem por situações como esta.

- É isso aí, Eddie - grita alguém por perto. É o pai de Eddie. Posso vê-Io sorrindo, orgulhoso do filho. Movimento a cabeça de um lado para o outro, porque já vi o mesmo homem sair da arquibancada quando seu filho deixou cair uma bola ou fez um arremesso errado.

Mas, por enquanto, ele parece orgulhoso. Seu filho está em campo. O meu está sentado no banco.

Quando chega o quarto turno, sinto os dedos da mão enrijecidos por causa do frio, e os pés amortecidos, mas não me importo. Meu filho está sendo chamado para jogar como rebatedor. Olho para o banco de reservas. Ele se levanta, pega alguns capacetes e escolhe um. Por favor, eu oro, permite que ele consiga dar uma rebatida indefensável.

Ele pega um bastão e se posiciona no campo. Eu me agarro ao banco de metal enquanto ele se aquece, coloca as luvas e se dirige ao quadrilátero onde o rebatedor deve ficar. O arremessador tem a aparência de um homem adulto. Eu me pergunto se alguém conferiu sua certidão de nascimento.

Primeiro ponto para o adversário.

- Faça uma boa impulsão! - eu grito.

A bola vai ser arremessada.

- Fique atento! Fique atento!

Segundo ponto para o adversário.

O arremessador prepara-se para lançar a bola. Prendo a respiração.

Terceiro ponto para o adversário.

Meu filho abaixa a cabeça e se dirige lentamente para o banco de reservas. Desvio o olhar, sabendo que não há nada que eu possa fazer.

Faz oito anos que me sento aqui. Já tomei litros e litros de um café de gosto horrível, comi minha quota de cachorros-quentes feitos às pressas e pipocas salgadas demais. Já sofri por causa do frio e do calor, engoli poeira e fiquei debaixo de chuva.

Há quem se pergunte por que uma pessoa sensata passaria por tudo isso. Não é porque desejo realizar meus sonhos de ser uma atleta famosa, por intermédio de meus filhos. Também não é porque me sinto orgulhosa deles. Ah! sim, houve momentos de orgulho. Já vi um ou outro filho meu fazer o gol da vitória no futebol, destacar-se no beisebol, e fazer cestas memoráveis no basquete. Mas, na maioria das vezes, tenho tido decepções.

Já fiquei em casa com eles, aguardando um telefonema de alguém que os convocasse para jogar no time. Telefonemas que nunca chegaram. Presenciei meus filhos sentados no banco de reservas, jogo após jogo, e, quando entraram em campo, bateram a bola para fora. Já me sentei em salas de espera de pronto-socorros quando um deles teve de engessar a perna ou tirar uma radiografia do tornozelo inchado. Tenho visto treinadores gritando com eles. Tenho me sentado aqui, ano após ano, observando tudo e fazendo perguntas a mim mesma.

O jogo está terminado. Estico as pernas e tento me mexer para aquecer meus pés congelados. O treinador vai ao encontro dos jogadores. Eles dão uma espécie de grito de guerra e se dispersam para falar com seus familiares. Observo o pai de Eddie dando um tapinha nas costas do filho, com um largo sorriso no rosto. Meu filho quer comprar um hambúrguer. Enquanto eu o aguardo, o treinador aproxima-se de mim. Não consigo olhar para ele.

- Sra. Bodmer, quero que saiba que seu filho é um ótimo garoto.

- Por quê? - eu pergunto, aguardando que ele explique por que despedaçou o coração de meu filho.

- Quando eu disse a seu filho que poderia iniciar, ele me agradeceu e recusou. Pediu-me que desse a sua vez a Eddie, porque aquilo seria muito mais significativo para o seu companheiro.

Eu me viro e vejo meu filho dando uma mordida no hambúrguer.

Compreendo, então, por que eu gosto de ficar na arquibancada. De onde mais eu poderia ver meu filho transformar-se em um homem?


 

PARA QUEM DEIXAREI MEU REINO?

Donald E. Wildmon

Histórias Para o Coração 2 94

 

 

Conta-se que um rei muito poderoso estava ficando velho. Ele concluiu que era chegada a hora de escolher, entre seus quatro filhos, um herdeiro do trono. Então, chamou-os, um de cada vez, para discutir a sucessão de seu reinado.

Quando o primeiro filho entrou na sala do trono e se sentou, o rei dirigiu-se a ele:

- Meu filho, estou muito velho e não vou viver por muito tempo.

Quero entregar meu reino ao filho que estiver mais capacitado a recebê-Io. Responda-me: Se eu o nomeasse meu sucessor, o que você daria para o reino?

Aquele filho era muito rico. Assim que foi feita a pergunta, ele respondeu:

- Sou um homem muito abastado. Se o senhor me nomear seu sucessor, darei toda a minha riqueza; e este será o reino mais rico do mundo.

- Obrigado, filho - disse o rei, dispensando o rapaz.

Quando o segundo filho entrou, o rei se dirigiu a ele:

- Meu filho, estou muito velho e não vou viver por muito tempo.

Quero entregar meu reino ao filho que estiver mais capacitado a recebê-Io. Responda-me: Se eu o nomeasse meu sucessor, o que você daria para o reino?

Aquele filho era muito inteligente. Assim que a pergunta foi feita, ele respondeu:

- Sou um homem de grande inteligência. Se o senhor me nomear seu sucessor, darei toda a minha inteligência; e este será o reino mais inteligente do mundo.

- Obrigado, filho - disse o rei, dispensando o rapaz.

Quando o terceiro filho entrou, o rei se dirigiu a ele:

- Meu filho, estou muito velho e não vou viver por muito tempo.

Quero entregar meu reino ao filho que estiver mais capacitado a recebê-Io. Responda-me: Se eu o nomeasse meu sucessor, o que você daria para o reino?

Aquele filho era muito forte. E, assim que a pergunta foi feita, ele respondeu:

- Sou um homem de grande força. Se o senhor me nomear seu sucessor, darei toda a minha força; e este será o reino mais forte do mundo.

- Obrigado, filho - disse o rei, dispensando o rapaz.

O quarto filho entrou e foi cumprimentado pelo rei, da mesma maneira que os outros três.

- Meu filho, estou muito velho e não vou viver por muito tempo.

Quero entregar meu reino ao filho que estiver mais capacitado a recebê-Io. Responda-me: Se eu o nomeasse meu sucessor, o que você daria para o reino?

Aquele filho não era rico, nem inteligente, nem forte. Então, ele respondeu:

- Meu pai, o senhor sabe que meus irmãos são muito mais ricos, mais inteligentes e mais fortes do que eu. Enquanto eles passaram anos cultivando esses atributos, eu tenho vivido no meio do povo deste reino. Fui solidário com as pessoas, na doença e na tristeza.

E aprendi a amá-Ias. Receio que a única coisa que eu tenha para dar ao seu reino seja o meu amor pelo povo. Sei que meus irmãos têm muito mais a oferecer. Portanto, não ficarei desapontado se não for nomeado seu sucessor. Simplesmente continuarei a fazer o que sempre tenho feito.

Quando o rei morreu, o povo aguardou com ansiedade a notícia de quem seria o novo rei. E uma grande alegria, como nunca foi vista, tomou conta do reino quando o povo soube que o quarto filho do rei havia sido nomeado como seu sucessor.


 

A MENSAGEM NO QUADRO-NEGRO MÁGICO

Liz Curtis Higgs

Histórias Para o Coração 2 96

 

 

Todos os lugares da sala de espera do Departamento de Trânsito estavam ocupados enquanto eu aguardava para renovar minha carteira de motorista. Crianças de todas as idades andavam de um lado para o outro, explorando o local, da mesma forma que meus filhos pequenos.

Na época, Lillian era um bebê de colo (apesar de nunca parar no colo), e Matthew tinha quatro anos e já estava começando a escrever algumas palavras. Ele nunca saía de casa sem levar seu quadro-negro mágico. E aquela manhã não foi diferente.

Incentivei meu filho, um pouco tímido, a dirigir-se ao centro de uma sala onde havia várias crianças brincando com uma pilha de livros e alguns joguinhos. Matthew foi até lá, arrastando seu quadro-negro mágico. Uma criança mais nova estava virando as páginas de um livro colorido, pelo qual Matthew passou a se interessar. Instantes depois, meu filho arrancou o livro da mão da criança e começou a folhear as páginas coloridas do livro, deixando o garotinho sem ter com que brincar.

Até aquele momento, eu me limitei a observar o desdobramento do pequeno drama. Mas agora era chegado o momento de entrar em cena.

- Matthew! - eu disse em voz baixa, porém firme. - O que você fez não foi bonito. Peça desculpas ao garotinho e devolva o livro a ele imediatamente.

Com ar de desolação, Matthew esticou o braço para devolver o tão precioso livro ao garotinho, que reagiu como qualquer outra criança daquela idade reagiria, dizendo algo parecido com" Odeio você! " e se afastou correndo.

Agora Matthew estava realmente desolado; havia aborrecido sua mãe e deixara um menino zangado com ele. Matthew sentou-se, por alguns instantes, olhando para um ponto fixo enquanto raciocinava rápido. Em seguida, pegou o quadro-negro, escreveu alguma coisa nele e, sem dizer nada, levantou-o para que a outra criança o visse.

O garotinho não lhe deu atenção, é claro, porque não sabia ler.

Mas eu sabia. "Sinto muito", ele havia escrito. Tão simples! Tão profundo! Matthew não conseguiu proferir as palavras, mas as escreveu. Ao ver que o garotinho não reagiu conforme o esperado, Matthew levantou o quadro-negro outra vez, com uma expressão de súplica no rosto. Mas de nada adiantou.

As outras mães que estavam na sala começaram a observar o silencioso menino de quatro anos, cabelos cor de trigo, segurando um quadro-negro onde se lia: "Sinto muito." Não fui a única a piscar os olhos para conter as lágrimas.

 

 

O homem nunca revela seu caráter de modo tão claro

como quando fala do caráter de outra pessoa.

JEAN PAUL RICHTER


 

CONCURSO DE BELEZA

Carla Muir

Histórias Para o Coração 2 98

 

 

Uma próspera empresa de produtos de beleza pediu aos habitantes de uma cidade grande que enviassem fotografias, acompanhadas de uma breve carta explicativa, das mulheres mais belas que eles conheciam. Em poucas semanas, milhares de cartas foram enviadas à empresa.

Uma carta, em particular, chamou a atenção dos funcionários e foi encaminhada ao presidente da empresa. A carta era escrita por um menino que, evidentemente, foi criado em um lar com problemas, em algum bairro de extrema pobreza. Este é um trecho da carta, com as devidas correções de grafia:

"Na minha rua mora uma mulher bonita. Eu vou à casa dela todos os dias. Ela me faz sentir o menino mais importante do mundo.

Jogamos damas juntos, e ela ouve meus problemas. Ela me entende e, quando vou embora, sempre diz, bem alto na porta, que sente orgulho de mim." O menino terminava a carta dizendo: "Esta fotografia mostra que ela é a mulher mais bonita do mundo. Espero ter uma esposa tão bonita quanto ela." Intrigado com a carta, o presidente pediu para ver a fotografia da mulher. Sua secretária lhe entregou a foto de uma mulher sorridente, sem nenhum dente na boca, de idade avançada, sentada em uma cadeira de rodas. O ralo cabelo grisalho estava preso em formato de birote, e as rugas que marcavam seu rosto eram suavizadas pelo brilho que vinha de seus olhos.

- Não podemos usar a fotografia desta mulher - explicou o presidente, sorrindo. - Ela mostraria ao mundo que nossos produtos não são necessários para uma mulher ser bela.


 

BUQUÊ

DAVID SEAMANDS

Histórias Para o Coração 2 99

 

 

Certa vez, alguém perguntou a Corrie ten Boom como ela lidava com todos os cumprimentos e elogios que recebia, sem tornar-se uma pessoa orgulhosa. Ela respondeu que considerava cada elogio recebido como uma linda flor de caule longo. Depois de sentir deu perfume por alguns instantes, ela a colocava no vaso com as outras flores. Todas as noites, antes de deitar-se, ela pegava o findo buquê e o oferecia a Deus, dizendo:

- Obrigada, Senhor, por permitir que eu sinta o perfume das flores, elas te pertencem.

Corrie ten Boom descobriu o segredo da genuína humildade.


 

MEDALHA OLÍMPICA DE OURO

Catherine Swift

Histórias Para o Coração 2 100

 

 

Sábado, 5 de julho de 1924, foi o dia em que teve início a oitava Olimpíada dos tempos modernos. Depois que a Grécia sediou a primeira versão dos jogos, em 1896, Paris foi a próxima cidade onde eles aconteceram, em homenagem ao barão francês responsável pelo seu restabelecimento. Na primeira Olimpíada participaram 13 países.

Desta vez, havia 45, e o estádio estava lotado com 60 mil espectadores.

Em meio aos acenos e gritos de aplauso, ouviu-se o som agudo das gaitas de fole, e os Highlanders (montanheses) da Rainha da Escócia entraram no estádio. Eles chamaram a atenção com seus saiotes xadrez balançando e seus chapéus de pele de urso. Por um momento, o público pareceu hipnotizado pela cena e pelo som; mas, quando a equipe da Grã-Bretanha entrou marchando atrás da banda, os gritos de aplauso foram mais altos ainda...

Naquela época, ainda não tinha sido introduzida a cerimônia da tocha olímpica. mas milhares de pombos foram soltos para voar pelo país inteiro, com a finalidade de anunciar o evento.

Depois dessa parte, foi proclamado o juramento olímpico e, em seguida, os 4 mil competidores lotaram o gramado. Mais gritos de aplauso. Estava aberta a oitava Olimpíada. Enquanto tudo isso se passava, Eric Liddell sofria grande pressão para correr os 100 metros.

Na verdade, o sofrimento não cessara desde alguns meses antes, quando ele disse que não correria em um domingo. Mas, agora que ele estava em Paris, a crítica passou a ser mais contundente.

Eric foi ao encontro de Harold Abrahams, a última esperança dos britânicos de ganharem uma medalha na corrida dos 100 metros, e desejou-lhe sucesso. Harold era judeu, e seu dia de descanso religioso era o sábado. Eric respeitava isso e compreendia que era certo Harold correr no domingo, embora fosse errado para ele próprio. No domingo, 6 de julho, o jovem Abrahams, aluno da Universidade de Cambridge, posicionou-se para a corrida eliminatória dos 100 metros. Naquela mesma hora, Eric Liddell estava falando para uma congregação, na Scots Kirk (uma igreja), do outro lado de Paris. Harold foi classificado nas duas eliminatórias. No dia seguinte, ele estava pronto para a semifinal. Eric encontrava-se entre os espectadores para aplaudi-lo na vitória. Chegou à corrida final. e Harold saiu-se vitorioso. Alcançou a linha de chegada em 10,6 segundos. O estádio irrompeu em aplausos. Nenhum europeu havia conquistado uma medalha de ouro naquele evento, e o próximo vencedor só apareceria 66 anos depois.

Em seu íntimo, Eric deve ter sentido uma ponta de arrependimento - mas a inveja não fazia parte de sua personalidade. Ele estava feliz pelo sucesso de Harold.

Agora, ele se sentia livre da crítica e em condições de concentrar-se em suas duas corridas. As eliminatórias para a corrida dos 200 metros foram marcadas para a terça-feira. Eric e Harold foram classificados para a final no dia seguinte.

Quarta-feira foi outro dia de intenso calor. Eric estava posicionado ao lado de Harold e quatro americanos. Os dois britânicos tiveram uma boa largada, mas, primeiro um, depois o outro, ficaram para trás.

Dois americanos alcançaram a linha de chegada, recebendo um a medalha de ouro, e o outro, a medalha de prata. Eric ficou em terceiro lugar, e Harold chegou no sexto e último lugar.

Isto poderia parecer desastroso, mas foi um verdadeiro sucesso para Eric. A Escócia nunca havia conquistado uma medalha de bronze numa corrida de 200 metros. E toda a Grã-Bretanha nunca conquistara mais que um terceiro lugar e uma medalha de bronze.

Chegou à quinta-feira, dia das eliminatórias dos 400 metros.

Eric saiu-se bem. Não chegou a brilhar, embora seu tempo tivesse melhorado em cada eliminatória. No dia seguinte, ele melhorou mais ainda na semifinal. Mesmo assim, apenas conseguiu a classificação. No dia anterior, numa das eliminatórias, Imbach, da Suíça, bateu o recorde mundial ao vencer a corrida em 48 segundos.

Havia seis finalistas: dois americanos, um canadense, e os dois britânicos: Guy Butler e Eric Liddell...

Como sempre, Eric apertou a mão dos competidores desejando-lhes boa sorte. Este era um ritual que os dirigentes estavam começando a impor, embora o povo ainda achasse estranho ver um atleta desejando boa sorte a seu rival - mas eles não conheciam o homem que havia dentro de Eric...

Nos últimos instantes antes da largada, enquanto os atletas estavam se aquecendo, um som agudo tomou conta do estádio, sem nenhum aviso. Os tambores e as gaitas escocesas dos Highlanders da Rainha começaram a tocar "Os Campeões Estão Chegando".

O organizador da equipe britânica, Sir Philip Christison, havia notado certo desânimo entre os patrocinadores britânicos e imaginou que um pouco de música poderia incentivá-Ios. Talvez animasse Eric Liddell também. Afinal, ele era escocês e o som das gaitas de fole certamente faria seu sangue correr mais rápido nas veias - no exato momento em que ele mais necessitava.

...Finalmente, a música cessou. O tenso silêncio só foi quebrado pelo estampido do tiro de partida, e Eric assumiu a dianteira.

Ninguém podia acreditar no que estava vendo. Imediatamente ele ganhou três metros de distância, correndo naquele estilo feio que lhe era peculiar. Ele parecia um nadador debilitado, tentando permanecer na superfície e esforçando-se para receber um pouco de ar; lutando com braços e pernas.

Todos sabiam que ele não conseguiria manter aquele ritmo. Um atleta especializado em 100 metros não podia fazer o que ele estava fazendo. Mesmo assim, ele prosseguiu. Guy Butler também estava dando tudo de si. Por alguns instantes, o público pareceu hipnotizado.

De repente, o inesperado aconteceu. Fitch, um dos americanos, passou à frente de Butler e começou a aproximar-se cada vez mais de Eric, que ainda mantinha a liderança. Porém, novamente o inesperado: Eric começou a correr mais rápido ainda.

Ele foi se aproximando cada vez mais da linha de chegada sem vê-la. Sua cabeça estava jogada para trás, com os olhos fitando o céu. Uma profusão de bandeiras britânicas foi erguida entre os espectadores, que as agitavam incentivando-o à vitória.

De repente, depois de um tempo que pareceu levar séculos, a corrida dos 400 metros terminou. Eric Liddell alcançou a linha de chegada com uma vantagem de cinco metros sobre Fitch, seguido de Guy Butler, que, apesar de machucado, chegou em terceiro lugar e ganhou a medalha de bronze.

Os gritos da multidão podiam ser ouvidos por toda a Paris. De repente, uma voz ecoou no alto-falante, para anunciar que Eric havia batido um novo recorde mundial de 47,6 segundos. Desta vez, os aplausos foram tão ensurdecedores que pareciam atravessar o Canal da Mancha...

Sir Philip Christison tinha certeza de que o comovente som das gaitas de fole e dos tambores, naquele dia, haviam incentivado o jovem escocês de 22 anos. Eric, porém, sabia que o motivo era outro.

Seu sucesso foi conseguido graças a algumas palavras simples escritas em um pedaço de papel.

- Nos dias que antecederam as corridas, um massagista foi nomeado oficialmente para cuidar dos atletas britânicos. Ele conhecia Eric muito bem e gostava imensamente dele.

Na tentativa de demonstrar quanto admirava o atleta, o massagista aproximou-se de Eric no momento em que ele saía do hotel, rumo ao Estádio Colombes, e lhe entregou uma folha de papel dobrada.

Posteriormente, em um dos poucos momentos tranquilos daquele dia, Eric desdobrou a folha de papel, onde se lia: "No antigo livro se lê: Aquele que me honrar, eu o honrarei'. Meus melhores votos de sucesso constante." Para os Jogos Olímpicos de 1924, foi criado um lema especial, que dizia: "Citius! Althius, Fortius", cujo significado é "Mais Rápido, Mais Alto, Mais Forte". E não havia outro atleta mais merecedor desse lema do que Eric Liddell.


 

A BARRA DE DOCE

Doris Sanford

Histórias Para o Coração 2 104

 

Havia uma senhora que trabalhava num escritório que se localizava num dos altos edifícios de Londres. Todos os dias, à hora do café, ela descia até a lanchonete, que ficava no primeiro andar, e comprava uma barra de doce Kit Kat, na máquina automática, e uma xícara de café. Aquele dia não foi diferente. Depois de encontrar uma mesinha vazia num dos cantos, e nela acomodar-se, ela curvou o corpo para procurar alguma coisa na bolsa. Quando ergueu os olhos, havia um cavalheiro sentado diante dela, na mesma mesinha.

Ele segurava uma xícara de café, uma rosquinha e estava levando à boca o Kit Kat que ela comprara. Ele não se desculpou, não ofereceu nenhuma explicação. Simplesmente comeu o doce.

Ela ficou surpresa e irritada; mas não disse uma só palavra.

Tomou o café o mais rápido possível. No entanto, quanto mais pensava no assunto, mais zangada ela ficava. Finalmente, a senhora levantou-se para sair e passou a mão no restante da rosquinha que ele estava comendo, enfiando-a na boca. As únicas palavras que ela encontrou para dizer foram:

- E agora? Você aprendeu a lição?

Ela marchou de volta para o escritório, onde abriu novamente a bolsa. Para seu enorme espanto, lá estava, bem à vista, o Kit Kat que havia comprado!


 

O QUE VOCÊ ESTÁ OUVINDO

Tim Hansel

Histórias Para o Coração 2 105

 

 

Um indiano caminhava pelo centro de Nova York, acompanhado de um amigo que morava naquela cidade. De repente, o indiano disse:

- Eu ouvi um grilo!

- Ora, você está maluco - replicou o amigo.

- Não, eu ouvi um grilo. Ouvi, sim! Tenho certeza.

- Agora é meio-dia. Aqui há pessoas andando apressadas, carros buzinando, táxis dando freadas bruscas, barulhos comuns da cidade.

Tenho certeza de que você não ouviu grilo nenhum.

- Claro que ouvi.

O indiano parou um pouco para prestar atenção. Em seguida, caminhou até a esquina, do outro lado da rua, e começou a olhar ao redor. Finalmente, num dos cantos, ele avistou um arbusto plantado em uma jardineira de cimento. Embaixo da folhagem havia um grilo.

O amigo ficou atônito. Mas o indiano disse:

- Não, meus ouvidos não são diferentes dos seus. Depende do que estamos ouvindo. Veja, eu vou lhe mostrar.

Ele enfiou a mão no bolso, retirou um punhado de moedas de vários tamanhos e as jogou no concreto.

Todos os que estavam até a distância de um quarteirão viraram a cabeça para olhar.

- Você entendeu o que quero dizer? - perguntou o indiano, recolhendo as moedas do chão. - Tudo depende do que você está ouvindo.


 

A BOA AÇÃO

Recontada por Nola BerteIson

Histórias Para o Coração 2 107

 

 

Jeff, de 11 anos de idade, com o restante do grupo dos escoteiros fizeram uma "boa ação" para terminar um projeto e receber um distintivo pelos serviços prestados. Os meninos reuniram-se na casa do Sr. e da Sra. Meyers e passaram algum tempo retirando a neve e o gelo da varanda e da calçada do casal de idosos.

Mas, por um motivo ou outro, Jeff não ficou satisfeito. Ele sentiu que havia certa hipocrisia no serviço feito e resolveu discutir o assunto com o chefe do grupo dos escoteiros:

- Eu acho que não ajudei muito aquele casal. Parece que fizemos a boa ação só para ganharmos pontos para o jogo.

- É melhor você voltar lá e ver com os próprios olhos o que pode fazer para ajudar o casal - sugeriu o experiente chefe. - E, se você não contar a ninguém, também não vai ganhar "pontos" por isso.

Para Jeff, aquilo parecia ser a solução perfeita. Passaram vários dias antes que Jeff se cingisse de coragem para retornar àquela casa.

Quando, finalmente, bateu à porta da residência do casal, ele estava nervoso, mas determinado a levar até o fim a uma boa ação.

Foi a Sra. Meyers quem abriu a porta. Depois de ouvi-Io com atenção, ela recusou educadamente a oferta de Jeff para ajudar.

Contudo, o Sr. Meyers estava ouvindo o diálogo de longe.

- Você pode nos ajudar em uma coisa - ele disse, com voz animada, fazendo um gesto para que Jeff o acompanhasse à cozinha. O Sr.

Meyers estava realizando vários trabalhos que necessitavam da ajuda de braços e pernas vigorosos. Jeff foi encarregado de transportar objetos do porão para cima e vice-versa e subir na escada para alcançar as prateleiras e os cantos mais altos. Naquela noite, quando caiu na cama, Jeff estava muito cansado. Porém, mais satisfeito com seu trabalho atual do que quando ajudou a retirar a neve.

No dia seguinte, depois das aulas, Jeff retomou à casa dos Meyers.

Desta vez, o casal estava disposto a aceitar sua ajuda para várias tarefas.

Dias depois, ele retomou à casa pela terceira vez. - Hoje não há nenhum serviço - disse a Sra. Meyers.

Jeff sentiu-se melindrado por alguns momentos. Mas, em seguida, ouviu o Sr. Meyers dizer com um brilho nos olhos:

- Hoje temos uma surpresa para você.

Após ter dito isto, eles o conduziram a uma pequena sala de jantar, onde havia uma mesa elegantemente arrumada para três pessoas, com toalha de renda, flores e uma bandeja de prata contendo biscoitinhos em formato de triângulos. Jeff ficou realmente surpreso.

Lembrando-se das boas maneiras, puxou uma cadeira para a Sra.

Meyers se sentar.

- São biscoitinhos de pobre - disse a Sra. Meyers, passando a bandeja de prata a Jeff.

- Por que a senhora chama estes biscoitinhos assim? - ele perguntou, pensando no nome estranho dado àqueles petiscos.

Quem respondeu foi o Sr. Meyers:

- Depois que a gente compra todos os ingredientes, fica pobre!

Iniciou-se, então, uma hora ou mais de risadas e conversas.

Enquanto o casal lhe mostrava fotografias e contava histórias da família que agora morava longe, o coração de Jeff enterneceu-se ao compreender a solidão que havia naquela casa. Ele decidiu passar por lá com frequência para" dar uma ajuda".

Durante o tempo em que cursou o ensino médio, Jeff continuou a encontrar motivos para visitá-los. Sempre havia alguma coisa para ele fazer. No intervalo entre cortar a grama, varrer as folhas, limpar a neve, capinar o jardim e vários outros serviços dentro de casa, os três conversavam e riam, sentindo quanto eram mutuamente importantes.

Chegou o dia em que Jeff alistou-se no Exército para servir a seu país. As cartas substituíram ~ conversas face a face. Em todos os feriados, Jeff aguardava com ansiedade a chegada de um pacote dos Meyers - uma porção generosa de biscoitinhos de pobre.

O Sr. Meyers morreu enquanto Jeff estava no Exército. Jeff sentiu muito aquela perda. Quando voltou para casa, ele retomou o hábito de "dar uma passada só para ajudar um pouco". Ele sabia que, sem o Sr. Meyers, a Sra. Meyers se sentia mais sozinha do que nunca. E ela continuou a servir os biscoitinhos de pobre, na bandeja de prata, na mesma sala de jantar. Foi comovente ver que ela continuava a colocar três pratos na mesa para as ocasiões especiais em que, juntos, eles tomavam chá.

Jeff ficou noivo e marcou o casamento. A Sra. Meyers não queria faltar à cerimônia por nada deste mundo. Saiu de casa naquele dia levando um presente - um tapete feito de sobras de lã, que ela própria tecera, e uma porção dupla de biscoitinhos de pobre. Dentro do pacote, havia a receita dos biscoitinhos. Aquela foi a última porção de biscoitinhos que ela fez; a Sra. Meyers morreu alguns meses depois.

Durante muitos anos, Jeff manteve sua promessa de nunca contar a ninguém sobre o "projeto especial" de ajudar os Meyers. Ele achava que, se chamasse a atenção para si, estragaria a "boa ação".


 

POR TRÁS DE UM DESENHO RÁPIDO

Joni Eareckson Tada

Histórias Para o Coração 2 110

 

 

Há muitos anos, havia um famoso artista japonês chamado Hokusai, cujas pinturas eram cobiçadas pela realeza. Um dia, um nobre pediu ao artista que fizesse uma pintura de seu precioso pássaro. Ele deixou o pássaro com Hokusai, e o artista disse ao nobre para retomar depois de uma semana.

Sentindo falta do pássaro, o nobre estava ansioso por retomar ao estúdio do artista no final da semana, não apenas para recuperar sua ave favorita, mas também para ver a pintura. Quando lá chegou, o japonês pediu-lhe humildemente que retomasse depois de duas semanas.

As duas semanas transformaram-se em dois meses - e, depois, em seis meses.

Um ano mais tarde, o nobre irrompeu no estúdio de Hokusai, recusando-se a esperar mais e exigindo o pássaro de volta e a pintura.

Conforme o costume japonês, Hokusai curvou-se diante do nobre, retornou à sua mesa de trabalho, e pegou um pincel e uma grande folha de papel feito de palha de arroz. Em poucos instantes, Hokusai desenhou o pássaro, sem nenhum esforço, exatamente como ele era.

O proprietário do pássaro ficou atônito diante da pintura.

Em seguida, disse com raiva:

- Por que você me fez esperar um ano se podia ter aprontado a pintura em tão pouco tempo?

- O senhor não entendeu - replicou Hokusai.

Ele levou o nobre a um cômodo onde as paredes estavam cobertas de pinturas do mesmo pássaro. Nenhuma delas, contudo, expressava a graça e a beleza do último trabalho...

Esta lição deve aplicar-se também à tela de nossa vida... Se quisermos ter alguma coisa de valor verdadeiro e duradouro em nosso caráter, ela não será conseguida com facilidade.

Nunca é fácil.


 

ÂNDROCLES E O LEÃO

Recontada por Cassandra Lindell

Histórias Para o Coração 2 111

 

Com o coração acelerado e as pernas doendo, ele chegou à floresta; Ândrocles sabia que não existia nenhum outro lugar seguro. Ele poderia sobreviver ali - encontrar raízes e frutos, livrar-se de animais ferozes. Ândrocles tinha poucas opções - se fosse preso, seria executado como escravo fugitivo.

Ele imaginava como seria a angústia de viver se fosse descoberto.

Cada pinha que caía mansamente na relva verde e macia sob seus pés era o suficiente para sobressaltá-Io. Sua cabeça movimentava-se de um lado a outro para que os olhos arregalados pudessem enxergar os soldados.

Ele necessitava de um abrigo. A chuva pairava no ar, e em breve anoiteceria. Através das árvores, ele avistou uma abertura nas rochas.

Imaginando que pudesse dormir ali apenas por uma noite, Ândrocles rumou naquela direção.

De repente, ele parou. Deitado à direita da abertura, havia um leão. Movido pelo instinto, Ândrocles correu, orando para que o animal estivesse de estômago cheio.

Ao perceber que não estava sendo perseguido, ele diminuiu o ritmo dos passos e parou. Quando olhou para trás, ele viu que o leão não saíra em sua perseguição. O único movimento do animal foi girar a cabeça para olhar para o homem - com ar de tristeza -, assim Ândrocles pensou.

Lentamente, ele começou a retornar ao local. O leão estava machucado. Ândrocles dirigiu-se a ele carinhosamente, acariciando-lhe a juba e as costas à procura do ferimento. Finalmente, o encontrou - um corte profundo na perna traseira do leão, que estava sangrando por algum tempo sem nenhum sinal de que o sangue estancaria. O homem rasgou um pedaço de sua túnica e limpou a ferida. O leão estremeceu e deu um gemido. Finalmente, adormeceu.

Naquele instante, a chuva começou a cair. Ândrocles entrou na caverna e caiu no sono imediatamente. A longa corrida para fugir da cidade o deixara exausto. Minutos depois, ele despertou, no exato momento em que o leão entrou na caverna e aproximou-se dele, arrastando a perna e desabando no chão com a respiração ofegante.

A caverna era grande, e o homem e o animal moraram juntos ali, durante várias semanas. Ândrocles encontrou uma fonte de água fresca nas proximidades. Os dois caçavam e ajuntavam o alimento de que cada um necessitava.

Um dia, enquanto pegava água na fonte, Ândrocles sentiu um objeto afiado pressionando o seu pescoço.

- Não se mexa - uma voz impiedosa ordenou. - Existe uma boa recompensa pela vida de um escravo fugitivo, você sabe. Levante-se bem devagar.

Forçado a voltar para a cidade, Ândrocles pensou em seu amigo leão, sabendo que nunca mais o veria. Ele foi conduzido à presença do imperador para ser julgado e recebeu a sentença de morte. Os soldados o levaram a uma cela de pedra construída debaixo da arena, onde deveria permanecer até o dia da execução.

Finalmente, ele foi levado à arena. O povo lançou-lhe todo o seu ódio e começou a aplaudir com entusiasmo quando foi solto um leão que não havia recebido alimento por vários dias. Os soldados o cutucavam e o instigavam, para provocar a ira do animal, que rugiu ao ver o homem e correu em direção à sua presa.

Ândrocles sabia que não teria nenhuma chance. Mesmo assim, ele retesou os músculos para lutar, pronto para ser ferido. Como a situação foi diferente quando ele cuidou de um leão machucado, em vez de cutucá-Io e instigá-Io! Ândrocles fechou os olhos, à espera de sentir o peso do animal sobre seu corpo e receber o primeiro golpe mortal.

Em vez de dor lancinante, ele sentiu a língua do leão lambendo-lhe o rosto, no momento em que o animal o atirou no chão. Ândrocles abriu os olhos - estava frente a frente com seu amigo da floresta.

Mesmo após dias de fome e tortura, em vez de investir para matá-Io, o leão começou a balançar a cauda como se fosse um cão amigo.

O povo mergulhou em silêncio. O imperador estava atônito.

Mandou chamar Ândrocles, e o homem contou a sua história.

- Ândrocles e seu amigo leão estão livres - declarou o imperador.

- Uma amizade e uma gratidão tão surpreendentes entre inimigos ferrenhos devem ser grandemente recompensadas.


 

INTRIGA

BILLY GRAHAM

Histórias Para o Coração 2 114

 

 

Conta-se a história de uma mulher inglesa que compareceu perante o pastor de sua igreja com um problema de consciência.

O pastor sabia que aquela mulher tinha o péssimo hábito de fazer intrigas - falava mal de quase todos do povoado.

- Como eu posso me retratar? - ela suplicou.

O pastor lhe disse:

- Se a senhora quiser ficar em paz com sua consciência, terá de pegar um saco, enchê-lo de penas de ganso e atirar uma pena na varanda da casa de cada pessoa que a senhora difamou.

Depois de realizar o trabalho, ela voltou a conversar com o pastor.

- É só isso que eu devia fazer? - a mulher perguntou.

- Não - respondeu o velho e sábio pastor. - Agora, a senhora precisa recolher todas as penas que foram atiradas e trazê-las a mim.

Depois de um longo tempo, a mulher retomou de mãos vazias.

- O vento levou todas as penas embora - ela disse.

- Minha bondosa senhora - disse o pastor -, o mesmo acontece com a intriga. Palavras maldosas são fáceis de serem atiradas; porém, jamais somos capazes de trazê-las de volta.


 

MUDANDO DE LADO

Zig Ziglar

Histórias Para o Coração 2 116

 

 

Um menino foi abordado por três grandalhões. Qualquer um deles poderia dar-lhe uma surra, e os três estavam deixando claro que tinham aquele plano em mente. O menino, que era muito esperto, afastou-se um pouco dos três grandalhões e traçou uma linha na terra. Depois, deu alguns passos para trás, fitou o líder do grupo nos olhos e disse:

- Quero ver se você consegue atravessar esta linha.

Sem pestanejar, o grandalhão passou para o outro lado.

O menino sorriu e disse:

- Agora, nós dois estamos do mesmo lado.

 

 

 

O cão tem muitos amigos porque ele movimenta a cauda em vez de movimentar a língua.


 

O VESTIDO

Margaret Jensen

Histórias Para o Coração 2 117

 

 

Mary era uma jovem que acalentava o sonho de amar e servir a Deus. John, agitado e impaciente em seu novo pastorado na zona rural de Wisconsin, sentia saudades das bibliotecas e da agitação de Nova York ou de Chicago, onde cursara o seminário. A mente brilhante de John só pensava em livros. Mary via beleza em tudo - no aroma da terra recém-arada, no cântico de um passarinho, nos primeiros indícios da primavera, nas cores do açafrão e das violetas. Mary cantava para o vento e ria com os passarinhos.

Cultivava, porém, um desejo secreto: queria ter um vestido novo para a primavera. Não um vestido discreto ou preto, apropriado para uma esposa de pastor, mas um vestido de tecido leve e esvoaçante, com renda na gola e nas mangas, e com um cinto largo.

Mas não havia dinheiro para isso! Ela começou a fazer planos.

Guardaria moedas em uma caixa até conseguir dinheiro suficiente para comprar um novo lampião de querosene para John e material para o vestido novo. Aproveitaria a renda de um antigo vestido de veludo guardado no baú. Algum dia, ela faria um vestido de veludo azul para sua filhinha Louise.

