CRIANDO RAÍZES
PHILIP GULLEY
Histórias Para Aquecer o Coração 13
Quando eu era pequeno, tinha um velho vizinho chamado
Dr. Gibbs. Ele não se parecia com nenhum médico que eu jamais houvesse
conhecido. Todas as vezes em que eu o via, ele estava vestido com um macacão de
zuarte e um chapéu de palha cuja aba da frente era de plástico verde
transparente. Sorria muito, um sorriso que combinava com seu chapéu - velho,
amarrotado e bastante gasto. Nunca gritava conosco por brincarmos em seu
jardim. Lembro-me dele como alguém muito mais gentil do que as circunstâncias
justificariam.
Quando o Dr. Gibbs não estava salvando vidas,
estava plantando árvores. Sua casa localizava-se em um terreno de dez acres, e
seu objetivo na vida era transformá-Io em uma floresta.
O bom doutor possuía algumas teorias
interessantes a respeito de jardinagem. Ele era da escola do "sem
sofrimento não há crescimento". Nunca regava as novas árvores, o que
desafiava abertamente a sabedoria convencional. Uma vez perguntei-lhe por quê.
Ele disse que molhar as plantas deixava-as mimadas e que, se nós as
molhássemos, cada geração sucessiva de árvores cresceria cada vez mais fraca.
Portanto, tínhamos que tornar as coisas difíceis para elas e eliminar as
árvores fracas logo no início.
Ele falou sobre como regar as árvores fazia com
que as raízes não se aprofundassem, e como as árvores que não eram regadas
tinham que criar raízes mais profundas para procurar umidade. Achei que ele
queria dizer que raízes profundas deveriam ser apreciadas.
Portanto, ele nunca regava suas árvores.
Plantava um carvalho e, ao invés de regá-Io todas as manhãs, batia nele com um
jornal enrolado. Smack! Slape! Pou! Perguntei-lhe por que fazia isso e ele
disse que era para chamar a atenção da árvore.
O Dr. Gibbs faleceu alguns anos depois. Saí de
casa. De vez em quando passo por sua casa e olho para as árvores que o vi
plantar há cerca de vinte e cinco anos. Estão fortes como granito agora.
Grandes e robustas. Aquelas árvores acordam pela manhã, batem no peito e bebem
café sem açúcar.
Plantei algumas árvores há alguns anos.
Carreguei água para elas durante um verão inteiro. Borrifei-as. Rezei por elas.
Todos os nove metros do meu jardim. Dois anos
de mimos resultaram em árvores que querem ser servidas e paparicadas.
Sempre que sopra um vento frio, elas tremem e
balançam os galhos. Árvores maricas.
Uma coisa engraçada a respeito das árvores do
Dr. Gibbs: a adversidade e a privação pareciam beneficiá-Ias de um modo que o
conforto e a tranquilidade nunca conseguiriam.
Todas as noites, antes de ir dormir, dou uma
olhada em meus dois filhos. Olho-os de cima e observo seus corpinhos, o sobe e
desce da vida dentro deles. Frequentemente rezo por eles.
Rezo principalmente para que tenham vidas
fáceis. "Senhor, poupe-os do sofrimento." Mas, ultimamente, venho
pensando que é hora de mudar minha oração.
Essa mudança tem a ver com a inevitabilidade
dos ventos gelados que nos atingem em cheio. Sei que meus filhos irão encontrar
dificuldades e minha oração para que isto não aconteça é ingênua. Sempre há um
vento gelado soprando em algum lugar.
Portanto, estou mudando minha oração
vespertina. Porque a vida é dura, quer o desejemos ou não. Em vez disso, vou
rezar para que as raízes de meus filhos sejam profundas, para que eles possam
retirar forças das fontes escondidas do Deus eterno.
Muitas vezes rezamos por tranquilidade, mas
essa é uma graça difícil de alcançar. O que precisamos fazer é rezar por raízes
que alcancem o fundo do Eterno, para que quando as chuvas caiam e os ventos
soprem não sejamos varridos em direções diferentes.
Nossa força vem de nossas fraquezas.
RALPH WALDO EMERSON
O GRANDE DOM DE MINHA MÃE
MARIE RAGGHIANTI
Histórias Para Aquecer o Coração 16
Eu tinha dez anos de idade quando minha mãe teve
paralisia, causada por um tumor na espinha dorsal. Antes disso ela havia sido
uma mulher vibrante e vigorosa, de tal maneira ativa que a maioria das pessoas
achava impressionante. Mesmo quando era pequena, eu ficava admirada com suas
realizações e por sua beleza. Porém, quando tinha trinta e um anos, sua vida
mudou.
Assim como a minha.
Do dia para a noite, parecia, ela passou a
ficar deitada de costas em uma cama de hospital. Um tumor benigno a havia
incapacitado, mas eu era jovem demais para compreender a ironia da palavra
"benigno", pois ela nunca mais seria a mesma.
Ainda tenho imagens vívidas dela antes da
paralisia. Ela sempre foi gregária e recebia muitas visitas. Com frequência
passava horas preparando canapés e enchendo a casa de flores, que colhia
frescas no jardim cultivado ao lado da casa. Selecionava as músicas populares
da época e rearrumava a mobília a fim de abrir espaço para que os amigos
pudessem se entregar à dança. Na realidade, era minha mãe quem mais gostava de
dançar.
Hipnotizada, eu a observava se vestir para as
festividades noturnas. Mesmo hoje em dia ainda me lembro de nosso vestido
favorito, com sua saia preta e corpete de renda azul-marinho, o contraste
perfeito para seu cabelo louro. Fiquei tão emocionada quanto ela no dia em que
trouxe para casa sapatos de salto alto de renda preta e, naquela noite, minha
mãe certamente era a mulher mais bonita do mundo.
Eu acreditava que ela podia fazer qualquer
coisa, fosse jogar tênis (ganhara campeonatos na universidade), costurar (fazia
todas as nossas roupas), tirar fotografias (ganhou um concurso nacional),
escrever (era colunista de um jornal) ou cozinhar (especialmente pratos
espanhóis para meu pai).
Agora, apesar de não poder fazer nenhuma dessas
coisas, ela encarava sua doença com o mesmo entusiasmo que tinha em relação a
tudo o mais.
Palavras como "deficiente" e
"fisioterapia" tornaram-se parte de um estranho mundo novo no qual
entramos juntas, e as bolas de borracha para crianças que ela se esforçava para
apertar adquiriram um simbolismo que jamais haviam possuído.
Gradualmente, passei a ajudar nos cuidados com
a mãe que sempre cuidara de mim. Aprendi a cuidar do meu próprio cabelo - e do
dela. Eventualmente, tornou-se rotina levá-Ia na cadeira de rodas até a
cozinha, onde ela me ensinava a arte de descascar cenouras e batatas e como
esfregar alho e sal e pedaços de manteiga em uma boa carne assada.
Quando, pela primeira vez, ouvi falarem em uma
bengala, opus-me:
- Não quero que a minha linda mãe use uma
bengala.
Mas a única coisa que ela disse foi:
- Não é melhor você me ver andando com uma
bengala do que não me ver andando de maneira alguma?
Cada conquista era um marco para nós duas: a
máquina de escrever elétrica, o carro com câmbio e freio automáticos, sua volta
à universidade, onde se diplomou em Educação Especial.
Ela aprendeu tudo o que podia sobre as pessoas
com deficiências e acabou fundando um grupo ativista de apoio chamado Os
Incapacitados. Certo dia, sem ter falado muito de antemão, ela me levou e a
meus irmãos a uma reunião dos Incapacitados. Eu nunca vira tantas pessoas com
tantas deficiências.
Voltei para casa, silenciosamente
introspectiva, pensando em como nós realmente tínhamos sorte. Ela nos levou
muitas vezes depois disso e, eventualmente, a visão de um homem ou uma mulher
sem pernas ou braços não nos chocava mais. Minha mãe também nos apresentou a
vítimas de paralisia cerebral, enfatizando que a maioria era tão inteligente
quanto nós talvez mais. E nos ensinou a nos comunicarmos com os retardados
mentais, mostrando como eles eram frequentemente mais afetuosos, comparados às
pessoas normais. Durante tudo isso, meu pai continuou a amá-Ia e apoiá-Ia.
Quando eu estava com onze anos, minha mãe me
contou que ela e papai iriam ter um bebê. Muito depois, eu soube que seus
médicos tinham insistido para que ela fizesse um aborto (terapêutico) - uma
opção à qual ela resistiu veementemente. Logo, éramos mães juntas, já que virei
mãe adotiva de minha irmã, Mary Therese. Em pouquíssimo tempo aprendi a trocar
fraldas, banhá-Ia e alimentá-Ia. Ainda que mamãe tenha mantido a disciplina
maternal, para mim foi um passo gigantesco além da brincadeira com bonecas.
Um momento se destaca mesmo hoje em dia: o dia
em que Mary Therese, na época com dois anos, caiu e esfolou o joelho, abriu-se
em prantos e passou correndo pelos braços estendidos de minha mãe para os meus.
Tarde demais, eu vislumbrei a faísca de dor no rosto de mamãe, mas tudo o que
ela disse foi:
- É natural que ela corra para você, pois você
toma conta dela tão bem...
Como minha mãe aceitava sua condição com tanto
otimismo, raramente me senti triste ou ressentida. Mas nunca irei esquecer o
dia em que minha complacência foi destruída.
Muito tempo depois da imagem de minha mãe em
salto agulha ter se dissipado da minha consciência, houve uma festa em nossa
casa. A essa altura eu era adolescente, e vi minha sorridente mãe sentada na
lateral, olhando seus amigos dançarem, e fui atingida pela cruel ironia de suas
limitações físicas. Subitamente, fui transportada de volta à época de minha
primeira infância e a visão de minha mãe dançando radiante estava novamente
diante de mim.
Imaginei se mamãe se lembraria também.
Espontaneamente, andei em sua direção e então vi que, apesar de estar sorrindo,
seus olhos estavam marejados de lágrimas. Corri para fora do aposento e para o
meu quarto, enterrei meu rosto no travesseiro e chorei copiosamente - todas as
lágrimas que ela jamais chorara. Pela primeira vez, eu me enraiveci contra Deus
e contra a vida e suas injustiças para com a minha mãe.
A lembrança do sorriso brilhante de minha mãe
permaneceu comigo. Daquele momento em diante, enxerguei sua habilidade de
superar a perda de tantas batalhas anteriores e seu ímpeto em olhar para a
frente - coisas que eu tomava por certas - como um grande mistério e uma
poderosa inspiração.
Quando eu estava crescida e comecei a trabalhar
com o sistema penal, mamãe se interessou em trabalhar com os prisioneiros. Ela
telefonou para a penitenciária e pediu para dar aulas de Redação Criativa para
os detentos. Lembro-me de como eles se amontoavam em volta dela sempre que ela
chegava e pareciam se agarrar a cada palavra sua, como eu fizera na infância.
Mesmo quando não podia mais se deslocar até a
prisão, ela frequentemente se correspondia com vários detentos.
Um dia pediu-me para enviar uma carta para um
prisioneiro, Waymon. Perguntei se poderia lê-Ia antes e ela concordou, sem
perceber, eu acho, o quanto aquilo seria revelador para mim.
Dizia: "Querido Waymon, quero que saiba
que tenho pensado em você com frequência desde que recebi sua carta. Você
mencionou como é difícil estar preso atrás das grades e meu coração se une ao
seu. Mas quando você disse que eu não imagino o que é estar na prisão, senti-me
compelida a dizer-lhe que estava errado.
Existem diferentes tipos de liberdade, Waymon,
diferentes tipos de prisão. Às vezes, nossas prisões são autoimpostas.
Quando, com a idade de trinta e um anos,
levantei-me um dia para descobrir que estava completamente paralisada, senti-me
em uma armadilha - dominada pela sensação de estar presa dentro de um corpo que
não mais me permitiria correr através de uma campina, dançar ou carregar minha
filha nos braços.
Fiquei deitada ali durante muito tempo, lutando
para chegar a um acordo com minha enfermidade, tentando não sucumbir à
autopiedade. Perguntei-me se, na verdade, valeria a pena viver nessas
condições, se não seria melhor morrer.
Pensei a respeito desse conceito de prisão,
pois me parecia que havia perdido tudo o que importava na vida. Eu estava
próxima do desespero.
Mas, então, um dia me ocorreu que, na
realidade, ainda havia opções abertas para mim e que eu tinha a liberdade de
escolher entre elas. Serd que eu iria sorrir quando visse meus filhos de novo,
ou iria chorar? Iria zangar-me com Deus, ou iria pedir que Ele fortalecesse
minha fé?
Em outras palavras, o que eu iria fazer com o
livre-arbítrio que Ele havia me dado e que ainda era meu?
Tomei a decisão de lutar, enquanto estivesse
viva, para viver o mais plenamente possível para procurar tornar minhas
experiências aparentemente negativas em experiências positivas, procurar formas
de transcender minhas limitações físicas expandindo minhas fronteiras mentais e
espirituais. Eu podia escolher entre ser um exemplo positivo para meus filhos
ou podia murchar e morrer emocional assim como fisicamente.
Existem muitos tipos de liberdade, Waymon.
Quando perdemos um tipo de liberdade, temos que simplesmente procurar por
outro.
Você e eu somos abençoados com a liberdade de
escolher entre bons livros, que iremos ler, quais deixaremos de lado.
Você pode olhar para as suas grades ou pode
olhar através delas.
Você pode ser um exemplo para prisioneiros mais
jovens ou pode se misturar com os encrenqueiros. Você pode amar a Deus e buscar
conhecê-Io ou pode virar as costas para Ele.
Até certo ponto, Waymon, estamos nisso juntos.
"
Quando finalmente terminei de ler a carta,
minha visão estava borrada pelas lágrimas. Ainda assim, pela primeira vez, eu
enxerguei minha mãe com clareza.
E eu a entendi.
O otimismo é uma disposição alegre que permite que um bule
de chá assovie apesar de estar com água quente até o nariz.
ANÔNIMO
BOAS MANEIRAS
PAUL KARRER
Histórias Para Aquecer o Coração 27
A cansada ex-professora se aproximou do balcão do
supermercado. Sua perna esquerda doía e ela esperava ter tomado todos os
comprimidos do dia: para pressão alta, tonteira e um grande número de outras
enfermidades.
"Graças a Deus eu me aposentei há vários
anos" - ela pensou. "Não tenho energia para ensinar hoje em
dia." Imediatamente antes de se formar a fila para o balcão, ela viu um
rapaz com quatro crianças e uma esposa, ou namorada, grávida. A professora não
pôde deixar de notar a tatuagem em seu pescoço.
"EIe esteve preso - pensou.
Continuou a observá-lo. Sua camiseta branca,
cabelo raspado e calças largas levaram-na a conjecturar:
"Ele é membro de uma gangue."
A professora tentou deixar o homem passar na
sua frente.
- Você pode ir primeiro - ofereceu.
- Não, a senhora primeiro - ele insistiu.
- Não, você está com mais gente - disse a
professora.
- Devemos respeitar os mais velhos -
defendeu-se o homem.
E, com isto, fez um gesto largo indicando o
caminho para a mulher.
Um breve sorriso adejou em seus lábios enquanto
ela mancou na frente dele. A professora que existia dentro dela não pôde
desperdiçar o momento e, virando-se para ele, perguntou:
- Quem lhe ensinou boas maneiras?
- A senhora, Sra. Simpson, na terceira série.
NÃO HÁ AMOR MAIOR
COL. JOHN W. MANSUR Extraído de The Missileer
Histórias Para Aquecer o Coração 29
Qualquer que fosse seu alvo inicial, os tiros
de morteiros caíram em um orfanato dirigido por um grupo missionário na pequena
aldeia vietnamita. Os missionários e uma ou duas crianças morreram
imediatamente e várias outras crianças ficaram feridas, incluindo uma menininha
de uns oito anos de idade.
As pessoas da aldeia pediram ajuda médica de
uma cidade vizinha que possuía contato por rádio com as forças americanas.
Finalmente, um médico e uma enfermeira da
Marinha americana chegaram em um jipe apenas com sua maleta médica.
Determinaram que a menina era a que estava mais
gravemente ferida. Sem uma ação rápida, ela morreria por causa do choque e da
perda de sangue.
Uma transfusão era imprescindível e era
necessário um doador com o mesmo tipo sanguíneo. Um teste rápido revelou que
nenhum dos americanos possuía o tipo correto, mas vários dos órfãos que não
haviam sido atingidos tinham.
O médico falava um pouco de vietnamita
simplificado e a enfermeira possuía uma leve noção de francês aprendido no
colégio. Usando essa combinação, juntos e com muita linguagem de sinais
improvisada, eles tentaram explicar para a jovem e assustada plateia que, a não
ser que pudessem repor uma parte do sangue perdido da menina, ela com certeza
morreria. Então perguntaram se alguém estaria disposto a doar um pouco de
sangue para ajudar.
Seu pedido encontrou um silêncio estupefato.
Após longos momentos, uma mãozinha lenta e hesitantemente levantou-se,
abaixou-se e levantou-se novamente.
- Oh, obrigada - disse a enfermeira em francês.
- Qual é o seu nome?
- Heng - veio a resposta.
Heng foi rapidamente colocado em um catre, os
braços limpos com álcool e uma agulha inserida em sua veia. Durante toda a
penosa experiência, Heng permaneceu tenso e em silêncio.
Depois de algum tempo, ele soltou um soluço
trêmulo, cobrindo rapidamente seu rosto com a mão livre.
- Está doendo, Heng? - perguntou o médico.
Heng balançou a cabeça, mas, após alguns
instantes, outro soluço escapou e mais uma vez ele tentou esconder o choro.
Novamente o médico perguntou se a agulha o
estava machucando e novamente Heng balançou a cabeça.
Porém agora seus soluços ocasionais haviam dado
lugar a um choro constante e silencioso, seus olhos apertados, o punho na boca
para abafar seus soluços.
A equipe médica estava preocupada. Algo
obviamente estava muito errado. Nesse momento, uma enfermeira vietnamita chegou
para ajudar. Vendo o sofrimento do pequeno, ela falou rapidamente com ele em
vietnamita, escutou sua resposta e respondeu-lhe com a voz reconfortante. Após
um instante, o paciente parou de chorar e olhou interrogativamente para a
enfermeira vietnamita. Quando ela assentiu, um ar de grande alívio se espalhou
pelo rosto do menino.
Olhando para cima, a enfermeira contou
calmamente para os americanos:
- Ele achou que estava morrendo. Entendeu
errado. Achou que vocês haviam pedido que ele desse todo o seu sangue para que
a menina pudesse viver.
- Mas por que ele estaria disposto a fazer
isso? - perguntou a enfermeira da Marinha.
A enfermeira vietnamita repetiu a pergunta para
o menino, que respondeu simplesmente:
- Ela é minha amiga.
O PODER DO PERDÃO
CHRIS CARRIER Entregue por Katy McNamara
Histórias Para Aquecer o Coração 36
Em 1974, voltando da escola para casa no último
dia antes das férias de Natal, eu pensava animadamente sobre o feriado
vindouro, como só os meninos de dez anos conseguem sonhar. A algumas portas de
distância de minha casa em Coral Gables, Flórida, um homem se aproximou de mim
e perguntou se eu poderia ajudá-lo com a decoração de uma festa que ele estava
dando para meu pai. Achando que era amigo de meu pai, concordei em ir com ele.
O que eu não sabia era que este homem tinha
ressentimentos contra a minha família. Trabalhara como enfermeiro para um
parente idoso, mas fora despedido por causa da bebida.
Após eu ter concordado em acompanhá-Io, ele
dirigiu seu trailer até uma área isolada ao norte de Miami, onde parou no
acostamento da estrada e me golpeou várias vezes no peito com um furado de
gelo. Então dirigiu para oeste, até Florida Everglades, levou-me até o meio dos
arbustos, deu um tiro em minha cabeça e me deixou lá para morrer.
Felizmente a bala havia passado por trás de
meus olhos e saído pela minha têmpora esquerda sem causar nenhum dano cerebral.
Quando recobrei a consciência, seis dias depois, não tinha noção de que havia
sido atingido por um tiro. Fiquei sentado no acostamento e fui encontrado por
um homem que parou para me ajudar.
Duas semanas depois descrevi a pessoa que me
atacara para o desenhista da polícia e meu tio reconheceu o retrato resultante
como o homem que me atacara. Meu agressor foi preso, junto com outros
suspeitos. Entretanto, o trauma e o estresse haviam cobrado seu preço e não
pude identificá-lo. Infelizmente a polícia não conseguiu recolher nenhuma prova
física que o ligasse ao crime. Portanto, ele nunca foi acusado.
O ataque me deixou cego do olho esquerdo, mas
não causou nenhum outro dano e, com o amor e o apoio de minha família e amigos,
voltei para a escola e dei continuidade à minha vida.
Durante os três anos seguintes, vivi com uma
extrema ansiedade. A maioria das noites eu acordava assustado, imaginando que
havia escutado alguém entrando pela porta dos fundos e acabava dormindo no pé
da cama de meus pais.
Então, quando eu estava com treze anos, tudo
isso mudou.
Uma noite, durante um estudo da Bíblia com o
grupo jovem da igreja, percebi que a providência e o amor de Deus, tendo
miraculosamente me mantido vivo, eram a base para a segurança de minha vida. Em
Suas mãos eu podia viver sem medo ou rancor. E então eu o fiz. Terminei os
estudos, recebendo o diploma de mestrado em Divindade. Casei-me com minha
maravilhosa esposa, Leslie. Temos duas filhinhas maravilhosas, Amanda e
Melodee.
Em setembro de 1996, o major Charles Scherer,
do Departamento de Polícia de Coral Gables, que trabalhara na investigação
original de meu caso, telefonou-me para me contar que o agressor, hoje com
setenta e sete anos de idade, finalmente confessara. Cego por causa do
glaucoma, com a saúde abalada, sem família ou amigos, ele estava em um asilo no
norte de Miami Beach. Fui visitá-lo.
A primeira vez em que fui visitá-Io ele se
desculpou pelo que havia feito a mim e eu lhe disse que o havia perdoado.
Visitei-o muitas vezes depois disso, apresentando-o à minha esposa e filhas,
oferecendo-lhe esperança e uma certa sensação de família nos dias anteriores à
sua morte. Ele sempre ficava feliz quando eu aparecia. Acredito que nossa
amizade tenha diminuído sua solidão e era um grande alívio para ele, após vinte
e dois anos de arrependimento.
Sei que o mundo pode me ver como a vítima de
uma horrível tragédia, mas eu me considero a "vítima” de muitos milagres.
O fato de eu estar vivo e não . ter nenhuma deficiência mental desafia as
probabilidades. Tenho uma esposa amorosa e uma família linda. Recebi tantas
dádivas quanto qualquer outra pessoa - e amplas oportunidades. Fui abençoado de
várias maneiras.
E enquanto muitas pessoas não conseguem
entender como pude perdoá-Io, do meu ponto de vista eu não poderia deixar de
fazê-lo. Se eu tivesse escolhido odiá-Io todos esses anos, ou passar a vida
procurando vingança, então eu não seria o homem que sou hoje - o homem que
minha mulher e filhas amam.
Se você for paciente em um momento de raiva,
irá escapar de cem anos de arrependimento.
PROVÉRBIO CHINÊS
O QUANTO PROGREDIMOS
PAT BONNEY SHEPHERD
Histórias Para Aquecer o Coração 40
Em 1996, a maioria de nós, mulheres, está
solidamente engajada em formar grupos de apoio e ajudar umas às outras da mesma
forma que os homens têm feito há décadas - uma situação muito mais amigável
para as mulheres do que era há cinquenta anos. Sempre que fico complacente a
esse respeito, penso em minha mãe - e imagino se eu teria sobrevivido ao que
ela passou na época.
Por volta de 1946, quando minha mãe, Mary
Silver, já estava casada com Walter Johnson por quase sete anos, ela era mãe de
quatro crianças ativas e barulhentas.
Sei pouca coisa a respeito da vida dos meus
pais nesta época, mas, tendo eu mesma criado duas crianças em alguns lugares
remotos do país, posso imaginar como foi, especialmente para minha mãe. Com
quatro crianças pequenas, um marido cujo senso de obrigação ia até trazer
dinheiro para casa e cortar o gramado, sem vizinhos e praticamente nenhuma
oportunidade de fazer amigos próprios, ela literalmente não tinha onde dar
vazão às grandes pressões que deveriam se acumular dentro dela. Por algum
motivo, meu pai decidiu que ela estava "se perdendo". É um mistério
para mim imaginar como ela poderia ter conseguido tempo e alguém para
encontrar, quanto mais para "se perder", já que nós quatro estávamos
constantemente no meio do caminho. Mas meu pai já decidira, e ponto final.
Numa manhã de um dia de primavera em 1946,
minha mãe saiu de casa para comprar leite para o bebê. Quando voltou, meu pai
estava na janela do andar de cima com um revólver. Ele disse:
- Mary, se você tentar entrar nesta casa, vou
atirar nos seus filhos.
Foi assim que ele lhe disse que estava entrando
com um pedido de divórcio.
Foi a última vez que minha mãe viu aquela casa.
Foi forçada a ir embora apenas com a roupa do corpo e o dinheiro que tinha na
bolsa - e uma garrafa de leite. Hoje em dia, ela provavelmente teria opções: um
abrigo local, um 0800 para o qual pudesse telefonar, um grupo de amigas que
teria feito através de um emprego de meio expediente ou de tempo integral.
Teria um talão de cheques e cartões de crédito no bolso. E poderia voltar sem
constrangimento para sua família. Porém, em 1946, ela não tinha nada disso. As
pessoas casadas simplesmente não se divorciavam.
Portanto, lá estava ela - completamente
sozinha. Meu pai conseguiu até virar o pai dela contra ela. Agora meu avô
proibira minha avó de falar com sua filha quando ela mais precisava.
Em algum momento antes de entrar com o processo
no tribunal, meu pai a contactou e disse:
- Olhe, Mary, eu não quero realmente um
divórcio. Só fiz isso para lhe ensinar uma lição.
Mas minha mãe podia ver que, por pior que fosse
sua situação, era preferível a voltar para meu pai e deixar que ele nos
criasse. Então respondeu:
- Nem pensar. Cheguei até aqui, não vou voltar
atrás.
Para onde ela poderia ir? Não podia ir para
casa. Não podia permanecer ali em Amherst: em primeiro lugar, porque, sabia que
ninguém a hospedaria; em segundo, porque, com o retorno dos recrutas, não
haveria esperança de trabalho para ela; e, finalmente e mais importante, porque
meu pai estava lá. Então embarcou em um ônibus para o único lugar que reservava
uma chance para ela - a cidade de Nova York.
Minha mãe tinha uma vantagem: era letrada e
tinha um diploma de Matemática, da Universidade Mt. Holyoke. Porém, fizera o
caminho habitual das mulheres nos anos 30 e 40: fora diretamente do segundo
grau para a faculdade e daí para o casamento. Ela não fazia ideia de como
arrumar um emprego e sustentar a si mesma.
A cidade de Nova York tinha várias coisas a seu
favor: ficava a apenas 320 quilômetros; portanto, podia pagar a passagem de
ônibus. E era uma cidade grande; portanto, tinha que haver um emprego escondido
em algum lugar. Ela positivamente tinha que encontrar uma maneira de sustentar
a nós quatro.
Assim que chegou a Nova York, localizou uma
Associação Cristã de Moços, onde podia ficar por apenas um dólar e meio por
noite. Havia uma loja perto, onde, por cerca de um dólar por dia, comia
sanduíches de salada de ovo e café. Em seguida, começou a correr as ruas.
Durante vários dias, que se tornaram várias
semanas, não 'encontrou nada: não havia empregos para diplomados em Matemática,
homens ou mulheres, nenhum trabalho para mulheres. Todas as noites ela voltava
para a Associação, lavava a roupa de baixo e a blusa branca, colocava-as para
secar e de manhã usava o ferro e a tábua de passar da Associação para tirar as
marcas da blusa. Esses itens, junto com uma saia de flanela cinza, constituíam
todo o seu guarda-roupa. Cuidar deles ocupava uma parte das longas noites que
enfrentava sozinha na Associação. Sem livros, nem uma moedinha a mais para
comprar jornal, sem telefone (e ninguém para quem ligar, se tivesse um) e sem
rádio, a não ser no andar de baixo (onde a lista dos convidados da Associação
era de certa forma assustadora), as noites devem ter sido realmente horríveis.
Previsivelmente, seu dinheiro minguou, assim
como a lista de agências de emprego. Finalmente, em uma quinta-feira, chegou a
vez da última agência de empregos da cidade, com menos no bolso do que
precisava para pagar o abrigo naquela noite. Ela fez muito esforço para não
pensar em passar a noite nas ruas.
Subiu penosamente vários lances de escada para
chegar à agência, preencheu os formulários obrigatórios e, quando chegou sua
vez de ser entrevistada, preparou-se para as más notícias. "Sentimos
muito, mas não temos nada para a senhora.
Quase não temos empregos suficientes para os
homens que temos que colocar." Pois é claro que os homens tinham
prioridade em relação a qualquer emprego disponível.
Minha mãe não sentiu nada quando se levantou da
cadeira e se dirigiu para a porta. Entorpecida como estava, havia quase
atravessado a porta quando percebeu que a mulher resmungara alguma outra coisa.
- Desculpe, não ouvi. O que a senhora disse? -
perguntou.
- Bem, sempre há George B. Buck, mas ninguém
quer esse emprego. Ninguém fica muito tempo - a mulher repetiu, apontando com a
cabeça para uma caixa de fichas em cima de um arquivo próximo.
- O que é? Conte-me a respeito - disse minha
mãe ansiosamente, sentando-se com as costas apoiadas no encosto da cadeira de
madeira. - Faço qualquer coisa. Quando começo?
- Bem, é um emprego de contador, para o qual a
senhora está qualificada, mas o salário não é bom e tenho certeza de que não
gostaria - disse a agente, retirando a ficha relevante do fichário. Vamos ver,
diz aqui que a senhora pode começar quando quiser.
Suponho que isto signifique que poderá ir lá
agora. Ainda é cedo.
Minha mãe contou que literalmente arrancou o
cartão das mãos da agente e correu escada abaixo. Nem mesmo parou para tomar
fôlego enquanto corria os vários quarteirões até o endereço escrito no cartão.
Quando se apresentou para o surpreso gerente de pessoal, ele decidiu que, sem
dúvida, ela podia começar a trabalhar naquela manhã mesmo se quisesse, pois
havia muito trabalho a ser feito. E era quinta-feira, dia de pagamento. Naquele
tempo, a maioria das empresas pagava seus empregados em dinheiro vivo pelo tempo
trabalhado, incluindo o próprio dia de pagamento - portanto, miraculosamente,
quando eram cinco horas, ela recebeu dinheiro vivo pelas cinco horas que
trabalhara naquele dia. Não era muito, mas deu para que ela chegasse até a
quinta-feira seguinte, depois à outra e assim por diante.
Mary Silver Johnson permaneceu em George B.
Buck & Companhia por 38 anos, subindo para um cargo de grande respeito
dentro da firma. Lembro-me de que ela tinha um escritório de esquina - o que
não é pouca coisa no centro de Manhattan. Depois de trabalhar lá por dez anos,
ela foi capaz de nos comprar uma casa no subúrbio de Nova Jersey, a meia quadra
de distância do ônibus para a cidade.
Hoje em dia, uma em cada duas casas parece ser
comandada por uma mãe solteira e é fácil esquecer que já houve um tempo em que
este tipo de vida era impensável. Sinto-me tão humilde ao refletir sobre as
realizações de minha mãe quando orgulhosa o suficiente para estourar os botões
da camisa! Se cheguei até aqui, meu bem, foi porque fui carregada em grande
parte pelos esforços de muitas, muitas outras mulheres antes de mim - com esta
mulher admirável, minha mãe, liderando o caminho.
As mulheres são como saquinhos de chá:
não se sabe sua força até serem jogadas em água quente.
ELEANOR ROOSEVELT
O BALÃO DE BENNY
MICHAEL CODY
Histórias Para Aquecer o Coração 46
Benny tinha setenta anos quando morreu
subitamente de câncer, em Wilmerre, Illinois. Como sua neta de dez anos,
Rachel, nunca teve a oportunidade de dizer adeus, ela chorou durante vários
dias. Mas depois de receber um grande balão vermelho em uma festa de
aniversário, voltou para casa com uma ideia - uma carta para o vovô Benny,
enviada para o céu em seu balão.
A mãe de Rachel não teve coragem de dizer não e
observou com lágrimas nos olhos o frágil balão subir por entre as árvores que
cercavam o jardim e desaparecer.
Dois meses depois, Rachel recebeu esta carta
com carimbo do correio de uma cidade a 900 quilômetros de distância, na
Pensilvânia:
"Querida Rachel
Vovô Benny recebeu a sua carta. Ele realmente a
adorou. Por favor, entenda que coisas materiais não podem ficar no céu, por
isso tiveram que mandar o balão de volta para a Terra - eles só guardam os
pensamentos, as lembranças, o amor e coisas desse tipo no céu.
Rachel sempre que você pensar no vovô Benny,
ele saberá e estará muito perto, com um amor enorme por você.
Sinceramente, Bob Anderson (também um
vovô)."
PRESENTES DO CORAÇÃO
SHERYL NICHOLSON
Histórias Para Aquecer o Coração 48
Neste mundo agitado em que vivemos é tão mais
fácil pagar alguma coisa com cartão de crédito do que dar um presente vindo do
coração.
E presentes do coração são especialmente
necessários na época de Natal.
Há alguns anos, comecei a preparar meus filhos
para o fato de que o Natal daquele ano seria modesto. A resposta deles foi:
"Tá, mãe, já ouvimos isso antes!" Eu
havia perdido a credibilidade porque dissera a mesma coisa a eles no ano
anterior, quando estava passando pelo divórcio. Mas daquela vez eu saíra e
usara o limite de todos os cartões de crédito. Havia encontrado até mesmo
algumas formas de financiamento criativas para pagar os presentes de Natal.
Este ano, com certeza, seria diferente, mas eles não estavam acreditando.
Uma semana antes do Natal, perguntei a mim
mesma: "O que eu tenho que pode tornar este Natal especial?" Em todas
as casas em que havíamos morado antes do divórcio eu tinha arrumado tempo para
ser decoradora. Tinha aprendido a colocar papel de parede, azulejos e placas de
madeira, fazer cortinas a partir de lençóis e muito mais. Mas nesta casa
alugada eu tinha pouco tempo para decorar e muito menos dinheiro. Além do mais,
estava zangada com esse lugar feio, com seus carpetes vermelhos e abóbora e
paredes verdes e azul-turquesa. Recusava-me a gastar dinheiro com ele. Dentro
de mim a voz do orgulho ferido gritava: "Nós não vamos ficar aqui tanto
tempo assim!" Ninguém mais parecia se incomodar com a casa a não ser minha
filha Lisa, que sempre havia tentado transformar seu quarto em seu lugar
especial.
Era hora de mostrar meus talentos. Liguei para
meu ex-marido e pedi que comprasse uma colcha específica para a cama de Lisa.
Em seguida, comprei os lençóis combinando. Na véspera de Natal, gastei quinze
dólares com um galão de tinta.
Também comprei papel de carta, o mais bonito
que jamais tinha visto. Meu objetivo era simples: iria pintar e costurar e me
manter ocupada até a manhã de Natal, para não ter tempo de sentir pena de mim
mesma em um feriado familiar tão especial.
Naquela noite, dei a cada uma das crianças três
folhas de papel de carta com envelopes. No alto de cada página estavam as
palavras: "O que eu amo a respeito de minha irmã Mia", "O que eu
amo a respeito de meu irmão Kris", "O que eu amo a respeito de minha
irmã Lisa”, "O que eu amo a respeito de meu irmão Erik". As crianças
estavam com idades entre oito e dezesseis anos e tive que convencê-las de que
bastava encontrar uma coisa só de que gostassem a respeito uns dos outros.
Enquanto escreviam cada uma no seu canto, fui para o meu quarto e embrulhei os
poucos presentes que havia comprado.
Quando voltei para a cozinha, meus filhos
haviam terminado suas cartas uns para os outros. Cada nome estava escrito do
lado de fora do envelope. Trocamos abraços e beijos de boa-noite e eles foram
para a cama. Lisa recebeu permissão especial para dormir na minha cama,
prometendo não espiar até a manhã de Natal.
Então comecei. Nas primeiras horas da manhã de
Natal terminei as cortinas, pintei as paredes e dei um passo atrás para admirar
minha obra-prima. "Espere, por que não colocar um arco-íris e nuvens nas
paredes para combinar com os lençóis?". Aí entraram em ação minhas
esponjas e pincéis de maquiagem e, às 5 horas da manhã, eu havia terminado.
Exausta demais para pensar que o meu era "um lar desfeito", como
diziam as estatísticas, fui para o quarto e encontrei Lisa esparramada na minha
cama.
Decidi que não podia dormir com braços e pernas
em cima de mim, então levantei-a delicadamente e levei-a, pé ante pé, até seu
quarto. Enquanto colocava sua cabeça no travesseiro, ela disse:
- Mamãe, já é de manhã?
- Não, querida, fique de olhos fechados até o
Papai Noel chegar.
Acordei naquela manhã com um alegre sussurro no
meu ouvido.
- Uau, mamãe, é lindo!
Mais tarde, todos nós nos levantamos e nos
sentamos em volta da árvore e abrimos os poucos presentes que eu havia
comprado.
Depois, as crianças receberam seus três
envelopes. Lemos as palavras com os olhos marejados e os narizes vermelhos. Até
chegarmos aos bilhetes para o "bebê da família”. Erik, com oito anos, não
esperava ouvir nada de bom. Seu irmão havia escrito:
"O
que eu gosto do meu irmão Erik é que ele não tem medo de nada." Mas havia
escrito: "O que eu gosto do meu irmão Erik é que ele consegue falar com
qualquer pessoa!" Lisa havia escrito:
"O que eu gosto do meu irmão Erik é que
ele pode subir em árvores mais alto do que qualquer um!" Senti um leve
puxão na manga da camisa, uma mãozinha fez uma concha em volta da minha orelha
e Erik sussurrou:
- Puxa, mamãe, eu nem sabia que eles gostavam
de mim!
Nos piores momentos, a criatividade e o engenho
nos deram o melhor momento. Hoje estou recuperada financeiramente e já tivemos
vários Natais "grandes", com muitos presentes embaixo da árvore. Mas
quando nos perguntam qual é o nosso Natal favorito, todos nos lembramos
daquele.
O amor que damos é o único amor que guardamos.
ELBERT HUBBARD
A GARDÊNIA BRANCA
MARSHA ARONS
Histórias Para Aquecer o Coração 52
Todos os anos, no dia do meu aniversário, desde
que completei doze anos, uma gardênia branca me era entregue anonimamente em
casa. Não havia nunca um cartão ou um bilhete e os telefonemas para o florista
eram em vão, pois a compra era sempre feita em dinheiro vivo. Depois de algum
tempo, parei de tentar descobrir a identidade do remetente. Apenas me deleitava
com a beleza e o perfume estonteante daquela única flor, mágica e perfeita,
aninhada em camadas de papel de seda cor-de-rosa.
Porém nunca parei de imaginar quem poderia ser
o remetente. Alguns de meus momentos mais felizes eram passados sonhando
acordada com alguém maravilhoso e excitante, mas tímido ou excêntrico demais
para revelar sua identidade. Durante a adolescência foi divertido especular que
o remetente seria um garoto por quem eu estivesse apaixonada, ou mesmo alguém
que eu não conhecia e que havia me notado.
Minha mãe frequentemente alimentava as minhas
especulações. Ela me perguntava se havia alguém a quem eu tivesse feito uma
gentileza especial e que poderia estar demonstrando anonimamente seu apreço.
Fez com que eu lembrasse das vezes em que estava andando de bicicleta e nossa
vizinha chegara com o carro cheio de compras e crianças. Eu sempre a ajudava a
descarregar o carro e cuidava que as crianças não corressem para a rua. Ou
talvez o misterioso remetente fosse o senhor que morava do outro lado da rua.
No inverno, muitas vezes eu lhe levava sua correspondência para que ele não
tivesse que se aventurar nos degraus escorregadios.
Minha mãe fez o que pôde para estimular minha
imaginação a respeito da gardênia. Ela queria que seus filhos fossem criativos.
Também queria que nos sentíssemos amados e queridos, não apenas por ela, mas
pelo mundo como um todo.
Quando estava com dezessete anos, um rapaz
partiu meu coração. Na noite em que me ligou pela última vez, chorei até pegar
no sono. Quando acordei de manhã havia uma mensagem escrita com batom vermelho
no meu espelho: Alegre-se, quando semideuses se vão, os deuses vêm."
Pensei a respeito daquela citação de Emerson durante muito tempo e a deixei
onde minha mãe a havia escrito até meu coração sarar. Quando finalmente fui
buscar o limpa-vidros, minha mãe soube que estava tudo bem novamente.
Mas houve certas feridas que minha mãe não pôde
curar.
Um mês antes de minha formatura no segundo
grau, meu pai morreu subitamente de enfarte. Meus sentimentos variavam de dor a
abandono, medo, desconfiança e raiva avassaladora por meu pai estar perdendo
alguns dos acontecimentos mais importantes da minha vida. Perdi totalmente o
interesse em minha formatura que se aproximava, na peça de teatro da turma dos
formandos e no baile de formatura - eventos para os quais eu havia trabalhado e
que esperava com ansiedade. Pensei até mesmo em entrar em uma faculdade local,
ao invés de ir para outro estado como havia planejado, pois me sentiria mais
segura.
Minha mãe, em meio à sua própria dor, não
queria de forma alguma que eu faltasse a nenhuma dessas coisas. Um dia antes de
meu pai morrer, eu e ela tínhamos ido comprar um vestido para o baile e
havíamos encontrado um, espetacular - metros e metros de musselina estampada em
vermelho, branco e azul. Ao experimentá-Io, me senti-me como Scarlett O'Hara em
O Vento Levou... Mas não era do tamanho certo e, quando meu pai morreu no dia
seguinte, esqueci totalmente do vestido.
Minha mãe, não. Na véspera do baile, encontrei
o vestido esperando por mim - no tamanho certo. Estava estendido majestosamente
sobre o sofá da sala, apresentado para mim de maneira artística e amorosa. Eu
podia não me importar em ter um vestido novo, mas minha mãe se importava.
Ela estava atenta à imagem que seus filhos
tinham de si mesmos.
Imbuiu-nos com uma sensação de mágica do mundo
e nos deu a habilidade de ver a beleza mesmo em meio à adversidade.
Na verdade, minha mãe queria que seus filhos se
vissem como a gardênia - graciosos, fones, perfeitos, com uma aura de mágica e
talvez um pouco de mistério.
Minha mãe morreu quando eu estava com vinte e
dois anos, apenas dez dias depois de meu casamento. Este foi o ano em que parei
de receber gardênias.
PALAVRAS DO CORAÇÃO
BOBBIE LIPPMAN
Histórias Para Aquecer o Coração 56
A maioria das pessoas precisa ouvir alguém
dizer "eu te amo". E há vezes em que ouve bem a tempo.
Conheci Connie no dia em que foi admitida na ala
do sanatório onde eu trabalhava como voluntária. Seu marido, Bill, ficou por
peno, nervoso, enquanto ela era transferida da maca para o leito de hospital.
Ainda que Connie estivesse no estágio final de sua luta contra o câncer, estava
alerta e animada. Nós a acomodamos. Terminei de marcar seu nome em todos os
suprimentos de hospital que ela usaria e perguntei se precisava de alguma
coisa.
- Oh, sim - disse -, será que você poderia me
mostrar como usar a televisão? Gosto tanto de novelas, que não quero perder o
que está acontecendo.
Connie era uma romântica. Adorava novelas de
TV; histórias românticas e filmes com uma boa história de amor.
Conforme fomos nos conhecendo, ela me
confidenciou o quanto era frustrante ser casada há trinta e dois anos com um
homem que frequentemente a chamava de "boba”.
- Ah, eu sei que o Bill me ama - disse -, mas
ele nunca foi de me dizer que me ama, ou de mandar cartões.
Suspirou e olhou através da janela para as
árvores no jardim.
- Faria qualquer coisa para ele falar "Eu
te amo", mas simplesmente não é do seu feitio.
Bill visitava Connie todos os dias. No começo,
sentava-se ao lado da cama enquanto ela assistia às novelas. Depois, quando ela
começou a dormir mais, ele andava de um lado para o outro no corredor do lado
de fora do quarto. Logo, quando ela não via mais televisão e passava períodos
menores acordada, comecei a passar a maior parte do meu tempo como voluntária
com Bill.
Ele falava de quando trabalhava como
carpinteiro e de como gostava de pescar. Ele e Connie não tinham filhos, mas
aproveitavam a aposentadoria viajando, até que Connie ficou doente. Bill não
conseguia expressar o que sentia sobre o fato de sua esposa estar morrendo.
Um dia, depois de tomar café na lanchonete,
puxei uma conversa com ele a respeito de mulheres e de como precisamos de
romance em nossas vidas, como adoramos receber cartões sentimentais e cartas de
amor.
- Você diz a Connie que a ama? - perguntei
(sabendo a resposta), e ele me olhou como se eu fosse louca.
- Não preciso - disse. - Ela sabe que a amo!
- Tenho certeza de que ela sabe - falei
inclinando-me e roçando suas mãos ásperas de carpinteiro que seguravam a xícara
como se fosse a única coisa à qual ele pudesse se agarrar. Mas ela precisa
ouvir, Bill. Ela precisa ouvir o que significou para você durante todos esses
anos. Por favor, pense nisso.
Voltamos para o quarto de Connie. Bill
desapareceu lá dentro e eu fui visitar outro paciente. Mais tarde, vi Bill
sentado ao lado da cama. Ele segurava a mão de Connie enquanto ela dormia. Era
o dia 12 de fevereiro.
Dois dias depois eu estava andando pela ala do
sanatório ao meio-dia. Lá estava Bill, apoiado contra a parede do corredor,
olhando para o chão. Eu já soubera, através da enfermeira chefe, que Connie
morrera às 11 horas.
Quando Bill me viu, permitiu que eu o abraçasse
por um longo tempo. Seu rosto estava molhado de lágrimas e ele estava tremendo.
Finalmente encostou-se de novo na parede e respirou fundo.
- Tenho que dizer algo - falou. - Tenho que
dizer como me sinto bem por ter dito a ela. - Ele parou para assoar o nariz.
Pensei muito a respeito do que você me disse e, essa manhã, falei para ela o
quanto a amava e como era maravilhoso estar casado com ela. Você deveria ter
visto seu sorriso!
Entrei no quarto para me despedir pessoalmente
de Connie. Lá, na mesa-de-cabeceira, estava um grande cartão de Dia dos
Namorados que Bill dera. Você sabe, do tipo sentimental, que diz: "Para
minha esposa maravilhosa... Eu te amo."
As lágrimas mais amargas derramadas sobre os túmulos são
por palavras não ditas e atos não realizados. HARRIET BEECHER STOWE
ANDANDO DE TRENÓ
ROBIN L. SILVERMAN
Histórias Para Aquecer o Coração 59
Um dia, no começo de dezembro, acordamos para
descobrir uma neve perfeita, recém-caída.
- Por favor, mamãe, podemos andar de trenó
antes do café da manhã? - implorou minha filha Erica, de onze anos de idade.
Quem poderia resistir? Então vestimos os
casacos e nos dirigimos para a represa no campo de golfe de Lincoln Park, o
único morro em nossa cidade.
Quando chegamos, o morro estava formigando de
gente.
Achamos um espaço perto de um homem alto e
magro e de seu filho de três anos. O garoto já estava deitado de barriga para
baixo, esperando para ser empurrado.
- Vamos lá, papai! Vamos lá!
- Por favor - eu disse. - Parece que seu filho
já está pronto para ir.
Dito isto, ele deu um forte empurrão e lá se
foi o menino!
Mas não foi apenas o garoto que voou - o pai
saiu correndo atrás dele a toda velocidade.
- Ele deve estar com medo de que seu filho se
choque contra alguém - eu disse para Erica. - É melhor nós também tomarmos
cuidado.
Assim, lançamos nosso próprio trenó e descemos
o morro zunindo, em grande velocidade, a neve solta voando em nossos rostos.
Tivemos que nos arremessar para não batermos em uma grande pedra perto do rio e
acabamos deitadas de costas, rindo.
- Ótima corrida! - eu disse.
- Mas temos que andar muito para voltar! -
observou Erica.
Com certeza, era uma longa caminhada. Enquanto
lutávamos para chegar ao topo, percebi que o homem magro estava empurrando seu
filho, que ainda se encontrava no trenó, de volta ao topo.
- Isso é que é serviço! - disse Erica. - Será
que você faria- o mesmo por mim?
Eu já estava sem ar.
- Nem pensar, garota! Continue andando!
Quando finalmente chegamos ao topo, o garotinho
estava pronto para brincar novamente.
- Vai, vai, vai, papai! - ele gritou.
Mais uma vez o pai reuniu todas as suas
energias para dar um grande empurrão no trenó, correu atrás dele morro abaixo e
então puxou o trenó e o menino de volta para cima.
Isso se repetiu por mais de uma hora. Mesmo com
Erica andando sozinha, eu estava exausta. A essa altura, a multidão no morro
havia diminuído, pois as pessoas voltavam para casa para almoçar. Finalmente,
restavam apenas o homem e seu filho, Erica e eu e um punhado de outras pessoas.
"Ele não pode continuar achando que o
menino vai colidir com alguém. E, com certeza, apesar de ser um menino pequeno,
ele poderia puxar seu próprio trenó morro acima de vez em quando" -
pensei. Mas o homem nunca se cansava e seu comportamento era alegre e jovial.
Finalmente, não aguentei mais. Olhei de cima do
morro para ele e gritei:
- Você tem uma tremenda energia!
O homem olhou para mim e sorriu.
- Ele tem paralisia cerebral - ele disse de
forma natural. Não pode andar.
Fiquei atônita. Então percebi que não havia
visto o menino descer do trenó durante todo o tempo que estivéramos no morro.
Tudo parecia tão alegre, tão normal, que não me ocorrera que o menino poderia
ser deficiente.
Ainda que eu não soubesse o nome do homem,
contei a história em minha coluna no jornal na semana seguinte. Ele, ou alguém
que o conhecia, deve ter reconhecido a história, pois, pouco tempo depois,
recebi esta carta:
Cara Sra. Silverman A energia que gastei no
morro naquele dia não é nada comparada ao que meu filho faz todos os dias. Para
mim, ele é um verdadeiro herói e algum dia espero ser metade do homem que ele
já se tornou. "
EU ME PERGUNTO POR QUE
AS COISAS SÃO COMO SÃO
CHRISTR CARTER KOSKI
Histórias Para Aquecer o Coração 63
Durante meu primeiro ano no segundo grau, o Sr.
Reynolds, meu professor de Inglês, entregou a cada aluno uma lista de
pensamentos e declarações escrita por outros alunos e, em seguida, nos passou
um dever de redação baseado num daqueles pensamentos. Com dezessete anos, eu
estava começando a pensar a respeito de muitas coisas, por isso escolhi a
declaração: "Eu me pergunto por que as coisas são como são." Naquela
noite, escrevi, em formato de narrativa, todas as perguntas que me deixavam
confusa acerca da vida. Percebi que muitas delas eram difíceis de responder e
que talvez outras não pudessem ser respondidas de forma alguma. Quando
entreguei o trabalho, estava com medo de me sair mal porque não tinha dado uma
resposta à questão "Eu me pergunto por que as coisas são como são".
Eu não tinha resposta. Só tinha escrito perguntas.
No dia seguinte, o Sr. Reynolds me chamou junto
ao quadro-negro e pediu que eu lesse minha declaração para os outros alunos.
Entregou-me o trabalho e sentou-se no fundo da sala. A turma ficou em silêncio
quando comecei a ler:
"Mamãe, papai... por que?
Mamãe, por que as rosas são vermelhas? Mamãe,
por que a grama é verde e o céu é azul? Por que a aranha tem uma teia e não uma
casa? Papai, por que eu não posso brincar com sua caixa de ferramentas?
Professor, por que eu tenho que ler?
Mamãe, por que não posso usar batom para ir ao
baile? Papai, por que não posso ficar na rua até meia-noite? Os outros garotos
ficam. Mamãe, por que você me odeia? Papai, por que as outras crianças não
gostam de mim? Por que tenho que ser tão magra? Por que tenho que usar óculos e
aparelho nos dentes? Por que tenho que ter dezesseis anos?
Mãe, por que tenho que me formar? Papai, por
que tenho que crescer? Mamãe, papai, por que tenho que ir embora?
Mamãe, por que você não escreve com mais
frequência? Papai, por que tenho saudades dos meus velhos amigos? Papai, por
que você me ama tanto? Papai, por que você me mima? Sua garotinha está
crescendo. Mamãe, por que você não me visita? Mamãe, por que é tão difícil
fazer novos amigos? Papai, por que tenho saudades de casa?
Papai, por que meu coração dispara quando ele
olha nos meus olhos? Mamãe, por que minhas pernas tremem quando eu ouço a voz
dele? Mamãe, por que "estar apaixonado é a melhor sensação do mundo"?
Papai, por que você não gosta de ser chamado de
''vovô''?
Mamãe, por que os dedinhos do meu bebê se
agarram com tanta força aos meus?
Mamãe, por que eles têm que crescer? Papai, por
que eles têm que ir embora? Por que eu tenho que ser chamada de
"vovó"? Mamãe, papai, por que vocês tiveram que me deixar? Eu preciso
de vocês.
Por que a minha juventude passou por mim? Por
que meu rosto mostra todos os sorrisos que eu já dei a um amigo ou a um
estranho? Por que meu cabelo brilha com um tom prateado? Por que minhas mãos
tremem quando me abaixo para pegar uma flor? Por que, Deus, as rosas são
vermelhas?"
Quando terminei minha história, meus olhos se
encontraram com os olhos do Sr. Reynold e eu vi uma lágrima correndo lentamente
no seu rosto. Foi então que percebi que a vida nem sempre é baseada nas
respostas que recebemos, mas também nas perguntas que fazemos.
O presente de
aniversário
MAVIS BURTON FERGUSON - escrita em 1969.
Histórias Para Aquecer o Coração 66
Uma semana depois de meu filho entrar para a
primeira série, ele voltou para casa com a notícia de que Roger, o único menino
negro na sala, era seu companheiro de playground. Engoli em seco e disse
- Que bom. Quanto tempo até que alguém mais
também vire seu amigo.
- Ah eu não vou deixar de ser amigo dele -
respondeu Bill.
Na outra semana recebi a notícia de que Bill
perguntara se Roger poderia ser seu companheiro de carteira.
A não ser que fosse nascido e criado no
interior do sul dos Estados Unidos como eu fora, não vai entender o que isso
significa. Marquei uma reunião com a professora.
Ela vai me encontrar com olhos cínicos e
cansados.
- Bem, suponho que a senhora também queira um
novo companheiro de carteira para o seu filho - disse. - Será que poderia
esperar alguns minutos? Há outra mãe chegando agora.
Virei-me e vi uma mulher da minha idade. Meu coração
disparou quando percebi que deveria ser a mãe de Roger.
Possuía uma discreta dignidade e muita atitude,
mas nenhuma das duas qualidades podia encobrir a ansiedade que ouvi em suas
perguntas:
- Como Roger está se saindo? Espero que esteja
acompanhando as outras crianças. Se não estiver, me avise.
Ela hesitou enquanto forçava-se a perguntar:
- Ele está criando qualquer tipo de problema?
Quero dizer, por que ele tem que trocar tanto de carteira?
Percebi a terrível tensão que estava sentindo,
pois ela sabia a resposta. Mas fiquei orgulhosa da resposta gentil daquela
professora primária:
- Não, Roger não está causando problemas. Tento
mudar todas as crianças de lugar durante as primeiras semanas até que encontrem
o parceiro certo.
Eu me apresentei e disse que meu filho deveria
ser o novo companheiro de Roger e que eu esperava que gostassem um do outro.
Mesmo então eu sabia que era apenas um desejo superficial, não um desejo
profundo. Mas isso a ajudou, eu pude ver.
Duas vezes Roger convidou Bill para ir até sua
casa, mas eu encontrei desculpas. Então veio o arrependimento que sentirei para
sempre.
No dia do meu aniversário, Bill voltou da
escola com um pedaço encardido de papel dobrado em um quadradinho minúsculo.
Desdobrando-o, encontrei três flores e "Feliz Aniversário" desenhados
com lápis-cera no papel- e um centavo.
- Foi o Roger que mandou - disse Bill. - É o
dinheiro do leite. Quando eu disse que hoje era o seu aniversário, ele me fez
trazer isso para você. Disse que você é amiga dele, porque foi a única mãe que
não o obrigou a mudar de companheiro de carteira.
Eu
tive um sonho de que meus quatro filhos um dia irão viver em uma nação onde não
serão julgados pela cor de sua pele, e sim pelo conteúdo de seu caráter...
MARTIN LUTHER KING JR.
LIGAÇÃO PROFUNDA
SUSAN B. WILSON
Histórias Para Aquecer o Coração71
Minha mãe e eu temos uma ligação profunda devido
à nossa misteriosa habilidade para nos comunicarmos silenciosamente uma com a
outra.
Quatorze anos atrás, eu estava morando em
Evansville, Indiana, a 1.300 quilômetros de distância da minha mãe, minha
confidente e minha melhor amiga. Uma manhã, enquanto estava num estado
silencioso de contemplação, senti subitamente a necessidade urgente de
telefonar para mamãe e perguntar se estava tudo bem. A princípio, hesitei. Já
que minha mãe dava aulas para a quarta série primária, telefonar-lhe às 7h15min
da manhã poderia interromper sua rotina e fazer com que se atrasasse para o
trabalho. Mas algo me compeliu a ir em frente e telefonar. Conversamos durante
três minutos e ela me assegurou que estava sã e salva.
Mais tarde, naquele dia, o telefone tocou. Era
mamãe dizendo que meu telefonema matutino provavelmente lhe salvara a vida. Se
ela tivesse saído de casa três minutos mais cedo provavelmente se veria
envolvida num acidente interestadual que matara várias pessoas e ferira outras
tantas.
Oito anos atrás, descobri que estava grávida de
meu primeiro filho. A data prevista para o nascimento era 15 de março. Eu disse
ao médico que era cedo demais. A data teria que cair entre 25 de março e 3 de
abril, pois era quando minha mãe tinha férias de Páscoa na escola. E é claro
que eu a queria comigo. O médico ainda insistiu que a data prevista era em
meados de março. Eu apenas sorri. Reid chegou no dia 30 de março. Mamãe chegou
no dia 31.
Seis anos atrás, eu estava grávida novamente. O
médico falou que a data prevista era para final de março. Eu disse que teria
que ser mais cedo desta vez porque - você adivinhou - as férias de mamãe eram
no começo de março. Tanto o médico quando eu sorrimos. Breanne chegou no dia 8
de março.
Dois anos e meio atrás, mamãe estava lutando
contra o câncer. Com o tempo, ela perdeu a energia, o apetite, a habilidade de
falar. Após um fim de semana com ela na Carolina do Norte, eu tinha que me
preparar para voar de volta para o Meio-Oeste.
Ajoelhei-me ao lado da cama de mamãe e peguei a
mão dela.
- Mamãe, se eu puder, você quer que eu volte?
Seus olhos se arregalaram enquanto ela tentava
concordar com a cabeça.
Dois dias depois, recebi um telefonema de meu
padrasto.
Minha mãe estava morrendo. Membros da família
estavam reunidos para os ritos finais. Eles me colocaram no viva-voz para ouvir
o serviço religioso.
Naquela noite, tentei ao máximo mandar meu
adeus para mamãe através dos quilômetros que nos separavam. Na manhã seguinte,
porém, o telefone tocou: mamãe ainda estava viva, mas em coma e esperava-se que
morresse a qualquer minuto.
Mamãe não morreu. Nem naquele dia, nem no dia
seguinte.
Nem no outro. Todas as manhãs eu recebia o
mesmo telefonema: ela podia morrer a qualquer minuto. Mas não morria. E todos
os dias minha dor e minha tristeza eram expostas.
Depois de quatro semanas, finalmente entendi:
mamãe estava me esperando. Ela me comunicara que gostaria que eu voltasse, se
pudesse. Eu não tinha podido antes, mas agora podia. Fiz as reservas
imediatamente.
Por volta das 17 horas daquela tarde, eu estava
deitada na cama com os braços em volta dela. Ela ainda estava em coma, mas eu
sussurrei:
- Estou aqui, mamãe. Você já pode ir. Obrigada
por esperar. Você já pode ir.
Ela morreu apenas algumas horas depois.
Acho que quando uma ligação é tão profunda e
poderosa, vive para sempre em algum lugar muito além das palavras e é de uma
beleza indescritível. Com toda a agonia de minha perda, eu não trocaria a
beleza e o poder dessa ligação por nada.
Estamos aqui para
aprender
CHARLES SLACK Como contado para Bessie Pender
Histórias Para Aquecer o Coração 74
- Dezesseis - eu disse.
Esqueci a pergunta de Matemática que minha
professora da segunda série, Joyce Cooper, me fez naquele dia, mas nunca me
esquecerei da resposta. Assim que o número saiu da minha boca, a turma inteira
começou a rir. Eu me sei como a pessoa mais burra do mundo.
A Sra. Cooper censurou meus colegas com um
olhar severo.
E disse:
- Estamos rodos aqui para aprender.
Um outro dia, a Sra. Cooper nos pediu para
escrever uma redação a respeito do que esperávamos fazer de nossas vidas.
Escrevi: "Quero ser professora como a Sra.
Cooper." Ela escreveu na minha redação: "Você daria uma professora
excepcional, pois é determinada e tema com afinco." Eu iria carregar estas
palavras em meu coração durante os 27 anos seguintes.
Depois de me formar no segundo grau em 1976,
casei-me com um homem maravilhoso, Ben, um mecânico. Logo, Latonya nasceu.
Precisávamos de cada centavo apenas para
sobreviver.
Faculdade e magistério estavam fora de questão.
Consegui, no entanto, arrumar um emprego em uma escola - como ajudante de
servente. Limpava dezessete salas de aula na Escola Primária Larrymore todos os
dias, incluindo a da Sra. Coopero.
Ela havia sido transferida para Larrymore
depois que Smallwood fora fechada.
Eu dizia à Sra. Cooper que queria ensinar e ela
me repetia as palavras que escrevera na minha redação anos antes. Mas as contas
sempre pareciam estar no meio do caminho.
Até que um dia, em 1986, pensei em meu sonho,
em como eu queria ajudar as crianças. Mas, para fazer isso, precisava chegar de
manhã como professora - não de tarde, para limpar.
Conversei a respeito disso com Ben e Latonya e
ficou decidido: eu me inscreveria na Universidade Old Dominion. Durante sete
anos assisti às aulas de manhã, antes do trabalho.
Quando chegava em casa do trabalho, eu
estudava. Nos dias em que não tinha aula, trabalhava como professora-assistente
para a Sra. Cooper. Às vezes ficava pensando se teria forças para conseguir.
Quando recebi minha primeira nota baixa, falei
em desistir.
Minha irmã mais nova, Helen, recusou-se a
ouvir.
- Você quer ser professora - ela disse. - Se
parar, nunca alcançará o seu sonho.