Chegou o dia em que o ruído da máquina de costura se fazia ouvir como música, enquanto Mary cantava e costurava. Louise, de cabelos dourados, brincava com carretéis vazios e alfinetes. A pequena casa brilhava de tão limpa. O novo lampião ocupava um lugar de honra na mesa de leitura de John.

Com ar de brincadeira, Mary soltou seus longos cabelos castanhos e os escovou sob o sol da manhã. Em seguida, colocou o vestido novo cor-de-rosa, de tecido leve, com violetas e rendas. Prendeu o cinto nas costas e começou a dançar enquanto Louise dava gritos de alegria. Era primavera! Ela era jovem, tinha apenas 23 anos, uma vida nova dentro de si e Louise para acalentar e amar. A igreja rural, os carrancudos imigrantes que aravam a terra, e o longo inverno impiedoso haviam isolado a jovem esposa em seu mundo de poesia e música. Mas ela aprendera a amar as pessoas fervorosas e compartilhava suas alegrias e tristezas. Hoje, ela dançava alegre e descontraída em seu novo vestido esvoaçante.

Um puxão tão rápido quanto o clarão de um relâmpago obrigou Mary a girar o corpo e ter de encarar o rosto irado de John, cujas frustrações acumuladas desencadearam toda a fúria que havia dentro dele.

- Dinheiro gasto com futilidades! Não há bibliotecas, não há livros... ninguém para conversar, a não ser para falar de vacas e galinhas, plantação e colheita.

A raiva de John irrompeu como um vulcão em erupção, e ele rasgou o vestido até transformá-Io em tiras. Assim que o acesso de fúria chegou ao fim, o silêncio aterrador que se seguiu foi quebrado pelo galope do cavalo de John. Cavalgando com o vento batendo no rosto, ele canalizou o restante de sua raiva para as vacas e galinhas, que fugiam assustadas do caminho. Seu coração ansiava por galopar de Wisconsin até o centro de Nova York - até sua querida biblioteca.

Acocorada em um canto, Mary apertava Louise e o vestido em frangalhos entre os braços. Tremendo de medo e de raiva, ela não conseguia sair do lugar. Exaurida demais para chorar, sentia um enorme vazio dentro dela e uma saudade indescritível de sua mãe. Não havia ninguém a quem recorrer naquela região longínqua. Mary lembrou-se do Salmo 34.4: "Busquei o SENHOR, e ele me acolheu;

livrou-me de todos os meus temores." Em seguida, as lágrimas brotaram, intensas e profundas, e ela clamou ao Senhor.

Mary começou a pensar em uma maneira de fugir. Improvisaria uma cama no sótão e levaria Louise para dormir com ela. John dormiria sozinho. Ela dobrou o vestido estraçalhado e o escondeu no baú. O pastor Hansen chegaria para visitar as igrejas das imediações, e Mary decidiu aguardar aquele dia para mostrar o vestido a ele.

Depois, pediria a ajuda dele para abandonar John e retornar à casa de sua mãe. Com uma determinação silenciosa, ela colocou o vestido escuro, prendeu muito bem os cabelos, como convinha a uma esposa de pastor, e arrumou a mesa para o jantar. Quando John retornou tarde da noite, encontrou seu jantar no forno. Mary estava dormindo no sótão, com Louise aninhada em seus braços.

John jantou em silêncio e procurou por Mary. Quando a encontrou no sótão, ele ordenou-lhe que voltasse para sua cama e colocasse Louise no berço. Mary colocou Louise com muito cuidado no berço e, obedientemente, voltou para sua cama. A fúria de John havia passado, mas ele desconhecia o rastro de devastação que ficou pelo caminho.

A vida prosseguiu em sua rotina, mas a canção deixou de existir; e, agora, os passos de Mary eram pesados de amargura. Ela aguardava em silêncio, ruminando seus planos.

A chegada do pastor Hansen trouxe uma nova alegria a John.

Agora, os dois pastores conversavam sobre livros, teologia e as conferências que seriam realizadas na igreja. Mary os servia em silêncio. Ninguém podia imaginar a angústia que existia por trás daquele rosto bondoso enquanto ela assistia aos cultos ao lado de crentes fervorosos, sem prestar a mínima atenção aos sermões.

a último dia da visita estava se aproximando, e Mary ainda não havia tido a oportunidade de conversar a sós com o pastor Hansen. Seria necessário encontrar uma abertura, talvez na tarde de domingo, enquanto John estivesse visitando um membro da igreja impossibilitado de comparecer ao templo, e enquanto o pastor Hansen estivesse meditando sobre o sermão da noite. Com a mente girando, ela decidiu prestar atenção ao sermão da manhã, e talvez usar os comentários do pregador para introduzir a sua conversa com o pastor Hansen.

- a texto desta manhã é encontrado em Marcos 11.25. "E, quando estiverdes orando, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai..." a perdão não é opcional, mas uma decisão definitiva de perdoar, em obediência ao mandamento de Deus. A sensação vem depois, uma sensação de paz. Quando apresentamos diante de Deus as nossas mágoas e desespero, Ele derrama seu amor e compaixão nas feridas abertas e nos cura.

Ah, não!, Mary chorou intimamente. Não posso perdoar e não vou conseguir esquecer.

A sermão prosseguiu:

- Alguém deve estar pensando: Eu nunca vou esquecer, mesmo depois de perdoar. Você tem razão. Não pode esquecer, mas não precisa sentir-se destruído pela lembrança. O amor de Deus e seu perdão têm o poder de amortecer a memória até que as marcas desapareçam. Quando perdoamos, devemos destruir a evidência e deixar que o amor tome conta de nossa mente.

John e o pastor Hansen foram para casa no carro do diácono Olsen. Mary subiu em sua charrete, prendeu o chapéu preto com um lenço e segurou Louise de encontro ao peito. Enquanto a mula Dolly trotava animadamente pela estrada, lágrimas quentes começaram a rolar pelo rosto de Mary.

Ela sabia o que deveria fazer. Obedeceria a Deus. Sem esperar para desatrelar Dolly, ela desceu rápido da charrete e colocou Louise no berço. Com as mãos trêmulas, retirou o vestido estraçalhado do baú. O jantar do domingo estava no forno. Mary atiçou o fogo e colocou mais lenha. Preparou o café automaticamente e arrumou a mesa. A evidência deve ser destruída. A frase martelava em sua memória. Eu o perdôo, John. Ela pegou o vestido estraçalhado com uma das mãos e abriu a tampa do forno com a outra. As lágrimas estalavam no fogo enquanto ela observava o vestido sendo queimado lentamente.

O verdadeiro perdão destrói a evidência. As palavras estavam tão vivas em seu coração que ela não ouviu os passos de John.

- Mary, o que você está fazendo?

Com a voz trêmula pelos soluços, ela respondeu:

- Estou destruindo a evidência.

E, para si mesma, ela disse: - Minha oferta a Deus.

Foi, então, que John se lembrou! Pálido e abalado, ele murmurou:

- Por favor, perdoe-me!

Cinqüenta e oito anos depois, quando John já havia partido para morar com o Senhor, deixando uma saudade imensa, Mary teve um sonho. Três anjos apareceram diante dela e disseram:

- Venha, vamos fazer uma comemoração.

Dobrado ao meio, sobre o braço de um dos anjos, havia um lindo vestido.


 

PARENTES DISTANTES

Carla Muir

Histórias Para o Coração 2 121

 

 

Um velho solitário morava no meio das montanhas do Colorado.

Quando ele morreu, alguns parentes distantes vieram da cidade para pegar seus pertences. Assim que chegaram, viram apenas uma velha choupana com uma ti casinha" ao lado. Dentro da choupana, perto de um fogão de pedra, havia uma panela velha e algumas ferramentas que o homem usava em seu trabalho de mineração. Uma mesa rachada e uma cadeira de três pernas estavam encostadas a uma minúscula janela. O lampião de querosene servia de enfeite para a mesa. Em um canto escuro da choupana, via-se um catre coberto com uma colcha puída.

Eles pegaram alguns objetos sem valor e prepararam-se para partir.

Quando estavam se afastando com o carro, um velho amigo do dono da choupana, montado em uma mula, acenou para eles.

- Vocês permitem que eu pegue o que sobrou na choupana de meu amigo? - ele perguntou.

- Fique à vontade - eles responderam.

Afinal, eles pensaram, o que poderia haver de valor naquela choupana?

O amigo entrou na choupana e caminhou em direção à mesa.

Passou a mão por baixo e levantou uma das tábuas do piso. Ali estava todo o ouro que seu amigo havia descoberto nos últimos 53 anos - o suficiente para ter construído um palácio. O velho solitário morreu, deixando o segredo apenas para o amigo. Quando o amigo olhou pela janela e viu desaparecer a nuvem de poeira atrás do carro dos parentes, ele disse:

- Eles deveriam ter conhecido melhor o velho.


 

MAIS QUE UM EMPREGO

Charles Swindoll

Histórias Para o Coração 2 122

 

 

Um jovem entrou apressado em um posto de perguntou ao gerente se ali havia um telefone gerente movimentou a cabeça afirmativamente e disse:

- Claro! Fica logo ali.

O jovem colocou algumas moedas, discou e aguardou uma resposta.

Finalmente, alguém atendeu.

- Ah!... - ele disse, com voz grave -, o senhor teria emprego para um homem jovem, honesto e trabalhador?

O gerente do posto ouviu a pergunta de longe. Depois de alguns instantes, o rapaz disse:

-Ah! o senhor já tem um empregado jovem, honesto e trabalhador?

Está bem, obrigado.

Com um largo sorriso no rosto, ele desligou o telefone e dirigiu-se para o seu carro, assobiando e visivelmente satisfeito.

- Ei, espere um pouco! - gritou o gerente. - Não pude deixar de ouvir sua conversa. Por que você está tão feliz? Achei que o sujeito do outro lado da linha tivesse dito que já tinha um empregado e que não precisava de você.

O jovem sorriu e respondeu:

- Veja só, eu sou o jovem honesto e trabalhador. Estava só testando meu patrão!


 

UM JOVEM GUERREIRO

Stu Weber

Histórias Para o Coração 2 123

 

 

Qual é a aparência de um homem de bem com a vida? Não posso deixar de me lembrar da afirmação de um jovem que mora perto de nós - um rapaz de 16 anos, que cursa o segundo ano do curso médio.

Seus pais se divorciaram quando ele tinha oito anos. O pai saiu de casa e nunca mais voltou. O padrasto, um homem cruel e desumano, trata-o muito mal. Ordena que ele "cale a boca" o tempo todo. Diz que ele é inútil, idiota e que nunca será nada na vida.

Mas, quando alguém pergunta ao jovem qual é o seu sonho, seus olhos adquirem um brilho especial. Vejam só qual é a resposta dele:

- Eu gostaria de descobrir onde meu pai verdadeiro mora. E gostaria de me mudar para a casa vizinha à dele, sem que ele soubesse quem eu sou. Gostaria, também, de ser seu amigo. Já fui amigo dele um dia, e talvez fosse bom continuarmos a amizade.

-Esse mesmo jovem, que tem tido todos os tipos de dificuldade na vida, recebeu o convite para escrever um ensaio sobre o tema "O que é um homem?" O breve ensaio está reproduzido a seguir - escrito por um jovem que nunca contou com a presença de um homem na vida, um homem verdadeiro, no sentido exato da palavra. Penso que existem coisas tão inerentes, tão enraizadas, tão intrínsecas, tão fundamentais que até mesmo um jovem, que nunca teve na vida o exemplo de um homem para seguir, é capaz de colocá-las em palavras. Aqui está o que ele escreveu:

 

- O homem verdadeiro é bondoso.

- O homem verdadeiro é zeloso.

- O homem verdadeiro afasta-se das brigas provocadas por machos idiotas.

- O homem verdadeiro ajuda sua esposa.

- O homem verdadeiro cuida dos filhos quando eles estão doentes.

- O homem verdadeiro não foge dos problemas.

- O homem verdadeiro mantém sua palavra e cumpre suas promessas.

- O homem verdadeiro é honesto.

- O homem verdadeiro não infringe as leis.

 

Esta é a visão que um jovem solitário tem de um homem verdadeiro.

Um homem que tem autoridade e vive sob a autoridade.

Esta é a visão de um Jovem Guerreiro.

 

Caráter é o que você é no escuro.

 

DWIGHT L. MOODY


 

A CAIXA DE LÁPIS

Doris Sanford

Histórias Para o Coração 2 127

 

 

Eu estava concentrada em meu escritório, preparando a palestra que faria naquela noite em uma faculdade no outro lado da cidade, quando o telefone tocou. Uma mulher, que eu não conhecia, presentou-se dizendo que era mãe de um menino de sete anos e que ela estava morrendo. Contou-me que sua terapeuta a aconselhara ... não revelar este fato ao filho, uma vez que isso seria traumático demais para a criança. Mas aquele conselho não lhe pareceu correto.

Sabendo que eu trabalhava com crianças que sofreram perdas familiares, ela pediu meu conselho. Eu lhe disse que, geralmente, o nosso coração é mais esperto que o cérebro e que ela deveria saber u que era melhor para o seu filho. Convidei-a a assistir à minha palestra naquela noite, uma vez que eu falaria sobre como as crianças enfrentam a morte. Ela prometeu que compareceria.

Mais tarde, eu me perguntei se a reconheceria durante a palestra.

Minhas dúvidas foram dissipadas quando avistei uma mulher frágil sendo conduzida por dois adultos até a sala onde seria realizada conferência. Na palestra, expliquei que as crianças percebem a verdade antes que alguém lhes conte e que, quase sempre, esperam até sentir que os adultos estejam preparados para expor os fatos antes que elas mencionem suas preocupações e dúvidas. Eu disse que, de modo geral, as crianças lidam melhor com a verdade do que com negação dos fatos, mesmo que tal negação tenha o propósito de protegê-Ias do sofrimento. Disse também que devemos respeitar as crianças, fazendo com que elas participem da tristeza da família, sem que se sintam excluídas.

Ela ouviu o que necessitava. No intervalo, caminhou com muito esforço até a tribuna e disse entre lágrimas:

- Meu coração já dizia isto. Eu sabia que deveria contar a ele.

Ela prometeu que contaria tudo ao filho naquela noite.

Na manhã seguinte, recebi outro telefonema daquela senhora.

Apesar de sua dificuldade para falar, eu consegui ouvir a história contada em voz sufocada.

Na noite anterior, quando chegou a casa, ela despertou o filho e lhe disse com serenidade:

- Derek, eu preciso lhe contar uma coisa.

Ele a interrompeu, dizendo:

- Mamãe, você vai me contar que está morrendo?

A mãe o abraçou, e ambos soluçavam enquanto ela lhe dizia:

-Sim.

Depois de alguns minutos, o menino afastou-se da mãe, dizendo que havia guardado alguma coisa para ela. No fundo de uma de suas gavetas, ele havia guardado uma velha caixa de lápis. De dentro da caixa, ele tirou uma carta, escrita com letras um tanto ilegíveis:

"Adeus, mamãe. Eu sempre vou amar você." Quanto tempo ele esperou para ouvir a verdade, eu não sei. Só sei que dois dias depois sua mãe morreu. Dentro do seu caixão foram colocadas a caixa de lápis e a carta.


 

ELA É MINHA PRECIOSIDADE

Robertson McQuilkin

Histórias Para o Coração 2 129

 

 

Escrita seis anos depois de ter renunciado ao cargo de reitor do Seminário e Faculdade de Estudos Bíblicos, de Colúmbia, para cuidar de sua esposa, Muriel, que contraíra o mal de Alzheimer.

 

Dezessete verões atrás, Muriel e eu começamos nossa jornada rumo ao crepúsculo da vida. A meia-noite já chegou, pelo menos para ela, e, às vezes, eu me pergunto quando chegará o alvorecer. O mal de Alzheimer não deveria atacar tão cedo e atormentar por tanto tempo. Mesmo assim, em seu mundo silencioso, Muriel é uma mulher feliz, adorável. Se Jesus a levar para si, vou sentir muitas saudades de sua doce e meiga presença. Sim, houve momentos em que me irritei, mas não com frequência. Não faz sentido ficar zangado. Além do mais, talvez o Senhor tenha respondido à oração de minha juventude para amadurecer meu espírito.

Certa vez, no entanto, perdi a paciência de vez. Na época em que Muriel ainda conseguia ficar em pé e caminhar e que ainda não existia o recurso das fraldas descartáveis, houve alguns "acidentes". Eu estava ajoelhado ao lado dela, tentando limpar a sujeira do banheiro.

Teria sido mais fácil se ela não tivesse insistido tanto em me ajudar. Fui ficando cada vez mais irritado. De repente, na tentativa de fazê-la ficar imóvel, eu dei um tapa em sua panturrilha - como se isso fosse melhorar a situação. Não foi um tapa forte, mas ela se assustou. Eu também. Em nossos 48 anos de casados, eu nunca a havia tocado com raiva nem me dirigido a ela com ar de censura. Nunca cheguei sequer a pensar em fazer isso. Mas, agora, no momento em que ela mais necessitava de mim...

Chorando, eu lhe implorei perdão, apesar de saber que ela não conseguia entender as palavras e muito menos pronunciá-Ias. Recorri ao Senhor e confessei-lhe o meu arrependimento. Levei dias para superar aquele incidente. Talvez Deus tenha guardado aquelas lágrimas para debelar o fogo que voltaria a ser aceso um dia.

Recentemente, uma aluna casada me perguntou:

- O senhor nunca se sente cansado?

- Cansado? Eu me sinto cansado todas as noites. É por isso que vou dormir.

- Não, eu falei cansado no sentido de... - ela disse, movimentando a cabeça em direção a Muriel, que continuava sentada, em silêncio, em sua cadeira de rodas, com o olhar vago, como se estivesse dizendo:

"Não há ninguém em casa." Eu respondi à pergunta de Cindi:

- Não, eu não me sinto cansado. Eu adoro cuidar dela. Ela é minha preciosidade...

Dizem que o amor entre um casal desaparece quando não existe reciprocidade, quando ele deixa de ser físico, quando a outra pessoa não se comunica ou quando uma das partes não ajuda a outra a carregar o fardo. Sempre que ouço a ladainha sobre os elementos essenciais para um casamento feliz, eu desconsidero aquilo que minha amada não pode mais fazer e contemplo todo o mistério do amor.

Algumas pessoas custam a entender que amar Muriel não é tão difícil assim. Elas fazem perguntas sobre as coisas de que gosto, como meu trabalho, por exemplo.

- O senhor não sente falta de seu cargo de reitor? - um aluno me perguntou quando estávamos sentados em nosso pequenino jardim.

Eu lhe disse que nunca havia pensado nesse assunto. Por mais gratificante que meu trabalho possa ter sido, eu gostei de aprender a cozinhar e cuidar da casa. Não, eu nunca olho para trás.

Porém, naquela noite, eu refleti sobre aquela pergunta e recorri ao Senhor:

Pai, eu gosto do que utou fazendo e não tenho nenhum arrependimento. MM, quando o treinador deixa o jogador no banco de reservas é porque não o quer no jogo. Não necessito que me digas, é claro, mas eu gostaria de saber - por que não me mantiveste no jogo?

Eu não dormi bem naquela noite e despertei com um problema na cabeça. Na época, Muriel ainda conseguia movimentar-se. Então, saímos para nossa caminhada matinal ao redor do quarteirão. Ela não se sentia segura para andar sozinha, e caminhamos lentamente de mãos dadas como sempre fazíamos. Naquele dia, ouvi passos nos seguindo e olhei para trás. Avistei a figura conhecida de um andarilho.

Ele passou por nós com passos trôpegos; depois, virou-se e nos olhou de cima a baixo.

- Muito bem. Gostei - ele disse. - Gostei.

Em seguida, ele seguiu pela rua, murmurando consigo mesmo:

- Muito bem. Gostei.

Quando Muriel e eu chegamos ao nosso pequenino jardim e nos sentamos, aquelas palavras voltaram-me à mente. Foi, então, que eu entendi; o Senhor havia me falado por meio de um velho andarilho.

- Eras Tu que sussurravas no meu espírito: “Muito bem, gostei!” – eu disse em voz alta. – Eu posso estar sentado no banco de reservas, mas se estás gostando e dizes que é bom, é isso o que importa...

Acho que minha vida é mais feliz do que a vida de 95% das pessoas que vivem no planeta Terra.


 

O LANCE DECISIVO

Robert Strand

Histórias Para o Coração 2 132

 

 

O abastado barão inglês Fitzgerald tinha apenas um filho, que, evidentemente, era seu maior tesouro, o centro de suas afeições, o foco da atenção de sua pequena família.

O filho cresceu, mas, quando ele estava entrando na adolescência, sua mãe morreu, deixando pai e filho sozinhos. Fitzgerald sofreu muito a perda da esposa, mas dedicou sua vida para cuidar do filho. Com o passar do tempo, o filho contraiu uma doença grave e morreu antes de completar 20 anos. Nesse meio-tempo, a fortuna de Fitzgerald aumentou sensivelmente. Ele havia usado grande parte de sua fortuna na compra de obras de arte dos grandes "mestres" da pintura.

Após alguns anos, Fitzgerald adoeceu e morreu. Um pouco antes de sua morte, ele preparou cuidadosamente um testamento, incluindo instruções explícitas sobre a distribuição de seus bens. Toda a sua coleção de quadros deveria ser vendida em leilão. Em razão da quantidade e qualidade daquelas obras de arte, avaliadas em milhões de libras esterlinas, o leilão atraiu uma multidão de possíveis compradores, todos demonstrando grande interesse. Entre eles, havia vários curadores de museus e colecionadores particulares, ávidos por dar seus lances.

Os quadros foram expostos para visitação antes do início do leilão.

No meio deles, houve um que recebeu pouca atenção. Além de ser de qualidade inferior, foi pintado por um artista da cidade, desconhecido pelo público. Era o retrato do único filho de Fitzgerald.

Quando chegou o início do leilão, o leiloeiro pediu a atenção dos presentes. Antes que os lances fossem feitos, o advogado leu o testamento de Fitzgerald, onde havia instruções que diziam que o primeiro quadro a ser leiloado deveria ser o de "meu amado filho".

Por ser de qualidade inferior, o quadro não recebeu nenhum lance... ou melhor, recebeu apenas um! O único a dar o lance foi um velho criado da casa que conheceu o filho e o amava muito. O lance foi dado por motivos sentimentais. Ele comprou o quadro por menos de uma libra esterlina.

O leiloeiro interrompeu o leilão e pediu ao advogado que continuasse a leitura do testamento. Diante do fato inusitado, o público silenciou. O advogado leu estas palavras diretamente do testamento de Fitzgerald: "Quem comprar o quadro de meu filho ficará com minha coleção inteira. O leilão está encerrado!


 

O MELHOR QUE EU TENHO

Robert Fulghum

Histórias Para o Coração 2 134

 

 

De tempo em tempo, a caixa que contém aquelas bugigangas, os tesouros pessoais que sobreviveram a tantas "limpezas" e tentativas de ser jogados no lixo, atrai a minha atenção. Um ladrão que a examinasse não levaria nada - não receberia um centavo por nada daquilo. Mas, se um dia a casa pegar fogo, a caixa irá comigo quando eu sair correndo.

Um dos objetos da caixa é um pequeno saco de papel. Uma espécie de lancheira. Embora a boca do saco esteja fechada com fita adesiva, grampos e vários clipes, há um rasgo em um dos lados através do qual é possível ver o seu conteúdo. Esse saco de papel está sob meus cuidados há uns 14 anos, mas pertence à minha filha, Molly. Assim que chegava da escola, quando ela era criança, começava a empacotar os lanches do dia seguinte. Certa manhã, Molly entregou-me dois sacos de papel, no momento em que eu me aprontava para sair de casa. Um continha o lanche. O outro estava fechado com fita adesiva, grampos e clipes.

- Por que dois?

- O outro tem uma coisa especial.

- O que é?

- Algumas coisinhas para você levar para o trabalho.

Ao meio-dia, enquanto eu abria apressadamente o meu lanche verdadeiro, rasguei o outro saco que Molly me dera e despejei o conteúdo na mesa. Elásticos para prender cabelo, três pedrinhas, um dinossauro de plástico, um toco de lápis, uma conchinha, dois biscoitos em formato de animais, uma bolinha de gude, um batom usado, uma bonequinha, duas barras de chocolate e algumas moedinhas totalizando 13 centavos.

Eu sorri. Que graça! Levantei-me preparado para enfrentar os assuntos importantes da tarde e limpei a mesa, jogando tudo no cesto de lixo - as sobras do lanche, as coisinhas de Molly, tudo. Não havia nada ali que me pudesse ser útil.

Naquela noite, Molly aproximou-se de mim enquanto eu lia o jornal.

- Onde está o saco?

- Que saco?

- Você sabe. Aquele que dei para você hoje cedo.

- Ficou no escritório. Por quê?

- Esqueci de colocar um bilhetinho dentro - ela disse, entregando-o a mim. - Quero tudo de volta.

- Por quê?

- São coisinhas minhas, papai, coisinhas de que gosto muito. Achei que você gostaria de brincar com elas; mas agora quero tudo de volta. Você não perdeu aquele saco, não é mesmo, papai? - Lágrimas começaram a brotar nos olhos dela. - Traga de volta amanhã, está bem?

- Claro... não se preocupe.

Quando ela me abraçou, aliviada, eu abri bilhetinho, onde se lia:

"Eu amo você, papai."  E agora?

Molly me dera seus tesouros. Tudo o que aquela menina de sete anos mais prezava. Amor dentro de um saco de papel E eu não tinha entendido. Além de não entender, atirei tudo no lixo porque "não havia nada ali que me pudesse ser útil".

A viagem de volta ao escritório foi longa. Mas não havia outra coisa a ser feita. Cheguei antes da faxineira, peguei o cesto de lixo e derrubei o conteúdo em minha mesa... e encontrei os tesouros.

Depois de lavar o dinossauro coberto de mostarda e limpar os outros objetos com o desinfetante bucal que eu usava para eliminar o hálito com cheiro de cebola, alisei cuidadosamente o saco de papel, amassado em formato de bola, coloquei os tesouros dentro e retornei apressado para casa, como um gatinho machucado. Na manhã seguinte, devolvi o saco a Molly. Não houve perguntas nem explicações. Depois do jantar, pedi a ela que me falasse sobre o que havia dentro do saco. Foi uma conversa longa. Cada coisinha daquelas tinha uma história, uma lembrança ou estava ligada a sonhos e amigos imaginários.

Para minha surpresa, Molly devolveu-me o saco mais uma vez, alguns dias depois. Era o mesmo saco rasgado, contendo as mesmas coisas. Eu me senti perdoado. E digno de confiança. E amado. Nos meses seguintes, passei a levar os tesouros comigo de tempos em tempos. Eu mesmo não sabia por que não os levava diariamente.

Comecei a pensar neles como se fossem um prêmio para mim, e tentava ser bondoso na noite anterior para merecer levá-Ios comigo na manhã seguinte.

Com o passar do tempo, Molly dirigiu sua atenção para outras coisas... encontrou outros tesouros... perdeu interesse pela brincadeira... cresceu. E eu? Eu fui incumbido de guardar o saco de papel. Ela o colocou em minhas mãos um dia e nunca mais me pedi~ que o devolvesse. Eu o guardo até hoje.

Às vezes, penso em todas aquelas ocasiões agradáveis da vida em que não entendi o carinho que me era oferecido. Um amigo compara essa situação a "estar com a água na altura dos joelhos e morrer de sede". O saco de papel rasgado está lá, dentro da caixa. Lembrança de um tempo em que uma criança disse:

- Aqui está tudo o que tenho de melhor. Pode levar, é seu. Tudo o que é meu, dou a você.

Eu não entendi na primeira vez. Mas agora aqueles tesouros me pertencem.


 

ELE É LOUCAMENTE APAIXONADO POR VOCÊ

MAX LUCADO

Histórias Para o Coração 2 137

 

 

Se Deus tivesse uma geladeira, sua fotografia estaria grudada ali.

Se Ele tivesse uma carteira, guardaria sua fotografia dentro dela.

Ele lhe manda flores toda primavera e o brilho do sol todas as manhãs.

Sempre que você tem vontade de falar, Ele ouve.

Ele pode morar em qualquer lugar do universo, mas escolheu o seu coração.

Que tal aquele presente de Natal que Ele lhe deu em Belém?

E aquela sexta-feira no Calvário?

Acredite, Ele é Loucamente apaixonado por você.


 

COOOMPRAAAR!

Gary Smalley

Histórias Para o Coração 2 138

 

 

Depois de uma discussão com minha esposa, que terminou em lágrimas, assumi o compromisso sincero de entendê-la e ter um bom relacionamento com ela. Mas não sabia por onde começar.

De repente, tive uma ideia que, no meu entender, me indicaria para receber o prêmio de Marido do Ano. Eu poderia partir em uma aventura com Norma - fazer compras, por exemplo! Claro! Minha esposa adora fazer compras. Já que eu nunca me havia oferecido para acompanhá-la, esta seria uma boa oportunidade de demonstrar todo o meu carinho. Eu poderia contratar uma babá para ficar com as crianças e levar minha esposa a um de seus lugares preferidos: um shopping-center!

Não sei ao certo quais são as mudanças emocionais e psicológicas que ocorrem dentro de minha esposa quando ela ouve a palavra shopping, mas, quando lhe revelei a minha ideia, notei que algo dramático começou a acontecer. Seus olhos se iluminaram como uma árvore de Natal, e ela vibrou de euforia - a mesma reação que tive quando alguém me deu dois ingressos para assistir a uma partida decisiva da NFL (Liga Nacional de Futebol).

Na tarde do sábado seguinte, quando Norma e eu fomos juntos ao shopping, eu me deparei, pela primeira vez, com a barreira que separa os homens das mulheres quando se trata de uma boa comunicação.

Minha descoberta abriu as portas para que eu entendesse e me relacionasse melhor com Norma... Aqui está o que aconteceu: Assim que chegamos de carro ao shopping, Norma me disse que estava precisando de uma blusa nova. Depois de estacionarmos e nos dirigirmos à primeira loja de roupas, ela escolheu uma blusa e perguntou:

- O que você acha?

- Está linda! - eu disse. - Vamos levá-Ia.

Mas, na verdade, eu estava pensando: Ótimo! Se ela comprar essa blusa, vamos voltar para casa a tempo de eu assistir ao jogo da faculdade pela TV.

Ela, porém, pegou outra blusa e disse:

- E o que você acha desta?

- É linda também! Leve essa. Ou melhor, leve as duas!

Depois que ela examinou várias blusas, saímos da loja de mãos vazias. Entramos em outra loja, e ela fez a mesma coisa. Entramos em outra. E em outra. E em mais outra!

O entra-e-sai das lojas foi-me deixando cada vez mais ansioso.

Cheguei a pensar que não perderia apenas os melhores momentos do primeiro tempo do jogo. Perderia o jogo inteiro!

Após ela ter examinado uma centena de blusas, eu já tinha certeza de que sairia perdendo. Naquele ritmo, eu perderia todos os outros jogos! E foi o que aconteceu.

Em vez de pegar uma blusa na loja seguinte, ela pegou um vestido que servia para nossa filha.

- O que você acha deste vestido para Kari? - ela perguntou.

Sobrecarregada além dos limites de qualquer mortal, minha paciência se esgotou e eu explodi:

- O que você quer dizer com "O que você acha deste vestido para Kari"? Estamos aqui para comprar blusas para você, e não vestidos para Kari!

Como se isso não bastasse, saímos daquela loja sem comprar nada, e ela me perguntou se podíamos tomar um café! Fazia 67 minutos que estávamos no shopping, o que extrapolava meu recorde de saturação de meio hora. Eu não podia acreditar - ela ainda teve paciência para sentar-se e conversar comigo sobre a vida de nossos filhos!

Naquela noite, comecei a compreender a diferença mais comum entre os homens e as mulheres. Eu não estava comprando blusas... Eu estava caçando blusas! Eu queria escolher a blusa, mandar empacotá-Ia e voltar para casa, onde havia coisas importantes para fazer, como, por exemplo, assistir ao jogo de futebol de sábado à tarde!

Minha esposa, contudo, encarava a ida ao shopping por um ângulo oposto. Para ela, o significado era mais amplo do que simplesmente comprar uma blusa. Era um jeito de passar o tempo conversando comigo, longe das crianças e dos jogos de futebol de sábado à tarde.

Assim como a maioria dos homens, eu concluí que a ida ao shopping significava mais do que uma simples compra. Para minha esposa, significava cooompraaar!


 

ACONTECEU NO METRÔ DO BROOKLYN

Paul Deutshman

Histórias Para o Coração 2 142

 

 

O vagão estava cheio e parecia não haver nenhum assento vago.

Mas, assim que entrei, um homem sentado perto da porta levantou-se para descer, e eu ocupei seu lugar.

Moro em Nova York há um bom tempo para saber que não devo puxar conversa com estranhos. Porém, por ser fotógrafo, tenho o hábito de analisar o rosto das pessoas. E os traços 6sionômicos do passageiro à minha esquerda me chamaram a atenção. Ele devia ter perto de 40 anos e, quando levantou a cabeça, notei uma expressão de sofrimento em seus olhos. Ele estava lendo um jornal em húngaro, e me senti induzido a perguntar naquele idioma:

- Você se importaria se eu desse uma olhada em seu jornal?

O homem pareceu surpreso ao ver alguém se dirigir a ele em seu idioma e respondeu educadamente:

- Pode ler o jornal agora. Depois eu leio.

Durante a meia hora de viagem até o centro da cidade, tivemos uma boa conversa. Ele disse que se chamava Bela Paskin. Quando a Segunda Guerra Mundial começou, ele era estudante de Direito.

Foi forçado a trabalhar no exército alemão e enviado para a Ucrânia.

Posteriormente, foi preso pelos russos e obrigado a enterrar os mortos alemães. Depois da guerra, ele percorreu centenas de quilômetros a pé até chegar a seu lar, em Debrecen, uma cidade grande localizada no leste da Hungria.

Eu conhecia Debrecen muito bem, e conversamos sobre a cidade por alguns instantes. Depois, ele me contou o resto de sua história.

Quando chegou ao apartamento que era ocupado por seus pais e irmãos, ele encontrou pessoas estranhas morando ali. Subiu a escada que dava acesso ao apartamento em que ele vivia com a esposa.

Também estava ocupado por estranhos. Ninguém ouvira falar de sua família.

Quando ele estava saindo, com o semblante carregado de tristeza, um menino gritou de longe:

- Paskin baesi! Paskin baesi! - cujo significado é "tio Paskin".

O menino era filho de um de seus antigos vizinhos. Ele foi até a casa do menino para conversar com seus pais.

- Sua família inteira está morta - disseram. - Os nazistas os levaram para Auschwitz, inclusive sua esposa.

Auschwitz era um dos mais terríveis campos de concentração nazista. Paskin perdeu todas as esperanças. Dias depois, abalado demais para continuar na Hungria, ele empreendeu nova viagem a pé, atravessando fronteiras e mais fronteiras, na calada da noite, até chegar a Paris. Conseguiu emigrar para os Estados Unidos em outubro de 1947, três meses antes de eu conhecê-Io.

Durante todo o tempo em que conversamos, achei que sua história me era familiar. Uma jovem que eu conhecera recentemente na casa de amigos também era de Debrecen; ela também havia sido enviada a Auschwitz e, de lá, foi transferida para trabalhar em uma fábrica alemã de armas. Seus parentes tinham sido mortos na câmara de gás. Posteriormente, ela foi libertada pelos norte-americanos e trazida para cá, em 1946, no primeiro navio de carga de refugiados.

A história dessa moça comoveu-me a tal ponto que anotei seu endereço e número de telefone, na intenção de convidá-la para conhecer minha família e ajudá-la a preencher o terrível vazio de sua vida.

Parecia impossível haver alguma ligação entre aquelas duas pessoas.... Mas, quando se aproximava a estação em que eu deveria descer, procurei ansiosamente por meu livro de endereços. Perguntei àquele homem, em um tom de voz que eu esperava fosse casual:

- O nome de sua esposa era Marya?

Ele empalideceu. - Sim! Como você sabe?

O homem parecia prestes a desmaiar.

- Vamos descer - eu disse.

Segurei-o pelo braço. Descemos na estação seguinte, e eu o conduzi a um telefone público. Ele parecia estar em transe quando disquei o número do telefone dela.

Marya Paskin demorou muito para atender. Fiquei sabendo, depois, que seu quarto ficava perto do telefone, mas ela não costumava atendê-lo, porque tinha poucos amigos e as ligações eram sempre para outra pessoa. Desta vez, contudo, não havia ninguém em casa.

Depois de deixar o telefone tocar várias vezes, ela atendeu.

Quando ouvi sua voz, eu me identifiquei e pedi-lhe que descrevesse seu marido. Marya demonstrou surpresa diante do pedido, mas o descreveu. Em seguida, perguntei onde ela morou em Debrecen, e ela me disse qual era o seu endereço ali.

Pedi-lhe que aguardasse na linha. Virei-me para Paskin e disse:

- Você e sua esposa moraram na rua tal, número tal?

- Sim! - ele exclamou. Seu rosto estava branco como um lençol, e ele tremia.

- Procure manter a calma - eu insisti. - Um milagre está prestes a acontecer. Pegue o telefone e converse com sua esposa!

Ele movimentou a cabeça afirmativamente, como se estivesse atordoado, com os olhos lacrimejantes. Pegou o telefone, ouviu a voz da esposa e gritou:

- É Bela quem está falando! É Bela! - ele repetia histericamente.

Ao ver que o pobre coitado estava tão eufórico a ponto de não poder falar com coerência, peguei o telefone de suas mãos trêmulas.

- Não saia daí - eu disse a Marya, que também parecia à beira do histerismo. - Vou levar seu marido até você. Chegaremos daqui a alguns minutos.

Bela estava chorando como um bebê e dizia sem parar:

- É minha esposa! Quero ver minha esposa!

A princípio, pensei em acompanhar Paskin, porque ele poderia desmaiar de emoção. Mas concluí que aquele era um momento no qual não deveria haver a presença de um intruso. Coloquei Paskin em um táxi, forneci o endereço de Marya ao motorista, paguei a corrida e despedi-me dele.

O encontro de Bela Paskin com a esposa foi tão comovente, tão cheio de emoções liberadas, que, tempos depois, nem ele nem Marya conseguiam recordá-Io com precisão.

- Eu só me lembro do momento em que me afastei do telefone, caminhei até o espelho, como se estivesse sonhando, para ver se meu cabelo havia embranquecido - ela disse posteriormente. - Só sei que, logo em seguida, um táxi parou em frente à minha casa e meu marido veio ao meu encontro. Não me lembro dos detalhes. É só isto que sei... que voltei a ser feliz depois de tantos anos...

- Até hoje - ela prosseguiu -, é difícil acreditar no que aconteceu.

Nós sofremos demais; ainda sinto muito medo. Cada vez que meu marido sai de casa, eu digo a mim mesma: "Será que alguma coisa vai tirá-lo de mim outra vez?" O marido dela está confiante de que nenhum mal terrível recairá sobre eles.

- A Providência nos uniu novamente - ele diz com simplicidade. - Tinha de ser assim.


 

OS AVÓS SÃO ENCANTADORES

Ema Bombeck

Histórias Para o Coração 2 146

 

 

Uma criança em idade pré-escolar, que mora em minha rua, estava curiosa a respeito dos avós. Ocorreu-me que, para uma criança, os avós são pessoas que apareceram sem nenhuma explicação, não têm deveres a cumprir e possuem poucas referências.

Eles parecem viver de acordo com o movimento da brisa.

Estas palavras, então, são destinadas aos pequeninos, que gostariam de saber o que significa ser um avô ou uma avó.

Os avós sempre estão dispostos a comprar doces para vocês, sementes de flores, cartões de felicitações de todos os tipos, fita adesiva transparente, espátulas, amendoim torrado e dez bilhetes para ganhar um pônei. (Também uma caixa de bala puxa-puxa, se eles usarem dentaduras.) Os avós ajudam você a lavar a louça quando é a sua vez de arrumar a cozinha.

Os avós são as únicas babás que não cobram hora extra depois da meia-noite - e não cobram nada antes da meia-noite.

Os avós compram presentes que sua mãe diz que você não precisa.

Os avós chegam três horas antes do seu batismo, da sua formatura ou do seu casamento; isso porque querem se sentar num lugar de onde possam ver tudo o que vai acontecer.

Os avós amam você desde quando você era um bebê careca, até ser um pai careca, e durante todo o tempo em que você teve cabelo. Os avós colocam um agasalho em você quando eles estão com frio, dão comida a você quando estão com fome e o levam para a cama quando estão cansados.

Os avós ficam orgulhosos quando você ganha o prêmio de melhor datilógrafa, o mesmo prêmio que outras 80 garotas já ganharam.

Os avós colocam numa moldura o desenho de sua mão, traçado por você, e penduram o quadro na sala de estar, decorada em estilo mediterrâneo, na casa deles.

Os avós lhe dão dinheiro escondido pouco antes do Dia das Mães.

Os avós ajudam você a abotoar as roupas, fechar o zíper e amarrar os sapatos, e dizem para você não ter pressa de crescer.

Quando você era um bebê, seus avós iam verificar se você estava chorando, mesmo quando você estava dormindo profundamente.

Quando uma criança diz: "Por que vocês não tiveram filhos?", os avós lutam para conter as lágrimas.


 

MAIS RICOS OU MAIS POBRES

Rochelle M. Pennington

Histórias Para o Coração 2 148

 

 

As esposas que moravam no Castelo de Weinsberg, na Alemanha, estavam cientes da riqueza que havia ali: ouro, prata, pedras preciosas e riqueza que ninguém podia sequer imaginar.

No ano de 1141 d.C., chegou o dia quando todo aquele tesouro ficou ameaçado. Um exército inimigo cercou o castelo e exigiu a sua posse, a tomada de toda a fortuna e a vida dos homens que ali moravam. Não havia nada a fazer, a não ser entregar-se.

Embora o comandante do exército vitorioso tivesse prometido que as mulheres e as crianças seriam libertas em segurança, as esposas que moravam no Castelo de Weinsberg recusaram-se a sair, a não ser com uma condição: elas exigiram que lhes fosse permitido encher os braços com o maior número de bens que conseguissem carregar.

Sabendo que as mulheres poderiam causar um estrago na imensa fortuna, o pedido delas foi atendido.

Quando os portões do castelo foram abertos, o exército do lado de fora comoveu-se às lágrimas. Cada mulher estava carregando seu marido.

De fato, as esposas que moravam no Castelo de Weinsberg estavam cientes de todas as riquezas que havia dentro dele.


 

CAIXAS SIMPLES DE MADEIRA

Martha Pendergrass Templeton

Histórias Para o Coração 2 149

 

 

Imagino que todos tenham vivido, na infância, um Natal mais marcante do que todos os outros. Para mim, esse Natal especial aconteceu no ano em que a fábrica Burlington, de Scottsboro, fechou as portas. Eu ainda era pequena. Não sei precisar qual foi exatamente o ano; a lembrança é como uma névoa em minha mente, mas os acontecimentos daquele Natal permanecerão para sempre em meu coração.

Meu pai, que havia sido empregado da Burlington, nunca deixou transparecer para nós que estávamos atravessando dificuldades financeiras. Afinal, as crianças vivem em um mundo de inocência, no qual o dinheiro e o emprego não passam de palavras soltas ao vento, e, para nós, a euforia do Natal jamais seria extinta. Só sabíamos que nosso pai, que normalmente trabalhava muito e até tarde da noite, agora estava sempre em casa; cada dia parecia ser um feriado.

Mamãe, uma dona-de-casa, estava procurando trabalho na fábrica de tecidos; mas os empregos eram raros. Depois de muita insistência, disseram-lhe que não havia vagas antes do Natal. Foi no caminho de casa, depois daquela angustiante entrevista, que ela acabou com o nosso único carro. O magro cheque do seguro-desemprego que papai recebia passou a ser a única fonte de renda de nossa família.

Para meus pais, o Natal trouxe montanhas de preocupações, suspiros infindos, lágrimas e muitas orações.

Não posso sequer imaginar o que aconteceu entre meus pais naqueles momentos em que seus pedidos foram atendidos. Talvez eles tenham demorado um pouco até que as ideias se formassem completamente. Talvez tenha sido uma mistura das ideias dos dois.

Não sei bem qual foi a ideia que deu certo, mas ela funcionou.

Juntos, eles economizariam dinheiro suficiente para comprar uma boneca Barbie para cada uma de nós. Para os outros presentes, eles confiariam nos seus próprios talentos, usando sobras de materiais.

Enquanto ainda era noite, mãos calejadas serravam, martelavam e pintavam; dedos ágeis confeccionavam roupinhas e mais roupinhas na máquina de costura: vestidos de noiva e camisolas para as bonecas...

roupas em miniatura para cada ocasião, produzidas sob o ruído da velha máquina de costura. Não faço ideia de onde estávamos enquanto todas aquelas coisas eram feitas. Mas, de alguma forma, meus pais encontravam tempo para trabalhar de corpo e alma em nossos presentes, e a euforia do Natal renasceu para a família inteira.

Na véspera daquele Natal, o sol estava se pondo no horizonte quando ouvi o ronco inesperado de um motor na entrada de nossa casa. Olhei para fora e mal pude acreditar no que via. Tio Buck e tia Charlene, o cunhado e a irmã de mamãe, vieram da Geórgia para fazer uma surpresa a nós. Amontoados no carro, como se não houvesse necessidade de ar para respirar, estavam meus três primos, minha "tia" Dean, que se recusava a ser chamada de "tia", meu avô e minha avó. Também não pude deixar de notar os inúmeros presentes para todos nós, muito bem embrulhados e amarrados com lindos laços. Eles souberam que aquele seria um Natal difícil para nossa família e vieram colaborar.

Na manhã seguinte, encontramos mais presentes do que poderíamos imaginar. E, apesar de não me lembrar exatamente de cada brinquedo, sei que havia uma montanha deles. Brinquedos! Brinquedos!

Brinquedos!

Foi então que, em meio a toda aquela alegria, papai decidiu que não nos entregaria seus presentes. Com tantos brinquedos, não havia motivo para nos dar as casinhas de boneca feitas por ele. Afinal, elas não passavam de caixas rústicas e vermelhas. Certamente, não eram tão bonitas quanto os presentes comprados em lojas, trazidos pela família de mamãe. Os risos encheram a manhã, e não desconfiamos de que nossos presentes estavam escondidos em algum lugar.

Quando mamãe perguntou a papai sobre os presentes, ele lhe disse o que pensava. Ela insistiu que ele nos desse os presentes. E assim, no final daquela tarde, depois que todas as visitas partiram, papai trouxe, com relutância, seus presentes de amor para a sala de estar.

Caixas de madeira. Caixas de madeira, pintadas de vermelho, com dobradiças, para que cada lado pudesse ser aberto e usado como uma casa. De cada lado havia um compartimento com tamanho suficiente para acomodar uma boneca Barbie. Um pequenino cavalete atravessava a caixa, com cabides para pendurar as roupinhas da boneca. Na parte externa, ele colocou uma alça, de modo que, quando a caixa fosse fechada por um ímã parecido com o sinal de igual, a casa pudesse ser carregada como se fosse uma maleta. Embora eu não me recorde de nenhum dos outros presentes que ganhei naquele dia, aquelas coisas ficaram gravadas indelevelmente em minha memória. Eu me lembro da textura da madeira, da exata tonalidade da tinta vermelha, do ímã que fechava a tampa, da alça escurecida pelo tempo e das dobradiças... Eu me lembro de ter pendurado carinhosamente as roupinhas nos cabides e do cuidado que tinha para não enroscar o cabelo da Barbie quando fechava a caixa. Eu me lembro de tudo o que foi possível ser registrado em minha memória, porque guardamos com carinho aquelas caixas, durante muito tempo, mesmo depois que nossas bonecas deixaram de existir.

Já vivi e apreciei muito 29 celebrações natalinas, cada uma delas com a euforia que lhe é peculiar. Cada uma recheada de amor e esperança. Cada uma trazendo presentes com os quais tanto sonhei. Mas poucos presentes se comparam àquelas caixas simples de madeira. Portanto, não é de admirar que meus olhos fiquem úmidos quando penso em meu pai, em pé, naquela manhã fria de Natal, perguntando a si mesmo se seu presente era suficientemente bom.

O amor, papai, é sempre suficientemente bom!


 

PESSOAS INCOMUNS

Jo Ann Larsen

Histórias Para o Coração 2 152

 

 

Larry e Jo Ann eram um casal comum. Moravam em uma casa comum de uma rua comum. Assim como qualquer outro casal comum, eles lutavam para viver de acordo com suas rendas e fazer o que era certo para os filhos.

Eles também eram comuns em outras situações; tinham suas brigas.

A maior parte da conversa entre eles girava em torno do que estava errado no seu casamento e na busca de descobrir de quem era a culpa.

Chegou o dia quando aconteceu uma coisa incomum.

- Jo Ann, você sabia que tenho uma cômoda mágica? Todas as vezes que abro as gavetas, elas estão cheias de meias e cuecas - disse Larry. - Quero agradecer o trabalho que você tem tido durante todos esses anos para mantê-las sempre cheias.

Jo Ann olhou espantada, por cima dos óculos, para o marido, e perguntou:

- O que você está querendo, Larry?

- Nada. Só quero que você saiba que gosto daquela cômoda mágica.

Não era a primeira vez que Larry fazia algo incomum. Então, Jo Ann esqueceu o incidente até alguns dias depois.

- Jo Ann, obrigado por ter corrigido os números dos cheques no livro caixa este mês. Havia 16 números errados e você corrigiu 15.

Isto é um recorde.

Sem acreditar no que ouvia, Jo Ann desviou o olhar dos remendos que estava fazendo.

- Larry, você está sempre reclamando que eu registro errado os números dos cheques. Por que você está me dizendo isto agora? - Por nada. Eu só queria que você soubesse que gostei de seu empenho.

Jo Ann sacudiu a cabeça e voltou a concentrar-se em seus remendos.

- O que houve com ele? – ela resmungou.

Contudo, no dia seguinte, enquanto estava preenchendo um cheque na mercearia, Jo Ann olhou mais uma vez no talão para confirmar se havia anotado o número certo do cheque.

- Por que passei, de repente, a me preocupar com esses números idiotas? - ela perguntou a si mesma.

Jo Ann tentou esquecer o fato, mas o comportamento estranho de Larry intensificou-se.

- Jo Ann, o jantar estava excelente - ele disse uma noite. - Gostei de ver que você está se esforçando. Aposto que nos últimos 15 anos você já preparou 14 mil refeições para mim e para as crianças.

- Que maravilha, Jo Ann! A casa está impecável. Você tem trabalhado muito para deixar tudo tão limpo. Obrigado, Jo Ann, por ser tão autêntica. Eu aprecio sua companhia.

Jo Ann foi ficando cada vez mais preocupada. Onde está o sarcasmo, a crítica? - ela pensava.

- Seus temores de que algo estranho estivesse acontecendo com o marido foram confirmados por Shelly, sua filha de 16 anos, que comentou:

- O papai deve estar meio pirado, mamãe. Ele me disse que eu estava muito bonita. Com toda esta maquiagem e estas roupas esquisitas que eu uso, ele me disse isso. Aquele não é o meu pai, mamãe. O que está havendo com ele?

Fosse o que fosse, Larry não desistiu. Dia após dia, ele continuava a concentrar-se no positivo. Passadas semanas, Jo Ann começou a acostumar-se com a maneira estranha do marido e, vez por outra, resmungava um "obrigada". Ela se orgulhava de ter vencido a situação até o dia em que algo tão peculiar aconteceu que a deixou completamente desnorteada:

- Quero que você descanse um pouco - disse Larry. - Vou lavar a louça. Tire as mãos dessa frigideira e saia da cozinha.

(Uma longa, longa pausa.) - Obrigada, Larry. Muito obrigada!

Agora, os passos de Jo Ann eram mais leves, sua autoconfiança aumentou e, de vez em quando, ela assobiava. Não havia mais momentos de mau humor.

Estou gostando do novo comportamento de Larry, ela pensava.

A história terminaria aqui se não tivesse havido outro acontecimento mais extraordinário ainda. Desta vez foi Jo Ann quem falou:

- Larry - ela disse. - Quero agradecer o trabalho que você tem tido para cuidar de nós durante todos esses anos. Acho que nunca cheguei a dizer quanto eu aprecio tudo isso.

Por mais que Jo Ann tivesse insistido em achar uma resposta, Larry nunca revelou o motivo daquela mudança radical em seu comportamento. Assim, este fato permanecerá como um dos mistérios da vida. Mas trata-se de um mistério que agradeço estar vivendo.

Veja só, Jo Ann sou eu.


 

50 PROMESSAS PARA O CASAMENTO

Steve Stephens

Histórias Para o Coração 2 155

 

 

1. Iniciar cada dia com um beijo.

2. Usar aliança o tempo todo.

3. Jantar fora uma vez por semana.

4. Aceitar as diferenças.

5. Ser cortês.

6. Ser gentil.

7. Oferecer presentes.

8. Sorrir com freqüência.

9. Tocar um no outro.

10. Conversar sobre projetos.

11. Escolher uma canção que seja tia nossa canção".

12. Acariciar as costas um do outro.

13. Rir das mesmas coisas.

14. Enviar um cartão sem nenhum motivo especial.

15. Fazer a vontade dele ou dela.

16. Ouvir com atenção.

17. Incentivar.

18. Agir de acordo com o jeito dele ou dela.

19. Conhecer as necessidades um do outro.

20. Preparar o café da manhã dele ou dela.

21. Trocar elogios duas vezes por dia.

22. Telefonar para ele ou para ela durante o dia.

23. Deixar a pressa de lado.

24. Andar de mãos dadas.

25. Trocar carinhos.

26. Pedir a opinião do outro.

27. Demonstrar respeito.

28. Ser cordial quando o outro chega em casa.

29. Cuidar da aparência.

30. Piscar um para o outro.

31. Celebrar os aniversários com uma grande comemoração.

32. Pedir desculpas.

33. Perdoar.

34. Planejar uma "fuga" romântica.

35. Perguntar: "O que posso fazer para deixar você mais feliz"?

36. Ser uma pessoa positiva.

37. Ser uma pessoa bondosa.

38. Ser vulnerável.

39. Atender rapidamente ao pedido do outro.

40. Conversar sobre o amor entre vocês.

41. Recordar os bons momentos da vida em comum.

42. Tratar os amigos e parentes do outro com cortesia.

43. Enviar flores no Dia dos Namorados e no aniversário de casamento.

44. Admitir os próprios erros.

45. Ser sensível aos desejos sexuais do cônjuge.

46. Orar um pelo outro diariamente.

47. Contemplar o pôr-do-sol ao lado do cônjuge.

48. Dizer, com freqüência: "Eu amo você."

49. Terminar o dia com um abraço.

50. Procurar ajuda fora do lar quando necessário.


 

O TESOURO

Alice Gray

Histórias Para o Coração 2 156

 

 

A garotinha muito esperta, de cabelos loiros e encaracolados, tinha quase cinco anos. Enquanto aguardava com a mãe na fila do caixa, ela avistou um colar de pérolas brancas e reluzentes, dentro de uma caixa comum cor-de-rosa.

- Oh, por favor, mamãe! Posso comprar? Por favor, mamãe, por favor!

A mãe verificou rapidamente o preço marcado na embalagem e virou-se para a garotinha de olhos azuis, que a fitava com grande ansiedade.

- Um dólar e noventa e cinco centavos. Quase dois dólares. Se você quiser realmente essas pérolas, acho que vai ter de fazer alguns trabalhos extras em casa para ganhar dinheiro suficiente para comprá-las você mesma. Ainda falta uma semana para o seu aniversário, e talvez você ganhe uma- nota de um dólar da vovó.

Assim que entrou em casa, Jenny esvaziou seu cofrinho de moedas e contou: 17 centavos. Depois do jantar, ela ajudou nas tarefas da casa um pouco mais que o normal e dirigiu-se à casa da vizinha, a Sra. McJames, para lhe perguntar se poderia arrancar algumas ervas daninhas do jardim, por dez centavos. No dia de seu aniversário, a vovó lhe deu a nota de um dólar, e, finalmente, Jenny ajuntou dinheiro suficiente para comprar o colar.

Jenny gostava demais de pérolas. Elas faziam-na sentir bem vestida e com aparência de adulta. Usava o colar em todos os lugares - na Escola Dominical, no jardim de infância e até para dormir. Só o tirava do pescoço quando nadava ou tomava banho de imersão. Sua mãe lhe disse que, se as pérolas molhassem, poderiam manchar o pescoço de verde.

O pai de Jenny era muito carinhoso. Todas as noites, quando ela ia dormir, ele parava tudo o que estivesse fazendo, ia até o quarto da menina, no andar de cima da casa, e lia uma história para a filha. Uma noite, assim que terminou a história, ele perguntou a Jenny:

- Você me ama?

- Claro, papai. Você sabe que sim.

- Então, me dê as suas pérolas.

- Ah, papai, as minhas pérolas, não. Você pode ficar com a Princesa, aquela égua branca de minha coleção. Aquela que tem a cauda cor-de-rosa. Você sabe qual é, papai? Aquela que você me deu.

Ela é minha favorita.

- Está bem, querida. O papai ama você. Boa-noite - ele disse, dando-lhe um beijo no rosto.

Cerca de uma semana depois, assim que a história terminou, o pai de Jenny perguntou novamente:

- Você me ama?

- Claro, papai. Você sabe que sim.

- Então, me dê as suas pérolas.

- Ah, papai, as minhas pérolas, não. Você pode ficar com a minha boneca. Aquela que ganhei no meu aniversário. Ela é linda, e você pode ficar também com o cobertor amarelo que combina com o pijaminha dela.

- Está certo. Durma bem. Deus a abençoe, pequenina. Papai ama você.

E, como sempre, ele a beijou no rosto.

Algumas noites depois, quando o pai entrou no quarto, Jenny estava sentada na cama, com as pernas cruzadas. Quando se aproximou, ele notou que o queixo da filha tremia, e uma lágrima silenciosa rolava por seu rosto.

- O que foi, Jenny? Qual é o problema?

- Sem dizer nada, Jenny estendeu a mãozinha para o pai. Ao abri-la, lá estava o colar de pérolas. Com a voz embargada, ela conseguiu dizer:

- Aqui estão, papai. São suas.

Com os olhos lacrimejando, o bondoso pai de Jenny pegou a bijuteria barata com uma das mãos e enfiou a outra mão no bolso, de onde tirou um estojo de veludo azul, que continha um colar de pérolas verdadeiras, e o entregou a Jenny. O colar sempre tinha estado em seu bolso. Ele estava apenas aguardando que a filha lhe desse a bijuteria para poder oferecer-lhe o tesouro verdadeiro.

O nosso pai celestial faz o mesmo conosco!

AQUELE CACO DE PORCELANA

Bettie B. Young

 

 

Um dia, quando eu tinha cerca de nove anos, minha mãe precisou viajar até a cidade mais próxima e incumbiu-me de cuidar de meus irmãos e irmãs. Assim que ela se afastou com o carro, corri até seu quarto e abri o armário para bisbilhotar.

Na primeira gaveta, debaixo de algumas roupas macias e cheirosas de adultos, havia uma pequena caixa de joias, feita em madeira. Eu me encantei com aqueles tesouros: um anel de rubi, que minha mãe recebeu de herança de sua tia predileta; brincos de pérola, que pertenceram à minha avó; a aliança de minha mãe, que ela tirava para lidar na fazenda quando ajudava meu pai.

Experimentei todas as peças, povoando minha mente com fantasias maravilhosas, sonhando em ser uma mulher bonita como minha mãe e usar aquelas joias delicadas.

De repente, notei que havia alguma coisa escondida debaixo do veludo vermelho que forrava a tampa da caixa. Levantei o tecido e encontrei um caco de porcelana branca.

Peguei-o sem entender por que motivo minha mãe guardava aquele caco. Apesar de ter um leve brilho sob a luz, ele não me dizia nada.

Alguns meses depois, enquanto eu arrumava a mesa para o jantar, nossa vizinha Marge bateu na porta. Mamãe estava ocupada no fogão e gritou para que ela entrasse. Ao ver a mesa arrumada, Marge disse:

- Ah! vocês estão esperando visitas. Eu volto outra hora.

- Não, entre - disse mamãe. - Não estamos esperando ninguém.

- Mas essa não é a sua melhor porcelana? - Marge perguntou.

- Eu nunca permito que as crianças manuseiem minhas louças finas!

Mamãe riu. - Hoje vou servir o prato preferido de minha família.

Se, quando temos convidados, nós arrumamos uma mesa especial, por que não fazer o mesmo com nossa família?

- Mas essa porcelana é linda demais! - exclamou Marge.

- Ora - disse mamãe -, alguns pratos quebrados não significam nada diante da alegria que sentimos quando os usamos. - Em seguida, ela complementou: - Além disso, cada trinca e cada caco tem uma história para contar.

Mamãe esticou o braço e retirou do armário um prato velho, com os cacos colados.

- Este aqui quebrou no dia em que trouxemos Mark da maternidade - ela explicou. - Que tarde fria e divertida foi aquela!

Judy tinha apenas seis anos, mas queria colaborar. Ela derrubou o prato no chão, quando o levava até a pia. A princípio, fiquei aborrecida, mas, em seguida, disse a mim mesma: "Não vou permitir que um prato quebrado estrague a felicidade que estamos sentindo com a chegada de mais um bebê." Todos nós nos divertimos muito colando os cacos!

Marge parecia que estava duvidando daquilo que ouvia.

Mamãe abriu o armário novamente e retirou outro prato. Ela o segurou e disse:

- Você está vendo esta beirada lascada? Aconteceu quando eu tinha 17 anos.

A voz dela abrandou-se.

- Estávamos no outono. Meus irmãos precisavam recolher o último fardo de feno e contrataram um moço para ajudá-los. Ele era magro, loiro e tinha braços fortes. E aquele sorriso maravilhoso. Meus irmãos gostaram dele e o convidaram para jantar. Quando meu irmão mais velho o fez sentar-se ao meu lado, fiquei tão constrangida que quase desmaiei.

De repente, ao se lembrar de que estava contando a história para sua filha e para uma vizinha, mamãe corou e concluiu, apressadamente:

- Ele me passou este prato e me pediu para servi-lo. Fiquei tão nervosa quando peguei o prato que ele escorregou e bateu na tigela.

- Parece uma lembrança que eu gostaria de esquecer - disse Marge.

- Oh, não - rebateu minha mãe. - Quando estava saindo, o moço aproximou-se de mim, segurou minha mão na dele e colocou dentro dela um caco de porcelana. Não disse uma só palavra. Apenas deu aquele sorriso lindo. Um ano depois, eu me casei com ele. E, até hoje, quando vejo este prato, eu me recordo com carinho do momento em que o conheci.

Ao me ver com os olhos fixos nela, mamãe piscou para mim. Em seguida, colocou cuidadosamente o prato atrás dos outros, num lugar reservado só para ele.

Eu não conseguia esquecer aquele prato lascado. Na primeira oportunidade, subi ao quarto de mamãe e peguei novamente a caixa de joias. Lá estava o caco de porcelana.

Depois de examiná-Io atentamente, corri até o armário da cozinha, subi em uma cadeira e peguei o prato. Conforme eu havia adivinhado, o caco que mamãe guardava com tanto carinho pertencia ao prato que ela quebrou quando conheceu meu pai.

Sabendo da história e respeitando-a, recoloquei cuidadosamente o caco na caixa de joias.

A história de amor que começou com aquele caco está completando 54 anos. Recentemente, uma de minhas irmãs perguntou a mamãe se aquele antigo anel de rubi poderia vir a ser dela um dia. Minha outra irmã gostaria de ficar com os brincos de pérola de vovó.

Quanto a mim, eu gostaria de herdar a joia mais preciosa de mamãe - lembrança de uma extraordinária vida de amor: aquele caco de porcelana.


 

UM TOQUE DE CARINHO

Daphna Renan

 

 

Michael e eu mal notamos quando a garçonete se aproximou e colocou os pratos em nossa mesa. Estávamos sentados em uma pequena lanchonete afastada do burburinho da Rua Três, em Nova York. Nem mesmo o agradável aroma dos blintzes (espécie de panqueca), colocados recentemente sobre a mesa, conseguiu desviar nossa atenção, e continuamos a conversar animadamente. Os blintzes ficaram mergulhados no molho por um bom tempo. Estávamos enlevados demais para pensar em comer.

Nossa conversa era animada e - por que não dizer? - profunda.

Rimos ao comentar o filme a que assistimos na noite anterior e discutimos o significado que havia por trás do texto que escrevemos para nosso seminário sobre literatura. Ele descreveu o momento em que deu um passo drástico rumo à maturidade quando se recusou a continuar sendo chamado de "Mikey" e passou a ser Michael. Teria ele 12 ou 14 anos? Michael não se lembrava. Só sabia que sua mãe começou a chorar e disse que ele estava crescendo rápido demais.

Quando, finalmente, demos uma mordida em nossos blintzes de blueberry (frutinha azul ou preta, de formato redondo), eu lhe contei sobre os blueberries que minha irmã e eu costumávamos colher quando visitávamos nossos primos no campo. Lembrei que quase sempre eu devorava minhas frutinhas antes de voltarmos para casa, e minha tia me advertia que eu poderia ficar com dor de estômago. É claro que isso nunca aconteceu.

Enquanto nossa agradável conversa prosseguia, meu olhar percorreu a lanchonete e parou em uma mesa de canto, onde havia um casal de idosos. O vestido de estampa florida que a mulher usava parecia tão desbotado quanto a almofada sobre a qual ela pousara sua bolsa surrada. O topo da cabeça do homem era tão liso quanto o ovo quente que ele mordiscava lentamente. Ela também comia em ritmo lento e monótono o seu mingau de aveia.

Porém, o que mais me chamou a atenção foi o silêncio aterrador que reinava entre eles. Tive a impressão de que existia um vazio melancólico naquela mesa. Enquanto a conversa entre mim e Michael, passava de risadas a sussurros, de confissões a afirmações, o silêncio comovente daquele casal era digno de nota. Que tristeza, pensei, não ter sobrado mais nada para dizer! Será que eles já haviam virado todas as páginas da história da vida de cada um? E se o mesmo acontecesse conosco?

Michael e eu pagamos a conta e nos levantamos para sair.

Quando passamos pelo canto onde o casal estava sentado, derrubei acidentalmente minha carteira no chão. Ao abaixar-me para pegá-Ia.

notei que, debaixo da mesa, a mão livre de cada um estava segurando carinhosamente a do outro. Eles estavam de mãos dadas o tempo todo!

Endireitei o corpo e recebi uma lição de humildade diante daquele gesto de afeto, simples, porém profundo, que eu acabara de ter o privilégio de presenciar. O carinho com que aquele homem segurava a mão cansada da esposa preencheu não penas o vazio que imaginei haver entre eles, mas o meu coração também. O silêncio entre eles não era do tipo constrangedor que ameaça preencher o vazio que se segue ao final de uma anedota contada no primeiro dia de namoro.

Não, o silêncio deles trazia o conforto, a tranqüilidade e o carinho que não necessitam de palavras para serem expressos. Provavelmente, eles já estavam acostumados a passar essas primeiras horas da manhã juntos, e talvez o dia de hoje não estivesse sendo diferente do dia de ontem. Mas eles se sentiam em paz com isso e em paz um com o outro.

Talvez, pensei enquanto Michael e eu saíamos da lanchonete, fosse até bom que isso acontecesse conosco um dia. Talvez isso fosse encantador!


 

QUANDO OS FILHOS CRESCIDOS VÊM NOS VISITAR

Erma Bombeck

 

 

Nos velhos tempos, eu era o tipo de mãe que fazia os filhos arrumarem seus quartos, prepararem os lanches e colocarem a roupa suja no cesto. Agora, quando eles chegam, deixo essas regras de lado. Pareço uma recepcionista de hotel à espera de uma boa gorjeta. Ando atrás deles o tempo todo perguntando: "Vocês estão com fome? Posso ajudar em alguma coisa? Vocês têm roupa suja para lavar?" Sento-me à mesa quando eles estão com fome. Enquanto cozinho seus pratos preferidos, fico sabendo que eles vão sair com amigos e observo, desanimada, quando os vejo comer meio quilo de pernil assado às 3 horas da tarde.

Quando eles me visitam, minha vida muda. Meu carro desaparece.

Minha máquina de lavar roupa fica ligada no máximo só com um par de meias e uma camiseta dentro dela. O telefone toca o tempo todo, e nunca é para mim.

No final de sua visita, separamos um dia para empacotar o lanche e nos dirigirmos ao aeroporto. Só quando volto para casa é que percebo como minha vida se tornou ordeira. Eu gosto de tranquilidade. O botão do aparelho de TV é resgatado no meio do cesto de roupas sujas e retorna a seu lugar. Os recipientes vazios de leite e suco são retirados da geladeira. As toalhas molhadas são colocadas na máquina de lavar. O banheiro retoma a seus padrões normais.

Meu mundo voltou a ser o mesmo. Então, por que estou chorando?


 

FUGINDO DOS PROBLEMAS

Christopher de Vinck

 

 

Finalmente, eu consegui. As crianças estavam falando alto demais, irritadas, impossíveis. Eu estava cansado e mal humorado. Minha esposa estava cansada e mal-humorada. Resolvi sair de casa e ter um dia só para mim. Queria ser paparicado por mim mesmo. Queria ter um dia em que eu pudesse fazer tudo o que desejasse. Eu ia viver intensamente aquele dia, da maneira que mais me agradasse. Não daria atenção a ninguém, a não ser a mim mesmo.

Saí de casa com 50 dólares no bolso. Que bom! Consegui!, eu disse a mim mesmo, enquanto dirigia meu carro pela auto-estrada rumo ao norte.

Parei num shopping e passei momentos emocionantes dentro de uma livraria, comprando uma coleção de poemas de Walt Whitman.

Depois de dirigir o carro por um bom tempo, parei no McDonald's e pedi dois hambúrgueres, uma porção generosa de batatas fritas "ó para mim e um refrigerante "ó para mim. Comi e bebi "em ser interrompido, sem ter de dar meu picles a alguém, sem ter de limpar a boca, o nariz ou o colo de ninguém. Em seguida, comprei o maior sorvete de chocolate que encontrei.

Eu estava livre. Estava longe de minha cidade. Fui ao cinema e assisti ao filme, sem ter de comprar pipoca, sem ter alguém sentado em meu colo, sem ter de levar alguém ao banheiro. Eu era um homem livre! Estava aproveitando aquela liberdade. E sentindo-me totalmente infeliz.

Quando voltei para casa, todos estavam dormindo. Enquanto eu me deitava em silêncio, minha esposa sussurrou:

- Sentimos sua falta.

- Eu também - respondi.

Nunca mais saí de casa para fugir dos problemas.


 

POR QUE MINHA ESPOSA COMPROU ALGEMAS

Philip Gulley

 

 

Quando eu tinha 23 anos, tomei a melhor decisão de minha vida. Pedi em casamento uma mulher bonita e engenhosa. E ela aceitou, contrariando os conselhos de suas amigas, de sua família e de uma boa parte dos habitantes do mundo ocidental. No dia do nosso casamento, as damas de honra usaram roupa preta.

Por oito anos, eu fui um exemplo de responsabilidade. Trabalhava muito. Enxugava a louça. Abaixava a tampa do vaso sanitário. Logo depois, minha esposa engravidou. Passei a frequentar cursos de gravidez e aprendi a ser solidário. Quando levamos Spencer para casa, eu me levantava à noite com minha esposa para alimentá-Io. E, quando ele regurgitava em mim, eu agia com bom humor.

Três meses depois do parto, Joan voltou a trabalhar fora, em seu emprego de meio expediente. Na manhã do primeiro dia de trabalho, ela me alertou para ficar de olho em nosso filho. Senti-me ofendido e disse a ela:

- Por favor, querida, será que já não provei que sou um pai confiável?

Por isso, penso que foi a desconfiança de minha esposa que me fez esquecer de levar meu filho comigo quando fui à mercearia naquela tarde.

Eu já estava a caminho da mercearia quando olhei ao redor. Ele não se encontrava ali! Corri para casa e o encontrei no berço, olhando-me com ar carrancudo. Eu sabia o que ele diria quando aprendesse a falar. Confessei meu erro a Joan em um jantar à luz de velas, presenteando-a com uma nova pulseira de prata.

Por ser cristã, Joan perdoou-me e deu-me mais uma chance. Na manhã seguinte, após ter-me algemado a Spencer, ela disse:

- Querido! eu confio em você.

Ao refletir sobre esta experiência, aprendi duas lições: A primeira é que ter filhos causa um dano irreparável às áreas do cérebro relacionadas com a memória; e a segunda... ah... qual é mesmo a segunda? Ah, sim, a segunda é: Às vezes, todos nós nos sentimos esquecidos.

Na verdade, aprendi a segunda lição quando era criança. Durante uma viagem de carro, minha família também se esqueceu de mim.

Estávamos de férias - cinco crianças, mamãe e papai - e paramos para comer no Stuckey' s. Eu estava no banheiro quando eles entraram no carro e partiram. Só depois de rodarem mais de 30 quilômetros foi que notaram a falta de um dos filhos. Fizeram uma votação e decidiram voltar para me buscar. A votação quase empatou, mas mamãe mudou de ideia no último minuto.

Às vezes, então, podemos nos sentir esquecidos. O texto mais triste da Bíblia é aquele quando Cristo pergunta a Deus por que Ele o abandonou. Se Cristo sentiu-se desamparado, como é que n6s podemos deixar de nos sentir esquecidos e abandonados?

Alguns estudiosos da Bíblia dizem que não foi isso que Jesus quis dizer, quando clamou na cruz. Eles dizem que Jesus estava citando a primeira frase do Salmo 22, e que repetiu aquelas palavras para confirmar a conclusão vitoriosa daquele salmo. Tenho um grande respeito pelos estudiosos da Bíblia, mas eles estão redondamente enganados a respeito disso. Penso que Jesus se sentiu esquecido. Contudo, o túmulo vazio nos prova que Ele foi lembrado.: O mesmo acontece conosco. E é isso que vou contar a meu filho assim que me lembrar de onde eu o deixei.


 

ATAREFADO DEMAIS

Ron Mehl

 

 

Nunca me esquecerei do dia em que vi, da sala de estar, nosso filho mais novo, Mark, chegando da escola debaixo de chuva.

Mark estava no terceiro ano e recebera permissão para ir de bicicleta à escola, localizada em nosso bairro. Naquele dia, cheguei mais cedo da igreja e estava sentado numa poltrona perto da janela. A chuva caía lá fora, e vi meu filho ao longe, caminhando com dificuldade debaixo d'água. Ele estava com as roupas completamente encharcadas e o cabelo grudado na cabeça. Assim que abri a porta, ele olhou para mim e deu um leve sorriso, com o rosto vermelho por causa do frio.