Helen sabia bem o que significava não desistir,
pois ela lutava contra a diabetes. Quando uma das duas desanimava, ela dizia:
- Você vai conseguir. Nós vamos conseguir.
Em 1987 Helen, com apenas vinte e quatro anos,
morreu de falência renal relacionada à diabetes. Estava nas minhas mãos
conseguir por nós duas.
No dia 8 de maio de 1993 meu sonho se realizou
a formatura. Receber meu diploma universitário e a licença estadual para
ensinar me qualificavam oficialmente para ser professora. Fiz entrevistas em
três escolas. Na Escola Primária Colemar Place, a diretora Jeanne Tomlinson
disse:
- Seu rosto me parece familiar.
Ela trabalhara em Larrymore mais de dez anos
antes. Eu limpava sua sala e ela se lembrou de mim.
Ainda assim eu não tinha propostas concretas. O
telefonema veio quando eu acabara de assinar meu décimo oitavo contrato como
ajudante de servente. Havia uma vaga para dar aulas para a quinta série em
Coleman Place.
Pouco tempo depois que comecei aconteceu algo
que trouxe o passado de volta. Eu escrevi uma sentença cheia de erros
gramaticais no quadro-negro e pedi aos alunos que viessem até o quadro e a
corrigissem.
Uma garota corrigiu até a metade, ficou confusa
e parou.
Enquanto as outras crianças riam, as lágrimas
escorriam nas bochechas dela. Dei-lhe um abraço e disse-lhe para ir tomar um
pouco d'água. Então, lembrando-me da Sra. Cooper, censurei o resto da turma com
um olhar firme.
- Estamos todos aqui para aprender - eu disse.
O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza de seus
sonhos.
ELEANOR ROOSEVELT
A GAROTINHA QUE OUSOU DESEJAR
ALAN D. SCHULTZ
Histórias Para Aquecer o Coração 78
Quando Am Hagadorn dobrou a esquina no final do
corredor de sua sala de aula, colidiu com um garoto alto da quinta série
correndo na direção oposta.
- Olhe por onde anda, coisinha - gritou o
garoto enquanto se desviava da menina da terceira série. Então, com um sorriso
afetado, o garoto segurou sua perna direita e imitou a maneira que Amy mancava
quando estava andando. Am fechou os olhos por um instante.
"Ignore-o", disse para si mesma enquanto se dirigia para a sala de
aula. Mas, no final do dia, Aroy ainda estava pensando sobre a zombaria do
garoto. E ele não era o único. Desde que Amy entrara para o terceiro ano,
alguém zombava dela todo santo dia, a respeito de sua forma de falar ou de seu
andar manco. Às vezes, mesmo em uma sala cheia de outros alunos, as zombarias a
faziam sentir-se sozinha.
À mesa de jantar naquela noite, Amy ficou
calada. Sabendo que as coisas não iam bem na escola, Patti Hagadorn ficou feliz
por ter boas notícias para partilhar com sua filha.
- Há um concurso de desejos de Natal na estação
de rádio local - anunciou. - Escreva uma carta para Papai Noel e você pode
ganhar um prêmio. Acho que alguém de cabelos louros e cacheados nesta mesa
deveria entrar.
Amy riu e um papel e uma caneta surgiram.
- Querido Papai Noel - ela começou.
Enquanto Amy caprichava na caligrafia, o resto
da família tentava descobrir o que ela poderia pedir para Papai Noel.
Tanto a irmã de Amy, Jamie, quanto sua mãe
pensaram que uma Barbie de um metro de altura estaria no topo da lista de
desejos de Amy. O pai de Amy pensou em um livro com ilustrações. Mas Amy não
revelou seu desejo secreto de Natal. Na estação de rádio WLT, em Fort Wayne,
Indiana, as cartas para o Concurso de Desejo de Natal jorravam. Os funcionários
se divertiam com todos os diferentes presentes que os meninos e meninas de toda
a cidade queriam para o Natal.
Quando a carta de Amy chegou à estação de
rádio, o diretor Lee Tobin a leu com atenção.
"Querido Papai Noel.
Meu nome é Amy. Tenho nove anos de idade. Tenho
um problema na escola. Será que você pode me ajudar; Papai Noel? Os garotos
riram de mim por causa da maneira que eu ando, corro e falo. Tenho paralisia
cerebral. Só queria um dia em que ninguém risse ou zombasse de mim.
Com amor, Amy. "
O coração de Lee ficou apertado quando ele leu
a carta. Ele sabia que paralisia cerebral era uma desordem muscular que podia
deixar os colegas de Amy confusos. Ele pensou que seria bom para as pessoas de
Fort Wayne ouvirem a respeito dessa menininha especial e seu pedido incomum. O
Sr. Tobin ligou para o jornal local.
No dia seguinte, uma foto de Amy e sua carta
para Papai Noel estavam na primeira página do The News Sentinel. A história se
espalhou rapidamente. Por todo o país, jornais, rádio e televisão relatavam a
história da garotinha em Fort Wayne Indiana, que pedira um presente de Natal
tão simples e, ainda assim, notável - apenas um dia sem zombarias.
De repente, o carteiro passou a frequentar a
casa dos Hagadorn. Envelopes de todos os tamanhos endereçados a Am chegavam
diariamente, enviados por crianças e adultos do país inteiro, recheados de
desejos de boas festas e palavras de encorajamento. Durante a época atribulada
do Natal, mais duas duas mil pessoas do mundo todo enviaram a Amy cartas de
amizade e apoio. Alguns dos remetentes tinham deficiências, mas cada um enviava
uma mensagem especial para Amy. Através dos cartões e cartas vindas de estranhos,
Amy teve um vislumbre de um mundo cheio de pessoas que realmente se importavam
umas com as outras. Ela percebeu que nenhuma forma ou quantidade de zombarias
poderia fazê-Ia se sentir solitária novamente. Muitas pessoas agradeceram a Amy
por ser corajosa o suficiente para se abrir. Outras a encorajavam a ignorar as
provocações e a andar de cabeça erguida. Lynn, uma menina da sexta série, do
Texas, enviou esta mensagem:
"Gostaria de ser sua amiga e, se você
quiser me visitar, poderíamos nos divertir. Ninguém irá zombar de nós porque,
se o fizerem, não iremos nem ouvi-los."
Amy conseguiu seu desejo de um dia especial sem
zombarias na Escola Primária South Wayne. Ademais, todos na escola receberam um
bônus extra. Professores e alunos discutiram sobre como as zombarias podem
fazer os outros se sentir. Naquele ano, o prefeito de Fort Wayne proclamou
oficialmente o dia 21 de dezembro como o Dia de Amy Jo Hagadorn em toda a
cidade. q prefeito explicou que, ao ousar fazer um pedido tão simples como
aquele, Amy ensinou uma lição universal.
- Todos - disse o prefeito - querem e merecem
ser tratados com respeito, dignidade e carinho.
O vento debaixo das
minhas asas
JEAN HARPER
Histórias Para Aquecer o Coração 82
Em 1959, quando Jean Harper estava na terceira
série, sua professora passou uma redação sobre o que eles queriam ser quando
crescessem. O pai de Jean era piloto de um avião que pulverizava plantações na
pequena comunidade rural no norte da Califórnia, onde ela foi criada, e Jean
ficou totalmente fascinada por voar e por aviões. Ela colocou seu coração na
redação e incluiu todos os seus sonhos: queria pulverizar inseticida nas
lavouras, pular de paraquedas, ver as nuvens (algo que havia visto em um programa
de TV) e ser piloto de avião. Sua redação voltou com uma nota zero. A
professora lhe disse que aquilo era "um conto de fadas" e que nenhuma
das ocupações que ela listara eram profissões para mulheres. Jean ficou
arrasada e humilhada.
Mostrou a redação a seu pai e ele disse que é
claro que ela podia se tornar piloto.
- Veja Amélia Earhart - ele disse. - Essa
professora não sabe do que está falando.
Porém, conforme os anos se passavam, Jean foi
massacrada pelo desencorajamento e negatividade que encontrava sempre que
falava a respeito de sua carreira: "Garotas não podem se tornar pilotos de
avião; nunca puderam, nunca irão poder.
Vocês não são inteligentes o bastante, são
malucas. Impossível." Até que finalmente Jean desistiu.
Quando estava no último ano do segundo grau,
sua professora de Inglês era a Sra. Dorothy Slaton. A Sra. Slaton era uma
professora inflexível e exigente que possuía altos padrões e pouca tolerância
para desculpas. Recusava-se a tratar seus alunos como crianças, esperando, ao
invés, que se comportassem como adultos responsáveis para serem bem-sucedidos
no mundo real após a formatura. No princípio, Jean teve medo dela, mas, com o
tempo, passou a respeitar sua firmeza e senso de justiça.
Um dia, a Sra. Slaton passou um dever para a
turma: "O que vocês acham que estarão fazendo daqui há dez anos?"
Jean pensou a respeito. "Piloto? Nem pensar. Aeromoça? Não sou bonita o
bastante - eles nunca me aceitariam. Esposa? Que rapaz poderia me querer?
Garçonete? Posso fazer isso." Por segurança, foi isso o que ela escreveu.
A Sra. Slaton recolheu as redações e nada mais
foi dito.
Duas semanas depois, a professora devolveu o
dever, de cabeça para baixo em cima de cada carteira e fez esta pergunta:
"Se você possuísse uma quantidade ilimitada de dinheiro, acesso ilimitado
às melhores escolas, talento e habilidades ilimitados, o que, faria?" Jean
sentiu uma onda do antigo entusiasmo e, animada, escreveu todos os seus antigos
sonhos. Quando os alunos pararam de escrever, a professora perguntou:
- Quantos alunos escreveram a mesma coisa dos
dois lados do papel?
Nenhuma mão se levantou.
A próxima coisa que a Sra. Slaton disse mudou o
rumo da vida de Jean. A professora se inclinou por cima de sua carteira e
disse:
- Tenho um segredo para vocês todos. Vocês têm
talento e habilidades ilimitados. Vocês têm acesso a boas escolas e podem
conseguir uma quantidade ilimitada de dinheiro se desejarem algo com fervor.
Quando terminarem a escola, se não correrem atrás de seus sonhos, ninguém irá
fazê-lo por vocês.
Vocês podem ter o que quiserem, se desejarem o
bastante.
A mágoa e o medo de anos de desencorajamento
desmoronaram frente à verdade do que a Sra. Slaton havia dito. Jean sentiu-se
animada e um pouco amedrontada. Ficou depois da aula e dirigiu-se à mesa da
professora. Jean agradeceu à Sra. Slaton e lhe contou sobre seu sonho de se
tornar piloto. A Sra. Slaton levantou-se ligeiramente e bateu com as mãos no
tampo da mesa:
- Então faça isso! - disse.
E Jean fez. Não aconteceu do dia para a noite.
Levou dez anos de trabalho duro, encarando oposições que iam do ceticismo
silencioso à hostilidade declarada. Não era da natureza de Jean manter sua
posição quando também a rejeitava ou humilhava. Ao contrário, tentava
tranquilamente encontrar outra solução.
Tornou-se piloto particular e então conseguiu
graduação suficiente para transportar carga e até mesmo aviões de passageiros.
Seus patrões hesitavam claramente em promovê-la porque era mulher. Até mesmo
seu pai a aconselhou a tentar outra coisa.
- Impossível - ele disse. - Pare de bater com a
cabeça na parede!
Mas Jean respondeu:
- Eu discordo, papai. Acredito que as coisas irão
mudar e quero estar entre as primeiras quando isso acontecer.
Jean foi em frente...! e fez tudo o que a sua
professora da terceira série considerava "um conto de fadas" –
pulverizou plantações, pulou de paraquedas algumas centenas de vezes e até
mesmo semeou nuvens, como modificação climática, durante um verão. Em 1978
tornou-se uma das primeiras três mulheres a serem aceitas como piloto pela
United Airlines e uma entre apenas cinquenta pilotos comerciais mulheres no
país naquela época. Hoje, Jean Harper é piloto de Boeing 737 na United.
Foi o poder de uma palavra positiva bem
colocada, uma fagulha de encorajamento vindo de uma mulher que Jean'
respeitava, que deu à insegura garota a força e a fé para perseguir seu sonho.
Hoje, Jean diz:
- Eu escolhi acreditar nela.
Muito longe, no brilho do sol, estão minhas maiores
aspirações.
Posso não alcançá-las, mas posso olhar para cima e ver sua
beleza,
acreditar nelas e tentar segui-las.
LOUISA MAY ALCOTT
O PIRATA
MARJORIE WALLY
Histórias Para Aquecer o Coração 86
Um dia a Sra. Smith estava sentada na ante-sala
do consultório médico quando um garotinho e sua mãe entraram. O menino chamou a
atenção da Sra. Smith porque usava um tapa-olho.
Ela ficou maravilhada pelo fato de ele não
parecer ter sido afetado pela perda de um olho e o observou enquanto
acompanhava a mãe até uma cadeira próxima.
O consultório estava muito cheio naquele dia,
de modo que a Sra. Smith pôde conversar com a mãe do menino enquanto ele
brincava com seus soldadinhos. No começo, ficou sentado calmamente, brincando
com os soldadinhos no braço da cadeira. Depois, sentou-se tranquilamente no
chão, olhando para cima, para sua mãe.
Finalmente, a Sra. Smith teve a oportunidade de
perguntar ao menino o que havia acontecido com seu olho. Ele analisou a
pergunta durante um longo instante e, em seguida, respondeu, levantando o
tapa-olho:
- Não há nada errado com meu olho. Sou um
pirata!
E voltou para sua brincadeira.
A Sra. Smith estava ali porque havia perdido a
perna, do joelho para baixo, em um acidente de carro. Sua consulta naquele dia
era para determinar se o joelho já cicatrizara o suficiente para ser encaixado
numa prótese. A perda fora devastadora para ela.
Mesmo tentando ao máximo ser corajosa,
sentia-se uma inválida.
Intelectualmente sabia que a perda não deveria
interferir com sua vida, mas, emocionalmente, não conseguia superar esse
obstáculo. O médico sugerira visualização e ela experimentara, mas não fora
capaz de visualizar uma imagem emocionalmente aceitável e duradoura. Em sua
cabeça via-se como uma inválida.
A palavra "pirata" mudou sua vida.
Foi instantaneamente transportada. Viu-se vestida como Long John Silver, de pé
no convés de um navio pirata. Estava parada, com as pernas abertas, sendo que
uma perna era de pau. As mãos seguravam os quadris, a cabeça estava levantada,
os ombros para trás e ela sorria no meio da tempestade. Ventos com a força de
um furacão chicoteavam o casaco e o cabelo. A espuma gelada era soprada por
cima da balaustrada do convés e grandes ondas se quebravam contra o navio. O
barco balançava e gemia sob a força da tempestade.
Ainda assim ela se mantinha firme, orgulhosa,
impávida.
Naquele momento, a imagem de inválida foi
substituída e sua coragem voltou. Olhou para o garotinho, ocupado com seus
soldados.
Alguns minutos depois, a enfermeira a chamou.
E, quando se balançou nas muletas, o garotinho percebeu sua amputação.
- Ei, moça - chamou-a. - O que há de errado com
a sua perna?
A mãe do menino ficou petrificada.
A Sra. Smith olhou durante um instante para a
perna diminuída. E respondeu com um sorriso:
- Nada. Também sou pirata.
Nós não vemos as coisas como elas são, nós as vemos como
nós somos.
ANAŸS NIN
Vencendo em terceiro
lugar
BETTY B. YOUNGS
Histórias Para Aquecer o Coração 92
Com a cabeça baixa, um exausto, mas determinado
rapaz repetia de novo e de novo para si mesmo:
- Você pode fazer isso. Você pode fazê-lo, você
pode, você pode.
Essas palavras, ditas tanto como encorajamento
quanto como confirmação, encontraram um coração atento. Sem falhar, elas
levaram um pé na frente de outro, para o alto no ar e então para baixo - de
novo e de novo e de novo. O rapaz observava intensamente enquanto, um a um,
seus tênis novos batiam no asfalto que passava lentamente debaixo dele. Era um
tropel muito cansado. Olhando para cima, o jovem esfregou a testa e procurou
por um vislumbre da linha de chegada.
"É em algum lugar lá na frente" -
disse para si mesmo.
Estava muito longe. Mesmo assim, Chris Burke
estava decidido a alcançá-la.
Com grande esforço, ele também cruzou a linha
de chegada. Quando chegou, fotógrafos e repórteres já haviam se reunido em
volta do jovem que chegara em primeiro lugar. As primeiras davam doses e
espocavam flashes, microfones se estilavam para à frente para captarem as
palavras do vencedor.
Com um sorriso que se abria de orelha a orelha,
Chris triunfantemente saltou e ficou orgulhosamente ao lado do vencedor.
Passou os braços em volta do rapaz de sua
própria idade - alguém que ele nunca havia encontrado antes desse dia.
Radiante, Chris esperou pacientemente que o repórter completasse sua entrevista
com o vitorioso - tão pacientemente quanto podia em um momento que lhe era tão
emocionante. Quando por fim o repórter virou-se para a câmera para suas
observações finais, Chris instantaneamente deu um passo à frente e esticou a
mão para receber um aperto de mão de congratulações.
- Nossa! - gritou Chris, incapaz de reprimir
sua óbvia felicidade. - Só quero dizer como isso foi emocionante e como estou
feliz de ter chegado em terceiro!
O repórter não teve saída a não ser responder
ao carismático e entusiasmado atleta, querendo seu momento de reconhecimento.
- Sim, conte-nos a respeito - gaguejou de boa
vontade o surpreso repórter.
- Uau! - disse Chris. - Obrigado por me
entrevistar. Isso é ótimo! Simplesmente ótimo. Bem, eu apenas estou muito feliz
por estar aqui. É uma honra. Claro que terminei em terceiro lugar. Terceiro
lugar, que ótimo!
Ele não precisava de uma resposta para esta
pergunta e não esperou por uma. Ao invés disso, virou seu rosto animado para
que o mundo todo visse - isso foi em cadeia nacional - e, com mais alegria do
que me lembro ter visto em alguém, disse:
- Obrigado a todos por compartilharem desse
momento muito especial comigo. É hora de comemorar!
Dito isto, Chris se virou e correu para a fila
para receber os abraços e os apertos de mão junto com o vencedor.
Chris tinha quatorze anos na época. Isso foi
nas Olimpíadas Especiais.
Só havia três corredores na corrida.
Nota do editor: Para entender o significado
total da história de Chris, deve-se saber que ele tem síndrome de Down, uma
condição causada por um defeito genético.
Crianças com síndrome de Down possuem um
cromossomo a mais, resultando em uma semelhança incomum na aparência,
impedimentos no desenvolvimento e um limite de potencial. Como o QI chega no
máximo a 75, as capacidades e as habilidades são severamente limitadas - ou
assim se pensava. Quando Chris nasceu, em 1965, os médicos recomendavam que os
pais de filhos com síndrome de Down colocassem seus filhos em sanatórios, a
maioria dos quais fazia pouco mais do que oferecer cuidados físicos.
Grande parte do mundo hoje em dia conhece Chris
Burke não apenas através de sua inesquecível entrevista anos atrás, mas também
como o carismático e talentoso ator da série de televisão A Vida Continua.
O despertar
MELVA HAGGAR DYE
Histórias Para Aquecer o Coração 95
Você quer fazer o quê? - perguntei-lhe
incredulamente, minha voz elevando-se ao tom agudo que alcança quando fico
exasperada. - Diga isso de novo, por favor, acho que não o ouvi!
- Ah, você me ouviu, com certeza - Frank
respondeu bruscamente, balançando os braços de maneira expressiva. - Quero
dizer o meu velório agora, antes de morrer! Por que todo mundo, menos eu,
deveria aproveitar?
Ele rastejou até a cozinha e eu podia ouví-Io
resmungando para si mesmo enquanto vasculhava a geladeira. Voltou logo depois
para o deque onde eu havia ficado para assistir ao pôr-do-sol de setembro
cobrir as Montanhas Blue Ridge. Terminou de mastigar um pêssego maduro e então
a voz que nunca conseguia permanecer áspera por muito tempo quebrou o silêncio:
- Querida, eu quero fazer isto.
Segurei um nó na garganta e tentei não chorar.
Estava com quarenta e quatro anos e a ideia de ficar viúva - de novo - era
devastadora. Tão devastadora, na verdade, que a negação facilmente se tornara o
manto que eu vestia todos os dias.
- Mas você está mais forte agora. Você disse
isso. E as injeções, elas ajudam...
- Melva - ele tocou meu ombro como se estivesse
implorando. - Vamos dar uma festa e vamos fazer direito. Podíamos disfarçá-la
como uma festa de aniversário de casamento. É claro que todos os que me
conhecem muito bem saberão.
Olhei dentro daqueles olhos castanhos
brilhantes, sua faísca agora turvada pela dor, pelos remédios, pelo medo. Eu
sabia o que os últimos anos haviam tirado dele. Havíamos deixado de ser o casal
dourado na pista de dança todos os fins de semana.
Sim, nós ainda íamos, pois ele insistia, mas
agora passávamos a maior parte da noite sentados conversando com amigos.
Seu jogo de golfe, antes marcado por aqueles
impulsos poderosos e exatos e pelas tacadas precisas - ele costumava marcar
quatro buracos com uma tacada - haviam decaído.
As horas agradáveis que ele costumava passar
jardinando e cortando lenha haviam diminuído para alguns poucos e preciosos
minutos que o deixavam abatido e exausto.
Entretanto, a disposição de espírito nunca o
abandonou.
Enquanto eu parecia lamentar constantemente as
mudanças em nossa vida - em minha vida -, ele nunca reclamava. Subitamente,
percebi que meus medos e incertezas empalideciam em comparação ao que ele devia
estar passando. As mudanças pelas quais havíamos passado pareciam minúsculas em
relação ao câncer que grassava dentro de seu corpo, competindo com a diabetes
pela chance de determinar seu destino.
Engolindo minha vergonha, peguei a sua mão.
- Tudo bem. Se você quer uma festa, teremos uma
festa!
Na manhã seguinte encomendei os 150 convites
para nossa "festa de aniversário de casamento". Dezenove de outubro
de 1991 caiu num sábado à noite e alugamos o Frank's Shrine Club para o evento.
Quase todos os que convidamos vieram para
partilhar a noite conosco. No meio da festa, Frank subiu ao palco com o
microfone na mão para fazer uma gloriosa interpretação da balada lt's Hard to
Be Humble (É Difícil Ser Humilde). Meu marido adorou ser o centro das atenções
e terminou sob os aplausos e as lágrimas de todos aqueles que o amavam.
Então fez um pequeno discurso, agradecendo a
todos por terem vindo e proclamou-se o homem mais sortudo do mundo! Com estas
palavras, ele disse adeus.
E então valsamos. Frank começara a perder o
equilíbrio e não mais se sentia à vontade dançando com outras mulheres. Mas
naquela noite ele dançou com todas. Mais tarde conversei com um de seus médicos
enquanto dançávamos uma música lenta.
- Quanto tempo ele tem? - perguntei baixinho.
- É impossível prever isso, Melva, ele parece
estar mais forte.
- Quanto tempo? - perguntei novamente e não
obtive resposta. Terminamos nossa dança e ele me levou de volta à mesa.
- Seis meses, talvez mais - ele finalmente me
respondeu.
- Obrigada - sussurrei.
O resto da noite passou como um sonho, com
Frank mudando de um grupo para outro, conversando com todo mundo e
deleitando-se com as várias histórias contadas às suas custas.
Politicagem, como ele o chamou certa vez.
Quando a noite se aproximou do fim, ele ficou na porta para dar boa-noite a
todos os convidados - de pé no começo, depois precisando sentar-se, mas sempre
sorrindo. Três meses e três dias depois, eu estava sentada tremendo no frio
enquanto seus irmãos da maçonaria realizavam rituais maçônicos. Eu segurava
fortemente a bandeira dobrada com capricho, enquanto os braços fortes de um
amigo me levavam até a limusine que aguardava.
Cerca de um ano depois, fui almoçar com uma
nova amiga.
Ela falou do velório ao qual fora na noite
anterior:
- Que linda forma de dizer adeus! - observou,
obviamente desacostumada a tal evento.
Ouvi-a relatar a frivolidade e pensei em como
era triste que o amado falecido tivesse perdido uma noite tão prazerosa. A
culpa do "eu devia ter feito mais" e "por que eu não fui mais
forte para ele", que eram minha mortalha, começaram a desaparecer. Minha
mente voltou-se para a alegria de Frank em sua última festa.
- Então, você fez um velório para o Frank? -
perguntou minha amiga.
- Ah, sim - respondi. - Foi uma festa
maravilhosa e ele se divertiu como nunca!
Uma alegria destrói cem tristezas.
COM PRESSA
GINA BARRETT SCHLESINGER
Histórias Para Aquecer o Coração 99
Eu estava com pressa.
Passei correndo pela sala de jantar usando meu melhor
vestido, concentrada em me preparar para um encontro de negócios noturno.
Gillian, minha filha de quatro anos, estava dançando ao som de sua música
favorita, Cool do filme Amor, Sublime Amor.
Eu estava com pressa, à beira de chegar
atrasada. No entanto, uma vozinha dentro de mim disse: "Pare." Então
parei. Olhei para ela. Aproximei-me, peguei sua mão e a rodopiei. Minha filha
de sete anos, Caitlin, entrou em nossa órbita e eu também a peguei. Nós três
dançamos alucinadamente pela sala de jantar até chegarmos à sala de estar.
Ríamos.
Rodopiávamos. Será que os vizinhos podiam ver a
loucura pelas janelas? Não tinha importância. A música chegou ao fim com um
floreio dramático e nossa dança terminou com ela. Dei um tapinha em seus
traseiros e mandei que fossem tomar banho.
Elas subiram as escadas, sem fôlego, seus
risinhos ricocheteando pelas paredes. Voltei aos meus afazeres. Estava dobrada
para à frente, enfiando papéis em uma pasta, quando ouvi a mais nova falar para
a irmã:
- Caidin, você não acha que a mamãe é a mais
melhor de todas?
Congelei. Eu quase correra pela vida, perdendo
aquele momento. Meu pensamento foi para os prêmios e os diplomas que cobriam as
paredes do meu escritório. Nenhum prêmio, nenhuma realização que eu jamais
alcançara, poderia se comparar a isso: "Você não acha que a mamãe é a mais
melhor?" Minha filha disse isso quando tinha quatro anos. Não espero que
ela o diga com quatorze. Mas, aos quarenta, se ela se inclinar por cima daquela
caixa de pinho para dizer adeus para o recipiente descartado da minha alma,
quero que o diga.
"Mamãe não é a mais melhor?" Não
combina com meu currículo. Mas quero isso gravado na minha lápide.
O trabalho irá esperar enquanto você mostra às crianças o
arco-íris,
mas o arco-íris não espera enquanto você está trabalhando.
PATRICIA CLIFFORD
BEN
TERRY BOISOT
Histórias Para Aquecer o Coração 104
Ben nasceu no dia 20 de setembro de 1989. Pouco
depois de seu nascimento, soubemos de sua cegueira e surdez. Quando estava com
três anos, soubemos também que nunca andaria.
A partir do segundo dia de vida de Ben, nossa
família percorreu um caminho que nunca havíamos imaginado. Centenas e centenas
de quilômetros até os melhores médicos e os melhores hospitais. Centenas de
agulhas e raios-X, tomografias computadorizadas e ressonâncias magnéticas.
Depois disso vieram as lentes de contato, o aparelho nos dentes, aparelhos
auditivos, cadeiras de rodas, andadores e macacões para engatinhar - junto com
todos os terapeutas para nos mostrar como usar todas essas coisas. As operações
nunca pararam.
A vida de Ben hoje em dia consiste de seu
professor habitual, um professor para pessoas com deficiência visual, um
professor para pessoas com deficiência auditiva, um terapeuta ocupacional, um
fisioterapeuta, um patologista de fala e linguagem, um pediatra, um
neurologista, ortopedistas, um oftalmologista pediátrico, um otorrino, um
fonoaudiólogo, um dentista, um cirurgião dentista e um ortodontista - e ele só
tem oito anos de idade.
Ainda assim, todas as manhãs meu homenzinho
acorda com o maior sorriso no rosto, como se dissesse: "Ei, vocês, estou
aqui para mais um dia, e estou tão feliz!"
Nossa filha nasceu três anos antes de Ben.
Lembro-me de que seu pai e eu olhando para ela durante enormes períodos de
tempo quando ela tinha cerca de dois anos, esperando que a próxima palavra ou
som escapulisse. Sempre que isso acontecia um momento marcante na história - um
tópico de orgulhosas conversas com quem quer que tivesse a paciência de
escutar. Realmente tínhamos uma criança brilhante e notável.
Ainda temos.
Depois que Ben nasceu, nosso amor por ele mudou
nossa visão sobre o que era realmente importante a respeito de nossos filhos.
Não tinha mais importância quantas palavras falavam mm quantos anos, ou que
desenvolvimento fenomenal acontecia antes da previsão feita em qualquer livro
sobre bebês.
Nossos filhos se tornaram indivíduos, cada um
possuindo qualidades maravilhosas, que não devem ser comparadas. Suas vidas não
devem ser medidas pela falta de habilidade ou pela habilidade excepcional, mas
pela força da perseverança.
Quando Ben estava com cerca de quatro anos,
dirigia com bastante domínio sua cadeira de rodas, mas nunca havia dito uma
palavra - apenas sons abertos de vogais. Então nossa família começou a botar um
gravador na mesa durante o jantar para gravar os sons que Ben estava fazendo
porque ele demonstrava claramente que queria participar das conversas. Pensamos
que, talvez, se ele ouvisse sua voz gravada e as nossas, isso estimularia algo
dentro dele.
Um dia, em setembro de 1993, a fita estava
rodando enquanto eu alimentava Ben e fazia alguns sons, tentando estimular
algum interesse nele. De repente, o tempo parou. Nunca esquecerei a expressão
dos olhos de Ben, a concentração em seu rosto, a forma de sua boca, como ele
olhava para mim de sua cadeira de rodas quando falou suas primeiras três
palavras:
- Eu te amo.
Virei-me para meu marido e ele olhou para mim
com os olhos cheios d'água e disse:
- Terry, eu o ouvi!
Ben disse aquelas palavras para mim e eu as
tenho gravadas para ouvir sempre que precisar. Também fico grata, pois ele não
disse outra palavra desde então.
Mas, vocês sabem, eu não ouço a fita com tanta
frequência.
Não preciso. Sempre irei reconhecer a expressão
de seus olhos mesmo que sejam cegos - quando ele procura o meu rosto para me
dar um beijo. Isso é tudo o que eu preciso.
Um bebê é a opinião de Deus de que o mundo deve continuar.
CARL SANDBERG
PRIVAÇÃO DOS SENTIDOS
DEBORAH E. HILL
Histórias Para Aquecer o Coração 115
Quero sair para dançar, usar um vestido que
rodopie e flutue em volta de mim e rir.
Quero sentir a luz trêmula da seda enquanto ela
escorrega pelos meus braços e pelo meu corpo, a alegria de tocar com os dedos
sua maciez.
Quero dormir na minha própria cama e regalar-me
na frescura dos lençóis limpos e descansar minha cabeça em meu travesseiro
macio. E ir dormir quando quiser, com todas as luzes apagadas e acordar quando
estiver pronta.
Quero me esticar em meu sofá debaixo da minha
manta de lã azul e ouvir minha música favorita escoar dos autofalantes para
dentro do meu ser, regando a paisagem ressequida da minha alma.
Quero sentar-me na varanda, bebericar café
quente de minha caneca de faiança, ler o jornal e ouvir o cachorro latir para
as folhas que caem ou para esquilos invasores.
Quero atender o telefone e ligar para os meus
amigos e família e conversar até termos colocado em dia todas as palavras que
guardamos um para o outro, e rir.
Quero ouvir o trem apitar através de Loveland,
o cascalho sendo esmagado na porta da garagem e portas de carros batendo quando
os amigos vêm nos visitar. E o tilintar e tinir dos talheres contra a louça, o
chiado e o gorgolejo da máquina de fazer café.
Quero sentir meus pés descalços na brancura
fria do chão da minha cozinha e na maciez azul do tapete do meu quarto.
Quero ver as cores, todas elas, cada cor jamais
fiada na existência. E branco, branco de verdade, puro e imaculado. E acres de
árvores verdes e quilômetros de estradas com fitas amarelas e centenas de
metros de luzes de Natal. E a Lua.
Quero sentir o cheiro de bacon fritando, um
filé grelhando. Jantar de Ação de Graças e a plantação de tomates de meu pai. E
roupa recém-lavada, asfalto novo em um estacionamento. E o oceano.
Porém, mais do que tudo isso, quero ficar de pé
na porta do quarto do meu filho e vê-lo dormindo. Ouví-Io acordar pela manhã e
vê-lo voltar para casa à noite. Tocar seu rosto e passar meus dedos por seus
cabelos. Pegar uma carona em seu caminhão e comer seus sanduíches de queijo
quente.
E vê-lo crescer, rir, brincar, comer, dirigir e
viver. Acima de tudo, de tudo, viver. E passar meus braços à sua volta e
segurá10 até ele rir e dizer:
- Já chega, mamãe!
E então ser livre para fazer tudo de novo.
Nota do editor: O texto a seguir nos foi
enviado por uma prisioneira. Não sabemos qual o crime que ela cometeu.
CARRINHO VERMELHO
PATRICIA LORENZ
Histórias Para Aquecer o Coração 118
Para ser completamente honesta, o primeiro mês
foi muito feliz.
Quando Jeannie, Julia, Michael- com as idades
de seis, quatro e três anos - e eu nos mudamos de St. Louis para minha cidade
natal no norte de Illinois exatamente no dia do meu divórcio, eu estava feliz
apenas em encontrar um lugar onde não haveria brigas nem abusos.
Porém, depois do primeiro mês, comecei a sentir
saudades de meus antigos vizinhos e amigos. Senti saudades de nossa adorável
casa de tijolos no subúrbio de St. Louis, moderna, estilo rancho, especialmente
depois que nos ajeitamos na casa de madeira branca de noventa e oito anos de
idade que alugamos, que era tudo o que minha renda pós-divórcio podia pagar.
Em St. Louis tínhamos todos os confortos: uma
lavadora, secadora, lava-louças, TV e carro. Agora não tínhamos nada disso.
Depois do primeiro mês em nossa nova casa, parecia-me que tínhamos passado do
conforto da classe média para o pânico no nível da pobreza.
Os quartos do andar de cima de nossa velha casa
não possuíam nem aquecimento, mas, de alguma forma, as crianças não pareceram
perceber. O chão de linóleo, frio, contra seus pezinhos, simplesmente os
encorajava a se vestirem mais rápido pela manhã e a pular mais rápido para
dentro da cama à noite.
Reclamei do frio enquanto o vento de dezembro
assobiava por todas as janelas e portas daquela velha casa de madeira. Mas as
crianças riam dos "lugares engraçados de ar" e simplesmente se
aninhavam debaixo das pesadas mantas que tia Bernardine trouxera no dia em que
nos mudamos.
Eu estava louca sem televisão.
- O que faremos à noite sem televisão? -
perguntei.
Senti-me trapaceada pelo fato de as crianças
perderem todos os especiais de Natal. Mas meus três filhinhos eram mais
otimistas e muito mais criativos do que eu. Sacaram seus jogos e me imploraram
para jogar Terra dos Doces e Três Marias com eles.
Nos aconchegamos juntos no esfarrapado sofá
cinza que o senhorio fornecera e lemos um livro de ilustrações depois do outro
retirados na biblioteca pública. Por insistência deles ouvimos discos, cantamos
canções, fizemos pipoca, criamos magníficas torres de blocos e brincamos de
esconde-esconde em nossa velha casa. As crianças me ensinaram como se divertir
sem televisão. Numa fria manhã de dezembro, apenas uma semana. Antes do Natal,
depois de andar mais de três quilômetros para casa de meu trabalho de meio expediente
em uma loja de departamentos, lembrei-me de que tinha que lavar a roupa da
semana naquela noite. Eu estava exausta de tanto levantar e selecionar os
presentes de Natal dos outros e um tanto amarga, sabendo que eu mal poderia
comprar algum presente para meus próprios filhos.
Assim que peguei as crianças na casa da babá,
empilhei quatro cestas grandes cheias de roupa suja dentro de um carrinho
vermelho e nós quatro nos dirigimos para a lavanderia, a três quadras de
distância. Dentro, tivemos que esperar pelas máquinas de lavar e, depois, que
as pessoas liberassem as mesas para dobrar as roupas. Selecionar, lavar, secar
e dobrar levaram mais tempo do que o normal.
Jeanne perguntou:
- Você trouxe passas ou biscoitos, mamãe?
- Não, vamos jantar assim que chegarmos em casa
- respondi asperamente.
O nariz de Michael estava pressionado contra a
janela de vidro embaçada.
- Olhe, mamãe! Está nevando! Flocos grandes!
Julia acrescentou:
- A rua está toda molhada. Está nevando no ar,
mas não está nevando no chão!
A animação deles apenas me deixou mais
irritada. Como se o frio não fosse ruim o suficiente, agora tínhamos que lidar
com a neve e a lama. Eu ainda nem abrira a caixa com as botas e luvas.
Finalmente, as roupas limpas e dobradas estavam
empilhadas nas cestas, colocadas no carrinho vermelho. Lá fora estava escuro
como breu. Já eram seis e meia? Por isso estavam com tanta fome. Normalmente
jantávamos às cinco!
As crianças e eu abrimos caminho através do
frio vento da noite e deslizamos pela calçada lamacenta. Nossa procissão de
três crianças pequenas, uma mãe rabugenta e quatro cestas de roupa limpa em um
velho carrinho vermelho movia-se lentamente, enquanto o vento gelado feria
nossos rostos.
Atravessamos a tumultuada rua de quatro pistas
na faixa de pedestres. Quando chegamos ao meio-fio, as rodas da frente
escorregaram no gelo e viraram o carrinho de lado, derrubando todas as roupas
em uma poça' de lama preta.
- Oh, não! - gemi. - Pegue as cestas, Jeanne!
Julia, segure o carrinho! Volte para a calçada, Michael!
Joguei as roupas sujas e molhadas dentro das
cestas.
- Eu odeio isso! - gritei. Lágrimas de raiva
jorraram dos meus olhos. Eu odiava ser pobre, não ter um carro nem uma lavadora
ou uma secadora. Odiava o tempo. Odiava ser o único dos pais responsável por
meus três filhos. E, sem dúvida, realmente odiava toda a porcaria do Natal.
Quando chegamos em casa, eu destranquei a
porta, arremessei minha bolsa através da sala e fui para o quarto chorar
batendo com os pés no chão.
Solucei alto o suficiente para que as crianças
pudessem ouvir. Egoistamente, queria que eles soubessem o quanto eu estava
infeliz. A vida não podia ficar pior. A roupa ainda estava suja, estávamos
todos cansados e com fome, não havia comida pronta e nenhuma perspectiva de um
futuro melhor.
Quando as lágrimas finalmente pararam,
sentei-me e fiquei olhando para uma placa de madeira com Jesus entalhado
pendurada na parede ao pé da minha cama. Eu tinha aquela placa desde criança e
a carregara comigo para todas as casas em que morara. Mostrava Jesus com os
braços abertos sobre a Terra, obviamente resolvendo os problemas do mundo.
Fiquei olhando para seu rosto, esperando um
milagre.
Olhei, esperei e finalmente disse em voz alta:
- Deus, será que não pode fazer alguma coisa
para melhorar a minha vida?
Eu queria desesperadamente que um anjo, em uma
nuvem, descesse e me resgatasse.
Mas não apareceu ninguém, a não ser Julia, que
espiou pela porta do meu quarto e me disse com a sua melhor vozinha de quatro
anos que tinha colocado a mesa para o jantar.
Eu podia ouvir Jeanne, de seis anos de idade,
na sala de estar, separando a roupa em duas pilhas, "muito suja, meio
limpa, muito suja, meio limpa”.
Michael, de três anos, apareceu no meu quarto e
me deu um desenho da primeira neve que ele acabara de fazer.
E sabe o que mais? Naquele exato instante eu vi
não um, mas três anjos diante de mim: três pequenos querubins eternamente
otimistas e, mais uma vez, me puxando da tristeza e da melancolia para o mundo
de "as coisas vão melhorar amanhã, mamãe".
O Natal naquele ano foi mágico, pois nos
rodeávamos de um tipo especial de amor que se baseia na felicidade de fazermos
juntos coisas simples. Uma coisa é certa: ser mãe solteira nunca mais foi tão
amedrontado r ou deprimente quanto na noite em que a roupa limpa caiu do
carrinho vermelho. Esses três anjos de Natal mantiveram meu espírito vivo; e,
mesmo hoje em dia, mais de vinte anos depois, eles continuam a encher meu
coração com a presença de Deus.
NUNCA DESISTA
JASON MORIN
Histórias Para Aquecer o Coração 130
- Você tem o prognóstico de alguém em uma cadeira
de rodas, Jason - disse o médico com uma voz que sua profissão reserva para
doenças graves. - Pode acabar perdendo sua visão, coordenação, até mesmo o
controle da bexiga.
As palavras atingiram a mim e a minha mulher em
cheio.
Eu estava com vinte e sete anos e tinha
esclerose múltipla (EM).
Queria atracar-me com essa notícia, mas naquele
momento só conseguia pensar em terminar aquela consulta. Esse médico não
ofereceu esperanças e estava assustando minha mulher e a mim durante o
processo. Olhei de esguelha para Tracy, que começou a chorar baixinho.
Inclinei-me para reconfortá-Ia, minha alma gêmea. Balbuciamos rapidamente
nossas despedidas e partimos.
Eu trabalhava no negócio de construções junto
com meu pai, que era o dono da companhia. Levantávamos edifícios do nada e era
um trabalho duro e exigente, com longas horas. Mas eu adorava. Andava pelas
estreitas vigas de aço desde a tenra Idade de quatorze anos e provavelmente me
sentia mais à vontade em um canteiro de obras do que em qualquer outro lugar.
Meu pai me ensinou os macetes.
Eu não aguentava a ideia de deixá-lo na mão
agora.
Depois de deixar Tracy em casa, mencionei que
tinha que passar no escritório para pegar algo. Porém, na verdade, queria uma
visita a um lugar que conhecia há muito tempo.
Sentei-me no banco da igreja, sentindo memórias
de infância me inundarem. Meus olhos estavam bem fechados enquanto eu rezava
ansiosamente.
- Querido Deus - eu disse. - Não tenho medo por
mim, mas sim de desapontar minha esposa e minha família - eles contam tanto
comigo. Por favor, ajude-me.
Levantei-me, saí da igreja e esperei que minhas
preces fossem atendidas. Se havia um momento para manter a força de minha fé
era aquele.
Algumas semanas mais tarde, o jornal local
apresentou lima matéria na seção de esportes sobre um home chamado Pat. Era
como se um pequeno milagre cruzasse o meu caminho. Pat era professor de
Educação Física na universidade estadual e vencera a esclerose múltipla com a
ajuda de uma dieta rígida.
Finalmente eu encontrara um aliado, alguém com
os meses os sintomas e provavelmente as mesmas dúvidas e medos. Pat e eu nos
encontramos e conversamos durante horas sobre suplementos alimentares,
vitaminas e exercícios. Mas essas seis palavras ecoavam no meu cérebro:
- Você pode fazê-lo, Jason. Nunca desista.
Comecei uma dieta especial e um programa de
exercícios elaborados para pacientes de esclerose múltipla e mantive-me fiel a
eles.
Houve muitos dias negros também. Dias em que eu
tinha que pedir a Tracy que me ajudasse a terminar de me vestir. Durante tudo
isso ela foi espetacular, dando-me o amor e o apoio de que eu precisava.
Sentia-me tão abençoado! Gradualmente minha recuperação tomou forma. Depois de
algum tempo, as palavras do médico pareciam estar longe.
Finalmente senti-me pronto para estabelecer um
objetivo para mim mesmo.
O desafio veio sob a forma de fisiculturismo
natural. Eu havia jogado futebol americano no ginásio e na faculdade e
certamente não era um estranho à sala de musculação. Comecei a treinar
diligentemente com um treinador seis dias por semana.
Ele me passou diferentes séries de exercícios
com pesos. Meu objetivo era competir em um campeonato de fisiculturismo.
Alguns meses depois, todas as horas de suor e
treinamento me levaram a uma competição que incluía uma sequência de três
minutos. Encontrei-me em um auditório cheio de pessoas.
Completei minha sequência - flexionando,
alongando, exibindo o corpo que havia lutado tanto para conseguir - e saí.
Enquanto esperava que os juízes calculassem a
minha pontuação, vislumbrei minha família e amigos na quarta fileira. Quando os
juízes anunciaram que ele. ficara em sexto lugar, senti uma onda de orgulho e
alívio. Enquanto fazia uma reverência, dei uma olhada rápida para minha
família, que estava toda de pé batendo palmas e gritando o mais que podiam.
Antes de sairmos para celebrar em um
restaurante próximo, meu pai se aproximou e colocou as duas mãos diretamente
nos meus ombros.
- Lason, estou muito orgulhoso de você. No que me
diz respeito, você é número um! - disse.
Olhou-me dentro dos olhos.
- Construímos fundações em nosso ramo, mas
deixe-me dizer-lhe: as verdadeiras fundações na vida são a família.
Dei um abraço apertado em meu pai então e vi,
por cima de seu ombro, Tracy fazer o sinal de positivo com o polegar e me
deslumbrar com um sorriso que eu nunca tinha visto.
Hoje, Tracy e eu somos os pais orgulhosos de
duas meninas.
Elas são mais preciosas do que jamais
poderíamos imaginar. E todos os dias lembro-me das palavras de meu pai: as
verdadeiras fundações da vida são a família.
Oportunidade: frequentemente ela vem disfarçada
sob a forma de infortúnio ou derrota temporária.
NAPOLEON HILL
VOANDO LIVRE
Histórias Para Aquecer o Coração 134
Uma casa nova, uma piscina nos fundos, dois
belos carros na garagem e meu primeiro filho a caminho. Faltavam apenas alguns
dias para eu dar à luz o meu primeiro filho quando uma conversa com meu marido
abalou o mundo em que eu vivia.
- Eu quero estar presente para o bebê, mas acho
que não te amo mais - ele falou.
Eu não conseguia acreditar no que estava
ouvindo! Ele se afastara de mim durante a gravidez, mas eu relacionara isso ao
seu medo e preocupação em se tornar pai.
Enquanto eu o sondava em busca de explicações,
ele me contou que tivera um caso cinco anos antes e desde então não sentia a
mesma coisa por mim. Pensando apenas no meu bebê e querendo salvar meu
casamento, disse-Ihe que o perdoaria e que queria consertar as coisas entre
nós.
Aquela última semana antes do nascimento de meu
filho foi um passeio emocional numa montanha-russa. Estava tão animada com o
bebê, com tanto medo de estar perdendo meu marido e sentindo-me tão culpada às
vezes, pois achava que era culpa do bebê isso tudo estar acontecendo.
John nasceu numa sexta-feira de julho. Era tão
lindo e inocente. Não fazia ideia do que estava acontecendo no mundo de sua
mãe. Estava com quatro semanas quando descobri o verdadeiro motivo do
afastamento de seu pai. Não apenas ele tivera um caso cinco anos antes, mas
começara a ter um caso durante minha gravidez, e continuava a ter. Então,
quando ele estava com cinco semanas, John e eu abandonamos a casa nova, a
piscina e todos os meus sonhos desfeitos para trás. Mudamos para um apartamento
do outro lado da cidade. Não sabia que
existia depressão tão profunda quanto a que eu entrei. Nunca havia
experimentado nada igual à solidão de passar uma hora depois da outra sozinha
com uma criança recém-nascida. Alguns dias aquela responsabilidade toda me
esmagava e eu tremia de medo. A família e os amigos estavam lá para ajudar,
mas, ainda assim, havia muitas horas cheias de pensamentos a respeito de sonhos
desfeitos e desespero. Eu chorava com frequência, mas me assegurei de que John
nunca me visse chorando. Estava determinada a não deixar que isso o afetasse.
De algum lugar dentro de mim eu sempre encontrava um sorriso para ele.
Os primeiros três meses da vida de John
passaram num borrão de lágrimas. Voltei ao trabalho e tentei esconder de todo
mundo o que estava acontecendo. Tinha vergonha, ainda que não soubesse por quê.
Cheguei ao fundo do poço num domingo de manhã,
quando John estava com quatro meses. Acabara de ter outra discussão emocional
com meu marido e ele saíra como um furacão do meu apartamento. John estava
dormindo em seu berço e me peguei sentada no chão do banheiro, encolhida como
uma bola, balançando para frente e para trás. Ouvi-me dizendo em voz alta:
"Eu não quero mais viver." Depois de dizer isso, o silêncio foi
arrebatador.
Acredito que Deus esteve comigo naquele dia.
Após dizer aquilo, fiquei sentada em silêncio, deixando as lágrimas correrem
pelo meu rosto. Não sei quanto tempo se passou, mas de algum lugar de dentro de
mim surgiu uma força que não havia sentido antes. Decidi naquele tomar o
controle da minha vida. Não iria mais dar ao meu marido o poder de afetar minha
vida de uma forma tão negativa. Percebi que, ao prestar tanta atenção em suas
fraquezas, estava permitindo que aquelas fraquezas arrumassem a minha vida.
Naquele mesmo dia, arrumei uma mala para mim e
John e fui passar o fim de semana na casa do meu irmão. Era a primeira viagem
que fazia sozinha com John e me senti tão forte e independente! Lembro-me de
que durante a viagem de duas horas eu ri, conversei e cantei para todo o caminho.
Foi durante esta viagem que percebi como meu
filho fora meu salvador durante todos aqueles meses. Saber que ele estava lá
todos os dias e que precisava de mim me mantivera viva e me dera uma razão para
me levantar todas as manhãs. Que bênção ele era na minha vida!
Daquele dia em diante, decidi concentrar-me na
confiança e na força que me fizeram levantar do chão do banheiro. Ter mudado
minha atenção para pensamentos tão positivos transformou a minha vida. Senti
vontade de rir novamente e de estar na companhia dos outros pela primeira vez
em meses.
Iniciei o processo de descobrir o indivíduo que
mantive escondido dentro de mim durante tanto tempo - um processo que ainda
estou apreciando.
Comecei a fazer terapia logo depois de John e
eu termos nos mudado da casa e continuei com ela durante vários meses depois do
dia em que cheguei ao fundo do poço. Quando não senti mais necessidade de ter
seu apoio e aconselhamento, lembrei-me da última pergunta que minha terapeuta
me fez antes que eu saísse de seu consultório naquele dia:
- O que você aprendeu? - ela perguntou.
Não hesitei em responder:
- Aprendi que minha felicidade tem que vir de
dentro. É esta lição de que me lembro todos os dias e que desejo partilhar com
os outros. Cometi o erro, na minha vida, de basear minha identidade em meu
casamento e em todas as coisas materiais que cercavam a relação. Aprendi que
sou responsável por minha própria vida e felicidade. Quando centralizo minha
vida em outra pessoa e tento construir minha vida e minha felicidade em volta
daquela pessoa, não estou vivendo de verdade. Para viver de verdade preciso deixar
que o espírito dentro de mim seja livre e regozije-se em sua singularidade. É
neste estado de ser que o amor de outra pessoa se torna uma alegria e não algo
que temos medo de perder. Que o seu espírito seja livre e voe alto. LAURIE
WALDRON
Não é fácil encontrar a felicidade em nós mesmos e é
impossível encontrá-la em outro lugar.
AGNES REPPLIER
O que você quer ser?
REV. TERI JOHNSON
Histórias Para Aquecer o Coração 148
Tive um daqueles momentos felizes e inesperados
há algumas semanas. Estava no quarto trocando a fralda de um dos bebês, quando
nossa filha de cinco anos, Alyssa, entrou e pulou na cama ao meu lado.
- Mamãe, o que você quer ser quando crescer? -
perguntou.
Achei que ela estava fazendo algum jogo
imaginário e, para entrar na brincadeira, respondi dizendo:
- Huum. Acho que gostaria de ser mãe quando
crescer.
- Você não pode ser isso porque você já é mãe.
O que você quer ser quando crescer?
- Está bem, talvez eu seja pastor de igreja
quando crescer respondi a segunda vez.
- Mamãe, não, você já é isso!
- Desculpe-me, querida - eu disse. - Mas então
não estou entendendo o que eu devo dizer.
- Mamãe, só responda o que você quer ser quando
crescer.
Você pode ser qualquer coisa que quiser!
A esta altura eu estava tão enternecida com a
experiência que não pude responder imediatamente. Alyssa desistiu e saiu do
quarto.
Esta experiência - esta minúscula experiência
de cinco minutos - tocou fundo dentro de mim. Fiquei emocionada porque, aos
olhos jovens de minha filha, eu ainda podia ser qualquer coisa que quisesse
ser! Minha idade, minha carreira atual, meus cinco filhos, meu marido, meu
diploma, meu mestrado - nada disso tinha importância. Aos seus olhos jovens eu
ainda podia sonhar e tentar alcançar as estrelas. Aos seus olhos jovens meu
futuro não havia acabado. Aos seus olhos jovens eu ainda podia ser astronauta,
pianista ou até mesmo cantora de ópera, talvez. Sob seu olhar jovem eu ainda
tinha que crescer mais e tinha muito "ser" sobrando em minha vida.
A verdadeira beleza daquele encontro com minha
filha foi quando eu percebi que, com toda sua honestidade e pureza, ela teria
feito a mesma pergunta a seus avós ou a seus bisavós.
Já foi escrito: ''A mulher velha que irei me
tornar será bastante diferente da mulher que sou agora. Outro eu está
começando..." Então, o que você quer ser quando crescer?
A imaginação é a maior pipa que se pode empinar.
LAUREN BACALL
ENTÃO O QUE VOCÊ PLANTA?
PHILIP CHARD
Histórias Para Aquecer o Coração 150
Sandy mora em um apartamento tão pequeno que,
quando chega do supermercado, tem que decidir o que pôr para fora a fim de
abrir lugar para suas compras. Ela luta dia a dia para alimentar e vestir a si
mesma e a sua filha de quatro anos com o dinheiro de trabalhos literários
autônomos e de bicos.
Seu ex-marido desapareceu há muito por alguma
autoestrada desconhecida, provavelmente para nunca mais reaparecer. Dia sim,
dia não, seu carro decide que precisa de uma folga e recusa-se a andar. Isto
significa ir de bicicleta (se o tempo permitir), andar ou pegar uma carona com
amigos.
As coisas que a maioria dos norte-americanos
considera essenciais para a sobrevivência - televisão, forno de micro-ondas,
aparelho de som e tênis caros - estão lá embaixo na lista de "talvez algum
dia” de Sandy.
Comida nutritiva, roupas quentes, um
apartamento acolhedor, os pagamentos do empréstimo estudantil, livros para sua
filha, consultas médicas absolutamente necessárias e uma ocasional matinê de
cinema consomem todo o dinheiro que há.
Sandy bateu em mais portas do que pode se
lembrar, tentando conseguir um emprego decente, mas sempre existe algo que não
se encaixa perfeitamente - experiência insuficiente ou do tipo errado, ou
horários que tornam impossível tomar conta de uma criança.
A história de Sandy não é incomum. Muitos pais
e mães solteiras e pessoas idosas lutam com nossa estrutura econômica, caindo
naquele espaço ambíguo que existe entre ser realmente autossuficiente e ser
suficientemente pobre para receber ajuda do governo.
O que torna Sandy incomum é seu ponto de vista.
- Não possuo muito, no sentido de ter coisas ou
do sonho americano - contou-me com um sorriso Sincero.
- Isso a incomoda? - perguntei.
- Às vezes. Quando vejo outra menina com uma
idade próxima à da minha filha que tem roupas bonitas e brinquedos bons, ou que
está andando num carro chique ou morando numa bela casa, me sinto mal. Todo
mundo quer ser bem-sucedido para seus filhos - respondeu.
- Mas você não se amargura?
- Ficar amargurada com o quê? Não estamos
passando fome ou frio e tenho o que realmente importa na vida - replicou.
- E o que é isso? - indaguei.
- Do meu ponto de vista, não importa quantas
coisas você compre, não interessa quanto dinheiro ganhe, você só fica com três
coisas na vida - falou.
- O que você quer dizer com "fica'?
- Quero dizer que ninguém pode tomar isso de
você.
- E que três coisas são essas? - perguntei.
- Primeiro, as suas experiências. Segundo, seus
amigos verdadeiros. Terceiro, aquilo que você planta dentro de si mesmo - ela
respondeu sem hesitar.
Para Sandy, as "experiências" não
estão em grandes acontecimentos. São momentos considerados comuns com sua
filha, passeios no bosque, tirar um cochilo debaixo da sombra de uma árvore,
ouvir música, tomar um banho de banheira ou assar pão.
Sua definição de amigos é mais extensa.
- Os amigos verdadeiros são aqueles que nunca saem
do coração, mesmo que saiam da sua vida durante algum tempo.
Quanto ao que plantamos dentro de nós, Sandy
disse:
- Isso cabe a cada um de nós, não é? Não planto
amargura nem arrependimento. Poderia, se quisesse, mas prefiro não fazê-lo.
- Então, o que é que você planta? - perguntei.
Sandy olhou carinhosamente para a filha e então
novamente para mim. Apontou para seus próprios olhos, que estavam iluminados de
ternura, gratidão e um brilho de felicidade.
- Eu planto isso.
Nós somos ricos pelo que temos, mas sim pelo que não
precisamos ter. EMMANUEL KANT
NENHUM ATO DE CARIDADE É PEQUENO
DONNA WICK
Histórias Para Aquecer o Coração 153
O dia era quinta-feira de Ação de Graças, nosso
"dia designado" de trabalho, uma tradição semanal que eu e minhas
duas filhas pequenas começamos há alguns anos. Quinta-feira é nosso dia de sair
no mundo e fazer uma contribuição positiva. Nesta quinta-feira em especial não
tínhamos ideia do que iríamos fazer, mas sabíamos que surgiria alguma coisa.
Dirigindo por uma estrada movimentada de
Houston, rezando por um sinal na busca para realizarmos nosso ato de caridade
semanal, o meio-dia adequadamente provocou pontadas de fome em minhas duas
filhinhas. Elas não perderam tempo em me dizer, cantando "McDonald's,
McDonald's, McDonald's" enquanto eu dirigia. Cedi e comecei a procurar
seriamente pelo McDonald's mais próximo. De repente percebi que quase todos os
cruzamentos pelos quais havíamos passado estavam ocupados por um pedinte. E
então me dei conta! Se as duas pequenas estavam com fome, então todos aqueles
pedintes também deviam estar. Perfeito! Nosso ato de caridade havia surgido.
Iríamos comprar comida para os pedintes.
Após encontrar um McDonald's e pedir dois
lanches para minhas filhas, pedi mais quinze almoços extras e partimos para
entregá-Ios. Foi animador. Parávamos perto de um pedinte, fazíamos uma
contribuição e dizíamos a ele ou a ela que esperávamos que as coisas
melhorassem. Então dizíamos:
- Por falar nisso, aqui está o almoço.
E então partíamos zunindo para o próximo
cruzamento.
Foi a melhor maneira de dar. Não havia tempo
suficiente para nos apresentarmos ou explicarmos o que estávamos fazendo, nem havia
tempo para que eles pudessem dizer nada para nós. O ato de caridade foi anônimo
e fortaleceu cada um de nós. Adoramos o que vimos pelo retrovisor: uma pessoa
surpresa e encantada, segurando a sacola com o almoço e olhando para nós
enquanto nos afastávamos. Foi maravilhoso!
Chegamos ao fim do nosso "itinerário"
e havia uma mulher pequena pedindo um trocado. Entregamos nossa última sacola
com o almoço e imediatamente fizemos o contorno para irmos para casa.
Infelizmente o sinal fechou e paramos no mesmo
cruzamento onde estava a mulher. Fiquei envergonhada e não sabia como me
comportar. Não queria que se sentisse obrigada a dizer ou fazer nada.
Ela se aproximou do carro. Então baixei o vidro
quando começou a falar.
- Ninguém jamais fez nada parecido com isso
para mim disse, espantada. Respondi:
- Bem, fico feliz que tenhamos sido as
primeiras.
Sentindo-me constrangida e querendo mudar de
assunto, perguntei:
- Então, quando você acha que vai comer seu
almoço?
Ela apenas olhou para mim com seus grandes e
cansados olhos marrons e disse:
- Oh, querida, não vou comer este almoço.
Fiquei confusa, mas, antes que eu pudesse dizer
alguma coisa, ela continuou:
- Você sabe, também tenho uma filhinha em casa
e ela adora McDonald's, mas nunca posso comprar nada para ela porque não tenho
dinheiro. Mas sabe o que mais? Esta noite ela vai comer no McDonald's!
Não seí se as crianças perceberam as lágrimas
nos meus olhos. Tantas vezes eu questionara se nossos atos de caridade eram
pequenos ou insignificantes demais para realmente fazer alguma diferença. Ainda
assim, naquele momento, reconheci a verdade nas palavras de Madre Teresa:
- Não podemos fazer grandes coisas, apenas
coisas pequenas com multo amor.
Se eu puder impedir que um coração se parta,
"Não terei vivido em vão;
Se eu puder aliviar o sofrimento de uma vida,
Ou diminuir a dor,
Ou ajudar um frágil rouxinol
A voltar novamente para seu ninho,
Não terei vivido em vão.
EMILY DICKINSON
A OUTRA MÃE
DIANE PAYNE
Histórias Para Aquecer o Coração 156
- Ei, Sra. Prins!
Grito enquanto aceno na direção da janela de
sua cozinha.
Em cima do trepa-trepa, estico-me através da
cerca que limita a escola em direção à sua casa, acenando freneticamente, mas
ela parece não perceber. Seu marido, porém, percebe. Ele fecha as cortinas da
cozinha.
A Sra. Prins é minha professora da terceira
série, ainda que às vezes eu a chame acidentalmente de "mãe". Sei que
ela não é minha mãe, mas não posso deixar de ter esperanças que ela me adote se
minha mãe morrer de câncer. A Sra. Prins não sabe nada a respeito dessa
esperança, mas sabe que eu gosto dela o suficiente para brigar depois da aula
com os garotos que caçoam de sua boca virada para cima. Metade de sua boca está
sempre sorrindo porque ela fez uma operação no nervo e as crianças sentam-se em
suas cadeiras curvando metade da boca, caçoando da Sra. Prins pelas costas.
Enquanto me balanço no trepa-trepa, não consigo
entender por que o Sr. Prins fechou as cortinas na minha cara. Isso faz tanto
sentido quanto os meninos caçoarem da Sra. Prins.
Talvez ele não tenha me visto balançando nas
barras, acenando há um metro e meio de distância de sua janela. Através das
cortinas de sua sala de estar posso ver a Sra. Prins sentada no sofá lendo o
jornal. Começo a acenar e a gritar olá novamente. O Sr. Prins se aproxima e
fecha essas cortinas. Agora eu sei que ele me acha inconveniente.
Com todas as cortinas hermeticamente fechadas,
permaneço no trepa-trepa do playground vazio, temendo ir para casa, desejando
que o Sr. Prins não me considerasse uma peste. Se ele não 'estivesse lá, a Sra.
Prins me convidaria para entrar. Só porque não há mais aulas naquele dia ela
não pode começar a me considerar uma peste de repente.
No primeiro dia de aula, a Sra. Prins me
perguntou:
- Você não é a garota que costumava ter aquele
lindo cabelo longo?
Eu ainda não a conhecia e fiquei preocupada com
o motivo de ela ter me notado. Antes das aulas começarem eu havia cortado meu
cabelo para me assegurar de que não passaria mais um ano com uma professora
cruel puxando meu cabelo cada vez que eu fizesse algo errado. Agora todo o meu
cabelo está dentro de um saco de papel na gaveta da cômoda de minha mãe, a
salvo de professoras cruéis. Parada no trepa-trepa com o cabelo curto, imagino
como seria ter a Sra. Prins penteando meu cabelo longo enquanto sento-me a seu
lado no sofá. Mas não há mais cabelo e as cortinas estão fechadas.
À medida que o céu escurece, a Sra. Prins entra
em seu jardim e me oferece alguns biscoitos de manteiga de amendoim e um copo
de leite. Ao invés de dar a volta no playground, pulo a cerca, esperando
impressioná-Ia com minha força, mas ela parece preocupar-se quando rasgo minha
camisa ao cair do outro lado da cerca. Dessa vez não há sangue, só uma camisa
rasgada, não um corpo machucado.
- Você não tem que ir para casa depois da
escola? - ela pergunta.
- Claro, mas não imediatamente.
Sentamo-nos nas espreguiçadeiras comendo nossos
biscoitos.
Agora que estou finalmente em seu jardim, não
sei o que dizer.
- A senhora acabou de fazer esses biscoitos?
- Depois da aula.
- São os melhores que já comi - eu disse, certa
de que ela os fizera especialmente para mim.
Quando termino os biscoitos, sei que é hora de voltar
andando para casa através da colina de cerca de oitocentos metros. Agradeço à
Sra. Prins pelos biscoitos, deixando sua casa silenciosa para trás, cortando
caminho lentamente através das aléias e olhando por cima das cercas para os
cachorros, imaginando se meu pai estará em casa para o jantar ou em um bar,
bebendo. Sinto-me culpada por não ter ido imediatamente para casa para preparar
o jantar, fazendo mamãe cozinhar quando sei que ela não está se sentindo bem.
Imagino o que a Sra. Prins está fazendo para o jantar e resolvo que será iscas
de peixe congeladas e uma caixa de macarrão com queijo. É isso o que nós vamos
comer.
À noite, escrevo uma história a respeito de
Pepper, nosso cachorro. A Sra. Prins quer que a turma escreva histórias sobre
pessoas que são importantes para nós, mas parece que todos os humanos
importantes para mim dariam uma história triste.
Pepper é diferente. Está preso em casa, nem
morrendo nem bebendo, apenas esperando alguém para brincar com ele.
Alguns dias depois de entregar minha história,
a Sra. Prins me pergunta se pode falar comigo após a aula. Concordo e então
passo o dia inteiro preocupando-me com o que devo ter escrito errado. Três
vezes vou ao banheiro chorar, certa de que, de alguma forma, eu feri seus
sentimentos. Porém, depois da aula, a Sra. Prins tira minha história de dentro
da gaveta de sua escrivaninha e pergunta:
- Posso ficar com isso?
- Por quê?
- Porque quero guardá-Ia em uma gaveta especial
em casa com todas as minhas histórias favoritas.
Ela parece estar prestes a chorar e quero
pedir-lhe a história de volta, apenas para ler o que eu disse que poderia
fazê-Ia se sentir assim. Mas não posso falar sem chorar. Então ela me abraça e
meus olhos se enchem de lágrimas.
Voltando para casa, sei que mesmo que eu nunca
durma em sua casa, minha história dorme e isso é suficiente para fazer com que
a Sra. Prins pareça ser minha mãe. Esta será minha mãe com metade do rosto
sorrindo enquanto seus olhos se enchem de lágrimas. A mãe para quem posso olhar
enquanto subo no trepa-trepa. E, mais importante, a mãe que entende minhas
histórias.
AS MARCAS DA VIDA
DIANA GOLDEN
Histórias Para Aquecer o Coração 161
Minhas companheiras na Equipe Americana de
Esqui para Deficientes costumavam brincar comigo a respeito do tamanho dos meus
seios, dizendo que minha grande deficiência não era a falta de uma perna, mas a
falta de material para encher um decote. Mal sabiam o quanto isso se tornaria
verdade. Neste último ano, descobri pela segunda vez na vida que tenho câncer,
desta vez em ambos os seios. Fiz uma mastectomia bilateral. Quando ouvi que
precisava da cirurgia, não pensei que seria um grande problema. Cheguei até a
dizer, em tom de brincadeira, a minhas amigas: "Como amiga do peito, vou
lhe manter a par da situação." Afinal de contas, eu havia perdido a perna
em meu primeiro embate contra o câncer, quando tinha 12 anos de idade, e então
fora em frente e me tornara campeã mundial de corrida de esquis. Todos nós na
Equipe de Esqui para Deficientes não tínhamos uma ou outra parte do corpo. Vi
que um homem em uma cadeira de rodas pode ser totalmente sexy.
Que uma mulher sem mãos pode não parecer estar
perdendo nada. O conjunto não tem nada a ver com as partes que estão faltando e
tudo a ver com o espírito. Ainda assim, mesmo que eu soubesse disso, fiquei
surpresa ao descobrir como era difícil me adaptar às minhas novas cicatrizes.
Quando voltei à consciência, após a cirurgia,
comece! a chorar e a hiperventilar. De repente, descobri que não queria
enfrentar a perda de mais partes do meu corpo. Não queria fazer quimioterapia
novamente. Não queria ser corajosa e forte e manter um perpétuo rosto
sorridente. Não queria acordar nunca mais. Minha respiração ficou tão alterada
que o anestesista me deu oxigênio e então, felizmente, colocou-me para dormir.
Quando eu estava correndo a fim de me preparar
para minha competição de esqui - meu coração, pulmões e músculos da perna todos
pegando fogo -, com frequência era atingida pela' sensação de que não havia
sobrado recursos dentro de mim para continuar. Então eu pensava nas competições
que viriam - o sonho de forçar o meu potencial até onde pudesse ir, a
satisfação de ultrapassar minhas próprias barreiras - e isso me fazia terminar
a corrida. A mesma tenacidade que me servia nas corridas de esqui me ajudou a
sobreviver em um segundo combate contra o câncer.
Depois da mastectomia, eu sabia que a única
maneira de continuar seria começar a me exercitar novamente, então dirigi-me
para a piscina pública. No chuveiro comunitário, peguei-me observando os seios
de outras mulheres pela primeira vez em minha vida. Seios grandes e seios
pequenos, flácidos ou empinados. De repente, e pela primeira vez após todos
esses anos sem uma perna, senti-me extremamente autoconsciente. Não conseguia
me despir.
Resolvi que era hora de confrontar a mim mesma.
Naquela noite, em casa, tirei toda a roupa e olhei longamente para a mulher no
espelho. Ela era andrógina. Peguei o meu rosto sem maquiagem, era o belo rosto
de um menino. Os músculos do meu ombro, braços e mãos eram poderosos e
musculosos por causa das muletas. Eu não tinha seios. Ao invés disso, havia
duas cicatrizes proeminentes em meu peito. Possuía uma barriga chata e sexy,
uma bunda redonda e quadris bem desenvolvidos, por causa de anos de corridas de
esqui. Minha perna direita terminava em outra longa cicatriz logo abaixo do
joelho.
Descobri que gostava de meu corpo andrógino.
Combinava com a minha personalidade: meu lado masculino agressivo que adora
colocar um capacete, braçadeiras e protetor de queixo para lutar no slalom e
meu lado feminino gentil que deseja ter filhos algum dia e quer colocar um
lindo vestido de seda, sair para jantar com um amante e então deitar-se e ser
lentamente despida por ele.
Descobri que as cicatrizes no meu peito e na
minha perna eram um grande problema. Eram as marcas da minha vida.
Todos nós somos marcados pela vida. Apenas
algumas dessas cicatrizes aparecem mais do que outras. Nossas cicatrizes têm
importância. Elas nos dizem que vivemos, que não nos escondemos da vida. Quando
vemos nossas cicatrizes claramente, podemos encontrar, como eu fiz naquele dia,
nossa própria e única beleza. Na vez seguinte em que fui a piscina, tomei banho
nua.
DIGA APENAS SIM
FRAN CAPO
Histórias Para Aquecer o Coração 165
Sou uma comediante de palco. Estava trabalhando
em uma estação de rádio em Nova York, fazendo o boletim meteorológico como uma
personagem chamada June East (irmã há muito desaparecida de Mae West). Certo
dia, uma mulher do The Daily News telefonou e disse que queria fazer uma
matéria comigo.
Quando terminou a entrevista para a matéria,
ela me perguntou:
- Quais são os seus planos daqui para a frente?
Bem, na época eu não tinha plano nenhum. Então
perguntei o que ela queria dizer, tentando arrumar tempo. Ela disse que
realmente queria acompanhar a minha carreira. Ali estava uma mulher do The
Daily News dizendo que estava interessada em mim! Então achei que seria melhor
dizer qualquer coisa. O que saiu foi: "Estou pensando em quebrar o recorde
do Guiness Book de mulher de fala mais rápida do mundo."
O artigo do jornal saiu no dia seguinte e o
redator incluíra minhas últimas declarações a respeito de tentar quebrar o
recorde mundial de mulher de fala mais rápida do mundo. Por volta das cinco
horas daquela tarde eu recebi um telefonema do show de televisão "Larry
King Live" chamando-me para participar. Eles queriam que eu tentasse bater
o recorde e disseram que me pegariam às oito porque queriam que eu fizesse
aquilo naquela noite!
Agora, eu nunca ouvira falar de "Larry
King Live" e quando ouvi a mulher dizer que eles eram do canal Manhattan,
pensei:
"Huum, isso é um canal pornô, certo?"
Mas ela me assegurou pacientemente que o programa era em cadeia nacional e que
a oferta era uma oportunidade única - e seria naquela noite ou nunca.
Fiquei olhando para o telefone. Eu tinha um
show em Nova Jersey aquela noite, mas não foi difícil descobrir qual dos dois
compromissos eu preferia cumprir. Tinha que encontrar um substituto para meu
show às sete horas da noite e comecei a telefonar para todos os comediantes que
conhecia. Pela graça de Deus, finalmente encontrei um que me substituiria e,
cinco minutos antes do prazo final, disse à mulher que poderia participar do
"Larry King Live".
Então sentei-me para tentar descobrir o que,
diabos, eu iria fazer no show. Telefonei para o Guiness para descobrir como
quebrar um recorde de fala rápida. Disseram que eu teria que recitar algo de
Shakespeare ou da Bíblia.
De repente comecei a dizer o salmo dezenove,
uma oração de proteção que minha mãe havia me ensinado. Shakespeare e eu nunca
nos déramos bem, então achei que a Bíblia era a única esperança. Comecei a
praticar e praticar, de novo e de novo.
Estava nervosa e animada ao mesmo tempo.
Às oito horas da noite, a limusine veio me
pegar. Pratiquei durante todo o caminho e, quando cheguei ao estúdio em Nova
York, estava com a língua presa. Perguntei à responsável:
- E se eu não quebrar o recorde?
- Larry não está preocupado se você vai ou não
quebrar o recorde - ela disse. - Ele só quer que você tente primeiro em seu
programa.
Então me perguntei: "Qual é a pior coisa
que pode acontecer? Fazer papel de tola em cadeia nacional! Uma coisinha de
nada", disse para mim mesma, achando que poderia sobreviver a isso.
"E se eu quebrasse o recorde?" Então decidi apenas dar o melhor que
podia, e assim fiz.
Quebrei o recorde, tornando-me a mulher de fala
mais rápida do mundo por falar 585 palavras em um minuto diante de uma
audiência em cadeia nacional de televisão. (Eu o quebrei novamente dois anos
depois, com 603 palavras em um minuto.) Minha carreira decolou.
As pessoas frequentemente me perguntam como fiz
aquilo.
Ou como consegui fazer as muitas outras coisas
que fiz, como dar uma palestra pela primeira vez, ou subir num palco pela
primeira vez, ou pular de bungee-jump pela primeira vez. Digo a elas que vivo
minha vida seguindo esta simples filosofia: sempre ,digo sim primeiro. Então
pergunto: "E agora, como é que eu vou fazer para conseguir isso?"
Depois me pergunto: "Qual é a pior coisa
que pode acontecer se eu não conseguir?" A resposta é: "Simplesmente
não consegui! E qual é a melhor coisa que pode acontecer?
Conseguir!" O que mais a vida pode lhe
pedir? Seja você mesmo e divirta-se!
Ou a vida é uma aventura ousada, ou não é nada.
HELEN KELLER
OBSTÁCULOS ILUSÓRIOS
HEIDI MAROTZ
Histórias Para Aquecer o Coração 169
Pernas. Nós corremos, esquiamos, escalamos
montanhas e nadamos sem pensar muito a seu respeito.
Meu marido Scott usara suas pernas para
conseguir bolsas de estudo através de campeonatos de esqui na faculdade e para
chegar ao topo do Grand Tetons, em Jackson Hole, Wyoming.
Então, sem nenhum aviso, durante um mês de
abril atipicamente quente, descobriu-se um tumor na espinha dorsal de Scott.
Disseram-nos que a morte, ou a paralisia, poderia ser o resultado final.
Nossos filhos - Chase, Jillian e Hayden -
variam em idade de sete a dois anos. Eles não entenderam realmente todas as
"coisas ruins" que estavam acontecendo - mas foram os maiores
torcedores e os melhores professores quando Scott descobriu que continuaria
vivo, mas que estava paralisado do tórax para baixo. Os adultos, às vezes,
ficam presos à imagem de como as coisas eram. Eu pensava sobre os acampamentos
que nunca faríamos, as montanhas que Scott nunca escalaria e a neve recém-caída
que ele nunca esquiaria com seus filhos.
Chase, Jillian e Hayden estavam muito ocupados
com as coisas da vida para ficarem atolados no que seu pai não podia fazer.
Ficavam de pé nas rodas da cadeira e gritavam de prazer enquanto ele apostava
corridas em calmos corredores de hospital.
Os médicos disseram para preparar Scott para uma
vida na cadeira de rodas, pois, se ele pensasse que iria andar de novo - e não
poderia -, ficaria deprimido. As crianças não deram ouvidos aos médicos.
Insistiam para que seu pai "tentasse ficar de pé". Eu ficava com medo
de que Scott caísse. As crianças riam com ele quando ele caía e rolava na
grama. Eu gritei, mas eles insistiram para que ele "tentasse
novamente".
No meio de todas essas mudanças em nossas
vidas, entrei para um curso de Desenho numa faculdade local. Durante uma
semana, o instrutor nos disse que não podíamos desenhar coisas, mas apenas o
espaço entre as coisas. Um dia, enquanto eu estava sentada debaixo de um enorme
pinheiro desenhando o espaço entre os galhos, comecei a ver o mundo como Scott
e as crianças o viam. Não vi os galhos como obstáculos que podiam impedir uma
cadeira de rodas de atravessar o gramado, vi todos os espaços que permitiam a passagem
de cadeiras de rodas, pessoas e até mesmo animais pequenos. Quando eu não
estava me concentrando nos galhos - ou nos obstáculos da vida - adquiria uma
nova visão de todos os espaços. Estranhamente, quer você desenhe os espaços ou
os galhos, o desenho parece ser basicamente o mesmo. É a forma como você o vê
que é diferente.
Quando passei a olhar os "espaços"
junto com minha família, um novo mundo se abriu. Não era o mesmo - às vezes
ficávamos frustrados -, mas era sempre compensador, pois estávamos trabalhando
juntos. Conforme experimentávamos todas essas novas aventuras, Scott começou a
ficar de pé e a andar com a ajuda de uma bengala. Ele ainda não sente nada na
parte inferior de seu corpo e nas pernas, não pode correr ou andar de
bicicleta, mas desfruta de muitas experiências novas.
Aprendemos que você não precisa sentir as
pernas para empinar uma pipa, jogar um jogo de tabuleiro, plantar uma árvore,
boiar em um lago na montanha ou frequentar aulas. As pernas não são necessárias
para abraçar, botar curativo em um corte ou acalmar alguém depois de um
pesadelo.
Algumas pessoas vêem barreiras na estrada.
Scott nos ensinou que barreiras são apenas desvios. Algumas pessoas vêem
galhos: Scott e as crianças vêem espaços abertos, grandes o suficiente para que
todo o amor e esperança que cabem no coração possam passar.
Nós apreciamos o calor porque já sentimos frio. Apreciamos
a luz porque já estivemos no escuro. Como prova do que digo, podemos
experimentar a felicidade porque já conhecemos a tristeza.
DAVID L. WEATHERFORD
OUSE IMAGINAR
MARILYN KING
Histórias Para Aquecer o Coração 172
Quando as pessoas descobrem que eu competi nas
Olimpíadas, presumem que sempre fui atleta. Mas não é verdade. Eu não era a
mais forte ou a mais rápida e não fui a mais rápida a aprender.
Para mim, tornar-me uma esportista olímpica não
foi desenvolver um dom de habilidade atlética natural, mas foi, literal mente,
um ato de vontade.
Nas Olimpíadas de 1972, em Munique, eu era um
membro da equipe americana de pentatlo, mas a tragédia dos atletas israelenses
e um ferimento em meu tornozelo, combinados, tornaram a experiência
profundamente desencorajadora. Não desisti. Ao invés, continuei treinando,
acabando por me qualificar para ir com a equipe americana para os jogos de
1976, em Montreal. A experiência foi muito mais prazerosa e fiquei emocionada
por ficar em décimo terceiro lugar. Mas, ainda assim, sentia que podia fazer
melhor.
Arranjei para tirar uma licença do meu emprego
como professora de Educação Física na universidade um ano antes das Olimpíadas
de 1980. Achei que doze meses de treinamento vinte e quatro horas por dia me
dariam a vantagem que eu precisava para trazer uma medalha para casa desta vez.
No verão de 1979 comecei a treinar intensivamente para as eliminatórias das
Olimpíadas a serem realizadas em junho de 1980. Senti a satisfação que surge
quando a mente está focalizada e sentimos um progresso contínuo em direção a um
objetivo que nos é caro.
Mas então, em novembro, o que parecia ser um
obstáculo intransponível aconteceu. Sofri um acidente de carro e machuquei a
região lombar. Os médicos não tinham certeza do que estava errado, mas tive que
parar de treinar porque não podia me mover sem sentir dores excruciantes.
Parecia óbvio demais que eu teria que abrir mão do meu sonho de ir para as
Olimpíadas se não pudesse continuar treinando. Todo mundo ficou com pena de
mim. Menos eu.
Foi estranho, mas nunca acreditei que este
contratempo iria me deter. Confiei que os médicos e fisioterapeutas resolveriam
logo o problema e que eu voltaria ao treinamento. Agarrava-me à afirmação:
estou ficando melhor a cada dia e ficarei entre os três primeiros nas
eliminatórias para as Olimpíadas. Isso passava constantemente pela minha
cabeça.
Mas meu progresso era lento e os médicos não
conseguiam concordar quanto ao tratamento. O tempo estava passando e eu
continuava sentindo dores, incapaz de me mover. Restando apenas alguns meses,
eu sabia que teria que fazer alguma coisa ou nunca conseguiria competir. Então
comecei a treinar da única maneira que podia - em minha cabeça.
Um pentatlo consiste de cinco eventos de
corrida e campo: 100 metros com barreira, arremesso de peso, salto com vara,
salto em distância e corrida dos 200 metros. Consegui filmes dos detentores dos
recordes mundiais em todos os meus cinco eventos.
Sentada em uma cadeira na cozinha, assisti aos
filmes projetados na parede de minha cozinha vezes sem conta. Eu os assistia em
câmara lenta ou quadro a quadro. Quando ficava entediada, assistia-os de trás
para frente, só para me divertir. Assisti-os durante centenas de horas,
estudando e absorvendo. Em outros momentos, deitava-me no sofá e visualizava a
experiência de competir em detalhes minuciosos. Sei que algumas pessoas
pensaram que eu estava maluca, mas eu ainda não estava pronta para desistir.
Treinei o máximo que pude - sem jamais mover um músculo.
Finalmente os médicos diagnosticaram meu
problema como hérnia de disco. Agora eu sabia por que doía tanto quando me
movia, mas ainda não podia treinar. Mais tarde, já podendo andar um pouco, fui
até a pista de corridas e fiz com que montassem todos os meus cinco eventos.
Mesmo não podendo praticar, ficava de pé na pista e imaginava na minha cabeça a
série completa de treinamento que eu teria feito naquele dia se fosse capaz.
Durante meses, imaginei-me repetidamente competindo e me qualificando nas eliminatórias.
Mas será que visualizar era o suficiente? Seria
realmente verdade que eu poderia me qualificar entre os três primeiros nas
eliminatórias para as Olimpíadas? Acreditei nisso de todo o coração.
Quando as eliminatórias realmente começaram, eu
havia melhorado apenas o suficiente para competir. Tomando muito cuidado para
manter quentes meus músculos e tendões, atravessei meus cinco eventos como se
estivesse em um sonho.
Depois, enquanto andava pelo campo, ouvi uma
voz no alto-falante anunciar o meu nome.
Fiquei sem ar, mesmo tendo imaginado a cena mil
vezes em meu pensamento. Senti uma onda de pura felicidade enquanto o locutor
dizia:
- Segundo lugar, pentatlo olímpico de 1980:
Marilyn King.
Os médicos me disseram que eu jamais andaria novamente,
mas minha mãe disse que eu andaria, então acreditei na
minha mãe.
WILMA RUDOLPH, "a mulher mais rápida do mundo",
três medalhas de ouro
nas Olimpíadas de 1960.
VOVÓ RUBY
LYNN ROBERTSON
Histórias Para Aquecer o Coração 176
Sendo mãe de dois meninos muito ativos, de um e
sete anos de idade, às vezes me preocupo que eles transformem minha casa
cuidadosamente decorada em um canteiro de demolição. Em meio a sua inocência e
às suas brincadeiras, de vez em quando derrubam meu abajur favorito ou
desarrumam meus arranjos bem planejados. Nesses momentos, quando nada parece
sagrado, lembro-me da lição que aprendi com minha sábia sogra, Ruby.
Ruby é mãe de seis e avó de treze. É a
encarnação da gentileza, da paciência e do amor.
Num Natal, todos os filhos e netos estavam
reunidos, como de costume, na casa de Ruby. Apenas um mês antes Ruby havia
comprado um lindo carpete branco, depois de viver com o mesmo carpete durante
vinte e cinco anos. Ficara felicíssima com o jeito novo que ele dava à casa.
Meu cunhado, Arnie, tinha acabado de distribuir
seus presentes entre todas as sobrinhas e sobrinhos - mel natural premiado de
seu apiário. Eles estavam superanimados. Mas quis o destino que a pequena
Sheena de oito anos de idade derramasse seu pote de mel no carpete novo da vovó
fazendo uma trilha escada abaixo por toda a casa.
Chorando, Sheena correu para a cozinha e para
os braços de Ruby.
- Vovó, eu derramei todo o meu mel em cima do
seu carpete novo.
Vovó Ruby ajoelhou-se, olhou carinhosamente nos
olhos chorosos de Sheena e disse:
- Não se preocupe, querida, podemos lhe arrumar
mais mel.
A OUTRA MULHER
DAVID FARREL
Histórias Para Aquecer o Coração 178
Após vinte e um anos de casamento, descobri uma
nova maneira de manter acesa a fagulha do amor e da intimidade no meu
relacionamento com minha esposa.
Comecei, recentemente, a sair com outra mulher.
Na realidade, foi idéia da minha esposa.
- Você sabe que a ama - ela disse um dia,
pegando-me de surpresa. - A vida é muito curta. Você precisa passar algum tempo
com as pessoas que ama.
- Mas eu amo você - protestei.
- Eu sei. Mas também a ama. Você provavelmente
não vai acreditar em mim, mas acho que, se vocês dois passarem mais tempo
juntos, isso será bom para nós.
Como sempre, Peggy estava certa.
A outra mulher com quem minha esposa estava me
encorajando a sair é minha mãe.
Minha mãe é uma viúva de setenta e um anos de
idade que vive sozinha desde que meu pai morreu, há dezenove anos. Logo depois
de sua morte, viajei quatro mil quilômetros para morar na Califórnia, onde
comecei minha própria família e minha carreira.
Quando voltei à minha cidade natal há cinco
anos, prometi a mim mesmo que passaria mais tempo com ela. Mas, de alguma
maneira, com as exigências de meu trabalho e três filhos, nunca cheguei a vê-Ia
fora das reuniões familiares e dos feriados.
Ela ficou surpresa e desconfiada quando
telefonei e sugeri que fôssemos jantar e depois ao cinema.
- O que aconteceu? Você vai se mudar para longe
com meus netos? - perguntou.
Minha mãe é o tipo de mulher que acha que
qualquer coisa fora do habitual- um telefonema tarde da noite ou um convite
surpresa para jantar feito por seu filho mais velho - significa más notícias.
- Achei que seria bom passar algum tempo com
você - eu disse. - Só nós dois.
Ela avaliou a observação por um instante.
- Eu gostaria disso - falou. - Gostaria muito.
Surpreendi-me nervoso enquanto dirigia para a
casa dela na sexta-feira depois do trabalho. Estava com a ansiedade do
pré-encontro - e só estava saindo com a minha mãe, pelo amor de Deus!
Sobre o que iríamos conversar? E se ela não
gostasse do restaurante que escolhi? Ou do filme? E se não gostasse de nenhum
dos dois?
Quando estacionei em frente à sua garagem,
percebi o quanto ela também estava nervosa com o nosso encontro. Estava me
esperando na porta, já de casaco. Tinha feito um penteado especial. Sorria.
- Eu disse para as minhas amigas que ia sair
com o meu filho e todas ficaram impressionadas - falou enquanto entrava no
carro. - Mal podem esperar até amanhã para ouvirem a respeito da nossa noite.
Não fomos a nenhum lugar chique, apenas um
restaurante do bairro, onde pudéssemos conversar. Quando chegamos lá, ela
agarrou meu braço - metade por carinho, metade para ajudá-Ia a subir os degraus
para o salão.
Sentamos e eu tive que ler o cardápio para nós
dois. Os olhos dela só vêem grandes formas e sombras. Já tinha lido metade das
entradas, quando olhei para cima. Mamãe estava sentada do outro lado da mesa,
olhando para mim. Tinha um sorriso pensativo nos lábios.
- Era eu quem lia o cardápio quando você era
pequeno disse.
Entendi imediatamente o que ela estava dizendo.
De responsável a dependente, de dependente a responsável, nossa relação se
invertera completamente.
- Então chegou a hora de você relaxar e me
deixar retribuir o favor - falei.
Conversamos agradavelmente durante o jantar.
Nada avassalador, apenas sobre nossas vidas. Conversamos tanto que perdemos o
filme.
- Saio com você novamente, mas só se você
deixar eu pagar o jantar da próxima vez - disse minha mãe quando a deixei em
casa. Concordei.
- Como foi o seu encontro? - minha esposa quis
saber quando cheguei em casa aquela noite.
- Bem... melhor do que eu esperava - respondi.
Ela deu seu sorriso eu-bem-que-disse.
Desde aquela noite, tenho tido encontros
regulares com minha mãe. Não saímos toda semana, mas tentamos nos ver pelo
menos duas vezes por mês. Sempre jantamos e às vezes assistimos a um filme. No
entanto, na maior parte das vezes apenas conversamos. Conto-lhe dos desafios
diários de meu trabalho. Conto vantagem a respeito de meus filhos e de minha
esposa. Ela atualiza meu conhecimento a respeito das fofocas da família com as
quais pareço nunca estar em dia.
Também me conta do seu passado. Agora eu sei
como foi para minha mãe trabalhar em uma fábrica durante a Segunda Guerra
Mundial. Sei como ela conheceu meu pai lá e como eles se cortejaram no bonde
durante aqueles tempos difíceis.
Ouvindo essas histórias percebi o quanto elas
significam para mim. São minhas histórias. Não me canso de ouvi-Ias.
Mas não conversamos apenas a respeito do
passado.
Também conversamos sobre o futuro. Por causa de
problemas de saúde, minha mãe se preocupa com os dias por vir.
- Tenho tanta coisa para viver - ela me disse
certa noite.
- Tenho que estar aqui enquanto meus netos
crescem. Não quero perder nem um pouquinho.
Como muitos amigos da minha geração, tenho a tendência
de viver correndo, enchendo ao máximo a agenda enquanto luto para fazer com que
a carreira, a família e os relacionamentos caibam na minha vida. Com freqüência
reclamo da velocidade com que o tempo passa. Passar algum tempo com a minha mãe
me ensinou a importância de diminuir o ritmo.
Finalmente entendi o significado de um termo
que ouvi um milhão de vezes: qualidade de vida.
Peggy estava certa. Sair com outra mulher
realmente ajudou meu casamento. Fez de mim um marido e um pai melhores e,
espero, um filho melhor.
Obrigado, mamãe. Eu te amo.
O QUE HÁ DE ERRADO COM SEU PAI?
CAROL DARNELL
Histórias Para Aquecer o Coração 183
Eu estava no ginásio antes de perceber que meu
pai tinha um defeito de nascença. Ele tinha lábio leporino e fenda palatina,
mas, para mim, continuava com a mesma aparência que tinha no dia em que nasci.
Lembro-me de dar-lhe um beijo de boa noite certa vez, quando eu era pequena, e
perguntar se meu nariz ficaria chato depois de uma vida inteira dando beijos.
Ele me assegurou que isso não aconteceria, mas me recordo de um tremor em seus
olhos. Tenho certeza de que ele estava assombrado por ter uma filha que o amava
tanto, que pensava que seus beijos, não trinta e três cirurgias, haviam
remodelado seu rosto.
Meu pai era gentil, paciente, atencioso e
amoroso. Ele nunca encontrou uma pessoa na qual não pudesse vislumbrar
qualidades. Sabia o primeiro nome de serventes, secretárias e diretores. Na
verdade, acho que ele gostava mais dos serventes.
Sempre perguntava sobre suas famílias, sobre
quem eles achavam que iria ganhar o campeonato de futebol e sobre como andava a
vida. Preocupava-se o suficiente para escutar suas respostas e lembrar-se
delas.
Papai nunca deixou que sua deformação
comandasse sua vida. Quando foi considerado muito feio para trabalhar com
vendas, começou a fazer entregas de bicicleta e criou sua própria clientela.
Quando o exército não permitiu que ele se alistasse, ele se ofereceu como
voluntário. Chegou até mesmo a convidar uma Miss América para sair, uma vez.
- Se você não perguntar, nunca vai saber -
disse-me mais tarde.
Raramente falava ao telefone, pois as pessoas
tinham dificuldades 'para entendê-lo. Quando o encontravam pessoalmente, com
sua atitude positiva e sorriso fácil, pareciam não levar sua deficiência em
consideração. Casou-se com uma linda mulher e tiveram sete crianças saudáveis,
que achavam, todas, que o sol e a lua nasciam em seu rosto.
Quando eu era uma "adolescente
sofisticada”, entretanto, mal tolerava estar no mesmo aposento com este homem
que, durante uma década, me aturou enquanto eu o observava fazendo a barba
todas as manhãs. Meus amigos eram chiques, na moda e populares; meu pai era
velho e ultrapassado.
Numa noite eu cheguei com o carro cheio de
amigos e paramos na minha casa para fazer um lanche de madrugada.
Meu pai saiu de seu quarto e cumprimentou meus
amigos, servindo refrigerantes e fazendo pipoca. Um de meus amigos me puxou
para o lado e me perguntou:
- O que há de errado com seu pai?
De repente, olhei através da cozinha e o vi
pela primeira vez com olhos imparciais. Fiquei chocada. Meu pai era um monstro!
Fiz com que todos saíssem imediatamente e levei-os para casa. Senti-me tão
idiota. Como podia ter deixado de ver?
Mais tarde, naquela noite, eu chorei, não
porque percebi que meu pai era diferente, mas porque percebi que pessoa difícil
e patética eu estava me tornando. Ali estava a pessoa mais doce e carinhosa que
você poderia pedir e eu o havia julgado por sua aparência.
Naquela noite eu aprendi que, quando você ama
totalmente alguém e então a vê através dos olhos da ignorância, do medo ou do
desprezo, começa a entender a profundidade do preconceito. Eu havia visto meu
pai como os estranhos o viam, como alguém diferente, deformado e anormal. Sem
me lembrar que ele era uma boa pessoa que amava sua esposa, seus filhos e seus
semelhantes. Ele tinha alegrias e tristezas e já vivera uma vida inteira sendo
julgado pelas pessoas por sua aparência. Fiquei grata por tê-lo conhecido primeiro,
antes que as pessoas me mostrassem seus defeitos.
Papai já se foi. Empatia, compaixão e
preocupação pelo próximo são o legado que ele me deixou. São os maiores
presentes que os pais podem dar a um filho - a capacidade de amar os outros sem
considerar sua posição social, raça, religião ou incapacidades físicas, mas os
dons da perseverança positiva e do otimismo. O sublime objetivo de ser tão
amorosa em minha vida que receba beijos o ,bastante para que meu nariz fique
chato.
"Alguém já disse: ''é importante gastar menos tempo
com a nossa aparência e mais tempo com como nós vemos"? Se não, alguém
deveria".
CARMEN RICHARDSON RUTLEN
UM CONTO DE NATAL
DESCONHECIDO
Histórias Para Aquecer o Coração 2 15
Eu estava em São Francisco, a poucos dias do
Natal. As lojas já começavam a ficar entupidas e multidões esperavam
impacientemente pelos ônibus e bondes no fim da tarde.
Quase todo mundo carregava pilhas de pacotes, e
o cansaço era tanto, que eu comecei a me perguntar se os inúmeros amigos e
parentes mereciam mesmo aqueles presentes e tanto sacrifício. Esse não era bem
o espírito de Natal que eu desejava.
Finalmente fui literalmente empurrada para
dentro de um bonde superlotado, e a ideia de ficar ali como sardinha em lata
até chegar em casa foi se tornando insuportável. O que eu não daria por um
lugar sentada!
À medida que algumas pessoas foram descendo,
consegui respirar melhor e comecei a notar os outros passageiros. Com o canto
do olho, vi um menino pequeno, de pele escura – não podia ter mais do que seis
anos -, puxando a manga de uma mulher e perguntando: "Quer se
sentar?" Ele a levou até o assento vago mais próximo e partiu em busca de
outra pessoa cansada. Assim que um cobiçado lugar surgia, ele rapidamente se
enfiava em meio àquela massa humana para procurar mais uma mulher carregada de
pacotes e levava-a até o assento.
Finalmente, quando senti um puxão em minha
própria manga, já estava completamente fascinada pelo menino. Ele me pegou pela
mão e com um sorriso do qual jamais vou me esquecer disse: "Venha
comigo." Mal tive tempo de agradecer, pois ele já partia em busca de mais
uma necessitada.
Os passageiros do bonde, que em geral viajavam
olhando para a frente e evitando os olhares dos vizinhos, começaram a trocar
sorrisos. Uma mulher comentou comigo o cansaço que sentia, e três pessoas se
abaixaram ao mesmo tempo para apanhar um pacote que caíra no chão. Em pouco
tempo, as pessoas conversavam. Aquele menininho havia realmente mudado alguma
coisa - todos nós nos sentíamos envolvidos num sutil sentimento de aconchego e
o resto do percurso foi puro prazer.
Não percebi o menino descer. Quando olhei, ele
não estava mais ali. Quando cheguei ao meu ponto, saltei do bonde pisando nas
nuvens e desejei sinceramente ao motorista "Feliz Natal". Pela
primeira vez percebi como as casas de minha rua estavam lindamente iluminadas e
pensei em reunir os vizinhos para um chá antes do fim do ano. Eu me sentia de
bem com o mundo, feliz com os presentes que comprara e com a alegria que eles
dariam.
E de repente o Natal deixou de ser uma
estressante festa de consumo para adquirir seu verdadeiro sentido. Mais uma vez
eu era um menino que, com seu gesto de amor anunciava nossa verdadeira vocação.
O SEGREDO DA PLUMA
MELODY ARNETT
Histórias Para Aquecer o Coração 2 18
Na quinta série, eu me sentava na terceira
fileira da esquerda para a direita, a segunda se contasse de frente para trás,
com as mãos cruzadas e os pés no chão. O pastor Beikman nos recitava os
mandamentos todas as manhãs, como uma primeira refeição que nós mastigávamos,
engolíamos e - principalmente - temíamos. Eram esses os fundamentos da minha
educação em criança: estudar, decorar, repetir.
Os ensinamentos da escola paroquial
sedimentaram em mim princípios e convenções num mundo em que os homens eram
prestigiados e as mulheres, consideradas invisíveis. Os homens descobriam novas
terras, explicavam novas teorias e as leis do universo, além de terem escrito a
Bíblia. Mas foi uma mulher que estimulou o meu espírito e me convidou a lançar
sobre a vida um olhar mais profundo, a amar sinceramente e a reconhecer Deus em
todas as coisas.
Uma manhã o pastor anunciou que estava trocando
de função e deixando o comando da escola. Apresentou-nos a professora
substituta, a senhorita Newhart, e um murmúrio agitado percorreu a sala. Uma
mulher alta, com um penteado que mais parecia uma colmeia, sapatos de
plataforma e uma saia que quase mostrava os joelhos, a senhorita Newhart era
enérgica e suave ao mesmo tempo. Falava com as mãos, grandes e sardentas, e com
gestos largos. De uma bolsa, quase uma mala, tirou plumas que distribuiu aos
alunos, dizendo-nos que eram presentes enviados pelos donos originais -
pássaros que haviam posto fora a plumagem em excesso, deixando para trás coisas
que não precisavam mais carregar. Naquela manhã, nosso mundo mudou - e logo
alguma coisa também mudaria em nós.
Na aula de história daquele dia, a senhorita
Newhart nos contou a história de Cristóvão Colombo. Estando no mar há muito
tempo, seus marinheiros se rebelaram e queriam desembarcar. Falava-se em motim,
Colombo temia pela própria vida. Então, num amanhecer, uma pluma caiu do céu,
indicando que se aproximavam de terra firme. A senhorita Newhart contou que os
marinheiros viram mais gaivotas guinchando e rodopiando no ar. Para ilustrar o
voo das gaivotas, ela dramaticamente arremessou os braços, fazendo tremular a
pele sardenta e roliça de seu tríceps. Rodou em círculos velozmente, girando os
pés, fazendo a saia bater nas pernas. Parecia que ia levantar voo. A senhoria
Newhart me ajudou a ver o mesmo que aqueles marinheiros devem ter descoberto:
há esperança até na menor das coisas.
Na manhã seguinte, a bolsa da senhorita Newhart
estava cheia até em cima. Dentro, um pôster da Última Ceia, um pincel, um
compasso e um tubo comprido e cilíndrico. Do tubo ela tirou um desenho em preto
e branco e o pregou no quadro. Era um círculo, dentro do qual havia um homem,
braços totalmente abertos, tocando a circunferência, os pés afastados na parte
de baixo. Dimensões, figuras, desenhos e números estavam rabiscados por toda a
folha. "Da Vinci", ela disse num sussurro, "era mais do que um
pintor. Ele estudava os assuntos até saber tudo sobre eles: o homem, a
natureza, ciências, matemática...
"Ele sabia alguma coisa sobre
plumas?", perguntei. A professora de cabelo de colmeia adorou a pergunta.
Pioneiro na ciência da aerodinâmica, Leonardo
da Vinci estudou as plumas. Quando vista do alto, uma pluma parece convexa,
arqueada delicadamente para cima e para fora, deixando o ar passar sem oferecer
resistência. Quando as plumas estão juntas, como numa asa, criam um aerofólio,
algo que oferece a resistência certa ao ar. A senhorita Newhart, que era mais
do que uma professora, e da Vinci, que era mais do que um pintor, me mostraram
como ver o extraordinário mesmo em algo bem pequeno.
Mais tarde, no mesmo dia, a senhorita Newhart
levou-nos a um campo fora dos muros da escola. Lá nos deitamos no chão,
cobrimos nossos corpos com folhas, galhos e gravetos.
O campo se tornou nosso refúgio, nossa janela
para o céu.
Naquele lugar só nosso aprendíamos a ficar
quietos, descansar, observar, deixando os besouros rastejarem por cima de nós,
prestando atenção nos pássaros e estudando seus movimentos.
À saída da escola, a senhorita Newhart ficava
na porta tocando o ombro de cada aluno e dizendo "Até amanhã" ou ...
Deus o abençoe". Lembro como suas mãos eram quentes e leves. Muitas vezes
me pedia para ficar mais um pouco, arrumar carteiras, jogar fora papéis velhos
ou apagar o quadro.
Durante uma daquelas tardes abençoadas, dividi
com a senhorita Newhart um problema que eu mantinha em segredo. Contei-Ihe que
eu amava os pássaros mais do que amava a Deus, o que era um pecado, segundo os
mandamentos. Minha professora procurou a Bíblia em sua mesa, abriu-a no Livro
dos Salmos e leu: Ele te cobrirá com suas plumas e debaixo de suas asas te
abrigará; sua fidelidade é escudo e couraça. Ela escreveu o pequeno verso e me
entregou o papel. Ainda o tenho comigo.
Eu não sabia o significado da palavra couraça -
isso não tinha a menor importância -, mas aprendi uma coisa fundamental para
minha vida: eu tinha permissão para amar as coisas profundamente, porque Deus
está em todas as coisas e me presenteou com elas. Indo para casa naquela tarde,
pensei que eu seria capaz de voar. Corri, braços esticados, pernas para trás,
deslizando sobre as calçadas, como se fosse um pássaro.
No pescoço, eu uso um pássaro, um berloque de
ouro que ganhei quando criança. As asas do pássaro se tornaram um símbolo.
Fazem-me lembrar do voo nas calçadas há tantos anos e das estradas que percorri
desde então. E, à medida que os anos passaram, eu também me tornei um pouco
pluma: ofereço menos resistência aos sacrifícios que a vida impõe e suporto
melhor as dificuldades.
Como professora, guiei muitas crianças através
das águas às vezes turbulentas das frações, das leituras e das dúvidas sobre a
capacidade de fazer alguma coisa. Eu as conduzi a salvo até a praia quando
estavam perdidas. Aprendi, de vez em quando, a descansar em lugares tranquilos
e a deixar para trás as coisas que não preciso mais carregar, como
ressentimentos, mágoas e decepções.
Tenho força interior, um modo tranquilo de ser
e acredito, do fundo do coração, que poderei suplantar todas as dificuldades.
Todas as coisas mais cheias de amor nos chegam de maneira
simples,
é o que me parece.
EDNA ST. VINCENT MILLAY
ASSUMINDO O DESAFIO
MAGI HART
Histórias Para Aquecer o Coração 2 23
Trabalhar em um hospital com vítimas recentes de
derrames cerebrais era presenciar situações extremas, uma questão de tudo ou
nada. Ou eles estavam felizes por estarem vivos ou simplesmente queriam morrer.
Bastava olhar para saber.
Aprendi muita coisa com Albert sobre derrames
cerebrais.
Encontrei-o pela primeira vez, todo curvado na
cama em posição fetal, numa tarde em que fazia a ronda dos doentes. Um homem
pálido, velho, ressequido, parecendo morto, a cabeça meio escondida pelo
cobertor. Nem se mexeu quando me apresentei e não disse uma palavra sequer
quando lhe disse que o jantar viria logo.
No posto de enfermagem, um funcionário
forneceu-me alguns dados sobre ele. Não tinha ninguém. Já vivera muito.
A mulher com quem fora casado durante trinta
anos tinha morrido, os cinco filhos tinham saído de casa.
"Bem", pensei, "talvez eu
consiga ajudar." Na época eu era uma enfermeira cheia de corpo mas
vistosa, uma mulher divorciada que evitava a população masculina fora do
trabalho. Quem sabe eu poderia fazer alguma coisa? Resolvi flertar. No dia
seguinte, em vez do uniforme de enfermeira usei um vestido branco. Luzes
apagadas. Cortinas cerradas.
Albert nem se mexeu quando me aproximei. Puxei
a cadeira para perto de sua cama, cruzei minhas pernas, inclinei a cabeça e
dirigi-lhe um sorriso perfeito.
"Deixe-me em paz. Quero morrer."
"Que pecado, com tantas mulheres sozinhas
por aí." Albert pareceu aborrecido. Fingindo não notar, comecei a
tagarelar dizendo como gostava de trabalhar na unidade de reabilitação, porque
lá tinha a oportunidade de observar as pessoas atingindo seu potencial máximo.
Era um lugar cheio de possibilidades. Ele ficou calado.
Dois dias mais tarde, na troca de turnos, eu
soube que Albert tinha perguntado quando eu estaria trabalhando. A enfermeira
referia-se a ele como meu "namorado" e o apelido pegou. Nunca o
contestei. Quando saía do quarto dele, eu dizia aos outros lá fora para
cuidarem bem do "meu Albert". Dentro de pouco tempo, ele concordou em
sentar-se na beirada da cama para exercitar a resistência, a energia e o
equilíbrio. Consentiu em "trabalhar" com a fisioterapia se eu
voltasse "para conversar".
Dois meses depois, Albert estava usando um
andador. No terceiro mês, passou para a bengala. Às sextas-feiras comemorávamos
as altas dos pacientes com um churrasco. Quando chegou a vez dele, Albert e eu
dançamos ao som de canções de Edith Piaf. Foi um parceiro meio desajeitado, mas
era ele quem guiava. Nossos rostos estavam molhados de lágrimas quando nos
despedimos.
De vez em quando chegavam ao hospital rosas,
crisântemos e ervilhas-de-cheiro de presente para mim. Ele estava trabalhando
em seu jardim outra vez.
Então, numa tarde, uma linda mulher vestida de
azul-Iavanda "pareceu em nossa unidade do hospital procurando por
"aquela enfermeira assanhada”.
Minha chefe mandou chamar-me; eu estava dando
banho em um doente.
"Então, é você! A mulher que fez meu
Albert voltar a lembrar que ele é um homem!" Abriu um amplo sorriso e me
entregou um convite de casamento.
Sou um só, mas ainda assim sou um; não posso fazer tudo,
mas ainda assim posso fazer alguma coisa; e não é porque
não posso fazer tudo que vou deixar de fazer o que posso.
EDWARD EVERETT HALE
O OUTRO LADO DAS PESSOAS
LOUISE DICKINSON RICH
Histórias Para Aquecer o Coração 2 32
Minha avó tinha uma inimiga chamada senhora
Wilcox. Elas se mudaram, recém-casadas, para casas vizinhas numa pequena cidade
onde tinham ido viver. Não sei quem começou a guerra - foi muito antes de eu
nascer - e não sei se quando eu nasci, uns trinta anos depois, elas mesmas se
lembravam de quem começara.
Mas o duro embate continuava, com amargas
batalhas.
Era uma contenda travada sem um pingo de
educação. Era uma guerra entre senhoras, o que significa guerra total. Nada' na
cidade escapou das conseqüências. A igreja de trezentos anos, que sobrevivera à
Revolução e à Guerra Civil, quase foi ao chão quando vovó e a senhora Wilcox
travaram a batalha pela presidência da Liga das Senhoras. Vovó ganhou este
combate, mas foi uma vitória sem valor, pois a senhora Wilcox, derrotada,
demitiu-se da Liga num acesso de raiva. E qual é a graça de dirigir alguma
coisa se você não pode humilhar sua inimiga mortal?
A senhora Wilcox venceu a batalha da Biblioteca
Pública, e conseguindo que a sobrinha Gertrude fosse indicada como
bibliotecária no lugar de minha tia Phyllis. No dia em que Gertrude assumiu o
posto, vovó parou de apanhar livros na biblioteca - dizendo que estavam
"cheios de germes" - e começou a comprar os livros que queria ler.
A batalha da Escola Secundária terminou
empatada. O diretor conseguiu um emprego melhor e saiu antes que a senhora
Wilcox o tirasse de lá ou vovó conseguisse mantê-lo lá para sempre.
Além dessas batalhas mais sérias, aconteciam
constantes ataques e recuos na linha de tiro. Quando éramos crianças e
visitávamos vovó, parte da diversão consistia em fazer caretas para os
terríveis netos da senhora Wilcox - que revidavam com igual virulência - e
roubar uvas do lado da cerca dos Wilcox.
Corríamos atrás das galinhas e púnhamos
bombinhas nos trilhos do bonde bem em frente à casa dos Wilcox com a doce
esperança de que, ao passar, o bonde provocasse uma explosão que fizesse a
senhora Wilcox morrer de susto.
Num dia histórico, pusemos uma cobra na calha
de chuva 5 dos Wilcox. Minha avó ainda ensaiou um protesto, mas sentimos sua
solidariedade tácita, bem diferente dos veementes "nãos" de mamãe, e
prosseguimos na nossa carreira de crianças endiabradas.
Não pensem nem por um minuto que só havia um
lado da guerra. Lembrem-se de que a senhora Wilcox também tinha netos bem mais
valentões e espertos do que os netos de vovó. Os pestinhas puserem gambás no
porão de sua casa e esta foi a agressão mais suave. O fato é que qualquer
incidente na casa de vovó sempre foi atribuído aos Wilcox.
Não sei como vovó poderia ter suportado todos
esses problemas se não fosse pelo caderno feminino do jornal diário de Boston.
A página era uma instituição maravilhosa. Além das
usuais dicas de cozinha e conselhos sobre limpeza, havia uma seção de troca de
cartas para que as leitoras pudessem desabafar seus problemas. Para que o
anonimato fosse mantido, as cartas vinham assinadas com um pseudônimo. O de
vovó era Arbusto.
Outras leitoras que tivessem o mesmo problema
respondiam, dando a solução encontrada e também usando seus pseudônimos, como
Aquela que Sabe, X ou qualquer outro. Muitas vezes, exposto o problema, as
leitoras ficavam trocando cartas por anos através do jornal, falando sobre
filhos, doces em conserva ou a mobília nova da sala de jantar.
Foi isso o que aconteceu com vovó. Ela e uma
mulher chamada Gaivota se corresponderam por vinte e cinco anos, e vovó dizia a
Gaivota coisas que jamais confessara a ninguém como a vez em que contou que
pensava estar grávida (e não estava) ou quando meu tio Steve pegou piolho na
escola e vovó ficou profundamente humilhada. Gaivota era sua amiga do coração.
Quando eu tinha dezesseis anos, a senhora
Wilcox morreu.
Numa cidade pequena, mesmo que você deteste a
vizinha, faz parte das regras de educação se oferecer para ajudar a família
enlutada no que for necessário.
Vovó atravessou o gramado, deu os pêsames às
filhas da senhora Wilcox e começou a ajudá-las a limpar a já imaculada sala de
visitas para o funeral. De repente, viu aberto sobre uma mesa, num lugar de
destaque, um enorme álbum de recortes. Para seu mais absoluto estarrecimento
ali estavam coladas, em colunas paralelas, as cartas dela para Gaivota e as de
Gaivota para ela.
A maior inimiga de vovó fora, na verdade, sua
melhor amiga.
Foi a única vez que me lembro de ter visto
minha avó chorar. Eu não sabia naquela época por que ela estava chorando, mas
agora eu sei. Chorava por todos os anos perdidos que não poderiam ser
recuperados. Naquele momento, fiquei tão impressionada com as lágrimas de minha
avó, que não me dei conta da descoberta fundamental que começava a fazer. Uma
descoberta que se transformou em convicção e que tem me ajudado imensamente a
viver:
* As pessoas podem parecer insuportáveis. Podem
parecer egoístas, mesquinhas e hipócritas. Mas, se não procurarmos olhá-Ias sob
outra perspectiva, nunca seremos capazes de descobrir que são também generosas,
amorosas e bondosas. E, se não Ihes dermos a oportunidade de revelarem seus
aspectos positivos, ficaremos para sempre privados do bem que eles podem nos
proporcionar.
INFORMAÇÕES, POR
FAVOR!
Paul Villiard
Histórias Para Aquecer o
Coração 2 39
Quando eu era criança, minha família era
proprietária de um dos primeiros telefones da vizinhança. Eu me lembro bem da
caixa de carvalho instalada na parede embaixo da escada. O fone reluzente
ficava dependurado do lado da caixa. Lembro-me até do número: 105. Eu era
pequeno demais para alcançar o telefone, mas costumava ouvir, fascinado, quando
minha mãe o utilizava. Certa vez, ela me levantou para que eu pudesse falar com
meu pai que estava viajando a negócios. Foi um momento mágico!
Depois, descobri que, em algum lugar dentro
daquele aparelho sensacional, morava uma pessoa maravilhosa. O nome dessa
pessoa era "Informações, por Favor! ", e não havia nada que ela não
soubesse.
Minha mãe sempre recorria a ela para saber o
número do telefone de alguém; quando nosso relógio não funcionava,
"Informações, por Favor!" fornecia imediatamente a hora certa.
Minha primeira experiência pessoal com aquele
"gênio da caixa" ocorreu, certo dia, quando minha mãe se encontrava na
casa de uma vizinha. Enquanto eu brincava com a caixa de ferramentas no porão,
dei uma martelada no dedo. A dor foi terrível, mas de nada adiantava chorar
porque não havia ninguém em casa para me consolar. Caminhei pela casa chupando
o dedo machucado até chegar perto da escada. O telefone! Corri para pegar o
banquinho na sala de visitas e arrastei-o para perto do telefone. Subi no
banquinho, tirei o fone do gancho e encostei-o na orelha.
- Informações, por Favor! - eu disse, tentando
alcançar o bocal, um pouco acima de minha cabeça.
Após um clique ou dois, uma voz clara falou ao
meu ouvido:
- Informações.
- Eu machuquei o dedo - choraminguei ao
telefone.
Agora que eu tinha com quem falar, as lágrimas
começaram a correr.
- Sua mãe não está em casa? - foi a pergunta.
- Não, estou sozinho - respondi por entre as
lágrimas.
- Está saindo sangue?
- Não. Dei uma martelada no dedo e está doendo.
- Você sabe abrir a geladeira? - ela perguntou.
Respondi que sabia.
- Então, pegue um pedacinho de gelo e segure-o
em cima do dedo.
Vai parar de doer. Mas tome cuidado com o gelo
- ela me advertiu. E não chore. Vai dar tudo certo.
Depois disso, passei a ligar para
"Informações, por Favor!", para conseguir qualquer coisa. Pedi ajuda
para minhas lições de geografia, e ela me disse onde ficava a cidade de
Filadélfia e o Orinoco o romântico rio que eu viria a explorar quando
crescesse. Ela me ajudou na aritmética e me contou que o esquilo - que eu
pegara no parque no dia anterior - comia frutas e nozes.
E chegou o dia em que Peter, nosso canarinho,
morreu. Liguei para "Informações, por Favor!" e lhe contei minha
triste história.
Ela ouviu e repetiu aquelas palavras que os
adultos costumam dizer para consolar uma criança. Mas eu estava inconsolável:
Por que os passarinhos, que cantam tão bonito e alegram a família inteira,
acabam se transformando em um montinho de penas com os pés para cima no fundo
de uma gaiola?
Ela deve ter percebido a intensidade de minha
tristeza, porque disse em voz baixa:
- Paul, lembre-se sempre de que existem outros
mundos em que podemos cantar.
Eu me senti melhor.
No dia seguinte, lá estava eu ao telefone.
- Informações - disse a voz que eu agora
conhecia bem.
- Como se escreve "consertar"? -
perguntei.
- No sentido de consertar alguma coisa?
C-O-N-S-E-R-T-A-R.
Naquele momento, minha irmã, que tinha o
péssimo hábito de me assustar, saltou da escada em minha direção e gritou:
- Iaaaaaaa!
Eu caí do banquinho e arranquei, sem querer, o
fone da caixa com todos os fios. Minha irmã e eu ficamos aterrorizados.
"Informações, por Favor!" não respondia mais, e eu não sabia se a
magoara por ter arrancado o fone da caixa.
Minutos depois, apareceu um homem na varanda.
- Sou funcionário da companhia telefônica. Eu estava
trabalhando lá embaixo, nesta rua, e a telefonista me disse que deve haver
algum problema com este número de telefone. - Ele pegou o fone da minha mão e
perguntou:
- O que aconteceu?
Eu lhe contei o que havia acontecido.
- Bem, podemos resolver esse problema em um
minuto ou dois.
Ele abriu a caixa do telefone, deixando à
mostra uma confusão de fios e molas, e começou a mexer no fio principal do
telefone, prendendo tudo com uma pequena chave de fenda. Depois de levantar e
abaixar o gancho algumas vezes, ele falou ao telefone.
- Oi, aqui é Pete. Está tudo em ordem com o
105. A irmã do garoto o assustou, e ele puxou os fios da caixa.
O homem desligou, sorriu, deu um tapinha em
minha cabeça e atravessou a porta.
Tudo isso aconteceu em uma cidadezinha a
noroeste do Pacífico.
Quando eu tinha nove anos, mudamos para Boston
- do outro lado do país -, e passei a sentir falta de minha mentora.
"Informações, por Favor!" pertencia àquela velha caixa de madeira da
outra casa, e eu nunca pensei em tentar procurá-la naquele novo e imponente
telefone que ficava na mesinha do hall.
Mesmo quando cheguei à adolescência, as
lembranças daquelas conversas dos tempos de infância nunca me abandonaram; em
momentos de dúvidas e dificuldades, eu me lembrava da voz serena que me
transmitia segurança quando eu ligava para "Informações, por Favor!"
e obtinha a resposta certa. Hoje eu entendo a paciência, a compreensão e a
bondade daquela pessoa que perdia o seu precioso tempo com um garotinho.
Alguns anos mais tarde, quando eu estava a
caminho da faculdade, no Oeste, meu avião pousou em Seattle. A conexão com o
voo seguinte levaria cerca de meia hora. Passei 15 minutos ou mais ao telefone
conversando com minha irmã, que agora era uma senhora casada, mãe e se sentia
feliz. Em seguida, sem pensar no que estava fazendo, disquei para a telefonista
de minha cidade natal e disse:
- Informações, por Favor!
Como se fosse um milagre, ouvi novamente a voz
clara e firme, que eu conhecia tão bem:
- Informações.
Eu não tinha planejado nada, mas me ouvi
dizendo:
- Por favor, poderia me informar como se
escreve a palavra " consertar"?
Depois de uma longa pausa, ouvi a voz delicada
responder:
- Acho - disse "Informações, por
Favor!" - que seu dedo já deve estar curado.
Eu ri.
- Quer dizer que você continua aí. Acho que
você não faz ideia do significado que teve em minha vida durante todo aquele
tempo...
- Acho - ela replicou - que você não sabe o
significado que teve em minha vida. Não tive filhos e ficava aguardando,
ansiosa, suas ligações. Bobagem, não?
Não era bobagem, mas eu não disse isso. Eu lhe
contei que pensei nela com muita frequência durante aqueles anos e perguntei se
poderia ligar novamente quando voltasse a visitar minha irmã, depois do
encerramento do primeiro semestre.
- Por favor, ligue. Peça para falar com Sally.
- Até logo, Sally. - Parecia estranho que
"Informações, por Favor!" tivesse nome. - Se eu encontrar algum
esquilo, vou dizer a ele para comer frutas e nozes.
- Faça isso - ela disse. - E espero que num
desses dias você vá conhecer o Orinoco. Bem, até logo.
Três meses depois, eu estava de volta ao
aeroporto de Seattle. Uma voz diferente atendeu:
- Informações.
Pedi para falar com Sally.
- Você é amigo dela?
- Sim - respondi. - Um velho amigo.
- Lamento muito informar, mas Sally só
trabalhava meio expediente nos últimos anos porque estava muito doente. Ela
morreu há cinco semanas.
Antes que eu tivesse tempo de desligar, ela
continuou:
- Espere um momento. Você disse que seu nome é
Villiard?
-Sim.
- Bem... Sally deixou um recado escrito para
você.
- Que recado? - perguntei, quase adivinhando do
que se tratava.
- Aqui está. É o seguinte: "Diga a ele que
eu continuo a achar que existem outros mundos em que podemos cantar. Ele vai
entender." Agradeci e desliguei. Eu entendi o que Sally quis dizer.
AS VELAS DO SABÁ
MARSHA ARONS
Histórias Para Aquecer o Coração 2 45
Uma sexta-feira por mês, na parte da manhã, dou
um plantão no hospital da minha cidade, distribuindo velas do Sabá para as
pacientes judias. Pela tradição, as mulheres judias saúdam o Sabá acendendo
velas, mas, como há risco de incêndio, nós oferecemos velas elétricas que se
acendem na tomada no início do Sabá judeu, na sexta-feira, ao' cair do sol. O
Sabá termina no sábado à noite. No domingo de manhã, recolho as velas e as
guardo até a sexta-feira seguinte, quando outra voluntária estará encarregada da
distribuição.
Numa sexta-feira de manhã, numa das
enfermarias, conheci uma senhora bem idosa. Seu cabelo curto era branco e fofo,
sua pele, amarelada e enrugada. Ela parecia pequena na cama, o cobertor puxado
até debaixo dos braços e as mãos descansando sobre a coberta, velhas e
retorcidas, mãos cheias de experiência. Mas seus olhos eram claros e azuis e,
quando ela me cumprimentou, a voz era surpreendentemente vigorosa. Seu nome era
Sara Cohen.
Ela disse que estava me esperando, que nunca
deixava de acender velas em casa e que bastava eu colocá-las na tomada ao lado
da cama, onde pudesse alcançar. Ficou claro que ela estava familiarizada com a
rotina.
Fiz o que ela pediu e lhe desejei um bom Sabá.
Quando me virei para sair, ela disse serenamente: "Espero que os meus
netos cheguem a tempo de se despedirem de mim." Senti um choque com a maneira
pela qual ela falava da iminência de sua morte. Toquei de leve sua mão e disse
que eu também esperava que eles chegassem a tempo.
Quando saí do quarto, quase esbarrei numa jovem
que parecia ter uns vinte anos. Ainda ouvi a senhora Cohen dizer:
"Malka, fico feliz de você ter vindo. Onde
está David?" Continuei a ronda, pensando se David também chegaria a tempo.
Acho que, de alguma forma, cada uma dessas mulheres me lembra a minha mãe
quando estava no hospital. É triste pensar na dor de quem vai perder um ente
querido. Acho que foi por isso que fui trabalhar como voluntária.
Durante todo o Sabá eu não consegui parar de
pensar na senhora Cohen e seus netos. No domingo de manhã, voltei ao hospital
para recolher as velas. Quando me aproximei do quarto da senhora Cohen, vi sua
neta sentada do lado de fora. Ela olhou em minha direção ao ouvir o barulho do
carrinho.
"Por favor", ela pediu, "a
senhora pode deixar as velas por apenas mais algumas horas?"
Fiquei surpresa com o pedido, mas ela explicou.
Disse que a avó ensinara a ela e ao irmão, David, tudo o que eles sabiam sobre
a religião. Os pais dos dois se separaram quando as crianças ainda eram
pequenas e, como trabalhavam muito, deixavam os filhos com a avó na maioria dos
fins de semana.
"Ela preparava o Sabá para nós",
disse Malka. "Ela cozinhava, deixava tudo limpo e a casa brilhava e
cheirava de um jeito... tão especial que nem consigo explicar. Meu irmão e eu
encontrávamos em sua casa uma coisa que não existia em nenhum outro lugar.
Não sei como fazer a senhora entender o que o
Sabá significava para nós - para todos nós, vovó, David e eu -, mas era um
momento especial nas nossas vidas. David agora vive em Israel. Só conseguiu um
vôo para chegar hoje. Deve chegar lá pelas seis.