- Oi, papai! - ele disse. - Você chegou mais cedo.

- Oi, meu filho ! Você está encharcado até os ossos.

- É, eu sei.

- Mark, se você tivesse ido de bicicleta à escola, teria voltado para casa mais depressa. E não teria ficado tão molhado assim.

Ele olhou para mim com ar de timidez, enquanto os pingos da chuva escorriam do cabelo, molhando seu rosto.

- Eu sei, papai.

Fiquei desconcertado e continuei, como que ponderando com Mark:

- Filho, se você sabe, por que não foi de bicicleta?

Ele abaixou a cabeça e, de repente, eu compreendi. Rapaz, eu queria esconder-me debaixo da mesa e ficar ali por um bom tempo.

Ele me havia dito várias vezes que o pneu de sua bicicleta estava furado. Chegou a me pedir:

- Papai, você poderia consertar o pneu para mim?

- Claro, filho - eu havia respondido. - Não se preocupe. Vou cuidar disso imediatamente.

Mas não fiz nada. Esqueci-me completamente.

Enquanto meu filho continuava ali, na entrada da casa, encharcado e tremendo de frio, ele poderia ter dito: "Não fui de bicicleta porque alguém me prometeu que consertaria o pneu, mas não consertou." Ele tinha todo o direito de dizer isso. Mas não disse. Sua resposta permanece gravada indelevelmente no coração do pai dele.

- Ah, papai, eu sei que você é atarefado demais, tem muitas coisas para fazer e não quis aborrecer você mais uma vez.

Filho, eu pensei, seu pai não é atarefado demais, ele é egoísta demais.

Para mim, um pneu de bicicleta não representava nenhum problema importante - era apenas um item a mais em minha longa lista de "coisas para fazer". Mas, para Mark, significava mais do que um meio de transporte. Significava mais do que uma longa caminhada debaixo de chuva. Significava confiar que seu pai atenderia às suas necessidades.


 

QUANDO A LUA NÃO BRILHA

Ruth Senter

 

 

No leste da Pensilvânia, geralmente, há um luar brilhante nas noites claras do mês de maio. Porém, nesta noite a lua não apareceu. O céu está escuro. Observo círculos marrons sob a luz do hall, quando chegamos às 2 horas da manhã de Illinois. Minha mãe vem nos receber. Observo também círculos marrons sob os olhos dela. Marcas que nunca notei. Pele cansada e rugosa.

Mas lá está ela, minha mãe há 40 anos. Percebo um acúmulo de noites mal dormidas, enquanto ela aguardava a chegada dos filhos, como se os anos tivessem lançado sombras da lâmpada em seu rosto.

Vejo o passar dos anos nas veias pretas e azuis que, exatamente nesta semana, foram submetidas ao cateter do cardiologista. Ouço o passar dos anos - da mesma forma que o barulho do mar ressoa numa concha - no diagnóstico médico. "Muita cautela... coração dilatado... diminuir o ritmo..." Arregalo os olhos diante das incertezas. Ao longo da vida, mamãe tem sido uma mulher de pulso firme. O futuro tem sido uma promessa garantida - vários casamentos na família, nascimentos, formaturas, recitais de música, ordenações, Natal, Páscoa, Dia de Ação de Graças. O tempo tem sido um evento, não uma sequência.

Quando olho para mamãe, percebo que alguém deu corda no relógio. Agora, o tempo tem uma cadência. Os anos foram sendo adicionados. A história tem um começo e um fim. Tremo de frio na manhã gelada. Mas os braços de mamãe me envolvem calorosamente, e estou em casa. Uma filha de 40 anos tranquilizando-se diante do toque carinhoso da mãe. Não existe tempo para um toque carinhoso.

Os braços acolhedores não conhecem o passar dos anos.

Ouço o borbulhar da água fervendo na chaleira. Biscoitinhos de lascas de chocolate recém-saídos do forno esperam para ser devorados no prato de louça resistente que, um dia, serviu biscoitinhos preparados na cozinha da vovó Hollinger. Os biscoitinhos de lascas de chocolate feitos por mamãe e o prato de louça da vovó Hollinger transportam-me no tempo. Bebericamos chá de hortelã e rimos de uma história boba contada por papai. Nossas risadas nos fazem esquecer do relógio. Não existe tempo para risadas. Mamãe é a que mais ri. Círculos escuros. Círculos cansados, porém alegres. Seus filhos estão em casa.

Por alguns instantes, eu me esqueço das veias maltratadas pelo cateter e do tique-taque do relógio. Estou presa a coisas que não mudam - uma calorosa recepção matinal feita por minha mãe, biscoitinhos de lascas de chocolate recém-saídos do forno, prato de louça, chá de hortelã, relógio na cornija da lareira e risadas. Estou presa a um Deus que não muda. Sei que o Deus que governa o tempo está acima do tempo. Esta noite, vejo no rosto de minha mãe o estranho paradoxo entre o tempo medido e o tempo que não pode ser medido. Um raro vislumbre das coisas divinas.


 

DIA DOS PAIS: UMA HOMENAGEM

Max Lucado

 

 

Hoje é Dia dos Pais. Um dia para colocar perfume. Um dia de abraços, gravatas novas, telefonemas de longa distância e cartões requintados.

Hoje é o meu primeiro Dia dos Pais sem pai. Durante 31 anos, eu tive pai. Um dos melhores pais. Mas agora ele se foi. Está sepultado debaixo de um antigo carvalho, num cemitério no oeste do Texas.

Apesar de ele ter ido embora, sua presença está muito próxima principalmente hoje.

Parece estranho ele não estar aqui. Acho que é porque ele nunca tinha ido embora. Estava sempre por perto. Sempre disponível.

Sempre presente. Suas palavras não eram nenhuma novidade. Suas realizações, apesar de admiráveis, não eram extraordinárias.

Mas sua presença era.

Assim como uma aconchegante lareira de uma casa espaçosa, ele era um oásis reconfortante. Assim como um resistente balanço para crianças na varanda, ou um olmo frondoso no quintal, ele sempre podia ser encontrado... e tinha sempre um ombro amigo.

Durante os anos turbulentos de minha adolescência, papai foi uma parte previsível de minha vida. Enquanto uma namorada ia e outra vinha, papai estava presente. A paixão pelo futebol transformou-se em paixão pelo beisebol e voltou a ser pelo futebol, e papai sempre estava presente. Férias de verão, datas comemorativas da família, álgebra, primeiro carro, jogos de basquete longe de casa - tudo isso tinha uma coisa em comum: sua presença.

E, por ele estar presente, a vida transcorria calmamente. O carro sempre rodava em ordem, as contas eram pagas, a grama estava sempre aparada. Por ele estar presente, o riso era fácil e o futuro, garantido. Por ele estar presente, meu desenvolvimento foi aquele que Deus planejou para mim; um livro de histórias de leitura rápida através da magia e do mistério do mundo.

Por ele estar presente, nós, as crianças, nunca nos preocupamos com imposto de renda, caderneta de poupança, pagamento das contas do mês ou hipotecas. Estes eram assuntos restritos à escrivaninha de papal.

Temos um grande número de fotografias da família sem ele. Não porque ele estivesse ausente, mas porque estava sempre por trás da câmera.

Ele tomava decisões, apartava brigas, ria de uma boa piada, lia o jornal todas as noites, e preparava o café da manhã nos domingos. Não fazia nada diferente. Fazia apenas o que os pais devem fazer estar presente.

Ele me ensinou a fazer a barba e a orar. Ajudou-me a decorar versículos para a Escola Dominical e me ensinou que as coisas erradas devem ser punidas e as coisas certas têm sua merecida recompensa.

Ele nos deu o exemplo sobre a importância de levantar cedo e se manter afastado de dívidas. Sua vida exemplificou o complicado equilíbrio entre a ambição e a autoaceitação.

Penso nele quase sempre. Quando sinto a fragrância da colônia pós-barba "Old Spice", lembro-me dele. Quando vejo um barco de pesca, vejo seu rosto. E, vez por outra, não sempre, mas vez por outra, quando alguém conta uma boa piada, eu ouço sua risada. Ele tinha uma risada característica, sempre acompanhada de um largo sorriso e de sobrancelhas arqueadas.

Papai nunca me disse nada sobre sexo, nem me contou a história de sua vida. Mas eu tinha certeza de que, se quisesse saber, ele me contaria. Bastaria eu pedir. E eu sabia que, se necessitasse dele, ele estaria presente.

Como uma lareira aconchegante.

Talvez seja por isso que este Dia dos Pais está um pouco frio. O fogo da lareira apagou. Os ventos da idade engoliram a última chama maravilhosa, deixando apenas brasas douradas. Existe, porém, uma coisa estranha naquelas brasas: basta atiçá-las para que a chama volte a brilhar. Seu brilho será rápido, mas ela brilhará. E terá calor suficiente para afastar um pouco o ar frio e me fazer lembrar que ele ainda está... de maneira especial, muito presente.


 

AJUDANTE DE PAPAI

Ron Mehl

 

 

Um menino estava ajudando o pai a transportar alguns livros do sótão para um cômodo mais espaçoso, no pavimento inferior da casa. Era muito importante para o menino ajudar seu pai, embora ele estivesse mais atrapalhando e retardando as coisas do que colaborando. Mas aquele menino tinha um pai sábio e paciente, que sabia que era mais importante contar com a colaboração do filho pequeno do que transportar uma pilha de livros com eficiência.

Mas, entre os livros daquele homem, havia algumas obras de estudo muito volumosas, e o menino teve dificuldade para descer a escada com elas. A bem da verdade, o menino chegou a derrubar a mesma pilha de livros várias vezes. Ele sentou-se na escada e chorou de frustração. Não estava ajudando em nada. Não tinha força suficiente para carregar os livros grandes em uma escada estreita.

Era doloroso para ele pensar que não podia ajudar o pai.

Sem dizer uma só palavra, o pai pegou a pilha de livros do chão, colocou-a nos braços do menino. Em seguida, colocou o menino com os livros nos braços e desceu a escada. E assim eles continuaram a transportar os livros, divertindo-se por estar na companhia um do outro. O menino carregava os livros. O pai carregava o menino.


 

O PRESENTE

George Parler

 

 

Era a nossa vez de abrir os presentes naquela manhã de Natal.

A sala de visitas já estava coberta de papéis dilacerados pelas crianças, ávidas por verem os tesouros escondidos que as atormentaram por quase um mês. Agora, nós, os adultos, estávamos sentados ao redor da sala com os presentes a nossos pés, retirando lentamente os papéis de presente e, ao mesmo tempo, controlando nosso instinto infantil e tentando manter a dignidade diante dos adultos.

Minha esposa, Brenda, e sua família tinham o costume de trocar presentes cômicos. Isto sempre me deixava um tanto embaraçado no Natal ou no meu aniversário, sem saber que tipo de brincadeira me aguardava sob o papel de presente.

Uma de minhas filhas, Christy, com seis anos na época, estava sentada bem à minha frente. A euforia do momento reluzia em seu rosto. Ela se controlava ao máximo para não me ajudar a rasgar o papel de cada presente. Finalmente, chegou a vez de abrir o último.

E, com meu talento natural de Sherlock Holmes, deduzi que aquele deveria ser o presente cômico, porque com a família de minha esposa não havia a pergunta "se"; a pergunta era "quando". Com todos os olhares fixos em mim, decidi ir em frente - só para dar a eles a oportunidade de uma boa gargalhada - e rasguei o papel. E lá estava o presente... um aviãozinho de brinquedo com cerca de cinco centímetros de comprimento. Nossos convidados começaram a rir quando olhei para minha esposa com um sorriso malicioso e disse:

- Um aviãozinho de brinquedo? Faça-me o favor!

Brenda lançou-me aquele olhar - um olhar que sempre me dizia para eu me "mancar." Antes de abrir o presente, não li o nome escrito no cartão colado no papel. Quando peguei o papel do chão e li o nome, meu coração ficou despedaçado. No cartão, estavam escritas as seguintes palavras, com letras de criança: "Para o papai. Com amor, Christy." Nunca me senti tão desprezível como naquele momento.

Uma das experiências mais angustiantes de minha vida foi olhar para aquele rostinho e ver a alegria ser substituída por uma expressão de total constrangimento e humilhação. O medo em seus olhos revelava uma leve esperança de que ninguém descobrisse que o presente que seu pai havia achado tão ridículo foi dado por ela.

Aquela criança encantadora gastara o dinheiro que poderia ter sido usado para comprar objetos pessoais. Mas ela preferiu comprar um presente de Natal para o seu pai. E aquele não era um presente qualquer. Ela me viu brincar no computador com jogos que simulavam voos e deduziu que eu era fascinado por aviões.

Ajoelhei-me rapidamente e a abracei com todas as minhas forças, desejando dar tudo o que eu tinha para retirar aquelas palavras. Fiz uma débil tentativa de explicar que achei que o presente tinha partido da mamãe e, ao perceber que me enganei, as coisas mudaram de figura. Porém, nada do que eu dissesse poderia eliminar a mágoa daquele coraçãozinho. Eu precisava encontrar uma maneira de provar o que estava dizendo.

E provei. Peguei o aviãozinho de brinquedo e comecei a movimentá-lo, imitando o som do motor de um avião. Taxiei com ele na pista - o balcão da cozinha - e acelerei ao máximo para ele levantar voo. Meu objetivo era apagar a tristeza do rosto de minha filha - provocada por mim - e continuar até que o sorriso retornasse.

Brinquei o dia inteiro com o aviãozinho. Dediquei tanta atenção a ele que as outras crianças deixaram seus brinquedos de lado para brincar com meu aviãozinho de cinco centímetros. E, igual a uma criança egoísta, eu dizia:

- Não, este aqui é meu!

Não demorou muito para que o rostinho de Christy voltasse a sorrir. Mas não parei por ali. Q aviãozinho tornou-se um tesouro de grande valor para mim, e continua a ser até hoje, porque eu ainda o guardo comigo.

Guardo aquele aviãozinho principalmente porque ele me foi dado com muito amor por minha filha. Mas ele também me faz lembrar do poder das palavras.


 

UM TEMPO SÓ PARA A MAMÃE

Crystal Kirgis

 

 

Tudo o que eu necessitava naquela manhã era de meia hora sozinha, 30 minutos de paz e tranquilidade para conseguir manter minha sanidade mental. Nada de "mãe, faça isto", "mãe, quero aquilo", "mãe, ele me bateu", "mãe, eu derrubei suco no sofá".

Um tempo só meu, um banho quente de imersão, e nada mais.

Eu não deveria sonhar tão alto.

Depois de despachar os dois mais velhos para a escola, coloquei o mais novo em frente ao Barney e disse:

- Querido, preste muita atenção. Sua mamãe vai ficar louca. Ela está perdendo a cabeça. Está a ponto de ir para o hospício. Tudo isso porque ela tem filhos. Você está me entendendo?

Ele movimentou a cabeça afirmativamente, enquanto cantava:

- Barney é um dinossauro em nossa imaginação...

- Muito bem. Agora, seja um bom menino, fique sentado aqui vendo o Barney, enquanto a mamãe toma um banho quente, tranquilo e em paz. Não quero ser importunada. Quero que você me deixe sozinha. Durante 30 minutos, não quero ver você nem ouvir sua voz.

Entendido?

Outro movimento afirmativo com a cabeça.

- Bom-dia, meninos e meninas... - ouvi a bruxa dizer.

Segui para o banheiro com os dedos cruzados.

Observei a água encher a banheira. Observei o vapor embaçar o espelho e a vidraça. Observei a água ficar azul com os sais de banho.

Entrei na banheira.

Ouvi uma batida na porta.

- Mamãe! Mamãe! Você está aí?

Aprendi há muito tempo que deixar de responder à pergunta de uma criança não a faz desistir.

- Sim, estou aqui. O que você quer?

Houve uma longa pausa, enquanto meu filho tentava decidir o que queria.

- Hã... quero um lanche.

- Você acabou de tomar o café da manhã! Não pode esperar alguns minutos?

- Não, estou morrendo de fome! Preciso comer um lanche agora!

- Está bem. Pegue uma caixa de uvas passas.

Eu ouvi quando ele se dirigiu à cozinha e puxou as cadeiras e os banquinhos, tentando alcançar a prateleira onde estava a caixa de uvas passas. Senti o chão estremecer quando ele saltou do balcão e ouvi quando ele retomou à sala de TV.

- Oi, Susie! Você sabe me dizer qual é a cor da grama...?

Toe, toe, toe.

- Mamãe! Mamãe ! Você está aí?

Um longo suspiro. E, então, respondi:

- Sim, continuo aqui. O que você quer agora?

Uma pausa.

- Hã... também preciso tomar banho.

E ele estava certo.

- Querido, você não pode esperar até eu terminar?

A porta foi entreaberta.

- Não, eu preciso tomar banho agora. Estou sujo.

- Você está sempre sujo! Desde quando passou a se importar com isso?

A porta foi escancarada.

- Eu preciso mesmo tomar banho, mamãe.

- Não, não precisa. Vá embora.

Ele parou no meio do banheiro e começou a tirar o pijama.

- Vou entrar aí e tomar banho também.

- Não! Você não vai tomar banho comigo! Quero tomar banho sozinha. Quero que você vá embora e me deixe em paz!

Eu parecia a criança de três anos com quem argumentava naquele momento.

Ele subiu na beira da banheira, equilibrou-se ali e disse:

- Vou entrar aí com você, está bem, mamãe?

Comecei a gritar:

- Não! Isto não está certo! Quero tomar banho sozinha! Não quero ninguém aqui! Quero ficar sozinha!

Ele pensou por alguns instantes e disse:

- Está bem. Vou ficar sentado aqui e você vai ler um livro para mim. Não vou entrar, mamãe, enquanto você não terminar.

Em seguida, lançou-me um sorriso tão encantador que me nocauteou.

Passei o tempo que eu pretendia dedicar a mim naquela manhã lendo Um Peixe, Dois Peixes para um garotinho nu, de três anos, sentado na beira" da banheira, com as pernas dobradas, o queixo apoiado nos joelhos e um leve sorriso no rosto.

Por que contrariá-lo? Não vai demorar muito para que eu possa passar sozinha todo o tempo que eu quiser. E, então, acho que vou me sentir muito triste por não ter passado mais tempo com meus filhos.


 

LEGADO DE UMA CRIANÇA ADOTIVA

Autor Desconhecido

 

 

Havia duas mulheres que não se conheciam.

De uma, você não se lembra; a outra você chama de Mãe.

Duas vidas diferentes planejadas para fazer você ser gente.

Uma tornou-se sua estrela-guia; a outra tornou-se seu sol. A primeira lhe deu a vida; a segunda o ensinou a vivê-la.

A primeira lhe mostrou a necessidade de ser amado; a segunda lhe deu amor.

Uma lhe deu uma nacionalidade; a outra lhe deu um nome.

Uma lhe deu a semente do talento; a outra lhe deu um objetivo.

Uma lhe deu emoções; a outra acalmou seus temores.

Uma o viu sorrir pela primeira vez; a outra enxugou suas lágrimas.

Uma procurou um lar para você, porque não tinha condições de lhe oferecer esse lar; a outra orou para ter um filho, e sua esperança não lhe foi negada.

E agora você me faz, entre lágrimas, aquela antiga pergunta que tem atravessado os séculos:

Hereditariedade ou ambiente de qual deles você é produto?

De nenhum deles, meu querido - de nenhum.

São dois tipos diferentes de amor.


 

PRESENTE DE AMOR

James Dobson

 

 

Há algum tempo, um amigo meu castigou sua filhinha de três anos porque ela gastou um rolo inteiro de papel dourado, usado para embrulhar presentes. O dinheiro estava curto, e ele ficou furioso quando a menina tentou enfeitar uma caixa para colocar debaixo da árvore de Natal. Na manhã seguinte, a menina entregou um presente ao pai, dizendo:

- É para você, papai.

Ele se arrependeu de ter reagido de maneira intempestiva, mas sua raiva explodiu novamente ao constatar que a caixa estava vazia, e gritou com a filha:

- Você não sabe que quando a gente dá um presente a alguém deve colocar alguma coisa dentro da caixa?

A menina olhou para o pai, com lágrimas nos olhos, e disse:

- Ah! papai, a caixa não está vazia. Eu soprei beijinhos dentro dela.

A caixa está cheia de amor. Beijinhos de amor para você, papai.

O pai sentiu-se desprezível. Passou os braços ao redor da filha e lhe pediu perdão. Meu amigo me contou que guarda aquela caixa ao lado de sua cama há muitos anos. Todas as vezes que se sente desanimado, ele retira um beijinho imaginário da caixa e se lembra do amor que sua filhinha colocou ali dentro.

De uma maneira muito real, nós, os pais, recebemos um pacote dourado repleto de amor incondicional e de beijinhos de nossos filhos.

Este é o maior tesouro que alguém pode ter.


 

O CAMINHO DE UMA MÃE

Temple Bailey

 

 

A jovem mãe estava dando os primeiros passos na estrada da vida.

- O caminho é longo? - ela perguntou.

- Sim - respondeu seu Guia -, e difícil também. Você ficará velha antes de chegar ao fim dele. Mas... - ele parou e sorriu meigamente. O fim será melhor que o começo.

No entanto, a jovem mãe sentia-se feliz, porque não podia acreditar que existisse nada melhor que a fase da juventude da vida. Ela brincava com os filhos, colhia flores com eles ao longo do caminho, e banhava-se com eles nas águas cristalinas dos riachos. O sol lançava seus raios sobre eles, e a vida era boa. A jovem mãe dizia bem alto:

- Nada será mais encantador que estes momentos.

A noite chegou e, com ela, a tempestade, e o caminho ficou escuro.

Os filhos tremiam de medo e de frio, e a mãe os abraçou, cobrindo-os com seu manto.

Os filhos disseram:

- Oh, mamãe, não sentimos medo quando você está perto de nós.

A mãe disse:

- Isto é melhor que a luz do dia, porque eu ensinei meus filhos a ter coragem.

O dia amanheceu; havia uma colina à frente. Os filhos subiram a colina e se cansaram. A mãe também se cansou, mas continuou a incentivar os filhos:

- Um pouco mais de paciência e chegaremos lá.

Então, os filhos continuaram a subir. Quando chegaram ao topo, eles disseram:

- Não teríamos conseguido chegar até aqui sem você, mamãe.

E a mãe, quando se deitou naquela noite, olhou para as estrelas e disse:

- Este dia foi melhor que o último. Meus filhos aprenderam a ter forças diante das dificuldades. Ontem lhes ensinei a ter coragem; hoje lhes ensinei a ter força.

No dia seguinte, nuvens estranhas escureceram a terra - nuvens de guerra, de ódio e de desgraça. Os filhos tatearam no escuro e tropeçaram. A mãe disse:

- Andem de cabeça erguida e olhem para o alto, a fim de que seus olhos vejam a Luz além da escuridão.

Os filhos olharam para o alto e viram a Glória Eterna acima das nuvens estranhas. Ela os guiou através da escuridão e da desgraça.

Naquela noite, a mãe disse:

- Este foi o melhor dia de todos, porque, com minha ajuda, meus filhos aprenderam a ver a Deus.

Os dias foram passando, transformando-se em semanas, meses e anos. A mãe envelheceu, diminuiu de estatura e ficou com o corpo curvado. Seus filhos eram altos e fortes e caminhavam com coragem.

Quando o caminho era difícil de ser percorrido, eles a ajudavam; quando o caminho era áspero, eles a carregavam, porque ela era leve como uma pena. Finalmente, eles chegaram a uma colina e, além da colina, avistaram uma estrada reluzente e um portão de ouro escancarado.

A mãe disse:

- Cheguei ao fim de minha jornada. Agora sei que o fim é realmente melhor que o começo, porque meus filhos podem caminhar sozinhos e ensinarão o que aprenderam aos filhos deles.

Os filhos disseram:

- Você estará sempre caminhando conosco, mamãe, mesmo depois de atravessar o portão.

Eles a viram caminhar sozinha, e o portão fechou-se atrás dela.

Eles disseram:

- Não podemos ver nossa mãe, mas ela ainda está conosco. Uma mãe como a nossa é mais que uma lembrança.

TERNA INTUIÇÃO

Robin Jones Gunn

 

 

Eu o seguro em meus braços, jovem príncipe. Você dorme na doce paz celestial. Apesar disso, eu me pergunto se você ficaria tão calmo se soubesse a verdade: Eu sou sua mãe. E eu não tenho a menor ideia do que estou fazendo. Você é meu primeiro bebê. Meu único filho. Eu já estava me acostumando com a gravidez, e agora você está aqui! E você é tão, tão real!

Eu me preparei para sua chegada durante meses. Tenho lido livros.

Bem, só alguns. Algumas páginas. Ouvi conselhos e mais conselhos de minhas amigas. Elas são experientes, você sabe, porque já têm os seus bebês. Mas você é diferente. Você é o meu bebê. E elas não sabem nada sobre você.

Eu sei. Eu sei como você se mexe e dá pontapés. Já conheço seu cheiro, que é igual ao de um narciso recém-colhido. Sei como você faz beicinho quando está prestes a chorar. Sei que seu cabelinho ralo é a coisa mais macia que já tocou em meu rosto.

Apesar disso, tenho de admitir que ainda existem muitas coisas que eu não sei. No hospital, ensinaram-me como alimentar você.

Ontem, minha mãe me mostrou como dar banho em você. Eu não tenho ideia de como cuidar de erupções na pele causadas pela fralda.

Sinto náuseas quando vejo sangue. Não sei costurar. Não sou boa em finanças. Minhas habilidades matemáticas são abomináveis. E você precisa saber desde já - sinto arrepios ao ouvir alguém ranger os dentes.

No entanto, sei assar biscoitinhos. Sei fazer barracas dentro de casa em dias de chuva. E herdei de meu pai o maravilhoso senso de humor; por isso sei rir e sei fazer você rir.

Vou cantar doces canções para você, à noite. Vou orar por você todos os dias. Vou permitir que você traga para casa qualquer animal que encontrar, desde que você possa alimentá-Ia. Vou chamar todos os seus amigos imaginários pelos primeiros nomes. Vou colocar bilhetinhos de amor em sua lancheira e vou nadar no mar com você, mesmo depois de velha.

Talvez minha melhor qualificação para eu ser sua mãe esteja relacionada ao fato de eu compartilhar este privilégio com o melhor homem do mundo - o seu pai.

Os segredos para ser uma boa mãe não podem ser aprendidos enquanto tomamos café com nossas amigas. As mães não aprendem essa arte nos livros, nem por tentativas e erros. Para mim, essas ternas intuições são as que mais importam. São sabedorias eternas que só a mulher que é mãe conhece - quando ela carrega seu bebê nos braços, como você está agora nos meus. É desta maneira que Deus me ensinará a ser mãe com o coração.


 

RISCOS DESLIZANTES

Heather Harpham Kopp

 

 

Há alguns dias, minha mãe veio me visitar. Quando ela foi embora, você diria que ela estava encharcada. Ela diria que era eu quem estava encharcada.

Tom e eu a levamos à piscina de nossa cidade, onde existe um longo escorregador aquático. Insistimos para que ela tentasse escorregar ali, dizendo que seria divertido e seguro.

Ela hesitou, lembrando-me de que nunca havia saltado sequer de um trampolim.

Eu não me surpreendi. Minha mãe sempre foi uma pessoa tímida, não acostumada a correr riscos. Para ela, risco é passar por uma liquidação sem parar para dar uma olhada.

Mas as filhas sabem muito bem como manipular as mães; e eu não sou exceção à regra.

Antes que ela desistisse, Tom levou-a ao topo do escorregador.

Quando ela empalideceu, instantes antes de iniciar a aventura, Tom tentou tranquilizá-Ia. Ele disse que ela poderia escorregar na velocidade que desejasse. E afirmou que ninguém havia sido jogado para fora de um escorregador aquático, pelo menos naquele, em particular.

Imaginamos que ela deve ter duvidado daquelas palavras. Ela deve ter concluído que a maneira mais segura de escorregar seria de costas e com as pernas esticadas, para não ser ejetada.

Fiquei observando lá de baixo. Minha mãe escorregou tão rápido que quase não a vi. Você precisa entender que ela não é uma mulher pequena. Mede 1,70m e, conforme ela mesma diz, "come de tudo a que tem direito".

Mesmo assim, qualquer um podia ver sua boca escancarada e a expressão de susto em seu rosto. Quando minha mãe despontou no fim do escorregador, seus óculos, que ela escondera cuidadosamente na parte superior do maiô, voaram longe. O escorregador teve de ser fechado para que os salva-vidas pudessem ajudar minha mãe, aflita e quase sem enxergar nada, a encontrar os óculos.

Eu me senti péssima. Mas havia aprendido desde tenra idade que não vale a pena viver sem correr alguns riscos. E, às vezes, as pessoas necessitam de algumas cutucadas. Se forem bem-sucedidas, elas lhe agradecerão. Caso contrário, é melhor você se esconder no meio de uma piscina abarrotada de gente.

Aprendi minha primeira lição sobre correr riscos aos cinco anos de idade. Uma vizinha de nove anos queria que eu jogasse a arma de brinquedo de um menino dentro da caixa de correspondência, que ficava na esquina, do outro lado de nossa casa. Eu não via problema nenhum em fazer aquele trabalho sujo para a menina, mas resolvi dizer que não tinha permissão para atravessar a rua.

- E se eu carregar você? - ela disse, em tom de voz confiante. Assim, ninguém vai poder dizer que você atravessou a rua.

Aquilo me pareceu uma boa ideia.

Peguei a arma de brinquedo do menino e joguei-a dentro da caixa de correspondência. Porém, no caminho de volta, minha cúmplice derrubou-me acidentalmente, e eu bati com a cabeça no asfalto - foi a minha terceira sutura naquele verão.

Este é o problema de correr riscos. Nem sempre devemos nos arriscar; nem todas as cutucadas devem ser levadas a sério. Foi o que minha mãe me disse, naquela ocasião, e também quando ela me encontrou na piscina, escondida na parte reservada às crianças. Geralmente, os riscos que procuramos correr não terminam com um ou dois pontos na cabeça. São tipos de riscos que ferem nosso orgulho.

Como, por exemplo, uma descida pelo escorregador aquático. Ou um romance. Ou admitir uma verdade desprezível sobre nós mesmos. O fato é que existem coisas impossíveis de serem alcançadas sem riscos:

experiência, amor, honestidade, aventura.

Minha mãe devia estar aprendendo a mesma coisa. É a única explicação que tenho a dar. Você acredita que, depois de ter-se recuperado da aventura no escorregador, e depois de ter-me perdoado, ela revelou que gostaria de fazer uma nova tentativa?

- Você está brincando! - eu disse, incrédula.

- Só mais uma vez - ela disse. - Vou escorregar sentada, segurando nas laterais, e descer bem devagar.

É claro que minha mãe perdeu o equilíbrio assim que iniciou a descida e escorregou de costas. Apesar de todos os seus gestos frenéticos, ela não conseguiu sentar-se novamente.

Eu fiquei na parte inferior do escorregador à espera de minha corajosa mãe. E, pela primeira vez em minha vida, pedi a Deus que me fizesse ser mais parecida com ela.


 

FÉRIAS EM FAMÍLIA E OUTRAS

AMEAÇAS AO CASAMENTO

Philip Gulley

 

 

Quando nosso filho, Spencer, tinha seis semanas de idade, eu disse à minha esposa:

- Está na hora de sairmos de férias.

- Não é uma boa ideia - ela me advertiu, concordando depois, por confiar que eu já havia aprendido com os próprios erros.

Dirigimo-nos a um pequeno hotel, distante quatro horas de viagem de nossa casa. Spencer dormiu durante todo o percurso. Eu estava feliz da vida. Fizemos o registro na chegada. Dirigimo-nos ao nosso quarto. Eu estava mais feliz ainda. Os filhos não dão trabalho. As mães é que são alarmistas.

De repente, Spencer acordou.

No Livro do Apocalipse, João escreve sobre as sete pragas da ira divina, que vão desde úlceras no corpo até terremotos. João esqueceu-se de uma: o choro de uma criança.

Spencer não nos deu trégua, nem na hora do jantar. As pessoas mais velhas, com ar de avós, olhavam para nós e sorriam. Antes de meu filho nascer, eu pensava que elas sorriam porque gostavam de crianças. Agora entendo que elas sorriem porque seus filhos já cresceram.

Retomamos ao nosso quarto e fomos dormir. Spencer chorou a noite toda. Na manhã seguinte, no café da manhã, tentamos sair do restaurante sem ele, mas o gerente impediu nossa passagem. Maria e José deixaram Jesus para trás quando saíam de uma cidade. Esse tipo de coisa faz a gente pensar, não é mesmo?

O que aconteceu no caminho de volta para casa só pode ser atribuído à falta de dormir. Na tentativa de salvar nossa primeira viagem de férias em família, segui por uma estrada pitoresca. O governo chama essas estradas de "pitorescas" porque não têm condições de incluir em uma única placa as palavras "estrada sinuosa, que aumenta em três horas a viagem, e faz seu filho sentir náuseas". Nas férias do ano seguinte, depois de esquecida nossa experiência anterior, seguimos rumo a um pequeno hotel distante oito horas de viagem de nossa casa. Spencer não chorou nenhuma vez. Dormiu tranquilo todas as noites. Viajou no assento próprio para bebês, sem reclamar. Não ouvimos nenhum resmungo dele, isto porque existem algodões para a gente colocar nos ouvidos.

Aquelas férias não foram como planejamos, e só posso atribuir a culpa a alguns programas de TV que retratam um perfil errado da vida em família. Eu me lembro de ter assistido a um episódio da série Brady Bunch, no qual a família Brady viaja uma semana inteira sem precisar parar para usar o banheiro. Florence Henderson cantou no trajeto que cortava três Estados, e ninguém a atirou para fora do carro. Quando eu era menino, todas as vezes que saíamos de casa, meu irmão Glenn me dava um safanão por eu ter bafejado no rosto dele.

Prestamos um desserviço a nós mesmos quando esperamos que a vida em família seja uma nova versão da série Brady Bunch. A verdade é que a maioria das nossas famílias tem seus tropeços. E isso não é mau. Caso contrário, como poderíamos cultivar a fina arte do perdão?

Minha esposa perdoou-me depois de nossas primeiras férias. Na ocasião, ela disse:

- Você é assim mesmo. Vem de uma família de várias gerações de homens que não dão ouvidos às esposas.

Estamos economizando dinheiro para as próximas férias. Estamos pensando em férias nas montanhas.

- Lá existem muitos lugares para uma criança se perder - eu disse à minha esposa.

Ela sabe que estou brincando.

Na verdade, agradeço a Deus todos os dias a vida de meus filhos.

Todos os dias, isto é, alguns mais que outros.

 

QUANDO DEUS CRIOU OS PAIS

Erma Bombeck

 

 

Quando o bom Deus estava criando os pais, Ele começou a fazer um homem de estatura alta.

Um anjo, do sexo feminino, que estava por perto disse:

- Que tipo de pai é este? Se o senhor vai fazer crianças com a altura um pouco acima do chão, por que os pais precisam ser tão altos? Ele não vai poder jogar bolinhas de gude sem se ajoelhar, não vai poder colocar uma criança na cama, nem mesmo beijá-Ia sem ter de curvar o corpo.

E Deus sorriu e disse:

- Concordo, mas, se eu o fizer do tamanho de uma criança, quem ela vai ver quando olhar para cima?

E quando Deus fez as mãos do pai, elas eram grandes e vigorosas.

O anjo meneou a cabeça, tristemente, e disse:

- Mãos grandes são desajeitadas. Elas não conseguem prender alfinetes nas fraldas, abotoar botões pequenos, prender elástico nos cabelos nem retirar estrepes de madeira dos bastões de beisebol.

E Deus sorriu e disse:

- Eu sei, mas elas são grandes o suficiente para segurar tudo o que um menino retira do bolso no fim do dia e pequenas o suficiente para segurar e acariciar o rosto de uma criança.

E, depois, Deus modelou pernas longas e esguias e ombros largos.

O anjo quase teve um ataque cardíaco.

- Sei que estamos chegando ao fim da semana - ele disse. - O Senhor percebeu que fez um pai sem colo? Como ele vai segurar uma criança sem que ela caia no vão de suas pernas?

E Deus sorriu e disse:

- A mãe necessita de um colo. O pai necessita de ombros fortes para puxar um trenó, equilibrar um menino na bicicleta ou segurar uma cabeça sonolenta no caminho de volta para casa depois do circo.

Deus estava criando os maiores pés que alguém já havia visto quando o anjo não conseguiu conter-se.

- Não é justo. O Senhor acha, honestamente, que esses dois pés enormes vão conseguir sair rápido da cama quando o bebê chorar?

Ou atravessar um salão de festas de aniversário de uma criança sem esmagar pelo menos três delas?

E Deus sorriu e disse:

- Eles vão ser úteis. Você verá. Vão ter força para sustentar uma criança que deseja brincar de cavalinho, ou esmagar um rato que aparecer na casa de campo de verão, ou, ainda, exibir sapatos que dificilmente encontrariam pés tão grandes para calçá-Ios.

Deus trabalhou a noite inteira, concedendo ao pai poucas palavras, porém uma voz firme e cheia de autoridade, e olhos que enxergavam tudo, mas continuavam calmos e tolerantes.

Finalmente, como se estivesse meditando sobre seu trabalho, Ele acrescentou lágrimas. Em seguida, virou-se para o anjo e disse:

- Agora você está satisfeito ao ver que ele pode amar tanto quanto uma mãe?

O anjo silenciou.


 

ÓTIMA APARÊNCIA

Patsy Clairmont

 

 

Eu me lembro muito bem daquele dia. Foi uma dessas ocasiões em que tudo dá certo. Tomei um banho de chuveiro e arrumei o cabelo. Tudo transcorria do jeito que eu queria, como raramente acontece. Vesti minha malha nova cor-de-rosa, que me deixava com mais cor no rosto, já que eu ia precisar muito disso. Coloquei calça comprida cinza e sapatos de salto alto.

Olhei-me no espelho e pensei: Estou com ótima aparência!

Por ser um dia frio em Michigan, vesti minha capa cinza com enfeites cor-de-rosa nas lapelas. Eu estava colorida da cabeça aos pés.

Quando cheguei ao centro de Brighton, onde eu tinha algumas coisas a fazer, fiquei surpresa ao ver o trânsito congestionado.

Brighton é uma cidade pequena, mas possui uma loja enorme de alimentos. Normalmente, consigo estacionar em frente à loja, mais próximo à entrada.

Havia, porém, tanto movimento na loja que precisei estacionar a dois quarteirões de distância. Mas, quando tomamos a decisão certa, e o dia está maravilhoso, as inconveniências e os bloqueios não se tornam grandes problemas.

Pensei: Vou caminhar despreocupada pela rua para aproveitar o calor do sol. Desci do carro, andei um pouco, atravessei a rua e entrei na loja.

Quando eu estava passando pelos fundos da loja, vi meu reflexo nas portas de vidro do sistema de refrigeração. Confirmei que estava com ótima aparência. Enquanto apreciava minha silhueta no vidro, notei alguma coisa estranha se arrastando atrás de mim. Virei-me para trás e constatei que eram minhas meias de seda!

Lembrei-me de que, na noite anterior, num arroubo de Mulher Maravilha, eu tirara as meias e a calça comprida de uma só vez.

Ao me vestir naquela manhã, coloquei outras meias e a calça comprida por cima delas, sem retirar de dentro as meias que usara no dia anterior.

Creio que elas começaram a escorregar enquanto eu caminhava despreocupada pela rua para aproveitar o calor do sol. Lembrei-me do motorista de caminhão que parou para eu atravessar a rua. Quando olhei para cima, ele estava sorrindo. Pensei: Oh, que bom/ O mundo inteiro está  feliz hoje. Acenei para ele, sem me dar conta do que estava acontecendo.

Eu imaginava que, a esta altura da vida, eu já tivesse adquirido um pouco de maturidade. Mas, honestamente, quando olhei para trás e vi aquela... aquela coisa horrorosa, um único pensamento me veio à mente: eu queria morrer!

Eu sabia que eram minhas meias porque o pé direito estava enrolado em meu tornozelo. E sabia que estava muito bem preso, porque tentei livrar-me dele, fingindo que alguma coisa havia enroscado em meu sapato na rua, mas não consegui.

É difícil compreender como aquelas coisas que compramos dentro de caixinhas achatadas conseguem aumentar tanto de volume depois de serem usadas apenas uma vez. Naquela hora, pareceu-me ter um punhado de meias sobrando e nenhum lugar para escondê-Ias.

As prateleiras estavam lotadas de mercadorias, e minha bolsa era pequena demais. Assim, resolvi colocar as meias no bolso do casaco, que ficou volumoso do lado direito.

Resolvi jamais sair da loja. Eu conhecia os funcionários de todas as lojas da cidade e imaginei que, naquele momento, todos os seus empregados estivessem na janela, aguardando meu desfile de volta até o carro.

Olhei disfarçadamente ao redor e me dei conta de que aquele era o Dia do Idoso. Eles estavam sendo submetidos a um exame da pressão arterial. Decidi, então, entrar na fila para fazer o exame, a fim de continuar ali na loja.

A má notícia foi que ninguém notou que eu não deveria estar naquela fila. A boa notícia foi que minha pressão havia subido.

Geralmente, as enfermeiras medem minha pressão e dizem: "Sinto muito, mas faz dois dias que você morreu." Hoje, eu subi um pouco na escala.

Finalmente, eu me dei conta de que deveria ir embora. Passei sorrateiramente pela porta, caminhei pela rua, entrei no carro e rumei para casa.

Durante todo o trajeto, eu disse comigo mesma:

- NÃO VOU CONTAR A NINGUÉM QUE FIZ ISTO!

Cheguei a minha casa e desci do carro. Meu marido estava recolhendo folhas secas do jardim.

- Você sabe o que eu fiz?! - gritei.

Ele ficou muito orgulhoso quando soube que sua esposa havia atravessado a cidade arrastando as meias. Eu lhe disse que deveríamos nos mudar - para outro Estado - naquela mesma noite. Ele achou que seria uma medida extrema e- sugeriu que, em vez disso, eu passasse a andar três metros atrás dele. Depois de refletirmos um pouco, decidimos que eu andaria três metros na frente de meu marido, para que ele pudesse ver se eu estava em ordem.

Se você já fez alguma coisa que lhe tenha causado um profundo constrangimento, saiba que quanto mais você tentar não pensar no assunto, mais a situação ficará viva em sua memória. Enquanto eu caminhava pela casa, aquela cena me veio à mente várias vezes.

Finalmente, clamei ao Senhor: Tu que do pó criaste a beleza, não podes fazer nada com um par de meias de seda?

 


 

UM VENDEDOR DE RUA

CHAMADO CONTENTAMENTO

Max Lucado

 

 

Ahhh... uma hora de contentamento. Um instante precioso de paz. Alguns minutos de descontração. Todos nós temos momentos em que o contentamento vem nos visitar.

De manhã, bem cedo, quando o café está quente, e enquanto todos da casa dormem.

Tarde da noite, quando você beija os olhos sonolentos de uma criança de seis anos.

Num barco, no lago, quando as lembranças de uma vida bem vivida se tornam nítidas.

Na companhia de uma Bíblia surrada, com orelhas nos cantos das páginas, e até manchadas de lágrimas.

Nos braços do marido ou da esposa.

No jantar de Ação de Graças, ou sentado perto da árvore de Natal.

Uma hora de contentamento. Uma hora em que os prazos são esquecidos e as lutas cessam...

Infelizmente, porém, em nossas agendas apertadas, nas competições e nos olhares vigilantes, momentos como esses são tão comuns quanto macacos de uma perna só. Em nosso mundo, o contentamento é um vendedor ambulante, caminhando a esmo, à procura de uma casa onde possa bater, mas que raramente encontra uma porta aberta.

Esse velho vendedor passa devagar de casa em casa, batendo nas vidraças e nas portas, oferecendo suas mercadorias: uma hora de paz, um sorriso de aceitação, um suspiro de alívio. Suas mercadorias, porém, raramente são compradas. Estamos atarefados demais para ficar contentes...

- Hoje não, obrigado. Tenho muitas coisas para fazer - dizemos.

- Muitas metas para atingir, muitas conquistas para alcançar, muitos dólares para economizar, muitas promoções para conseguir. E, além do mais, se eu ficar contente, alguém poderá pensar que perdi a ambição.

E, assim, o vendedor de rua, chamado Contentamento, segue o seu caminho.

A maior parte de minha lista de tarefas estava por fazer.

Minhas responsabilidades me sobrecarregavam cada vez mais.

Telefonemas para dar. Cartas para escrever. Talões de cheques para conferir.

Porém, uma coisa interessante no meio dessa corrida desenfreada forçou-me a engatar o ponto morto. No momento em que arregacei as mangas, no momento em que o velho motor começou a roncar, no momento em que comecei a ficar de cabeça quente, minha filhinha, Jenna, precisou de ajuda. Ela estava com cólicas. Sua mãe estava no banheiro, portanto o pai dela precisou tirá-Ia do berço.

Ela está com três semanas de vida. A princípio, comecei a fazer as coisas com a mão direita, segurando-a com a outra. Você está rindo.

Já tentou fazer isso também? No momento em que me dei conta de que isso seria impossível, compreendi que não era o que eu estava querendo fazer.

Sentei-me e segurei-a com a barriguinha de encontro ao meu peito.

Ela começou a relaxar. Um grande suspiro escapou de seus pulmões. Seus gemidos transformaram-se em resmungos. Ela foi escorregando em meu peito até sua orelhinha ficar encostada ao meu coração. Foi, então, que seus braços amoleceram e ela adormeceu.

Nesse momento, o vendedor de rua bateu à minha porta.

Adeus, agenda. Até mais tarde, rotina. Voltem amanhã, prazos...

Alô, Contentamento, pode entrar!


 

MORTE E O ALVORECER

Pearl S. Buck

 

 

Não existe lugar para ele ficar, doutor - disse a enfermeira.

- As enfermarias estão lotadas.

- Coloque-o num quarto particular - disse o cirurgião, tirando seu avental branco.

- Os quartos particulares também estão lotados, a não ser aquele com dois leitos, onde se encontra o velho Sr. MacLeod. E ele está tomando oxigênio, sem esperanças de atravessar esta noite. Sua família espera sua morte a qualquer momento.

- Este rapaz não vai perturbá-Io. Só vai acordar amanhã cedo - disse o cirurgião, agora trajando paletó e chapéu. Era meia-noite.

Ele estava cansado e bateu à porta ao sair.

Se é que ele vai acordar, pensou a enfermeira, olhando para o rapaz. Ele era do tipo descuidado, cabelos loiros compridos demais, rosto afilado, corpo esguio, muito magro - o tipo do rapaz que está sempre correndo o risco de ser esmagado em acidentes de carro.

Debaixo das numerosas ataduras brancas, o rosto jovem tinha uma expressão sombria. Ninguém sabia quem ele era. Não havia nenhum documento que informasse sua identidade. O carro era roubado - pelo menos o proprietário ainda não havia sido identificado e, por certo, não era aquele rapaz de 18 anos - que podiam ser 17, talvez 16 -, ninguém sabia ao certo. Ele estava inconsciente quando chegou e sangrando muito. Por sorte, a cidade tinha um hospital - nem todas as cidades pequenas tinham um hospital.

- Levem-no para o 23 - disse a enfermeira aos atendentes.

Eles o levaram na maca, e ela os acompanhou. Aquela hora da noite, o hospital estava mergulhado em silêncio. Não se ouvia nem mesmo o choro de um bebê. Dentro de uma ou duas horas, antes do alvorecer, começariam as chamadas, campainhas tocando, pacientes suspirando e gemendo, um bebê acordando o outro.

O 23 também estava silencioso. Só se ouvia o ruído do oxigênio.

Sob a luz fraca do quarto, a enfermeira viu o Sr. MacLeod deitado ali.

Ela daria uma olhada nele antes de sair.

- Tomem cuidado com a cabeça do rapaz - ela disse aos atendentes.

- Já sabemos - disse o mais velho. - Vimos quando ele chegou.

- Não restou nada do carro - disse o outro.

Eles o deitaram na cama com mãos habilidosas e endireitaram seus braços e pernas.

- Mais alguma coisa, Srta. Martin? - perguntou o mais velho.

- Não, obrigada - ela respondeu.

Eles se afastaram, e ela cobriu o rapaz com um lençol de algodão.

Ele estava respirando, mas não muito bem. Ela mediu a pulsação.

Estava irregular, conforme era de esperar. Nada de sedativos, dissera o médico, depois da última injeção.

O telefone tocou no corredor, e ela foi atender. Uma só enfermeira à noite naquele andar era muito pouco, mas sempre foi assim. Não havia enfermeiras em número suficiente. O Sr. MacLeod deveria ter uma enfermeira só para ele. E, agora, aquele rapaz...

- Alô - ela disse em voz baixa.

- Srta. Martin? - A voz era clara, tranquila e cuidadosa, e ela a reconheceu.

- Sim, Sra. MacLeod.

- Não estou conseguindo dormir. Nenhum de nós está. Será que você poderia verificar se...

- Claro.

Ela pousou o fone na mesa e foi até o quarto. A respiração do rapaz havia melhorado um pouco, mas ela não olhou para ele. O Sr.

MacLeod estava completamente imóvel. Ela ficou em dúvida. Será que aquele homem tão idoso estaria respirando? Ela pegou o pulso dele e não conseguiu encontrá-Io. Correu de volta ao telefone.

- Sra. MacLeod?

-Sim.

- É melhor a senhora vir.

- Já estou de saída.

A enfermeira ligou para o médico de plantão.

- Doutor, chamei a família do Sr. MacLeod.

- Ah!... é o fim, não?

- Acho que sim.

- Estou indo até aí. Apronte a seringa hipodérmica.

- Pois não, doutor.

Ela arrumou a pequena bandeja, colocando as agulhas sobre um pano branco esterilizado. Nada daquilo seria útil, a não ser para fazer o senhor idoso ter tempo de dizer adeus à família. Mas essa era a regra, e somente um médico poderia quebrá-Ia. Ela levou a bandeja até o quarto e colocou-a na mesinha, sem fazer barulho. a senhor idoso continuava na mesma posição. a rapaz também. Mas, agora, o rapaz respirava melhor.

A enfermeira aumentou um pouco o fluxo do oxigênio. Acendeu o abajur de cabeceira e colocou mais duas cadeiras perto da cama.

No dia anterior, quando a Sra. MacLeod foi informada, na sala do médico, de que seu marido não atravessaria a noite, ela ficou tão branca quanto seus cabelos. Em seguida, disse:

- Eu só peço uma coisa: que vocês me chamem quando o fim estiver próximo. Não vou sair de casa.

E estas foram as instruções do médico para a enfermeira:

- Quando você notar que o fim está perto, chame a Sra. MacLeod.

a médico de plantão chegou. Ele era um jovem baixo e robusto, de rosto redondo e bondoso.

- Está tudo pronto, doutor - disse a Srta. Martin.

- Ótimo. Vou verificar.

a plantonista examinou rapidamente o paciente.

- Ele está bem perto do fim. Assim que eles chegarem, vou aplicar a injeção hipodérmica.

- Aqui está - disse a Srta. Martin.

- Isto não vai fazê-lo durar muito mais - prosseguiu o médico. Meia hora... talvez uma hora. Quem é o outro paciente?

- Acidente de carro.

- Hum... há muitos hoje em dia.

- É verdade.

Era uma conversa banal para despistar o assunto da morte - morte do jovem, morte do velho.

- Posso entrar? - perguntou a Sra. MacLeod, em pé na porta.

- Entre - disse o médico. - Vou aplicar uma injeção em seu marido... para reanimá-lo um pouco, a senhora sabe, para vocês poderem conversar.

- Obrigada, doutor.

Ela estava firme. Era uma senhora idosa, baixa, porém forte, com expressão controlada no rosto. Apenas a Srta. Martin notou que suas mãos pequenas e compactas tremiam quando ela tirou o chapéu.

- Sente-se, Sra. MacLeod.

- Estamos todos aqui - ela disse.

- Entrem, entrem. Não vão prejudicá-lo - disse o médico.

Eles entraram: o filho, um rapaz alto, com expressão de angústia no rosto; sua esposa, uma moça loira e esguia, que chorava, cobrindo a boca com um lenço; e a filha, jovem e bonita, de cabelos escuros como os do pai. A Srta. Martin conhecia todos: George, Ruth e Mary. Era uma família unida; qualquer pessoa podia notar. Os filhos optaram pela cirurgia, que foi um sucesso... isto é, prolongou a vida do pai por três meses, naquele quarto apertado.

- O que houve com aquele rapaz? - perguntou George, fazendo um movimento com a cabeça em direção ao outro leito.

- Ele está inconsciente - respondeu a Srta. Martin. - Não há outro lugar para colocá-lo. O hospital está lotado. Esqueça dele.

Ela estava esfregando álcool no braço esquelético do Sr. MacLeod.

O médico espetou a agulha na pele flácida.

- Vocês têm meia hora para ficar com ele, Sra. MacLeod. Vou aguardar do lado de fora.

- Obrigada, doutor - disse a Sra. MacLeod.

Ela esperou até que o médico e a enfermeira saíssem. Com um olhar, chamou os outros para perto de si. George e Ruth sentaram-se à beira da cama. Mary ajoelhou-se ao lado da mãe.

- Estamos todos aqui, Hal - disse a Sra. MacLeod, com voz clara. - George e Ruth jantaram conosco hoje. Comemos cordeiro ensopado, feito da maneira que você gosta. A horta está em franca produção. Colhi algumas cenouras esta tarde para o ensopado. Estava delicioso!

- Comemos torta de limão como sobremesa, pai - disse George. Ruth está aprendendo a fazer tortas com a mamãe. Eu não a forcei a fazer isso, não é mesmo, querida?

- Claro que não - disse Ruth. Ela não chorava mais, porém os lábios continuavam trêmulos.

- Ruth é uma boa cozinheira - prosseguiu George.

- Melhor do que eu era na idade dela - disse a Sra. MacLeod. Você se lembra da primeira torta que fiz, Hal? Queimou por cima e ficou crua por baixo! Era de cereja... a sua favorita. Eu quase chorei.

Mas você riu e disse que não tinha se casado comigo por eu saber fazer tortas.

- A cerejeira vai voltar a dar muitos frutos este ano, papai - disse Mary. Ela apoiou os cotovelos na cama, com os olhos fixos no rosto do pai. - Quando as cerejas amadurecerem, George vai cobrir a árvore com uma rede, como você costuma fazer. Os estorninhos já estão aguardando por elas.

George riu, e acrescentou:

- Aqueles estorninhos, papai! Nunca aprendem. Você se lembra da maneira como eles aparecem todos os anos, pousam em cima da rede, e ficam olhando para as cerejas ? Você disse que quase podia ouvir as pragas lançadas por eles. Bem, este ano vai acontecer o mesmo de sempre.

Mary falou com voz suave:

- Torta de cereja e piqueniques. Para mim, é quando o verão começa.

- Eu também gosto de piqueniques - disse a Sra. MacLeod. Apesar de minha idade, sinto que existe algo especial num piquenique.

Ficamos noivos durante um piquenique da Escola Dominical... seu pai e eu.

- Pai, você se lembra daquele piquenique no dia 4 de julho, no lago Parson's? - Era George quem falava. - Você me ensinou como lançar o anzol e, logo na primeira vez, pesquei uma perca. Gritei, chamando todo mundo para ver.

- Eu adoro o verão - disse Mary, com a voz sonhadora de sempre.

- Mas também gosto quando o outono chega. Você se lembra da nogueira, papai? Eu também gostava da escola; gostava mesmo. Não me olhe desse jeito, George, só porque você não gostava de estudar!

- Parem, vocês dois - disse a Sra. MacLeod, forçando um sorriso.

- Vocês não conseguem deixar de discutir?

No leito ao lado, as pálpebras do rapaz estavam tremendo, mas ninguém notou. Ele próprio não sabia que suas pálpebras tremiam.

Mergulhado nas profundezas de seu cérebro, ele ouvia som de vozes.

- Passamos bons momentos quando éramos crianças - disse Mary.

- Às vezes, eu gostaria de voltar no tempo, mamãe, para estar com você e papai.

- Silêncio - disse a Sra. MacLeod. - Ele está querendo dizer alguma coisa.

Eles se inclinaram para a frente, com as faces mal iluminadas pela luz fraca, olhos fixos no rosto sombrio do idoso. Seus lábios movimentaram-se, ele suspirou, abriu os olhos e olhou para eles, fitando um de cada vez.

- Querido - disse a Sra. MacLeod -, a casa está muito vazia sem você. Depois de lavarmos a louça do jantar, resolvemos vir até aqui.

Ela parou para ouvir. Ele virou a cabeça em sua direção.

- Martha... - A voz era dele, sussurrada e entre cortada.

- Sim, Hal, estou aqui, estamos todos aqui. Nossos filhos também quiseram vir, só para conversar.

Ela fez um movimento com a cabeça para eles.

- O pequeno Hal e Georgie lhe mandaram um beijo, papai - disse Ruth rapidamente. - Eles estão dormindo. Pedi a Lou Baker que tomasse conta deles. Ela é nossa vizinha, uma boa moça. O pequeno Hal disse que, assim que você voltar para casa, quer que veja o triciclo que você pediu que comprássemos para o aniversário dele.

- Ele já está pensando no Natal - disse George. - Ontem, me perguntou se você poderia comprar uma buzina para o triciclo.

- Eu vibro com o Natal! - Era novamente a voz sonhadora de Mary. - Em cada Natal, eu penso em todos os natais que passaram;

todos os de que posso me lembrar... de nossas meias penduradas na lareira. A sua e a de mamãe ficavam nas pontas, papai, e as minhas e as de George, no meio. E as cantigas de Natal à noite... como era encantadora a música que vinha de fora, enquanto eu estava deitada em minha cama quentinha!

Ela cantou em voz baixa: - Quem é esse estranho infante, de tão nobre geração...

No leito ao lado, os olhos do rapaz estavam entreabertos. Ele virou a cabeça, sem enxergar nada; mas, agora, as vozes eram claras. Ouviu alguém cantando.

- Eu... me... lembro... de... tudo - disse o Sr. MacLeod.

- Dia de Natal - disse a Sra. MacLeod, com os olhos tristes fixos no rosto dele. - Sempre foi uma data feliz. Eu nunca quis ter a companhia de outras pessoas no Natal. Bastava estarmos todos juntos. E agora temos o pequeno Hal e Georgie.

- Mary vai se casar qualquer dia destes - disse George. - E nossa família vai aumentar.

- Mas nada vai mudar - disse Mary. - Papai e mamãe estarão conosco sempre. Somos sua família, papai. Mesmo depois de adultos, nada mudou.

- Espero ser um pai tão bom quanto você - disse George.

Agora, o rapaz conseguia enxergar. Seus olhos estavam abertos.

Ele viu o outro leito. Um homem velho, muito velho, estava deitado ali, e havia pessoas ao redor dele.

- Bons filhos - disse o velho, com voz sonolenta. Ele parecia estar meio adormecido.

- Vocês dois sempre sabiam exatamente o que nós queríamos! - A voz de Mary era terna. - Eu me lembro da boneca que ganhei quando tinha nove anos, e do anel que encontrei na árvore quando tinha 15... meu primeiro anel..., Mas como vocês sabiam que eu queria um anel de esmeralda?

- Era uma pedra bem pequena - disse a mãe.

- E tinha um brilhante pequeno de cada lado. Eu o guardo até hoje e ainda gosto muito dele.

- Eu ganhei esquis quando tinha 12 anos - disse George -, mas não sei como você soube que eu os queria, papai, porque eu nunca lhe contei. Eu receava que fossem muito caros. Foi naquele ano que extraí o apêndice.

- O papai sempre presta atenção, principalmente quando o Natal está perto - disse a Sra. MacLeod.

- Mas como você sabia que, na formatura, eu estava mais interessada em ganhar um relógio à prova de choque do que um diploma?

- Ou que eu queria ir à Califórnia?

- Nós... sabíamos - disse o Sr. MacLeod. Sua voz era arrastada.

Suas pálpebras tremiam.

O rapaz, no leito ao lado, virou-se para enxergar melhor as pessoas. Aquele ferimento, aquele ferimento era horrível. Aonde ele estava indo quando colidiu com o caminhão? A lugar nenhum, a lugar nenhum. Ele não podia suportar mais nada. Estava fugindo de ninguém, de nada, de lugar nenhum. Rodando a esmo pelas ruas, porque ninguém se importava com o que ele fazia - não se lembrava de ninguém que lhe tivesse dado atenção. Natal... ele não se lembrava de nenhum.

- A Páscoa vai ser no próximo domingo - estava dizendo a Sra.

MacLeod. - Os narcisos já nasceram, e os lírios da Páscoa estão florescendo. Há seis deles este ano. Acho que até hoje nasceram só três de cada vez, não é mesmo?

O Sr. MacLeod fez um esforço para falar.

- Cinco - ele disse claramente.

- Vejam só! - disse a Sra. MacLeod, com orgulho na voz. - Ele se lembra mais do que eu. É verdade. Em um ano, nasceram cinco.

O rapaz no leito ao lado ouvia com atenção. Páscoa. Ele conhecia a palavra. As pessoas se aprontavam para ir à igreja. Mas para quê?

As pálpebras do Sr. MacLeod se fecharam. A Sra. MacLeod fez um sinal, e George dirigiu-se à porta do quarto.

- Entre, por favor, doutor.

O médico entrou na ponta dos pés e curvou-se sobre o Sr.

MacLeod. Sentiu sua pulsação. Nada. De repente, ele sentiu algumas batidas fracas e sacudiu a cabeça.

O rosto da Sra. MacLeod tornou-se lívido, mas sua voz continuava clara.

- É melhor vocês irem para casa dormir, meus filhos - ela disse. Vocês necessitam dormir... são jovens. Vou ficar mais um pouco com seu pai.

Eles se entreolharam, entendendo. Ruth esforçava-se para não chorar novamente.

- Espere para chorar depois que sair do quarto, querida - George lhe disse.

- Boa-noite, papai - ele disse. - Voltaremos amanhã cedo.

- Amanhã cedo, papai querido - disse. Ela inclinou-se sobre o pai, com o rosto cheio de ternura. - Na manhã reluzente, reluzente - ela finalizou.

Os olhos do pai se abriram, mas ele não disse nada.

Eles partiram; os três filhos. O médico os acompanhou, hesitante.

No leito do outro lado, o rapaz observava o casal de idosos. Meu Deus, eles eram velhos mesmo. O que aconteceria agora? Ele sentiu vontade de chorar, mas não por eles. Sentiu vontade de chorar por si mesmo, porque nunca teve um pai, porque sua mãe morreu quando ele era pequeno, porque nunca teve família. Este era o seu problema - ele não tinha família. Você pode nascer e crescer ao lado de muitas outras crianças num orfanato e pensar que está tudo bem; mas não está. A mulher idosa continuava a conversar com o homem idoso.

- Hal, tudo isto são lembranças... e você e eu temos muito mais coisas para lembrar do que as crianças. Você tem sido um bom marido, Hal. Um bom marido faz a esposa feliz. Não estou falando de prover o sustento da casa. Estou falando de você como homem, Hal.

Você me fez uma mulher feliz, Hal. E, por sermos felizes juntos, nós dois, nossos filhos também são felizes.

Ela fez uma pausa, controlou a voz e prosseguiu:

- Sempre que passo por aquele pequeno bosque, onde você me pediu em casamento, vejo nós dois ali, em pé, você segurando minha mão.

A mão dele estava procurando as dela, e ela a segurou entre as suas.

- Estou aqui. Oh! querido... querido... querido...

Sua voz embargou, e ela mordeu os lábios:

- Oh! Deus, ajuda-me...

De repente, sua voz voltou a ficar forte, e ela prosseguiu:

- Eu sempre vou ver nós dois juntos naquele bosque. Nunca vou passar por lá sem nos ver...

- Martha. - O nome foi proferido com voz muito fraca, mas ela OUVIU.

- Sim, Hal. Estou aqui. Vou ficar aqui.

Ele abriu os olhos de repente, a viu ali e sorriu.

- Uma... vida... boa... - Sua voz silenciou-se, e sua mão amoleceu entre as dela. Suas pálpebras se fecharam.

Agora, qualquer um podia ver que aquele homem estava morrendo.

O rapaz sentiu vontade de chorar. Ele não chorava desde quando era criança, uma vez em que um moço golpeou-o na cabeça. Ele não se importou com isso. Estava acostumado a apanhar, mas não daquele moço. E ele chorou porque gostava de imaginar que o moço era o irmão que ele não teve.

A Sra. MacLeod também estava chorando. Lágrimas rolavam por seu rosto. Depois de alguns instantes, ela recolocou a mão do marido no lugar. Abriu uma sacola, retirou de dentro um livro pequeno com capa de couro e, enquanto as lágrimas rolavam por seu rosto, começou a ler em voz baixa:

- "O Senhor é o meu pastor; nada me faltará..." O rapaz ouviu as palavras. Faziam parte da Bíblia. Ele as ouvira na Escola Dominical do orfanato. Mas elas não significavam nada para ele. Eram apenas palavras. As pessoas diziam palavras que não tinham nenhum significado. Agora, de repente, ele sabia o que elas queriam dizer. Elas davam a entender que o velho não precisava ter medo, mesmo que tivesse de morrer.

- "Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum..." Você não precisa ter medo, era o que a mulher estava dizendo ao marido. Você tem uma família, e nós o amamos. Ela sempre se lembraria daquele bosque e de seus encontros lá - ele e ela, muitos anos atrás, e ele a pediu em casamento, e ela aceitou, e eles se amaram;

e é assim que se forma uma família; e ele e ela tiveram filhos, e George teve filhos... e Mary os teria um dia...

O rapaz estava deitado de costas. Sua cabeça doía, mas não doía muito. Ele não sentia mais vontade de chorar.

- "E habitarei na Casa do SENHOR para todo o sempre" - estava dizendo a Sra. MacLeod.

Ela fechou o livro e permaneceu sentada por um longo tempo.

Em seguida, levantou-se, inclinou-se sobre o marido e o beijou nos lábios.

- Adeus, meu amor - ela disse -, até nos encontrarmos novamente.

Ela se dirigiu à porta. - Agora eu vou para casa, doutor.

O médico entrou no quarto e afirmou:

- Está tudo acabado. A senhora foi muito corajosa, Sra.

MacLeod.

- Não fui corajosa - ela disse. - E não está tudo acabado. A vida que iniciamos juntos continuará... na eternidade.

- Sim, é verdade - disse o médico, sem prestar atenção naquelas palavras.

Ela foi embora. Mas o rapaz entendeu o que ela quis dizer. Ele continuou deitado ali, pensando, olhando para o teto. Ele nunca soube qual era o significado da vida, mas agora ele o encontrara.

Era simplesmente amar alguém de maneira tão intensa a ponto de querer viver junto dessa pessoa e formar uma família. Para ele, não importava mais o fato de nunca ter sido amado ou de nunca ter amado ninguém. Ele poderia constituir uma família só sua.

- Ei, rapaz! - O médico debruçou-se sobre ele. - Há quanto tempo você está acordado?

- Há pouco tempo - respondeu o rapaz. - Talvez meia hora...

Ele deu um sorriso, um grande sorriso, mas o médico estava preocupado. - Não é bom você presenciar tudo isso.

O médico tocou a campainha, e a enfermeira entrou no quarto.

- Coloque um biombo aqui, enfermeira!

- Pois não, doutor.

O biombo foi colocado. Em seguida, chegaram dois homens com uma maca e levaram o idoso embora. O rapaz não disse nada. Ele sabia de tudo. A família estava reunida na casa que lhes pertencia, tomando o café da manhã. George deveria estar consolando a mãe, dizendo que ela ainda tinha os filhos e os netos a seu lado. Mas ela jamais se esqueceria do marido - nunca, nunca. Isso era uma certeza, porque eles se amaram e sempre se amariam.

O coração do rapaz se encheu de paz. Agora, ele sabia por que havia nascido. E não ia morrer... apenas dormir...

Ele despertou muitas horas depois. O quarto estava limpo, o biombo havia sido retirado. O leito ao lado estava vazio e com roupa de cama limpa. Os raios de sol atravessavam a janela. Ele estava sozinho, mas, pela primeira vez na vida, não se sentia sozinho. Não precisaria mais viver sozinho. Poderia ter uma família, agora que sabia como se formava um lar. Teria um emprego, encontraria uma moça, uma boa moça, uma moça encantadora, por que não? Aquela senhora idosa deveria ter sido uma moça encantadora. Ele também podia imaginar o senhor idoso quando era jovem - alto, magro, em pé no bosque, pedindo a moça em casamento. E ela aceitando imediatamente. Ele encontraria uma moça como aquela; alguém que soubesse cozinhar e enfeitar uma árvore de Natal. Um triciclo! Quando era criança, ele queria muito ter um triciclo. Foi a primeira coisa que lhe veio à mente a respeito do orfanato - o triciclo que nunca teve. É necessário ter pais para ganhar coisas como essa. E filhos - é possível ter filhos só nossos. Feliz foi aquele homem, que morreu com todo o conforto, tendo os filhos por perto para vê-lo partir! Ninguém, que teve tantos motivos para viver, se importaria de morrer...

A enfermeira entrou no quarto, trajando uniforme limpo e engomado.

- Que tal um bom desjejum, jovem? - ela perguntou com voz alegre.

O rapaz riu e se espreguiçou.

- Eu me sinto ótimo - disse. - Traga-me uma refeição de verdade, por favor. Estou morrendo de fome!


 

DESENVOLVENDO RAÍZES

Philip Gulley

 

 

Quando eu era criança, tive um vizinho, um senhor idoso, que se chamava Dr. Gibbs. Ele não se parecia com nenhum médico que eu conhecia. Todas as vezes que eu o via, ele estava usando um sobretudo de algodão e um chapéu de palha com aba frontal de plástico verde para proteger os olhos dos raios do sol. Ele sorria muito, um sorriso que combinava com seu chapéu - velho, enrugado e surrado. Nunca gritava conosco quando brincávamos em seu quintal. Eu me lembro dele como uma pessoa muito mais bondosa do que as circunstâncias permitiam.

Quando não estava salvando vidas, o Dr. Gibbs estava plantando árvores. Sua casa localizava-se numa área de 40.000 m2, e seu objetivo de vida era transformar essa área numa floresta. O bom médico tinha algumas teorias interessantes sobre a agricultura. Ele estudara na escola de horticultura, onde "não há lucro sem suor".

Nunca regava suas árvores novas, uma norma incompatível com a sabedoria convencional. Certa vez, eu lhe perguntei por que ele fazia uso dessa regra. Ele disse que regar as plantas causa problemas para elas e, dependendo da maneira como são regadas, as gerações posteriores vão ficando cada vez mais fracas. Assim, é necessário dificultar as coisas para as plantas e arrancar as ervas daninhas das árvores tenras.

Ele dizia que as árvores regadas ficam com as raízes rasas, e as que não são regadas precisam aprofundar suas raízes à procura de umidade. Eu deduzi que as raízes profundas são muito mais preciosas.

Portanto, ele nunca regava as árvores. Plantou um carvalho e, em vez de regá-Io todas as manhãs, ele o golpeava com um jornal dobrado. Pá! Pá! Eu quis saber por que ele fazia aquilo, e ele me disse que era para chamar a atenção da árvore.

O Dr. Gibbs foi morar no céu há dois anos, depois que saí de casa para estudar. De vez em quando, passo por sua casa e olho para as árvores que eu o vi plantar há uns 25 anos. Elas estão fortes como pedras. Grandes e robustas. Aquelas árvores acordam de manhã, batem no peito e erguem um brinde à vida.

Há dois anos, plantei duas árvores. Reguei-as durante todo o verão. Borrifei-as com água. Orei por elas. Dois anos de cuidados resultaram em árvores que esperam receber tudo de graça, sem o mínimo esforço. Sempre que um vento forte sopra, elas tremem e sacodem os galhos. Frágeis árvores!

Muito interessantes aquelas árvores do Dr. Gibbs! A adversidade e a privação pareciam lhes proporcionar muito mais benefícios do que a facilidade e o conforto lhes trariam.

Todas as noites, antes de me deitar, eu passo pelo quarto de meus olhos. Paro perto deles e observo seus pequenos corpos respirando vida. Costumo orar por eles. Quase sempre, peço que a vida deles seja fácil. Senhor, livra-os de problemas. Porém, ultimamente, tenho pensado que é tempo de mudar minha oração.

E isso tem a ver com os ventos frios inevitáveis que açoitam o nosso íntimo. Sei que meus olhos vão encontrar problemas pela frente. E orar para que eles não sofram é ingenuidade de minha parte. Haverá sempre um vento frio soprando em algum lugar.

Portanto, estou modificando minha oração rotineira. Porque a vida é difícil, independentemente de querermos ou não. De agora em diante, vou orar para que as raízes de meus olhos se aprofundem, de modo que eles extraiam força dos recursos ocultos do Deus Eterno.

Muitas vezes, oramos pedindo por facilidade; mas essa é uma oração raramente atendida. O que precisamos fazer é orar para ter raízes que se aprofundem no Deus Eterno, para que as chuvas e os ventos fortes não nos levem de roldão.


 

PERSPECTIVA

Marilyn McAuley

 

 

Uma menina estava visitando sua avó, no campo. Certa noite, elas se sentaram para apreciar as estrelas no céu - que possuíam um brilho que a menina nunca havia visto, já que morava na cidade, onde existem muitas luzes. Ela se encantou com a beleza e disse à avó:

- Se o céu é tão lindo do lado do avesso, como ele deve ser do lado direito?


 

TREM PARA BARCELONA

Jori Senter Stuart

 

 

A primavera chegou, eu tinha 18 anos, e a vida era maravilhosa.

Acabara de completar um semestre escolar, na Alemanha, e iniciaria o segundo período letivo na Inglaterra. Entre um semestre e outro, uma amiga e eu decidimos fazer um pequeno passeio turístico, e programamos uma viagem que cobriria oito países, em 28 dias.

Tínhamos acabado de passar alguns dias sob o sol dourado da pequena cidade de Nice, na Riviera Francesa. Agora, nossos francos estavam no fim - sinal de que era hora de arrumar as malas e prosseguir a viagem. Guardamos nossos parcos pertences em mochilas, e, como se fôssemos dois burros de carga, caminhamos com dificuldade até a estação ferroviária.

Quando chegamos à estação, a massa humana que aguardava os trens já atingia as ruas ao redor. Aparentemente, naquele início de primavera, todos os 50 mil estudantes das faculdades estavam tentando sair de Nice. Durante todo o tempo em que tentávamos abrir caminho até a bilheteria, ouvíamos estas palavras ameaçadoras: "greve de trens".