Então, se a senhora puder, por favor, deixe as
velas até essa hora." Eu não entendia o que as velas tinham a ver com a
chegada de David. Malka explicou: "Para minha avó, o Sabá sempre foi nosso
dia de felicidade. Ela não ia querer morrer no Sabá. Se ela acreditar que ainda
é o Sabá, talvez ela possa agüentar até que David chegue. Espere até ele poder
se despedir dela." Era impossível negar o pedido. Que coisa extraordinária
a força que aquela mulher usava para permanecer viva.
E não era por si que ela estava fazendo o
esforço. Por sua atitude, ela deixara claro que não temia a morte. Ela parecia
saber e aceitar o fato de que sua hora havia chegado e estava pronta para ir.
Para mim, Sarah Cohen personificava uma espécie
de força e de amor extremamente raros. Ela estava disposta a concentrar toda a
sua força para que as pessoas que amava não associassem a beleza e a alegria do
Sabá à tristeza por sua morte. Quando me aproximei do quarto no domingo à
noite, senti as lágrimas subirem aos meus olhos. Olhei e vi a cama vazia e as
velas apagadas.
Então ouvi uma voz atrás de mim, dizendo
docemente: "Ele conseguiu."
Olhei para Malka, que já não chorava mais.
David chegou esta tarde. Ele está fazendo suas
preces agora. Ele pôde dizer-lhe adeus e trouxe notícias que a alegraram - ele
e a mulher vão ter um bebê. Se for menina, vai se chamar Sarah." De uma
certa forma, nada disso me surpreendeu.
Enrolei o fio elétrico à volta da base das
velas. Elas ainda estavam quentes.
O QUE REALMENTE IMPORTA
DESCONHECIDO
Histórias Para Aquecer o Coração 2 49
Há alguns anos, nas Olimpíadas Especiais de
Seattle, nove participantes, todos física ou mentalmente deficientes, se
reuniram na linha de largada para a corrida dos 100 metros.
Quando foi dado o tiro de largada, todos eles
saíram, não exatamente em disparada, mas com a disposição de terminar a corrida
e vencer.
Todos, isto é, menos um menino que tropeçou no
asfalto, caiu umas duas vezes e começou a chorar. Os outros oito ouviram o
menino chorando. Diminuíram a velocidade e pararam. Então todos eles se viraram
e voltaram. Cada um por sua conta.
Uma menina com síndrome de Down curvou-se,
beijou-o e disse: "Isso vai fazer a dor passar."
Em seguida os 9 se deram os braços e andaram
juntos até a linha de chegada. Todo mundo no estádio se levantou e os aplausos
duraram 10 minutos.
O GARFO E A MORTE
ROGER WILLIAM THOMAS
Histórias Para Aquecer o Coração 2 51
O anúncio da chegada de Martha sempre trazia um
sorriso para o rosto do padre Jim. Ela era uma das mais antigas e piedosas
paroquianas. Tia Martie, como todas as crianças a chamavam, parecia espalhar
fé, esperança e amor onde quer que fosse. Mas, dessa vez, havia algo diferente
em sua expressão. Com o rosto sério, ela lhe contou que o médico acabara de
diagnosticar nela um câncer em estágio avançado.
"Ele diz que eu tenho, na melhor das
hipóteses, três meses de vida." .As palavras de Martha eram graves, embora
ela estivesse bastante calma.
"Eu lamento muito...", padre Jim
começou a dizer, mas, antes que ele terminasse a frase, Martha o interrompeu:
"Não lamente. Deus tem sido bom comigo.
Tive uma vida longa e feliz e estou pronta para ir. O senhor sabe disso."
"Eu sei", murmurou o padre,
aquiescendo com a cabeça. "Mas o que eu desejo mesmo é falar com o senhor
sobre meu funeral. Tenho pensado nisso e há coisas que vou querer." Os
dois conversaram por um bom tempo. Falaram sobre os cânticos preferidos de
Martha, suas passagens da Bíblia preferidas e as muitas lembranças que
dividiram nos cinco anos em que o padre Jim esteve na paróquia.
Quando parecia que tinham abordado todos os
aspectos, tia Martha parou, olhou para o padre com um brilho nos olhos e
acrescentou: "Há mais uma coisa. Quando me enterrarem, quero minha velha
Bíblia na mão e um garfo na outra." "Um garfo?" O pedido
surpreendeu o padre Jim: "Por que a senhora quer ser enterrada com um
garfo?" "Estive pensando em todos os jantares e banquetes da igreja a
que compareci ao longo dos anos", ela explicou. Uma coisa tinha sempre
chamado a sua atenção. Em todas aquelas reuniões tão agradáveis, quando a
refeição estava quase no final, uma empregada vinha recolher o prato sujo.
"Posso até ouvir as palavras agora. Alguém se inclinava sobre o meu ombro
e dizia baixinho: 'Pode ficar com seu garfo.' E o senhor sabe o que isso queria
dizer? Que a sobremesa estava vindo!" E não se tratava de um pote de
gelatina, um pudim ou uma taça de sorvete, porque nada disso se come com garfo.
Significava que era algo realmente gostoso, um bolo de chocolate ou uma torta
de cereja!
"Quando me diziam que eu podia ficar com
meu garfo, eu sabia que o melhor ia chegar. É exatamente sobre isso que quero
que as pessoas falem no meu funeral. Elas podem lembrar todos os bons momentos
que tivemos. Isso será ótimo. Mas, quando passarem pelo meu caixão e me virem
no meu lindo vestido azul, quero que se espantem e perguntem: 'Para que o
garfo?' E é isso que eu quero que o senhor lhes diga: que eu fiquei com o garfo
porque o melhor ainda vai chegar."
LAVANDO URSINHOS DE PELÚCIA
JEAN BOLE
Histórias Para Aquecer o Coração 2 56
Estamos lavando ursinhos de pelúcia - Susan,
minha filha mais velha, e eu. Velhos brinquedos de infância. Ela separou-se
recentemente, depois de um casamento de sete anos, e agora estamos lavando os
ursinhos de pelúcia.
Semana passada ajudei-a a arrumar seu novo
apartamento.
Ela está morando sozinha pela primeira vez,
lutando para organizar uma nova vida - apenas ela e seus ursinhos.
Enquanto lavamos, minha filha me conta que na
véspera conheceu na lavanderia uma mulher' de oitenta anos que lavava um
ursinho de pelúcia. Quando Susan disse que pretendia lavar os seus, a velha
explicou cuidadosamente o modo correto de fazê-lo.
"Você deve colocá-los dentro de uma fronha
e fechá-Ia com um alfinete de segurança. Depois você lava e seca o embrulho, e
eles saem bonitinhos, limpos e fofinhos."
A velha continuou a falar e contou que, desde
que seu marido falecera, sempre que se sentia solitária ou ansiosa, ela
abraçava seu ursinho de pelúcia por algum tempo contra o rosto e isso a fazia
sentir-se melhor.
Elas continuaram a conversar. Susan disse que
sempre quisera lavar seus ursinhos, mas tinha medo de que eles se estragassem.
Ela estava encantada com a velha e com sua história, e por isso continuaram a
falar. Minha filha agradeceu à senhora pelo conselho e explicou que tinha se
separado recentemente e estava arrumando seu novo apartamento.
A velha disse que, se ela fosse sua filha, a
levaria para sua casa. Assim ela não viveria sozinha. Eu queria dizer a Susan
que compartilhava os sentimentos daquela senhora. Ao mesmo tempo, sabia que ela
tinha que encontrar o seu próprio caminho. Embora quisesse abrigá-la, no fundo
do meu coração, eu sabia que esta não era a melhor solução para ela.
Às vezes fazer o que é melhor para os filhos
pode ser muito difícil. Observar a luta - emocional, financeira ou o que seja
de minha filha está me causando um aperto no coração. Eu realmente gostaria de
abrigá-la, levá-la para casa e colocá-la, com seus ursinhos, na cama.
Susan era e é uma linda menina. Embora ela seja
hoje uma mulher de vinte e oito anos, às vezes é difícil para mim pensar na
minha filhinha desse modo.
Terminamos de lavar os ursinhos e agora ela
está voltando para a sua casa. Seus ursinhos estão todos lá, limpos, arrumados
E cheirosos. Eu sei que ela vai abraçá-los, encostando-os contra o rosto por um
longo tempo, durante os muitos dias e as muitas noites que virão, e que isto
vai ajudá-la a sentir-se melhor. Eles absorverão suas lágrimas e a abraçarão
também, sempre que ela precisar. E retribuirão o sorriso que ela finalmente vai
dar.
Cuide da minha menininha, Ursinho. Ame-a com
toda a sua força. Este grande e vasto mundo pode ser um lugar bem assustador.
Segure sua mão, abrace-a forte e lembre-a do quanto seu pai, eu e suas irmãs a
amamos. Ajude-a a encontrar esse lugar que existe em cada um de nós, esse lugar
cheio de paz e de aconchego que nos faz compreender que tudo vai dar certo, que
amanhã é um novo dia e que todas as respostas que nós procuramos estão dentro
de nós mesmos. Lembre-a sempre de que o tempo cura tudo e que depois da dor vem
um enorme crescimento pessoal. E que não há nenhum bicho-papão embaixo da cama.
Sonhe com os anjos, minha filha adorada. Que a
glória do seu sol da manhã e que a luz de sua lua magnífica seque todas as suas
lágrimas e curem seu coração e seu espírito. E que cada novo amanhã possa
trazer-lhe uma alegria profunda e duradoura, minha amada criança, e a paz dos
ursinhos de pelúcia.
Se os canyons fossem abrigados das ventanias,
nunca se veria a beleza de suas escarpas.
ELIZABETH KÜBLER-ROSS
O TESOURO MAIS PRECIOSO
THE BEST OF BITS e
PIECES
Histórias Para Aquecer o Coração 2 59
Uma mulher velha e sábia fazia uma viagem através
das montanhas quando, no leito de um rio, encontrou uma pedra preciosa. No dia
seguinte, continuando seu caminho, deparou-se com um viajante que tinha fome e,
para atender a seu pedido de ajuda, a mulher abriu a bolsa para dividir com ele
sua comida.
O homem deslumbrou-se com a visão da pedra e
pediu à mulher que lhe desse de presente. Sem hesitar, ela lhe entregou a joia.
O viajante se foi, rejubilando-se por sua sorte. O tesouro poderia garantir-lhe
segurança para toda a vida.
Mas, alguns dias depois, ele voltou à procura
da mulher. Ao encontrá-Ia, entregou-lhe a pedra, dizendo: "Pensei muito e
sei bem o valor desta pedra, mas venho devolvê-la. O que quero é algo muito
mais precioso. Se for possível, me dê o que está dentro de você e que a fez
capaz de me entregar um tesouro como esse."
TREZENTOS E SESSENTA E CINCO DIAS
ROSEMARIE GIESSINGER
Histórias Para Aquecer o Coração 2 62
De acordo com meus amigos, sou uma pessoa
segura e educada, razoavelmente inteligente, organizada e criativa. Mas, na
maior parte da minha vida adulta, por quatorze dias em cada ano eu sentia como
se não tivesse nenhuma dessas qualidades. E o pior é que isto acontecia quando
meus pais - que moravam a dois mil e quinhentos quilômetros de distância
durante trezentos e cinquenta e um dias no ano - vinham me visitar. Em todos os
outros dias eu levava minha vida muito bem, como esposa, mãe, executiva e fazendo
meu trabalho voluntário. Mas a visita deles era uma verdadeira tortura para
mim.
Essa é uma história muito antiga. Como filha
mais velha, tinham sido colocadas muitas expectativas de sucesso 'e
responsabilidade sobre mim. E a minha sensação era que, por mais que eu
fizesse, nunca correspondia a elas. O fato de ter ido morar longe, com um
marido que me amava do jeito que eu era, trouxera uma grande libertação. Mas
bastava que meus pais – meu pai sobretudo - se aproximassem para acordar a
menininha intimidada que persistia em existir dentro de mim. Eu me sentia
ressentida com eles por ainda terem o poder de me fazer sentir insegura e
incompetente.
Não era apenas eu que sofria durante as visitas
dos meus pais - todos à minha volta sofriam também. Com certeza meu querido
marido - estamos casados há trinta anos - sofria comigo. Nas semanas anteriores
à visita, eu limpava a casa, infernizava meu marido para consertar tudo o que
estivesse quebrado, comprava novas cortinas, travesseiros e lençóis. Planejava
refeições finas, enchia o congelador de comida e ficava atrás dos meus filhos
para arrumarem os quartos, terem bons modos, falarem em voz baixa. Durante a
visita havia sempre uma aura de tensão ao meu redor, como um véu diáfano
(talvez fosse mais como um cobertor de lã molhado!). Depois da visita
seguiam-se noites de discussões com meu marido. Eu ficava tentando decifrar o
que meu pai dissera ou não dissera.
E chorava muitas vezes, sentindo-me uma criança
rejeitada e exausta. Em trinta anos de casamento houve vários altos e baixos,
mas a prova real do amor de Dave era me ajudar a sobreviver a essas visitas!
Um dia, uma amiga me convidou para participar
de um grupo de espiritualidade e um mundo novo se abriu para mim. Passei a ler
sobre o assunto e a meditar diariamente, e fui adquirindo uma paz interior que
nunca conhecera. O tema que mais me atraía era o do perdão. Perdoar,
desapegar-se dos ressentimentos, compreender que aqueles que nos fizeram sofrer
na maioria das vezes não tinham consciência disso e reproduziam apenas algo de
que tinham sido vítimas.
Então papai foi acometido do mal de Parkinson.
Em pouco tempo, o homem cheio de vida, inteligente, o deus atlético da minha
infância se transformou num velhinho cambaleante, desolado e confuso. Talvez
essa sua vulnerabilidade tenha evidenciado os aspectos frágeis de sua
personalidade. O fato é que tornou-se muito mais fácil para mim perdoá-lo.
E assim eu fiz. Apenas disse várias vezes em
voz alta: "Eu perdôo você, papai." A mágoa foi se dissolvendo e
deixando fluir o amor que eu sentia por ele. Consegui ir me livrando das
imposições e exigências que já não vinham de meus pais, mas de mim mesma. Tomei
posse do meu ser, do meu próprio desejo, dos meus sentimentos, e tudo isso me
trouxe muita paz. Jamais disse explicitamente a meu pai que o havia perdoado,
mas isso deve ter ficado claro para ele em algum nível, porque toda a nossa
relação se transformou.
No verão anterior à sua morte, papai veio
sozinho ficar conosco por duas semanas. Eu o recebi com tranquilidade, sem os
preparativos e a tensão das outras vezes. Senti-o como um amigo com quem foi
bom conversar de coração aberto, falando de mim e ouvindo-o contar sua vida.
Pela primeira vez em nossas vidas tivemos
gestos de carinho um com o outro e ele disse como se sentia à vontade em nossa casa,
como era bonito o meu jardim florido. Na hora de se despedir, meu pai me
abraçou forte, beijou a minha testa e disse algo que nunca dissera antes:
"Minha filha, eu te amo muito." Meu pai nunca mais voltou à minha
casa. Depois que ele morreu, minha mãe mandou fazer um vídeo, com fundo musical
e tudo, com as passagens mais gloriosas de sua vida. Levanto os olhos do que
estou escrevendo e vejo a fita cassete na prateleira de livros. Jamais assisti
ao vídeo. O essencial de minha vida com meu pai se concentrou naquelas duas
semanas. As lembranças que quero guardar são de papai na varanda, na cadeira de
vime, banhado pelos raios de sol, regando as plantas, brincando, conversando,
partilhando a vida conosco e me amando.
O perdão total e incondicional trouxe conforto
para minha alma e me abriu as portas para uma vida que eu não imaginava
possível.
Agora, além de ser esposa, mãe, avó e
conselheira espiritual, sou uma pessoa inteira trezentos e sessenta e cinco
dias no ano.
MOÇA, A SENHORA É RICA?
MARION DOOLAN
Histórias Para Aquecer o Coração 2 66
Era inverno e elas entraram às pressas pela
porta dos fundos - duas crianças em casacos surrados e pequenos para o seu
tamanho.
''A senhora tem aí uns jornais velhos?" Eu
estava ocupada. Queria dizer não, mas olhei para os seus pés e vi que usavam
sandálias abertas, cheias de gelo. "Entrem, que eu faço uma xícara de
chocolate para vocês." Suas sandálias encharcadas deixaram marcas na pedra
da lareira, mas eu não consegui reclamar.
Servi o chocolate quente acompanhado de
torradas com geleia e voltei para a cozinha, onde retomei meu trabalho.
Estranhando o silêncio na sala da frente, fui
até lá ver o que estava acontecendo.
A menina segurava a xícara vazia e a olhava
atentamente. O menino me perguntou numa voz sem emoção: "Moça, a senhora é
rica?"
"Rica? Eu? Misericórdia!" Olhei para
meus estofados gastos. A menina pôs a xícara sobre o pires, cuidadosamente.
"Suas xícaras combinam com os pires." Sua voz era a de uma pessoa
mais velha, com uma fome que não vinha do estômago.
Eles saíram, segurando os maços de jornal,
lutando contra o vento. Nem agradeceram, mas não era necessário. Tinham feito
muito mais do que isso. Xícaras e pires tão simples, de louça azul. Mas
combinavam. Virei o assado e coloquei as batatas no molho. Batatas com molho
ferrugem, um teto sobre a cabeça, meu marido com um emprego estável - essas
coisas também combinavam.
Tirei as cadeiras de perto da lareira e limpei
a sala. As pegadas cheias de lama ainda estavam por ali e eu as deixei ficar.
Quero que permaneçam no mesmo lugar, caso eu me
esqueça novamente de como sou rica.
FIOS QUE SE ENTRELAÇAM
ANN SEELY sob a supervisão de Laura J. Teamer
Histórias Para Aquecer o Coração 2 68
A linda colcha de retalhos era mesmo muito
antiga, com muitas das tramas de seda quase desfeitas, mas ainda muito bonita.
O tecido estava surrado e desbotado, mas ela havia sido tratada com carinho por
muitos anos.
A professora que ensinava a fazer as colchas de
retalhos um dia levantou a peça para mostrá-Ia às alunas, explicando:
"Este é um tipo de desenho muito usado para colchas no século dezenove.
Esta aqui foi tecida por alguém que dispunha de
vários tipos de tecidos, pois apresenta muita variedade. Depois de comprá-Ia,
percebi que era originalmente maior. Alguém a dividiu ao meio." Todas as
alunas lamentaram. Quem poderia ter cortado uma colcha tão bonita?
Uma carroça rumava para o Oeste. O ano era
1852...
Enquanto se enrolava com a irmã na colcha para
dormir, Katherine pensava nos acontecimentos dos últimos três anos.
Aquele era um dia especial, pois Katherine e
Lucy comemoravam seus aniversários. Katherine fazia treze anos; Lucy, apenas
três. Katherine ficara muito feliz em, finalmente, ganhar uma irmãzinha! Lucy
chegara como um presente, bem no dia do seu aniversário. A vida parecia correr
na maior harmonia. Mas aconteceu uma tragédia quando Lucy tinha só um ano e
meio. Sua mãe morreu e o pai decidiu que deviam se mudar para o Oeste.
Tudo o que possuíam foi vendido, doado ou
colocado na carroça, e eles partiram em uma caravana. Naquele dia de
aniversário, as duas irmãs se aconchegavam debaixo da colcha, que era tudo o
que tinham para se lembrar da mãe e da casa que deixaram.
"Conte uma história", Lucy pediu.
"Conte uma história dos quadrados da colcha."
Katherine sorriu. Toda noite a cena se repetia.
Lucy adorava ouvir histórias sobre a colcha e Katherine adorava contá-Ias.
"De qual dos quadrados?", perguntou.
Lucy passou a mão sobre a colcha até chegar a um quadrado azul-claro, decorado
com flores. "Este aqui, Katy." A história daquele quadrado azul era
sua favorita.
"Bem, este retalho vem de um vestido de
festa de uma moça com um lindo cabelo ruivo. Seu nome era Nell e todos a
consideravam a moça mais bonita da cidade..." Lucy logo adormecia, mas
Katherine continuava a olhar a colcha. Cada quadrado trazia à sua lembrança
histórias ligadas à casa, aos amigos, à família e aos tempos mais felizes. Sua
mãe fora modista e sempre tinha retalhos em casa. Assim, quase todos os
quadrados eram diferentes. Tecidos finos, sedas e brocados de vestidos de festa
das moças da cidade se alternavam com retalhos de vestidos da própria
Katherine. Um outro viera da camisola de batizado de Lucy. Aqui, um pedaço de
um vestido de noiva, ali um pedaço do avental da avó. A colcha que lhes aquecia
o corpo e o coração era agora o único bem que mantinha os vínculos com as
alegrias do passado. Katherine adormecia agradecendo por aquela colcha, seu
conforto e consolo. E as histórias da colcha se multiplicaram pelo caminho.
Estavam na estrada há umas três semanas quando
Lucy caiu doente, com muita febre. Katherine fez o possível para ela se sentir
melhor. Durante o dia, sentava-se com a pequena na carroça, no seu lento
avançar. Acariciava seu cabelo, ajeitava seu travesseiro e escolhia canções de
que gostavam. À noite, com Lucy em seu colo, contava histórias dos quadrados da
colcha, até que ela adormecesse.
Um dia, no fim da tarde, durante uma parada,
Katherine foi buscar um pouco de água fresca no pequeno rio próximo. Ao pegar o
balde, foi tomada de um sentimento de paz e sentiu que Lucy logo estaria bem.
Katherine caminhou devagar sobre a grama macia em direção à água, encheu o
balde e se sentou.
Deitou-se sobre a grama, olhando o céu tão azul
e se lembrou dessas palavras reconfortantes: "Este é o dia feito pelo
Senhor.
Alegra-te e sê feliz." Talvez tudo vai ficar bem, ela pensou.
Quando foi se aproximando da carroça, ela gelou
de medo. Três homens estavam cavando a terra não muito longe. "Uma cova!
Lucy!", ela gritou. "Lucy, Lucy, Lucy." Katherine deixou cair o
balde e começou a correr. Lágrimas desciam pelo seu rosto. O coração parecia
arrebentar seu peito.
Ao entrar na carroça, viu a colcha
cuidadosamente dobrada no lugar onde Lucy se deitava.
Atordoada, saiu em busca de seu pai.
Encontrou-o perto dos outros homens, com o corpo imóvel de Lucy no colo.
Olhou para Katherine, os olhos vermelhos e
inchados e simplesmente disse: "Ela agora está em paz." A dor de
Katherine era imensa. Uma das mulheres abraçou-a carinhosamente, dizendo:
"Vamos precisar de alguma coisa para enrolá-Ia. Não precisa ser nada muito
grande." Katherine assentiu com um gesto, enquanto entrava na carroça. Não
se sabe bem como, conseguiu achar a tesoura.
Pegou a colcha com cuidado e, de coração
partido, dividiu-a em dois pedaços.
O amor é o símbolo da eternidade;
ele nos faz perder qualquer noção de tempo.
ANNA LOUISE DE STAEL
O QUE SIGNIFICA SER ADOTADO
GEORGE DOLAN
Histórias Para Aquecer o Coração 2 72
Debbie Moon, professora do primeiro ano, estava
com seus alunos vendo a fotografia de uma família. Na foto, um menininho tinha
o cabelo de cor diferente da dos outros.
Uma das crianças achou que ele era diferente
porque devia ter sido adotado, e uma menininha chamada Jocelyn disse: "Eu
sei tudo sobre adoção porque eu sou adotada." "O que quer dizer ser
adotado?", perguntou uma outra criança.
"Significa”, disse Jocelyn, "que você
cresceu no coração de sua mãe em vez de crescer na barriga dela."
AS PALAVRAS CERTAS
JANE LINDSTROM
Histórias Para Aquecer o Coração 2 73
Um suéter cinza largado sobre a carteira vazia de
Tommy lembrava o menino desanimado que acabara de sair da sala com seus colegas
do terceiro ano. Logo os pais de Tommy, que haviam acabado de se separar,
chegariam para uma reunião convocada por mim para falar sobre o mau desempenho
escolar e o comportamento insubordinado de seu filho. Nenhum dos dois sabia que
eu havia chamado o outro.
Tommy, filho único, sempre fora feliz, gostava
de cooperar e era ótimo aluno. Como eu poderia mostrar a esse pai e a essa mãe
que as recentes notas insuficientes representavam a reação de uma criança
magoada com a separação dos pais e o divórcio que se aproximava?
A mãe de Tommy entrou e se sentou em uma das
cadeiras que eu pusera perto de minha mesa. Logo o pai chegou. Ótimo!
A pontualidade dos dois evidenciava sua
preocupação. Eles se olharam com surpresa e irritação e acintosamente se
ignoraram.
Enquanto eu fazia um relato do comportamento e
do rendimento escolar de Tommy, rezava para encontrar as palavras capazes de
unir esses dois e ajudá-Ios a perceber o que estavam fazendo com o filho. Mas
as palavras não vinham. Pensei então em mostrar-Ihes um dos trabalhos de Tommy,
todo borrado, feito sem cuidado, achando que poderia dar-Ihes a dimensão da
perturbação do menino.
Achei uma folha de papel amarrotada e manchada
de lágrimas enfiada atrás de sua carteira, um dever de inglês. Ele escrevera
dos dois lados da folha - não com a tarefa, mas com uma simples frase, escrita
e reescrita.
Em silêncio, eu desamassei a folha e a
entreguei à mãe de Tommy. Ela a leu e, sem dizer palavra, entregou-a ao marido.
Primeiro ele franziu as sobrancelhas, depois
sua face se desanuviou. Ele ficou lendo as palavras por um tempo - tempo que
pareceu uma eternidade.
Finalmente ele dobrou o papel cuidadosamente e
o colocou no bolso, estendendo a mão para a mulher. Ela enxugou as lágrimas e
sorriu para o marido. Eu tinha os olhos marejados, mas eles nem me notavam. Ele
a ajudou a colocar o casaco e saíram juntos.
A sua maneira, Deus me fez encontrar as
palavras certas para reunir essa família. Ele me guiou até a folha do dever de
Tommy, toda escrita com o angustiado desabafo
do coração atribulado de um menino.
As palavras certas foram: "Querida
Mamãe... Querido Papai... Eu amo vocês, eu amo vocês, eu amo vocês."
O CAVALEIRO COM COMPAIXÃO NOS OLHOS
AUTOR DESCONHECIDO
Do livro de Brian Cavanaugh, The Sower's Seeds (As sementes
do semeador)
Histórias Para Aquecer o Coração 2 80
Era uma tarde de tempo feio e frio no norte da
Virgínia, há muitos anos. A barba do velho estava coberta de gelo e ele
esperava alguém para ajudá-lo a atravessar o rio. A espera parecia não ter fim.
O vento cortante tornava seu corpo dormente e enrijecido.
Ele ouviu o ritmo fraco e ritmado dos cascos de
cavalos a galope sobre o chão congelado. Ansioso, observou quando vários
cavaleiros apareceram na curva. Ele deixou o primeiro passar, sem procurar
chamar sua atenção. Então veio outro e mais outro. Finalmente, o último
cavaleiro se aproximou do lugar onde o velho estava parado como uma estátua de
gelo.
Depois de observá-Io rapidamente, o velho lhe
acenou, perguntando: "O senhor poderia levar este velho para o outro lado?
Parece não haver uma trilha para eu seguir a
pé." O cavaleiro parou o cavalo e respondeu: "É claro. Pode
montar." Vendo que o velho não conseguia levantar o corpo semi-congelado
do chão, ajudou-o a montar e não só atravessou o rio com o velho, mas o levou
ao seu destino, algumas milhas adiante.
Quando se aproximavam da casa pequena, mas
aconchegante, curioso, o cavaleiro perguntou: "Eu percebi que o senhor
deixou vários outros cavaleiros passarem sem fazer qualquer gesto para pedir
ajuda na travessia. Então eu apareci e o senhor imediatamente me pediu para
levá-Io. Eu gostaria de saber por que, numa noite fria de inverno, o senhor
pediu o favor ao último a passar. E se eu tivesse me recusado e o deixado na
beira do rio?" O velho apeou do cavalo devagar. Olhou o cavaleiro bem nos
olhos e respondeu: "Eu já vivi muito e acho que conheço as pessoas muito
bem." Parou um instante e continuou: "Olhei nos olhos dos outros que
passaram e vi que eles não se condoeram da minha situação. Seria inútil
pedir-Ihes ajuda. Mas, quando olhei nos seus olhos, ficaram claras sua bondade
e compaixão. A vida me ensinou a reconhecer os espíritos bondosos e dispostos a
ajudar os outros na hora da necessidade." Essas palavras tocaram
profundamente o coração do cavaleiro: "Fico agradecido pelo que o senhor
falou", disse ao velho.
"Espero nunca ficar tão ocupado com meus
próprios problemas que deixe de corresponder às necessidades dos outros com
bondade e compaixão." Falando isso, Thomas Jefferson virou seu cavalo e
voltou para a Casa Branca.
AS MULHERES QUE CRUZARAM MEU CAMINHO
REV. MELISSA M. BOWERS
Histórias Para Aquecer o Coração 2 83
Hoje, quando tomo consciência de quem eu sou,
penso em todas as mulheres que, ao cruzarem meu caminho, ajudaram a construir
meu ser. A elas quero prestar uma homenagem.
A mulher que me fez nascer e que ao me
aconchegar e me amamentar transmitiu-me a segurança de que o mundo era bom e de
que o amor constituía o valor mais fundamental. A essa mulher que acolheu
minhas necessidades, que sempre me apoiou nas horas difíceis, embora muitas
vezes, ao me estender a mão, me dissesse que eu era capaz de andar com minhas
próprias pernas e que ela não iria me carregar no colo. Senti raiva, mas fui em
frente e descobri em mim uma força insuspeitada. Sou extremamente grata por
isso.
As mulheres que cruzaram o meu caminho e me
respeitaram como ser humano, respeitaram minhas características únicas e me
amaram como eu era, em vez de me dizer como eu devia ser para que me amassem.
Às mulheres que cruzaram o meu caminho e que
com seu exemplo me mostraram que a vida dentro de nós tem uma imensa força de
superação, que as piores tragédias serão superadas, que o riso renasce depois
das lágrimas mais trágicas.
Às mulheres que cruzaram o meu caminho e me
ensinaram que essa força, o amor capaz das maiores doações, a sabedoria, a
coragem e a generosidade são manifestações de Deus em nós, e com isso me
fizeram acreditar em Deus. Porque até então eu rejeitava o Deus que pune, que
julga, que condena.
Às mulheres que cruzaram meu caminho e que me
ensinaram que o que eu achava que fossem erro e fracasso são oportunidades
preciosas de aprendizado, e por isso não me deixaram paralisada pela culpa, mas
me ajudaram a crescer com os acontecimentos da vida.
Às mulheres que cruzaram o meu caminho e que me
provaram o valor da verdade como um direito soberano do ser humano: a verdade
do nosso desejo, da nossa opinião, da afirmação da nossa realidade pessoal,
desde que estejamos abertos para ouvir e acolher a verdade dos outros e
negociar com ela.
Às mulheres que por sua amargura, egoísmo e
futilidade me mostraram claramente que eu não queria ser assim, e dessa forma
me ajudaram a combater os meus aspectos amargos, egoístas e fúteis.
Às mulheres que cruzaram o meu caminho e me
mostraram o que eu sou e o que eu não sou, que me apoiaram ternamente com amor,
força e confiança, que me chamaram a atenção com carinho, cuja crítica foi uma
manifestação do desejo do meu crescimento e da sua crença em mim.
A essas mulheres eu abençôo e agradeço do fundo
do coração, porque fui fortalecida e libertada através de sua alegria e de seu
sacrifício.
A FUGA
LOIS KRUEGER
Histórias Para Aquecer o Coração 2 89
Num desses dias agitados, em que temos mil
coisas diferentes para fazer, Justin, nosso filho de quatro anos, não parava de
fazer bagunça. Depois de várias tentativas para fazê-lo ficar quieto, - meu
marido o mandou de castigo para o canto da sala.
Justin chorou, esperneou, emburrou e finalmente
disse: "Vou fugir de casa." Minha primeira reação foi de surpresa e,
irritada, falei: "Ah, vai?" Quando me virei e o olhei, ele parecia um
anjo, tão pequeno, encolhido ali no canto, com um ar tão triste. Então, larguei
tudo e parei.
Com o coração partido, me lembrei de uma
passagem de minha própria infância, quando eu também quis fugir de casa porque
me sentia tão rejeitada e incompreendida. Ao anunciar "vou fugir de casa”,
Justin estava dizendo: "Por favor, prestem atenção em mim. Eu também sou
importante. Por favor, façam com que eu me sinta desejado e amado
incondicionalmente." "Tudo bem, Justin, você vai poder fugir de
casa”, falei baixinho para ele, enquanto começava a pegar umas roupas no meu
armário e colocar numa sacola.
"Mamãe", ele perguntou, "O que
você está fazendo?" "Se você vai fugir de casa, então mamãe vai com
você, porque não quero ver você sozinho nunca. Gosto muito de você, Justin.
Eu o abracei e ele perguntou: "Por que
você quer ir comigo?" Olhei-o com carinho: "Porque eu gosto muito de
você e vou ficar muito, muito triste se você for embora. E também quero tomar
conta de você para que nada de mal te aconteça." "Papai também pode
ir?"
"Não, papai tem que ficar com seus irmãos,
e papai tem de trabalhar e tomar conta da casa quando nós não estivermos
aqui."
"O meu hamster pode ir?" "Não,
ele também tem que ficar aqui."
Justin parou um instante para pensar e disse:
"Mamãe, podemos ficar em casa?" "Claro, Justin, podemos ficar em
casa."
"Mamãe."
"O que é, Justin."
"Eu amo você."
"Eu amo você também, querido, muito,
muito, muito. Que tal me ajudar a fazer pipoca?"
"Oba! Tudo bem."
Nesse instante me dei conta da maravilhosa
dádiva que é ser mãe. De como somos fundamentais quando levamos a sério a
responsabilidade sagrada de ajudar uma criança a desenvolver o sentido de
segurança e o amor-próprio. Abraçando Justin, percebi que no; meus braços eu
tinha o tesouro inestimável da infância, uma pessoinha que dependia do amor e
segurança que recebesse, do atendimento de suas necessidades, do reconhecimento
de suas características únicas para tornar-se um adulto feliz. Aprendi que,
como mãe, jamais devo "fugir" da oportunidade de mostrar a meus
filhos que eles são amados, desejados e importantes, o presente mais precioso
que Deus me deu.
APRENDENDO A DIZER NÃO
BÁRBARA K. BASSETT
Histórias Para Aquecer o Coração 2 92
Quando
Angela tinha apenas dois ou três anos, seus pais a ensinaram a nunca dizer NÃO.
Ela devia concordar com tudo o que eles falassem, pois, do contrário, era uma
palmada e cama. Assim, Angela tornou-se uma criança dócil, obediente, que nunca
se zangava. Repartia suas coisas com os outros, era responsável, não brigava,
obedecia a todas as regras, e para ela os pais estavam sempre certos.
A
maioria dos professores valorizava muito essas qualidades, porém os mais
sensíveis se perguntavam como Angela se sentia por dentro.
Angela
cresceu cercada de amigos que gostavam dela por causa de sua meiguice e de sua
extrema prestatividade: mesmo que tivesse algum problema, ela nunca se recusava
a ajudar os outros.
Aos
trinta e três anos, Angela estava casada com um advogado e vivia com sua
família numa casa confortável. Tinha dois lindos filhos e, quando alguém lhe
perguntava como se sentia, ela sempre respondia: está tudo bem.
Mas,
numa noite de inverno, perto do Natal, Angela não conseguiu pegar no sono, a
cabeça tomada por terríveis pensamentos. De repente, sem saber o motivo, ela se
surpreendeu desejando com tal intensidade que sua vida acabasse, que chegou a
pedir a Deus que a levasse.
Então
ela ouviu, vinda do fundo do seu coração, uma voz serena que, baixinho, disse
apenas uma palavra: NÃO.
Naquele
momento, Angela soube exatamente o que devia fazer. E eis o que ela passou a
dizer àqueles a quem mais amava:
Não,
não quero
Não,
não concordo
Não,
faça você
Não,
isso não serve pra mim
Não,
eu quero outra coisa
Não,
isso doeu muito
Não,
estou cansada
Não,
estou ocupada
Não,
prefiro outra coisa.
Sua
família sofreu um impacto, seus amigos reagiram com surpresa. Angela era outra
pessoa, notava-se isso nos seus olhos, na sua postura, na forma serena mas
afirmativa com que passou a expressar o seu desejo.
Levou
tempo para que Angela incorporasse o direito de dizer NÃO à sua vida. Mas a
mudança que se operou nela contagiou sua família e seus amigos. O marido, a
princípio chocado, foi descobrindo na sua mulher uma pessoa interessante,
original, e não uma mera extensão dele mesmo. Os filhos passaram a aprender com
a mãe o direito ao próprio desejo. E os amigos que de fato amavam Angela,
embora muitas vezes desconcertados, se alegraram com a transformação.
À
medida que Angela foi se tornando mais capaz de dizer NÃO, as mudanças se
ampliaram. Agora ela tem muito mais consciência de si mesma, dos seus
sentimentos, talentos, necessidades e objetivos. Trabalha, administra seu
próprio dinheiro, e nas eleições escolhe seus candidatos.
Muitas
vezes ela fala com seus filhos: "Cada pessoa é diferente das outras e é
bom a gente descobrir como cada um é.
O
importante é dizer o que você quer e ouvir o desejo do outro, dizer a sua
opinião e ouvir o que o outro acha. Só assim podemos aprender e crescer. Só
assim podemos ser felizes."
A BELEZA VERDADEIRA
ALISON LAMBERT com
JENNIFER ROSENFELD
Histórias Para Aquecer o Coração 2 95
Quando você tem quinze anos, costuma ficar em frente
ao espelho pesquisando cada pedacinho do seu rosto. Entra em desespero porque
acha que seu nariz é muito grande ou porque mais uma espinha está surgindo.
Além de tudo, você se acha feia porque seu cabelo não é louro e o menino mais
bonito da turma nunca notou sua existência.
Alison não conheceu esses problemas. Era
bonita, simpática, popular e inteligente, além de ser a campeã de natação da
escola. Alta, com seu corpo esbelto, olhos de um profundo azul-piscina e lindos
cabelos louros, mais parecia uma modelo do que uma estudante comum. Mas,
durante o verão, alguma coisa mudou.
Um dia, ao enxugar o cabelo, ela notou uma
falha no couro cabeludo. Aquilo a intrigou, mas Alison achou que devia ter
apertado muito o elástico no rabo-de-cavalo. Logo se esqueceu do incidente.
Três meses depois, uma outra falha no couro
cabeludo de Alison. E outra. E mais uma. Em pouco tempo, sua cabeça estava
repleta de falhas de cabelo. Os diagnósticos e os tratamentos se multiplicaram
até se descobrir que Alison sofria de uma doença chamada alopecia e nada
poderia deter seu curso.
Como Alison era muito querida, os amigos a
apoiaram procurando lhe dar força. Mas, certo dia, sua irmã menor entrou no
quarto com uma toalha na cabeça para que a mãe a penteasse. Quando a mãe
desenrolou a toalha, Alison observou os cabelos espessos e luminosos da irmã
caírem sobre os ombros e, pela primeira vez, chorou, dando vazão à tristeza que
sentia.
Naquele momento, Alison teve uma percepção
profunda: havia uma escolha a fazer. Ela não podia deixar que o problema com o
cabelo a dominasse a ponto de tirar-lhe o gosto de viver. Afinal, ela era muito
mais do que o seu cabelo. Alison decidiu assumir sua condição e procurar
soluções. Começou comprando não apenas uma, mas várias perucas de cores e
tamanhos diferentes, que usava de acordo com a ocasião e com seu estado de
espírito. Num dia em que a peruca voou de sua cabeça pela janela aberta do
carro de um amigo, ela conseguiu rir da situação.
Quando a escola abriu as inscrições para o
campeonato de natação, Alison se preocupou. Se não podia usar peruca na água,
como competir? "Por que isso?", perguntou seu pai. "Por acaso
você se esqueceu como se nada?" Ela entendeu a mensagem. Depois de passar
apenas um dia com uma touca desconfortável, Alison se encheu de coragem e
deixou a careca à mostra. Houve alguns olhares e comentários maldosos, mas a
maioria das pessoas admirou o gesto de Alison, e rapidamente ela se acostumou
com sua nova aparência. Voltou para a escola no outono - sem cabelo, sem
sobrancelhas, sem cílios e deixando a peruca esquecida no fundo do armário.
Como sempre planejara, ela se candidatou a
representante da escola e acrescentou ao seu discurso de campanha slides de
líderes carecas, como Gandhi. Todos os alunos riram muito da ideia. No primeiro
discurso após a vitória, Alison dirigiu-se à audiência contando seus planos
como representante e respondendo a perguntas. Ao final acrescentou:
"Gostaria de compartilhar uma experiência
muito particular. Todos presenciaram o problema que tive que enfrentar e
agradeço do fundo do coração o apoio e a força que me deram. Eles foram
fundamentais para que essa experiência promovesse uma descoberta da maior
importância na minha vida: de que a beleza se encontra numa dimensão muito mais
profunda do que o nosso aspecto exterior. Não vou negar que sinto falta do meu
cabelo e que às vezes sofro com a sua perda. Mas quero lhes afirmar com toda a
sinceridade: sou grata por ter descoberto que o amor é o valor essencial e que
depende exclusivamente de mim desenvolvê-lo. Obrigada, meus amigos." Todo
mundo vibrou e aplaudiu.
E Alison, linda, popular e inteligente, ainda
por cima campeã de natação e agora representante da escola, com seus olhos
azul-piscina, do alto da tribuna, sorriu e agradeceu.
IGUALZINHA A VOCE
CAROL PRICE
Histórias Para Aquecer o Coração 2 102
Quando eu estava no segundo grau, duas coisas
muito importantes aconteceram na minha vida. A primeira foi que me apaixonei por
um rapaz de nome Charlie. Ele era do último ano, jogava futebol no time da
escola e eu o achava o máximo!
Eu sabia que era com ele que eu queria me casar
e ter filhos. Mas havia um problema muito sério: ele sequer sabia da minha
existência. Nem que eu tinha planos para nós dois...
A segunda coisa importante foi que eu decidi
não me submeter mais a qualquer cirurgia nas mãos. Eu nasci com seis dedos em
cada mão e sem nenhuma articulação. A primeira cirurgia foi feita quando eu
tinha seis meses de idade e, aos dezesseis anos, somavam-se vinte e sete
operações. Os dedos extras foram removidos, alguns foram encurtados e se
criaram articulações. Eu fora uma espécie de exemplar raro, exibido, às vezes,
ante mais de quinhentos cirurgiões de mão.
Minhas mãos ainda não eram "normais",
mas eu chegara ao meu limite. Aos dezesseis anos senti-me no direito de dizer:
"Me deixem em paz!" Minha família apoiou minha decisão, dizendo-me
que, se eu quisesse, poderia fazer outras operações mais tarde. Mas eu pensei:
"Chega, não preciso de mais sofrimento. Minhas mãos vão ficar do jeito que
estão." E assim foi.
Eu tinha um amigo de infância chamado Don.
Tínhamos estudado junto desde o primeiro ano e éramos bem próximos.
Uma tarde, estávamos em minha casa conversando
sobre o baile da escola, que se aproximava. Tínhamos planejado passar a noite
toda fora, embora sem saber bem o que íamos fazer todo esse tempo na rua. Mas a
idéia parecia ótima.
Inesperadamente, Don me olhou e disse:
"Você gosta mesmo um bocado do Charlie, não gosta?" "Gosto.
Muito", eu respondi. "Olhe, Carol, tenho que lhe dizer uma coisa.
Charlie nunca vai ficar com você", Don
continuou. "Por que não?", perguntei, ao mesmo tempo que pensava: Já
sei, vou pintar o cabelo de louro, eu sei que isso vai funcionar. Não, não, já
sei, vou me tornar líder de torcida. Todo o mundo adora líderes de torcida.
Mas Don me disse: "Carol, você não está
entendendo.
Charlie nunca vai querer você porque você é
deformada." Eu ouvi mesmo isso. Acreditei nisso. Vivi essa situação. Suas
palavras foram um rude golpe.
Eu me tornei professora primária porque pensei
que pudesse ser uma boa profissão para quem tem uma deformidade.
No meu primeiro ano como professora, eu tinha
como aluna uma menininha chamada Felícia. Era a criança mais deslumbrante que
eu jamais conhecera. Uma tarde, estávamos todos treinando a letra A. Para um
aluno do primeiro ano, isso significa um lápis grosso e vermelho, papel pautado
verde e um esforço concentrado para "fazer uma bolinha e depois puxar uma
perninha”.
Todos estavam quietinhos e trabalhando. Prestei
atenção em Felícia, como sempre fazia, e vi que ela estava escrevendo com os
dedos cruzados uns sobre os outros. Na ponta dos pés, me aproximei, me inclinei
e falei baixinho: "Felícia, por que você está escrevendo com os dedos
cruzados?" A menininha olhou para mim com seus olhos grandes e bonitos e
disse: "Porque quero ser igualzinha a você, senhorita Price."
Felícia nunca viu uma deformidade em mim,
apenas uma característica especial que queria ter também. Todos nós vemos
alguma coisa que não seja muito boa em nós como uma deformidade. Podemos nos
considerar deformados ou portadores de uma característica especial. E essa
escolha vai determinar como será a nossa vida.
EU CONVERSO COMIGO MESMA
PHIL COLBURN
Histórias Para Aquecer o Coração 2 109
Tenho
conversado muito comigo ultimamente sobre as coisas que faço.
Volta
e meia preciso seriamente de uma conversa.
"Endireite
sua coluna”, digo a mim mesma ao chegar à beira da escada.
Jogo
os ombros para trás e começo a jornada.
Só
espero não cair.
Quando
eu acordo e a dor está pior, eu falo:
"Lembre-se
de que no mundo sempre existe uma dor maior.
E
essa aqui vai passar."
É
realmente um problema não ouvir o que estão falando,
Eu
me preocupo pensando
Se
não respondi alguma bobagem.
Mas
aí eu digo para mim mesma:
Que
resposta boba não é nenhuma novidade.
Quantas
vezes, enquanto ainda escutava bem,
Eu
não disse bobagem também?
Sei
que hoje preciso de óculos para leitura
E
por ISSO converso comigo:
''Agradeça
por poder ler.
Muitos
não podem nem ver."
Eu
me mando levantar e andar, embora preferisse apenas sentar e ler.
Mas,
se quero um corpo ágil,
Devo
obedecer.
Posso
andar, ver e ouvir.
Não
tão bem, mas ainda consigo.
Acho
que me fazem bem
As
conversas que tenho comigo.
Nota do editor: Phil Coburn é uma viúva de
noventa e nove anos. Escreve poesia para manter viva a mente e todo mês tem um
poema publicado pelo jornal da igreja que frequenta.
DEUS ESCOLHE AS MÃES
ERMA BOMBECK
Histórias Para Aquecer o Coração 2 111
A maior parte das mulheres torna-se mãe por
acidente, outras por escolha, algumas poucas por pressões sociais e um punhado
por hábito.
Este ano, cerca de cem mil mulheres vão se
tornar mães de bebês com algum tipo de deficiência. Você já pensou como as mães
dessas crianças são escolhidas?
Tente imaginar Deus pairando sobre a Terra e
selecionando as mães com grande cuidado e deliberação. Enquanto observa, Ele
instrui seus anjos a tomarem notas em um livro gigantesco.
Beth Armstrong: filho, santo protetor, Mateus.
Marjorie Forest: filha, santa protetora,
Cecília.
Carrie Rudledge: gêmeos, santo protetor...
"Dê a ela São Geraldo. Ele está acostumado a ouvir impropérios."
Finalmente, ele passa um nome a um anjo e sorri: "Dê a ela um filho
cego."
O anjo fica curioso: "Por que ela, Senhor?
Ela é tão feliz." "Exatamente por isso", responde Deus. "Como
eu poderia dar uma criança com uma deficiência a uma mãe que não soubesse rir?
Isto seria uma crueldade." "Mas ela tem paciência?", pergunta o
anjo.
"Eu não quero que ela tenha paciência
demais, porque é justamente a paciência que ela vai aprender a desenvolver.
Quando o choque e o ressentimento passarem, ela
vai saber cuidar da situação." "Mas, Senhor, eu acho que ela nem
acredita na Sua existência." Deus sorri. "Isso não importa. Eu posso
dar um jeito nisso.
Esta mulher é perfeita. Ela tem a dose certa de
egoísmo." O anjo se surpreende: "Egoísmo? Isso é uma virtude?"
Deus confirma com um movimento de cabeça: "Se ela não conseguir se separar
da criança de vez em quando, para tratar de si mesma, não vai sobreviver. Além
disso, se por um excesso de dedicação ela superproteger o menino, criará um ser
fragilizado.
Sim, aqui está uma mulher a quem eu abençoarei
com um filho imperfeito. Ela vai levar tempo para descobrir as bênçãos que isso
lhe trará. Mas, aos poucos, ela deixará de achar - como a maioria das pessoas -
que os progressos e as conquistas são comuns e naturais e passará a
valorizá-Ios como uma fonte de alegria. Ela irá vibrar com cada pequeno passo à
frente. Quando o seu filho disser 'Mamãe' pela primeira vez, ela vai sentir que
está assistindo a um milagre e ficará maravilhada! E já pensou a emoção quando
ele reconhecer um objeto com o toque das mãos. Quando ela precisar descrever
uma árvore florida ou o pôr-do-sol ao seu filho cego, ela os verá como poucas
criaturas jamais viram as minhas criações. E os perfumes da natureza inebriarão
seu olfato quando ela perceber a importância que têm para seu filho."
"Vou permitir a ela ver claramente as coisas que eu vejo ignorância,
crueldade, preconceito - e dar oportunidade para que as supere. Ela nunca
ficará sozinha. Eu não só estarei a seu lado cada minuto de cada dia da sua
vida, como me manifestarei em cada gesto de coragem e amor que esta mulher
tiver." "E qual será o seu santo protetor?", pergunta o anjo, a
caneta suspensa no ar. Deus sorri
"Um espelho bastará”.
ISSO VAI MUDAR TOTALMENTE A SUA VIDA
DALE HANSON sob a supervisão de Karen Wheeler
Histórias Para Aquecer o Coração 2 114
Estou almoçando com uma amiga quando ela
casualmente conta que ela e o marido então pensando em "começar uma
família.
"Estamos fazendo uma pesquisa”, diz, meio
brincando.
"Você acha que devemos ter um bebê?"
"Isso vai mudar totalmente a sua vida”, digo com cuidado, mantendo o tom
neutro da voz.
"Eu sei", ela diz. "Nada mais de
acordar tarde no sábado, nem de tirar férias quando quiser..." Mas não era
bem isso o que eu queria dizer. Olhava para minha amiga, tentando decidir o que
falar.
Queria lhe contar das coisas que não vai
aprender num curso para grávidas. Quero que saiba que as dores do parto passam,
mas tornar-se mãe vai deixar nela uma vulnerabilidade irreversível.
Penso em avisá-Ia de que jamais lerá novamente
sobre uma tragédia no jornal sem se perguntar: "E se tivesse sido meu
filho?"
Que todo acidente aéreo, todo incêndio vai
assustá-Ia. Quando vir fotos de crianças famintas, ela se perguntará se pode
haver dor maior do que ver um filho morrer.
Olho para ela: unhas e cabelo impecáveis,
vestido elegante.
Por mais sofisticada que possa ser, tornando-se
mãe estará reduzida ao estágio primitivo de uma ursa protegendo seu filhote. Um
grito aflito de "Mamãe!" vai fazê-Ia derrubar o suflê ou seu cristal
mais fino sem a menor hesitação.
Acho que deveria avisá-Ia de que, não importa
quantos anos tiver investido em sua carreira, esta será afetada pela
maternidade.
Mesmo que tenha uma babá super eficiente, na
hora de uma reunião importante vai pensar no cheirinho gostoso do seu bebê ou
na febre da véspera. Terá de usar toda a sua disciplina para não correr para
casa só para ver se está tudo bem com a criança.
Quero que minha amiga saiba que suas grandes
certezas vão ser abaladas. Que a vontade de um menino ir ao banheiro dos homens
e não ao das mulheres na lanchonete vai tornar-se um grande dilema. Que
exatamente lá, no meio do barulho das bandejas e da gritaria das crianças,
libelos sobre independência e identidade sexual serão confrontados com a
possibilidade de alguém molestar a criança no banheiro. Embora seja uma mulher
determinada no escritório, vai sempre se questionar como mãe.
Olhando para minha amiga tão bonita, quero
assegurar-lhe que sua vida, agora tão importante, terá menos valor para ela
quando vier o bebê. Ela sacrificaria sua vida para poupar a do filho, mas ao
mesmo tempo vai querer viver mais - não para realizar seus sonhos, mas para ver
a criança realizar os dela.
A relação de minha amiga com seu marido vai
mudar, mas não como ela pensa. Um dia ela irá descobrir que se pode amar ainda
mais um homem ao vê-Io passar cuidadosamente talco no bebê ou ao observá-Io
sentado no chão brincando com o filho. Penso que ela deveria saber que vai se
apaixonar de novo pelo marido, mas por razões que agora consideraria muito
pouco românticas.
Gostaria que pudesse perceber o elo que passará
a ter com as mulheres que, através dos tempos, tentaram desesperadamente lutar
contra as guerras e impedir que as pessoas dirijam depois de beber. Espero que
ela entenda por que eu posso pensar racionalmente sobre muitos assuntos, mas me
torno temporariamente louca quando discuto a ameaça de guerra nuclear para o
futuro dos meus filhos.
Quero descrever à minha amiga o milagre que é
uma criança dando seus primeiros passos, conseguindo expressar toscamente em
palavras seus sentimentos, juntando as letras numa frase. A alegria que nos
inunda ao ouvir uma gargalhadinha gostosa, ao ver o filho acertando a bola no
gol, a filha mergulhando corajosamente do trampolim mais alto.
a olhar curioso da minha amiga me faz perceber
que tenho lágrimas nos olhos. "Você nunca vai se arrepender", digo,
finalmente. Estendo o braço por sobre a mesa, aperto sua mão e rezo em sua
intenção e de todas as mulheres que, no meio do seu caminho, se depararam com o
mais sublime dos chamados.
O DOM DA CONVERSA
LYNN ROGERS PETRAK
Histórias Para Aquecer o Coração 2 117
Embora me dissesse para não falar com
estranhos, minha mãe sempre falava com todo mundo. Na fila do supermercado. Nas
lojas. Numa rápida viagem de elevador, em aeroportos, jogos de futebol e na
praia.
Ainda bem que eu só segui o seu conselho em
relação a estranhos ameaçadores. Acho que eu sou uma pessoa melhor por causa
disso.
a costume de minha mãe de começar a bater papo
com qualquer pessoa que estivesse por perto hoje me faz sorrir, mas quando eu
era adolescente muitas vezes quase me matou de vergonha.
"Lynn também está ganhando o seu primeiro
sutiã hoje", ela confidenciou a uma mulher que também acompanhava a filha
adolescente na seção de sutiãs na loja de departamentos da nossa cidade. Eu
quis me esconder atrás de um roupão de banho atoalhado, mas apenas fiquei
vermelha e resmunguei "Mamaaaaaãe...", dentes cerrados. Só me senti
um pouco melhor quando a mãe da garota retrucou: "Estamos tentando achar
um para Sarah, mas são todos muito grandes." Nem todo mundo respondia quando
mamãe fazia uma observação e tentava iniciar uma conversa. Algumas pessoas lhe
davam um meio sorriso e seguiam em frente. Outras simplesmente a ignoravam.
Nessas ocasiões eu percebia que mamãe ficava um pouco magoada, mas ela dava de
ombros e continuávamos nosso caminho.
Na maioria das vezes, entretanto, eu saía de
perto um pouquinho e, quando voltava, lá estava ela de conversa-fiada.
Houve ocasiões em que me preocupei, achando
tê-la perdido na multidão, mas então eu ouvia sua risada sonora e um comentário
do tipo: "Sim, sim, eu também." Nesses papos espontâneos, minha mãe
me ensinou como é importante ter tempo para se interessar pelos outros. Ela me
ensinou que nós, mulheres, temos todas uma espécie de afinidade, mesmo que não
sejamos nem um pouco parecidas. Na maioria das situações do dia-a-dia e dos
sentimentos que eles provocam há como fios invisíveis que nos unem.
Uma das últimas lembranças que tenho de minha
mãe é dela no hospital, a poucas horas de morrer do câncer que a fizera
emagrecer trinta e oito quilos, sorrindo fracamente e conversando com a
enfermeira sobre a melhor maneira de plantar roseiras. Fiquei olhando da porta,
quieta, com vontade de chorar, mas com um grande sentimento de amor e carinho.
Ela me ensinou a ver as outras pessoas com alegria e respeito. A tirá-Ias do
anonimato. Nunca vou me esquecer disso, especialmente quando me viro para
alguém e digo: "Você não acha ótimo quando...
O LADO BOM NA DESGRAÇA
De THE SOWER'S SEEDS (As sementes do semeador)
Histórias Para Aquecer o Coração 2 125
O laboratório de Thomas Edison foi totalmente
destruído pelo fogo em dezembro de 1914. Apesar de os prejuízos ultrapassarem
dois milhões de dólares, o prédio estava segurado em apenas 238 mil dólares,
porque era de concreto, que se imaginava à prova de fogo. Muito do trabalho de
Edison se foi com as chamas impressionantes daquela noite de dezembro.
No auge do fogo, o filho de Edison, Charles, um
rapaz de vinte e quatro anos, procurava freneticamente pelo pai em meio à
fumaça e aos destroços. Finalmente o achou, calmamente observando a cena, com
ar de reflexão, seu cabelo branco ao vento.
"Meu coração doeu por ele", contou
Charles. Era um homem de sessenta e sete anos que via tudo o que possuía se
consumir nas chamas. Quando me avistou, meu pai gritou:
"Charles, onde está sua mãe? Chame-a
depressa e traga-a aqui, porque ela nunca mais terá a oportunidade de ver algo
assim." Na manhã seguinte, Edison, olhando para as ruínas, refletiu:
"Há um lado bom na desgraça. Todos os nossos erros são queimados. Graças a
Deus, podemos recomeçar do zero." Três semanas depois do incêndio, Edison
inventou o fonógrafo.
Nota do tradutor: Thomas A. Edison - Físico
americano (1847-1931), famoso pela invenção do telégrafo dúplex, do fonógrafo e
da lâmpada incandescente.
Se sua casa pegar fogo, aproveite para se aquecer.
PROVÉRBIO ESPANHOL
COMO SER UMA PESSOA NOVA E DIFERENTE
PATRICIA LORENZ
Histórias Para Aquecer o Coração 2 127
Tudo indicava que o ano de 1993 não ia ser dos melhores
da minha vida. Já fazia oito anos que eu criava meus filhos sozinha, três deles
tinham ido para a universidade, minha filha era solteira, mas acabara de ter
meu primeiro neto e eu estava prestes a romper um relacionamento de dois anos
com um homem de quem eu gostava muito. Diante de tudo isso, eu passava um tempo
enorme sentindo pena de mim mesma.
Naquele mês de abril, tinha de entrevistar e
escrever sobre uma mulher que vivia em uma cidade pequena em Minnesota.
Portanto, no feriado de Páscoa, Andrew, meu
filho de treze anos, e eu atravessamos dois estados de carro para ir ao
encontro de Jan Turner.
Andrew cochilou durante quase toda a longa
viagem, mas de vez em quando eu puxava conversa com ele.
"Ela tem uma deficiência física. Por algum
motivo que desconheço, teve de amputar os dois braços e as duas pernas."
"Puxa! E como é que ela se vira?"
"Não tenho a menor idéia. Vamos saber
quando chegarmos lá. Só sei que, há quatro anos, ela era exatamente como eu,
trabalhava e cuidava sozinha dos dois filhos que adotou. Era professora de
música em tempo integral em uma escola de primeiro grau e ensinava diversos
tipos de instrumentos. Era também diretora musical de sua igreja. Sei também
que ela nunca se casou”.
Andrew adormeceu novamente. Enquanto cruzava
Minnesota de carro, pensava como aquela mulher pudera enfrentar a notícia
arrasadora de que seus dois braços e suas duas pernas iam ser amputados. Como
será que aprendeu a sobreviver? Será que tem alguém que a ajuda permanentemente
em casa?
Quando cheguei na cidade de Willmar, telefonei
para Jan do nosso hotel para dizer que iria buscá-la em casa com seus dois
meninos, que poderiam ficar na piscina enquanto conversávamos.
- Não é preciso, Pat, eu posso dirigir, vou em
meu próprio carro. Estaremos aí em dez minutos. Você gostaria de ir comer
primeiro? Tem um bom restaurante bem ao lado do seu hotel.
- Claro, está ótimo assim - respondi, meio
hesitante, imaginando como seria comer em um restaurante com uma mulher que não
tinha braços nem pernas. E como é que ainda por cima ela vem dirigindo, meu
Deus?
Dez minutos depois, Jan estacionou na frente do
hotel. Saiu do carro e andou em minha direção da maneira mais natural possível,
com pernas e braços que pareciam tão verdadeiros quanto os meus, e estendeu o
braço direito com um gancho de metal brilhante na ponta para me cumprimentar.
- Olá, Pat, muito prazer. Este aqui deve ser o
Andrew, não é?
Segurei o gancho, sacudi um pouco e sorri meio
sem jeito.
- É, esse é o Andrew.
Olhei para o banco traseiro do carro dela e
sorri para os dois garotos, que sorriram de volta. Cody, o mais novo, parecia
entusiasmado com a perspectiva de ir nadar na piscina do hotel depois do
almoço.
No restaurante, entramos na fila, pagamos,
comemos e conversamos enquanto os três meninos tagarelavam. A única coisa que
tive de fazer para Jan Turner durante toda a refeição foi desatarraxar a tampa
da garrafa de ketchup.
Mais tarde, enquanto nossos filhos brincavam
dentro da piscina, ela me falou sobre sua vida antes da doença.
- Éramos uma típica família em que a mãe ou o
pai vivem sozinhos com os filhos. A vida era tão boa, que eu estava até
pensando seriamente em adotar outra criança.
Eu me senti pequenininha ante a grandeza
daquela mulher.
Ela continuou.
- Em um domingo de 1989, eu estava tocando em
minha igreja quando de repente me senti fraca, tonta e enjoada. Saí quase me
arrastando, chamei os meninos e fui levada para o hospital, onde cheguei em
coma.
Jan tinha pneumonia pneumocócica, uma terrível
infecção bacteriana. Um dos devastadores efeitos colaterais da doença é ativar
o processo de coagulação, o que faz com que os vasos sangüíneos fiquem
obstruídos. Por causa da súbita interrupção do fluxo de sangue nas mãos e nos
pés, as quatro extremidades foram rapidamente tomadas pela gangrena. Duas
semanas depois de ser internada, os braços de Jan tiveram de ser amputados na
altura do meio do antebraço e as pernas no meio da canela.
Pouco antes da cirurgia, ela pensou, apavorada:
Oh, Deus, não! Como vou viver sem braços e pernas, sem pés nem mãos? Como vai
ser nunca mais andar? Nunca mais tocar violão, piano ou qualquer um dos
instrumentos que ensino? Nunca mais poder abraçar meus filhos ou cuidar deles?
Oh, meu Deus, não deixe que eu dependa dos outros para o resto da minha vida!
Seis semanas depois da amputação, enquanto o
que restava de seus membros cicatrizava, o médico falou-lhe a respeito de
próteses. Disse que ela poderia aprender a andar, dirigir um carro, voltar a
trabalhar na escola e até mesmo voltar a ensinar.
Num terrível desamparo, Jan recorreu à sua
Bíblia. Esta se abriu em Romanos, capítulo doze, versículo dois: "Não
imite o comportamento e os costumes deste mundo, mas seja uma pessoa nova e
diferente, com um novo frescor em tudo o que fizer e pensar. Então, aprenderá
por experiência própria como os caminhos de Deus lhe serão realmente
satisfatórios." Jan refletiu sobre aquilo - ser uma pessoa nova e
diferente e decidiu tentar as pró teses. De início, com um andador amarrado em
seus antebraços e um terapeuta de cada lado, só conseguiu cambalear em suas
novas pernas durante dois ou três minutos, para em seguida cair exausta e cheia
de dores.
Vá devagar, disse a si mesma. Seja uma nova
pessoa em tudo o que faz e pensa, mas dê apenas um passo de cada vez.
No dia seguinte, tentou usar as próteses para
os braços, um desagradável sistema de cabos, tiras de borracha e ganchos
acionados a partir de um arreamento colocado nos ombros.
Movimentando os músculos do ombro, logo foi
capaz de abrir e fechar os ganchos para pegar e segurar objetos, vestir-se e
alimentar-se.
Dentro de poucos meses, Jan descobriu que podia
fazer quase tudo o que costumava fazer antes - só que de maneira diferente.
- Mesmo assim, quando finalmente fui para casa,
depois de quatro meses de terapia física e ocupacional, estava muito nervosa
imaginando como seria minha vida ali sozinha com os meninos. Mas, quando
cheguei, saí do carro, subi os degraus para entrar em nossa casa, abracei meus
filhos com toda a força e desde então nunca mais olhamos para trás.
Enquanto Jan e eu falávamos, Cody, que saíra da
piscina, ficou junto da mãe com o braço em seus ombros. E quando ela se referiu
às suas novas habilidades culinárias, Cody abriu um sorriso.
- É mesmo - disse ele. - Ela agora está muito
melhor do que antes de ficar doente, porque sabe até virar as panquecas no ar!
E Jan riu, o riso de uma mulher abençoada com
uma profunda felicidade, uma grande satisfação e uma inabalável fé em Deus.
Desde a nossa visita, Jan completou um segundo
curso universitário, desta vez em Comunicação, e hoje trabalha na estação de
rádio de sua cidade como locutora. Também estudou teologia e foi ordenada
ministra das crianças de sua igreja, a Igreja da Vida Triunfante, em Willmar.
Em poucas palavras, Jan diz:
- Sou uma pessoa nova e diferente, triunfante
por causa do amor e da sabedoria infinitos de Deus.
Depois de conhecer Jan, eu também me tornei uma
pessoa nova e diferente. Aprendi a agradecer a Deus por tudo o que me faz nova
e diferente, seja batalhando em mais um trabalho em tempo parcial para manter
os estudos de meus filhos, seja aprendendo a ser avó pela primeira vez ou tendo
a coragem de terminar um relacionamento com um amigo maravilhoso que
simplesmente não era a pessoa certa para mim.
Pode ser que Jan não tenha braços, pernas, mãos
ou pés de carne e osso, mas é uma mulher com mais coração e alma do que todas
as que já encontrei até agora. Ensinou-me a abraçar todas as coisas "novas
e diferentes" que aparecem em minha vida com toda a alegria de que for
capaz, sabendo que elas me farão crescer. A viver minha vida com muita
esperança.
Se eu tivesse a oportunidade de realizar o desejo de ter
uma vida perfeita, a tentação seria grande, mas eu teria de recusar, porque a
vida não me ensinaria mais coisa alguma.
ALLYSON JONES
O LADRÃO DE BISCOITO
VALERIE COX
Histórias Para Aquecer o Coração 2 133
Certa noite uma mulher estava no aeroporto, com
um longo tempo de espera pela frente até a saída do seu voo. Comprou um livro,
um pacote de biscoitos e sentou-se enquanto aguardava.
Embora absorta na leitura, percebeu que um
homem ao seu lado tirava um biscoito do pacote colocado entre os dois. Para
evitar uma cena, ela fingiu não estar vendo.
Ela lia, comia biscoitos e olhava o relógio. De
vez em quando, o homem voltava a tirar um biscoito do pacote, o que a foi
deixando extremamente irritada, com ímpetos de o agredir. Mas não fazia nada.
Ela pegava um biscoito, ele pegava outro.
Quando só faltava um, ela ficou tensa, sem saber como agir. Com um riso
simpático, ele pegou o último biscoito e o partiu ao meio.
Ofereceu a ela uma metade, comeu a outra.
Ela arrancou da mão dele a metade, pensando na
grosseria do homem que sequer lhe agradecera. Sentiu-se extremamente ultrajada
e respirou com alívio quando chamaram seu voo.
Juntou suas coisas e se dirigiu para o portão,
sem sequer olhar para trás.
Entrou no avião, mergulhou na poltrona e abriu
a maleta para pegar o casaco. O susto que levou a deixou sem fôlego: ali estava
ele, inteirinho, o seu pacote de biscoitos!
"Se o meu está aqui, então foi do dele que
eu comi, e ele nem se importou em dividir." Ela daria tudo para
encontrá-Io de novo, pedir-lhe muitas desculpas e sobretudo agradecer-lhe a
lição.
COMO DESCOBRI MINHA FILHA
MIKE COTTRIL conforme narrado a Bill Holton
Histórias Para Aquecer o Coração 2 135
Eu não queria acreditar em meus próprios olhos.
Tem que haver alguma outra explicação para o que eu vi, fiquei repetindo para
mim mesmo, tentando esconder minhas preocupações. Eu estava junto de minha
esposa Diane, após o nascimento de nossa filha Sandra. Diane estava radiante,
deitada na cama hospitalar, falando com seus pais ao telefone. Mas ela ainda
não tinha visto nossa filha. Ela não percebera a expressão alarmada nos olhos
da enfermeira, instantes antes de levar o bebê embora, rapidamente. Não tínhamos
feito nenhum teste. Não recebêramos nenhum alerta.
Perdi toda a esperança quando o médico entrou e
sentou-se.
Ele esperou pacientemente que Diane terminasse
sua conversa e desligasse o telefone para dar a notícia devastadora: "Eu
sinto muito. A filha de vocês tem síndrome de Down."
Diane reagiu bem à notícia. Durante nove meses
ela criara um vínculo com o bebê. Mesmo antes de trazerem Sandra para que ela a
segurasse, minha esposa já a amava de todo o coração.
Mas eu não. Tive que pedir licença e sair do
quarto.
Andei pelos corredores durante horas, socando
paredes e chorando muito. "Por que você fez isso com a minha filha?",
gritei para um Deus a quem subitamente desprezei. "Por que ela? Por que
eu?" Por que Sandra não podia ser perfeita - como o nosso filho de três
anos, Aaron? Aaron era o meu xodó. Eu adorava passear com ele na chuva,
mostrar-lhe as minhocas e caracóis, brincar com ele nas noites de sexta-feira,
quando Diane trabalhava até tarde. Eu contava histórias para ele na hora de dormir.
Com Sandra, as coisas foram inteiramente
diferentes.
Depois que a trouxemos para casa, corri para a
biblioteca e li tudo o que encontrei sobre síndrome de Down. Procurei
desesperadamente um fio de esperança, por mais tênue que fosse.
Mas quanto mais eu lia, mais desanimado ficava.
Não havia nenhuma cura milagrosa para o que eu chamava de "a situação de
Sandra”. Naquela época, eu sequer conseguia dizer as palavras "síndrome de
Down".
Diane e eu começamos a frequentar um grupo de
apoio, mas depois de algumas semanas não consegui mais ir. Ouvir os pais de
crianças mais velhas que tinham a síndrome de Down descrevendo os muitos
problemas de saúde que enfrentavam me deixava totalmente desesperado. É esse o
nosso futuro?, eu não conseguia deixar de me perguntar.
E de fato, quando Sandra tinha seis meses de
idade, ela precisou fazer uma cirurgia no coração. "Meu Deus, por favor,
não tire Sandra de mim", rezava Diane, mas esta era uma reza da qual eu
não conseguia participar.
Talvez seja para melhor, eu pensava
secretamente, sem me permitir acrescentar - melhor para quem?
À medida que o tempo passava, eu levava Sandra
zelosamente a médicos e terapeutas. Massageava suas pernas e tentava
desenvolver seu tônus muscular. Tentava ensinar-lhe a andar e falar, e ficava
mais frustrado e deprimido com a pobreza dos resultados.
Dediquei-me inteiramente a fazer Sandra
melhorar. Eu estava determinado a "consertá-Ia”, mas isso era tudo o que
eu podia - tentar fazer reparos. Eu não sentia amor por minha filha. Eu só a
tirava do berço para trocar a fralda ou fazer uma de suas terapias.
"Está sendo difícil para você amar
Sandra”, Diane me disse, um dia, suavemente. Tive que admitir que ela estava
certa.
Eu estava envergonhado de meus sentimentos, e,
que Deus me perdoe, eu estava envergonhado da minha menininha.
Ficava embaraçado de ser visto com ela. As
pessoas diziam ''Ah, mas ela é tão bonitinha!", e eu tinha vontade de
agarrá-Ias pelo colarinho e gritar: "Vocês estão mentindo!" A minha
raiva transformou-se em tristeza e minha tristeza deu lugar à apatia e à
distância. Mesmo os passeios e jogos com Aaron perderam a graça, porque me
faziam pensar em todas as coisas que Sandra nunca poderia fazer.
Continuei a cuidar de Sandra, mas tornei-me
cada vez mais desesperançado e distante. "Vai ser sempre assim",
suspirei um dia, há cerca de um ano, enquanto colocava minha filha de dois anos
em sua cadeirinha de comer para dar seu almoço. Coloquei sua comida em um prato
me sentindo inteiramente vazio por dentro.
Mas, quando me aproximei da cadeirinha de
Sandra, ela virou a cabeça e olhou para mim atentamente, com seus grandes olhos
azuis. E então estendeu os dois bracinhos e me abraçou com toda a força, como
se dissesse: "Papai, eu vou fazer a sua tristeza ir embora." Foi um
verdadeiro milagre. Retribuí seu abraço e comecei a chorar, não mais de
tristeza. Eu estava chorando porque a minha menininha tinha me mostrado o que
era ser amado incondicionalmente. Por um breve instante tínhamos trocado de
papel. Sandra havia me dado o amor que há tanto tempo eu não conseguia lhe dar.
",' Eu havia me lamentado porque minha
filha não era perfeita, mas quem era eu para exigir perfeição, quando ainda
tinha tanto a aprender? Quem era eu para chorar pelo que poderia ter sido, em
vez de aceitar e valorizar minha filha do jeito que ela é e sempre será - um
ser humano muito especial?
Sandra me ensinou a abrir meu coração e a amar
espontaneamente, sem expectativas. Eu tinha gasto tanto tempo e energia
procurando fazer com que Sandra atendesse às minhas expectativas, que me
esquecera inteiramente de apenas curtir sua companhia e o que ela tinha a me
oferecer. Eu não cometo mais esse erro.
Hoje em dia, eu leio para meus dois filhos na
hora de dormir, e nas manhãs de sábado você nos encontra, os três, enroscados
no sofá, assistindo a desenhos juntos. E sempre que estou fazendo Sandra rir
das minhas caretas, ou jogando bola com ela, ou abraçando uma de suas bonecas,
nunca deixo de pensar: agora que finalmente abri meu coração para Sandra, ela o
enche todos os dias até a borda de alegria e amor.
A riqueza da experiência humana perderia uma certa alegria
recompensadora se não houvesse limites a superar.
HELEN KELLER
O QUE ESTÁ NO CORAÇÃO
AUTOR DESCONHECIDO
Histórias Para Aquecer o Coração 2 145
Uma menina de quatro anos estava no pediatra
para uma consulta. Examinando seus ouvidos com um otoscópio, o médico
perguntou: "Você acha que eu vou encontrar a Cinderela lá dentro?" A
menina ficou em silêncio.
Em seguida, o médico pegou uma espatela para
abaixar a língua e examinar a garganta da menina. Ele perguntou:
"Você acha que eu vou encontrar a
Chapeuzinho Vermelho lá dentro?" Mais uma vez, a menina nada respondeu.
Então o médico encostou o estetoscópio no peito
da menina. Enquanto ouvia os batimentos do coração, ele perguntou:
"'Você acha que vou ouvir a Branca de Neve
lá dentro?"
"Ah não" a garota respondeu: Quem
está no meu coração é Jesus. A Branca de Neve está nas minhas calcinhas."
POR FAVOR, ME PONHAM UMA ROUPA VERMELHA
CINDY DEE HOLNUS
Histórias Para Aquecer o Coração 2 151
Como professor e agente de saúde, trabalhei com
numerosas crianças infectadas com o vírus da AIDS. As relações que desenvolvi
com essas crianças foram bênçãos na minha vida. Deixe-me contar a história de
Tyler.
Tyler nasceu infectado com o vírus da AIDS,
transmitido por sua mãe, e desde o início de sua vida dependeu de remédios para
sobreviver. Aos cinco anos, teve um cateter inserido por cirurgia numa veia de
seu tórax para infundir a medicação na corrente sanguínea. O cateter se
conectava a uma bomba infusora que Tyler carregava numa mochila às suas costas.
Às vezes, ele também precisava de oxigênio para ajudar na respiração.
Tyler não estava disposto a abrir mão de um
único minuto de sua infância por causa da doença mortal. Não era difícil
encontrá10 brincando e correndo no pátio do edifício, com sua mochila nas
costas e arrastando o tanque de oxigênio no carrinho.
Todos nós que o conhecíamos nos maravilhávamos
com sua alegria e com a energia que essa alegria lhe dava. A mãe de Tyler
adorava o menino, mas frequentemente reclamava da agitação do filho, dizendo
que ele era tão insubordinado, que ela precisaria vesti-lo de vermelho para
localizá-Io rapidamente entre as crianças que brincavam no pátio.
A doença terrível finalmente venceu o pequeno
dínamo que era Tyler. Ele e a mãe ficaram mal e foram hospitalizados. Quando
ficou claro que o fim dele se aproximava, sua mãe conversou com ele sobre a
morte. Ela o confortou dizendo que em breve os dois estariam juntos no céu.
Poucos dias antes de morrer, Tyler me chamou
para perto de sua cama e murmurou: "Vou morrer logo, mas não estou com
medo. Quando eu morrer, por favor, me ponha uma roupa vermelha. Mamãe prometeu
me encontrar no céu. Como eu sei que vou estar brincando quando ela chegar lá,
quero ter certeza de que ela poderá me achar."
OS DEZ PONTOS DE TINA
TOM KRAUSE
Histórias Para Aquecer o Coração 2 153
Ela estava com dezessete anos e tinha sempre um
sorriso alegre nos lábios. Isso não seria nada de extraordinário se Tina não
sofresse de paralisia cerebral, o que tornava seus músculos rígidos e, de modo
geral, ingovernáveis. Como tinha dificuldade para falar, ela usava aquele
sorriso radiante para expressar a sua personalidade. Tina era uma ótima garota.
Costumava usar um andador para se deslocar pelos corredores movimentados da
escola. Os outros alunos não sabiam como se aproximar dela, talvez porque fosse
diferente. Mas Tina parecia não se importar e costumava quebrar o gelo com as
pessoas que encontrava, especialmente com os meninos, dizendo um grande
"ai!".
o dever de casa que eu determinara consistia em
decorar três estrofes do poema "Não Desista”. Decidi que a tarefa só
valeria dez pontos porque imaginava que a maioria de meus alunos não
conseguiria cumpri-Ia. Quando eu estava na escola e um professor estipulava um
dever de casa valendo dez pontos, geralmente eu também não conseguia fazê-lo.
Assim, não esperava grande coisa dos adolescentes naquela aula. Tina fazia
parte da turma e percebi que havia em seu rosto uma expressão diferente da
habitual. Ela parecia preocupada. Não se preocupe, Tina - pensei comigo mesmo
-, são só dez pontos.
Quando chegou a hora de recitar o poema, fui
seguindo a lista de chamada e tudo se deu de acordo com as minhas expectativas:
um após outro, os alunos erravam ao recitar o poema. A desculpa era sempre:
"Desculpe, professor, mas isto só vale dez pontos mesmo, não é?"
Frustrado e meio de brincadeira, declarei que o próximo que não recitasse o
poema perfeitamente teria de deitar no chão ali na minha frente e fazer dez
flexões seguidas. Era um resquício de uma técnica de disciplina dos meus tempos
de professor de educação física. Para minha surpresa, Tina era a próxima. Foi
até a frente em seu andador e, esforçando-se para formar as palavras, começou a
tentar recitar o poema. No fim da primeira estrofe, cometeu um erro. Antes que
eu pudesse dizer qualquer coisa, empurrou o andador para o lado, deitou-se no
chão e começou a fazer as flexões. Fiquei horrorizado, querendo dizer a ela que
estava apenas brincando.
Mas Tina se arrastou de volta para o andado r,
ficou de pé diante da turma e continuou o poema. Foi uma das poucas pessoas da
turma que declamaram as três estrofes sem um erro sequer.
Quando terminou, um dos colegas perguntou:
"Tina, por que você fez isso? A tarefa só
valia dez pontos!"
Tina levou algum tempo para formar as palavras
e responder:
"Porque eu quero ser igual a vocês todos:
normal." O silêncio tomou conta da sala inteira, até que um outro aluno
exclamou:
"Tina, nós não somos normais, somos
adolescentes! Estamos sempre metidos em alguma encrenca, o tempo todo!"
"Eu sei", disse Tina, e abriu um grande sorriso.
Tina ganhou seus dez pontos naquele dia. Também
conquistou o amor e o respeito de seus colegas. Que, para ela, valiam muito
mais do que dez pontos.
DIA DAS MÃES
SHARON NICOLA CRAMER
Histórias Para Aquecer o Coração 2 160
Levei muito tempo tentando engravidar. Um dia,
quando eu estava na casa dos trinta, num domingo em que se comemorava o Dia das
Mães, entrei numa igreja da minha cidade e comecei a chorar.
Mulheres de todas as formas e tamanhos - jovens
e idosas estavam sendo homenageadas durante a missa. Cada uma recebia uma linda
rosa e voltava ao seu lugar, enquanto eu continuava sentada, mãos vazias,
privada da alegria da maternidade.
Mas tudo mudou num mês de fevereiro. Já perto
dos quarenta anos, nasceu Gabriel. Foram vinte e quatro horas de trabalho de
parto para dar à luz aquela trouxinha de alegria de pouco mais de dois quilos.
Jordan nasceu no mês de março do ano seguinte. Era menorzinho e o trabalho de
parto durou menos tempo. E, desde que eu passei a pertencer à irmandade das
mães, tenho querido compartilhar o que descobri para de fato irmanarme com as
outras mães.
Nunca imaginei, enquanto desejava tão
desesperadamente engravidar, que essa irmandade exigisse uma preparação tão
árdua. Alguns meses de muito enjoo, seguido por anseios incontroláveis por
comidas estranhas, ganho de peso perturbador, dores na coluna, o aprimoramento
da arte de arrumar travesseiros preenchendo espaços entre o volume da barriga e
o resto da cama. Estrias na barriga, culminando tudo com as assustadoras dores
do parto.
Com o nascimento da criança, passa-se do
treinamento à iniciação, que está apenas começando. Noites sem dormir, cólicas
do bebê, angústia com os choros inexplicáveis, inquietação com os resfriados,
pânico com a ameaça de pneumonia, coração partido com a tristeza causada pela
morte do bichinho de estimação.
Ajudei meus filhos a largar a chupeta e a
mamadeira, a usar o troninho, levei-os à escola e segurei suas mãos na hora da
vacina.
Ouvi-os falar da primeira namorada, da primeira
decepção, e sofri na primeira vez em que se aventuraram ao volante de um carro.
Fiquei acordada de noite, imaginando mil coisas, até ouvir o barulho da chave
na fechadura da porta, e voltei à insegurança da adolescência na época do
vestibular dos dois.
Mas no fundo do coração, entranhado em todo o
meu ser, guardo imensos tesouros: o primeiro movimento dentro da barriga, o
instante milagroso em que se materializou ante meus olhos aquela pessoinha
gerada por mim, a boquinha sugando meu peito e o primeiro sorriso de
reconhecimento. Essa experiência deslumbrante que é ver uma pessoa se revelando
em suas características únicas, observar suas descobertas, sentir sua mãozinha
procurando a proteção da minha, o corpinho se aconchegando debaixo dos
cobertores. Assistir aos avanços, aos desafios superados, ouvir as
confidências, sentir-se amiga confiante dos filhos.
Cada mãe que me lê pode continuar seu
inventário dos tesouros que compensam infinitamente dores e aflições.
Agora que estou me preparando para ingressar no
clube das avós, voltei à mesma igreja num Dia das Mães. Pensando na jovem que
eu era e na aflição que vivia, fui inundada de gratidão por tudo o que recebi,
pelo que aprendi com meus filhos, pelo crescimento que eles me proporcionaram,
pelas alegrias profundas que me deram. E senti meus braços transbordando de
rosas.
FÉ, ESPERANÇA E AMOR
PETER SPELKE com o auxílio de Dawn Spelke e Sam Dawson
Histórias Para Aquecer o Coração 2 163
Quando eu tinha quatorze anos, fui mandado para
a Escola Cheshire, um colégio interno para meninos com problemas em casa. Meu
problema era minha mãe alcóolatra, que tinha arrasado nossa família com seu
comportamento. Depois que meus pais se divorciaram, eu tomei conta de minha mãe
até ser reprovado na oitava série. Meu pai e um diretor da escola decidiram que
um colégio interno de disciplina rígida e bem distante de minha mãe deveria me
dar a oportunidade de terminar o segundo grau.
Na palestra de orientação do primeiro ano, o
último a falar foi o chefe de disciplina, Fred O'Leary. Antigo jogador de
futebol em Yale, era um homem corpulento, de bochechas vermelhas e um enorme
pescoço. Sua presença deixava todos inquietos. Um aluno mais velho cochichou em
meu ouvido: "Garoto, mantenha distância desse homem. É melhor ele nem
saber que você existe!"
O discurso do senhor O'Leary foi curto e
direto: "Não saiam do campus, não fumem e não bebam. Não façam contato com
as garotas da cidade. Se vocês desobedecerem a essas regras, sofrerão as
consequências e vão se ver pessoalmente comigo." Quando pensei que ele
terminara, num tom muito mais baixo, o senhor O'Leary acrescentou: "Se
tiverem algum problema, a porta do meu gabinete estará aberta para vocês."
À medida que o ano escolar seguia, o problema de minha mãe piorava. Ela ligava
para mim dia e noite. Com sua voz pastosa, pedia-me para deixar a escola e
voltar para casa. Dizia que ia parar de beber, desfilava mil promessas. Eu a
amava. Era difícil dizer não a ela, e o meu coração se apertava cada vez que
ouvia sua voz. Eu me sentia culpado, tinha vergonha. E estava muito, muito
confuso.
Uma tarde, durante a aula de inglês, eu não
conseguia me concentrar, pensando em minha mãe Ao sentir que ia chorar, então
pedi para sair da sala.
"Sair para quê?" "Para ver o
senhor O 'Leary" , respondi. Meus colegas me olharam espantados e o
professor perguntou se podia me ajudar.
"Não! Eu quero ir à sala do senhor O'Leary
agora." Quando saí da sala, eu só conseguia pensar em suas palavras:
"Minha porta está aberta." A sala do senhor O'Leary ficava no grande
vestíbulo da entrada principal. Quando um aluno cometia uma falta mais séria,
ele o colocava para dentro da sala, batia a porta e baixava a cortina interna.
Com frequência ouviam-se seus gritos: "Você foi visto fumando atrás do
quartel de bombeiros na cidade, você estava com a moça da lanchonete!"
Pobre menino.
Quando entrei na fila do lado de fora de sua
sala, os outros meninos me perguntaram o que eu tinha feito de errado.
"Nada', eu disse.
"Você está louco? Saia daqui agora
mesmo!", eles gritaram, mas eu não podia pensar em outro lugar para ir.
Finalmente chegou minha vez. A porta da sala do
senhor O'Leary se abriu e fiquei de olhos grudados nas bochechas do chefe de
disciplina. Eu tremia e me sentia um bobo, mas tinha o palpite louco de que
alguma coisa ou alguém tinha me levado a esse homem - o homem mais temido da
escola. Nossos olhos se encontraram.
"Por que você está aqui?", ele
vociferou.
"Na apresentação, o senhor disse que sua
porta estaria aberta se alguém tivesse algum problema”, eu gaguejei.
"Entre", ele disse, apontando para uma
grande poltrona verde e baixando a cortina da porta. Sentou-se e me olhou.
Comecei a falar, enquanto as lágrimas rolavam
pelo meu rosto. "Minha mãe é alcoólatra. Ela fica bêbada e começa a me
telefonar. Ela quer que eu deixe a escola e volte para casa. Não sei o que
fazer. Estou assustado e com medo. Por favor, não pense que estou louco."
Enterrei o rosto entre os joelhos e comecei a chorar convulsivamente.
Então aconteceu um milagre - um desses milagres
que Deus faz acontecer através das pessoas. Senti a mão enorme do senhor
O'Leary pousar delicadamente sobre o meu ombro.
Gentilmente, o temido gigante disse:
"Filho, eu sei como você se sente. Vou contar uma coisa para te ajudar: eu
também sou um alcoólatra. Vou fazer tudo o que puder por você e sua mãe. Vou
pedir para meus amigos dos Alcoólicos Anônimos entrarem em contato com ela hoje
mesmo." Naquele instante eu tive a sensação de que as coisas iam melhorar
e perdi o medo. Era como se a mão pousada no meu ombro fosse um toque de Deus
me transmitindo um intenso sentimento de proteção. Pela primeira vez na vida entendi
o que significava fé, esperança e amor, porque estava cheio de fé, esperança e
amor por todos ao meu redor.
O homem mais temido do campus se tornou um
amigo secreto com quem eu tinha um compromisso: quando eu passava por sua mesa
na hora do almoço, piscava para ele amigavelmente. Meu coração se enchia de
orgulho porque aquele homem tão temido se interessara pelo meu problema de
forma tão delicada e carinhosa.
Eu estendi a mão e, na hora em que precisei...
Ele estava lá.
O QUE É O SUCESSO?
RALPH WALDO EMERSON
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 13
O
que é o sucesso? Rir sempre e muito.
Ganhar
o respeito de pessoas inteligentes e a afeição das crianças.
Ganhar
a apreciação de críticos honestos e suportar a traição dos falsos amigos.
Apreciar
a beleza.
Encontrar
o melhor nos outros.
Deixar
o mundo um pouco melhor, seja com uma criança saudável, um pequeno jardim ou
uma condição social redimida.
Saber
que pelo menos uma vida respirou com mais facilidade porque você viveu.
Isso
é ter sucesso.
O AMOR NUNCA SE PERDE
DAVID J. MURCOTT
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 15
Dizem que é melhor amar e perder do que jamais
ter amado.
Esse pensamento não seria um grande consolo
para Mike Sanders. Ele acabava de ser dispensado pela namorada. É claro que não
foi bem assim que ela colocou a situação. O que disse foi: "Eu gosto muito
de você, Mike, e espero que ainda possamos ser amigos." "Que
ótimo", pensou Mike. Amigos. Você, eu e seu novo namorado indo ao cinema
juntos." Mike e Angie estavam juntos desde o primeiro ano do segundo grau.
Mas ela tinha conhecido outra pessoa durante as férias. Agora, ao começar o
último ano, Mike estava só. Durante três anos, compartilharam os mesmos amigos
e lugares
favoritos. Só de pensar em voltar àqueles
locais sem Angie ele se sentia vazio. Como se a luz do mundo tivesse se
apagado.
Os treinos de futebol costumavam ajudá-lo a
esquecer um pouco os problemas. Os treinadores têm uma maneira toda especial de
fazer os jogadores correrem até ficarem tão cansados que não conseguem pensar
em mais nada. Mas, ultimamente, o empenho de Mike não era o mesmo. Um dia,
aquilo afetou o seu jogo. Deixou escapar alguns passes que não perderia em
outras circunstâncias e, pela primeira vez, sofreu várias faltas.
Mike sabia muito bem o preço a ser pago por um
jogador com quem o treinador berrava mais de uma vez, então se esforçou um
pouco mais e chegou ao fim do treino. Quando deixava o campo correndo, lhe
disseram que comparecesse ao escritório do treinador.
- Garota, família ou escola: qual dessas coisas
está lhe incomodando, filho? - indagou o treinador.
- Garota - respondeu Mike. - Como adivinhou?
- Sanders, sou treinador de futebol desde antes
de você nascer e todas as vezes que vejo um craque jogar como um novato do time
reserva o motivo é um desses três.
Mike fez que sim com a cabeça.
- Eu sinto muito, senhor. Não vai acontecer
outra vez.
O treinador deu-lhe um tapinha carinhoso no
ombro.
- Esse é um ano especial, Mike. Você tem chance
de receber uma bolsa para a faculdade que escolher. E lembre-se de se
concentrar no que é realmente importante. O resto acaba entrando nos eixos por
conta própria.
Mike sabia que o treinador tinha razão.
Precisava se libertar de Angie e ir em frente coma sua vida. Mas ainda estava
magoado, sentindo-se até mesmo traído.
- É que eu sinto tanta raiva, treinador.
Confiei nela. Me abri com ela. Dei à ela tudo o que tinha para dar e o que foi
que ganhei com isso?
O treinador tirou algumas folhas de papel de
dentro da gaveta escrivaninha.
- Excelente pergunta a sua. O que foi que você
ganhou com isso? - Entregou o papel e a caneta para Mike e disse: - Quero que
pense sobre o tempo que passou ao lado dessa moça e liste o maior número de
experiências, boas e ruins, que conseguir lembrar. Então vou querer que escreva
o que cada um de vocês aprendeu com o outro. Voltarei daqui a uma hora. - E,
com isso o treinador deixou Mike sozinho.
Mike encolheu-se na cadeira, enquanto
lembranças de Angie inundavam a sua mente. Lembrou-se de quando juntou coragem
para convidá-Ia para sair pela primeira vez e de sua alegria quando ela
aceitou. Se não fosse pelo incentivo de Angie, Mike jamais teria tentado uma
vaga no time de futebol.
Então pensou nas brigas que tiveram. Embora não
conseguisse se lembrar de todos os motivos pelos quais brigavam, lembrava-se de
como se sentia feliz quando conseguiam conversar e resolver os problemas. Tinha
aprendido a se comunicar e a buscar acordos. Lembrou-se também de quando faziam
as pazes. Era sempre a melhor parte.
Mike lembrou-se de todas as vezes que Angie fez
com que ele se sentisse forte, necessário e especial. Encheu o papel com a
história dos dois, das férias, das viagens feitas com a família do outro,
bailes da escola e tranquilos piqueniques a dois. Linha por linha, descreveu a
experiência que compartilharam e se deu conta do quanto ela o ajudara a crescer
e a se conhecer melhor. Ele teria sido uma pessoa diferente sem ela.
Quando o treinador retomou, Mike se fora.
Deixou um bilhete sobre a mesa que dizia apenas:
Treinador,
Obrigado pela lição. Acho que é verdade quando
dizem que é melhor amar e perder do que jamais ter amado. A gente se vê no
treino.
Se o seu amor não passa de um desejo de possuir, ele não é
amor.
THICH NHAT HANH
A FOFOQUEIRA
AUTOR DESCONHECIDO Enviado por Helen Hazinski
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 19
Uma mulher espalhou uma fofoca sobre uma
vizinha. Alguns dias depois, o bairro inteiro sabia da história. A moça que foi
alvo da fofoca ficou muito magoada e ofendida. Mais tarde, a mulher que
espalhou o boato descobriu que era tudo mentira.
Ficou muito arrependida e foi visitar um velho
sábio para descobrir o que podia fazer para consertar o estrago. - Vá até a
praça do mercado - disse ele -, compre uma galinha e mande matar. Depois, no
caminho de casa, depene a galinha e solte as penas uma por uma pela rua. -
Embora surpresa com o conselho, a mulher fez o que ele tinha mandado.
No dia seguinte, o sábio disse:
- Agora vá, recolha todas as penas que deixou
cair ontem e traga para mim.
A mulher seguiu o mesmo caminho, mas, para seu
desespero, o vento tinha dispersado todas as penas. Depois de procurar por
horas, ela voltou com apenas três penas na mão.
- Está vendo - disse o velho sábio, é fácil soltá-Ias,
mas é impossível recolhê-Ias. Com fofoca também é assim. Não custa muito
espalhar um boato, mas, depois que se espalha, nunca se pode reverter o dano
completamente.
TIGRESA
JUDITH S. JOHNESSEE
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 21
Não tenho certeza de como Jesse chegou à minha
clínica. Ele não parecia ter idade para dirigir, apesar do corpo desenvolvido e
do andar firme. Seu rosto era franco e aberto.
Quando entrei na sala de espera, Jesse estava
afagando carinhosamente a gata deitada em seu colo. Com um olhar confiante, ele
me pediu que a curasse.
A gata era uma coisinha minúscula, de formas
requintadas, cabeça delicada e linhas marcas no pêlo. Parecia ter por volta de
quinze anos de idade. As manchas e listras no pêlo e seu rosto impetuoso e
esperto deviam ter evocado a imagem de um tigre na mente de uma criança, e
assim ela se tornara Tigresa.
A idade diminuíra o fogo verde brilhante dos
seus olhos, que agora estavam opacos, mas ela ainda era elegante e altiva.
Recebeu-me amistosamente, esfregando o focinho na minha, mão.
Comecei a fazer perguntas para descobrir o que
levara aqueles dois a me procurar. Ao contrário da maioria dos adultos, o
garoto respondia de forma simples e direta. Recentemente, Tigresa tinha
começado a passar mal e a vomitar umas duas vezes por dia. Agora não estava
comendo mais nada e vivia retraída e tristonha. Também tinha emagrecido meio
quilo, o que era muito para quem pesava apenas três.
Acariciando Tigresa, fui dizendo a ela como era
bonita, enquanto examinava seus olhos e sua boca, auscultava seu coração e
apalpava seu estômago. Foi então que encontrei uma massa no meio do abdômen.
Tigresa tentou se afastar educadamente. Ela não gostava que tocassem ali.
Olhei par! o adolescente de rosto confiante e
tornei a olhar para a gata, sua companheira da vida toda. Eu ia ter que contar
que Tigresa tinha um tumor e que, mesmo que ele fosse removido cirurgicamente,
ela provavelmente sobreviveria menos de um ano.
Para durar esse tempo todo, a gatinha teria que
fazer quimioterapia semanalmente. Tudo aquilo seria muito difícil e caro.
Assim, eu precisava dizer ao garoto que sua
amada companheira provavelmente iria morrer. E ali estava Jesse, sozinho.
Ele estava prestes a aprender uma das lições
mais duras da vida: a de que a morte é algo que acontece com todas as coisas
vivas. Ela é parte da vida. A primeira experiência da morte pode ser formadora,
e aparentemente eu seria a pessoa que o guiaria nessa primeira experiência. Eu
não queria cometer nenhum erro. Tudo tinha que ser feito de forma perfeita, ou
ele poderia acabar com traumas emocionais.
Teria sido fácil me esquivar dessa tarefa e
chamar um dos pais. Mas quando olhei para o rosto do menino, não consegui fazer
isso. Ele sabia que havia algo errado e eu não podia simplesmente ignorá-Io.
Então, gentilmente, contei a Jesse, na condição de verdadeiro dono da Tigresa,
o que eu havia encontrado e o que aquilo significava.
Enquanto eu falava, Jesse me deu as costas
abruptamente, tentando esconder as lágrimas. Para deixá-Io mais à vontade,
sentei-me ao lado de Tigresa e, enquanto acariciava o lindo rosto da velha
gata, comecei a discutir as alternativas com ele: eu podia fazer uma biópsia do
tumor, deixá-Ia morrer em casa ou dar-lhe uma injeção e colocá-Ia para dormir
ali mesmo.
Jesse me ouviu com atenção e balançou a cabeça,
mostrando que entendia. Esforçando-se para conter o choro, ele disse que
percebia o mal-estar de Tigresa e que não queria que ela sofresse. Os dois
cortaram meu coração. Ofereci-me para ligar para seus pais, explicando o que
estava acontecendo.
Jesse me deu o telefone do pai. Repeti tudo,
enquanto ele ouvia, acariciando sua gata. Depois deixei o pai falar com o
filho. O garoto andava de um lado para o outro, gesticulando, e sua voz falhou
algumas vezes, mas, quando ele desligou, virou-se para mim com os olhos secos e
disse que eles tinham decidido colocá-Ia para dormir.
Sem discussões, sem negações, sem histeria,
apenas a aceitação do inevitável. Mas eu podia ver como ele estava sofrendo.
Perguntei se ele queria levar Tigresa para casa
para se despedir dela e trazê-Ia de volta no dia seguinte. Jesse disse que não.
Mas queria ficar sozinho com a gata por alguns minutos.
Deixei-os a sós e fui buscar os barbitúricos
que usaria para fazê-Ia mergulhar em um sono sem dor. Eu não conseguia
controlar as lágrimas que escorriam pelo meu rosto, nem a tristeza que sentia
crescer dentro de mim por causa de Jesse, que virara homem tão rapidamente e
tão só.
Esperei do lado de fora da sala de consulta. Em
poucos minutos, ele saiu e disse que estava pronto. Perguntei se ele queria
ficar com ela. Jesse pareceu surpreso, mas expliquei que era mais fácil ver
como tudo se passava tranquilamente do que ficar imaginando para sempre como
tinha acontecido.
Percebendo a lógica daquele argumento, Jesse
segurou a cabeça da companheira e a reconfortou enquanto eu administrava a
injeção. EIa adormeceu aninhada na mão dele.
O animal parecia tranquilo e em paz. Agora era
o dono que tinha que aguentar todo o sofrimento.
Este é o melhor presente que se pode dar a um
ente querido. Assumir a sua dor para que ele possa descansar - eu disse.
Jesse balançou a cabeça, concordando. Ele
compreendia.
Mas faltava alguma coisa. Apesar de eu ter
pedido que ele virasse homem de um instante para o outro, e de Jesse ter feito
isso com gentileza e força, ele ainda era um garoto.
Estendi os braços e perguntei se ele precisava
de um abraço.
Ele precisava e, na verdade, eu também.
Seja gentil pois cada pessoa que você conhecer
pode estar enfrentando uma batalha mais árdua.
PLATÃO
QUEBRANDO AS REGRAS
CHRIS BLAKE - Enviado por Leon Bunker
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 27
Todo aluno científico Monroe conhecia as
regras. E ninguém ousava quebrá-las. Ninguém. Na hora do almoço no científico
Monroe era sempre igual. Assim que tocava o sinal do fim da última aula da
manhã, os alunos corriam até seus escaninhos. Depois, os que não comiam no
refeitório se dirigiam para a quadra com seus lanches dentro de saquinhos. A
quadra era um grande quadrado de concreto sem árvores no meio do colégio. Era o
lugar dos encontros e das refeições.
Os vários grupinhos do colégio se reuniam em
torno da quadra. Os viciados se juntavam no lado sul. Os punks ficavam ao seu
lado. No lado leste ficavam os negros. Ao seu lado, os CDFs. Os atletas ficavam
no lado norte, ao lado dos surfistas. Os caipiras ficavam no lado oeste. As
patricinhas e os mauricinhos ficavam no refeitório. Todos sabiam seus lugares.
Esse arranjo criava uma certa tensão. No
entanto, mesmo toda a tensão gerada no perímetro da quadra na hora do almoço
não era nada em comparação com o interior da quadra.
Lá dentro era a terra-de-ninguém. Ninguém do
Monroe cruzava o meio da quadra. Para passar de um lado para o outro, os alunos
davam a volta na quadra. Davam a volta nas pessoas. Davam a volta nos olhares.
Todo mundo sabia, ninguém fazia.
Então, certo dia, no começo da primavera,
chegou uma aluna nova no Monroe. Seu nome era Lisa. Ela não conhecia a área. Na
verdade, era nova no estado. E, embora Lisa fosse bastante simpática, não
atraiu amigos com rapidez. Era gorda demais e tímida, e o estilo de suas roupas
era meio... cafona.
Ela se inscrevera no Monroe naquele dia.
Durante a manhã inteira sofrera para encontrar suas salas e algumas vezes
chegara tarde, o que era especialmente constrangedor. Os professores, em geral,
tinham sido tolerantes. Alguns ficaram irritados, pois suas turmas já eram
grandes demais e a chegada de um novo aluno exigia uma burocracia antes da
aula.
Mas ela conseguira "sobreviver" até a
hora do almoço. Ao ouvir o sinal, Lisa suspirou e juntou-se à multidão no
corredor.
Caminhou até o escaninho e tentou seu segredo
três, quatro, cinco vezes antes de ele abrir com um estrondo. Para não ter que
voltar e pegar os livros no armário depois do almoço, resolveu levá-los com
ela. Pensou em almoçar nos degraus na frente da sua próxima sala.
Lisa começou então a caminhada mais longa da
sua vida: através do colégio em direção à sua próxima aula. Cruzou o corredor.
Desceu as escadas. Cruzou o gramado. Cruzou a calçada. Cruzou a quadra.
Enquanto caminhava, Lisa tinha de equilibrar os
pesados livros no braço e o saquinho com seu lanche no outro. Ela pegara livros
demais, e o de cima da pilha não parava de escorregar. Então ela era obrigada a
ficar prestando atenção nele como em um número de malabarismo. Foi passando
pelas pessoas e avançando lentamente, sem ligar para o que estava em volta.
De repente, sentiu alguma coisa, um silêncio
estranho. Um temor inominável apoderou-se dela. Lisa parou. Levantou a cabeça.
Centenas de olhos estavam pregados nela.
Olhares cruéis, cheios de ódio. Olhares impiedosos. Olhares irados. Olhares sem
sentimento, frios, que penetravam em seu corpo. Ela estacou, tonta,
imobilizada. Sua mente gritava: "Não!
Isso não pode estar acontecendo!" Ninguém
sabe dizer com certeza o que aconteceu em seguida. Alguns contam que Lisa
deixou cair o livro, abaixou-se para pegá-Io e perdeu o equilíbrio. Outros
dizem que ela tropeçou. Não importa como aconteceu.
Ela caiu no chão e ficou ali caída, com as
pernas abertas, no meio da quadra.
Então os risos começaram como uma corrente
elétrica percorrendo o perímetro, carregada de um clima de pesadelo,
enrolando-se cada vez mais em torno de sua vítima. E ela ali caída.
De todos os lados, dedos apontavam para ela, e
depois começaram os insultos, crescendo em um júbilo rouco, aumentando em uma
insanidade implacável. E ela ali caída.
De um canto da quadra, uma figura surgiu
lentamente. Era um garoto alto e tinha um andar rígido, como se medisse cada
passo. Caminhou para onde os dedos apontavam. À medida que os alunos perceberam
que havia outra pessoa no meio da quadra, os insultos diminuíram, depois
pararam. Um silêncio espalhou-se pela multidão.
O garoto andou em meio ao silêncio. Caminhava
com firmeza, com os olhos fixos na forma caída no concreto. Quando chegou perto
da garota, o silêncio era sepulcral. O menino simplesmente se ajoelhou, pegou o
saco de comida, os livros espalhados e depois pôs a mão debaixo do braço da
garota e a olhou nos olhos. Ela se levantou. O garoto ajudou Lisa a se
equilibrar, enquanto caminhavam pela quadra e cruzavam com as pessoas mudas que
se afastavam para deixá-los passar.
No dia seguinte, na hora do almoço, uma coisa
curiosa aconteceu no científico Monroe. Assim que o sinal que marcava o fim da
última aula da manhã começou a tocar, os alunos correram até seus escaninos.
Depois, os que não comiam no refeitório se dirigiram para o meio da quadra com
seus lanches. De todos os lados do colégio, grupos diferentes de alunos
caminhavam livremente pela quadra. Ninguém podia explicar realmente por que
agora era permitido. Todos apenas sabiam. E, se você visitar o científico Monroe,
é assim que é hoje.
Isso aconteceu há algum tempo. Eu nunca
consegui descobrir o nome do garoto que ajudou Lisa. Mas ninguém aqui vai se
esquecer do que ele fez. Ninguém.
A DECISÃO MAIS DIFÍCIL QUE TOMEI
KRISTINA DULCEY
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 32
Erros, erros, erros. Todo mundo os comete.
Ninguém viu o meu chegar.
No geral, eu era uma boa menina. Aos quinze
anos, estava no segundo ano do segundo grau de uma escola católica e fazia
parte de uma sociedade nacional de honras acadêmicas. Eu jogava sofiball e
corria cross-country. Tinha, e ainda tenho, vontade de ser médica. Se aos
quinze anos, alguém tivesse me falado que eu ia ficar grávida, teria dito que
essa pessoa era louca.
Por que alguém faria uma tolice dessas? Ainda é
difícil acreditar, mas aconteceu.
Onze de outubro de 1997 foi o dia em que minha
filha nasceu. Olhei para ela e foi amor à primeira vista. Senti-me inundada de
emoções que jamais experimentara. Eu a amei intensamente, incondicionalmente.
Desejava lhe dar o que havia de melhor, mas estava consciente de que, por mais
que quisesse, não seria capaz. Fisicamente, emocionalmente e de todas as outras
formas, eu não tinha condições de ser mãe. Sabia o que precisava ser feito.
Procurando deixar as minhas emoções de lado, fiz o que achei ser melhor para a
minha filha: decidi dá-Ia para adoção.
Colocar minha filhinha nos braços da mulher que
passou a ser sua mãe foi a coisa mais difícil que já tive de fazer. Minha alma
doía. Embora ainda possa vê-Ia, porque fui abençoada com uma adoção aberta, a
dor continua intacta. Sinto-a queimar dentro de mim todos os dias, toda vez que
penso em Katelyn. Só espero que, quando ela for mais velha, se dê conta do
quanto a amo. Eu a amo mais do que qualquer coisa neste mundo.
Hoje é o primeiro Natal de minha filha. Não vou
estar ao seu lado para compartilhar a alegria desta época de festas ou brincar
de Papai Noel e abrir os presentes para ela (ela só te.m dois meses). Na
realidade, não vou estar por perto quando der seu primeiro passinho ou quando
balbuciar sua primeira palavra. Não estarei presente para tirar fotos de seu
primeiro dia no jardim-de-infância. E quando ela chorar pedindo a mamãe, não é
por mim que estará chamando. No fundo, sei que tomei a decisão certa. Eu só gostaria,
de todo coração, que não tivesse precisado fazer essa escolha.
CONTE AO MUNDO POR MIM
JOHN POWELL, S.J.
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 34
Eu
estava me preparando para dar a aula inaugural de teologia e observava os
alunos da universidade entrarem na sala, quando vi TOMMY pela primeira vez.
Isso foi há quatorze anos. Ele estava penteando o cabelo, que chegava a quinze
centímetros abaixo dos ombros. Minha primeira impressão foi de que ele era
estranho - muito estranho.
Tommy
se revelou meu maior desafio. Ele constantemente fazia pouco da possibilidade
de existir um Deus que amasse todas as pessoas incondicionalmente. Quando
entregou sua prova final do curso, perguntou com um tom levemente cínico:
-
O Senhor acha que eu algum dia vou encontrar Deus?
-
Não - respondi enfaticamente.
-
AH!- ele retrucou. – Achei que fosse essa crença que o senhor estivesse nos
empurrando.
-
Deixei-o dar cinco passos porta afora e então falei:
-
Não acho que você vá encontrá-lo, mas tenho certeza de que Ele vai encontrar
você. - Tommy deu de ombros e foi embora. Fiquei ligeiramente desapontado por
ele não ter dado atenção à minha frase de efeito.
Mais
tarde, fiquei contente ao saber que Tommy tinha se formado. Depois, chegou uma
notícia triste: Tommy tinha câncer em estágio terminal. Antes que eu
pudesse procurá-lo, ele veio me ver.
Quando entrou na minha sala, seu corpo estava muito debilitado e seus longos
cabelos tinham caído por causa da quimioterapia. Mas seus olhos brilhavam e sua
voz, pela primeira vez, estava firme.
-
Tommy! Pensei tanto em você. Ouvi dizer que você está doente - fui logo
dizendo.
-
É, muito doente. Estou com câncer. Só tenho algumas semanas.
-
Consegue falar sobre isso?
-
Claro. O que o senhor quer saber?
-
Como é ter vinte e quatro anos e saber que vai morrer?
-
Poderia ser pior - disse ele -, tipo ter cinquenta e pensar que tomar todas,
pegar mulher e ganhar dinheiro são as coisas mais legais da vida. - Então ele
me disse por que tinha ido me ver:
-
Foi uma coisa que o senhor falou no último dia de aula.
Eu
perguntei se o senhor achava que um dia eu ia encontrar Deus e fiquei surpreso
quando a resposta foi não. Depois o senhor disse: "Mas Ele vai encontrar
você." Pensei muito nisso, embora na época eu não estivesse muito
interessado em procurar Deus.
-
Mas, quando os médicos retiraram um caroço da minha virilha e me disseram que
era maligno comecei a tentar seriamente localizar Deus. E, quando o câncer se
espalhou pelos meus órgãos vitais, comecei a socar de verdade as portas do céu.
Mas nada aconteceu. Bom, um dia eu acordei e, em vez das tentativas
desesperadas de receber algum tipo de mensagem simplesmente desisti. Decidi que
na verdade não ligava para Deus, vida depois da morte ou qualquer coisa desse
tipo.
-
Decidi gastar o tempo que tinha fazendo algo mais importante. Pensei em outra
coisa que o senhor tinha dito: "A maior tristeza é passar pela vida sem
amar. Mas seria igualmente triste deixar este mundo sem nunca dizer àqueles que
você amou que os amava." Então comecei com o mais difícil de todos: meu
pai.
O
pai de Tommy estava lendo o jornal quando o filho chegou perto dele.
-
Papai, queria falar com você.
-
Bom, fale.
-É
importante o que eu quero dizer.
O
jornal se abaixou lentamente alguns centímetros.
-
O que é?
-Papai,
eu te amo. Só queria que você soubesse disso.
Tommy
sorriu ao me contar aquela cena.
-
O jornal caiu no chão. Então meu pai fez duas coisas que nunca tinha visto
fazer antes: chorou e me abraçou. E conversamos a noite toda, apesar de ele ter
que ir trabalhar na manhã seguinte.
-
Foi mais fácil com minha mãe e com meu irmão mais novo - continuou Tommy. -
Eles choraram comigo, nos abraçamos e compartilhamos as coisas que vínhamos
mantendo em segredo por tantos anos. Eu só lamento ter esperado tanto. Ali
estava eu, à beirada morte, apenas começando a me abrir para todas as pessoas
de quem eu tinha sido realmente próximo.
-
Então um dia eu me virei e Deus estava ali. Ele não veio quando chamei por Ele.
Aparentemente, Ele faz as coisas do Seu próprio jeito e no Seu próprio tempo. O
importante é que o senhor estava certo. Ele me encontrou mesmo depois de eu ter
parado de procurá-lo.
-
Tommy - disse eu, quase engasgando. - Acho que você não se dá conta da
importância do que está dizendo. Você está dizendo que o caminho mais perto
para encontrar Deus não é fazer Dele uma posse particular nem um consolo
instantâneo em momentos de necessidade, mas sim se abrindo para o amor. Tommy - acrescentei - será que eu podia pedir
um favor a você? Você viria à minha aula de teologia para contar aos meus
alunos o que acabou de me dizer?
Embora
tenhamos combinado uma data, ele não pôde ir.
Sua
vida, é claro, não terminou com sua morte, apenas mudou. Deu o grande passo da
fé rumo à visão. Encontrou urna vida muito mais bonita do que os olhos da
humanidade já viram ou do que a mente jamais imaginou.
Antes
de morrer, conversamos uma última vez.
-
Não vou conseguir ir à sua aula- ele disse.
-
Eu sei, Tommy.
-
O senhor pode contar a eles por mim? Pode... contar ao mundo inteiro por mim?
-
Posso, Tommy. Vou contar a todos eles.
Procurei
minha alma,
mas
minha alma eu não conseguia ver.
Procurei
meu Deus,
mas
meu Deus se esquivou de mim.
Procurei
meu irmão
e
encontrei os três.
AUTOR
DESCONHECIDO
SE EU SOUBESSE
KIMBERLY KIRBERGER
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 39
Muitas
pessoas vivem dizendo “Ah, se eu soubesse naquela época o que sei agora...”,
mas nunca completam o pensamento.
Quer
saber o que eu faria? Então, lá vamos nós.
Eu
ouviria com mais atenção o que meu coração tem para dizer.
Eu
me divertiria mais e me preocuparia menos.
Eu
saberia que a escola um dia vai terminar... e que o trabalho... bom, deixa pra
lá!
Eu
não me preocuparia tanto com o que os outros estivessem pensando.
Eu
valorizaria minha vitalidade e minha juventude.
Eu
brincaria mais, e me irritaria menos.
Eu
saberia que minha beleza está no meu amor pela vida.
Eu
saberia o quanto meus pais me amam e acreditaria que eles estão fazendo o
melhor que podem.
Eu
aproveitaria o sentimento de "estar amando" e não me preocuparia
tanto com o futuro.
Eu
saberia que provavelmente a paixão vai acabar um dia, mas que alguma coisa
melhor virá.
Eu
não teria medo de agir como criança.
Eu
teria mais coragem.
Eu
buscaria ver as qualidades de cada pessoa e não seus defeitos.
Eu
não perderia meu tempo com algumas pessoas só porque elas são "populares”
Eu
faria aulas de dança.
Eu
gostaria do meu corpo do jeito que ele é.
Eu
acreditaria nas minhas amigas.
Eu
seria uma namorada fiel.
Eu
não acreditaria nos meus namorados. (Brincadeira.)
Eu
aproveitaria os beijos. Aproveitaria de verdade.
Eu
seria mais compreensiva e grata com certeza.
O SEGREDO DA FELICIDADE
THE SPEAKER'S SOURCEBOOK
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 41
Há uma fábula maravilhosa sobre uma menina órfã
que não tinha família nem ninguém para amá-la. Certo dia, sentindo-se
excepcionalmente triste e sozinha, ela foi passear por um prado. Ela viu uma
pequena borboleta presa em um arbusto de espinhos. Quanto mais a borboleta
lutava para se libertar, mais os espinhos cortavam suas asas frágeis. A menina
órfã libertou cuidadosamente a borboleta de sua prisão de espinhos. Em vez de
voar para longe, a pequena borboleta transformou-se numa bonita fada. A menina
esfregou os olhos, sem acreditar. - Por sua maravilhosa gentileza - disse a boa
fada à menina -, vou realizar qualquer desejo que você escolher.
A menina pensou um pouco e depois respondeu:
- Eu queria muito ser feliz!
A fada disse:
- Muito bem - e, inclinando-se na direção dela,
sussurrou alguma coisa no seu ouvido. Em seguida, a fada desapareceu.
Enquanto a menina crescia, não havia ninguém na
região tão feliz quanto ela. Todos lhe perguntavam o segredo da sua felicidade.
Ela apenas sorria e respondia:
- O segredo da minha felicidade é que ouvi o
que uma boa fada me disse quando eu era menina.
Quando estava bem velhinha, em seu leito de
morte, todos os vizinhos se reuniram à sua volta, com medo de que o maravilhoso
segredo morresse com ela.
- Conte, por favor - imploraram eles. - Conte o
que a boa fada disse.
A adorável velhinha simplesmente sorriu e
respondeu:
- Ela me disse que todo mundo, por mais seguro
que pareça, quer seja velho ou novo, rico ou pobre, precisa de mim.
Se quiser ser amada, ame e seja amável.
Benjamin Franklin
MEU PRIMEIRO BEIJO
MARY JANE WEST-DELGADO
Histórias
Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 43
Eu
era uma adolescente muito tímida e o meu primeiro namorado, também. Morávamos
numa cidade pequena e cursávamos a sétima série no mesmo colégio. Fazia uns 6
meses que estávamos saindo juntos. Conversávamos sobre várias coisas, íamos ao
cinema e, no escurinho, pegávamos na mão um do outro, suando de nervoso. Muitas
vezes quase nos beijamos, mas nenhum dos dois teve coragem de ir em frente,
apesar de sabermos o quanto queríamos ser beijados.
Um
dia, estávamos sentados no sofá da sala de estar da minha casa e ele tomou a
iniciativa. Conversávamos sobre o tempo (juro!), quando ele se inclinou para me
beijar. Mas eu fiquei com vergonha e coloquei uma almofada na frente do meu
rosto e ele acabou beijando a almofada!
Eu
queria ser beijada, mas estava nervosa demais. Então, fui para o outro lado do
sofá, fugindo dele. Ele chegou mais perto, puxando papo sobre um filme que
estava passando na tevê, e se inclinou para a frente mais uma vez. De novo, eu
recuei.
Fui
para a ponta do sofá. Ele foi atrás de mim, falando de outro assunto, e se
inclinou na minha direção... Eu me levantei.
Andei
até a porta, fiquei em pé, encostada na parede, de braços cruzados, : disse,
impaciente:
-
E aí, vai me beijar ou não?
-
Vou - disse ele.
Então,
estiquei as costas, fechei os olhos bem apertados, fiz biquinho e levantei o
rosto. Esperei... e esperei. (Por que ele não estava me beijando?) Quando abri
os olhos, ele estava vindo na minha direção. Sorri e ele acabou beijando os
meus dentes!
Eu
quase morri de vergonha e, quando ele foi embora, fiquei imaginando se ele
contaria aos amigos sobre o meu comportamento desajeitado. Como eu era
extremamente tímida, comecei a evitar a companhia dos meninos, mesmo aqueles
que eu conhecia desde o jardim-de-infância. Quando andava pelo corredor do
colégio, se visse meu ex-namorado ou qualquer outro rapaz que achasse bonito
vindo na minha direção, eu me escondia na sala mais próxima sala.
Durante
o científico, eu continuei com dificuldades em me relacionar com os garotos. Só
quando entrei para a faculdade é que decidi deixar a timidez de lado. Queria
aprender a beijar com segurança e graça. Aprendi.
Na
primavera, fui para casa rever meus pais. Um dia, entrei no barzinho da moda e
vi meu antigo parceiro de beijo sentado no bar. Caminhei até onde ele estava e
bati no seu ombro. Quando ele se virou, eu não perdi tempo: abracei-o com
força, inclinei seu corpo para trás e dei-lhe o mais decidido dos beijos na
boca. Depois, olhei para ele triunfante e exclamei:
-Pronto!
Ele
apontou para a garota ao seu lado e me disse:
-
Mary Jane, eu queria lhe apresentar a minha namorada.
OS PRESENTES ETERNOS
JACK SCHLATTER
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 46
-
Isso é verdade, ou o senhor só escreveu no quadro porque é uma frase de efeito?
-
O quê? - perguntei sem levantar os olhos da mesa.
-
Aquele dizer: "Se você pensar em alguma coisa que quer e acreditar que vai
tê-la, é capaz de conseguir."
Levantei
os olhos e vi o rosto de Paul, uma das pessoas de quem eu mais gostava, mas
certamente não um dos meus melhores alunos.
-
Bom, Paul - eu disse -, o autor dessas palavras, Napoleon Hill, as escreveu
depois de 2 anos de pesquisa sobre a trajetória de grandes homens e mulheres.
Ele descobriu que esse conceito, afirmado de muitas maneiras diferentes, era a
única coisa que todos tinham em comum. Júlio Verne disse isso de outra maneira,
ao afirmar: "Qualquer coisa que a mente de um homem puder imaginar, a
mente de outro homem pode criar."
-
O senhor quer dizer que, se eu tiver uma ideia e realmente acreditar nela,
posso fazê-la acontecer? - Ele fez a pergunta com uma intensidade que atraiu
toda a minha atenção.
-
Pelo que tenho visto e lido, Paul, isso não é uma teoria, mas uma lei que tem
sido demonstrada ao longo da História.
Paul
enterrou as mãos nos bolsos de trás da sua calça Levi's e ficou andando em
círculos pela sala, lentamente.
Então
virou-se e me encarou com uma energia nova:
-
Sr. Schlatter - disse ele -, durante toda a minha vida fui um aluno abaixo da
média e sei que isso vai me custar caro mais tarde na vida. E se eu pensasse em
mim como um aluno e acreditasse de verdade... se acreditasse que até mesmo eu
poderia conseguir isso ?
-
É, Paul, mas você tem que saber o seguinte: se acreditar de verdade, vai agir
para isso. Acho que existe um poder dentro e você que vai fazer maravilhas para
ajudar, contanto que
você
se comprometa.
-
Como assim, me comprometa? - perguntou ele.
-
Bom, existe uma história sobre um padre que pegou o carro e foi até a fazenda
de um membro da sua congregação. Admirando a beleza do lugar disse: "Clem,
você e o Senhor Deus sem dúvida criaram uma coisa muito linda aqui."
-
Para resumir, Paul, Deus nos dá a madeira, mas temos que acender o fósforo.
Seguiu-se
um silêncio cheio de reflexão.
-
Tudo bem - disse Paul. - Vou fazer isso. Até o final do semestre, vou ser um
aluno B.
Já
estávamos quinta semana do semestre e, na minha aula, a média de Paul era D.
-
A montanha é alta, Paul, mas eu também acredito que você pode conseguir o que
acaba de se propor. - Nós dois rimos e ele saiu da sala para almoçar.
Durante
os 3 meses seguintes Paul me proporcionou uma das experiências mais
inspiradoras que um professor pode ter. Começou a fazer perguntas inteligentes
e desenvolveu uma intensa curiosidade. Passou a arrumar-se melhor e a ter mais
firmeza na forma de caminhar. Aos poucos, sua média foi subindo e era possível
ver sua autoestima começando a crescer. Pela primeira vez na vida, os outros
alunos passaram a lhe pedir ajuda. O encanto que eu percebia em Paul
desabrochou completamente.
Finalmente
veio a vitória. Em uma noite de sexta-feira, sentei-me para corrigir uma prova
sobre a Constituição. Fiquei olhando para a prova de Paul durante um bom tempo
antes de pegar minha caneta vermelha para começar a corrigi-la. Não foi preciso
usar a caneta. Era uma prova perfeita, sua primeira nota máxima. Telefonei para meus colegas para contar a
novidade.
Naquela
manhã de sábado, fui de carro até o colégio para um ensaio de Siga o Sonho, a
peça que eu estava dirigindo. Entrei no estacionamento com o coração leve e
acenei para Kathy, protagonista da peça e uma das melhores amigas de Paul.
Lágrimas escorriam pelo seu rosto.
Assim
que saí do carro, ela correu na minha direção e se jogou em cima de mim,
soluçando. Depois, me contou o que tinha acontecido.
Paul
estava na casa de um amigo e os dois descobriram a coleção de armas
"descarregadas" do pai do garoto. Começaram a brincar. Em determinado
momento, o amigo apontou uma arma "descarregada" para a cabeça de
Paul e puxou o gatilho. Paul morreu na hora, com uma bala no cérebro.