- Não há trens - confirmou o homem atrás do balcão. - Talvez daqui a um dia. Talvez daqui a uma semana.

Desanimadas, procuramos um lugar na estação para nos acomodarmos. Assim que o encontramos, fizemos uma análise da situação. Tínhamos comida suficiente para atravessar o dia. Água engarrafada, dois sanduíches de manteiga de amendoim e duas laranjas. Nossa reserva financeira consistia exatamente de 12 francos.

De repente, percebemos que estávamos muito longe de casa.

Sete horas depois, a cena quase não havia mudado, exceto que a multidão aumentara, os ânimos estavam mais exaltados, e o vozerio dos turistas frustrados alcançava as ruas. Adolescentes mal-encarados portavam-se inconvenientemente no meio da multidão, à procura de alvos fáceis. Senti-me mais confortada, ao ver um grupo de estudantes norte-americanos sentados perto de nós. Eles estavam entretidos, jogando cartas e escrevendo mensagens em cartões postais para seus familiares.

- Vou dar uma volta para ver se encontro um meio de sairmos deste lugar. - Minha amiga estava demonstrando impaciência. - Tome conta de nossas coisas. Vou dar alguns telefonemas.

Encostei minha jaqueta num pilar e tentei acomodar-me para passar a noite ali. A situação começava a se acalmar na estação.

De repente, ouvi uma voz, vinda de trás do pilar, sussurrando para mim:

- Não diga nada. Só quero seu dinheiro e seu passaporte, nada mais.

O homem saiu de trás do pilar e apareceu diante de mim. Era alto e tinha uma expressão ameaçadora no rosto. A aba do chapéu cobria-lhe os olhos.

- Sinto muito. Não entendo...

Eu esperava que ele se sentisse frustrado e desistisse.

Evidentemente, ele não era homem de desistir facilmente.

- Você sabe o que eu quero, americana. É melhor parar de fazer esse joguinho comigo, antes que eu me zangue de verdade...

Enquanto ele me dizia essas palavras, um rapaz do grupo de estudantes americanos que estava perto de nós agarrou-me pelo braço e começou a me levantar do chão.

- Nosso trem acabou de chegar. Pegue suas coisas e vamos embora antes que alguém tome o nosso lugar.

Uma garota loira, de rabo-de-cavalo, trajando camisa larga e calça jeans, estava carregando a mochila de minha amiga nos ombros e falava comigo o tempo todo.

- Aonde você foi? Procuramos por você o tempo todo... Vamos, temos de correr. Você nos dá licença, por favor? - Ela me puxou, e nós duas passamos pelo pretenso ladrão.

Ele ficou tão surpreso que não disse nada, mas tentou agarrar-me pelo braço. Minha benfeitora foi mais rápida do que ele e me empurrou para o meio da multidão.

Depois de um tempo, que pareceu uma eternidade, depois de tanto empurra-empurra, chegamos a um lugar onde havia menos gente.

Tremendo, coloquei minha mochila ao lado de um banco e me virei para agradecer àquela que acabara de me salvar. Porém, só avistei a mochila vermelha de minha amiga, encostada na parede. A moça loira, de rabo-de-cavalo, havia desaparecido no meio do povo.

De repente, ouvi alguém chamar meu nome.

- Jori! - Minha amiga vinha correndo em minha direção, pela plataforma. - Onde você estava? Por que não ficou perto do pilar?

Sentamo-nos no banco e comecei a lhe contar minha aventura. Fui interrompida pelo aviso vindo do alto-falante:

"Trem para Barcelona encostando na Plataforma 4! Trem para Barcelona encostando na Plataforma 4! " Olhamos para cima e vimos que estávamos na Plataforma 4!

Avistamos o farol da locomotiva rodando pelos trilhos em nossa direção.

Mais tarde, enquanto observávamos, pela janela do trem, as paisagens dos campos franceses, eu disse à minha amiga:

- E pensar que não tive a oportunidade de agradecer àquela moça!

Minha amiga disse simplesmente:

- Acho que ela sabe que você queria lhe agradecer.

Não sei de que forma, mas achei também que ela sabia.


 

CASTELOS DE AREIA

Max Lucado

 

 

Sol a pino. Maresia. Ondas ritmadas. Na praia está um menino.

Ajoelhado, ele cava a areia com uma pá de plástico e a joga dentro de um balde vermelho. Em seguida, vira o balde sobre a superfície e o levanta. Encantado, o pequeno arquiteto vê surgir diante de si um castelo de areia.

Ele continuará a trabalhar a tarde inteira. Cavando os fossos.

Modelando as paredes. As rolhas de garrafa serão as sentinelas.

Os palitos de sorvete serão as pontes. E um castelo de areia será construído.

Cidade grande. Ruas movimentadas. Ronco dos motores dos automóveis.

Um homem está no escritório. Em sua escrivaninha, ele organiza pilhas de papel e distribui tarefas. Coloca o fone no ombro e faz uma chamada. Como que num passe de mágica, contratos são assinados e, para grande felicidade do homem, foram fechados grandes negócios.

Ele trabalhará a vida inteira. Formulando planos. Prevendo o futuro. As rendas anuais serão as sentinelas. Os ganhos de capital serão as pontes. Um império será construído.

Dois construtores de dois castelos. Ambos têm muita coisa em comum. Fazem grandezas com pequeninos grãos. Constroem algo do nada. São diligentes e determinados. E, para ambos, a maré subirá, e tudo terminará. Contudo, é aqui que as semelhanças terminam. Porque o menino vê o fim, ao passo que o homem o ignora. Observe o menino na hora do crepúsculo.

Quando as ondas se aproximam, o menino sábio pula e bate palmas.

Não há tristeza. Nem medo. Nem arrependimento. Ele sabia que isso aconteceria. Não se surpreende. E, quando a enorme onda bate em seu castelo e sua obra-prima é arrastada para o mar, ele sorri. Sorri, recolhe a pá, o balde, segura a mão do pai e vai para casa. o adulto, contudo, não é tão sábio assim. Quando a onda dos anos desmorona seu castelo, ele se atemoriza. Cerca seu monumento de areia, a fim de protegê-lo. Impede que as ondas alcancem as paredes construídas por ele. Encharcado de água salgada e tremendo de frio, ele resmunga para a próxima onda.

- É o meu castelo - diz em tom de afronta.

O mar não precisa responder. Ambos sabem a quem a areia pertence...

E eu não sei muito sobre castelos de areia. Mas as crianças sabem.

Observe-as e aprenda. Vá em frente e construa, mas construa com o coração de uma criança. Quando chegar a hora do pôr-do-sol e a maré levar tudo embora - aplauda. Aplauda o processo da vida, segure a mão do Pai e vá para casa.


 

A COLCHA DE RETALHOS

Melody Carlson

 

 

Tenho uma colcha de retalhos feita pela avó de meu pai. Não é uma colcha bonita, e os tecidos que a compõem parecem ser bem antigos. Mas gosto muito dela.

Provavelmente, são sobras aproveitadas do avental da tia Fran, do vestidinho de Páscoa de Mary, ou da camisa predileta do vovô.

Têm formatos e tamanhos estranhos. Alguns formatos indefinidos possuem colchetes e curvas, longas tiras de tecido costuradas a duras penas com dezenas de pontos meticulosos. Há retalhos menores que a unha de meu polegar.

Alguns tecidos são muito simples e de cores desbotadas. Posso ouvir a voz cansada de uma mãe dizer: "Mas, querida, é um tecido muito durável", enquanto a filha dela franze as sobrancelhas diante de um vestido novo para ir à escola. Outros são de cores vivas e alegres, como, por exemplo, fragmentos de aniversários, férias de verão e tempos divertidos que se foram. Uns poucos retalhos mais requintados são macios como cetim, com alto-relevo ou bordados; parecem sussurrar lembranças de casamentos, bailes, primeiro beijo...

Minha bisavó era quase cega. Talvez isso explique por quais tonalidades foram combinadas a esmo e parecem gritar uma para a outra. Eu me pergunto se ela imaginava com o que suas criações se pareciam. Ou será que simplesmente usava o tato? Seus trabalhos possuem uma textura interessante - lisa, quase acidentada, tecidos leves costurados num retalho de veludo; e, por toda a colcha, há centenas de pontinhos feitos à mão, quase invisíveis, pregas sempre muito bem-feitas.

Se eu fosse cega, gostaria de fazer colchas como esta.

Recentemente, minha família foi transferida para outra cidade, e fiquei de cama, com gripe, enrolada na grande colcha de retalhos de minha bisavó. Senti pena de mim mesma e saudades das amigas que deixei para trás. No fundo, eu sabia que a culpa por esses sentimentos era minha - eu não havia decidido fazer novas amizades. Várias pessoas conhecidas pareciam querer aproximar-se de mim, mas eu estava com um pé atrás, hesitante...

Enquanto olhava para a colcha de retalhos, pensei nas amigas que tive através de toda a minha vida. Algumas pareciam um pouco grosseiras como um retalho de lã de trama resistente, mas com o tempo foram amaciando - ou eu me acostumei com elas.

Outras eram delicadas como seda e precisavam ser tratadas com muito cuidado. Algumas tinham um colorido vivo e alegre e eram companhias divertidas. Outras, muito especiais, tinham a textura macia e aconchegante da flanela e sabiam como me fazer sentir bem.

Boa parte de minhas amigas esteve a meu lado apenas por uns tempos. Ou fui eu que as deixei para trás, ou foram elas que me abandonaram! Apesar disso, em meu coração sei que são amigas para a vida toda. Se eu as encontrar na rua amanhã, nos abraçaremos, daremos boas risadas, e a conversa será interminável. Parece que tudo aconteceu ontem.

E é por isso que Deus as costurou em meu coração.

Enrolei-me na velha colcha, sentindo-me confortada e aquecida por minhas lembranças. Certamente, minha obra-prima - essa colcha de amigas que ajuntei ao longo da vida - ainda não está terminada. E eu gostaria de fazer novas amizades nesta-cidade. E, como minha bisavó, que confiava em seus dedos para guiá-Ia, eu gostaria de fazer o mesmo, pela fé.


 

LIXO PARA UNS... TESOURO PARA OUTROS

Ron Mehl

 

 

Por várias vezes, Bob havia tentado encontrar o caminho pelo fundo da garagem, e estava prestes a sair quando a avistou. Embora ela estivesse parcialmente escondida debaixo de uma toalha de mesa e um acolchoado velho, seu formato era inconfundível.

Tratava-se de uma motocicleta. E não era uma simples motocicleta... era uma Harley.

Evidentemente, não fazia parte dos produtos vendidos em liquidação naquela garagem, e aquilo chamou a atenção de Bob.

- A moto está à venda?

O homem encolheu os ombros e respondeu:

- Bem... por que não? Minha mulher diz que tudo está à venda.

Mas você precisa saber de uma coisa: A moto não roda desde que foi comprada. O motor não funciona. Ela não sai do lugar. Vale mais a pena comprar uma nova do que consertar esta coisa velha.

Bob concordava com a cabeça pacientemente. Mas procurou saber:

- Mesmo assim, quanto você quer por ela?

- Tenho certeza de que o pessoal do desmanche me daria 35 dólares pela lataria. O que você acha?

Bob olhou para aquela montanha de metal velho e enferrujado. O que sua esposa diria se ele a levasse para casa? Apesar disso... para um olho bem treinado, ela possuía potencial. Mesmo que a moto não rodasse, ele daria um polimento nela, para início de conversa. E poderia vendê-la por mais de 35 dólares. Só as peças valiam mais do que isso.

- Está bem - ele disse. - Eu lhe dou 35. Posso pegá-la amanhã?

De repente, a velha Harley já estava ocupando espaço na garagem de Bob. Depois de algumas semanas de protelação, ele resolveu telefonar para a Harley-Davidson só para saber quanto custariam as peças principais de reposição. A ligação foi transferida para uma pessoa do setor de peças, e ele fez algumas perguntas.

- Se você me fornecer o número de série - disse o vendedor -, eu poderei verificar para você.

Bob forneceu o número.

- Aguarde um instante.

Enquanto aguardava na linha, Bob ficou ouvindo música: rock da década de 1960. Bem apropriada! - ele pensou. Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, o homem retornou. E retornou bem a tempo. Mais uma música cantada pelos Trogs ou por Country Joe and the Fish, e ele teria desistido.

Agora, a voz do homem parecia diferente. Estranha. Ponderada.

Como se alguma coisa importante estivesse prestes a acontecer.

- Eu... eu vou precisar ligar de volta para você, está bem? Você poderia me fornecer seu nome completo, endereço e o número de seu telefone, por favor?

Por que ele precisa de meu nome e endereço? - pensou Bob. Mas, que mal poderia haver? Mal nenhum. Provavelmente, ele passaria a fazer parte de alguma lista de motociclistas. Bob forneceu as informações ao homem e desligou.

Após alguns minutos, porém, ele começou a ficar nervoso.

Arrependeu-se de ter fornecido informações pessoais por telefone. E se a moto estivesse envolvida em algum crime? E se fosse roubada? Estaria ele correndo o risco de ser processado? Talvez a polícia já estivesse a caminho - ou, quem sabe, um Anjo do Inferno, pronto para reclamar sua moto...

Bob permaneceu ansioso durante alguns dias, sem receber notícias do revendedor da Harley. Assim que suas preocupações começaram a se dissipar, o telefone tocou. Dessa vez, contudo, não era o funcionário do setor de peças; Bob se viu falando com um executivo da Harley. O homem parecia exageradamente amistoso, deixando Bob ainda mais intranquilo.

- Preste atenção, Bob - ele disse -, quero que você me faça um favor, está bem?

- Hum... bem, acho que sim.

- Bob, quero que você deixe o fone de lado, sem desligá-lo, retire o assento de sua moto e veja se existe alguma coisa escrita embaixo dele. Você me faria esse favor, Bob?

O homem falava como se fosse um controlador de tráfego aéreo instruindo o pouso de um 737.

Bob sentiu-se entre a cruz e a espada.

Mesmo assim, pegou uma chave de fenda, fez o que lhe foi dito, e retornou ao telefone.

- Sim - ele disse -, existe alguma coisa escrita ali. Está gravada, e diz: "O REI". Veja lá, existe algum tipo de problema com esta moto?

O que está havendo?

Houve um segundo ou dois de profundo silêncio do outro lado da linha. Bob sentia-se como alguém conversando por telefone a longa distância e ouvindo um alfinete cair no chão.

- Bob, meu patrão autorizou-me a lhe oferecer 300 mil dólares pela moto, com pagamento à vista. O que você acha? Podemos fechar negócio?

Bob estava tão atordoado que não conseguia falar.

- Eu... eu... preciso pensar um pouco - ele gaguejou.

Depois de desligar o telefone, ele começou a escorregar lentamente até sentar-se no chão da cozinha.

No dia seguinte, Bob recebeu um telefonema de Jay Leno, o principal entrevistador de programas noturnos de TV. Leno explicou que tinha "uma queda especial por Harleys" e ofereceu 500 mil dólares a Bob.

"O Rei" era nada mais nada menos do que Elvis Presley. O número de série deixara bem claro esse fato, e a gravação embaixo do assento eliminava qualquer dúvida. A moto que Bob resgatara como se fosse ferro velho, por 35 dólares, havia pertencido ao "Rei do Rock'n Roll".

E valia meio milhão de dólares - no mínimo. Depois de tantos anos à procura da "Grande Descoberta", Bob a encontrara, mas não havia reconhecido o que tinha em mãos.

Esta história serve para mostrar que aquilo que é lixo para uns é tesouro para outros. O valor da motocicleta, é claro, não estava na lataria nem nas peças. Ela nem sequer rodava! O valor não tinha nada a ver com a beleza da moto, com o material usado em sua fabricação, nem com seu desempenho... Tudo estava ligado ao fato de que ela pertencera ao "Rei". Ele a tocou, rodou com ela, teve orgulho dela. E o inexplicável valor que nossa cultura atribui a Elvis Presley - chegando a considerá-lo um deus - foi transferido para sua motocicleta. Existem pessoas dispostas a pagar uma pequena fortuna pelo privilégio de dizer "Eu possuo a motocicleta de Elvis Presley".

Bob não se deu conta de que possuía uma coisa de grande valor.

Não fazia ideia de quem tinha sido o proprietário anterior da moto.

Apenas viu alguma coisa barata à venda - uma oportunidade de obter um pequeno lucro. O que ele descobriu depois, é claro, foi que o proprietário era a coisa mais importante naquela velha Harley. Na verdade, o proprietário era tudo.

E o que fala mais alto quanto aos seus valores e aos meus?

Eles têm a ver com o material de que somos feitos? Ou estão baseados em nossa função na empresa ou em nossa situação econômica? São determinados pelo que podemos fazer e por nosso "desempenho"? ... O que me dá uma sensação de valor e importância "é saber que eu pertenço a Deus. Fui redimido pelo Filho de Deus, mediante o grande sofrimento e o alto preço que Ele pagou. Ele é meu proprietário... Ninguém pode contestar a marca do Rei.


 

COMECEM A ORAR

Charles Swindoll

 

 

O avião seguia para Nova York - um voo rotineiro, normal e muito maçante. Mas, dessa vez, ele provou ser o contrário.

Pouco antes da aterrissagem, o piloto notou que não conseguia engatar o trem de pouso. Ele acionou todos os controles possíveis, tentando engatá-Io várias vezes... sem sucesso. Em seguida, ele pediu instruções aos controladores de terra. Enquanto o avião voava em círculos sobre o campo de pouso, a equipe de emergência cobriu a pista com espuma. Os carros de bombeiro e outros veículos de emergência tomaram posição na pista.

Nesse ínterim, a cada manobra, os passageiros recebiam instruções com aquela entonação de voz calma e sem emoções que os pilotos sabem demonstrar com tanta perfeição. As comissárias de bordo caminhavam silenciosamente pela cabina de passageiros, com ar de frieza no rosto. Os passageiros foram instruídos a colocar a cabeça entre os joelhos e a agarrar com força os tornozelos antes do impacto.

Houve lágrimas e alguns gritos de desespero...

De repente, quando faltavam apenas alguns minutos para o pouso, o piloto anunciou pelo serviço de comunicação interna:

- Estamos iniciando a descida final. Neste momento, de acordo com o Código Internacional de Aviação estabelecido em Genebra, é meu dever informar-Ihes que, se os senhores acreditam em Deus, devem começar a orar.

Palavra de escoteiro... foi exatamente o que ele disse!


 

TRINCAS E FENDAS SECRETAS

Melody Carlson

 

 

Quando eu era criança, a casa de vovó - em imponente estilo vitoriano, dava-me a idéia de um castelo. Majestosa e branca, ela estava assentada sobre uma colina gramada, rodeada por um canteiro colorido de flores. As pessoas paravam para admirar, e até mesmo fotografar, o deslumbrante jardim de pedras de vovó. As três horas de viagem até aquela casa significavam muito mais que simplesmente visitar seu lar, onde havia pão de gengibre e flores bonitas; significava penetrar num mundo muito diferente do meu.

Na casa de vovó tudo era diferente, e eu encontrava um mundo secreto - um mundo onde só eu conhecia todos os recantos e fendas fascinantes. No verão, eu passava horas incontáveis explorando seus cantos secretos. Lembro-me do agradável aroma de terra depois da chuva de verão e da umidade do cimento frio que atravessava minhas bermudas finas de algodão quando eu me sentava nos degraus da escada atrás da casa de vovó. Uma profusão de brincos-de-princesa vistosos, com suas exuberantes cores arroxeadas, cobria os canteiros que rodeavam a escada. Eles pareciam lanternas japonesas em miniatura, e as abelhas voavam ao redor para recolher alimento.

Lembro-me da sensação de tocar num brinco-de-princesa fechado e o ruído que eu ouvi quando o apertei levemente com os dedos - e do zumbido abafado da infeliz abelha que aprisionei dentro do botão. Eu subia por aqueles degraus cercados de brincos-de-princesa até chegar à casa de Martha - uma vizinha de vovó. Da laje de seu quintal, ainda molhada pela chuva, subia um vapor que brilhava ao sol da tarde. Um pouco adiante do quintal, havia um pequeno jardim fechado por uma cerca da altura de uma criança. Eu me encostava na cerca e estendia os braços por cima dela, para inspecionar a misteriosa folhagem verde que florescia do outro lado. Um varal atravessava todo o jardim. Em uma das extremidades, pendia uma roldana que meu avô havia desenhado para colocar e retirar as roupas do varal sem ter de pisar no jardim de Martha. Ela e minha avó usavam o mesmo varal, aproveitando a mesma luz do sol.

Em sua sala banhada pelo sol, Martha colecionava blocos para construções de brinquedo, bonecas de madeira, livros de fotografias e um visor de fotos em 3D - tudo para seus jovens visitantes.

Naturalmente, ela servia bolinhos e chá; isso era uma fantasia para uma menina como eu.

Na mesma rua, morava Londy, a irmã de vovó. A casa de Londy me fazia lembrar a casinha da Branca de Neve. Cercada de árvores altas, e muito bem escondida, ela parecia ter brotado ali como um cogumelo gigante. Londy, uma mulher franzina, combinava com sua casa pequenina. Ela gostava de agitação e preparava deliciosos lanches em sua cozinha apertada. As torradas e as geléias feitas em casa eram servidas a seus convidados em pratos de porcelana coloridos, e ela nunca fazia distinção entre crianças e adultos - todos nós saboreávamos aquelas delícias nos mesmos pratos de porcelana; utensílios de plástico não existiam em sua cozinha.

Londy gostava de colher cores, e elas caíam em cascata dos vasos de porcelana de sua casa. Do lado de fora da janela de sua cozinha, cresciam rosas, groselhas e hortelã. A mistura de fragrâncias era quase inebriante, quando penetrava na casa, levada pela brisa quente do verão. A casa de Londy parecia uma casinha encantada para bonecas crescidas.

Na casa de vovó, eu era a primeira a levantar de manhã, porque sabia que vovô já havia preparado um delicioso e fumegante café da manhã, na aconchegante cozinha do pavimento inferior. Depois de bem alimentada, eu continuava sentada à mesa, em frente a uma enorme vidraça, contemplando os gerânios vermelhos que floresciam o ano todo na jardineira sob a janela. Eu tentava espiar a rãzinha verde que morava no meio dos gerânios e observava os beija-flores pairando sobre as caixas de flores. Programações e rotina não faziam parte dos verões daquela época.

Embora tudo permaneça como era, as pessoas se foram; e eu me sinto dividida entre o desejo de retomar para descobrir o tempo em que fez com o paraíso de minha infância e o medo de que o encanto, agora quebrado, só me traga desapontamentos. Os lugares de que me lembro, mesmo que não tenham mudado, jamais poderão ser encontrados novamente, porque meus olhos de criança enxergavam a colina como uma montanha e a casa como um castelo. E essas lembranças devem perdurar nos lugares secretos - escondidas nas trincas e fendas - apenas para serem visitados em nossa memória.


 

DE VOLTA AO RUMO CERTO

Sandy SnaveLy

 

 

Meu marido e eu gostamos imensamente de velejar. Demos ao nosso barco de 27 pés o nome de Mar Sensual, porque ele representa para nós a sedução que a água exerce em nosso espírito aventureiro. Quando a água está calma e o vento sopra tranquilo, velejar é uma experiência profundamente enriquecedora. Contudo, há ocasiões em que a água se torna violenta e o vento sopra terror através de nossas veias, como se fosse um inimigo invisível.

Certo dia, enquanto subíamos o rio Colúmbia em direção a Astoria, um fenômeno marítimo, conhecido apropriadamente como "fazedor de viúvos", interrompeu nossa pacífica viagem. Ondas de quase dois metros batiam em nós, uma após outra, e tivemos de nos firmar para enfrentar os solavancos.

De repente, Bud ouviu um som que parecia vir da proa. Ao esticar o corpo para enxergar através da água que o vento atirava à nossa volta, ele constatou que a âncora se havia deslocado do lugar e estava batendo contra o casco-do-barco. A cada pancada, aumentava o perigo de ser aberto um buraco na fibra de vidro, ameaçando nossa segurança.

Bud fez, então, a coisa mais assustadora que o vi fazer. Sem um colete salva-vidas ou uma corda de segurança, ele se dirigiu à extremidade da proa, deixando-me na cabina para manejar o leme enquanto ele resolvia o problema da âncora.

Um de meus pontos fortes na arte de velejar sempre foi minha habilidade em manter o barco no rumo certo - até aquele momento em que a vida de meu marido estava em risco, na beira do barco.

Ondas cada vez mais bravias batiam nele, como se fossem gigantescos ciganos do mar tentando abatê-lo. Focalizando os olhos em Bud, eu comecei imediatamente a planejar o que fazer para resgatá-lo caso ele caísse na água.

O som da voz de meu marido gritando para mim através da tempestade afastou meu medo e fez-me voltar a raciocinar:

- Retome ao rumo certo! Aponte o barco na direção do marcador!

Desviar os olhos de meu marido e focalizá-Ios no marcador foi, para mim, a ordem mais difícil de obedecer. Meus instintos não permitiam que eu virasse as costas àquilo que parecia ser a necessidade do momento e passasse a confiar nas regras da água. No entanto, quando obedeci ao comando de Bud, fui capaz de retomar o barco ao rumo certo. Bud prendeu a âncora no lugar e, mais uma vez, estávamos seguindo a direção correta.

Naquela tarde, nós dois aprendemos uma preciosa lição: O perigo ronda em cada esquina e somos tentados a desviar a atenção de nossos verdadeiros objetivos, a mudar as regras para resolver o que parece ser a crise mais iminente da vida.

Porém, existem princípios sólidos desenvolvidos para nos levar em segurança ao nosso destino, se estivermos dispostos a confiar neles e não nos desviarmos do rumo diante de medos repentinos.

Devemos estar determinados a estudar os mapas, seguir as regras, e firmar o rumo, ou cairemos de cabeça nas águas profundas quando as tempestades da vida nos atingirem.


 

O CÂNION DAS SEQUÓIAS

Cassandra Lindell

 

 

Meu avô cheirava a couro velho, terra fresca e suor. Usava camisa de algodão de manga curta, jeans presos por suspensórios e loção pós-barba Mennen. Quando eu era bem pequena, o chapéu de sua preferência era um que meu irmão e eu chamávamos de "chapéu de safári" - com copa cinza de plástico rijo e aba costurada com perfeição.

Vovô sempre achou que os cavalos eram essenciais à vida e colocou-me em cima deles desde tenra idade. Até hoje, quando estou montada em um cavalo, sinto-me importante e especial; a companhia de vovô também me dava essa mesma sensação. Acho que ele sempre soube que um dia me levaria ao Cânion das Sequoias e me mostraria que seu coração ainda pertencia àquele lugar. Quando ele e vovó se casaram, costumavam passar o verão nas Sierras.

Lembro-me do som dos cascos batendo no metal quando retiramos os cavalos do trailer para aquela primeira cavalgada no Cânion das Sequoias. Lembro-me do cheiro de couro e estrume que sentíamos enquanto colocávamos as selas nos animais. Ben resfolegava e fungava de satisfação, dançando na poeira.

Enquanto cavalgávamos, vovô apontou para os morangos silvestres ao longo da trilha; eu não tinha ideia de que eram tão pequeninos assim. Teriam passado despercebidos para mim.

Vovô conhecia a diferença entre o som da água gotejando ao longe e o som do vento batendo nas árvores. Eu não conhecia. Certa vez, achei que estava ouvindo som de vento. Vovô sorriu.

- Não é. Venha comigo.

Ele desceu a colina, saindo da trilha. Eu o acompanhei, sem saber para onde estava indo.

Logo depois, ele parou e empurrou para trás a aba de seu chapéu estilo cowboy. Puxei Ben para perto de mim e acompanhei o olhar de vovô.

Até hoje, nunca vi um lugar mais tranquilo que aquele. Abaixo de nós, um riacho corria sinuosamente pelas samambaias e lírios silvestres, caindo a uma altura de três metros, para formar uma piscina de água cristalina. Ao lado da piscina, havia uma praia arenosa e uma tora caída. Pensei no Jardim do Éden. Sentamo-nos ali, por um bom tempo, tempo suficiente para que a imagem ficasse gravada para sempre em minha mente. Quando necessito de alguns momentos de paz, fecho os olhos e vejo aquela piscina de água cristalina. Mais adiante na trilha, uma clareira no meio da mata fez brotar um grande sorriso nos cantos da boca de meu avô. Diante de nós, estendia-se uma praia com pedras do tamanho da mão fechada. Um riacho, tentando passar despercebido, seguia seu caminho por entre as pedras, antes de juntar-se ao outro, logo depois de passar pela clareira.

- Vamos acampar, montar nossa barraca ali. Sua avó estendeu um varal entre aquelas duas árvores... Acertei a cabeça de um cervo no alto daquele morro com um tiro.

Vovô reviveu para mim um mundo esquecido no passado.

- Há um riacho subterrâneo que corre bem ali - disse vovô, apontando novamente para um determinado lugar.

- Como você sabe?

- Veja aquela fileira de árvores novas. As sementes que caem crescem onde existe água.

De repente, quando a trilha começou a serpentear pela montanha, ficamos frente a frente com uma árvore caída no meio do caminho. Era uma sequoia. Uma árvore gigantesca. A árvore caída tinha, no mínimo, quatro metros de diâmetro - o que significava uma parede de quatro metros à nossa frente. Os galhos emaranhados pendiam na encosta do morro. Acima de nós havia-se formado um enorme buraco na terra, no lugar das imensas raízes.

Fiquei assustada. Teríamos de voltar. Vovô sentou-se e olhou para a árvore. Eu olhei para ele.

- Vamos ter de voltar? - perguntei, desapontada.

Ele continuou sentado, olhando para a árvore caída. Em seguida, com a rapidez de um raio, vovô rodopiou com o cavalo, cutucou-o com os calcanhares e gritou por cima do ombro:

- Vamos!

Vi seu cavalo escorregar nas folhas caídas e nos espinhos enquanto eles subiam a montanha. Eu não conseguiria subir aquela montanha.

Eu cairia. O cavalo cairia. Nós dois cairíamos.

O problema, porém, era que eu conhecia meu avô - ele aguardaria o dia inteiro no topo da montanha, se fosse necessário, até que eu o seguisse. Ele era conhecido por sua tenacidade. Vovô nunca desistiu da ideia de que o melhor caminho para aprender é tentar o impossível.

- Vamos! - Era a voz de vovô gritando novamente para mim. Deixe que o cavalo encontre o caminho. Se você não quer cair, ele também não vai querer cair.

Eu sabia que podia confiar em meu avô. Afinal de contas, ele passara a vida inteira no lombo de um cavalo e conhecia muito bem as montanhas.

Por isso, fiz a única coisa que podia: Agarrei-me na sela, soltei as rédeas - e fechei os olhos com força enquanto cutucava o cavalo com os calcanhares.

Ben saltou para a frente, subindo a montanha com dificuldade.

Foi uma cavalgada acidentada. Depois de alguns segundos, senti seus passos macios e abri os olhos. Lá estava meu avô, feliz, piscando para mim com seu rosto enrugado.

- Você fechou os olhos? Então, perdeu a melhor parte da cavalgada!

Aprendi muitas coisas naquele dia e em outras cavalgadas pelo Cânion das Sequoias. Ainda vejo, com muita frequência, a imagem daquela gigantesca sequoia atravessada na trilha. A vida também é assim. Seria ótimo para todos nós se houvesse apenas morangos silvestres e piscinas de água cristalina. Porém, deparamo-nos muitas vezes com lugares onde existe uma enorme árvore caída atravessando a trilha. Ela surge de repente, e ficamos diante de um terrível impasse.

Lembro-me também da alternativa que meu avô me ensinou. Posso desistir e retornar triste e derrotada - ou posso perseverar, soltar as rédeas e seguir Aquele que conhece o caminho para contornar qualquer obstáculo. A fé é assim.

E se mantivermos os olhos abertos? Não perderemos as melhores partes.


 

A VIDA COMEÇA AOS 80

Frank C. Laubach

 

 

Tenho boas notícias para você. Os primeiros 80 anos de vida são os mais difíceis. Os outros 80 são uma série de festas de aniversário.

Quando você chega aos 80 anos, todos querem carregar sua mala e ajudá-Io a subir escadas. Se você esquecer seu nome, o nome de outra pessoa, um compromisso, seu número de telefone ou a promessa de estar em três lugares ao mesmo tempo, ou ainda não se lembrar de quantos netos você tem, basta explicar que tem 80 anos.

Ter 80 anos é muito melhor que ter 70. Aos 70, as pessoas ficam furiosas com você por qualquer coisa. Aos 80, você tem a desculpa perfeita para tudo o que fizer. Se agir tolamente, é sua segunda infância. Todo mundo está à procura de sintomas de memória fraca. Ter 70 anos não é nada divertido. Nessa idade, todos esperam que você se isole em uma casa na Flórida e se queixe de artrite (que eles costumam chamar de lumbago), e você pede que todos parem de resmungar porque não consegue compreender o que dizem. (Na verdade, a esta altura da vida, você perdeu 50% de sua audição.) Se você sobreviver até os 80, todos se surpreenderão por você continuar vivo. Eles vão tratá-lo com respeito, pelo fato de você ter vivido tanto tempo. Mas a verdade é que eles ficam surpresos por você caminhar bem e falar com lucidez.

Portanto, por favor, companheiros, tentem chegar aos 80. É a melhor época da vida. As pessoas vão perdoá-Ios por tudo. Se vocês me perguntarem, vou dizer que a vida começa aos 80.


 

PONTO DE ÔNIBUS

Patsy Clairmont

 

 

Jason, nosso filho mais novo, tem dois objetivos na vida. Um é divertir-se, e o outro é descansar. Ele consegue fazer essas duas coisas muito bem. Portanto, eu não deveria ter-me surpreendido com o que aconteceu quando o despachei para a escola num dia de outono.

Assim que Jason saiu para pegar o ônibus, comecei, imediatamente, a me preparar para um dia agitado. A batida na porta foi uma surpresa e interrompeu o meu ritmo da manhã, coisa que nunca consigo manter. Corri até a porta, abri-a com força e me deparei com Jason.

- O que você está fazendo aqui? - interpelei-o.

- Abandonei a escola - ele me comunicou ostensivamente.

- Abandonou a escola? - repeti, sem acreditar, e falando a um decibel acima da capacidade dos ouvidos humanos.

Engolindo a raiva, tentei lembrar-me de algumas regras da psicologia materna. Mas tudo o que vinha à minha mente era "Quem não trabalha não come", "Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje", ou coisas do gênero. Mas isso parecia não se aplicar ao dilema de um menino de seis anos. Portanto, questionei:

- Por que você abandonou a escola?

Sem hesitar, ele proclamou:

- Ela é longa demais, difícil demais, chata demais!

- Jason - eu retorqui imediatamente -, você acabou de descrever o que é a vida. Vá para o ponto do ônibus!


 

TESOUROS NO CÉU

Bob Welch

 

 

Decentemente, quando nosso pastor proferiu um sermão extraído do Livro de Mateus, baseado no texto "Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem...", não pude deixar de pensar num leilão ao qual estive presente.

Não se tratava de um leilão comum. O público podia dar lances por objetos depositados em cofres de segurança e que foram esquecidos por seus proprietários. Numa determinada época, eles foram tão importantes que as pessoas pagaram para guardá-Ios em cofres de aço.

Diplomas, boletins escolares de crianças, cartas...

Lembro-me de ter visto desde coleções de moedas, relógios de bolso e joias até documentos e objetos pequenos, todos acondicionados em sacos plásticos.

Roupas de escoteiro remendadas, recibos de um hotel em Waikiki, desenho de um coelhinho feito por uma criança...

Eram pertences que não foram reclamados, aguardando ser leiloados, bens esquecidos ou negligenciados por pessoas que já haviam falecido.

Rosários, cartas, passagens de trem...

Cada invólucro continha um mistério. As pistas serviam mais para despertar curiosidade do que para oferecer respostas. Li os documentos de imigração de Udolf Matschiner, que chegou a Ellis Island em 1906. Teria ele encontrado na América o que procurava?

Duas bolinhas de gude, três pedrinhas e uma fivela de cinto...

Para que serviriam aquelas coisas? Representariam alguma recordação especial, uma pessoa especial?

Passaportes, telegramas, recortes de jornal...

Um artigo amarelado, de um jornal de 1959, publicado na cidade de Los Angeles, estampava a seguinte manchete: "Mãe de Vlahovich Chora pela Condenação do Filho." Seu filho havia sido condenado por assassinato. A mãe chorou, implorando ao juiz que poupasse a vida de seu filho. "Levem-me no lugar dele! ", ela gritava. "Matem-me!" O que teria acontecido? Será que ela viu o filho ser morto na cadeira elétrica de San Quentin?

Filmes sem terem sido revelados, certidões de nascimento, certidões de casamento...

Assuntos particulares da vida misturados a assuntos de domínio público da vida - um chumaço de cabelos loiros, uma prova de matemática de uma criança e um poema intitulado "O Sótão de Vovó", datilografado em uma máquina de escrever que tinha a letra e manchada com a tinta da fita.

Hoje, quando entrei no sótão da vovó, Dentro de um velho baú, bem dobrado, Eu vi um vestido cinza esvoaçante Com largas anquinhas de brocado cor-de-rosa E uma tira em alto-relevo dos dois lados Escondido bem no fundo daquele baú.