Na
segunda-feira, um inspetor chegou trazendo o boletim de Paul. No lugar em que
devia estar a média geral havia um quadradinho ao lado do qual estava escrito
"desnecessário".
"Isso
é o que a direção do colégio acha", pensei comigo mesmo, enquanto marcava
um enorme A no quadrado. Virei as costas para que a turma não visse minhas
lágrimas. Paul tinha merecido aquela nota e ela estava ali, mas Paul, não. As
roupas novas que ele tinha comprado com o dinheiro como entregador de jornais
ainda estavam no seu armário, mas Paul não estava mais ali. Seus amigos, suas
notas, seu prêmio de futebol estavam ali, mas Paul, não. Por quê?
Nesse
momento me vieram à cabeça e penetraram no meu coração as palavras de um antigo
poema: "Constrói para ti outras mansões soberbas, alma minha."
Percebi que Paul não deixara tudo para trás. As lágrimas começaram a secar e
meu rosto se abriu num sorriso, ao imaginar Paul ainda pensando, ainda
acreditando e ainda conseguindo, com sua recém-desenvolvida curiosidade,
disciplina e autoestima incorporadas para sempre ao seu ser.
Ele nos deixara uma grande quantidade de
riqueza. Do lado de fora da igreja, no dia do enterro, reuni os alunos de
teatro à minha volta e anunciei que os ensaios começariam no dia seguinte. Em
homenagem à memória de Paul e de tudo que ele havia nos deixado, era hora mais
uma vez de seguir o sonho.
Na hora mais sinistra a alma é reabastecida
e ganha força para seguir em frente e suportar.
GUERREIRO XOSA
ACENDENDO A SUA LUZ
ALEC ALLENBAUGH
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 51
Mais de quatro décadas atrás, eu estava no
segundo ano de um grande científico no sul da Califórnia. O corpo estudantil de
3200 alunos era um caldeirão de diferenças étnicas. O ambiente era difícil.
Facas, canos, correntes, socos-ingleses e, às vezes, alguma arma escondida eram
comuns. Brigas e atividades de gangues eram acontecimentos semanais.
Depois de um jogo de futebol no outono de 1959,
eu estava saindo da arquibancada com minha namorada. Enquanto descíamos pela
calçada cheia de gente, alguém me chutou por trás. Ao me virar, vi uma gangue
local armada com socos-ingleses. O primeiro golpe do ataque gratuito quebrou
imediatamente o meu nariz, um dos vários ossos que seriam quebrados na surra.
Socos voavam em todas as direções à medida que eu era cercado pelos quinze
membros da gangue. Mais ferimentos.
Uma concussão cerebral. Hemorragia interna.
Acabei tendo que passar por uma cirurgia. Meu médico me disse que, se eu
houvesse sido atingido na cabeça mais uma vez, provavelmente teria morrido.
Felizmente, não machucaram a minha namorada.
Depois que me recuperei fisicamente, alguns
amigos me procuraram e disseram:
- Vamos pegar esses caras! - Era assim que os
problemas eram resolvidos. Depois de um ataque, igualar o placar tornava-se uma
prioridade. Parte de mim dizia: "Vamos!" O doce gosto da vingança era
certamente uma possibilidade.
Mas outra parte de mim pensou melhor e disse
não.
Vingança não resolvia. A história tinha
demonstrado claramente, vezes sem conta, que as represálias só fazem acelerar e
intensificar o conflito. Precisávamos fazer alguma coisa diferente para quebrar
a corrente contraproducente dos acontecimentos.
Trabalhando com vários grupos étnicos, criamos
o que chamamos de Comitê da Irmandade, para melhorar as relações entre as
diferentes raças. Fiquei espantado ao ver como meus colegas estavam
interessados em construir um futuro melhor.
Nem todos se dispunham a fazer as coisas de um
modo diferente.
Enquanto pequenos grupos de alunos, professores
e pais resistiam ativamente àquele intercâmbio cultural, cada vez mais pessoas
participavam de nosso esforço para mudar as coisas.
Dois anos mais tarde, candidatei-me à
presidência da associação de alunos. Mesmo concorrendo com dois amigos, um
deles um herói de futebol e o outro uma "grande figura do colégio",
muito popular, a maioria dos 3.200 alunos se juntou a mim no processo de fazer
as coisas de modo diferente. Não vou dizer que os problemas raciais foram
completamente resolvidos. No entanto, fizemos progressos significativos na
construção de pontes entre as culturas, buscando estabelecer um diálogo com
diferentes grupos étnicos, resolver as diferenças sem recorrer à violência e
aprender a criar confiança em meio às circunstâncias mais difíceis. É incrível
o que acontece quando as pessoas conseguem falar umas com as outras!
Ser atacado por aquela gangue há tantos anos
foi, sem dúvida, um dos momentos mais difíceis da minha vida. No entanto, o que
aprendi sobre retribuir com amor em vez de desenvolver o ódio tem sido uma
força poderosa na minha vida.
Acender a luz ao lado daqueles que vivem na
escuridão pode fazer a grande diferença na vida de todos.
Aqueles que levam luz à vida dos outros não podem
impedi-Ia de iluminar as suas.
JAMES M. BARRIE
POR QUE OS MENINOS GOSTAM DE MENINAS
KIMBERLY KIRBERGER
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 54
Certo dia, enquanto lia meus e-mails, abri um
daqueles que fazem a gente ficar apertando a setinha para baixo durante uma
eternidade até chegar à mensagem, que foi enviada para centenas de pessoas.
Bem, eu normalmente apago esse tipo de
mensagem. Mas aquela me intrigou. Chamava-se "Alguns Motivos Pelos Quais
Meninos Gostam de Meninas". As instruções diziam para ler a lista, fazer
acréscimos e enviá-Ia a, pelo menos, vinte e cinco pessoas. Se você não a
passasse adiante, teria azar no campo amoroso.
Mas, se a mandasse para vinte e cinco pessoas
ou mais, receberia como prêmio toda a felicidade do mundo no amor.
Depois de ler os motivos pelos quais meninos
gostam de meninas, tive uma ideia. Se eu conseguiria ter toda a felicidade do
mundo no amor mandando aquele e-mail para vinte e cinco pessoas, imagine só a
sorte que teria se o mandasse para milhões de pessoas!
Por isso, resolvi escrever para este livro, na
esperança de conseguir a perfeição conjugal graças a cada um de vocês que ler
isto:
ALGUNS MOTIVOS PELOS QUAIS MENINOS GOSTAM DE
MENINAS
1 - O cheirinho delas é sempre gostoso, mesmo
que seja só xampu.
2 - O jeito que elas têm de sempre encontrar o
lugarzinho certo em nosso ombro.
3 - A facilidade com a qual cabem em nossos
braços.
4 - O jeito que têm de nos beijar e, de
repente, fazer o mundo ficar perfeito.
5 - Como são encantadoras quando comem.
6 - Elas levam horas para se vestir, mas no
final vale a pena.
7 - Porque estão sempre quentinhas, mesmo que
esteja fazendo trinta graus abaixo de zero lá fora.
8 - Como sempre ficam bonitas, mesmo de jeans,
camiseta e rabo-de-cavalo.
9 - Aquele jeitinho sutil de pedir um elogio.
10 - Como ficam lindas quando discutem.
11 - O modo que têm de sempre encontrar a nossa
mão.
12 - O brilho nos olhos delas quando sorriem.
13 - Ouvir a mensagem delas na secretária
eletrônica logo depois de uma briga horrível.
14 - O jeito que têm de dizer "Não vamos
brigar mais, não...", embora você saiba que dali a uma hora...
15 - A ternura com que nos beijam quando lhes
fazemos uma delicadeza.
16 - O modo de nos beijarem quando dizemos
"eu te amo".
17 - Pensando bem, só o modo de nos beijarem já
basta...
18 - O modo que têm de se atirar em nossos
braços quando choram.
19 - O jeito de pedir desculpas por terem
chorado por alguma bobagem.
20 - O fato de nos darem um tapa achando que
vai doer.
21 - O modo com que pedem perdão quando o tapa
dói mesmo (embora jamais admitamos que doeu).
22 - O jeitinho de dizerem "estou com
saudades".
23 - As saudades que sentimos delas.
24 - A maneira que suas lágrimas têm de nos
fazer querer mudar o mundo para que nada mais lhes cause dor.
E no entanto, quer você as ame, as odeie,
queira que morram ou saiba que morreria sem elas... não importa. Depois que
elas entram em sua vida, mesmo que para o resto do mundo não signifiquem nada,
tornam-se tudo para nós. Quando olhamos em seus olhos, quando podemos adivinhar
seus pensamentos e dizer milhões de coisas sem emitir um único som, o mundo
fica iluminado e sabemos que nossas vidas foram completamente transformadas.
Nós as amamos por um milhão de motivos. Não é
coisa da mente e sim do coração. Um sentimento. O mais forte que existe.
UM LONGO CAMINHO PARA CASA
JASON BOCARRO
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 58
Cresci
no sul da Espanha, em uma pequena comunidade chamada Estepona. Tinha dezesseis
anos na manhã em que meu pai me disse que eu podia levá-lo de carro até um
vilarejo isolado chamado Mijas, a cerca de trinta quilômetros, com a condição
de que levasse o carro a uma oficina ali perto. Já que acabara de aprender a
dirigir e quase nunca tinha a oportunidade de usar o carro, aceitei na hora.
Levei papai até Mijas, prometendo pegá-lo às quatro da tarde, e depois fui até
uma oficina próxima e , deixei o carro lá. Já que tinha algumas horas livres,
decidi assistir a dois filmes em um cinema perto da oficina. Mas fiquei tão
absorto nos filmes, que perdi completamente a noção do tempo.
Quando
o último filme terminou, olhei para o relógio. Eram seis horas. Eu estava duas
horas atrasado!
Sabia
que papai ficaria zangado se descobrisse que eu estava no cinema. Ele nunca
mais me deixaria dirigir. Decidi dizer a ele que o carro precisava de uns
consertos e que eles tinham levado mais tempo do que o previsto. Fui até o
lugar onde deveríamos nos encontrar e vi papai esperando pacientemente na
esquina. Pedi desculpas pelo atraso e disse a ele que tinha vindo o mais rápido
possível, mas que o carro precisara de alguns consertos grandes. Nunca vou me
esquecer de como ele me olhou.
-
Fico desapontado por você achar que precisa mentir para mim, Jason.
-
Como assim? Estou falando a verdade.
Papai
tornou a olhar para mim.
-
Quando você não apareceu, eu liguei para a oficina para perguntar se tinha
acontecido alguma coisa e eles me disseram que o carro já estava pronto há
muito tempo e você não tinha aparecido.
Uma
onda de culpa percorreu meu corpo enquanto eu confessava miseravelmente minha
ida ao cinema e a verdadeira razão do meu atraso. Papai ouviu com atenção
enquanto seu rosto se cobria de tristeza.
-
Estou muito triste. Não com você, mas comigo. Sabe, eu me dou conta de que
fracassei como pai, já que depois de todos esses anos você ainda acha que precisa mentir para
mim.
Fracassei
porque criei um filho que não consegue nem dizer verdade ao próprio pai. Vou
voltar para casa andando, para poder pensar onde errei todos esses anos.
-
Mas, pai, são trinta quilômetros até nossa casa. Está escuro. Você não pode
voltar andando.
Meus
protestos, minhas desculpas e o resto das minhas palavras foram inúteis. Eu
tinha decepcionado meu pai e estava prestes a aprender uma das lições mais
dolorosas da vida. Ele começou a andar pela estrada empoeirada. Rapidamente,
pulei para dentro do carro e o segui de perto, esperando que ele fosse
desistir. Implorei o caminho todo, dizendo o quanto estava arrependido, mas ele
simplesmente me ignorou, continuando a caminhar em silêncio, pensativo e
sofrendo. Dirigi atrás dele 30 kms numa média de 8 kms por hora.
Ver
meu pai sofrendo tanto física quanto emocionalmente foi a experiência mais
perturbadora e dolorosa que já enfrentei.
No
entanto, foi também a melhor das lições. Nunca mais menti para ele.
Experiência: a mais brutal das professoras.
Mas você aprende, meu Deus, como aprende.
C.S. LEWIS
O PODER DE UM BOM PROFESSOR
DIANA L. CHAPMAN
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 61
Estávamos sentados na sua sala, dando risinhos,
nos cutucando e falando sobre os acontecimentos do dia, como o estranho rímel
roxo que Cindy estava usando. A Sra. Virginia DeView limpou a garganta e nos
pediu silêncio.
- Agora - disse ela sorrindo -, vamos descobrir
nossas profissões. - A turma toda deu uma exclamação de surpresa.
Nossas profissões? Olhamos uns para os outros.
Tínhamos só treze e quatorze anos. Aquela professora estava doida.
Era mais ou menos assim que os alunos viam
Virginia DeView, com seus cabelos presos em um coque e seus dentes grandes,
saltados saindo pela boca. Por causa de sua aparência, ela era sempre um alvo
fácil para risinhos e piadas cruéis entre os alunos.
Ela também irritava seus alunos porque era
exigente.
A maioria de nós simplesmente ignorava sua
inteligência.
- Sim, todos vocês vão procurar suas futuras
profissões - disse ela com o rosto iluminado, como se aquela fosse a melhor
coisa que fizesse em sua aula a cada ano. - Vão ter que escrever um trabalho
sobre sua futura carreira. Cada um de vocês vai ter que entrevistar alguém da
sua área e fazer um relatório oral.
Fomos para casa confusos. Quem sabe o que quer
fazer aos treze anos? No entanto, eu sabia de algumas das minhas escolhas.
Gostava de arte, de cantar e de escrever. 1ias era péssima em arte, e quando eu
cantava minhas irmãs gritavam:
- Ah, por favor, cale a boca! - A única coisa
que sobrava era ler.
Todos os dias, durante a aula, Virginia DeView
nos perguntava: em que ponto estávamos? Quem tinha escolhido sua carreira? No
final, quase todos nós tínhamos escolhido alguma coisa, e eu tinha escolhido
jornalismo escrito. Aquilo significava que eu ia entrevistar um repórter de
jornal de carne e osso e eu estava aterrorizada.
Sentei-me na frente dele praticamente sem
conseguir falar.
Ele olhou para mim e disse:
- Você trouxe lápis ou caneta?
Fiz que não com a cabeça.
- E papel?
Fiz que não com a cabeça de novo.
Finalmente, acho que ele se deu conta de que eu
estava aterrorizada e recebi minha primeira grande dica como jornalista.
- Nunca, nunca vá a lugar nenhum sem lápis e
papel. Você não sabe o que vai encontrar.
Durante os noventa minutos seguintes, ele me
encheu de histórias sobre assaltos, ondas de crime e incêndios. Ele nunca se
esqueceria do trágico incêndio onde quatro membros da mesma família tinham
morrido no fogo.
Alguns dias depois, fiz meu relatório oral
totalmente de cabeça, pois tinha ficado muito impressionada. Tirei a nota
máxima.
À medida que o ano letivo se aproximava do fim,
alguns estudantes muito rancorosos decidiram dar o troco em Virginia De View
por nos fazer trabalhar tão duro. Quando ela estava virando uma esquina,
jogaram uma torta na cara dela com a maior força possível. Ela se machucou de
leve fisicamente, mas foi emocionalmente que ficou ferida de verdade. Não
voltou à escola durante vários dias. Quando ouvi a história, foi como se um
buraco profundo e feio se abrisse na minha barriga. Senti vergonha por mim
mesma e por meus colegas, que eram incapazes de ver, por trás da aparência de
uma mulher, seu fenomenal talento para ensinar.
Os anos se passaram e eu me esqueci
completamente de Virginia DeView e das carreiras que escolhemos. Estava na
faculdade, à procura de uma nova carreira. Meu pai queria que eu fosse
executiva, o que parecia um bom conselho na época, mas o problema era que eu
não levava absolutamente nenhum jeito para negócios. Então me lembrei de
Virginia De View e do meu desejo de ser jornalista aos 13 anos. Liguei para
meus pais:
- Estou mudando de curso - anunciei.
Houve um silêncio perplexo do outro lado da
linha.
- Para quê? - perguntou meu pai finalmente.
- Jornalismo.
Eu podia sentir o descontentamento nas vozes de
meus pais, mas eles não me impediram. Apenas me lembraram o quanto aquela área
era competitiva e como durante toda a minha vida eu havia evitado a competição.
Era verdade. Mas o jornalismo mexia comigo,
estava no meu sangue. Ele me dava a liberdade para abordar completos
desconhecidos e fazer-Ihes perguntas diretas. Ele me treinava para conseguir
respostas tanto na minha vida profissional quanto na pessoal. Ele me dava
confiança.
Durante os últimos doze anos, tive a carreira
de repórter mais incrível e satisfatória possível, cobrindo matérias que vão de
assassinatos a acidentes de avião, e finalmente me concentrando naquilo de que
gosto e que faço bem. Eu adoro escrever sobre os momentos delicados e trágicos
da vida das pessoas, porque tenho a impressão de que aquilo as ajuda de alguma
maneira.
Certo dia, durante uma entrevista, fui invadida
por uma incrível onda de lembranças e percebi que, se não fosse por Virginia De
View, eu não estaria fazendo aquele trabalho.
Ela provavelmente nunca vai saber que, sem a
sua ajuda, eu não teria me tornado jornalista e escritora. Imagino que estaria
metida no mundo dos negócios em algum lugar, muito infeliz e frustrada.
Pergunto-me quantos outros alunos da sua sala aproveitaram aquele projeto de
carreira.
As pessoas me perguntam o tempo todo:
- Como você escolheu o jornalismo?
- Bom, sabe eu tinha uma professora... - Sempre
começo assim. Só gostaria de poder agradecer a ela.
Acredito que quando as pessoas pensam nos seus
dias de colégio, encontram a imagem desbotada de um único mestre - sua própria
Virginia DeView. Se tiverem oportunidade de agradecer-lhe, façam isso. Eu
gostaria de fazer.
Há pontos altos na vida de todos nós,
e a maioria deles vem do incentivo de outra pessoa.
GEORGE ADAMS
SPARKY
BITS AND PIECES
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 66
Para Sparky, o colégio era uma coisa quase
impossível. Ele foi reprovado em todas as matérias na sétima série. Foi
reprovado em física no científico, com nota zero. Sparky também foi reprovado
em latim, em álgebra e em inglês. Não foi muito melhor nos esportes. Embora
tenha conseguido entrar para o time de golfe da escola, rapidamente perdeu o
único jogo importante da temporada. Havia um jogo de consolação e esse ele
também perdeu.
Durante toda a sua juventude, Sparky teve
problemas de sociabilidade. Os outros alunos não chegavam a não gostar dele,
pois ninguém lhe dava importância suficiente para isso. Ele ficava surpreso se
algum colega lhe dava bom dia fora do horário de aula. Não se sabe ao certo
como foi sua vida sentimental. Sparky nunca convidou uma garota para sair no
científico. Tinha medo demais de ser rejeitado.
Sparky era um perdedor. Ele, seus colegas...
todo mundo sabia. Então ele vivia com isso. Sparky tinha decidido cedo na vida
que, se fosse para as coisas darem certo, elas dariam. Do contrário, ele se
contentaria com o que parecia ser sua inevitável mediocridade.
No entanto, uma coisa era ime0rtante para
Sparky - desenhar. Ele tinha orgulho de seus desenhos. É claro que ninguém mais
gostava deles. No último ano do científico, ele ofereceu alguns quadrinhos para
os organizadores do livro de formatura da classe. Os quadrinhos foram
rejeitados. Apesar dessa rejeição específica, Sparky estava tão convencido de
seu talento que decidiu se tornar um artista profissional.
Depois de completar o científico, ele escreveu
uma carta para os estúdios Walt Disney. Pediram-lhe que mandasse algumas
amostras de seu trabalho e sugeriram o tema para uma série de quadrinhos.
Sparky desenhou os quadrinhos propostos.
Passou muito tempo trabalhando neles e em todos
os outros desenhos que enviou para avaliação. Finalmente, recebeu uma resposta
dos estúdios Disney. Havia sido rejeitado mais uma vez. Outra derrota para o
perdedor.
Sparky decidiu, então escrever sua própria
autobiografia em quadrinhos. Descreveu a si mesmo quando criança – um garoto
perdedor e que nunca conseguia se sobressair. O personagem de quadrinhos logo
se tornaria famoso no mundo inteiro. Pois Sparky, o menino que tinha tão pouco
sucesso no colégio e cujo trabalho fora rejeitado vezes sem conta, era Charles
Schulz. Ele criou a tira Peanuts com o cachorro Snoopy e o pequeno personagem
Charlie Brown, cuja pipa nunca voava e que nunca conseguia chutar uma bola de futebol.
O AMOR SE MULTIPLICA
MELISSA ESPOSIT
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 69
Sentada na cadeira junto à janela, sentindo o
sol quente em meu braço, eu tinha que me esforçar para me lembrar onde estava.
Era difícil acreditar que havia vários equipamentos médicos dentro dos armários
de carvalho e que em alguns minutos o rebaixamento do teto poderia ser
deslocado para revelar luzes cirúrgicas. O quarto nem parecia de hospital, a
não ser por pequenos detalhes, como a torre de soro ao lado da cama. Enquanto
observava o papel de parede e os móveis cuidadosamente escolhidos, lembrei-me
do dia em que aquela aventura tinha começado - não fazia muito tempo.
Era um dia frio de inverno. Nosso time de
basquete tinha acabado de vencer por 20 x 11. Exausta, mas entusiasmada, eu me
joguei no banco do carona do nosso carro. Enquanto deixávamos o colégio, minha
mãe comentou que tinha ido ao médico naquele dia.
- Para quê? - perguntei, começando a ficar
nervosa enquanto pensava em todas as doenças que minha mãe poderia ter.
- Bom... - Ela hesitou, e minha preocupação
aumentou. Estou grávida.
- Está o quê? - exclamei.
- Grávida - ela repetiu.
Fiquei absolutamente muda. Só conseguia pensar que
essas coisas não podem acontecer com os seus pais quando você já está no
científico. Depois me dei conta de que ia ter que dividir minha mãe. A mãe que
tinha sido só minha por dezesseis anos. Fui dominada por um enorme
ressentimento. Eu nunca quis que
a minha mãe tivesse outro filho depois que ela
se casou de novo. Era um sentimento egoísta, mas eu relutava em dividir
qualquer pedacinho da mamãe.
Ao ver a surpresa e a felicidade nos olhos do
meu padrasto quando ele ficou sabendo da chegada de seu primeiro filho, comecei
a ficar mais animada. Mal podia esperar para contar para todo mundo! Minha
alegria era visível, mas, internamente, eu tentava lidar com meu medo e minha
raiva.
Meus pais me fizeram participar de todos os
preparativos para a chegada do bebê. Dei palpite sobre a decoração do quarto e
ajudei a escolher o nome do neném. Eles até resolveram que eu poderia assistir
ao parto. Apesar de toda a animação e felicidade que aquela gravidez trazia,
era difícil ouvir meus amigos e parentes falando sem parar no bebê. Eu tinha
medo de ser deixada de lado quando ele chegasse. Algumas vezes, quando estava
sozinha, não conseguia parar de pensar em tudo o que aquela criança tiraria de
mim. O ressentimento superava a alegria.
Sentada na sala de parto naquele dia 17 de
junho, sabendo que o bebê logo estaria ali, minhas inseguranças começaram a vir
à tona. Como ia ser a minha vida? Seria um trabalho de babá interminável? Do
que eu teria que abrir mão? Que medo de perder a atenção de minha mãe! Fui
sacudida de meus pensamentos quando o médico anunciou que o bebê estava
chegando.
Essa foi a experiência mais incrível da minha
vida, porque o nascimento é reaImente um milagre. Quando o médico disse que era
uma menina, chorei. Eu tinha uma irmãzinha!
Agora todos os meus medos e inseguranças
passaram com a ajuda de uma família carinhosa e compreensiva. É claro que às
veres eu sinto ciúme, mas não posso explicar como é especial ter uma pessoinha
que me acena da janela todas as manhãs, quando eu vou para a escola, com sua
mãozinha gorducha. É maravilhoso chegar em casa e nem ter tempo de tirar o
casaco, pois minha irmãzinha vem correndo e começa a puxar minha roupa querendo
que eu brinque com ela.
Foi muito importante ter esta irmã, porque ela
me fez descobrir que amor não se divide. Amor se multiplica. Emma não me tirou
nada e, pelo contrário, trouxe muitas coisas para a minha vida. Nunca jamais
pensei que eu amaria um bebê tanto assim, e não trocaria por nada a alegria que
sinto por ser a irmã mais velha.
DEIXANDO ESCAPAR UMA GRANDE GAROTA
JACK SCHLATTER
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 72
Nunca vou me esquecer do dia em que vi pela primeira vez a garota
dos meus sonhos. O nome dela era Susie Summers. Seus olhos estavam sempre
brilhando, cheios de entusiasmo, e seu lindo sorriso que encantava as pessoas
que o recebiam (especialmente os rapazes) se sentirem muito, muito especiais.
Apesar de sua beleza incrível, é do seu jeito carinhoso que eu
sempre vou me lembrar. Ela realmente se importava com os outros e era uma
ouvinte muito atenta. Seu senso de humor era capaz de tornar o dia mais bonito
e suas palavras eram exatamente aquelas que você precisava ouvir. Susie não era
só admirada, mas genuinamente respeitada tanto pelos meninos como pelas
meninas.
Contudo tinha tudo para ser metida, ela era extremamente modesta.
Nem é preciso dizer que Susie era o sonho de qualquer cara.
Especialmente o meu. Eu a levava até a sala de aula todo dia e até almocei
sozinho com ela uma vez. Nesse dia eu me senti no topo do mundo.
Eu pensava: "Ah, se eu pudesse ter uma namorada como a Susie
Summers, nunca mais olharia para outra mulher". Mas eu disse a mim mesmo que uma menina assim
tão maravilhosa provavelmente estava saindo com um cara muito melhor do que eu.
Mesmo sendo o presidente da associação dos alunos, eu simplesmente sabia que
não tinha nenhuma chance.
Então, na formatura, eu disse adeus à minha primeira grande
paixão.
Um ano depois, encontrei a melhor amiga dela em um shopping e
almoçamos juntos. Engasgado, perguntei a ela como estava a Susie.
- Bom, ela esqueceu você - foi a resposta.
- Do que você está falando? - perguntei.
- Você foi muito cruel, enrolando a Susie daquele jeito, sempre
fazendo ela pensar que estava interessado. Lembra daquela vez em que você
almoçou com ela? Susie ficou do lado do telefone o fim de semana inteiro. Tinha
certeza de que você ia ligar convidando-a para sair.
Eu tinha tanto medo de ser rejeitado que nunca me arrisquei a
dizer para ela o que sentia. E se eu tivesse convidado Susie para sair e ela
tivesse dito não? Qual a pior coisa que poderia ter acontecido?
Eu não teria saído com ela. Sabe de uma coisa? Eu não saí com ela
de qualquer jeito. E o pior é que eu poderia ter saído.
Você nunca perde amando. Sempre perde deixando de amar.
BARBARA DE ANGELIS
EU ME LEMBRO DE GILBERT
APRIL JOY GAZMEN
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 74
Faz sete meses desde a última vez que vi a luz
do quarto de Gil acesa. A Sra. Blithe acenou para mim da janela do quarto, na
casa vizinha. Eu sorri, mas, por dentro, sentia-me entorpecida.
Jamais me esquecerei do dia em que conheci Gil e
sua mãe. Eu tinha sete anos e meus pais me levaram para conhecer a nossa casa
nova, nos arredores da cidade. Minha mãe tinha sido transferida e tivemos de
nos mudar, deixando tudo para trás.
Sentia saudades de meu quarto e de meus
melhores amigos, e não conseguia acreditar no quanto estava sendo perturbada
por meus pais. A ideia de ter de frequentar uma escola nova era assustadora. Eu
não teria com quem conversar e também não queria fazer novas amizades.
Quando chegamos à casa nova, de dois andares,
meus avós estavam lá para nos dar as boas-vindas. Também vi uma mulher
abraçando carinhosamente minha mãe. A Sra. Blithe tinha sido a melhor amiga
dela na escola e, agora, era nossa vizinha de porta.
Mamãe me levou para conhecer meu quarto, no
andar de cima, e eu me deixei despencar sobre a cama. Devo ter adormecido,
porque, quando dei por mim, já estava escurecendo. Pela imensa janela do
quarto, entrava uma música ensurdecedoramente alta. Olhei para fora e, em
frente à minha janela, havia outra. Um garoto de roupas escuras olhava por um
telescópio para o resplandecente céu noturno. Imediatamente, notei as luzinhas
brancas de Natal cintilando no teto do seu quarto.
- Eu sou Gilbert Jim Jonathan Blithe. Mas pode
me chamar de Gil.
- Sou Katharine Kennedy. Mas meu apelido é
Katie - berrei de volta. "Nossa, que susto ele me deu!" Esse foi o
nosso lindo começo. Naquele mesmo instante, percebi que gostava daquele vizinho
esquisito. Gil tornou-se um irmão para mim. Ficávamos horas batendo papo e
contando histórias um para o outro. Meu pai colocou uma escada de incêndio na
minha janela e Gil passou a usá-la como entrada para o meu quarto. Era
engraçado, ele nunca usava a porta da entrada. E tinha aquelas luzinhas no teto
do quarto porque as estrelas e os planetas o fascinavam.
Quando as aulas começaram, fomos para a escola
juntos, de bicicleta. Cuidávamos um do outro, ele evitando que eu me machucasse
e eu mantendo-o longe de encrencas. Mais tarde, íamos para o parque brincar no
trepa-trepa, mas o nosso lugar favorito era o quintal dos fundos da minha casa.
A imensa acácia, com tábuas pregadas no tronco, era o nosso refúgio, onde
criávamos mil histórias, encarnando os mais diversos personagens. Ninguém podia
subir ali.
Os verões foram se passando e eu fiz treze
anos. Gil me presenteou com as primeiras flores da primavera. Então, a Sra.
Blithe contou à minha mãe que Gil estava internado com uma doença cardíaca
grave e talvez precisasse de um transplante de coração. Quando soube, fiquei
tão arrasada que tive a sensação de que eu também precisaria de um.
O hospital era sombrio. Uma prisão de paredes
brancas, com uma comida horrorosa. Todas as refeições de Gil tinham cara de
mingau. Prometi que levaria amendoins cobertos de chocolate no dia seguinte e
sei que isso o deixou mais animado.
Quando Gil sentia que eu estava ansiosa ou
prestes a chorar, me mandava olhar pela janela. "Deixe que as luzes do
teto do meu quarto lhe digam que sempre estou lá", falava, baixinho.
Ele sempre encontrava uma forma de me fazer
sorrir. Depois de um mês no hospital, Gil voltou para casa. Foi a primeira vez
que entrei em seu quarto e tive uma sensação esquisita. Era tudo muito
arrumadinho. Depois de saltar sobre a cama e atirar um travesseiro em mim,
confessou que tinha sentido saudades do quarto. Eu confessei que tinha sentido
ainda mais saudades dele. Ficava perturbada com a possibilidade de que nada
mais fosse como antes, mas, em duas semanas, Gil já estava de pé e fazendo
misérias. Tive certeza de que o problema tinha sido superado quando ele subiu
até o meu quarto e comeu pizza comigo.
Antes que nos déssemos conta, Gil e eu
estávamos começando o segundo grau. As aulas e as meninas o mantinham ocupado,
mas ele estava sempre por perto. Apesar de ter de trabalhar, passamos verões
ensolarados juntos. Como sempre, os dias vividos ao seu lado corriam
rapidamente. Então, ele voltou a adoecer.
Durante o primeiro semestre de nosso último
ano, Gil foi internado pela segunda vez. Primeiro achei que se tratava de um
alarme falso, mas acabou sendo mais grave do que eu podia imaginar. A única
coisa que eu podia fazer era orar para que ele melhorasse. A escuridão do
quarto em frente ao meu me lembrava constantemente de que ele estava longe. Eu
o visitava sempre no hospital, mas nunca sabia direito o que dizer. Falar que
tudo ficaria bem era mentira, mas consolava nós dois.
Seu Natal foi passado num quarto frio de
hospital. Ele estava decidido a ir à formatura comigo e eu lhe garanti que
iríamos. Segurei sua mão e olhei fundo em seus olhos até eles pararem de fitar
os meus. Nenhuma palavra foi dita. Ambos sabíamos o que estávamos sentindo. Ele
me pareceu sereno ao se despedir.
Gravei seu rosto em minha memória naquele
momento, por mais que doesse a minha alma. Ele se foi, e a minha primeira
sensação foi de que aquilo não podia estar acontecendo.
Era um absurdo. Como podia um amigo, uma pessoa
que sempre estivera comigo e que me fazia feliz, me deixar para sempre? Eu não
tinha mais ninguém para me consolar.
Naquele momento, enquanto eu olhava para a
janela de seu quarto e para as estrelas e planetas colados no teto, compreendi
que ele sempre estaria ali: no meu quarto, no meu coração e nas minhas
lembranças. Enxuguei as lágrimas e vi um garotinho acenando para mim. Até hoje,
não consigo compreender por que não consegui dizer "eu te amo" para
Gil, nem mesmo no último segundo. Talvez por saber que ele sentia o mesmo.
Eu logo partirei para a faculdade e estou
triste por ele não estar por perto para rir das minhas piadas ou me consolar
quando eu estiver triste. Mas, por obra de um garotinho que olhava o infinito
céu noturno através de um telescópio, hoje sei que a amizade se estende além do
tempo. Eu sempre me lembrarei de Gilbert e a luz de seu amor me diz que ele
sempre estará por perto.
O QUE HÁ DE ERRADO
O MANUAL DO ORADOR
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 79
Uma professora recém-formada chamada Mary foi lecionar
em uma reserva de índios navajos. Todos os dias ela pedia a cinco dos jovens
alunos navajos que fossem até o quadro-negro e completassem um problema simples
de matemática de seu dever de casa. Eles ficavam ali em silêncio, sem querer
cumprir a tarefa. Mary não conseguia entender. Nada do que ela havia estudado
em seu currículo pedagógico ajudava e ela não sabia como lidar com a situação.
"O que estão fazendo de errado? Será
possível que eu tenha escolhido cinco alunos que não sabem resolver o
problema?", Mary se perguntava. "Não, não pode ser isso."
Finalmente, ela perguntou aos alunos o que havia de errado. E, na resposta de
seus jovens alunos índios, aprendeu uma surpreendente lição sobre autoimagem e
noção de valor próprio.
Eles explicaram que queriam se respeitar uns
aos outros. E como sabiam que uns eram mais capazes e outros encontrariam
dificuldade em resolver os problemas, não queriam exibir isso publicamente.
Apesar de muito jovens, entendiam como era inútil e desrespeitosa a competição
do tipo perde-ganha na sala de aula. Pensavam que ninguém sairia ganhando se
algum aluno se exibisse ou ficasse encabulado diante do quadro-negro. Então se
recusavam a competir uns com os outros em público.
Quando entendeu aquilo, Mary mudou o sistema,
de modo a poder corrigir individualmente os problemas de matemática de cada
criança, dedicando-se mais aos que tinham dificuldades. E mudou muitas coisas
em sua vida ao compreender que todos nós queremos aprender - não para nos
sobressairmos sobre os outros, mas para sermos mais felizes.
LINDA
JESSICA GARDNER
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 81
Minha
avó e eu compartilhamos um amor mútuo desde o dia em que nasci.
Vim
ao mundo com a cabeça amassada e os traços deformados devido ao parto difícil
vivido por minha mãe. Dois meses depois estava tudo no lugar, mas, naquele
momento, parentes e amigos faziam “careta” diante do bebê desfigurado que eu
era. Todos comentavam que eu me parecia muito com um jogador de futebol
americano espancado.
Nana
me achava linda. Seus olhos brilhavam, cheios de alegria e felicidade, diante
do bebê horroroso que segurava nos braços.
Sua
primeira netinha. "Linda", ela disse.
Antes
das provas finais, no meu penúltimo ano do segundo grau, ela morreu.
Sete
anos antes, os médicos tinham diagnosticado que ela era portadora do mal de
Alzheimer. A família toda tornou-se especialista no assunto à medida que a
perdíamos, pouco a pouco.
Ela
falava em fragmentos. Com o passar dos anos, o número de palavras foi ficando
cada vez menor até, finalmente, ela não dizer mais nada. Tínhamos sorte quando
extraíamos uma palavrinha ocasional dela. Foi então que compreendemos que sua
vida estava chegando ao fim.
Mais
ou menos uma semana antes de minha avó morrer, seu corpo perdeu todas as
funções vitais e os médicos decidiram removê-la para uma clínica de doentes
terminais. Um local onde aqueles que entram jamais saem vivos.
Eu
disse a meus pais que queria vê-la. Eu tinha de vê-la.
Minha
vontade superava o medo paralisante que sentia.
Minha
mãe me levou à clínica dois dias depois. Meu avô e duas de minhas tias também
estavam lá, mas ficaram no corredor, enquanto eu entrava no quarto de Nana. Ela
estava sentada numa poltrona enorme e confortável, ao lado de sua cama, com o
corpo encurvado, os olhos fechados e a boca aberta, mole. A morfina a mantinha
adormecida. Meus olhos percorreram o quarto, captando as janelas, as flores, a
aparência de Nana. Eu lutava para absorver aquilo tudo, consciente de que
aquela seria a última vez que a veria viva.
Lentamente,
sentei-me à sua frente. Tomei a sua mão esquerda e a segurei, afastando uma
mecha de cabelos brancos de seu rosto. Fiquei ali diante dela, sentada, sem me
mover,
incapaz
de sentir coisa alguma. Abri a boca para falar, mas nada saía. Eu não conseguia
controlar a minha tristeza diante de sua aparência lamentável, sentada ali,
completamente indefesa.
Foi
então que aconteceu. Sua mãozinha foi se fechando em torno da minha, apertando
mais e mais. Ela emitiu o que pareceu ser um pequeno gemido. Parecia chorar de
dor. Então ela falou.
“JESSICA”.
Assim,
claro como a luz do dia. Meu nome. O meu. Dos quatro filhos, dois genros, uma
nora e seis netos, ela sabia que era eu.
Naquele
momento, tive a impressão de estarem exibindo um filme com cenas de nossa
família dentro de minha cabeça.
Vi
Nana no meu batizado. Nos meus quatorze recitais de dança. Eu a vi sapateando
no chão de nossa cozinha. Eu a vi apontando para as próprias bochechas
enrugadas dizendo que eu herdara dela minhas imensas covinhas. Eu a vi
brincando com os netos, enquanto os outros adultos faziam a ceia de Ação de
Graças, e sentada ao meu lado na sala de nossa casa, no Natal, admirando a
nossa árvore, decorada com enfeites luminosos.
Então
olhei para ela e, ao ver como havia ficado, eu chorei.
Sabia
que não assistiria ao meu último recital de dança; nem voltaria a torcer comigo
pelo time de futebol. Nunca mais se sentaria ao meu lado para admirar a árvore
de Natal. Sabia que não me veria sair, toda arrumada, para o baile de
formatura, e que não estaria presente em meu casamento nem quando meu primeiro
filho nascesse. E as lágrimas corriam, continuamente, pelas minhas faces.
Mas,
acima de tudo, eu chorava porque finalmente compreendia como ela havia se
sentido no dia em que nasci. Ela olhara através da minha aparência, enxergara
lá dentro e vira uma vida.
Lentamente,
tirei a sua mão de dentro da minha e enxuguei as lágrimas que molhavam meu
rosto. Fiquei de pé , inclinei o corpo para a frente, beijei-a e disse:
-
Você está linda.
E
com uma última olhada, me virei e deixei a clínica.
O CAMPEÃO
NAILAH MALIK
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 90
Ele tinha o corpo de um peso-pena. Mas o que
aquele garoto de quinze anos não tinha em força e velocidade, tinha em atitude.
Jason nunca faltava a um treino, embora
raramente tivesse a oportunidade de jogar, e mesmo assim só nos minutos finais
do jogo, quando nosso time estava pelo menos dois pontos na frente do
adversário. Mas o número 37 nunca reclamava e sempre dava o melhor de si -
mesmo que isso fosse bem pouco. Eu era o treinador do time. Certo dia, ele não
apareceu no treino. Quando faltou no segundo dia, telefonei para a casa dele
para saber o que estava acontecendo. Um parente distante me disse que o pai de
Jason tinha morrido e que a família estava organizando o enterro. Duas semanas
mais tarde, meu fiel número 37 compareceu novamente, pronto para treinar. Só
faltavam três dias para o próximo jogo. Era a partida decisiva da temporada,
contra nosso rival mais forte.
Quando chegou o grande dia, meus melhores
jogadores estavam preparados para entrar em campo. Todos os rostos familiares
se encontravam ali, menos um - Jason. De repente ele apareceu do meu lado e,
com uma expressão e uma atitude completamente diferente, afirmou:
- Hoje eu vou dar a partida. Já estou pronto. -
Não deu espaço para recusas ou argumentações. Quando o jogo começou, ele estava
na sua posição em campo. O jogador titular no lugar de quem ele entrara estava
sentado atônito no banco.
Naquele dia, Jason jogou como um craque. Sob
todos os aspectos, ele estava igual, senão melhor, do que o melhor jogador do
time. Corria rápido, encontrava todas as brechas e saltava depois de cada
colisão como se nunca tivesse levado um golpe. Na metade do jogo, ele já tinha
feito três pontos. Num desfecho triunfal, como se quisesse remover qualquer
dúvida da mente de qualquer um, fez outro ponto nos últimos segundos da
partida.
Enquanto corria para fora do campo com o resto
do time, Jason recebeu uma saraivada de tapinhas nas costas e empurrões,
embalados pelos aplausos ensurdecedores da multidão. Apesar de toda a adulação,
Jason conseguiu manter sua atitude humilde, discreta. Surpreso com a súbita
transformação, cheguei perto dele e perguntei:
- Jason, você estava extraordinário hoje.
Quando fez o segundo ponto, tive que esfregar os olhos e me beliscar. Mas no
final do jogo minha curiosidade me venceu. O que aconteceu com você?
Hesitante de início, Jason disse:
- Bom, treinador Williams, o senhor sabe que
meu pai morreu faz pouco tempo. Quando o meu pai estava vivo, ele era cego e
não podia me ver jogar. Mas, agora que ele foi para o céu, esta foi a primeira
vez que ele pôde me ver jogar. E eu queria que ele ficasse orgulhoso.
DESIDERATA
MAX HERMANN
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 93
Atravesse com tranquilidade o barulho e a
pressa e lembre-se da paz que pode haver no silêncio. Tanto quanto possível,
sem se render, relacione-se bem com todas as pessoas. Fale sua verdade com
calma e clareza e ouça a dos outros. Mesmo os tolos e ignorantes também têm sua
história.
Evite pessoas espalhafatosas e agressivas, elas
são uma afronta para o espírito. Se você se comparar com os outros, poderá se
tornar amargo ou fútil, porque sempre haverá pessoas melhores e piores do que
você. Aproveite suas realizações, assim como seus planos.
Mantenha o interesse por sua própria carreira,
não importa o quão humilde: ela é um verdadeiro bem nesses tempos que tanto
mudam. Tenha cautela em seus negócios, pois o mundo é cheio de trapaças. Mas
não deixe que isso cegue seus olhos para a virtude que pode existir nele.
Muitas pessoas lutam por grandes ideais e, em todo lugar, a vida é cheia de
heroísmo.
Seja você. Sobretudo, não finja afeição. Não
encare o amor com cinismo, pois diante de toda aridez e desencantamento ele é
perene como a grama.
Aceite com suavidade o conselho dos anos,
entregando com graça as coisas da juventude. Cultive a força do espírito para
protegê-lo em caso de súbita desgraça. Mas não se aborreça com conjecturas.
Muitos medos nascem do cansaço e da solidão.
Além de uma disciplina saudável, seja gentil
consigo mesmo.
Você é parte do universo. Assim como as árvores
e as estrelas, tem o direito de estar aqui. E, quer isso esteja claro para você
ou não, sem dúvida o universo está caminhando como deveria.
Assim, fique em paz com Deus, como quer que
imagine que Ele seja. E, quaisquer que sejam seus fardos e aspirações em meio à
confusão barulhenta da vida, fique em paz com sua alma.
Com toda sua falsidade, sua labuta e seus
sonhos partidos, o mundo ainda é belo. Seja alegre. Lute para ser feliz.
O QUE É IMPORTANTE NA VIDA?
KATIE LEICHT, 17 ANOS
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 95
Durante todo o primeiro ano do científico,
fiquei esperando a noite das Calouras- uma espécie de retiro organizado pelo
colégio onde as calouras podiam conversar abertamente sobre suas vidas,
interesses e problemas. Foi ótimo poder dividir meus medos e anseios com outras
meninas, falar sobre os estudos, os estudos e, principalmente, sobre os
meninos. Voltei para casa me sentindo ótima. Tinha certeza de que aprendera
muito sobre as pessoas naquele encontro. Decidi colar os papéis e bilhetes que
tinha recebido no retiro na minha agenda, que é onde guardo algumas das coisas
de que mais gosto. Sem pensar muito, coloquei a agenda em cima da cômoda e
terminei de desfazer as malas. Comecei a semana cheia de esperança. Mas, ao
contrário do esperava, os dias seguintes ao retiro foram um desastre.
Uma amiga me magoou, tive uma briga com minha
mãe e tirei uma nota baixa em inglês. Para completar, estava me sentindo feia e
não sabia o que vestir no baile de fim de ano. Eu chorava todas as noites até
cair no sono. Tinha imaginado que o retiro teria um impacto maior sobre a minha
vida, me ajudando a ficar livre do estresse. Mas comecei a achar que tinha sido
apenas um alívio temporário.
Acordei na manhã de sexta-feira com o coração
pesado e de mau humor. Também estava atrasada. Vesti a roupa depressa e, quando
bati a gaveta, minha agenda caiu de cima da cômoda e tudo o que estava dentro
se espalhou pelo chão. Quando me ajoelhei para catar as coisas, 1 folha de
papel dobrada chamou minha atenção. Minha chefe no retiro tinha escrito uma
cartinha que eu esquecera de ler. Abri a folha e li:
A vida não é um placar. O importante não é
quantas pessoas telefonam para você, nem com quem você saiu ou está saindo.
Também não importa se você nunca namorou ninguém. O importante não é quem você
beijou, que menino ou menina gosta de você. O importante não são seus sapatos,
nem seus cabelos, nem a cor da sua pele, nem onde você mora, que esporte
pratica ou o colégio que frequenta. Na verdade, o importante não são suas
notas, seu dinheiro, suas roupas ou se passou ou não para a faculdade. Na vida,
o importante não é ser aceito ou não pelos outros, não é ter muitos amigos ou
estar sozinho. Na vida, nada disso é importante. O importante na vida é quem
você ama e quem você fere. É como você se sente em relação a você mesmo. É
confiança, felicidade e compaixão. É ficar do lado dos amigos e substituir o
ódio por amor. O importante na vida é evitar a inveja, não querer o mal dos
outros, superar a ignorância e construir a confiança. É o que você diz e o
significado de suas palavras. É gostar das pessoas pelo que elas são e não pelo
que têm. Acima de tudo, é escolher usar a sua vida para tocar a vida de outra
pessoa de um jeito que a fará mais feliz. O importante na vida são essas
escolhas.
Naquele dia eu me dei super bem na prova de
inglês. No fim de semana, me reconciliei com minha amiga e tive coragem de
telefonar para o menino de quem gostava. Passei mais tempo com minha família e
me esforcei para dar atenção à mamãe. Cheguei até a encontrar um vestido lindo
para a festa e me diverti muito. E tudo isso não aconteceu por sorte ou
milagre. Foi por causa de uma mudança de sentimento e de atitude da minha
parte. Percebi que algumas vezes bastava eu me sentar e lembrar das coisas
realmente importantes na vida - como as que aprendi na Noite das Calouras.
Este ano estou me preparando para um novo
retiro, agora como veterana. Mas guardo ainda aquele bilhete na minha agenda.
Para eu poder relê-Io sempre que precisar lembrar o que realmente importante na
vida.
O importante na vida é como tratamos uns aos outros.
HANA IVANHOE, 15 ANOS
UM PAI FAMOSO
AUTOR DESCONHECIDO
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 98
Um grande homem morreu hoje. Ele não era um líder
mundial, nem um médico famoso, nem um herói ou um ídolo do esporte.
Não era um magnata dos negócios e vocês nunca
viram o nome dele no jornal. Mas ele foi um dos melhores homens que já conheci.
Esse homem era o meu pai.
Ele nunca esteve interessado em receber
créditos ou honrarias. Fazia coisas banais, como pagar as contas em dia, ir à
igreja aos domingos e ser diretor da Associação de Pais e Professores. Ajudava
os filhos com o dever de casa e levava a mulher para fazer compras nas noites
de quinta-feira. Achava o máximo levar seus filhos adolescentes e os amigos
deles aos jogos de futebol.
Esta é a minha primeira noite sem meu pai. Não
sei o que fazer.
Hoje me arrependo pelas vezes em que fui
impaciente com ele, dei respostas malcriadas, ou não tomei conhecimento do que
ele dizia. Mas estou agradecido por muitas outras coisas.
Estou agradecido por Deus ter me deixado ficar
com meu pai por quinze anos. E fico feliz por ter podido dizer a ele o quanto o
amava. Esse homem maravilhoso morreu com um sorriso no rosto e com o coração
realizado. Ele sabia que era um grande sucesso como marido, como pai, como
irmão, filho e amigo. Eu me pergunto quantos milionários podem afirmar isso.
UM ADMIRADOR PARA LAURA
DON CASKEY
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 103
Na infância, minha amiga Ann não gostava do Dia dos Namorados. Era
uma menina sem grandes atrativos - não chegava ser feia, mas também não era
linda. O Dia dos Namorados é uma data fácil para as meninas comuns. Não era tão
ruim quando estávamos no primário, quando os trinta cartõezinhos chegavam, um a
um de cada coleguinha da turma.
Naquela época, ela fazia vista grossa para o fato de seus cartões
não serem enormes como os das queridinhas da turma e não traziam os dizeres
apaixonados dos das garotas bonitas.
Mais tarde, no ginásio, a troca de cartões no Dia dos Namorados
deixou de ser obrigatória. Justo quando os anseios românticos brotavam, quando o
desejo por admiradores e paqueras tornava-se mais forte e um admirador
tornava-se mais necessário do que nunca, nem um único cartão chegou. Não para
Ann. Não para qualquer garota comum, aonde quer que fosse. Admiradores eram só
para as bonitinhas e para as queridinhas. Em momentos assim, histórias sobre
patinhos feios que um dia crescerão para se transformar em lindos cisnes não
aliviam a dor e a rejeição.
Como quis o destino (e ele costuma querer coisas assim), nos anos
que se seguiram Ann foi ficando cada vez mais bonita e fazendo os rapazes
virarem a cabeça para olhá-Ia. À medida que recebia mais e mais atenção e tinha
mais e mais pretendentes, passou a se sentir - e, portanto, se tornar -
realmente linda. Mas mesmo muitos anos depois, já adulta e mãe de família, não
se esqueceu daqueles tempos de rejeição e tristeza.
Agora, Ana tem dois filhos que cursam o ginásio. No Dia dos
Namorados, o grêmio estudantil cobra um dólar para entregar cravos, e Ann
sempre dá dois dólares para cada filho.
Um dólar para que cada um compre um cravo para a respectiva
namorada. O outro dólar vem junto com a seguinte instrução: "Escolham
outra garota, uma que seja simpática, mas comum - alguém que provavelmente não
receberá flor alguma. Mande uma flor para ela, anonimamente. Dessa forma, ela
saberá que alguém gosta dela e se sentirá especial." Ann faz isso há anos,
espalhando o Dia dos Namorados um pouco além de seu mundo.
Um ano, Laura - uma pessoa linda, mas de aparência comum - recebeu
uma dessas flores. O filho de Ana contou que Laura ficou tão contente e
surpresa que chorou. Carregou aqueIa flor o dia todo junto com os livros e
conversava, feliz, com as amigas, tentando adivinhar quem seria o seu
admirador.
Enquanto ouvia a história, a própria Ann teve de enxugar os olhos.
Ela ainda se lembrava da solidão que sentia, muitas vezes, no Dia dos
Namorados.
DESISTIR NÃO É PERDER
JAMES MALINCHAK
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 106
Uma experiência difícil, o exemplo de um amigo
ou uma conversa com alguém que admiramos podem servir de inspiração para
mudarmos nossa maneira de encarar a vida. Minha inspiração veio da minha irmã
Vicki. Ela era uma pessoa gentil e carinhosa, não ligava para elogios e tudo o
que queria era compartilhar seu amor com as pessoas de quem gostava: sua
família e seus amigos.
No último verão, antes do meu primeiro ano de
faculdade, recebi um telefonema do meu pai dizendo que Vicki tinha sido
internada de emergência. Ela tinha passado mal e o lado direito do seu corpo
estava paralisado. Os primeiros sintomas de que ela poderia ter sofrido um
derrame. No entanto, os resultados dos testes mostraram algo muito mais sério:
a paralisia era consequência de um tumor maligno no cérebro. Os médicos não
davam a Vicki mais de três meses de vida. Fiquei completamente arrasado. Como
aquilo podia estar acontecendo? No dia anterior, minha irmã estava bem, não
sentia nada, era uma jovem saudável. Agora, estava entre a vida e a morte.
Depois de superar o choque inicial e o
sentimento de vazio, decidi que Vicki precisava de esperança e incentivo. Ela
precisava de alguém que a fizesse acreditar que poderia superar aquele
obstáculo. Resolvi ajudá-la a vencer a doença. Todo dia visualizávamos o tumor
encolhendo e só falávamos coisas positivas. Eu até colei um cartaz na porta do
seu quarto no hospital com os dizeres: "se tiver pensamentos negativos,
deixe-os do lado de fora. Nós fizemos um trato que se chamava 50-50. Eu lutaria
50% e ela lutaria os outros 50%.
Quando o ano letivo começou, eu não tinha
certeza se deveria ir para a faculdade, a quase 5 mil quilômetros de distância,
ou ficar com Vicki. Ela ficou brava por eu ter pensado nessa possibilidade e
insistiu para eu não me preocupar, porque ela ia ficar bem. Ali estava Vicki,
deitada em uma cama de hospital, me dizendo para não me preocupar. Percebi que,
se ficasse poderia passar a mensagem de que ela estava morrendo e eu não queria
que ela pensasse assim. Vicki precisava acreditar que poderia vencer a batalha
contra o câncer.
Ir embora naquela noite, sentindo que poderia
ser a última vez que eu veria minha irmã, foi a coisa mais difícil que já fiz.
Na faculdade, nunca parei de lutar meus 50% por
ela. Toda noite, antes de dormir conversava mentalmente com Vicki, esperando
que de alguma forma ela me ouvisse. Eu repetia:
"Vicki, estou lutando por você e nunca vou
desistir. Não deixe de lutar, porque nós vamos vencer isso." Alguns meses
se passaram e ela continuou aguentando firme. Certo dia, uma amiga me perguntou
sobre o estado de Vicki. Eu disse que ela estava piorando, mas que não
desistia.
Minha amiga, mais velha e experiente, fez uma
pergunta que me deixou pensativo:
- Você acha que o motivo pelo qual Vicky não
desistiu é porque não quer desapontar você?
- Será que ela estava certa? Será que eu era
egoísta por encorajar Vicki a continuar lutando? Naquela noite, antes de
dormir, tentei transmitir uma mensagem diferente para ela: "Vicki, eu
entendo que você está sofrendo muito. Se preferir descansar, faça isso.
Desistir não é perder. Se você quiser ir para um lugar melhor, eu entendo.
Vamos ficar juntos de novo. Eu te amo e vou sempre estar com você." Na
manhã seguinte, minha mãe telefonou bem cedo para avisar que Vicki tinha
morrido.
SORRISO
BARBARA HAUCK, 13 ANOS
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 109
Ela sorriu para um desconhecido triste.
O sorriso pareceu fazê-Io se sentir melhor.
Ele se lembrou de gentilezas feitas por um
amigo no passado e escreveu-lhe uma carta de agradecimento.
O amigo ficou tão contente com o agradecimento,
que deixou uma grande gorjeta depois do almoço.
A garçonete, surpresa com o tamanho da gorjeta,
apostou a quantia toda na loteria.
No dia seguinte, recolheu seus ganhos e deu
parte deles para um homem na rua.
O homem ficou agradecido, pois havia dois dias
que não comia. Depois de terminar seu jantar, dirigiu-se a seu quartinho sujo.
(Naquele momento ele não sabia que corria
perigo de vida.) No caminho, recolheu um cachorrinho que tremia e levou-o para
se aquecer em casa.
O cachorrinho ficou muito agradecido por estar
ao abrigo da tempestade.
Naquela noite a casa pegou fogo.
O cachorrinho deu o alarme, latiu até acordar a
casa inteira e salvou todo mundo.
Um dos meninos que escapou do incêndio virou um
bom presidente quando cresceu.
Tudo isso por causa de um simples sorriso.
ASA PARTIDA
JIM HULLIHAN
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 111
Algumas pessoas simplesmente nasceram para ser fracassadas.
É assim que alguns adultos vêem adolescentes com problemas. Talvez você tenha
ouvido o ditado: "um pássaro com as asas partidas nunca voará tão
alto." tenho certeza de que as pessoas faziam T. J. Ware se sentir assim
quase todos os dias no colégio.
No científico, T. J. Era o encrenqueiro mais
famoso de sua cidade. Os professores literalmente torciam o nariz ao ver o nome
dele em sua lista de chamada para o semestre seguinte. Ele não era muito
falante, não respondia às perguntas e entrava em várias brigas. Ficava em prova
final em quase todas as matérias e, no entanto, sempre passava de ano. Os
professores não queriam tê-lo novamente no ano seguinte. T.J. estava indo para
a frente, mas definitivamente não estava melhorando. Encontrei T. J. pela primeira
vez em um fim de semana de retiro de líderes. Todos os alunos da escola haviam
sido convidados para se inscrever no treinamento, criado para fazer com que os
alunos se envolvessem mais em suas comunidades. T. J. Era um dos 405 alunos que
tinham se inscrito. Quando apareci para comandar o encontro, os líderes da
comunidade me fizeram uma descrição breve dos alunos presentes: "temos
todos os tipos representados hoje, do presidente da associação estudantil a T.
J. Ware, o menino com a maior ficha policial da história da cidade." de
algum modo, eu sabia que não era o primeiro a ouvir falar do lado mais sombrio
de T. J. Logo nas primeiras palavras de apresentação.
No início do retiro, T. J. Estava literalmente
do lado de fora do círculo de alunos, encostado na parede dos fundos, com
aquela expressão no rosto que dizia: "vamos lá, me impressionem." não
participou realmente dos grupos de discussão, não parecia ter muito a dizer. No
entanto, lentamente, os jogos interativos o atraíram. O gelo derreteu quando os
grupos começaram a fazer uma lista das coisas positivas e negativas que tinham
acontecido no colégio naquele ano. T. J. Tinha algumas opiniões fortes sobre o
assunto. Os outros alunos do grupo recebiam bem seus comentários. De repente,
T. J. Se sentiu parte do grupo e logo estava sendo tratado como um líder.
Estava dizendo coisas que faziam muito sentido e todos estavam escutando.
T. J. Era um cara esperto e tinha algumas
ótimas ideias. No dia seguinte, T. J. Foi muito ativo em todas as sessões. Ao
final do retiro, ele tinha se juntado à equipe do projeto dos sem-teto. Sabia
muita coisa sobre pobreza, fome e falta de esperança. Os outros alunos da
equipe ficaram impressionados com suas preocupações e ideias apaixonadas. T. J.
Foi eleito co-diretor da equipe. O presidente do conselho de alunos seria
aconselhado por t. J. Ware.
Quando T. J. Apareceu no colégio na manhã de
segunda-feira, chegou no meio de uma tormenta. Um grupo de professores estava
reclamando com o diretor do colégio sobre o fato de ele ter sido eleito
co-diretor. O primeiro projeto de serviços para a comunidade seria uma imensa
carreata de alimentos, organizada pela equipe do projeto dos sem-teto. Aqueles
professores não podiam acreditar que o diretor fosse deixar o começo crucial de
um importante plano de ação de três anos nas mãos incapazes de T. J. Ware. "Ele
tem uma ficha policial comprida como o seu braço. Provavelmente vai roubar
metade da comida", argumentaram com o diretor. O sr. Coggshal lembrou-lhes
que a finalidade do programa de líderes era descobrir qualquer paixão positiva
que um aluno tivesse e encorajar sua prática até que uma verdadeira mudança
pudesse ocorrer. Os professores deixaram a reunião balançando as cabeças de
desgosto, firmemente convencidos de que o fracasso era iminente.
Duas semanas depois, T. J. e seus amigos
lideraram um grupo de setenta alunos em uma carreata para coletar comida.
Recolheram 2.854 latas de comida em apenas duas horas, o suficiente para encher
as prateleiras vazias de dois centros comunitários do bairro. A comida supriu
as necessidades das famílias carentes da área por 75 dias. No dia seguinte, o
jornal local noticiou o acontecimento com uma matéria de página inteira.
O artigo foi afixado no principal quadro de
avisos do colégio, onde todos pudessem vê-lo. A fotografia de T. J. Estava ali
por algo incrível, por ter conseguido um recorde de arrecadação de comida. A
cada dia, ele era lembrado pelo que tinha feito. Estava sendo reconhecido como
alguém com o estofo de líder. T. J. Começou a aparecer no colégio todos os dias
e, pela primeira vez, respondeu às perguntas dos professores. Liderou um
segundo projeto, coletando trezentos cobertores e mil pares de sapatos para o
abrigo dos sem-teto. O evento a que ele deu início hoje arrecada nove mil latas
de comida em um dia, suprindo 70% da necessidade das famílias carentes da área
por um ano. O exemplo de T.J. mostra que um pássaro com a asa partida precisa
apenas de cuidados. No entanto, quando fica curado, pode voar mais alto do que
os outros. T. J. Arrumou um emprego. Tornou-se produtivo. Está voando bem
direitinho hoje em dia.
Você nasceu com asas. Por que preferir rastejar pela vida?
RUMI
ESTRELINHA, ESTRELINHA.
KELLY GARNETT
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 115
Quando eu tinha cinco anos, tomei um gosto todo
especial pelos brinquedos de minha irmã. Pouco importava que eu tivesse um baú
cheinho de bonecas e brinquedos só meus. Seus tesouros de "menina
grande" eram muito mais atraentes.
Da mesma forma, quando eu tinha dez anos e ela
doze, os brincos, a maquiagem que ela começava a usar me fascinavam,
transformando minha obsessão anterior em capturar insetos numa lembrança cada
vez mais remota.
Essa tendência continuou ano após ano e - a não
ser por algumas manchas roxas e ameaças de "cortes de cabelo"
radicais enquanto eu dormia - minha irmã lidou com ela com tolerância. Mamãe
vivia repetindo para ela, quando comecei o primeiro grau usando suas presilhas
de cabelo novas, que aquilo era, na realidade, um elogio ao seu bom gosto.
Mamãe disse-lhe, quando comecei o segundo grau vestindo as suas roupas, que um
dia ela acharia graça e me lembraria de que ela era a mais chique de nós duas.