Encontrei um xale de seda muito lindo, Chinelos prateados, um ventilador da França, E também um pomposo convite para uma dança. Uma frase escrita de atravessado no programa Dizia: "Agatha querida, posso dançar com você?"

Era como se nós, que participávamos do leilão, tivéssemos recebido permissão para entrar em centenas de sótãos da vovó, sótãos de pessoas desconhecidas.

Diários, fotografias, marcas do pezinho de um recém-nascido...

Quando a morte chega, a maioria dos objetos diz muito sobre a vida. Eles também sugerem uma sensação de realização, uma constatação de que a vida na terra terminou, que não podemos levar nada conosco.

E o que nós vamos deixar para trás?

Um cofre de 15 x 30cm cheio de recordações diz muito sobre as coisas que valorizamos. Mas é apenas um pequeno detalhe quando comparado ao que fizemos ao longo da vida.

Em nosso mundo, onde só aquele que morre rico é considerado vitorioso, talvez devêssemos deixar para trás...

Um investimento naquilo que Deus tanto preza - as outras pessoas.

Uma vida guiada não pelos ventos caprichosos de nossa cultura, mas guiada pelas firmes promessas de Cristo.

E um exemplo para nossos filhos, para que sejam tudo aquilo que Deus planejou para eles.

"Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam", concluiu nosso pastor naquela manhã de domingo, "porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração".

Ah, o céu! O derradeiro cofre de segurança.


 

ESCONDE-ESCONDE

Brennan Manning

 

 

Certo dia, Yehiel, neto do rabino Barukh, estava brincando de esconde-esconde com outro menino. Ele se escondeu e aguardou que seu companheiro o achasse. Depois de 20 minutos, ele espiou de seu lugar secreto, não viu ninguém e voltou a esconder a cabeça. Após esperar por um longo tempo, ele saiu do esconderijo, mas não avistou o outro menino. Foi, então, que Yehiel se deu conta de que seu companheiro não havia procurado por ele desde o início. Chorando, ele correu para os braços do avô e se queixou da deslealdade do amigo. Lágrimas brotaram nos olhos do rabino Barukh quando ele se deu conta de que Deus diz a mesma coisa:

- Ninguém quer me procurar!


 

ACENDEDOR DE LAMPIÕES

Marilyn McAuley

 

 

Quando era moço, o acendedor de lampiões levava uma vida difícil, instável. Alguns anos depois de ele se tornar cristão, um amigo passou a ridicularizá-Io por seu novo estilo de vida. O acendedor de lampiões lhe disse, certo dia:

- Existe apenas uma explicação que eu posso dar: quando sigo pela rua apagando os lampiões, olho para trás e vejo tudo escuro. É assim que eu era antes de conhecer Cristo. Porém, quando continuo a seguir pela rua, os lampiões adiante de mim iluminam meu caminho.

É assim a vida com Cristo.

O ex-amigo perguntou:

- E depois que você apaga todos os lampiões?

O acendedor de lampiões respondeu:

- O dia já está clareando.


 

GRITOS SUAVES

Ruth Bell Graham

 

 

A gata teve seus filhotes na cama baixa de rodinhas, que ficava fino quarto de hóspedes, no pavimento inferior.

Achamos que os gatinhos não deveriam permanecer ali. Assim nós os colocamos dentro de uma caixa forrada com alguns panos velhos e os deixamos perto do fogão a lenha até encontrarmos um lugar mais apropriado para eles.

A gata, porém, tinha outros planos. Observamos, achando graça, quando ela entrou mansamente na cozinha, apoiou-se nas patas traseiras e colocou as dianteiras na beira da caixa, cheirando seus filhotes. Com sua habilidade natural, ela se debruçou sobre a caixa, pegou um gatinho pela nuca e o levou de volta ao lugar onde antes eles estavam.

O processo foi repetido até sobrar apenas um na caixa, o mais raquítico.

Ela não retomou. Devia estar exausta de tanto esforço ou brincando com os outros gatinhos.

Ficamos à espera.

Finalmente, a criaturinha no fundo da caixa deu um miado tão baixo que mais parecia um chiado, quase impossível de ser ouvido.

Imediatamente, e em completo silêncio, a gata apareceu, pegou o filhote pequenino pela nuca e o levou de volta ao quarto de hóspedes.

Três portas, dois quartos e dois corredores. Mesmo assim, ela OUVIU.

A cadela dinamarquesa teve seus primeiros filhotes (dois, para ser exata) debaixo de um arbusto do lado de fora da janela da cozinha. Depois de "pensar" um pouco, ela pegou o maior e o carregou até a casinha de cachorro (que ficava do outro lado da casa). Mas, por ser irresponsável, esqueceu de buscar o segundo.

Após algum tempo, o filhote número dois começou a ficar com fome e soltou uma espécie de gemido, quase inaudível, como fazem os cães recém-nascidos.

Antes de ver a mãe, eu a ouvi chegando tão rápido como o ribombar de um trovão. Ela parou perto do filhote deixado para trás, pegou-o pelo pescoço e o levou para junto do outro.

Em ambos os casos, os gritos foram muito fracos...

Nossas orações também não precisam ser proferidas em altos gritos de pedidos de socorro.

De acordo com a Bíblia, Deus responde aos nossos suspiros, às nossas lágrimas, aos nossos murmúrios. Até mesmo os nossos anseios podem ser interpretados como oração.


 

HERÓI ESPIRITUAL

James Dobson

 

 

Ele era um humilde pastor negro da Igreja Batista de uma cidadezinha do interior. Tinha perto de 70 anos e foi ministro do evangelho ao longo de toda a sua vida, depois de se tornar adulto.

Seu amor pelo Senhor era tão profundo que se refletia em tudo o que ele dizia. Quando o pastor e sua esposa foram informados de que ele tinha apenas alguns meses de vida, nenhum dos dois demonstrou pânico. Apenas pediram algumas explicações ao médico.

Depois de tomarem conhecimento do processo de tratamento e de suas consequências, eles agradeceram ao médico e partiram. A equipe de filmagem acompanhou o casal até o velho carro e viu de longe quando eles curvaram a cabeça e renovaram seu compromisso com o Senhor.

Nos meses subsequentes, o pastor nunca perdeu o equilíbrio. Nem falou muito sobre sua doença. Ele sabia que o Senhor estava no controle e não permitiria que nada abalasse sua fé.

As câmeras estavam presentes em seu último domingo na igreja.

Ele pregou o sermão da manhã e falou com franqueza sobre sua morte iminente. Pelo que me lembro, ele disse o seguinte:

"Alguns de vocês me perguntaram se fiquei zangado com Deus por causa desta enfermidade que tomou conta de meu corpo. Digo-Ihes, honestamente, que em meu coração não existe ressentimento algum, apenas amor pelo meu Deus. Ele não me enviou esta doença.

Vivemos num mundo pecaminoso, onde a enfermidade e a morte são maldições que o homem trouxe para si mesmo. E estou indo para um lugar melhor, onde não haverá mais lágrimas, nem sofrimento, nem angústia. Portanto, não sintam pena de mim.

"Além do mais", ele prosseguiu, "nosso Senhor sofreu e morreu por nossos pecados. Por que eu não deveria tomar parte em seus sofrimentos? " Em seguida, o pastor começou a cantar um hino, sem acompanhamento, com voz cansada e embargada.

Chorei enquanto aquele meigo homem cantava seu amor por Jesus.

Ele parecia estar muito fraco, e seu rosto estampava as devastações da doença. Porém, seus comentários foram os mais poderosos que já ouvi. Pelo que sei, suas palavras naquela manhã foram as últimas proferidas no púlpito. Ele foi morar na eternidade alguns dias depois, onde se encontrou com o Senhor, a quem servira durante toda a sua vida. Aquele pastor anônimo e sua esposa ocupam lugar de destaque entre meus heróis espirituais.


 

NAVEGANDO À DERIVA

Tony Evans

 

 

Conta-se a história de um menino que estava brincando com seu barquinho no lago. De repente, o barquinho se afastou dele. Um homem, que estava por perto, viu a cena e começou a atirar pedras na água, adiante do barquinho. O menino perguntou:

- O que você está fazendo?

De repente, algo muito interessante aconteceu. Quando as pedras bateram na água, produziram ondas que empurraram o barquinho de volta ao menino. Embora as pedras tivessem agitado a água tranquila do lago, elas alcançaram o efeito desejado.

É assim que Deus procede, às vezes. Quando nos afastamos de sua presença, Ele atira pedras adiante de nós para nos forçar a retomar à praia de seu amor.


 

APENAS VISLUMBRES

Alice Gray

 

 

Laurel sabia que estava morrendo, Durante algumas semanas conversamos frequentemente sobre o céu - como ele era e como seria morar lá. Quase sempre terminávamos a conversa chorando e trocando meigos abraços de esperança.

A parte mais difícil era imaginar algo que nunca víramos, algo sobre aquilo de que sabíamos muito pouco.

Foi, então, que me lembrei desta história:

Uma jovem de cabelos loiros e olhos azuis nasceu cega. Quando tinha 12 anos, os médicos realizaram um novo tipo de cirurgia em seus olhos que, se fosse bem-sucedida, lhe daria a possibilidade de enxergar. O resultado só seria conhecido alguns dias após a cirurgia.

Depois que as ataduras foram retiradas, os olhos daquela jovem precisaram ficar protegidos da luz. Ela aguardou o resultado no escuro.

A mãe passou longas horas respondendo às perguntas da filha sobre como eram tais e tais coisas e o que ela enxergaria. Ambas estavam tão empolgadas diante das possibilidades de êxito que quase não conseguiam dormir. O tempo todo, mesmo no escuro, elas conversavam sobre coisas bonitas - cores, formatos, beleza de todos os tipos.

Finalmente, chegou o momento em que os olhos da moça já tinham condição de suportar a luz que vinha de fora. Ela se sentou perto da janela por um longo tempo sem dizer nada. Lá fora, o dia de primavera era ideal - brilhante e cálido, com nuvens brancas e fofas decorando o céu azul. As flores que a brisa leve derrubava das cerejeiras cobriam o chão, dando a ideia de uma camada de neve cor-de-rosa. Açafrões amarelos enfeitavam orgulhosamente as laterais do caminho de tijolos que serpenteava no meio do gramado.

Quando a moça olhou para a mãe, lágrimas corriam por seu rosto.

- Oh, mamãe. Por que você não me disse que era tão lindo assim?

Contei esta história a minha amiga, com os olhos lacrimejantes. - Laurel, neste instante estamos sentadas no escuro, mas daqui a pouco você estará fazendo esta mesma pergunta a Deus.


 

UMA VISÃO DO PERDÃO

Gigi Tchividjian

 

 

Você já sentiu a necessidade de ser perdoado... ou, talvez, de perdoar?

Conheço muitas pessoas que ficam estagnadas no presente por estarem ligadas a alguma coisa do passado. Ou não são capazes de perdoar, ou não aceitam o fato de terem sido, realmente perdoadas.

- Certa vez, ouvi a história (ou melhor, a lenda) de um padre, de uma pequena paróquia do Meio-oeste dos Estados Unidos, que havia cometido um pecado na juventude e, segundo ele, um pecado terrível. Apesar de ter pedido perdão a Deus, ele passou a vida toda carregando o peso daquele pecado. Não sabia ao certo se Deus o perdoara.

Certo dia, ele ouviu falar de urna senhora idosa de sua paróquia que costumava ter visões. Contaram-lhe que, durante essas visões, ela conversava com Deus. Depois de algum tempo, o padre reuniu coragem suficiente para visitar aquela senhora.

Ela o convidou a entrar e lhe ofereceu urna xícara de chá. Quando a visita estava chegando ao fim, ele pousou a xícara na mesa e fitou a mulher nos olhos.

- É verdade que a senhora costuma ter visões? - ele perguntou.

- E ela respondeu. - É verdade também que... durante essas visões... a senhora conversa com Deus?

- Sim - ela tornou a responder.

- Bem... da próxima vez que a senhora tiver uma visão e conversar com Deus, poderia fazer-lhe uma pergunta?

A mulher olhou para o padre com ar de curiosidade. Ninguém antes lhe pedira nada parecido com isso.

- Sim, com muito prazer - ela respondeu. - O que o senhor gostaria que eu perguntasse?

- Bem - o padre começou a dizer -, a senhora poderia perguntar-lhe qual foi o pecado que este padre de sua paróquia cometeu quando tem?

Agora, visivelmente curiosa, a mulher concordou prontamente.

Depois de algumas semanas, o padre voltou a visitar aquela mulher.

Depois de outra xícara de chá, ele perguntou com cautela e timidez:

- A senhora teve alguma visão recentemente?

- Sim, tive - ela respondeu.

- A senhora conversou com Deus?

- Conversei.

- Perguntou a Ele qual foi o pecado que cometi quando era jovem?

- Sim, perguntei.

O padre, nervoso e demonstrando certo temor, hesitou por um momento antes de perguntar:

- E o que Ele disse?

A mulher olhou para o rosto do padre e respondeu tranquilamente:

- Ele me disse que não se lembra.

Deus não apenas perdoa os nossos pecados; Ele os esquece. A Bíblia diz que Deus leva os pecados consigo e os enterra no fundo do mar. E, conforme Corrie ten Boom costumava dizer, "Ele coloca uma tabuleta ali com os seguintes dizeres: 'É proibido pescar'."


 

PARDAIS ASSUSTADOS

Recontada por Alice Gray

 

 

O vento começava a ganhar velocidade naquela manhã fria de dezembro, enquanto Tommy, um menino de nove anos, e seu pai subiam o morro a pé, em direção à cabana do velho Sr.

Sweeney. Tommy sentiu o cheiro da fumaça da chaminé e sabia que estavam chegando. Ele puxou o gorro de tricô para cobrir as orelhas, imaginando como seria a cabana de um ermitão. Os amigos de Tommy gostavam de falar sobre aquele homem excêntrico e comentavam, em voz baixa, o comportamento estranho que ele passou a ter depois que sua esposa morreu. Menos de um mês após o sepultamento dela, o Sr. Sweeney vendeu sua casa na cidade e foi morar no mato, retornando apenas duas vezes por ano para comprar mantimentos.

Quando pai e filho fizeram a última curva, avistaram o Sr. Sweeney na varanda olhando na direção deles, como se estivesse aguardando companhia. Tommy surpreendeu-se ao ver que, embora a pequena cabana e o celeiro necessitassem de pintura, estavam em ordem e muito bem cuidados.

Tommy sentia-se orgulhoso por estar na companhia do pai. E, quando foi apresentado ao Sr. Sweeney, apertou-lhe com firmeza a mão. Seu pai entregou ao homem uma cesta com bolinhos e geleia feitos em casa, conversou sobre a súbita mudança no tempo e convidou o Sr. Sweeney a ir à igreja na véspera do Natal. Os olhos cansados do velho anuviaram-se, e ele movimentou a cabeça negativamente. Sua voz estava um pouco mais áspera quando ele disse que não comemorava o Natal desde a morte da esposa. Além do mais, ele não via nenhum motivo para Deus ter vindo à terra como homem. Agradeceu a visita e disse que seria melhor que eles se apressassem para ir embora antes da tempestade.

Naquela tarde, o frio aumentou e o vento soprou com mais força. O Sr. Sweeney estava sozinho na cabana quando um barulho estranho o alertou. Ao olhar para fora, ele viu um bando de pardais batendo na vidraça, tentando entrar na casa para fugir da tempestade. Sabendo que os passarinhos morreriam se não encontrassem um abrigo, o velho ermitão vestiu sua jaqueta de caça e saiu em direção ao celeiro. Abriu a porta e acendeu a luz, na esperança de que os pardais entrassem ali.

Ao ver que eles não entravam, ele atirou um pouco de fubá perto da porta para atraí-los, mas os passarinhos se dispersaram.

Flocos de neve caíam ao redor do celeiro. O Sr. Sweeney escondeu-se agachado do lado de fora, aguardando que os pardais entrassem. Nada do que ele fez foi capaz de atrair os passarinhos para dentro do celeiro. Eles estavam atemorizados e não entendiam que alguém queria ajudá-Ios. Exausto e profundamente desapontado, o Sr. Sweeney pensou: Se eu pudesse ser um pardal eles não teriam medo de mim. Eu poderia explicar que não quero prejudica-los. Só quero protegê-los da tempestade.

De repente, o Sr. Sweeney lembrou-se das palavras que sua esposa havia proferido: "Deus veio à terra como homem porque não havia outro meio de nos provar quanto Ele nos ama." Lágrimas correram pelo rosto daquele homem enquanto observava os pardais do lado de fora do celeiro.

 

Naquela noite, Tommy continuou a pensar no homem idoso, imaginando como seria passar uma noite de tempestade sozinho na cabana no alto do morro. O menino perguntou ao pai se eles poderiam voltar a visitar o Sr. Sweeney na manhã seguinte.

Talvez ele tivesse mudado de ideia a respeito do Natal. O pai sorriu e disse:

- Claro.

Tommy foi dormir e puxou o cobertor para perto do queixo. Pediu a Deus que enviasse um milagre para ajudar o Sr. Sweeney ir à igreja com sua família na véspera do Natal.

Tommy não sabia que seu Pai amoroso já havia respondido àquela oração.

CALMA NA TEMPESTADE

Ron Mehl

 

 

Uma mulher, que foi surpreendida por uma tempestade ameaçadora no meio do Oceano Atlântico, passou o tempo todo lendo histórias da Bíblia para evitar que as crianças pequenas, que estavam a bordo, se assustassem. Depois que o navio chegou a salvo ao porto, o capitão, que observara o comportamento daquela mulher durante a tempestade, aproximou-se dela e perguntou:

- Como a senhora foi capaz de manter a calma quando todos temiam que o navio naufragasse por causa da tempestade?

Quando a mulher ergueu a cabeça, ele viu a mesma tranquilidade em seus olhos, a mesma paz que ela mantivera durante toda a viagem. - Eu tenho duas filhas - explicou a mulher cristã. - Uma mora em Nova York. A outra mora no céu. Eu sabia que, em questão de horas, estaria vendo uma de minhas filhas. E, para mim, não importava qual delas seria.


 

UMA PARÁBOLA DA PERSPECTIVA DE DEUS

Casandra Lindell

 

 

Do céu, Bert examinou o desenrolar do tempo e viu as atrocidades levadas a efeito pelo ser humano. Absolutamente consternado, ele apontou para uma cena inenarrável e perguntou a Deus:

- Como podes permitir aquilo? Olha o que o demônio está aprontando lá embaixo!

- Não há ninguém melhor que o demônio para criar uma tragédia como aquela! - disse Deus.

- Mas, Senhor, aquele homem faz parte de teu povo... oh, aquele pobre homem!

- Eu dei aos homens a liberdade de escolherem entre o bem e o mal - disse Deus, com o semblante triste. - Independentemente da escolha, todos eles vivem juntos. Às vezes, os que escolheram seguir meu caminho são pressionados pelos que escolheram o outro caminho. - Deus sacudiu lentamente a cabeça. - É sempre muito doloroso quando isso acontece.

- Mas aquelas pessoas que estão ali não têm escolha - protestou Bert. - Elas estão sendo sufocadas pela desgraça! Isto não é opção!

- Bert - disse Deus pacientemente -, você já me viu deixar de premiar o sofrimento?

- Não... não, mas... - Bert desviou o olhar da cena, incapaz de suportar.

- Veja! - Deus passou o braço ao redor dos ombros curvados de Bert e o fez olhar novamente para baixo. - Olhe bem ali, perto da parede.

- Aquele? Ele parece quase morto. Está orando?

- Ah, Bert, você deveria ouvir as orações dele! - Um amor intenso brilhou nos olhos de Deus como se fosse o clarão de um relâmpago.

- Orações simples, partindo de um coração angustiado. Este é o triunfo sobre o mal. A confiança em mim... esta foi a escolha. - Deus sorriu em meio a lágrimas brilhantes de amor. - Ele não é magnífico?

Eles permaneceram em silêncio, e Bert começou a ver o que Deus Via.

- Agora preste atenção, Bert - disse Deus meigamente, sem desviar.

os olhos da cena.

Ele chamou Miguel, e o arcanjo apareceu.

- Desça e traga-o para cá, Miguel. - Lágrimas de alegria divina foram derramadas. - Vou providenciar a festa.


 

FAZENDO ACERTOS

Ron Mehl

 

 

Um velho capitão do mar, chamado Eleazar Hall, morava em Bedford, Massachusetts, durante a época das grandes embarcações movidas a vela. Ele era famoso, admirado e respeitado como o capitão mais bem-sucedido da época. Trabalhava muito e viajava por longos períodos. Foi o capitão que perdeu o menor número de homens e pescou mais peixes do que qualquer outro.

Sempre perguntavam ao capitão Hall sobre sua fantástica habilidade de viajar tanto tempo sem nenhum instrumento de navegação. Certa vez, ele partiu numa viagem de dois anos, sem voltar para casa, que era seu ponto de referência.

Eleazar respondia simplesmente:

- Ah! eu subo ao convés e presto atenção ao vento e aos cabos e cordas da embarcação. Sinto a direção da água, olho para as estrelas e estabeleço minha rota.

Bem, os tempos mudaram em Bedford. Grandes empresas seguradoras lá se instalaram, e seus proprietários disseram que não fariam seguro de navios se os capitães não tivessem um navegador a bordo devidamente treinado e autorizado. As pessoas temiam dar essa notícia a Eleazar. Mas, para surpresa de todos, ele disse:

- Se eu for obrigado, farei os cursos de navegação que forem necessários.

Eleazar diplomou-se com louvor e, por sentir muitas saudades do mar, partiu imediatamente numa longa viagem. No dia de sua volta, a cidade inteira lhe fez esta pergunta:

- Eleazar, o que você achou de navegar com todos aqueles mapas e cálculos?

Eleazar endireitou o corpo e deu um longo suspiro.

- Ah! - ele respondeu -, foi simples. Sempre que eu queria saber a posição do navio, ia até minha cabina, pegava os mapas e as tabelas, fazia cálculos e estabelecia minha rota de viagem com precisão científica. Depois, eu subia ao convés e prestava atenção ao vento e aos cabos e cordas da embarcação, sentia a direção da água, olhava para as estrelas e corrigia os erros que tinha cometido ao fazer os cálculos.

Quando ouvi esta história, eu orei: Senhor, quero conhecer-te desta maneira. Quero subir ao convés, prestar a atenção à tua manda voz em meu coração, refletir sobre tua Palavra eterna e, depois, fazer acertos em todos aqueles planos maravilhosos, lógicos e científicos que tracei para mim.


 

O TRAPEIRO

Walter J. Wangerin

 

 

Vi uma cena estranha. Deparei-me com uma história mais estranha ainda. Algo que minha vida, minhas andanças pelas ruas e minha língua ferina não me prepararam para enfrentar.

Silêncio, criança. Silêncio. Eu vou contá-la para você.

 

Amanhã de sexta-feira ainda não havia clareado quando avistei um moço bonito e forte, caminhando pelas vielas da parte baixa de nossa cidade. Ele empurrava um velho carrinho, cheio de roupas novas e coloridas, e gritava com voz clara de tenor:

- Trapos!

Ah! o ar poluído e os primeiros raios de luz empoeirados não combinavam com aquela voz melodiosa.

- Trapos! Troco trapos velhos por novos! Levo embora seus trapos!

Trapos!

Que maravilha!, pensei. O moço tinha dois metros de altura. Seus braços fortes e musculosos faziam lembrar dois galhos de árvores. De seus olhos faiscava inteligência. Será que ele não teria um trabalho melhor para fazer do que vender trapos numa cidade do interior?

Resolvi segui-Ia. Fui levado pela curiosidade. E não me decepcionei.

Logo depois, o trapeiro avistou uma mulher sentada na varanda dos fundos de sua casa. Ela chorava com um lenço no rosto, suspirando e derramando lágrimas em profusão. Seus joelhos e cotovelos formavam um triste X. Os ombros tremiam. Seu coração estava despedaçado.

O trapeiro parou de empurrar o carrinho. Sem dizer nada, ele caminhou até a mulher, contornando latas, brinquedos velhos e fraldas.

- Dê-me seu trapo - ele disse gentilmente. - Vou trocá-Io por outro.

O moço pegou o lenço da mulher. Ela ergueu a cabeça, e ele lhe entregou um pano de linho que brilhava de tão limpo e novo. A mulher olhou para o presente e, depois, para o moço, piscando sem entender nada.

Em seguida, quando voltou a empurrar o carrinho, o Trapeiro fez uma coisa estranha: cobriu o rosto com o lenço da mulher manchado de lágrimas e começou a chorar. O choro era tão triste quanto o dela.

Seus ombros tremiam. A mulher havia parado de chorar.

Que maravilha!, pensei.

Segui o Trapeiro como se eu fosse uma criança querendo desvendar um mistério.

- Trapos! Trapos! Troco trapos velhos por novos!

Pouco tempo depois, quando o céu começou a ficar acinzentado por trás dos telhados e eu consegui enxergar as tiras de cortinas penduradas nas janelas escuras, o Trapeiro encontrou uma menina com a cabeça enfaixada e olhar inexpressivo. As ataduras empapadas de sangue deixavam escapar um filete vermelho que lhe escorria pelo rosto.

O Trapeiro olhou para aquela criança com piedade e tirou um lindo boné amarelo de seu carrinho.

- Dê-me seu trapo - ele disse, passando o dedo no rosto dela. - Vou trocá-lo pelo meu.

A menina limitou-se a olhar para o moço enquanto ele desenrolava as ataduras e as amarrava na própria cabeça. O boné foi colocado na cabeça dela. E eu prendi o fôlego diante do que vi: o ferimento saiu grudado nas ataduras! Da testa do moço corria um filete de sangue mais escuro, mais grosso - o sangue dele!

- Trapos! Trapos! Aceito trapos! - gritava o Trapeiro forte e inteligente, chorando e sangrando.

A claridade do sol ofuscou o céu e, agora, ofuscava meus olhos; o Trapeiro parecia estar com muita pressa.

- Você vai trabalhar? - ele perguntou a um homem encostado a um poste de telefone. O homem balançou a cabeça negativamente.

O Trapeiro insistiu:

- Você tem um emprego?

- Você é louco? - esbravejou o homem.

Ao afastar-se do poste, ele deixou à mostra a manga direita de sua jaqueta - solta, com o punho enfiado no bolso. Ele não tinha um braço.

- Dê-me sua jaqueta - disse o Trapeiro. - Vou trocá-Ia pela minha.

Apesar de suave, que autoridade tinha sua voz!

O homem de um braço só tirou a jaqueta. O Trapeiro fez o mesmo - e eu tremi diante do que vi: o braço do Trapeiro saiu com a manga da jaqueta e, quando o homem a vestiu, tinha dois braços perfeitos, fortes como galhos de árvores; mas o Trapeiro tinha só um.

- Vá trabalhar - ele disse.

Depois disso, ele encontrou um bêbado, deitado inconsciente debaixo de um cobertor do exército - um velho, curvado, magro e doente. O Trapeiro pegou o cobertor e o enrolou em torno de si, deixando cobertores novos para o bêbado.

Agora eu tinha de correr para acompanhar os passos rápidos do Trapeiro. Embora estivesse chorando incontrolavelmente, sangrando na testa, puxando o carrinho com um só braço, tropeçando, caindo várias vezes, exausto, velho, muito velho e doente, ele caminhava com uma velocidade incrível. Com passos rápidos e largos, ele atravessou rapidamente as vielas, quilômetro após quilômetro, até chegar ao limite da parte baixa da cidade. Em seguida, caminhou mais apressado ainda.

Chorei ao ver a mudança ocorrida naquele moço. Chorei ao ver sua tristeza. Mesmo assim, eu precisava ver para onde ele estava indo com tanta pressa, talvez para saber o que o levava a fazer isso.

O Trapeiro, agora velho e pequenino, chegou a um aterro sanitário.

Ele chegou perto dos fossos de lixo. Eu queria ajudá-Io no que ele fazia, mas permaneci afastado, escondido. Ele escalou um morro.

Com muito trabalho, limpou um pequeno espaço no alto do morro. Em seguida, deu um longo suspiro. Deitou-se. Fez uma espécie de travesseiro com um lenço e uma jaqueta e pousou a cabeça ali. Cobriu o corpo esquelético com um cobertor do exército. E morreu.

Ah, como chorei ao presenciar aquela morte! Mudei dentro de um carro transformado em ferro-velho e chorei como alguém que não tinha mais esperanças - porque eu passara a amar o Trapeiro. Todos os outros rostos haviam-se misturado ao rosto maravilhoso daquele moço, e eu o amava muito; mas ele morreu. Chorei até adormecer.

E eu não sabia - e como poderia saber? - que dormi a noite inteira de sexta-feira, e continuei dormindo durante o dia e a noite de sábado.

De repente, na manhã de domingo, fui despertado abruptamente.

Uma luz - pura, forte, insistente - bateu em meu rosto amargurado, e eu pisquei, olhei e vi a última e a primeira maravilha. Lá estava o Trapeiro, dobrando o cobertor com muito cuidado, com uma cicatriz na testa, mas vivo! E. além de vivo, cheio de saúde! Não havia sinais de tristeza nem de idade em seu rosto, e todos os trapos que ele recolhera brilhavam de tão limpos.

Abaixei a cabeça e, tremendo diante de tudo o que presenciara, caminhei até o Trapeiro. Eu lhe disse qual era o meu nome, envergonhado demais porque, ao lado dele, eu não passava de uma triste segura. Em seguida. tirei as minhas roupas e lhe disse com voz de súplica:

- Vista-me.

Ele me vestiu. Meu Senhor, Ele me vestiu com trapos novos, e fiquei maravilhoso ao lado dele. Ao lado do Trapeiro, do Trapeiro, do Cristo!


 

OS SINOS ESTÃO TOCANDO

James Dobson

 

 

Gracie Schaeffler, urna enfermeira com quem trabalhei, cuidou de um menino de cinco anos, durante seus últimos dias de vida. Ele estava morrendo de câncer no pulmão...

A mãe do menino era cristã e o amava muito. Ela permaneceu ao lado do filho durante o longo sofrimento. Embalava-o no colo e conversava com ele a respeito de Deus. Instintivamente, aquela mulher estava preparando o filho para o momento final. Gracie contou-me que, ao entrar no quarto quando a morte estava se aproximando, viu o menino falar que ouvia sinos tocando.

- Os sinos estão tocando, mamãe - ele disse. - Eu posso ouvi-los.

Gracie pensou tratar-se de urna alucinação, porque ele já estava agonizando. Ela saiu do quarto e retomou minutos depois. Novamente, ele falava que estava ouvindo sinos tocando.

A enfermeira disse à mãe do menino:

- A senhora deve saber que seu filho está ouvindo coisas que não existem. Ele está tendo alucinações por causa da doença.

A mãe puxou o filho para perto de si, sorriu e disse:

- Não, Sra. Schaeffler. Ele não está tendo alucinações. Eu lhe disse que quando se sentisse assustado, sem conseguir respirar, deveria prestar atenção para ouvir os sinos do céu tocando para ele. É por isso que ele está falando o dia inteiro de sinos tocando.

A preciosa criança morreu no colo da mãe naquela noite, e ainda estava falando dos sinos do céu quando os anjos vieram buscá-la...


 

O PRESENTE

Gary Swanson

Histórias Para o Coração 3 15

 

Na sala de espera do consultório médico, a mãe, sentada em uma poltrona, uma imitação de couro, cutucava as unhas apreensivamente. Com o cenho franzido, observava seu filho, Kenny, de cinco anos, no tapete à sua frente.

Ele é pequeno e magrinho demais para sua idade, pensou ela. O cabelo liso do garoto. louro e macio, chegava até a altura da orelha. A cabeça estava envolta em gaze branca, que cobria seus olhos e apertava as orelhas.

O garoto balançava no colo um ursinho de pelúcia: o orgulho da vida desse menino, embora estivesse bem usado e já lhe faltassem um braço e um olho. A mãe já tentara se desfazer do ursinho duas vezes, propondo trocá-lo por um novo, mas como o garoto fazia espalhafato, acabou cedendo. Ela inclinou a cabeça um pouco e sorriu para ele.

Na verdade - suspirou ela - isso é tudo o que ele tem.

A enfermeira apareceu à porta e chamou: "Kenny Ellis". A jovem mãe pegou o garoto e seguiu a enfermeira até o consultório. O corredor cheirava a álcool e a ataduras. Desenhos de crianças revestiam as paredes.

- O médico estará aqui com vocês logo mais. Por favor, sentem-se - disse a enfermeira com um sorriso experiente.

A mãe colocou o garoto sobre a maca em que seria examinado e lhe disse gentilmente:

- Cuidado para não cair, meu docinho!

- Mãe, esta cama é muito alta?

- Não, meu querido, mas tenha cuidado!

a garoto abraçou seu ursinho ainda mais:

- Também não quero que o Cara-de-bravo caia no chão.

A mãe sorriu, mas esse sorriso transformou-se em uma expressão que traduzia sua preocupação. Ela arrumou o cabelo do garoto que caía sobre a face e acariciou, com o dorso de sua mão, a bochecha dele, macia e aveludada. Quando a música de fundo, ininterrupta, começou a tocar uma versão lúgubre de Noite silenciosa, ela relembrou o acidente pela milésima vez.

Ela sempre usara as bocas de trás do fogão, mas ali estava a água, na boca dianteira, fervendo para o mingau de aveia.

a telefone tocou, e ela foi à sala para atendê-lo. Era mais uma dessas ofertas para receber algo "inteiramente grátis", mas que na verdade era muito caro. No momento em que desligou o telefone, Kenny gritou na cozinha: um grito estarrecedor de dor, que a sobressaltou e fez o seu sangue de mãe gelar nas velas.

Relembrar isso a fez estremecer novamente, e ela limpou uma lágrima que descia sobre sua face. Havia seis semanas que esperavam por esse momento.

- Só poderemos retirar o curativo uma semana antes do Natal - dissera o médico.

A porta do consultório abriu e o Dr. Harris entrou. Bem animado, disse:

- Bom dia, Sra. Ellis! Como vai?

- Bem, obrigada! - retrucou, embora estivesse muito apreensiva para sustentar qualquer tipo de conversa.

O Dr. Harris inclinou-se sobre a pia e lavou demoradamente as mãos. Ele era bem cuidadoso com os pacientes, mas muito desleixado consigo mesmo. Quase nunca conseguia ter tempo para cortar o cabelo, liso e negro, que cobria o colarinho de sua camisa. A gravata, afrouxada, permitia que o colarinho ficasse aberto.

- Bem - disse ele, enquanto sentava em um banquinho vamos dar uma olhada nisto aqui!

Ele cortou suavemente a gaze e a desenrolou com cuidado.

a curativo foi retirado, mas ainda restavam dois pedaços de gaze, presos com esparadrapo, que cobriam os olhos de Kenny.

a Dr. Harris levantou bem devagar a borda do esparadrapo, procurando não ferir o garoto, pois a pele, nessa região, estava muito sensível.

Kenny abriu os olhos bem devagar, piscou diversas vezes, como se a luz repentina o tivesse ferido. A seguir, olhou para sua mãe e sorriu:

- ai, mamãe! - disse ele.

A mãe, sem fala e soluçando, envolveu Kenny em seus braços.

Não conseguiu dizer nada por algum tempo, pois abraçava o garoto e chorava de gratidão. Por fim, dirigiu-se ao Dr. Harris, com os olhos rasos de água, e disse:

- Não sei como poderemos pagar o senhor!

- Já discutimos este assunto antes! - retrucou o médico com um balançar de mãos. - Sei como as coisas são difíceis para a senhora e o Kenny. Fico feliz por tê-los ajudado!

A mãe enxugou as lágrimas com um velho lenço, ficou em pé e segurou Kenny pela mão. No entanto, enquanto dirigia-se li porta, Kenny se desvencilhou dela e ficou olhando, cheio de dúvidas, para o médico. A seguir, levantou o ursinho pelo único braço que possuía e o entregou ao médico.

- Fique com o meu Cara-de-bravo, pois ele deve valer muita grana.

O Dr. Harris, sensibilizado, pegou o ursinho e agradeceu:

- Muito obrigado! Isso certamente vale muito mais do que eu cobraria pelo tratamento.

Os dias que antecederam esse Natal foram especialmente agradáveis para Kenny e sua mãe. A noite, sentavam-se por longas horas para observar as luzes da árvore de Natal que piscavam sem parar. Kenny, após seis semanas em que tivera os olhos cobertos por aquele curativo, relutava em fechá-los para dormir. O fogo crepitando na lareira, a neve grudada no vidro da janela de seu quarto, embaixo da árvore dois únicos pacotes de presentes, enfim todas as cores e luzes do Natal o deixavam fascinado.

Então, à véspera do Natal, a mãe de Kenny atendeu à porta e, embora não houvesse ninguém ali, viu na soleira uma enorme caixa embrulhada em papel dourado e com um grande laço vermelho. Um cartão preso à fita indicava que a caixa era endereçada a Kenny Ellis.

Kenny, com um sorriso, desfez afobado o laço da caixa, abriu a tampa e retirou um ursinho - seu querido Cara-de-bravo.

A diferença é que agora tinha um novo braço, feito de veludo marrom, e dois olhos novinhos, feitos de botões, que brilhavam na luminosidade suave das luzes de Natal. Parece que Kenny nem se importou que o novo braço não combinava com o outro, pois apenas abraçou seu ursinho e deu um largo sorriso.

Na caixa, entre os papéis de seda que envolviam o ursinho, a mãe encontrou um cartão: “Querido Kenny, algumas vezes condigo dar um jeito em garotos e garotas que se machucam, mas a Sra. Harris teve de me ajudar a consertar o Cara-de-bravo. Ela é uma médica de ursinhos muito mais competente do que eu! Feliz Natal! Dr. Harrids.