Eu sempre tinha admirado o bom gosto de minha
irmã, mas essa opinião chegou ao auge quando ela começou a trazer rapazes à
nossa casa. Eu convivia com um desfile constante de meninos de dezesseis anos
passando pela sala, servindo-se de comida na cozinha ou jogando basquete na
entrada da garagem.
Recentemente, eu me dera conta de que meninos
não eram tão "eca" como eu achava antes e que pegar uns germezinhos
deles talvez não fosse tão nojento assim. Mas os garotos do primeiro ano, que
tinham a minha idade e que me faziam dar risadinhas nervosas nos jogos de
futebol, de repente me pareciam jovens demais. Não podiam dirigir ou usar as
jaquetas do time principal da escola. Os amigos de minha irmã eram altos e
engraçados. Embora ela tentasse de todas as maneiras se livrar de mim, eles
sempre eram simpáticos comigo, mesmo enquanto ela me empurrava porta afora.
De vez em quando, eu dava sorte e eles passavam
lá em casa quando ela não estava. Um deles, em especial, batia longos papos
comigo antes de sair para fazer as coisas que garotos de dezesseis anos faziam
(isso ainda era um mistério para mim). Ele falava comigo como falava com todo
mundo e não como quem fala com uma criança, com
a irmãzinha de uma amiga... E sempre me dava um abraço de despedida
antes de ir embora.
Não foi surpresa alguma que eu logo estivesse
totalmente tonta por ele. Minhas amigas diziam que eu não tinha a menor chance
com um rapaz do terceiro ano. Minha irmã parecia preocupada com a possibilidade
de eu ter o meu coração partido. Mas ninguém escolhe por quem se apaixona: se
ele é mais velho ou mais novo, mais alto ou mais baixo, o seu completo oposto
ou igualzinho a você. Quando estava com ele, as emoções me atropelavam como uma
carreta e eu sabia que era tarde demais para tentar ser sensata: eu estava
apaixonada.
Isso não significava que não me desse conta da
possibilidade de rejeição. Eu sabia que estava arriscando os meus sentimentos e
o meu orgulho. Tinha consciência de que, se não lhe desse o meu coração, não
haveria a menor possibilidade de ele o partir... mas também eu não correria o
risco de perdê-lo.
Certa noite, antes de ele ir embora, ficamos
sentados na varanda de frente da casa conversando e procurando estrelas no céu.
Ele olhou para mim muito sério e perguntou se eu acreditava em fazer pedidos
para as estrelas. Surpresa, mas igualmente séria, respondi que nunca havia
tentado.
- Bem, então chegou a hora de começar -
declarou, apontando para o céu. - Escolha uma e peça aquilo que você mais quer.
Olhei para cima e escolhi a mais brilhante que
pude achar.
Fechei bem os olhos e senti o que parecia ser
uma colônia inteira de borboletas em revoada dentro de meu estômago. Pedi
coragem. Abri os olhos e me deparei com seu sorriso diante de meu intenso
esforço para fazer o pedido. Ele me perguntou o que eu havia pedido e, quando
respondi, me pareceu perplexo.
- Coragem? Para quê? - indagou.
Eu respirei fundo uma última vez e respondi:
- Para fazer isto. - E eu o beijei. Beijei
aquele rapaz de dezesseis anos, com carteira de motorista e jaqueta do time
principal da escola. Aquilo foi de uma bravura que jamais imaginei possuir, uma
força que atribuí integralmente ao meu coração - força esta que dominou a minha
mente e tomou o controle da situação.
Quando me afastei, vi o ar de espanto em seu
rosto, uma expressão que se transformou em sorriso e, a seguir, em riso.
Depois de procurar o que dizer durante o que me
pareceram ser horas, ele tomou minha mão e declarou:
- Bem, parece que demos sorte esta noite. Tanto
o meu desejo quanto o seu se tornaram realidade.
A COISA CERTA A FAZER
KELLY GARNETT
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 119
A psicóloga se atrasara para a nossa hora. Eu
estava sentada numa das cadeiras de plástico duro de sua sala e, apesar do
contorcionismo para me acomodar, continuava desconfortável. Olhei para o garoto
sentado ao meu lado, meu parceiro nesse crime. Pareceu-me perturbado, doído com
a decisão que tínhamos tomado por puro desespero. Amigos há muitos anos,
naquele momento nos sentíamos incapazes de animar um ao outro, pois estávamos
perdidos em nossos próprios pensamentos e dúvidas.
Com o corpo formigando, fiquei atenta a tudo o
que se encontrava à minha volta. O cheiro de lápis recém-apontado, a
escrivaninha exageradamente organizada, tudo naquela sala revelava a rígida
disciplina da psicóloga que iria nos atender. Comecei a questionar se tínhamos
escolhido a pessoa certa para nos ajudar a salvar nossa amiga. A psicóloga
chegou sorrindo e pedindo desculpas por ter se atrasado. Sentou-se e nos olhou
cheia de expectativa. Eu tive a sensação de que esperava que anunciássemos que
ela acabava de ganhar na loteria, em vez de contar a história de dor e
frustração que ambos ocultávamos há tempos. Por um instante, fiquei paralisada
pelo pânico. Era difícil imaginar como Suzie, minha melhor amiga, reagiria ao
descobrir que as duas pessoas em quem mais confiava a tinham traído. E me
preocupava também com o que aconteceria comigo.
Será que ela vai me odiar? Será que nunca mais
vai querer falar comigo? Além de toda a dor que ela certamente sentiria, eu
tinha medo de perder minha melhor amiga.
- Kelly, por que não começa me contando por que
vocês dois estão aqui? - sugeriu a psicóloga. Olhei para o meu amigo mais uma
vez e seus olhos tristes confirmaram que estávamos fazendo a coisa certa.
Quando comecei a contar a história de Suzie,
minha incerteza deu lugar a uma sensação de alívio. Carregar o fardo emocional
de uma amiga que se matava lentamente era demais para uma garota de quatorze
anos, e eu já não agüentava mais.
Como uma corredora exausta, estava passando o
bastão para que outra pessoa o carregasse.
Minha narrativa emocionada e entre cortada foi
dando forma à história de Suzie. Falei de como ríamos de sua estranha mama de
partir a comida em pedacinhos minúsculos, sem jamais nos darmos conta de que,
ao fazê-lo, ela levava mais tempo para comer menos. De como colaborávamos com
as críticas que Suzie fazia a ela mesma, sobretudo de como se achava gorda. Nós
ríamos, fingindo concordar, sem saber que, no fundo, no fundo, ela não estava
brincando.
A culpa ia escalando a minha garganta à medida
que eu relatava fato após fato, pois agora compreendia que eram sinais de que
Suzie tinha um problema muito sério. Não sei bem por que nós nos recusamos a
ver que seu estado se deteriorava a cada dia. Só quando já era quase tarde
demais é que finalmente nos demos conta do que estava acontecendo: Suzie estava
doente, de corpo e de alma. Ela sofria de depressão e de anorexia.
Contei o que me levara a procurar ajuda.
Algumas semanas atrás, eu estava sentada ao lado de Suzie, desviando a vista
das olheiras e das maçãs do rosto já muito saltadas, enquanto ela me contava
que, agora, já não comia quase nada e que, sem nenhum motivo explicável,
costumava chorar durante horas. Enquanto falava, eu comecei a chorar. Não
conseguia controlar as lágrimas e experimentava uma sensação de absoluta
impotência. O ponto ao qual minha amiga tinha chegado me apavorava e o medo em
minha voz era nítido quando revelei o segredo de Suzie: ela estava procurando
uma forma de escapar à dor, à tristeza, ao sentimento de inadequação que agora
era constante em sua vida. Suzie achava que se matar, talvez, fosse a única
maneira de escapar ao sofrimento.
Quando terminei de falar, recostei-me na
cadeira, incrédula. Eu tinha revelado todos os segredos que me foram confiados
sob a condição de jamais repeti-los. Eu acabava de destruir o aspecto mais
sagrado de nossa amizade: a confiança. A confiança que levara tempo, amor, boas
e más experiências para ser construída e que havia sido quebrada em dez
minutos, traída pelo desamparo, pelo desespero e pelo fardo que eu não podia
mais carregar. Eu me sentia fraca. Naquele momento, eu me odiei. E odiei Suzie.
Ela não precisou que lhe explicassem por que
estava sendo chamada à secretaria. Olhou para mim, para o namorado sentado ao
meu lado, para o olhar preocupado da psicóloga. As lágrimas de fúria que
brotavam em seus olhos deixaram Claro que ela compreendia perfeitamente bem.
Quando começou a chorar de raiva e de alívio, a psicóloga, carinhosamente,
mandou que Aaron e eu voltássemos para a sala de aula e fechou a porta atrás de
nós.
Não voltei para a aula imediatamente. Fiquei
perambulando pelos corredores da escola, tentando entender tudo aquilo. Embora
soubesse que, provavelmente, tinha acabado de salvar a vida de minha amiga, eu
não me sentia uma heroína.
Ainda me lembro da tristeza e do medo que
tomaram conta de mim: eu estava certa de que meus atos acabavam de me custar
uma das melhores amigas que jamais tivera. Mas, uma hora depois, Suzie voltou
da sala da psicóloga e, com lágrimas nos olhos, atirou-se em meus braços em
busca de um abraço de que nós duas precisávamos.
Foi só então que me dei conta de que, por mais
furiosa que estivesse comigo, ela ainda precisava da melhor amiga para ajudá-Ia
a chegar ao fim daquela jornada extremamente difícil.
E assim eu aprendi uma das primeiras lições
sobre o que é crescer e sobre o que é uma verdadeira amizade - pode ser duro,
até mesmo apavorante, mas quando gostamos de alguém e queremos o seu bem
devemos seguir o impulso do coração.
Um ano depois, Suzie me deu uma cópia de sua
foto do álbum da escola. Nela, aparecia com as faces outra vez rosadas, e o
sorriso luminoso do qual eu sentira tanta saudade enfeitava o seu rosto. No
verso, a mensagem:
Kelly você sempre esteve pronta para me ajudar,
mesmo contra a minha vontade. Muito obrigada. Agora, não há como se livrar de
mim - serei sua amiga para sempre. Te amo, Suzie.
SE
RUDYARD KIPLING
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 124
Se
você é capaz de manter a calma quando todos ao seu redor já a perderam e o
culpam por isso;
Se
você é capaz de confiar em si mesmo quando todos estão duvidando, mas levar em
consideração esta desconfiança;
Se
você é capaz de esperar e não se cansar da espera,
Ou,
ao ser vítima de mentiras, não mentir para se defender,
Ou,
sendo odiado, não deixar se levar pelo ódio,
E
ainda assim não parecer bom demais nem muito sábio;
Se
você pode sonhar sem deixar que os sonhos o dominem;
Se
pode pensar sem deixar que o pensamento seja o seu único objetivo;
Se
pode lidar com o triunfo e a desgraça, estes dois impostores, da mesma maneira;
Se
pode agüentar a dor de ouvir a sua verdade ser transformada em mentira para
enganar os tolos,
Ou
ver destruídas todas as coisas que você dedicou a vida para construir, e
empenhar-se em refazê-Ias com os poucos recursos que lhe restam;
Se
é capaz de arriscar numa única aposta tudo o que acumulou durante toda sua
vida,
E,
ao perder, começar tudo de novo, desde o ponto de partida, sem dizer uma
palavra sobre a sua perda;
Se
é capaz de forçar seu coração, nervos e músculos exaustos a servirem seus
objetivos, e a persistir quando nada mais há em você senão sua vontade que lhe
diz: "Prossiga";
Se
você pode falar às multidões sem perder sua virtude, ou estar entre reis sem
perder a sua naturalidade;
Se
nem seus inimigos nem seus melhores amigos podem lhe fazer mal, e se todos
podem contar com você, mas ninguém depende de você;
Se
você é capaz de se dedicar os sessenta segundos de cada minuto ao trabalho,
então a Terra será sua, com tudo o que existe no mundo. E você, o que é mais
importante, será um homem, meu filho!
OS LILASES FLORESCEM TODA PRIMAVERA
Revista Blue Jeans
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 127
Hoje é um daqueles dias ruins. Tudo parece fora
do meu alcance, mas tudo especialmente com o trabalho da aula de psicologia. O
estúpido projeto de final de ano é levar uma foto que representa um momento
realmente feliz da nossa infância.
O problema não foi escolher uma foto - eu soube
imediatamente qual levaria. Em cima da
minha escrivaninha tem um porta retrato com uma foto minha, aos oito anos, ao
lado da vovó Sherrie, que já morreu. Era primavera e ela tinha me levado de
ônibus até um festival de lilases nos corredores da cidade. Passamos a tarde
cheirando as flores, de olhos fechados, inclinadas sobre botões de lilás. A
foto foi tirada por um velhinho muito engraçado, que nos contou histórias hilariantes
enquanto nos levava até o ponto de ônibus no final da tarde. Nunca o vimos de
novo, mas, olhando para trás, me pergunto se ele não teve uma queda pela vovó
Sherrie.
Olhando a foto enquanto espero o fim da minha
hora de almoço, sei que a beleza da minha avó não está ali - cabelos curtos,
lisos e grisalhos, olhos levemente saltados. O nariz é grande demais e a testa
muito alta. Ela é baixinha e um pouco atarracada. Ao seu lado, segurando firme
na sua mão, eu sou uma cópia dela, menor e mais jovem. Tínhamos até os mesmos
pés estreitos, magros, de dedos inacreditavelmente compridos. Tínhamos. Agora
já não acho tão divertido rir dos meus pés ridículos, como fazia quando estava
com ela.
Quando minha avó morreu, há dois anos, eu me
senti perdida. Por isso, não tive dúvidas sobre a foto que levaria para a aula.
Não posso perder esta oportunidade de trazê-la de volta um pouquinho que seja e
de celebrar as marcas que ela deixou na vida. Mas sei que poucas pessoas -
talvez nenhuma – vão apreciar o presente que eu quero compartilhar com uma
certa timidez e ansiedade.
Sento na minha carteira, aliviada por ter
chegado sã e salva.
Não sei por quê, mas é no momento da entrada na
escola que eu me sinto mais isolada. Cercada de pessoas, fico mais consciente
do que nunca do quanto estou longe delas. Não tenho ninguém para andar ao meu
lado, contando fofocas. Vejo essas pessoas todos os dias, às vezes passo bem
perro delas. Mas são quase como os estranhos com que cruzo na rua. Nem sequer
nos olhamos nos olhos.
À medida que as pessoas entram na sala, fico
ali sentada com a foto no colo, emoldurada pelas minhas mãos. Por que eu não
trouxe outra? Por que tive tanta certeza de que minhas palavras poderiam
explicar o que sinto?
A professora vai até a frente da sala. Não
gosto especialmente dela, nem ela de mim. Ela prefere os alunos que ficam
depois da aula para conversar sobre namorados e outros assuntos que me
interessam pouco. Eu fico depois da aula para lhe mostrar artigos sobre novos
tratamentos para autismo. Queria que ela gostasse de mim, embora não consiga
respeitá-la.
Ela pede voluntários para começar as
apresentações. Sorri para mim, que estou na primeira fila (onde mais eu
estaria?), numa atitude de expectativa. Eu me levanto, a perfeita
voluntária-para-ir-primeiro. Uma voz vem lá de trás:
- Aposto que ela trouxe uma foto da sua
primeira enciclopédia: não, desculpe, essa está pendurada em cima da lareira.
Olhos, todos aqueles olhos em cima de mim, com
aquele olhar vazio reservado para as pessoas que se observa sem prestar
atenção.
- Esta é uma foto da minha avó Sherrie comigo,
quando eu tinha oito anos. Ela me levou a um festival de lilases. Era um evento
anual - evento? Eu deveria ter dito outra coisa - lá tinha todo tipo de
lilases, espécies raras e comuns, cor-de-rosa, roxos e brancos. Foi maravilhoso
- chato.
Abaixei os olhos para a foto. A mulher e a
menina, de mãos dadas, emolduradas por uma sebe alta salpicada de pontinhos de
botões de lilás. As duas parecem prestes a sair para conquistar o mundo, só as
duas, com seus sapatos feitos para caminhar.
- Quando olho para esta foto, quase posso
sentir o perfume dos lilases. Especialmente agora, na primavera. Foi um passeio
maravilhoso. Depois que voltamos para casa, minha avó fez macarrão para mim e
me deixou pôr lascas de chocolate no meu sorvete... - estou saindo um pouco do
assunto. Estou perdendo o público que nunca tive.
- Mas foi um dia maravilhoso, como eu disse. É
difícil lembrar de outro dia como esse. Minha avó ficou doente quando eu tinha
nove anos... - de repente, lágrimas escorrem pelo meu rosto - e nunca mais
ficou boa. - Hora de sair correndo, fugir, ou pelo menos sentar.
Desabo na cadeira, agarrada à foto. Nenhum
aplauso.
Abruptamente, com um ar excessivamente animado,
a professora chama outra pessoa. A aula logo termina, mas parece que dez ou
doze anos se passaram. Quando o sinal toca, eu me misturo à multidão no
corredor.
Falando em dia ruim...
Mas, como se diz, sempre existe um amanhã.
Isso, para mim, significa que não adianta passar por hoje, porque você vai ter
que fazer tudo de novo em menos de vinte e quatro horas.
Mas aqui estou eu, no dia seguinte, chegando
apressada para a aula de física. Acabei me atrasando porque deixei minha pasta
cair e tive que recolher a papelada espalhada pelo chão. Todo mundo me olha. No
dia anterior eu quebrei duas regras importantes: não só demonstrei emoção
excessiva como também confessei que eu realmente me importava com algo tão
inusitado quanto uma avó. Bom, num dia eu sou invisível e no outro sou objeto
de chacota pública. Ambas situações pouco invejáveis. Caminho até o meu lugar.
Em cima da cadeira há um saco de papel. Esperando encontrar um uniforme de
ginástica e um par de tênis malcheirosos, olho para dentro.
Ai. Ai. Meu Deus! Minhas pernas ficam moles.
A sacola está cheia de galhos de lilás. Aspiro
seu perfume com minha alma, posso senti-lo como um pedaço de mim que pensei que
tivesse murchado e morrido. Será que eu ainda estou no mundo real? Levanto os
olhos (todos ainda me observam com olhos de peixe morto). Mas tem que ter sido
um deles, algum rebelde sentimental disfarçado. Qual deles?
Tiro a sacola e me sento. A professora fica
irritada.
- Vamos começar, pessoal? Suas apresentações de
ontem vão contar...
Há um pedaço de papel no meio dos botões. Abro
e leio estas duas linhas:
Nós encontraremos nosso direito de ser. Até os
lilases florescem toda primavera.
No final das contas, todos nós só queremos ser amados.
JAMIE YELLIN, 14 ANOS
TENHO SÓ DEZESSETE ANOS
JOHN BERRIO
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 132
A agonia dilacera minha mente. Sou uma
estatística. Quando cheguei aqui, me sentia muito sozinho. Estava tomado pela
tristeza e esperava encontrar algum conforto.
Não encontrei. O que vi foram milhares de
outras pessoas com os corpos tão estraçalhados quanto o meu. Recebi um número e
fui colocado em uma categoria. A categoria se chamava "Mortes no
trânsito".
O dia em que morri era um dia normal de
colégio.
Como queria ter pego o ônibus! Mas eu era bom
demais para o ônibus. Agora me lembro de como peguei o carro da mamãe.
- Um favor especial - implorei. - Todo mundo
dirige.
Quando o sinal das 2:50h tocou, joguei meus
livros no escaninho. Livre até amanhã de manhã! Corri para o estacionamento,
animado com a idéia de dirigir um carro e ser dono do meu próprio nariz.
Não importa como o acidente aconteceu, eu
estava fazendo besteira - correndo demais, assumindo riscos malucos. Mas estava
aproveitando minha liberdade e me divertindo. A última coisa de que me lembro
foi de ultrapassar uma senhora que parecia estar indo muito devagar. Ouvi um
estrondo e senti um tranco terrível. Vidro e aço voaram para lodo lado. Todo o
meu corpo pareceu virar do avesso. Ouvi meu próprio grito.
De repente, acordei. Tudo estava em silêncio.
Um policial estava de pé ao meu lado. Vi um médico. Meu corpo estava
estraçalhado. Eu estava coberto de sangue. Havia pedaços de vidro partido por
todo lado. Achava estranho não sentir nada. "Ei, não ponham esse lençol em
cima da minha cabeça.
Não posso estar morto. Tenho só dezessete anos.
Tenho um encontro hoje à noite. Tenho uma vida maravilhosa pela frente. Ainda
nem vivi. Não posso estar morto!" Mais tarde, fui colocado em uma gaveta.
Meus pais vieram me identificar. Por que precisavam me ver desse jeito?
Por que eu precisava olhar nos olhos da mamãe
enquanto ela enfrentava o pior calvário da sua vida? Papai pareceu subitamente
muito velho. Ele disse ao encarregado:
- É, é o nosso filho.
O enterro foi estranho. Vi todos os meus
parentes e amigos andarem na direção do caixão. Eles olharam para mim com os
olhos mais tristes que já vi. Alguns dos meus amigos estavam chorando. Algumas
das meninas tocavam na minha mão e soluçavam enquanto se afastavam.
"Por favor, alguém me acorde! Me tire
daqui." Não posso suportar ver mamãe e papai sofrendo tanto. Meus avós
estão tão fracos de dor que mal conseguem andar. Meu irmão e minha irmã parecem
zumbis. Andam como robôs. Em transe. Todo mundo. Ninguém pode acreditar nisso.
Eu também não posso acreditar.
"Por favor, não me enterrem! Não estou
morto! Tenho muita vida para viver! Quero rir e correr de novo. Quero cantar e
dançar. Por favor, não me ponham no chão! Prometo que se o senhor me der só
mais uma chance, Deus, vou ser o motorista mais cuidadoso do mundo. Tudo o que
quero é mais uma chance. Por favor, Deus, eu tenho só dezessete anos."
GOSTE DAS PESSOAS PRIMEIRO
KENT NERBURN
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 135
Craig, um grande amigo da faculdade, trazia
energia e vida a qualquer lugar aonde chegasse. Quando você falava, ele
prestava tanta atenção que você se sentia incrivelmente importante adoravam.
Certo dia ensolarado de outono, Craig e eu
estávamos sentados em nossa área habitual de estudo. Olhei pela janela e vi um
dos meus professores atravessando o estacionamento.
- Não quero esbarrar com ele - eu disse.
- Por que não? - perguntou Craig.
Expliquei que, no semestre anterior, o
professor e eu tínhamos nos desentendido. Eu me ofendera com alguma coisa que
ele tinha dito e ele, por sua vez, ofendeu-se com a minha resposta.
- Além disso - acrescentei -, o cara não gosta
de mim.
Craig observou a figura que passava lá embaixo.
- Talvez você tenha entendido mal - ele disse.
- Talvez você esteja se afastando porque tenha medo de ser rejeitado.
E ele provavelmente acha que você não gosta
dele, então não é simpático. As pessoas gostam de quem gosta delas. Se você
mostrar interesse por ele, ele vai se interessar por você. Vá falar com ele.
As palavras de Craig foram direto ao ponto.
Hesitante, desci as escadas até o estacionamento. Cumprimentei meu professor
efusivamente e perguntei como tinha sido o seu verão. Ele me olhou com genuína
surpresa. Caminhamos um pouco conversando, e eu podia imaginar Craig me olhando
da janela com um grande sorriso.
Craig tinha me ensinado um princípio simples,
tão simples que eu não podia acreditar que nunca tivesse pensado naquilo antes.
Como a maioria dos jovens, eu era inseguro e começava todos os meus contatos
com medo do julgamento dos outros - quando, na verdade, eles também estavam
preocupados com o meu julgamento.
Daquele dia em diante, passei a me esforçar
para reconhecer que os outros têm necessidade de estabelecer uma conexão e de
compartilhar algo sobre suas vidas. Descobri um mundo de pessoas que nunca
teria conhecido de outra maneira.
Uma vez, por exemplo, viajando de trem pelo
Canadá, comecei a conversar com um homem que todos evitavam porque ele
cambaleava e enrolava a língua como se estivesse bêbado. Na verdade, ele estava
se recuperando de um derrame. Tinha sido engenheiro naquela mesma linha que
estávamos percorrendo e passou a viagem me contando histórias fascinantes
passadas naquela ferrovia.
Quando o trem foi se aproximando da estação,
ele segurou a minha mão e me olhou nos olhos:
- Obrigado por ouvir. A maioria das pessoas não
se daria ao trabalho. - Ele não precisava ter me agradecido. O prazer tinha
sido todo meu.
Em uma esquina barulhenta da cidade de Oakland,
na Califórnia, uma família me parou pedindo indicações e descobri que eram
turistas da isolada costa norte da Austrália.
Perguntei-lhes como era a vida onde moravam. Em
pouco tempo, tomando café, eles me deleitaram com histórias sobre lugares e
costumes que eu nunca tinha conhecido.
Cada encontro tornou-se uma aventura, cada
pessoa uma lição de vida. Ricos, pobres, poderosos e solitários: todos tinham
tantos sonhos e dúvidas quanto eu. E cada um deles tinha lima história única
para contar, bastava alguém querer ouvir.
Um velho vagabundo com a barba por fazer me
contou como tinha alimentado sua família durante a depressão, dando tiros de
espingarda em um lago e recolhendo os peixes atordoados que flutuavam na
superfície. Um guarda de trânsito me revelou como tinha aprendido seus gestos
observando toureiros e maestros. E uma jovem esteticista compartilhou comigo a
alegria que sentiu ao ver os moradores de um asilo sorrindo depois que ela
cortou e penteou seus cabelos.
Quantas dessas oportunidades nós deixamos
passar. A garota que todos acham feiosa, o menino de roupas esquisitas – essas
pessoas têm histórias para contar, assim como você, com certeza. E, como você,
elas sonham com alguém que queira ouvir.
Foi isso que Craig me ensinou. Goste das
pessoas primeiro, faça perguntas depois. Descubra que a luz que você projeta
nos outros se reflete em você multiplicada por cem.
Quanto mais sabemos, melhor perdoamos.
Aquele que sente profundamente sente por todos os que
vivem.
MADAME DE STAEL
CORAÇÃO BRILHANTE
JENNIFER LOVE-HEWITT
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 139
No ano passado fui convidada para participar numa
festa beneficente, organizada por uma instituição que ajuda crianças portadores
do vírus da AIDS. Eles me chamaram porque sou atriz em um seriado de televisão,
e eu fui por solidariedade.
Acho que a maioria das crianças não me
reconheceu como uma celebridade. Eu era apenas uma garota grande que tinha ido
brincar com elas naquele dia. Preferi assim.
No pátio da instituição havia vários tipos de
barraquinhas.
Mas as crianças tinham se aglomerado ao redor
de uma em especial e pintavam pequenos recortes de tecido. Os quadrados seriam
costurados para fazer uma colcha de retalhos que seria dada de presente a um
dos diretores que tinha dedicado grande parte da sua vida à organização e agora
estava se aposentando.
Todo mundo recebeu tintas para tecido de cores
alegres e brilhantes. As crianças se dedicaram a pintar alguma coisa que
fizesse a colcha ficar bem bonita. Olhando para os quadrados já prontos, vi
corações cor-de-rosa, nuvens azuis, um lindo pôr-do-sol alaranjado e flores
verdes e roxas. Todos os desenhos eram coloridos, positivos e animadores.
Exceto um.
a menino sentado ao meu lado estava pintando um
coração, mas era um coração escuro, vazio, sem vida. Não tinha as cores
vibrantes que seus colegas tinham escolhido.
No início, pensei que talvez ele tivesse usado
a única tinta que sobrara. Mas, quando quis saber o que tinha acontecido, ele
me disse que o coração era daquela cor porque o seu próprio coração estava se
sentindo escuro. Perguntei-lhe por que, e ele me respondeu que tanto ele quanto
sua mãe estavam muito doentes. E acrescentou que os dois nunca iriam melhorar.
Ele me olhou direto nos olhos e falou:
- Ninguém pode fazer nada para ajudar.
Eu disse que sentia muito que ele estivesse
doente e que certamente podia entender por que estava tão triste. Entendia até
por que ele pintara o coração com uma cor escura. Mas expliquei que não era
verdade que ninguém podia fazer nada para ajudar. Talvez as pessoas não fossem
capazes de fazê-lo e a mãe dele ficarem curados, mas havia algumas coisas que
podiam ser feitas.
- Na minha experiência - eu disse -, aprendi
que dar abraços bem apertados ajuda de verdade quando se está triste.
Se você quiser, eu ficaria feliz em lhe dar um
abraço.
O menino imediatamente pulou nos meus braços e
pensei que meu coração fosse explodir com o amor que senti por aquele menino.
Ele ficou sentado no meu colo por um bom tempo
e desceu para terminar o desenho. Perguntei-lhe se estava se sentindo melhor e
ele respondeu que sim, mas que ainda estava doente e nada iria mudar aquilo. Eu
disse que entendia.
Deixei-o de coração apertado, desejando cada
vez mais poder ajudar aquelas crianças.
No final do dia, eu estava me aprontando para
ir para casa quando senti alguém puxar meu casaco. Quando me virei, o menininho
estava ali de pé, com um sorriso no rosto. Ele disse:
- Meu coração está mudando de cor. Está ficando
mais brilhante... Acho que aqueles abraços apertados funcionam mesmo.
No caminho de casa, senti que meu próprio coração
também tinha mudado para uma cor mais brilhante.
O maior presente é um pedaço de você mesmo.
RALPH WALDO EMERSON
EU VOU VOLTAR
JACK CAVANAUGH
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 142
Ao se aproximarem da porta do quarto do
hospital, Linda e Bob Samele se prepararam. "Mantenha a calma”, disse
Linda para si mesma, enquanto girava a maçaneta. "Não vai querer deixá-Io
pior do que ele já está." Naquela tarde de chuva e neve do dia 23 de
dezembro de 1988, seu filho de 15 anos, Chris, estava dirigindo, com cinco
amigos, da cidade natal dos Samele, Torrington, em Connecticut, até a cidade
próxima de Waterbury. Subitamente, os risos dos adolescentes se transformaram
em gritos quando o carro derrapou em um pedaço de gelo e bateu em uma cerca.
Três dos jovens, incluindo Chris, foram jogados pela janela traseira. Um morreu
na hora, outro se feriu gravemente.
Chris fora encontrado sentado no canteiro entre
as duas pistas, com os olhos arregalados diante do rio de sangue que esguichava
de sua coxa esquerda. Seis metros adiante estava sua perna esquerda, amputada
no joelho por um cabo da cerca. Ele foi levado ao Hospital Waterbury para ser
operado. Seus pais tiveram que esperar quase sete horas para vê-Io.
Agora, os olhos de Linda se encheram de água ao
ver seu filho na cama do hospital. Bob, um carteiro de Torrington, segurou a
mão de Chris.
- Pai, eu perdi a perna - disse o jovem
baixinho para seu pai. Bob aquiesceu e apertou sua mão com mais força. Depois
de um curto silêncio, Chris acrescentou:
- O que vai acontecer com a minha carreira de
basquete?
Bob Samele lutou para controlar suas emoções. O
basquete tinha sido a paixão de Chris desde a mais tenra infância e ele já
estava se tornando uma lenda na região. Na temporada anterior, como aluno da
sétima série do Colégio St. Peter, atingira a média notável de 41 pontos por
jogo. Agora, na oitava série, Chris somara um total de 62 pontos em dois jogos
intercolegiais.
- Algum dia vou jogar em Notre Dame, na frente
de milhares de pessoas - dizia Chris a seus pais com um sorriso. - E vocês vão
estar assistindo.
Olhando para o filho, Bob Samele procurou as
palavras:
- Sabe, Chris - conseguiu dizer finalmente -,
tem muita gente na sala de espera, incluindo o treinador Martin. O rosto de
Chris se iluminou. Então, com uma voz determinada, ele disse:
- Pai, diga ao treinador Martin que eu vou
voltar na próxima temporada. Vou voltar a jogar basquete.
Chris foi submetido a mais três cirurgias na
perna em sete dias. Desde o início, os cirurgiões viram que a confusão de
nervos, artérias e músculos rompidos tornava impossível reimplantar o membro
arrancado. Chris precisaria de uma prótese.
Durante as três semanas e meia que passou no
hospital, ele teve um fluxo constante de visitantes.
- Não se sinta mal por minha causa - dizia
Chris, quando percebia pena no olhar das pessoas. - Eu vou ficar bem. - Por
trás de sua boa disposição havia uma força de vontade inabalável, forjada pela
fé religiosa. Muitos de seus médicos e enfermeiros não entendiam aquilo.
- Como você está lidando com isso tudo, Chris?
- perguntou certo dia um psiquiatra. - Você alguma vez sente pena de si mesmo?
- Não - respondeu o garoto. - Não vejo como
isso poderia ajudar.
- Não sente amargura ou raiva?
- Não - disse Chris. - Tento ser positivo sobre
isso tudo.
Quando o persistente psiquiatra finalmente foi
embora do seu quarto, Chris disse a seus pais:
- Quem precisa de ajuda é ele.
Chris trabalhou duro no hospital para recuperar
sua força e coordenação. Quando se sentia forte o bastante, encestava uma bola
de espuma no aro que um amigo tinha pregado na parede perto da sua cama. Sua
intensa terapia incluía exercícios para a parte superior do corpo, por causa
das muletas, e exercícios para melhorar o equilíbrio.
Duas semanas depois de Chris entrar no
hospital, os Samele apostaram em uma terapia adicional: levaram-no em uma
cadeira de rodas para assistir a um jogo de basquete no científico de
Torrington.
- Fiquem de olho nele o tempo todo - avisaram
os enfermeiros, preocupados com sua reação.
O garoto ficou estranhamente calado ao ser
empurrado para dentro do ginásio barulhento. Mas, enquanto ele passava na
frente das arquibancadas, seus amigos e colegas começaram a gritar seu nome e a
acenar. Então o diretor-assistente do científico de Torrington, Frank McGowan,
anunciou nos alto falantes:
- Temos um amigo muito especial aqui esta
noite. Pessoal, vamos dar as boas-vindas a Chris Samele!
Estupefato, Chris olhou em volta e viu que
todas as novecentas pessoas no ginásio tinham se levantado, gritando e
aplaudindo. Os olhos do garoto se encheram de lágrimas. Era uma noite que ele
jamais esqueceria.
No dia 18 de janeiro de 1989, pouco menos de um
mês depois do acidente, Chris pôde voltar para casa. Para continuar os estudos,
ele recebia todas as tardes a visita de um professor particular. Quando não
estava estudando, estava no Hospital Waterbury fazendo fisioterapia. A dor
física, às vezes muito intensa, passou a fazer parte da sua vida cotidiana.
Algumas vezes, enquanto assistia à televisão com seus pais, ele se balançava
para a frente e para trás, numa reação silenciosa à dor em sua perna amputada.
Então, em uma tarde gélida, Chris pegou suas
muletas com grande esforço e deu a volta na casa até a antiga garagem onde
aprendera a arremessar. Colocando as muletas no chão, pegou uma bola de
basquete e olhou em volta para ter certeza de que ninguém estava olhando.
Finalmente, pulando na perna direita, começou a arremessar a bola na cesta.
Várias vezes ele perdeu o equilíbrio e caiu no chão. Todas as vezes ele se
levantou, pulou para recuperar a bola e continuou a arremessar. Quinze minutos
depois, estava exausto. "Isto vai levar mais tempo do que pensei",
disse para si mesmo, enquanto começava a lenta caminhada de volta para casa.
Chris colocou sua primeira prótese no dia 25 de
março, uma Sexta-Feira Santa. Animado com sua nova perna, perguntou a Ed
Skewes, diretor do departamento protético e ortopédico, se aquilo significava
que ele poderia começar a jogar basquete imediatamente. Surpreso ao ver Chris
falando sério, Skewes respondeu:
- Vamos com calma, um dia de cada vez. - O
médico sabia que uma pessoa geralmente precisa de cerca de um ano para andar
confortavelmente com uma prótese, quem dirá praticar esportes.
No porão de casa, Chris passou longas horas
aprendendo a andar com sua perna artificial. Por mais que fosse difícil
arremessar com uma perna só, ele achava ainda mais difícil com a prótese. A
maioria de seus arremessos passava longe da cesta e com frequência ele caía no
chão.
Depois de um dia particularmente desanimador,
Chris perguntou à mãe se ela realmente achava que ele voltaria a jogar.
- Você vai ter que se esforçar ainda mais -
respondeu ela. Mas, sim, eu acho que você consegue. - Ele sabia que ela estava
certa. O segredo era trabalhar duro e se recusar a desistir.
Chris voltou para o científico de Torrington no
começo de abril e imediatamente voltou a se enturmar - menos na quadra de
basquete. Depois da aula, os amigos de Chris iam jogar em uma quadra ao ar
livre. Durante várias semanas, ele ficou observando do lado de fora, enquanto
eles passavam correndo. Então, em uma tarde no início de maio, ele saiu vestido
para jogar. Seus amigos, surpresos, abriram caminho enquanto ele entrou na
quadra sem hesitar.
Chris começou a arremessar e sentia um arrepio
todas as vezes em que a bola entrava na cesta. Mas quando tentava passar com a
bola, dando pulinhos na direção da cesta, ou pular para um rebote, caía no
chão.
- Vai lá, Chris, você consegue! - gritavam seus
amigos. Mas Chris sabia a verdade: ele não conseguiria, não como antes.
Em um jogo durante um torneio de verão, ele
subiu com força para um rebote e quebrou o pé da prótese. Enquanto pulava para
fora da quadra, pensou: "Talvez eu esteja só me enganando. Talvez não seja
capaz de fazer isso."
No final das contas, no entanto, disse a si
mesmo que só havia uma coisa a fazer: esforçar-se ainda mais. Começou um
programa diário de arremessos, dribles e levantamento de pesos.
Depois de cada sessão de exercícios, tirava com
cuidado a perna artificial e as quatro meias suadas que usava para amortecer a prótese.
Depois tomava banho, grunhindo baixinho enquanto passava sabão em cima das
bolhas. Em pouco tempo, a dor foi amainada pelo sentimento de que ele estava
tendo lampejos do antigo Chris. "Eu vou conseguir. E não ano que vem. Este
ano!" Na segunda-feira depois do Dia de Ação de Graças, o treinador
principal do time do colégio, Bob Anzellotti, reuniu o grupo de garotos, todos
nervosos e ansiosos, que competiam por uma vaga no time de basquete júnior do
científico de Torrington. Seus olhos se detiveram em Chris Samele.
Durante os dois dias de testes, ninguém se
esforçara mais do que Chris. Ele driblava, compunha a defesa, mergulhava atrás
de bolas perdidas - fazia o que quer que tivesse que fazer para mostrar a todo
mundo que ainda podia jogar. Chegava até a dar dez voltas em torno do ginásio
todo dia com os outros - correndo bem mais devagar do que o resto, mas indo
sempre até o fim.
Na manhã seguinte ao último treino, Chris
juntou-se à multidão para olhar a lista de convocados. "Você fez tudo que
pôde", disse a si mesmo enquanto espiava a lista por cima dos ombros dos
outros. E ali estava - Samele. Ele estava de volta ao time!
Mais tarde, naquela semana, o treinador
Anzellotti chamou seus jogadores para uma reunião.
- O time de cada ano tem um capitão, escolhido
pelo exemplo que dá aos outros. O capitão deste ano vai ser... Chris Samele. -
Os jogadores explodiram em aplausos.
Na noite do dia 15 de dezembro, apenas oito
dias antes do primeiro aniversário do acidente, duzentas e cinquenta pessoas
tomaram seus lugares para assistir ao jogo que marcaria a volta de Chris à
quadra de basquete.
No vestiário, a mão de Chris tremia
ligeiramente enquanto ele vestia a camisa marrom do time.
- Vai dar tudo certo, Chris - disse o treinador
Anzellotti.
- Só não espere muito logo na primeira noite. -
Chris concordou com a cabeça.
- Eu sei - disse ele baixinho. - Obrigado.
Logo ele estava correndo para a quadra com o
resto do time para o treinamento antes do jogo. Praticamente toda a
arquibancada se levantou para aplaudir. Emocionados ao verem seu filho
novamente com o uniforme do científico de Torrington, Linda e Bob seguraram as
lágrimas. "Meu Deus", rezou Linda, "não deixe que ele se
envergonhe." Apesar de seu esforço para se acalmar, Chris levou seu
nervosismo para a quadra. Durante o aquecimento, a maioria dos seus arremessos
bateu no aro.
- Calma, relaxe - sussurrou o treinador
Anzellotti. - Não fique afoito.
Quando os jogadores finalmente foram para o
centro da quadra para o início do jogo, Chris estava na posição de defesa.
Com a primeira bola, começou a jogar de modo
tenso e esquisito. Conseguia levar o jogo, mas seus movimentos eram
desajeitados, ele estava sem ritmo. Várias vezes, ao arremessar a bola, ela
sequer tocava o aro da cesta. Geralmente, quando isso acontece, os adolescentes
nas arquibancadas provocam: "Bola no ar! Bola no ar!" Desta vez,
ficaram calados.
Depois de jogar por oito minutos, Chris teve um
longo descanso. Faltando dois minutos para o meio tempo, tornou a entrar em
quadra. "Vamos lá, Chris", disse ele a si mesmo, "foi para isso
que você trabalhou. Mostre a eles que você consegue." Segundos depois, ele
conseguiu ficar livre a seis metros da cesta e um jogador do seu time lhe deu
um passe. Era uma distância difícil para qualquer um - uma cesta de três
pontos. Sem hesitação, Chris se firmou e fez um arremesso alto, em arco. A bola
voou até a cesta e passou bem pelo meio dela.
O ginásio explodiu em gritos e aplausos.
- É isso aí, Chris! - gritou Bob Samele, com a
voz embargada de emoção.
Um minuto depois, Chris pegou um rebote entre
um emaranhado de braços. Pulando, arremessou a bola na tabela. Mais uma vez ela
caiu em cheio dentro da rede. E novos aplausos explodiram.
As lágrimas corriam pelo rosto de Linda Samele,
enquanto ela olhava seu filho pular pela quadra, com o punho levantado,
triunfante. "Ele conseguiu." Chris continuou a jogar muito bem, para
delírio da multidão. Só uma vez perdeu o equilíbrio e desabou no chão. Quando
soou o final da partida, ele fizera onze pontos e Torrington vencera.
Mais tarde, naquele dia, em casa, Chris deu um
largo sorriso:
- Eu fui bem, não fui, pai?
- Você foi ótimo - respondeu Bob, dando um
abraço apertado no filho.
Depois de conversar rapidamente sobre o jogo,
Chris subiu as escadas para seu quarto, ainda com uma expressão de felicidade.
Seus pais sabiam que, para ele, aquela noite
era só o começo.
Enquanto apagava as luzes, Linda se lembrou de
uma tarde logo depois do acidente, quando ela estava trazendo seu filho de
volta da fisioterapia. Chris estava calado, olhando pela janela do carro,
quando, de repente, quebrou o silêncio:
- Mãe, acho que sei por que isso aconteceu
comigo.
- Por quê? - Linda perguntou, surpresa.
Ainda olhando pela janela, Chris disse
simplesmente:
- Deus sabia que eu ia aguentar. Ele salvou a
minha vida porque sabia que eu ia aguentar.
Nota do editor: Samele, em seguida, entrou para
o time principal de basquete do científico de Torrington durante seu segundo e
terceiros anos. Chris também jogou simples e duplas no time de tênis do
colégio. Ele jogou no time de tênis do Western New England College em
Springfield, Massachuserrs, e jogou basquete no Western New England e em ligas
de verão na área de Torrington. Samele quer ser treinador de basquete.
Embora o mundo esteja cheio de sofrimento,
também está cheio de superação do sofrimento.
HELEN KELLER
COMO MASSAGEAR UM EGO
KIRK HILL
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 152
Sr. Rickman, nosso professor de psicologia, não
costuma passar o mesmo tipo de deveres dos outros professores, tais como ler
mil páginas, responder às perguntas ao final do capítulo, solucionar os
problemas de 47 a 856. Ele é bem mais criativo do que isso.
Sr. Rickman apresentou o dever de quinta-feira
passada, dizendo que o importante é um meio de comunicação.
- Nossos atos falam mais alto do que as
palavras. Esta não é uma frase vazia - ele nos disse. - O que as pessoas fazem
nos diz algo sobre o que estão sentindo.
Ele fez uma pequena pausa para que
absorvêssemos aquilo antes de passar o dever. .
- Agora, vejam se conseguem mudar uma pessoa,
massageando o ego dele ou dela o bastante para que você perceba uma mudança em
seu comportamento. Relataremos os resultados na aula da semana que vem.
Quando cheguei em casa naquela tarde, minha mãe
estava sentindo uma imensa pena dela mesma. Percebi isso ao passar pela porta.
Os cabelos caíam sobre o rosto, a voz mais parecia um lamento e ela ficava
suspirando enquanto preparava o jantar. Nem ao menos me dirigiu a palavra
quando cheguei. Como ela não falou, eu também não falei.
O jantar foi um tanto triste. Papai não estava
com mais vontade de falar do que mamãe ou eu. Decidi colocar o meu dever de
casa em ação.
- Mãe, sabe aquela peça que o clube de artes
dramáticas da universidade está encenando? Por que você não vai com o papai
hoje à noite? Ouvi dizer que é ótima.
- Esta noite não dá - disse meu pai. - Tenho
uma reunião importante.
- Naturalmente - comentou mamãe. E eu
compreendi o que a estava incomodando.
- Bem, então por que não vai comigo? -
perguntei.
Imediatamente, desejei não ter feito aquele
convite. Imagine só um rapaz do segundo grau ser visto saindo à noite com a
mãe! De qualquer maneira o convite ficou ali, pairando no ar, e mamãe
perguntou, toda animada:
- Jura, Kirk?
Engoli em seco algumas vezes.
- Claro. Por que não?
- Mas rapazes não costumam sair com as mães. -
Seu tom de voz foi ficando cada vez mais agradável e ela prendeu as mechas de
cabelos soltos em cima da cabeça.
- Não existe nenhuma lei dizendo que a gente
não pode sair com a mãe - brinquei. - Vá se arrumar. Nós vamos sair.
Mamãe carregou alguns pratos até a pia. Agora,
seus passos estavam leves em vez de arrastados.
- Deixe que Kirk e eu lavamos a louça -
ofereceu papai, e mamãe chegou a sorrir para ele.
- Você foi muito gentil em fazer isso - disse
papai, quando mamãe deixou a cozinha. - Você é um filho muito atencioso.
"Graças à aula de psicologia”, pensei, um tanto deprimido.
Mamãe voltou à cozinha parecendo cinco anos
mais nova do que há uma hora - Você tem certeza de que não vai sair com mais
ninguém esta noite? - insistiu ela, como se não pudesse acreditar no que estava
acontecendo.
- Agora, eu vou - respondi. - Vamos nessa!
A noite acabou não sendo tão desagradável
assim. A maioria dos meus amigos certamente fez algo de mais empolgante naquela
noite do que assistir a uma peça de teatro. Os que foram ver a mesma peça não
ficaram nem um pouco surpresos de me ver com minha mãe. Ao final da noite, ela
estava genuinamente feliz, e eu próprio, bastante satisfeito. Não só me dei
super bem no dever de casa como também aprendi um bocado sobre como fazer
alguém feliz.
Se você tratar um indivíduo como ele é, ele permanecerá
como é.
Mas se você o tratar como se fosse o que deveria ser,
ele se transformará no que deveria e poderia ser.
GOETHE
MEU IRMÃO MAIS VELHO
LISA GUMERICK
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 155
Nunca pensei que fosse sentir falta das meias mal-cheirosas
do meu irmão espalhadas pelo chão ou da música que ele ouvia no volume máximo
sempre que estava em casa. Mas, desde que ele foi para a faculdade, sinto meu
coração apertado. Estou morrendo de saudades. Sempre fomos muito próximos,
apesar da diferença de idade - eu tenho quatorze anos.
Meu irmão é um cara fora do comum, inteligente
e gentil.
Além disso, minhas amigas vivem suspirando
pelos cantos e dizendo que ele é lindo. Mas o que me faz sentir tanto orgulho é
o jeito como ele lida com as coisas, como trata os amigos e a família, como se
importa com as pessoas. É assim que eu quero ser. Se vocês não se importarem,
eu gostaria de explicar o que quero dizer...
Ele se candidatou a quatorze faculdades e foi
aceito em todas, menos na que queria, a Brown University. Então optou pela
segunda escolha. Tudo correu bem no primeiro ano de faculdade, mas ele não
estava satisfeito. Ao voltar para casa nas férias de verão, ele contou que
tinha bolado uma estratégia para entrar na Brown. Queria saber se nós o
apoiaríamos.
Seu plano era se mudar para Rhode Island, perto
da Brown, arrumar um emprego e fazer tudo o que pudesse para ficar conhecido na
área. Ele trabalharia duro e tinha certeza de que alguém iria notá-lo. Não era
uma decisão fácil para meus pais, porque significava concordar que ele ficasse
um ano fora da faculdade, o que para eles era assustador. Mas meus pais
confiavam no meu irmão e o encorajaram a fazer o que achasse necessário para
realizar seu sonho.
Não demorou muito para ele ser contratado como
produtor de peças de teatro - é, adivinharam - na Brown. Era sua chance para
brilhar, e ele brilhou. Nenhuma tarefa era grande ou pequena demais. Ele se
dedicou totalmente ao trabalho. Conheceu professores e administradores, contou
a todo mundo sobre seu sonho e nunca hesitou em dizer-Ihes o que estava
buscando.
E no final do ano, é óbvio, quando ele tornou a
se candidatar à Brown, foi aceito.
Ficamos todos extremamente felizes e eu senti
enorme orgulho do meu irmão. Aprendi uma lição importante – uma lição que
ninguém poderia ter me ensinado com palavras, uma lição que eu poderia aprender
vendo com meus próprios olhos. Se eu der duro pelo que quero, se continuar
tentando mesmo depois de ser rejeitada, meus sonhos também podem-se realizar.
Este é um presente que eu ainda guardo no coração. Por causa do meu irmão, eu
confio na vida.
Recentemente, fui sozinha a Rhode Island para
visitá-Io e tive uma semana sensacional, sem adultos por perto. Na noite
anterior à minha volta, estávamos conversando sobre vários assuntos quando meu
irmão, olhando nos meus olhos, disse o quanto gostava de mim. Apertando minha
mão, ele pediu que cu nunca fizesse nada que não achasse certo, por mais que os
outros insistissem. Também disse para eu confiar sempre no desejo do meu
coração.
Chorei durante toda a viagem de volta, sabendo
que meu irmão e eu seríamos sempre amigos e me dando conta da sorte que é ser
sua irmã. Uma coisa estava diferente: eu não me sentia mais uma garotinha.
Parte de mim havia crescido naquela viagem e pela primeira vez pensei na grande
tarefa que me esperava em casa. Tenho uma irmã dez anos mais nova e quero
ajudá-la a fazer as escolhas certas. Hoje sei como é importante ter um ótimo
professor.
Primeiro diga a si mesmo o que gostaria de ser e depois o
que tem que fazer.
EPICTETO
O CUSTO DA GRATIDÃO
RANDAL
JONES
Histórias
Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 158
Quando
eu tinha uns treze anos meu pai costumava me levar para pequenos passeios aos
sábados. Algumas vezes íamos ao parque, ou à marina, olhar os barcos. Eu também
adorava visitar as lojas de bugigangas, onde podíamos admirar os aparelhos
eletrônicos. De vez em quando, comprávamos alguma coisa barata só para
desmontá-Ia juntos.
No
caminho de volta desses passeios, papai sempre parava na sorveteria, onde
tomávamos sorvete de casquinha. Sempre não, algumas só algumas vezes. E nunca
sabia se íamos parar ou não, mas esperava ansioso, torcendo desde a hora em que
pegávamos o rumo de casa até aquela esquina decisiva, de onde iríamos direto
para o sorvete ou viraríamos e voltaríamos para casa de mãos vazias. Aquela
esquina significava animação e na boca ou decepção.
Às
vezes, meu pai me provocava, voltando para casa pelo caminho mais comprido.
-
Só estou vindo por aqui para mudar um pouco - dizia ele, enquanto passava pela
frente da sorveteria sem parar. Era um jogo, não estou falando de tortura.
Nos
melhores dias ele perguntava, como se fosse novidade:
-
Quer um sorvete de casquinha?
E
eu respondia:
-
Que ótima ideia, pai! - Eu sempre pedia de chocolate e ele, de creme. Tomávamos
o sorvete no carro. Eu amava meu pai e amava sorvete, então aquilo era o
paraíso.
-
Naquele dia fatídico, estávamos a caminho de casa e eu aguardava o lindo som da
sua oferta. E ela veio:
-
Quer um sorvete de casquinha hoje?
-
Que ótima ideia, pai!
Mas,
então, ele acrescentou:
-
Também acho ótima, filho. Não quer pagar hoje?
O
sorvete custava vinte centavos! Vinte centavos! Minha cabeça girava. Eu podia
pagar. Ganhava uma mesada de vinte e cinco centavos por semana, mais uns
trocados por serviços eventuais. Mas economizar dinheiro era importante.
Papai
tinha me dito. E, quando se tratava do meu dinheiro, sorvete simplesmente não
era um bom investimento.
Por
que não percebi que aquela era uma oportunidade de ouro de dar alguma coisa
àquele pai tão generoso?
Por
que não pensei que ele já me comprara cinquenta sorvetes e que eu nunca
comprara nenhum para ele? Mas tudo em que eu conseguia pensar era: "Vinte
centavos!"
Em
um acesso de ingratidão, eu disse as palavras feias pelas quais nunca me
perdoei:
-
Bom, nesse caso, acho que vou desistir.
Meu
pai respondeu apenas:
-
Está bem, filho.
Mas,
assim que fizemos a curva a caminho de casa, percebi o quanto estava errado e
implorei para que ele desse meia-volta.
-
Eu pago - supliquei.
Mas
ele disse apenas:
-
Tudo bem, a gente não precisa de sorvete mesmo!- E se recusou a ouvir minhas
súplicas. Fomos para casa.
Fiquei
me sentindo péssimo por meu egoísmo e minha ingratidão. Ele não jogou aquilo na
minha cara, nem agiu como se estivesse desapontado ou ressentido. Mas acho que
meu pai não poderia ter encontrado maneira melhor de me ensinar.
Aprendi
que a generosidade tem mão dupla e que a gratidão algumas vezes custa um pouco
mais do que "obrigado".
Naquele
dia, a gratidão teria custado vinte centavos, e aquele teria sido o melhor
sorvete que eu jamais teria tomado.
Na
semana seguinte, fizemos outro passeio e, quando estávamos nos aproximando da
esquina decisiva, eu disse:
-
Pai, quer um sorvete de casquinha hoje? Eu pago.
UM AMOR PERDIDO
T. J. LACEY
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 163
Não sei por que deveria lhes contar isto. Eu
não sou nada de especial. Não há nada que tenha acontecido comigo em minha vida
inteirinha que não tenha acontecido com praticamente todo mundo deste planeta.
A não ser pelo fato de eu ter conhecido Rachel.
Nós nos conhecemos na escola. Nossos armários
ficavam lado a lado e compartilhávamos aquele mesmo cheiro de folha dl' caderno
novo, de tênis apenas começando a tomar o formato do pé e recortes com as fotos
de nossos músicos favoritos presos com durex por dentro das portas dos
armários.
Ela era linda e seu ar confiante indicava que
tinha de estar namorando alguém. Alguém que fosse especial naquela escola.
Eu? Eu estava dando um duro danado para
continuar no time de atletismo e para tirar notas que me permitissem ser aceito
na
Faculdade onde meus pais estudaram quando
tinham a minha idade.
No dia em que conheci Rachel, ela sorriu e
disse "oi".
Depois de olhar dentro daqueles carinhosos
olhos castanhos, tive de sair correndo como se aquela fosse a primeira e última
corrida de minha vida. Corri dezesseis quilômetros naquele dia e praticamente
não perdi o fôlego.
Passamos o segundo semestre do ano conversando
e rindo dos professores, de nossos pais e da vida em geral, e discutindo o que
faríamos quando nos formássemos. Estávamos, os dois, no último ano e era muito
bom sentir-se "o rei do pedaço" por algum tempo.
No final das contas, ela não estava namorando
ninguém - o que era incrível. Havia terminado com um sujeito do time de natação
durante as férias e não estava saindo com ninguém.
Eu nunca me dera conta de que podia conversar
de verdade com alguém - com uma garota, eu quero dizer - do jeito que
conversava com ela.
Então, um dia, o meu carro - uma lata velha que
meu pai tinha comprado para mim justamente porque jamais correria - não quis
dar partida. Era um daqueles dias cinzentos e frios de outono e parecia que ia
chover. Rachel passou por mim no estacionamento da escola, no conversível
azul-turquesa do pai, e perguntou se podia me levar a algum lugar.
Eu entrei. Ela estava ouvindo o último cd de
David Byrne e cantava com ele. Sua voz era bonita, bem mais bonita do que a de
Byrne - mas também, ele não passa de um sujeito magrice10, nada parecido com
Rachel.
- E então, aonde quer ir? - perguntou, e seus
olhos tinham um brilho de quem sabia alguma coisa a meu respeito que eu
ignorava.
- Para casa, eu acho - respondi. Então criei
coragem e acrescentei: - a não ser que queira dar uma passada pelo Sonic.
Ela não disse nem sim nem não, mas foi direto
para o restaurante drive-in. Comprei algo para ela comer e ficamos ali
sentados, conversando mais um pouco. Ela me olhou com aqueles olhos que
pareciam enxergar tudo o que eu sentia e pensava. Seus dedos roçaram os meus
lábios e tive certeza de que nunca sentiria algo mais forte por uma garota.
Rachel me contou como tinha vindo parar naquela
cidadezinha. O pai era diplomata em Washington e, ao se aposentar, quis que ela
fosse criada como uma garota de cidade do interior.
Mas nada foi capaz de mudar seu jeito. Ela era
sofisticada, segura e parecia sempre saber o que dizer. Ao contrário de mim.
Mas ela fez alguma coisa se abrir dentro do meu coração.
Ela gostava de mim e, de repente, passei a
gostar de mim também.
Ela apontou para o para-brisa.
- Olhe só - disse, rindo. - A gente embaçou as
janelas. - E, enquanto a luz do dia desaparecia, eu me lembrei de minha casa,
de meus pais, de meu carro.
Rachel me levou em casa e me deixou com um
''até amanhã" e um aceno. Aquilo foi o bastante. Eu tinha conhecido a
garota dos meus sonhos.
Depois daquele dia, começamos a sair, mas eu
não diria que estávamos namorando. Nós nos encontrávamos para estudar e sempre
acabávamos conversando e rindo das mesmas coisas.
Nosso primeiro beijo? Eu nunca contei isto para
meus amigos porque eles achariam graça, mas foi ela quem me beijou da primeira
vez. Estávamos sozinhos em minha casa, na cozinha. O único barulho que eu ouvia
era o tique-taque do relógio. Ah, sim, e o meu coração martelando nos ouvidos
como se fosse explodir.
Foi um beijo suave e breve. Depois, ela olhou
no fundo dos meus olhos e me beijou outra vez - e dessa vez não foi um beijo
tão suave nem breve. Eu sentia o seu perfume e tocava os seus cabelos e,
naquele momento, senti que poderia morrer e me alegrar por isso.
- Até amanhã - disse ela, e caminhou em direção
à porta.
Eu não consegui dizer coisa alguma.
Simplesmente a olhei partir e sorri.
Nós nos formamos e passamos o verão nadando, fazendo
caminhadas, pescando, colhendo amoras e escutando suas músicas favoritas.
Rachel tinha de tudo: de rhythm and blues a rock pesado e até mesmo clássicos
como Vivaldi e Rachmaninoff. Eu me senti vivo como nunca havia me sentido
antes. Tudo o que eu via, todos os aromas que sentia, tudo aquilo que tocava,
era novo.
Estávamos deitados sobre uma manta no parque,
certa vez, olhando para as nuvens. O rádio tocava jazz.
- Precisamos nos deixar - disse Rachel. - Já é
quase época de irmos para a faculdade. - Ela deitou de bruços e olhou para mim.
- Vai sentir saudades minhas? Vai pensar em mim
de vez em quando? - e por um décimo de segundo achei que percebera em seu olhar
uma certa dúvida, algo bem diferente de sua autoconfiança usual.
Eu a beijei e fechei os olhos de forma a não
perceber mais nada além dela, única e exclusivamente ela. O seu cheiro, o seu
sabor, o seu toque.
- Você é eu - declarei. - Como posso sentir
saudades de mim mesmo?
Mas lá no fundo eu me sentia como se estivesse
morrendo por dentro. Ela estava certa: cada dia que passava significava que
estávamos chegando mais perto de nossa separação.
Tentamos agir como se nada estivesse prestes a
acontecer, como se nosso mundo não fosse mudar completamente em pouco tempo.
Ela não falava em comprar roupas novas para levar para a faculdade, e eu não
falava sobre o carro novo que meu pai tinha me dado. Continuamos a agir como se
o verão fosse durar para sempre, como se nada pudesse nos mudar, nada pudesse
mudar o nosso amor. E eu sei que ela me amava.
Estamos quase na primavera. Eu logo começarei o
segundo ano de faculdade.
Rachel nunca escreve.
Ela disse que devíamos deixar tudo como estava,
e não sei bem o que ela quis dizer com isso. Seus pais compraram uma casa na
Virgínia, então eu sei que ela não voltará para a nossa cidadezinha.
Hoje, ouço música com mais frequência, sempre
olho duas vezes quando vejo um conversível azul-turquesa e presto mais atenção
em tudo: na cor do céu e na brisa que sopra por entre as árvores.
Ela é eu e eu sou ela. Onde quer que esteja,
ela sabe disso. Tudo o que vivi e aprendi com Rachel está incorporado ao meu
ser. Sempre que penso nela, jogo meu desejo para o universo, pedindo que o
acolha. Acredito que a resposta que vier será para o bem de nós dois.
O amor é a dificílima percepção de que
algo além de nós mesmos é real. IRIS MURDOCH
UM A PARA A SRA. B
KARINA SNOW
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 169
Estava sentada ao lado de Missy na aula de história
geral do primeiro ano quando a Sra. Bardett anunciou um novo projeto. Em
grupos, deveríamos escrever um jornalzinho sobre um dos temas que estávamos
estudando.
Num pedaço de papel, anotamos os nomes dos três
amigos com quem gostaríamos de trabalhar. Depois de recolher os pedidos, a Sra.
B disse que levaria em consideração os nomes selecionados por nós e que nos
daria o resultado no dia seguinte. Eu não tinha a menor dúvida de que ficaria
no grupo de minha escolha. Havia apenas um punhado de pessoas socialmente
aceitáveis naquela turma e Missy era uma delas.
Eu sabia que tínhamos nos escolhido, uma à
outra.
No dia seguinte, fiquei aguardando a aula de
história ansiosamente. O sinal tocou e Missy e eu paramos de conversar quando a
Sra. B pediu a nossa atenção. Começou a ler os nomes. Ao chegar ao grupo três,
o nome de Missy foi chamado.
"Então eu faço parte do grupo três",
pensei. Os nomes do segundo, terceiro e quarto integrantes do grupo foram
chamados. Meu nome não estava entre eles. Tinha de haver algum engano!