- Mãe! Olha aqui mãe! - disse Kenny, com um sorriso, enquanto mostrava os olhos feitos com botões. - O Cara-de-bravo também pode enxergar de novo! Exatamente como eu!

 

 

 

 

Quando os Ventos São Turbulentos

 

Se sua vida está turbulenta – com os ventos de mudança, os ventos da adversidade, ou talvez, os ventos constantes das exigências e expectativas que deixam você se sentindo arrasado – anime-se. Minha mãe costumava dizer: “As raízes se aprofundam mais quando os ventos são turbulentos”. CHARLES R. SWINDOLL

 


 

A BOLSA VERMELHA

Louise Moeri Na Revista Virtue [Virtude]

Histórias Para o Coração 3 20

 

 

Sei que não devemos julgar as pessoas, mas achei impossível evitar essa atitude quando vi Kennie Jablonsky. Cheguei à conclusão de que ele era a pessoa errada para aquele tipo de trabalho.

Sou enfermeira plantonista, a responsável pela avaliação do desempenho dos trabalhadores do hospital Homeland Convalescent [Convalescentes da Pátria].

Kennie Jablonsky era um funcionário novo, alto e bem forte, de boa aparência, loiro, com o cabelo cortado à altura da nuca, e tinha olhos verde-escuros. Após algumas semanas de experiência, tive de admitir que era asseado, pontual e razoavelmente eficiente. No entanto, eu não gostava dele.

Kennie Jablonsky parecia um marginal. Eu conhecia a região onde ele morava - um reduto de gangues, drogas e violência. Seu linguajar era cheio de gírias; sua postura, esquisita; seu andar, apesar do molejo, controlado como o de um boxeador, e sua expressão, impenetrável como a porta de aço de um cofre de banco. Parecia que tinha uma tremenda força de vontade, cuidadosamente sob controle, pois queria ajustar-se a um grupo de trabalho altamente especializado de um hospital destinado a convalescentes.

A grande maioria de nossos pacientes chegava ali nos estágios finais de qualquer doença terminal ou devido à doença mais terminal de todas - a velhice. Os pacientes vinham quando já estavam fisicamente aleijados, fracos, confusos e derrotados, ou seja, incapazes de sobreviver sozinhos lá fora. Muitos deles já haviam perdido a capacidade de raciocinar com lógica, um infortúnio devido à saúde debilitada e à sociedade que, muitas vezes, é brutal e indiferente.

Maria B. era uma dessas pacientes. Os funcionários a chamavam de Maria B., pois era uma das quatro Marias da enfermaria Oeste. Aos 94 anos, Maria B. era frágil como o cristal. Ela perdera seu marido e irmãs e, se tinha filhos, eles já a haviam abandonado muito tempo atrás. Quando estava acordada, não ficava quieta.

Maria B. tinha uma obsessão, pois cismou que alguém havia furtado sua bolsa. Ela, sem nunca desistir de encontrá-Ia, a procurava horas a fio, noite e dia. A não ser que estivesse amarrada à cama ou à cadeira de rodas, saía para a rua ou entrava na enfermaria dos homens, ia à lavanderia ou à cozinha, sempre procurando sem cessar e insensatamente. Quando a impediam de continuar a busca, ela pedia que a colocassem em sua cadeira de rodas no corredor para fazer perguntas a qualquer pessoa que se aproximasse dela.

- Você pode me emprestar um pente? - perguntava ela. Perdi o meu, que estava na minha bolsa vermelha. Meu dinheiro também se foi. Onde está a minha bolsa? Onde está a minha bolsa? - repetia sem parar.

A mesma história todos os dias, até que ninguém mais prestava atenção às perguntas de Maria B., que não passavam de barulho de fundo, como o tinir dos carrinhos carregados de bandejas empurrados ao longo dos corredores, o zumbir do ar-condicionado ou o barulho do interfone.

Todos nós sabíamos que Maria B. não tinha uma bolsa. No entanto, vez ou outra, embora sempre estivéssemos extremamente ocupados, alguém parava para dar-lhe atenção apenas por simples gentileza ou preocupação pela ansiedade dela. No entanto, a maioria de nós apenas passava por ela com a fala costumeira: "Ê claro, Maria, se eu vir sua bolsa, certamente a trarei para você".

A maioria de nós, exceto um.

A última coisa que eu esperaria de Kennie Jablonsky era que desse atenção a Maria B., mas, por mais estranho que pareça, ele sempre tinha algo a dizer para ela.

- O que esse fulano quer? - perguntava-me, à medida que o observava.

Minha primeira suspeita era de que ele arrumara esse emprego só para furtar drogas. Eu achava que certamente havia descoberto um desordeiro.

Todos os dias que Maria B. parava Kennie para perguntar sobre sua bolsa, e ele lhe prometia que a procuraria, minhas suspeitas aumentavam. Por fim, cheguei à conclusão de que Kennie estava planejando algo que envolveria Maria B. Achava que ele, certamente, furtaria drogas e daria um jeito de escondê-Ias na cadeira de rodas dela. Depois desse primeiro passo, um cúmplice viria para levar a droga para fora do hospital. Tinha tanta certeza de que isso aconteceria, que decidi aumentar a segurança no departamento onde as drogas eram armazenadas.

Uma tarde, um pouco antes do jantar dos pacientes, vi Kennie andando pelo corredor com uma sacola de supermercado bem pesada.

Ê agora, pensei, enquanto deixava bem depressa minha escrivaninha. Fui atrás dele, mas percebi que necessitava de mais evidências. Escondi-me atrás de um carrinho de lavanderia, cheio de cestas, empilhadas.

Essa pilha de cestas era alta o suficiente para esconder-me, embora fosse possível ver Kennie claramente enquanto ele se dirigia à cadeira de rodas de Maria B.

Assim que alcançou Maria B., virou-se bruscamente e olhou sobre seus ombros. Escondi-me para que não me visse, mas eu ainda podia vê-Io, esquadrinhando atentamente o corredor, olhando de cá para lá. Era óbvio que ele não queria que ninguém visse o que estava fazendo.

Quando levantou a sacola, fiquei imóvel... até que retirou uma bolsa vermelha dela.

As mãos de Maria B. moveram-se rapidamente e ela cobriu o rosto com aqueles dedos frágeis, um gesto que traduzia toda a sua admiração e alegria. Ela, como uma criança faminta pronta para pegar um pedaço de pão, agarrou a bolsa vermelha. Ela a segurou por um momento, apenas para admirá-Ia, e, a seguir, a pressionou contra o peito, embalando-a como se fosse um bebê.

Kennie virou-se e olhou os arredores atentamente. Após certificar-se de que ninguém o observava, debruçou-se sobre Maria n. e abriu a bolsa para mostrar-lhe o pente vermelho, o pequeno porta-níqueis e um par de óculos de brinquedo. Lágrimas de alegria corriam pela face de Maria B. Pelo menos, achei que eram.

Lágrimas também banhavam meu rosto.

Kennie deu um tapinha amistoso no ombro de Maria B., amassou a sacola do supermercado, jogou-a no cesto de lixo mais próximo e foi para o fim do corredor, o local onde deveria desempenhar sua função.

Retomei para minha escrivaninha, sentei-me, abri a última gaveta e retirei dali minha velha e usada Bíblia. Abri em Mateus capítulo 7 e pedi ao Senhor que me perdoasse...

No fim de meu turno de trabalho, fiquei próximo à porta utilizada pelos auxiliares que chegavam ao trabalho ou pelos que estavam terminando seu turno. Kennie, com seu casaco e rádio, veio gingando ao longo do corredor.

- Oi Kennie! - disse. - Como está se saindo? Você acha que vai gostar deste trabalho?

Kennie ficou surpreso e, a seguir, encolheu os ombros.

- Esse é o melhor que encontrei e vou encontrar! - resmungou ele.

- Enfermagem é uma boa profissão! - arrisquei lhe dizer, pois uma idéia estava amadurecendo. - Você já considerou a possibilidade de ir para a universidade para graduar-se como enfermeiro?

- Tá brincando? - disse baixinho, entre dentes. - Sem chance!

Só estou aqui porque o curso de auxiliar de enfermagem foi gratuito!

Sabia que isso era verdade. Kennie colocou o rádio no chão e puxou o casaco.

- Universidade? Só se acontecer um milagre! Meu velho tá em cana, e minha mãe é viciada em cocaína!

Cerrei os dentes, mas mesmo assim fui capaz de sorrir para ele.

- Milagres acontecem! - disse-lhe. - Você iria para a universidade se eu encontrasse um meio de ajudá-Io com as despesas?

Kennie me encarou. Em um estalar de dedos o ar de marginal se desvaneceu e pude vislumbrar o que ele poderia vir a ser.

- Iria! - foi tudo o que disse.

No entanto, isso era o suficiente.

- Boa noite, Kennie! - disse-lhe enquanto ele segurava com força a maçaneta. - Tenho certeza de que poderemos fazer alguma coisa a esse respeito!

Tinha certeza, também, de que Maria B., no quarto 306 da enfermaria Oeste, dormia calmamente, abraçadinha à sua bolsa vermelha.


 

A FESTA DO SORVETE

Rochelle M. Pennington

Histórias Para o Coração 3 25

 

 

Parei na lanchonete e, embora ela estivesse lotada, comprei um sanduíche e consegui sentar-me próximo à mesa de lima família que celebrava, com um bolo de sorvete, o jogo de basquete de seu filho. Como os corredores eram extremamente estreitos, não demorou muito para que eu me sentisse parte da festa.

- Então, seu time deve ter vencido a partida hoje! - comentei.

O garoto sorriu e anunciou de todo coração:

- Não, perdemos de 24 a 2!

- Bem, então você deve ter feito a única cesta! - repliquei.

- Não, errei todos os oito arremessos que fiz, mas três deles acertaram o aro!

O garoto estava radiante, e eu bem confusa. Eles estavam celebrando uma derrota e oito arremessos perdidos! Raramente fico em uma situação na qual não sei o que dizer, mas, naquele momento, a única resposta que me aventurei a dar foi um olhar de perplexidade e um sorriso amarelo, totalmente forçado. Realmente, não sabia o que fazer!

O garoto, após outra boa colherada de bolo e ainda com um grande sorriso estampado em sua face, arrematou:

- Estamos celebrando, pois na semana passada eu perdi nove arremessos e todos eles nem sequer passaram próximo da tabela.

Papai me disse que o treino desta semana realmente valeu a pena.

Estou fazendo grandes progressos!


 

A NOBRE ARTE DE MUDAR DE DIREÇÃO

Histórias Para o Coração 3 28

 

 

O cata-vento no alto da torre da igreja, embora de ferro, seria facilmente destruído pela ventania, se não compreendesse a nobre arte de mudar de direção ao sabor do vento.

HEIRINCH HEINE


 

MOLLY

Barbara Baumgardner

Em HUMANE SOCIETY OF CENTRAL OREGON NEWSLETTER

[DIARIO DA SOCIEDADE HUMANITÁRIA DA REGIÃO CENTRAL OE OREGON]

Histórias Para o Coração 3 29

 

 

Quando levo Molly para dar uma volta, sou muitas vezes abordada por pessoas que dizem que um dia tiveram um cão  de raça - golden retriever. Chamo essas pessoas de corações afins, pois parece que não fazem objeção ao fato de Molly deixar pêlos ou babar em suas roupas sempre que paro para bater um papinho com elas. Os corações afins são muito mais tolerantes com os cães desgrenhados, que soltam pêlos e babam - e, geralmente, com as pessoas também. Molly está aprendendo a descobrir esses corações afins quando visitamos asilos, casa para crianças em custódia e hospitais.

Não tinha muita certeza de que Molly, com apenas 18 meses, fosse capaz de ficar calma o suficiente para torriar-se um "cão visitador" no programa da Sociedade Humanitária. Ela é uma golden típica: afetuosa, mas ativa, sempre abanando a cauda e pronta para brincar. Tom Davis a descreve muito bem em seu livro [Apenas Goldens], quando diz que "os goldens são imaginativos, meigos, inimigos da rotina... cheios de peculiaridades, apreciadores de brincadeiras e com muitas surpresas... e que certamente você gostaria que um golden desse uma festa, pois em apenas algumas horas dessa festividade ele já seria o centro das atenções".

A Molly é assim: o centro das atenções.

Ela não tinha muita certeza de qual seria seu papel quando começamos a realizar nossas visitas programadas.  Ela se agitava e batia com a cauda em todos à sua volta; um cão que abana a cauda com tamanho ímpeto e força pode machucar alguém ou derrubar tudo o que estiver sobre qualquer mesinha de centro. Pobre Molly, ainda achava que era possível  aconchegar-se  no colo das pessoas, mas as que visitávamos, ou estavam debilitadas demais pela saúde frágil ou eram muito pequenas para dar-lhe colo. Entretanto, como todos os goldens Molly tinha esse desejo inato de querer agradar-me. À medida que atendia e dava atenção às pessoas, ela percebeu que, caso se sentasse, algumas pessoas poderiam fazer-lhe agrados ou, melhor ainda, abraçá-la. Havia momentos em que deitava sua cabeça sobre um colo acolhedor.

Outro dia, em uma de nossas visitas, ela se comportou de forma bem profissional. Estávamos em um centro de tratamento, na ala destinada às pessoas que necessitam de muita ajuda. Uma mulher, presa à cadeira de roda, parecia tão  ausente  e distante que quase passamos por ela sem notá-la. Tinha as mãos aleijadas, retorcidas; sua cabeça pendia para o lado e seus olhos estavam fechados. Molly parou, e eu também.

A mulher, quando coloquei minha mão sobre o seu braço, respondeu ao meu toque. Então, peguei aquela mão retorcida e a coloquei sobre o dorso de Molly, para que ela tocasse seu pêlo macio. Quando sua mão, guiada pela minha, acariciou a cabeça de Molly, a mulher abriu  os  olhos  e  começou  a  sorrir.  Logo ela estava totalmente alerta e ria como uma criança, à  medida que continuei a passar a mão dela sobre o  corpo de Molly,  que se sentou próximo à mulher e colocou a cabeça sobre aquelas pernas presas à cadeira de rodas.  A seguir,  a mulher, sem ajuda

alguma, conseguiu inclinar-se para a frente a ponto de ser capaz de  envolver  o pescoço de  Molly  com  seus  braços.  Os  risos  de euforia dela chamaram a atenção das enfermeiras que estavam por perto. Essa mulher não era capaz de falar, mas foi capaz de transmitir seu coração afim, ao dar amor por meio do toque, da mesma maneira como Molly fazia.

Molly e eu visitaremos novamente essa mulher. Acho que Molly finalmente compreendeu que, quando faz essas visitas, ela

precisa deixar de ser o centro das atenções para ser apenas uma simples coadjuvante da alegria e da luz.


 

TODOS NÓS PRECISAMOS DE CUIDADOS

Max Lucado

Histórias Para o Coração 3 32

 

 

Que bom que você está ao meu lado. Sabe, algumas vezes, eu vomito.

Ninguém gostaria de ouvir isso em um avião, principalmente se quem disse isso for o passageiro sentado ao seu lado. Antes mesmo que tivesse colocado minha bagagem de mão no gavetão, o compartimento acima de minha cabeça, eu já sabia o nome, a idade e o itinerário dele.

- Meu nome é Billy Jack, tenho 14 anos e vou para casa visitar meu pai.

Comecei a dizer-lhe meu nome, mas ele foi mais rápido e falou antes de mim.

- Preciso que alguém cuide de mim. Fico sempre muito confuso.

Contou-me da escola especial que frequentava e dos remédios que tinha de tomar.

- Será que você pode me lembrar que tenho de tomar meu remédio logo mais?

Antes de acabar de colocar o cinto de segurança, ele parou uma aeromoça e disse-lhe:

- Não se esqueça de mim. Fico sempre confuso.

Após levantarmos voo, Billy Jack pediu um refrigerante e mergulhou a bolacha de água e sal no copo. Enquanto eu tomava meu refrigerante, ele não parava de olhar para mim e me perguntou se podia beber o resto que eu deixara no copo. Ele derramou um pouco de refrigerante e pediu desculpas.

- Tudo bem, não se preocupe! - disse-lhe, enquanto limpava o que ele sujara.

Quando começou a brincar com seu videogame, tentei tirar uma soneca. Foi nesse momento que ele começou a fazer barulho, pois procurava imitar um trompete.

- Eu também sei imitar o barulho do oceano - gabou-se ele, enquanto fazia um zunido com a saliva, ao comprimi-la aqui e ali entre os dentes e a bochecha.

(Na verdade, não soava como o oceano, mas eu não disse isso a ele.)

Billy Jack era uma criança em um corpo de adulto.

- Será que as nuvens podem bater no chão? - perguntou-me.

Comecei a responder, mas ele se virou para olhar através da janela como se jamais tivesse perguntado alguma coisa. Ele não demonstrava o menor constrangimento ao afirmar suas necessidades, e toda vez que a aeromoça passava por perto, ele a lembrava: "Não se esqueça de cuidar de mim".

Quando traziam a comida: "Não se esqueça de cuidar de mim".

Quando traziam mais refrigerantes: "Não se esqueça de cuidar de mim".

Quando qualquer aeromoça passava por perto, ele pedia com insistência: "Não se esqueça de cuidar de mim".

Realmente, não consigo me lembrar de um momento sequer em que Billy Jack não lembrou a tripulação de que ele necessitava de cuidados. O restante de nós não precisava disso. Jamais pedimos ajuda. Afinal, somos adultos, sofisticados e confiantes. Viajantes experimentados. A maioria de nós  nem  sequer  escutou as instruções para uma eventual aterrissagem de emergência.

(Billy  Jack pediu  que eu  as  explicasse para ele.)

O livro de Romanos, uma epístola que desafia os presunçosos e os autossuficientes, foi escrito para pessoas como nós. Confessar suas necessidades é um sinal de fraqueza, algo que relutamos em fazer. Acredito que Billy Jack teria compreendido a graça. Percebi que, na verdade, ele era a pessoa que corria menos risco em todo o avião. Se houvesse algum problema com o avião, ele seria o primeiro a ser socorrido. As aeromoças certamente passariam por cima de mim, que estava mais próximo da passagem, para alcançá-lo junto à janela. Por quê? Porque ele se colocara à mercê de alguém mais forte do que  ele.

Agora,  pergunto:  "Você faz isto?".

De uma coisa temos  certeza:  nós  não  podemos  nos  salvar.  Deus enviou seu Filho  primogênito  para  levar  você  para  o  eterno lar. Será que você está realmente no  domínio  da  graça?  Oro  para que esteja. Oro sinceramente para que esteja.

Apenas um comentário a mais. Billy Jack passou a última hora de voo com sua cabeça apoiada em meu

ombro, e as mãos, juntas, entre suas pernas. No momento em que pensei que adormecera, ele levantou a cabeça e me disse: "Meu pai vai me esperar no aeroporto. Estou louco de vontade de vê-lo, pois ele cuida de mim!".

O apóstolo Paulo certamente gostaria muito de conhecer Billy Jack.


 

CARTAS DE AMOR

Bob Welch

Histórias Para o Coração 3 35

 

 

Quase todo mundo sabe que a avó de Sally jamais mexeu em um computador. Ela também não gostava muito de faze telefonemas. Em vez disso, comunicava-se com sua família, já bem numerosa, por intermédio de algo melhor do que qualquer coisa que a alta tecnologia pode oferecer, até mesmo melhor do que e-mails.

Ela mantinha contato com todos nós pelo v-maiL - vó-mail.

Gram Youngbergh, que morreu no outono de 1997, aos 95 anos de idade, escrevia cartas. Milhares de cartas ao longo de várias décadas, a maioria das quais minha esposa guardou. Parte do legado de Gram foi a maneira como ele viveu, mas a outra parte dele foram as palavras que nos deixou - palavras que se tornaram uma extensão da mulher que as escreveu. Palavras que ajudaram a sustentar e a ligar as partes interdependentes de sua árvore genealógica, seu maior legado.

Elas nos revelam uma mulher simples, o sal da terra, que observava as idas e vindas diárias das pessoas com um entusiasmo minucioso. Como Emily, a jovem da peça Our Town [Nossa Cidade], de Thorton Wilder, que questiona se alguém, além dos "santos e poetas", realmente percebe as nuanças da vida à nossa volta. Gram era também como os "santos e poetas", pois sempre observava o "badalar do relógio, os girassóis da mamãe, os vestidos bem passados e os banhos de banheira, bem quentinhos ... ". Mais do que tudo, prestava atenção à família numerosa e aos amigos.

Em uma de suas cartas escreveu: Bud Payne ainda está preso em casa devido à ruptura do ligamento do joelho ... Max Coffey planeja ser o mecânico da equipe médica que irá ao Haiti em novembro ... meu Deus, como Brad e Paul cresceram!. ..

As cartas falam de uma pessoa para quem os outros eram prioridade, pois tinham grande importância para ela. Sempre escrevia mais a respeito dos outros do que de si própria. Van­gloriava-se com as vitórias de sua família e se compadecia das derrotas. Acolhia os novos membros da família como se fossem velhos amigos que, embora não tivessem nenhum vínculo de sangue, pertenciam ao núcleo familiar. Sempre se surpreendia mais com os feitos dos outros do que com os seus, não obstante estes fossem numerosos.

"Sally, estamos orgulhosos de você e Ann, que estão fazendo sua parte ao auxiliar os outros no Haiti ...

"Hoje, dei um jeito nos carrinhos de bombeiro de madeira, que serão doados a crianças necessitadas. Lixei-os e passei uma nova mão de tinta. Levei apenas 20 minutos para dar uma melhorada em cada um deles."

As cartas falam de uma pessoa que tinha o coração voltado para as crianças.

"Estou gostando muito de dar aulas na Escola Dominical. Tenho um grupo de oito crianças, entre cinco e seis anos, e elas são encantadoras."

"Os desenhos de seus filhos são incríveis. As vacas que Ryan desenhou são ágeis e alegres e transmitem vivacidade."

As cartas falam de alguém que se alegrou com a criação e

a generosidade do Senhor no clima, no solo, nas estações e no pôr-do-sol. Ela escrevia coisas como: "Estou ocupada com a colheita de verão dos índios. Adoro esta época do ano. Conge­lar o milho, secar as ameixas e acabar de fazer as conservas. A produção de maçãs - e de peras também - foi muito fraca, e as poucas frutas que pudemos colher estavam cheias de bicho e nada suculentas. No entanto, tivemos pêssegos em abundância e eles estavam deliciosos".

Em outra carta, podíamos ler: "Os termômetros estão na marca de -6°C e há uma camada de gelo cobrindo tudo. Neva nas montanhas, mas aqui ainda não!". Em outra: "Você tem visto os esplendorosos pôr-do-sol: um deles ontem, e outros durante a semana. É maravilhoso poder vê-los para apreciar o trabalho da mão do Senhor".

As cartas dela estavam repletas de receitas, notícias sobre as galinhas, o gado e as toupeiras, também novidades sobre costura ou festas comunitárias na igreja e, obviamente, sobre Pop. Ela sempre reservava parte de seu tempo para saber como estavam todos em nossa família. Ela adorava os pontos de exclamação e, em raras ocasiões (como quando soube que o marido de sua neta retornara para casa após o serviço militar), desenhava rostos com um grande sorriso.

Ela raramente reclamava. Bem, algumas cartas incluíam linhas emocionantes e nostálgicas, principalmente após a morte de Pop. Sentia-se só. No entanto, a maior parte do tempo tinha a estranha habilidade de ver o contorno prateado nas nuvens carregadas, pois aceitava o fato de que a dor e a perda faziam parte da vida, da mesma forma que a seca e o granizo faziam parte da lavoura.

Certa vez escreveu: "Pop está cansado, mas não temos do que reclamar".

Em outras cartas, em que exaltava as conquistas de outros membros da família, podíamos ler: "Na verdade, somos muito afortunados".

Se Gram estivesse viva, sei como reagiria a esses relatos entusiasmados que fazemos a respeito de sua vida. Reagiria da mesma forma que o fez certa vez, quando lhe disse que ela era um exemplo para a minha vida, e que eu me sentia muito feliz por fazer parte da família.

"Bob, obrigada por sua carta lisonjeira, mas para ser sin­cera, não mereço tanta honra, pois faço apenas o que é natural. Quando era criança, aprendi a fazer e a utilizar o que estivesse à mão. Então, faço apenas isso."

Décadas de cartas. Cartas cujos selos, apenas nos últimos 25 anos, subiram de oito centavos para 32. Cartas que, por algum tempo, enquanto se recuperava de uma fratura, foram escritas com a mão esquerda. Cartas que vinham assinadas Grame Pop, e, posteriormente, apenas Gram, até que pararam de chegar, mas só quando ela ficou fisicamente impossibilitada de escrever.

Cartas que nos faziam lembrar que Gram realmente tinha dois canteiros: um com cenouras e ervilhas e tomates e milho, e o outro com um filho e duas filhas e netos e bisnetos e sobri­nhos.

Paulo, ao escrever uma carta para a igreja em Corinto, diz: "Vós sois a nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens" (2Co 3.2; MELHORES TEXTOS). De certo modo, a vida de Gram foi uma longa carta de amor ende­reçada à família, aos amigos e a Deus. Uma carta extensa, de 95 anos.

Nada poderia deixá-la mais feliz do que saber que guar­damos essa longa carta em nossas carteiras e bolsas - melhor ainda, que a acolhemos em nosso coração - e que procuramos seguir o exemplo dela, dedicar a vida ao outro. Ela, certamente, gostaria que sempre buscássemos o melhor em cada um de nós e que fizéssemos o melhor com as circunstâncias disponíveis. E, é claro, sem jamais esquecer de parar para alegrar-se com a alvo­rada e o pôr-do-sol: "É maravilhoso poder vê-los para apreciar o trabalho da mão do Senhor".


 

DEUS NÃO CRIA JOÕES- NINGUÉM

Ruth Lee

Histórias Para o Coração 3 41

 

 

Aquele foi o último dia de um congresso, extremante proveitoso, de escritores cristãos. Alguém sugeriu que nos reuníssemos à noite no local reservado para a oração, em nosso dormitório, para que tivéssemos um momento dedicado a compartilhar.

Após o banquete, as mulheres reuniram-se na capela do segundo andar do dormitório. Estávamos todas de penhoar ou de pijama, e, portanto, não era possível observar nenhuma diferença entre nós. Alguém sugeriu que nos apresentássemos, mas sugeri algo diferente:

- Em vez de só falarmos nosso nome, por que não dizer algo sobre nós também?

Depois de apenas três dessas mulheres terem se apresentado e compartilhado algo sobre suas vidas, me arrependi de ter aberto " boca! Uma delas era diretora de enfermagem, a outra lecionava inglês na faculdade e a que estava ao lado desta acabara de terminar o doutorado. E eu ali, sentada no meio desse círculo de pessoas notáveis. Quem era eu?

Uma joão-ninguém. Bem, é verdade que eu era mãe e avó, mas não tinha nenhum cargo importante.

Após a apresentação de duas autoras, com livros publicados, e de outra mulher que afirmava ter algum tipo de fama, chegou a minha vez.

- Meu nome é Ruth - disse. - No entanto, sinto-me tão pequenina perante vocês, que acho melhor ir para meu quarto.

Como todas riram, continuei abrindo caminho:

- Acho que podem me chamar de produtora. Em 30 anos produzi uma terapeuta bem ajustada, especializada em vias respiratórias, um maquinista e outra feliz construtora de lares. Atualmente, estou também envolvida na co-produção de sete netos.

Contei-lhes como minha vida é agitada: cuidar do gado, de consertos de cercas ou orar para que chova e, a seguir, para que pare de chover. Mencionei as muitas horas que passo tomando conta de crianças enquanto tenho de dar conta dos afazeres domésticos - uma verdadeira batalha!

A seguir, falei de minha fome descomunal, fome de alimento espiritual e emocional que havia saciado naquele congresso.

Foi nesse momento, que do canto da sala, uma jovem tímida falou com voz firme:

- Será que você poderia virar para cá? Gostaria de ver seu semblante!

Fiz o que ela me pediu, e ela continuou:

- Quando escrever, quero me lembrar de sua fisionomia, pois busco alcançar mulheres como você com meu trabalho.

De repente, eu já não necessitava mais de títulos ou diplomas.

Havia um propósito para a minha vida. As palavras dessa jovem me ajudaram a perceber algo que já deveria saber. Deus não cria joões-ninguém. Todo mundo é importante para Ele.


 

A VISITA INESPERADA

Hartley E Daily Na Revista Sunshine [Luz Do Sol]

Histórias Para o Coração 3 44

 

 

O vale de Greenbriar estava praticamente escondido pelas nuvens baixas, responsáveis pela chuva intermitente.

Enquanto caminhava com dificuldade pelo curral, bem ao lado do celeiro, preparando-me para fazer as tarefas da tarde, dei uma olhada para a estrada que passava por nosso pedaço de terra e serpenteava ao longo do vale. Havia um carro parado à beira da estrada, um pouco mais à frente do pasto.

Obviamente, o carro devia estar com algum problema. Caso contrário, aquele homem tão bem vestido não estaria na chuva, procurando consertá-Io. Eu o observava enquanto fazia meu serviço. Era óbvio que o homem não era mecânico, pois se movia exasperada e afobadamente do capô levantado para o banco do motorista, tentava dar a partida e voltava a examinar o motor.

Anoitecia quando terminei meu serviço e fechei o celeiro. O carro ainda estava parado no mesmo local, então peguei uma lanterna e fui para a estrada. O homem, quando me viu, ficou surpreso e um pouco contrariado, mas parecia ansiar por minha ajuda. O carro era pequeno, da mesma marca que o meu, só que mais novo. Em alguns minutos, consegui descobrir o problema.

- É a bobina! - disse-lhe.

- Mas não é possível! - deixou escapar. - Faz um mês que troquei essa bobina.

Ele era bem jovem ainda, quase um garoto. Talvez tivesse apenas 21 anos. Parecia desesperado, à beira das lágrimas.

- Bem, senhor - ele disse com a voz entrecortada -, estou muito longe de casa e está chovendo. Tenho de fazer o carro funcionar. Preciso conseguir!

- Bem - disse-lhe - as coisas são assim mesmo! Bobinas são imprevisíveis. Às vezes duram anos a fio, outras queimam após apenas algumas horas de uso. Bem, posso pegar um cavalo e puxar o carro até o celeiro, para daí vermos o que é possível fazer. Tentaremos usar a bobina do meu carro. Se funcionar, conheço alguém que pode ajudá-lo. Ele mora bem perto, logo ali depois da curva. Certamente, ele terá uma disponível para vender.

Meu prognóstico estava correto, pois assim que colocamos a bobina de meu carro no dele, o motor funcionou imediatamente e começou a roncar como se fosse novinho em folha.

- Sem maiores problemas! - disse-lhe sorrindo. - Vou com você até a casa de Bill David, e ele lhe venderá uma bobina nova. Só vou avisar a Jane, minha esposa, e já volto.

Achei que o jovem, quando chegamos à venda de Bill David, comportou-se de forma estranha. Ele parou o carro atrás da loja, em um local bem ermo, e não saiu do carro. Desculpou-se dizendo que estava molhado e com frio: "Eis o dinheiro. Certamente você se importa de comprar a bobina para mim, não é mesmo?".

Quando acabamos de trocar a bobina, percebi que Linda, minha filhinha, estava vindo em nossa direção.

- Mamãe disse que o jantar está pronto! - disse e, a seguir, virou-se para o desconhecido. - Ela falou que é para você entrar e jantar com a gente.

- Ah! Mas eu não posso ficar aqui! - ele lamentou. - Além disso, não gostaria de dar trabalho a vocês. Bem, de qualquer forma, tenho de seguir. Obrigado, mas realmente não posso ficar.

- Que é isso! - disse-lhe. - Afinal, quanto tempo você se atrasará se sentar-se à mesa e comer conosco? Lembre-se, ninguém vem à casa de Jane na hora da refeição e sai de barriga vazia. Você não quer que ela se jogue na lama, em frente ao seu carro, e implore para que fique, não é mesmo?

Ele se deixou levar até nossa casa, embora ainda estivesse protestando. No entanto, pareceu-me que havia algo mais naquele protesto, além da simples educação.

Ele permaneceu bem quieto à mesa, enquanto eu agradecia pelo alimento. No entanto, durante a refeição ele parecia inquieto e mal tocou a comida, o que era quase uma ofensa para Jane, que se orgulhava de ser uma das melhores cozinheiras da região.

Assim que acabamos de comer, ele se levantou e disse que tinha de partir. No entanto, ele não conhecia Jane.

- Olhe aqui! - disse ela, enquanto olhava para mim para pedir apoio. - Ainda está chovendo muito, sua roupa está molhada e você deve estar com muito frio. Aposto como também está muito cansado, pois deve ter dirigido muito hoje. Fique aqui e amanhã você põe o pé na estrada, pois estará se sentindo bem melhor: descansado e com a roupa seca.

Fiz um leve sinal para ela. Nem sempre é aconselhável abrigar estranhos em casa. Infelizmente, há muitas pessoas nada confiáveis, mas gostei desse jovem. Tinha certeza de que ele não nos causaria nenhum problema.

Ele concordou em passar a noite conosco, embora ainda estivesse um pouco relutante. Jane o convenceu a ir para a cama e, depois, pendurou sua roupa próximo à lareira para que secasse.

Na manhã seguinte, ela passou toda a roupa dele e lhe serviu um bom café, que ele devorou com satisfação. Pela manhã, ele estava mais tranquilo, pois já não parecia tão agitado quanto na noite anterior. Antes de partir, agradeceu-nos prodigamente.

No entanto, quando partiu, algo estranho aconteceu. No dia anterior, ele se dirigia para o sul do vale, mas então tomou o rumo oposto, para o norte. Isso nos deu o que pensar, até que por fim decidimos que, na verdade, ele cometera um engano e pegara a direção errada.

O tempo passou, e nunca mais tivemos notícias desse jovem.

Aliás, não esperávamos mesmo que ele desse sinal de vida. Os dias se transformaram em meses, e os meses em anos. O período marcado pela depressão econômica acabou, e a guerra começou.

Com o tempo, até a guerra acabou. Linda cresceu e se casou. As coisas na fazenda estavam bem diferentes do que na época em que enfrentávamos dificuldades. Jane e eu levávamos uma vida calma e confortável, envolvidos pelo adorável vale de Greenbriar.

Outro dia, porém, recebi uma carta pessoal de Chicago, e em um papel de boa qualidade. Fiquei imaginando quem poderia ter me enviado uma carta de Chicago. Eu a abri e li o seguinte:

 

Caro Sr. McDonald,

 

Não sei se o senhor se lembra do jovem a quem ajudou, faz muitos anos, quando o carro dele quebrou.

Passou-se muito tempo, e imagino que já tenha ajudado muitas outras pessoas. No entanto, duvido que tenha ajudado alguém da maneira como me ajudou.

Sabe, aquela noite eu estava fugindo. Tinha, em seu carro, uma grande quantia de dinheiro que roubara de meu patrão. Quero que saiba que meus pais eram bons cristãos. Infelizmente, deixei de lado o ensinamento que recebi e comecei a me relacionar com pessoas erradas. Sabia que fizera algo abominável.

No entanto, sua esposa e o senhor foram muito gentis comigo. Naquela noite que passei em sua casa, comecei a perceber meus equívocos. Antes de o dia raiar, já havia tomado uma decisão. No dia seguinte, retomei. Procurei meu patrão e lhe contei tudo o que fizera. Devolvi-lhe todo o dinheiro e fiquei à mercê de sua misericórdia.

Meu patrão poderia ter-me processado, e certamente eu passaria muitos anos na cadeia. Ele, porém, é um bom homem, pois permitiu que continuasse trabalhando para ele. E eu nunca mais me desviei do bom caminho. Hoje, estou casado. Minha esposa é adorável e temos dois filhos queridos. Em minha vida profissional, consegui uma boa posição na companhia para a qual trabalho. Não sou rico, mas estou bem financeiramente.

Poderia recompensá-Io generosamente pelo que o senhor fez por mim naquela noite, mas não creio que é isso o que o senhor deseja, portanto estabeleci um fundo para ajudar outros que, como eu, tomaram a atitude errada. Espero que, dessa maneira, possa retribuir pelo que fiz.

Que Deus o abençoe, e também a sua bondosa esposa, que me ajudou mais do que o senhor poderia imaginar.

Entrei em casa e mostrei a carta a Jane. Pude perceber que, enquanto ela lia a carta, seus olhos ficaram marejados. Ela deixou a carta de lado e, com ar muito singular, citou a seguinte passagem: "...porque tive fome, e me destes de comer; [...] era forasteiro, e me acolhestes; [...] estava na prisão, e fostes verme" (Mateus 25.35,36).

 

Robert Fane


 

PESSOAS A QUEM NUNCA AGRADECEMOS

Steve Goodier

Histórias Para o Coração 350

 

 

Certo dia, William Stidger, quando ainda dava aulas na Boston University, pensou sobre as pessoas a quem ele nunca agradeceu: as que o educaram, as que o inspiraram ou as que cuidaram dele tão bem, a ponto de deixar uma impressão duradoura.

Uma dessas pessoas era uma professora, de quem havia muito ele não tinha notícias. No entanto, ele se lembrava de que ela se empenhara sobremaneira para que ele viesse a nutrir amor pelos poemas. William se tornou um apaixonado pela poesia, algo que sempre cultivou