Foi então que eu ouvi: "Mauro, Juliette,
Rachel e Karina." Eu estava no último grupo. Senti as lágrimas brotarem em
meus olhos. Não dava para encarar aquelas pessoas: o garoto que mal sabia falar
inglês, a garota que se escondia debaixo de saias que iam até os tornozelos e a
outra que só usava roupas esquisitas.
Como eu queria estar com os meus amigos!
Lutava para conter as lágrimas quando fui falar
com a Sra. B. Ao olhar para mim, ela já sabia o que me trazia ali. Estava
decidida a convencê-Ia de que devia estar no grupo "bom'.
- Por que... - comecei.
Ela colocou a mão no meu ombro, suavemente:
- Eu sei o que você quer, Karina, mas seu grupo
precisa de você. Preciso que os ajude a tirar uma nota razoável nesse trabalho.
Só você pode ajudá-Ios.
Fiquei atordoada, impressionada. Ela havia
visto algo em mim que eu não via.
- Pode ajudá-Ios? - me pediu.
Endireitei a coluna.
- Posso - respondi. Eu não podia acreditar que
tinha dito aquilo, mas saiu da minha boca. Eu tinha me comprometido.
Caminhando corajosamente para onde os outros
integrantes de meu grupo se encontravam, ouvi as risadas de meus amigos.
Sentei-me e começamos a trabalhar. Cada um ficou com uma coluna diferente para
escrever, de acordo com o seu interesse pessoal. Fizemos pesquisa. Na metade da
semana, senti que estava gostando da companhia daqueles três
"desajustados". Não havia motivo para fingimento: estava realmente
interessada em aprender algo sobre eles.
Mauro, segundo descobri, sofria com a língua
inglesa e com a falta de amigos. Juliette também se sentia só, pois as pessoas
não compreendiam que sua religião só permitia que ela usasse saias e vestidos
compridos. Rachel, que havia pedido para escrever a coluna sobre moda, queria
ser estilista. Tinha um bocado de ideias completamente originais! Não eram
desajustados, apenas pessoas de quem ninguém gostava o suficiente para tentar
conhecer melhor e entender - com exceção da Sra. B. Sua perspicácia, visão e atenção
tinham instigado o potencial de quatro de seus alunos.
Não me lembro da manchete do jornal nem sobre o
que escrevemos, mas aprendi uma coisa naquela semana. Tive a oportunidade de
ver outras pessoas sob uma luz diferente. Tive a oportunidade de enxergar em
mim mesma um potencial que me inspirou nos anos que se seguiram. Aprendi que
quem somos é mais importante do que o que somos ou parecemos ser.
Após o final daquele semestre, eu sempre
recebia um "Oi" caloroso das pessoas de meu grupo. E sempre me sentia
contente em vê-Ias.
A Sra. B nos deu um A no trabalho. Deveríamos
ter lhe devolvido este A imediatamente, pois ela, sim, era digna daquela nota.
MEDALHISTA DE OURO
RICK METZGER
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 172
Fiz uma palestra em um colégio de ensino médio na
primavera de 1995. No final, o diretor me perguntou se eu poderia fazer uma
visita a um aluno especial. Uma doença obrigara o garoto a ficar em casa, mas
ele tinha manifestado interesse em me conhecer e o diretor sabia que aquilo
significaria muito para ele. Concordei. Durante o trajeto de quatorze
quilômetros até a casa dele, e descobri algumas coisas sobre Matthew. Ele tinha
distrofia muscular. Quando nascera, os médicos disseram a seus pais que ele não
viveria até os cinco anos e, depois, que ele não chegaria aos dez. Ele estava
com treze anos e, pelo que eu estava ouvindo, era um lutador. Queria me
conhecer porque eu ganhara uma medalha de ouro em levantamento de peso e sabia
tudo sobre superar obstáculos e correr atrás de sonhos.
Passei mais de uma hora conversando com
Matthew.
Nenhuma vez ele reclamou ou perguntou:
"Por que eu?" Falava sobre vencer e correr atrás dos seus sonhos. Era
óbvio que ele sabia do que estava falando. Não comentou que seus colegas de
turma gozavam da sua cara porque ele era diferente. Falou apenas de suas
esperanças para o futuro e de como, um dia, queria levantar peso como eu.
Quando terminamos de conversar, tirei de dentro
da minha pasta a primeira medalha de ouro que ganhara por levantamento de peso
e a coloquei em volta do seu pescoço.
Disse a Matthew que ele era um vencedor e que
sabia mais sobre sucesso e sobre superar obstáculos do que eu jamais saberia.
Ele olhou a medalha por um instante, depois a tirou e me devolveu, dizendo:
- Rick, você é um campeão. Mereceu esta
medalha.
Algum dia, quando eu for para a Olimpíada e
ganhar a minha medalha de ouro, vou mostrá-Ia a você.
No verão passado, recebi uma carta dos pais de
Matthew dizendo que ele tinha morrido. Eles queriam me entregar uma carta que
ele escrevera para mim alguns dias antes.
Caro Rick,
Minha mãe disse que eu deveria lhe mandar uma
carta agradecendo pela foto legal que você me mandou. Eu também queria contar
que os médicos disseram que eu não vou viver muito tempo. Está ficando muito
difícil respirar e eu me canso com facilidade, mas ainda sorrio o quanto posso.
Sei que nunca vou ser tão forte quanto você e sei que nunca vamos levantar peso
juntos.
Um dia eu disse a você que iria à Olimpíada e
ganharia uma medalha de ouro. Agora sei que nunca vou fazer isso. Mas sei que
sou um campeão, e Deus também sabe. Ele sabe que eu não desisto.
Por isso, quando eu chegar no céu, Deus vai me
dar uma medalha de ouro. E quando você chegar lá, eu vou mostrá-Ia a você.
Obrigado por me amar.
Seu amigo, Matthew
O VALOR DA VERDADE
KIMBERLY KIRBERGER
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 175
Robby Rogers... meu primeiro amor. E que cara
bacana também.
Ele era amável, sincero e inteligente. Na verdade,
quanto mais penso nele, mais razões encontro para tê-Io amado tanto quanto
amei. Nós estávamos saindo juntos havia um ano. Como vocês sabem, no segundo
grau isso é muito tempo.
Não me lembro por que não fui à festa de Nancy
naquela noite de sábado, mas Robby e eu tínhamos combinado de nos ver depois.
Ele passaria na minha casa por volta das dez e meia. Robby sempre chegava na
hora combinada, por isso, quando ele não apareceu até as onze horas, senti que
alguma coisa não estava certa.
Na manhã do domingo, ele me acordou com um
telefonema.
- A gente precisa conversar. Posso ir aí?
Eu queria dizer: "Não, não pode vir aqui
para me dizer que tem alguma coisa errada." Em vez disso, falei:
- Claro - e desliguei com um nó na barriga.
Eu estava certa.
- Fiquei com a Sue Roid na festa - me informou
Robby - e combinei de sair com ela hoje. - Ele continuou com o habitual: -
Estou tão confuso. Nunca faria nada para magoar você, Kim. Eu sempre vou amar
você.
Devo ter ficado branca, porque senti o sangue
se esvair do meu rosto. Aquela era a última coisa que eu esperava e minha
reação me surpreendeu. Fiquei com tanta raiva que fui incapaz de completar uma
frase. A mágoa era tanta que tudo, a não ser a dor no meu coração, parecia
estar em câmara lenta.
- Poxa, Kim, não fique assim. A gente pode ser
amigo, não pode?
Essas são as palavras mais cruéis que se pode
ouvir de alguém de quem se está levando um fora. Eu o tinha amado
profundamente, compartilhado cada fraqueza e cada vulnerabilidade com ele - sem
falar nas quatro horas por dia que passara com Robby no último ano (não
incluindo o tempo no telefone). Eu queria bater nele com força, muitas vezes,
até que ele se sentisse tão mal quanto eu estava me sentindo. Em vez disso,
pedi para ele ir embora. Acho que disse alguma coisa sarcástica como:
"Estou ouvindo a Sue chamar você." Sentada na minha cama, chorei
durante horas, tão magoada que nada era capaz de fazer aquilo parar. Tentei até
comer um pote inteiro de sorvete. Escutei todas as nossas músicas favoritas
inúmeras vezes, me torturando com lembranças de tempos bons e palavras
carinhosas. Depois de ficar doente de tanto me sentir uma pobre-coitada, tomei
uma decisão.
Eu ia me vingar.
Meu raciocínio era o seguinte: Sue Roth é - era
- uma das minhas melhores amigas. Boas amigas não dão em cima do seu namorado
quando você não está. Obviamente, Sue tinha que pagar.
Naquele fim de semana, comprei seis dúzias de
ovos e fui até a casa de Sue com algumas amigas. No começo eu estava só dando
vazão à raiva, mas aquilo foi piorando. Então, quando alguém encontrou uma
janela aberta no porão, jogamos todos os ovos que tinham sobrado lá dentro. Mas
essa não é a pior parte. A família Roth estava viajando por três dias!
Deitada na minha cama naquela noite, comecei a
pensar sobre o que tínhamos feito. "Isso é ruim, Kim... isso é muito
ruim." Logo o colégio todo soube da história. Robby e Sue estavam saindo e
alguém tinha jogado ovos na casa dela. A coisa tinha sido tão ruim que os pais
de Sue tiveram que contratar um profissional para se livrar do cheiro.
Quando cheguei em casa depois da escola, mamãe
estava me esperando para conversar.
- Kim, o telefone não parou de tocar o dia
todo. Não sei o que dizer. Por favor, você tem que me contar. Foi você?
- Não, mãe, não fui eu. - Eu me senti muito mal
por mentir para minha mãe.
Ela ligou furiosa para a Sra. Roth.
- É a Ellen? Eu quero que você pare de acusar a
minha filha de jogar ovos na sua casa. - Ela gritava com a mãe de Sue, sua voz
ficando cada vez mais alta. - Kim nunca faria uma coisa dessas, e eu quero que
você parede falar para as pessoas que foi ela! - Minha mãe estava mesmo
embalada. - E tem mais, eu quero que você peça desculpas à minha filha!
Gostei de ver mamãe me defendendo, mas me senti
péssima por causa da mentira. Os sentimentos estavam todos retorcidos dentro de
mim, e eu sabia que tinha que dizer a verdade. Fiz sinal para mamãe desligar o
telefone.
Ela desligou e se sentou. Ela sabia. Chorei dizendo
o quanto estava arrependida. Depois, ela também chorou. Eu teria preferido que
ela ficasse brava, mas mamãe usara toda a sua raiva contra a Sra. Roth.
Liguei para a Sra. Roth, pedi desculpas e disse
que lhe daria cada centavo do dinheiro que ganhara cuidando de crianças para
ajudar a pagar pelos estragos. Ela aceitou, mas pediu para eu não ir à sua casa
antes de ela estar pronta para me perdoar.
Mamãe e eu ficamos acordadas até tarde naquela
noite, conversando e chorando. Ela me contou que um de seus namorados tinha
terminado com ela para ficar com sua irmã.
Perguntei se ela tinha jogado ovos na própria
casa e ela chegou até a rir. Depois me falou como ter filhos às vezes é
difícil, porque você quer brigar com todo mundo que faz o seu filho sofrer, mas
não pode. Tem que se segurar e olhar enquanto seus filhos aprendem sozinhos
lições difíceis.
Eu me senti muito próxima e amiga de minha mãe,
disse o quanto tinha sido incrível para mim vê-Ia me defender daquele jeito e
como era especial ter aquele tipo de momento com ela.
Mamãe me deu um abraço:
- Ótimo. Nós duas podemos passar a noite de
sábado que vem juntas e a de domingo também. Eu disse que você estaria de
castigo durante o fim de semana, não disse?
Deveríamos tomar cuidado para tirar de uma experiência
apenas a sabedoria que ela contém.
MARK TWAIN
O ENTUSIASMO DA JUVENTUDE
FRANKLIN DELANO ROOSEVELT
Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 180
Muitas
pessoas mais velhas vêem com um orgulho desmedido o mero fato de serem adultas.
Quando
os jovens invadem o seu mundo cheios de entusiasmo e ideais, eles armam um
sorriso de superioridade e os encaminham para a vida com o que consideram suas
bênçãos.
Mas
eu e você bem sabemos que o que eles chamam de bênçãos são, na verdade, um
banho de água fria.
Eles
batem nas costas dos jovens e dizem: "Você é jovem.
Aproveite
o seu entusiasmo e os seus ideais enquanto pode.
Porque,
quando você crescer e entrar para o mundo real, verá como eram inocentes os
seus ideais."
E
- aí é que está o problema -, ao crescer, os jovens se afastam de seus ideais.
Essa
é uma das razões por que o mundo para onde eles entram melhora tão lentamente.
QUANDO DEUS CRIOU AS MÃES
ERMA BOMBECK
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 15
Quando o bom Senhor estava criando as mães e
entrava no sexto dia de hora extra, surgiu o anjo e disse:
- Estás caprichando neste daí, hein?
E o Senhor respondeu:
- Já leste as especificações técnicas deste
pedido? Ela precisa ser 100% lavável, sem ser de plástico; precisa ter 180
peças flexíveis... todas elas substituíveis; precisa ser movida a café preto e
sobras de comida; tem de ter um beijo que cure qualquer mal, de uma perna
quebrada a uma desilusão amorosa; além de seis pares de mãos.
O anjo balançou a cabeça lentamente e opinou:
- Seis pares de mãos? Assim não dá!
- Não são as mãos que estão me causando
problemas - disse o Senhor. - São os três pares de olhos que as mães precisam
ter.
- O modelo básico é assim? - indagou o anjo.
O Senhor fez que sim com a cabeça:
- Um par para ver através da porta quando ela
pergunta "O que é que estão aprontando aí dentro, crianças?" quando
já sabe a resposta. Outro par aqui, atrás da cabeça, para ver o que não deve
mas o que precisa saber e, é claro, os dois daqui da frente, para poder olhar
para o filho quando este errar e dizer "Eu compreendo e o amo" sem
pronunciar uma única palavra.
- Senhor - disse o anjo, tocando a manga de sua
roupa, suavemente -, precisas dormir. Amanhã...
- Não posso - reagiu o Senhor. - Estou muito
próximo de criar algo muito parecido comigo. Já criei um ser que se cura quando
está doente... que consegue alimentar uma família de seis com meio quilo de
carne moída... e que consegue enfiar uma criança de nove anos debaixo do
chuveiro.
O anjo caminhou em torno do modelo da mãe,
lentamente.
- Mas é suave demais!
- Na mesma medida em que é valente - disse o
Senhor, animadíssimo. - Você nem imagina o que esta mãe pode fazer ou suportar.
- Ela sabe pensar?
- Não apenas sabe pensar como, também,
raciocinar e encontrar soluções conciliatórias - respondeu o Criador.
Finalmente, o anjo se curvou e passou o dedo
pela face do modelo.
- Há um vazamento aqui - pronunciou. - Eu
avisei que estavas tentando colocar coisas demais neste modelo.
Como Deus não pode estar em todos os lugares,
Ele criou as mães.
- Mas não é um vazamento - corrigiu o Senhor. -
É uma lágrima.
- E para que serve?
- Serve para a alegria, para a tristeza, o
desapontamento, a dor, a solidão e o orgulho.
- O Senhor é mesmo um gênio - elogiou o anjo.
Então o Senhor mostrou-se solene:
- Mas não fui eu que a coloquei aí.
BEM-VINDA À HOLANDA
EMILY PERL KINGSLEY
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 19
Muitas vezes me pedem para contar como criamos
uma criança especial, para tentar ajudar as pessoas que não têm essa experiência
única a entendê-la. A comparação que sempre me ocorre é a seguinte:
Esperar um bebê é como planejar a fantástica
viagem de férias com que você sempre sonhou - para a Itália. Você compra um
monte de guias e faz planos maravilhosos. O Coliseu. O David de Michelangelo.
As gôndolas, em Veneza. Você pode aprender frases úteis em italiano. Tudo é uma
festa.
Depois de meses de expectativa, finalmente
chega o dia da viagem. Malas prontas, você entra no avião e, algumas horas
depois, a aeromoça vem e diz: "Bem-vinda à Holanda." "Holanda?!
Como assim, Holanda?", você se espanta. "Meu voo era para a Itália.
Sonhei a vida inteira em ir para a Itália."
Mas houve uma mudança no plano de voo.
Aterrissaram na Holanda e este é seu destino agora.
O importante é que não te levaram a um lugar
horrível, desagradável e sujo, cheio de epidemias, fome e doença. É só ~m lugar
diferente.
Então você tem de sair e comprar novos guias. E
aprender uma língua nova. E conhecer pessoas que nunca teria conhecido. É só um
lugar diferente. O ritmo é mais lento que o da Itália; a luz, menos brilhante.
Mas, depois de estar lá por algum tempo, você toma fôlego, olha em volta... e
começa a notar que a Holanda tem moinhos... e a Holanda tem tulipas. A Holanda
tem até Rembrandts.
Mas todo mundo que você conhece foi e voltou da
Itália, contando maravilhas do tempo passado lá. Pelo resto da vida você dirá:
"É, era para lá que eu deveria ter ido. Era isso que eu tinha
planejado." E a dor do seu coração nunca, nunca mesmo, irá embora
completamente... porque, afinal, a perda desse sonho é muito significativa.
Mas, se você passar a vida lamentando o fato de
não ter ido para a Itália, talvez não possa descobrir e aproveitar o que existe
de tão especial e todas as coisas adoráveis que há na Holanda.
MÃE POR UM SÓ DIA
ANNE JORDAN
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 22
Sendo mãe de três lindas crianças, tenho muitas
lembranças especiais para contar. Mas foi com uma criança que não era minha que
vivi um momento especial pelo qual tenho muito carinho.
Recomendado pela residência para meninos onde
morava, Michael veio, no último verão, para a nossa colônia de férias que
reunia crianças com baixa auto-estima. Aos doze anos, já passara por maus
momentos. Órfão de mãe, o pai o trouxera de um país destruído pela guerra para
os Estados Unidos, para que pudesse ter "uma vida melhor".
Infelizmente, fora entregue a uma tia, que o maltratara física e
emocionalmente. Tornou-se um menino insubordinado e hostil, com pouca
responsabilidade e acreditando que não era amado.
Na colônia, ele andava com outros garotos
problemáticos e desordeiros, uma verdadeira gangue, um desafio para os
supervisores. Mas nós procurávamos aceitá-Ios e amá-Ios como eram.
Entendíamos que seu comportamento era um
reflexo do quanto foram maltratados. Colocávamos limites com firmeza, mas
afetuosamente.
Pela quinta noite da nossa experiência de uma
semana, combinamos com as crianças um acampamento sob as estrelas.
Michael disse que ia ser uma chatice e que não
iria. Aceitei sua recusa, para não criar problema e mantivemos o programa com
os outros.
Chegando a noite, a lua no céu, as crianças
começaram a arrumar os sacos de dormir sobre um enorme deque perto do lago. Vi
Michael se aproximando, sozinho, a cabeça baixa. Ele veio rapidamente em minha
direção e, antes que falasse alguma coisa, eu disse: "Michael, vamos pegar
seu saco de dormir e achar um bom lugar para você perto de seus amigos."
"Não tenho saco de dormir", ele falou baixinho.
"Isso não é problema! Vamos abrir umas
sacolas e pegar uns cobertores!", retruquei.
Imaginei ter resolvido o dilema e fui andando.
Michael segurou minha blusa e me afastou do grupo.
"Arme, preciso lhe contar uma coisa."
Vi a hostilidade no rosto daquele menino endurecido se desmanchar e, baixinho,
ele continuou: ''Anne, tenho um problema... Eu... eu faço xixi na cama, molho o
lençol todas as noites." Extremamente emocionada, coloquei o braço em
torno de seu ombro e agradeci por ele ter tido confiança em mim. Disse que
compreendia seu problema e perguntei como poderia ajudá-lo. Juntos, combinamos
que ele poderia dormir sozinho em sua cabana, sem que os outros meninos
percebessem.
Voltei com ele para a cabana e, no caminho,
perguntei se não estava com medo de dormir sozinho. Michael me afirmou que isto
não era nada perto das situações que já enfrentara nos seus doze anos de vida.
Virei o colchão, protegi-o com um plástico e, enquanto colocávamos na cama seu
último jogo limpo de lençóis, conversamos sobre as dificuldades por que passara
e sobre seu desejo de que o futuro fosse diferente. Segurando sua mão, afirmei
que ele tinha a força necessária para fazer de sua vida o melhor possível. O
menino hostil e endurecido transformou-se numa criança doce e afetuosa.
Michael se deitou e eu o cobri, puxando o
cobertor até o queixo. Acariciei seus cabelos e beijei sua testa. "Boa
noite, Michael, fique sabendo que você é um garoto maravilhoso!" Ele se
remexeu e suspirou fundo: "Boa noite. Sabe que, desde que minha mãe
morreu, ninguém tinha feito isso comigo? Obrigado por tudo." "De
nada, querido", respondi, abraçando-o. Eu chorava quando me virei para
sair, levando três conjuntos de lençóis sujos. Não tornei a ver Michael depois
da colônia, mas rezo por ele todos os dias, desejando que aquele momento de
afeto e acolhida tenha podido contribuir para sua felicidade.
VOCÊ JÁ VIU DEUS?
LEONARDO BOFF - Extraído do livro Espiritualidade
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 24
Minha mãe era analfabeta, nunca quis aprender a
ler. Certa vez eu lhe trouxe um caderno e um lápis bentos pelo Papa Paulo VI
para ver se ela se animava a aprender. Minha mãe jogou longe, dizendo:
"Para que eu quero aprender a ler e escrever se tenho onze filhos que
fizeram universidade, quase todos doutores.
Para quê? Eles sabem por mim. Não preciso eu
estudar e saber."
Mas era uma mulher de grande sabedoria
existencial e profunda piedade.
Eu costumava gravar coisas que escrevia para
ela escutar.
Minha mãe escutava e dizia: "Onde você
aprendeu tudo isso?
Eu nunca te ensinei tais coisas!"
Ao ouvir uma das gravações em que eu falava da
experiência de Deus, ela me olhou fundo e fez a pergunta: "Você já viu
Deus?"
Eu respondi de pronto: "Minha mãe, a gente
não vê Deus.
Deus é espírito, é invisível." Ela deu
como que um suspiro, colocando a mão no peito, me olhou com infinita tristeza e
disse: "Você é padre há tantos anos e nunca viu Deus?" Eu insisti:
"Mãe, a gente não vê Deus." Ela retrucou: "Você não vê Deus,
"mas eu O vejo todos os dias. Quando o sol se põe lá no horizonte, Deus
passa com um manto fantástico, lindo. Ele vem sempre sério, e teu pai que já
faleceu vem atrás, olha para mim, me dá um sorriso e segue junto com Deus. Eu
vejo Ele todos os dias." Eu fiquei parado, me perguntando: "Quem é o
teólogo aqui, ela ou eu? A analfabeta ou o doutor em teologia?" Temos que
aprender com as pessoas que vivem tais experiências. Porque a fé é uma
experiência tão global que entra pelos olhos, entra no coração, entra na
fantasia, entra nas projeções. Deus é substância da sua própria substância.
Essas pessoas não crêem em Deus. Elas sabem de
Deus porque O viram, porque O experimentaram.
PARA LER QUANDO ESTIVER SOZINHO
MIKE STRAVER
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 27
Eu tinha treze anos e minha família se mudara
do norte da Flórida para o sul da Califórnia um ano antes. Eu era, como a
maioria dos adolescentes, raivoso e rebelde, não dando importância ao que meus
pais diziam, principalmente se tivesse alguma coisa a ver com meu
comportamento.
Lutava para contestar qualquer coisa que não
correspondesse à minha idéia do mundo. De uma extrema auto-suficiência, eu
rejeitava qualquer manifestação púbica de amor. Na verdade, ficava irritado com
a simples menção da palavra amor.
Na noite de um dia particularmente difícil,
entrei no quarto como um furacão, tranquei a porta e me joguei na cama. Ali dei
lado, escorreguei as mãos por baixo do travesseiro e achei um envelope. Nele se
lia: "Para ler quando estiver sozinho."
Como estava sozinho, ninguém saberia se eu lera
ou não.
Assim, abri e li:
Mike, sei que a vida está dura agora, sei que
você se sente frustrado e que, apesar da nossa boa intenção, nem tudo que
fazemos é certo. Mas sei principalmente que amo você demais e nada do que você
faça ou diga vai mudar isso. Nunca. Estou aqui para conversar, se você precisar
e, se não precisar, tudo bem. Saiba que não importa aonde você vá ou o que você
faça na vida, sempre vou amá-lo e sentir orgulho de tê-lo como filho. Estou
aqui por você e o amo. Isso não vai mudar nunca.
Com amor. Mamãe.
Esta foi a primeira de muitas cartas "para
ler quando estiver sozinho". Jamais falamos sobre elas, até eu ser adulto.
Hoje eu corro mundo ajudando -pessoas. Estava dando um seminário na Flórida e,
no final da palestra, uma senhora veio falar comigo sobre os problemas que
estava tendo com o filho.
Fomos até a praia e falei para ela do enorme
amor de minha mãe e das cartas "para ler quando estiver sozinho".
Semanas depois, recebi um cartão onde a senhora dizia ter escrito sua primeira
carta para o rapaz.
Naquela noite, passei a mão sob meu travesseiro
e me lembrei do alívio que sentia sempre que encontrava uma carta.
Nos anos atribulados de minha adolescência, as
cartas eram a garantia silenciosa de que eu era amado, apesar de tudo,
incondicionalmente. Essa gratuidade do amor de minha mãe me ajudou a superar as
crises e revoltas da adolescência e fez vir à tona o que eu tinha de melhor.
Agradeci a Deus por minha mãe saber do que eu - um adolescente raivoso -
precisava. Por ela ter persistido apesar do meu silêncio, da minha aparente
indiferença.
Hoje, quando os mares da vida se tornam
revoltos, sei bem que sob meu travesseiro está a segurança de quanto o amor -
consistente, durável, incondicional - é capaz de mudar vidas.
UMA DOCE LIÇÃO
MILDRED BANZO
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 29
Meu pai adorava abelhas. Quando uma abelha selvagem
chegava zumbindo, ele parava o que estivesse fazendo para esperar a abelha
fartar-se de néctar. Assim que estava satisfeita, ela levantava voo, precisa
como uma flecha, em direção à sua colmeia, no bosque. Papai então partia em seu
encalço. Mesmo que a perdesse de vista sabia, mais ou menos, onde ela
terminaria, já que as abelhas traçam uma reta quando se encaminham para casa.
Quando papai encontrava uma árvore oca com um
enxame de abelhas dentro, visitava o proprietário das terras e pedia-lhe
permissão para cortar a árvore. Sempre dava ao proprietário todo o mel em troca
das abelhas. Foi assim que construiu um imenso apiário que, por fim, passou a
ser a maior fonte de renda de nossa família.
Uma colmeia podia morrer de fome durante o
inverno se a sua provisão de mel não durasse até as plantas florescerem. Ê
rotina o apicultor ajudar suas abelhas nos meses de frio, alimentando-as com um
xarope feito de água e açúcar.
Durante a Primeira Guerra Mundial, nosso país
passou por uma seriíssima escassez de açúcar. O governo passou a raciona-lo,
além de diversos outros produtos. Isso criou uma imensa procura por mel como
substituto. Devido à necessidade de fornecer mel para a população, os
apicultores recebiam uma ração sobressalente de açúcar para manter suas abelhas
vivas durante o inverno. Guardávamos a porção que nos cabia num barril na
cozinha externa, que usávamos no verão. Nós, as crianças, sabíamos que era
estritamente para a alimentação das abelhas.
Devido ao racionamento sofrido pelo país
durante a Primeira Guerra Mundial, era muitas vezes difícil para as mães
prepararem refeições apetitosas para suas famílias. Era especialmente difícil
quando havia algum convidado.
Fomos avisados de que nossos parentes
favoritos, que viviam a muitos quilômetros de distância, viriam nos visitar no
dia seguinte. Ficamos muito animados! Mamãe começou a planejar o jantar que
faria por ocasião da visita. Melancólica, declarou:
- Como eu gostaria de fazer um bolo! - Ela
sentia imenso orgulho dos bolos que preparava. No entanto, como a pequena ração
de açúcar destinada à nossa família já fora consumida, ficava impossível fazer
o tal bolo.
Ê claro que nós, as crianças, queríamos o bolo
tanto quanto ela! Imploramos para que pegasse o açúcar da ração das abelhas
para prepará-lo. Nosso argumento era que o governo jamais saberia. Finalmente,
ela cedeu. Foi lá fora, até o barril de açúcar da cozinha externa, e usou-o
para fazer sua deliciosa receita de bolo amarelo. Foi preciso grande habilidade
para assar o bolo perfeito num forno à lenha, mas mamãe conseguiu. Quando
terminou de decorá-lo com uma cobertura especial de merengue, ficamos extremamente
orgulhosos de servi-lo para as visitas.
Pouco depois chegou o dia de nossa família
receber a ração mensal de açúcar. Papai foi até a mercearia comprá-lo. O
vendedor colocou-o num minúsculo saquinho marrom e amarrou-o com cuidado.
Quando chegou em casa, papai o colocou sobre a mesa.
Mamãe olhou brevemente para o pacotinho. Então,
pegou o mesmo medidor que usara para o açúcar do bolo. Enquanto nós, crianças,
a olhávamos estupefatos, ela mediu exatamente a quantidade que usara. Então,
solenes, a seguimos até o barril de açúcar das abelhas, onde ela o despejou.
O que restou de açúcar no fundo do pequeno saco
era pouco para uma família de sete, mas teria de ser suficiente para durar um
mês. A ideia foi um banho de sobriedade para uma criança tão pequena e
apaixonada por doces. Minha mãe não fez o menor discurso sobre o acontecido, a
menor fanfarra. Não pregou sobre a honestidade. Para ela, aquele fora um ato
natural, de acordo com a integridade com a qual meu pai e ela viveram as suas
vidas.
Hoje, tenho noventa e dois anos. Há muito não
sou mais aquela criancinha que olhava por cima da mesa da cozinha da mãe, na
pontinha dos pés. Muitas coisas mudaram durante a minha vida. Ainda faço bolos
quando tenho visitas, mas hoje uso misturas prontas porque não aguento mais
ficar em pé tanto tempo. Também não preciso mais usar o fogão à lenha. E,
certamente, não há a menor escassez de açúcar em nosso país.
Mas algumas coisas não mudam. E, assim, já
contei a história sobre a honestidade incondicional de minha mãe inúmeras vezes
para meus filhos, meus netos e até mesmo para os meus bisnetos. Mamãe era como
uma daquelas abelhas que meu pai adorava seguir. Era fácil contar que sempre
tomaria o caminho mais honesto nesta vida, uma linha reta, precisa como uma
flecha. E foi por isso que moldou, sem alardes, a consciência de quatro
gerações de uma mesma família.
O coração da mãe é a sala de aula de uma criança.
HENRY WARD BEECHER
- Como você divide o seu amor por quatro filhos?
- Eu não divido, eu multiplico!
QUANDO MAMÃE VEIO PARA O CHÁ
MARGIE M. COBURN
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 33
Eu não tinha ideia de que ela estaria ali. Já
tinha até ensaiado as desculpas para sua ausência.
Quando minha professora de economia doméstica
anunciou que haveria um chá formal para mães e filhas na escola, eu tinha
certeza de que minha mãe não estaria presente.
Assim, não vou me esquecer da minha surpresa
quando entrei no ginásio lindamente decorado e ela se encontrava lá!
Olhei para minha mãe, sentada calmamente e
sorrindo, e imaginei todas as manobras que aquela mulher extraordinária teve de
fazer para participar comigo daquele chá.
Quem estaria tomando conta da vovó? Depois do
derrame, ela dependia totalmente de mamãe.
Minhas três irmãs pequenas chegariam da escola
antes de ela voltar. Quem as receberia e as ajudaria com os deveres?
Como conseguira chegar? Não tínhamos carro e
ela não podia pagar um táxi. Teve de caminhar um bom pedaço até o ponto do
ônibus, mais cinco quadras até a escola.
E ainda havia o lindo vestido vermelho com
florezinhas brancas, bastante adequado para a ocasião. Ele destacava o prateado
que começava a aparecer no seu cabelo escuro. Não havia dinheiro para roupas
novas e eu sabia que ela fizera uma dívida na loja da nossa cooperativa para
comprá-Io.
Fiquei tão orgulhosa! Servi-lhe o chá com o
coração feliz e agradecido e a apresentei sem timidez ao grupo. Sentei-me à
mesa com minha mãe naquele dia, exatamente como as outras meninas, e isso teve
um imenso significado para mim. Seu olhar cheio de amor me dizia que ela
entendera aquele sentimento.
Nunca me esqueci daquele chá. Uma das promessas
que fiz para mim mesma foi de me empenhar ao máximo para estar sempre perto dos
meus filhos. É uma promessa difícil de manter no mundo agitado de hoje, mas a
lembrança do que se passou comigo e minha mãe, e da importância que isso teve
em minha vida, serve de estímulo para qualquer esforço. Basta que eu pense no
dia em que mamãe veio para o chá.
MAIORIDADE
RACHEL NAOMI REMEN
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 35
Lembro-me de ter lido uma vez, num livro sobre
psicologia do desenvolvimento, que somente um pai ou uma mãe podem outorgar a
maioridade a um filho. Na época, não entendi realmente o sentido dessas
palavras. Hoje, acho que compreendo.
Existe uma confirmação que só pode vir daqueles
que nos deram a vida, que nos conhecem completamente desde que nascemos. Mesmo
velhos, o poder dos pais em conceder essa confirmação não diminui. É um poder
que beira o místico. Minha 'mãe era uma mulher extremamente original.
Profissionalmente, era uma contestadora. Seu maior interesse eram os cuidados
com bebês e ela foi uma das pioneiras a reconhecer e respeitar a sabedoria
inata das mães. Naquele tempo, essa era uma ideia vista com desconfiança pelos
pediatras, uma profissão tão orgulhosa de sua nova ciência e tecnologia que, no
meio do século, quase setenta e cinco por cento dos bebês norte-americanos eram
alimentados por mamadeira. A maneira direta e sem rodeios pela qual minha mãe
se expressava fazia com que ela também fosse vista com desconfiança.
Acredito que sei o exato momento em que me
senti verdadeiramente adulta. Aconteceu num lugar público, na presença de um
grande número de pessoas. Todavia, foi um momento inteiramente pessoal que
ninguém testemunhou.
Eu era uma das duas mulheres e vários homens
convidados para falar numa conferência cujo tema era "O Poder da
Imaginação", um encontro pioneiro, com um dia de duração, sobre a relação
entre a saúde da mente e do corpo. Foi em 1984, quando tais ideias eram
bastante novas e pouco aceitas na comunidade médica. Entre as mil pessoas da
plateia, poucos eram médicos.
Nessa ocasião, minha mãe já era velha e estava
bastante doente. Dois dias antes da conferência, uma amiga me perguntou se eu
planejava convidá-Ia. Surpresa, respondi que não havia pensado nisso, pois
mamãe não se interessava pelo assunto. Minha amiga, que é japonesa e tem uma
percepção mais refinada do que a minha, respondeu:
- É claro que não, RacheI. Mas ela se interessa
por você.
Refleti um pouco e me dei conta de que minha
mãe nunca me havia visto falar em público. Pensei nas dificuldades para levá-Ia
até o auditório e no que aconteceria se ela tivesse um de seus frequentes
problemas cardíacos enquanto eu estivesse falando. Era um pensamento assustador
e eu me senti tentada a esquecer a sugestão de minha amiga. Mas, por uma
questão de justiça, perguntei a minha mãe se ela queria ir. Ela aceitou com
entusiasmo.
Chegamos ao saguão com duas horas de
antecedência. O problema cardíaco não a deixava andar longas distâncias sem
descansar. Levei um bom tempo para conseguir acomodá-Ia no auditório vazio.
Escolhemos uma cadeira no meio da décima fila. Quando o auditório começou a
ficar cheio e eu me sentei no palco com os outros participantes, vi que ela
abriu a bolsa e pegou alguns comprimidos. Senti um aperto no coração.
Quando chegou a minha vez de falar, expliquei
qual era a diferença entre remediar e curar e falei sobre a nova técnica de
imagens guiadas que ampliava a capacidade do ser humano de curar a si mesmo.
Disse que a medicina que não reconhecia esse poder inato nas pessoas cometia um
erro crucial. Essas eram ideias controvertidas na época. Para comprová-Ias,
contei várias histórias colhidas na minha prática médica. Quase no final,
arrisquei um olhar para minha mãe. Ela ouvia com muita atenção. Parecia estar bem.
Fiquei aliviada.
Quando terminei de falar houve um completo
silêncio. Eu já esperava por isso, pois na semana anterior muitos médicos de um
hospital de São Francisco, ofendidos por essas mesmas ideias, retiraram-se
antes do final das sessões clínicas das quais participei. Mas aquela não era
uma plateia de médicos. De repente, ouvi aplausos e muitas pessoas chegaram a
se levantar, entusiasmadas. Fiquei aturdida.
Somente uma mulher na décima fila permanecia
sentada.
Seus braços estavam cruzados e havia um leve
sorriso em seus lábios. Continuamos a olhar uma para a outra até que seus olhos
se fecharam e ela fez um sinal com a cabeça duas vezes, lentamente. Jamais
recebi qualquer reconhecimento igual a esse. Até hoje extraio dele uma grande
força. Cinco meses depois desse dia, minha mãe estava morta.
A vida não precisa ser perfeita para ser maravilhosa.
ANNETTE FUNICELLO
BILHETES DE AMOR
ANTOINETTE KURITZ
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 39
Desde que meus filhos foram para a escola, eu
lhes preparava o almoço e o colocava nas lancheiras. Em cada uma delas, eu
punha um bilhete, muitas vezes escrito num guardanapo. Podia ser um
agradecimento por um momento especial, uma palavrinha sobre algo ansiosamente
esperado ou um encorajamento para um teste ou uma competição esportiva.
No primeiro grau, eles adoravam os bilhetes e
comentavam sobre eles quando chegavam da escola. Quando voltei a lecionar, eles
é que colocavam recadinhos nos meus lanches. Mas, quando chegou ao segundo
grau, meu filho mais velho, Marc, me disse que não precisava mais de meus
bilhetes diários.
Respondi que eu os escrevia, na verdade, muito
mais por mim do que por ele, e que, mesmo que não os lesse, eu precisava
continuar escrevendo. Assim, mantive a tradição até sua formatura.
Seis anos depois de Marc ter concluído o
segundo grau e ido estudar numa escola em outro estado, ele me telefonou um dia
para saber se podia passar um tempo comigo. Meu filho estava bem, se formara
com louvor, fizera dois estágios no Congresso, em Washington, conseguindo uma
bolsa para a Câmara dos Deputados do Estado da Califórnia. Agora, era
assistente legislativo em Sacramento. Sempre ocupado, suas visitas não eram
frequentes. Eu estava com muita saudade do meu filho e vibrei com a visita.
Duas semanas depois de Marc ter chegado, foi
recrutado para uma campanha política. Como eu ainda preparava o almoço
diariamente para o meu caçula, arrumei o de Marc também. Imaginem a minha
surpresa quando recebi o telefonema de meu filho de vinte e quatro anos
reclamando do almoço. "O que eu fiz de errado? Não sou mais seu filho?
Você não me ama mais, mamãe?" foram algumas das perguntas que ele me fez,
enquanto eu ria e perguntava qual era o problema.
"Seu bilhete, mamãe", ele respondeu.
"Não achei o seu bilhete." Este ano meu filho caçula está terminando
o segundo grau.
Ele também me avisou que já passou da idade de
receber bilhetes. Mas, como seus irmãos, ele vai receber meus bilhetes até se
formar - e em qualquer pacote de almoço que eu lhe prepare, enquanto eu estiver
viva.
O COMPROMISSO
REVERENDO MICHAEL LINDVALL
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 41
Num domingo perto do Dia de Ação de Graças,
Angus McDonnell, membro de minha congregação, falou-me do nascimento de seu
neto, o "pequeno Angus Larry", e me pediu para oficiar a cerimônia de
batismo. O conselho da igreja se mostrou relutante porque a família da criança
vivia em outro estado, pois, ao batizar, assumimos o compromisso de apoiar e
orientar aquela criança.
Mas a vontade de Angus prevaleceu e o batizado
se deu no domingo seguinte, estando presentes os pais, Larry e Sherry, os avós,
Angus e Minnie, e muitos outros familiares. Em nossa congregação há o costume
de o pastor perguntar: "Quem é o responsável por esta criança?" Nessa
hora, toda a família se levanta e permanece em pé durante o batismo. Então, com
Angus Larry em meus braços, fiz a pergunta e todos os parentes se levantaram.
Depois da cerimônia, todos foram para casa e eu
voltei à igreja para apagar as luzes. Uma mulher de meia-idade estava sentada
no banco da frente. Ela parecia procurar as palavras e se mostrava hesitante,
sem sustentar meu olhar. Finalmente, disse chamar-se Mildred Cory e falou sobre
a beleza da cerimônia de batismo. Depois de outra grande pausa, acrescentou:
"Minha filha Tina acaba de ter um bebê. Deve ser batizado, não é?"
Sugeri que Tina e o marido me telefonassem para falarmos sobre o assunto.
Mildred hesitou novamente e, me olhando de frente pela primeira vez, ela disse:
"Tina não tem marido. Está com dezoito anos e foi crismada nesta igreja há
quatro anos. Ela costumava vir para o encontro dos jovens, mas conheceu um
rapaz que não estudava..." Depois veio o resto da história: "... e
então ficou grávida e resolveu ter o bebê. Ela quer batizá-Io na sua igreja,
mas está temerosa de vir falar com o senhor, reverendo. Ela deu ao bebê o nome
de James - Jimmy." Levei o caso ao conselho da igreja. Fizeram-se algumas
perguntas sobre o compromisso que Tina deveria assumir ao levar o bebê para ser
batizado. Observei que, como ela e o filho viviam na cidade, nós poderíamos
dar-Ihes apoio.
O problema real era a imagem que todos tínhamos
na cabeça: a jovem Tina, com o pequeno Jimmy nos braços, o pai ausente, Mildred
Cory sendo a única a se levantar quando eu fizesse a pergunta. Doía em todos
imaginar isso. Mas o conselho aprovou o batismo, marcado para o último domingo
do Advento.
A igreja estava cheia, pois era o último
domingo antes do Natal.
Tina percorreu rapidamente o corredor central,
tremendo ligeiramente, com seu bebê de um mês nos braços. A imagem daquela
jovem mãe tão sozinha mostrava como seria dura a vida daquele par.
Comecei o ofício e então, olhando para Mildred
Cory, fiz a pergunta: "Quem dá apoio a esta criança?" Fiz um sinal
com a cabeça para Mildred e sorri indicando que se levantasse. Ela se levantou
devagar, timidamente, olhando de um lado para o outro, e então me sorriu
também.
Eu ia continuar a ler as orações, quando ouvi
um movimento nos bancos.
Angus McDunnell se levantou com Minnie a seu
lado.
Então um outro casal de idosos se levantou. E a
professora da sexta série da escola também. Mais um jovem casal e logo, ante
meus olhos incrédulos, toda a comunidade estava de pé, apoiando o pequeno
Jimmy: se comprometendo com ele.
Tina chorava e Mildred Cory se segurava no
banco procurando se manter firme.
A escritura daquela manhã era de João:
Considerai com que amor amou o Pai, para sermos
chamados filhos de Deus... Ninguém jamais viu Deus. Se nos amarmos uns aos
outros, Deus permanece conosco e seu amor em nós é perfeito...
No amor não há temor, pois o amor perfeito
livra-se do temor.
Naquele batismo, essas antigas palavras se
tornaram vivas, tomaram corpo e todos puderam sentir isso.
A PORTA ABERTA
ROBERT STRAND
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 45
Em Glasgow, na Escócia, uma jovem, como muitos
adolescentes de hoje, tinha problemas em casa, revoltada com os limites
impostos pelos pais. Rejeitava os princípios religiosos da família e um dia
declarou: "Não quero seu Deus. Desisto, vou embora."
Saiu de casa, decidida a ser uma mulher do
mundo. Mas logo viu que não era tão fácil viver sozinha e, incapaz de arrumar
um trabalho, acabou por se prostituir para sobreviver. Os anos se passaram e
ela continuou em sua vida irregular. Seu pai morreu, sua mãe envelheceu.
Durante esse tempo, não houve contato entre mãe
e filha.
Tendo ouvido falar do paradeiro da moça, a mãe
foi até a zona de prostituição da cidade, tentando encontrá-Ia. Parou em cada
uma das igrejas que auxiliam carentes, pedindo apenas: "Eu poderia deixar
aqui este retrato?" Era uma fotografia daquela mãe grisalha e sorridente,
com uma mensagem manuscrita: "Eu ainda a amo... venha para casa!"
Passaram-se mais alguns meses e nada aconteceu. Então, um dia, a jovem foi à
igreja pedindo algo para comer. Sentou-se, distraída, assistindo ao ofício,
quando seu olhar bateu no quadro de avisos. Ao ver o retrato, pensou:
"Poderia ser minha mãe?" Não conseguiu esperar o final da cerimônia.
Aproximou-se do quadro e leu a mensagem: "Eu ainda a amo... venha para
casa!" Reconhecendo a mãe no retrato, ela chorou. Era bom demais para ser
verdade.
Já era noite, mas, tocada por aquelas palavras,
a jovem foi caminhando até sua casa. Quando chegou, o dia amanhecia.
Temerosa, aproximou-se timidamente, sem saber
exatamente o que fazer. Quando bateu à porta, esta se abriu sozinha. Chegou a
pensar que alguém a arrombara. Preocupada com a mãe, correu para o quarto, mas
a senhora dormia. A filha a acordou, dizendo: "Sou eu, sou eu, voltei para
casa!" A mãe não podia acreditar. Em prantos, abraçou-se à filha, que
disse: "Fiquei tão preocupada! A porta estava aberta e pensei que alguém
tinha entrado!" A mãe respondeu docemente: "Não, querida. Desde o dia
em que você se foi, a porta nunca esteve fechada."
Quando você era pequeno e bastava estender a mão para
tocá-lo, eu usava cobertores para protegê-lo do frio da noite. Mas agora que
você cresceu e está fora de alcance, junto minhas mãos e cubro-o com minhas
orações. DONA MADDUX COOPER
UM CORAÇÃO CLEMENTE
W.W. MEADE
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 47
Esta manhã, eu estava com pressa de chegar em casa
após realizar algumas pequenas tarefas na rua. Ao dobrar à direita para entrar
no meu bairro, que fica um pouco escondido por trás de arbustos, um garotinho
de camiseta amarela passou como um raio na frente de meu carro. Estava de pé,
equilibrado sobre os pedais da bicicleta vermelha, as pernas trabalhando como
bombas hidráulicas, ignorando por completo a minha existência - ou a existência
de qualquer perigo -, seguríssimo por trás da invencível imortalidade de um
menino.
Ele passou, literalmente, a centímetros de meu
para-choque. Pisei violentamente no freio, um reflexo físico sem nexo - uma vez
que ele já se fora, há muito. Eu tremia e levei algum tempo para recuperar o
fôlego. Em um terrível instante, a vida daquele menino poderia ter terminado.
Seus pais teriam passado o resto da vida com uma imensa dor e a minha própria
vida teria se transformado num pesadelo.
Continuei pela rua, relembrando o rosto do
menino. Sob a lente de aumento de meu medo, podia visualizar, claramente, os
olhos arregalados num misto de bravata e de pavor, o sorriso desdenhoso,
iluminado por mais um triunfo sobre o enfadonho mundo da preocupação adulta.
Ele era tão admiravelmente vigoroso, de tal forma intrépido, que o meu choque
em quase tê-Io matado foi imediatamente substituído por raiva, beirando a ira.
Transtornada de fúria - com a falta de atenção
dele, não com a minha -, fui para casa. A agitação causada por quase ter
atropelado aquele menino me perturbou pelo resto do dia.
Então, no crepúsculo, lembrei-me de Mikey.
Quando era pequena, Mike Roberts era meu melhor
amigo. Meu pai era médico numa cidadezinha ao longo do rio Ohio e meus pais
eram muito próximos dos de Mike. Na realidade, a casa deles ficava a um terreno
baldio de distância da clínica de papai.
Mikey, como o chamávamos, era aventureiro e
audacioso.
Sua mãe, Judy, era muito afável conosco, as
crianças, e fazia os melhores biscoitos de manteiga de amendoim do universo.
Jamais trancavam as portas e eu tinha toda a
liberdade naquela casa.
Numa sexta-feira, minha mãe planejava ir a
Cincinnati fazer compras e disse que eu deveria passar o dia na casa dos
Roberts. Judy estava à minha espera. Não era para eu me empanturrar de
biscoitos ou andar de bicicleta na rua.
Quando ela saiu naquela manhã, parti de
bicicleta para a casa dos Roberts. Estava a uns cinquenta metros da curva que
levava à rua de Mikey quando ouvi um barulho que, às vezes, ainda ouço em meus
sonhos. Era o feroz guincho de pneus quando alguém pisa no freio com tudo. O
som me pareceu durar uma vida, embora, em retrospecto, tenha certeza de que se
calou rapidamente. Seguiu-se então o barulho estridente de metal sendo
esmagado. Como um relâmpago, parti em minha bicicleta e dobrei a esquina à
toda.
Havia um caminhão quase emborcado na rua. Um
pouco à frente do para-lama via-se a Schwinn vermelha de Mikey de tal forma
retorci da, que parecia a metade de uma bicicleta, os dois pneus agora
achatados, um contra o outro.
Mikey estava deitado na grama com um
brutamontes curvado sobre ele. Saltei da bicicleta, deixei-a cair e corri para
o local onde o meu amigo se encontrava, silencioso e imóvel sobre um tapete de
folhas. No mesmo instante, a porta da frente da casa dele se abriu e sua mãe
saiu. Acho que nunca vi alguém correr tão rápido. Ao mesmo tempo surgiu uma
maca de dentro da clínica de meu pai, seguida de papai e de um ajudante.
Uma multidão se formou, imediatamente. Judy
ajoelhou-se ao lado da cabeça de Mikey. Papai disse a Judy que não mexesse no
filho e se curvou para examiná-Io. O motorista do caminhão deixou-se cair
sentado, pesadamente, a alguns metros dali. Devia pesar mais de noventa quilos.
Tinha ombros largos e arredondados e um pescoço
grosso com rugas profundas que luziam com gotas de suor. Usava um macacão azul
e uma camisa quadriculada de vermelho.
Ficou sentado no gramado como um touro
atordoado. A cabeça repousava nos joelhos dobrados e os ombros tremiam, embora
eu não achasse que estivesse chorando.
Cravei os olhos naquele homem, tentando fazê-lo
sentir a quão fula eu estava. Aposto que não estava prestando atenção, pensei.
Uma falha bastante comum entre os adultos que eu conhecia. Muitas vezes me
davam a impressão de desatenção e este daqui havia machucado o meu amigo. Eu
sentia vontade de machucá-Io de volta de alguma forma indizível.
Dali a alguns minutos, Mikey voltou a si e
desatou a chorar.
Meu pai o imobilizou numa padiola e colocou-o
sobre a maca. Judy pegou a mão de Mikey e todos avançaram para a entrada de
emergência da clínica. Fui deixada a sós com o motorista de caminhão, que agora
se encontrava sentado com a cabeça baixa sobre os braços cruzados. Seu corpo
ainda tremia, como se estivesse com calafrios.
Ficamos ali sentados em silêncio durante o que
me pareceu ser uma eternidade. Então Judy saiu pela entrada principal da
clínica e caminhou em nossa direção. Relatou que Mikey ficaria bem. Só
machucara o braço. Poderia ter sido muito pior.
Achei que ela, certamente, acertaria um tapa na
cara do caminhoneiro ou que, pelo menos, falaria com ele de maneira severa. Mas
o que ela fez, de fato, me deixou perplexa. Pediu-lhe que a acompanhasse até a
sua casa.
- E você também - disse, dirigindo-se a mim.
Perguntou ao motorista seu nome e disse-lhe que
se acomodasse diante da lareira, que ia buscar um café. Ele ergueu a mão
dispensando a oferta, mas ela trouxe o café ainda assim além de leite e de
biscoitos para mim. Stan, o motorista, não conseguia comer ou beber nada.
Permaneceu sentado na poltrona azul, preenchendo-a por completo. De vez em
quando começava a tremer e Judy passava o braço por cima de seu ombro e lhe
dizia, com aquela voz maravilhosamente suave:
- Você não teve culpa. Não estava em alta
velocidade.
Mikey se arrisca estupidamente e eu sinto muito
quanto a isso.
Só fico grata por ele não ter se ferido
gravemente. Eu não o culpo. E você também não deveria se culpar.
Escutei o que ela dizia, incrédula. Como podia
ela dizer aquelas coisas para um homem que quase matara o seu filho, o meu
amigo? O que poderia haver de errado com ela? Dali a pouco, ela conseguiu
acalmar o motorista um pouco - pelo menos foi o que achei - e ele se levantou
para ir embora.
Ao chegar à porta, virou-se para ela e disse:
- Eu também tenho um filho. Imagino o que deve
ter lhe custado me ajudar.
Então, só para acrescentar mais um assombro ao
dia, Judy ficou na pontinha dos pés e beijou-lhe a face.
Eu jamais conseguira compreender como Judy fora
capaz de oferecer alívio e consolo para um homem que não havia matado o seu
filho por muito pouco... até hoje, quando fiz a curva para entrar naquele
bairro tão familiar e passar a centímetros daquilo que teria sido um ato
terrível e irreversível.
Ainda tentando me livrar do pavor que ocupara a
minha mente o dia todo, pensei na mãe de Mikey e naquele dia de outono, há
tanto tempo. E muito embora não houvesse ninguém ali para me consolar, para me
dizer que não havia sido minha culpa, que coisas ruins acontecem por mais
cuidado que se tenha, as recordações daquele dia transpuseram o tempo para me
ajudar.
A empatia daquela mãe, assim como todas as
dádivas concedidas por bondade, jamais deixou o mundo e pôde ser convocada para
consolar e curar. E assim continuará a ser... quem sabe, para sempre.
O DIA EM QUE TUDO DEU ERRADO
JUDITH TOWSE-ROBERTS
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 53
Toda vez que, como mãe, eu preciso de ajuda, me
lembro de minha própria mãe e de minha avó, mulheres que plantaram sementes de
sabedoria na minha alma.
Num dia daqueles, cheguei em casa e encontrei
um insolente segundo aviso de uma conta de gás que não fora paga e meus três
filhos quase a nocaute.
Tommy, de onze anos, reclamava de um corte de
cabelo malfeito. Teve de aguentar os meninos o chamando de "carequinha”,
ele me contou, escondendo a cabeça com as duas mãos.
Lisa estava desolada: apesar de ter estudado
tanto para o teste final da segunda série, errara duas palavras.
Jenni, no primeiro ano, fora traída por sua
risada nervosa na hora da leitura e tropeçara numa frase.
Olhei aquelas três carinhas desconsoladas com a
maior ternura e a imagem de minha avó apareceu sorrindo em minha cabeça:
"Muito bem, queridos, sabem que dia é
hoje? É 'um dia em que deu tudo errado'. Vamos festejar!" Eles me olharam,
surpresos e curiosos. Continuei: "Minha avó sempre dizia que aprendemos
mais com nossos erros do que com nossos sucessos. Ela falava que quanto mais
uma pedra se desgasta pela ação do tempo, mais longe ela vai ricochetear. Vamos
ao McDonald's para nossa primeira 'festa do dia em que deu tudo errado'."
Essa foi a primeira de muitas outras festas por coisas que deixaram de dar
certo. Procurávamos o que podíamos comemorar em meio a tragédias, em vez de nos
angustiarmos pelo que tínhamos sofrido.
Espero ter plantado nas almas de meus filhos as
sementes reunidas pela sabedoria das mulheres que me antecederam. E que essas
sementes se espalhem nos seus próprios jardins um dia.
Quando uma falha ocorre, há apenas atraso, mas não derrota.
É um desvio temporário, mas não um beco sem saída.
WILLIAM ARTHUR WARD
A MADRASTA
JENNIFER
GRAHAM
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 55
Desde
nosso divórcio amigável há alguns anos, Eric e eu ficamos bons amigos. Entramos
em acordo quanto às regras de educação e às visitas ao nosso filho Charley, que
se beneficiava desse nosso equilíbrio. Ele parecia bem ajustado e feliz.
Assim,
quando conheci a noiva de Eric, que, afinal, ia se tornar a madrasta de meu
filho, fiquei um pouco nervosa. Não havia dúvida de que Bonny teria influência
sobre a vida de Charley. O que me desagradou na época foi a influência que ela
teria na minha vida.
No
nosso primeiro encontro fiquei impressionada em como éramos diferentes. Suas
roupas tinham um ar de "vestida para o sucesso", enquanto eu fazia o
gênero "desinteresse amarrotado". Ela era atraente, serena e segura,
enquanto eu era desalinhada, nervosa e tagarela. Eu me sentia desconfortável e
desconfiada, prestando atenção em todos os seus maneirismos e inflexões,
avaliando-a como futura madrasta de Charley. Meu pensamento basicamente era: “O
que ela vai fazer com o meu bebê?”
Até
então eu tinha várias fantasias sobre a pessoa com quem meu “ex” se casaria um
dia. Uma delas
Era
que ela seria uma bruxa malvada, uma megera furiosa de quem meu filho fugiria
gritando. Ele correria pra mim naturalmente, sua mãe de verdade, dona de
infinita sabedoria e paciência, como só uma mãe pode ter. Havia outra hipótese
assustadora: a madrasta seria tão legal que um dia eu ouviria meu filho me
anunciando: “Não vou para casa hoje, mamãe. Bonny tem um camarote para assistir
ao campeonato de futebol.”
De
qualquer forma, havia uma pessoa que estava para se tornar a outra mãe do meu
filho e tudo que eu podia fazer era observar e esperar.
Com
o tempo me tornei menos desconfiada e mais natural em relação à Bonny. Ela
ficou menos profissional e mais familiar em relação a mim. Nós nos entendemos
entre a rotina de horários de pegar e levar Charley, estar presentes a reuniões
de pais e assistir a jogos de futebol.
Então,
uma noite, meu novo marido e eu convidamos Bonny e Eric para um café depois de
uma reunião de pais. Charley adorava nos ver juntos e estava feliz. Durante a
noite, tensões e pretensões se derreteram. Bonny e eu baixamos nossas defesas e
falamos mais francamente. Em vez de “ex- mulher” e “madrasta”, éramos agora
apenas amigas.
Alguns
meses depois, nós quatro nos reunimos para falar da formatura de Charley. Em
vez de trazer seus esquemas, listas e dados – como se apresentasse um projeto
ante um comitê-, Bonny confessou vulnerabilidade. Falou de suas inseguranças e
ansiedade em lidar com um adolescente como o Charley. Estava exigindo de mais
ou pedindo de menos? Estava pressionando-o ou mimando-o?
Meu
coração se abriu pra ela. Afinal, seus pensamentos e temores eram iguais aos
meus. Ela estava pensando, sentindo e se comportando como mãe – o que ela se
tornara.
Assim,
a segunda mãe de Chaley nem é bruxa má, que magoaria meu filho, nem a fada
madrinha, que o roubaria de mim. Ela é uma mulher que o ama, se preocupa com
ele, lutaria por ele e o protegeria do mal.
Em
vez de me preocupar com a aparência de Bonny, passei a ser agradecida por sua
presença na vida de Charley e na minha. A visão que ela tem das coisas, suas
ideias e até suas listas ajudaram a criar meu filho.
Eu
estava errada em querer manter o Charley grudado em mim como um brinquedo. Eu
não queria dividir. Talvez tenha sido a primeira a amá-lo, mas isso não
significa exclusividade. Descobri como é importante que meu filho seja cercado
de afeto. Agora há mais uma mulher no mundo cuidando dele de forma especial. E,
por isso, com alegria, divido o título de mãe.
OS SETENTA E CINCO ANOS DE MAMÃE
ALICE COLLINS apresentada por Geraldine Doyle
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 58
Ela secretamente deseja um balão de oxigênio
como presente. Através dos anos, ela gritou, falou e rezou "Jesus, Maria,
José, me deem paciência” 1.245.187 vezes.
Suas mãos penduraram fraldas em varais de
roupa, esterilizaram mamadeiras, carregaram bebês, passaram roupinhas e
orgulhosamente empurraram carrinhos.
Ela descascou mais batatas do que seis soldados
em serviço.
Seu cabelo passou por várias fases: permanente,
tintura com cápsulas colorantes, coque, outro permanente, tinta prateada.
Recebia visitas na “sala”, guardava as compras
na “despensa”, o sorvete na "geladeira” e terça-feira era dia de usar a
"máquina de lavar".
Ela se graduou em cuidados com crianças através
de sarampo, catapora, cachumba, pneumonia, pólio, tuberculose, febres, cortes,
gripes, braços quebrados e corações partidos.
Volta e meia seu armário abrigava vestidos,
chapéus enfeitados, luvas brancas, saias curtas e longas, vestidos vaporosos,
tecidos de forros, roupas de domingo e brinquedos de Natal encomendados pelos
catálogos da Sears.
Seu coração conheceu o êxtase do amor por um
homem, a alegria dos filhos, o amargor de seus erros, o calor dos amigos, a
celebração dos casamentos, a bênção de netos e bisnetos.
Quem pode contar quantas escadas esfregou, os
jantares que preparou, quantos presentes embrulhou, as lições que tomou, as
histórias que leu para as crianças dormirem, quantas desculpas ouviu e quantas
orações elevou a Deus?
Seus braços ninaram gerações de bebês. Suas
mãos prepararam incontáveis pratos "favoritos". Seus joelhos se
dobraram para rezar, muitas e muitas vezes, por aqueles que amava. Beijou
muitos machucados que doíam e suas costas se curvaram para dar banho em cowboys
sujos, catou muita roupa espalhada de adolescente, colheu muitas flores do
jardim e envelheceu.
Passou pela vida com risos e lágrimas, vendo o
pôr-do-sol de ontem se tornar o amanhecer de esperança e promessa. Por causa
dela e do marido, a vida de família e amor continuou por gerações.
Quando uma mãe faz setenta e cinco anos,
abençoados são aqueles que a rodeiam com seu amor.
JANTAR DE FAMÍLIA
SHARI COHEN
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 61
Olhei para meus filhos gêmeos adolescentes e
tive vontade de chorar. Ele de calças bufantes, cabelo cor de laranja e
brincos.
Ela com uma argola no nariz, tatuagem
temporária e unhas pintadas das cores mais estranhas.
Era Pessah e íamos a um jantar de família. O
que as pessoas diriam? Já podia imaginar tios e tias murmurando comentários,
olhando e meneando as cabeças em desaprovação.
Eu podia ter iniciado uma discussão ali mesmo,
na porta.
Poderia ter ameaçado, ridicularizado, me
recusado a sair. Mas para quê? Não queria causar problemas nem usar palavras
agressivas naquele dia.
Teria sido mais fácil se ainda tivessem nove
anos. "Voltem para seus quartos e se vistam adequadamente", eu diria.
Mas tinham dezesseis anos e, para eles, suas roupas eram perfeitamente
adequadas.
E lá fomos nós. Eu estava pronta para os
olhares, mas eles não vieram. Estava pronta para os comentários, mas não foram
feitos. Meus filhos se sentaram (a princípio meio desconfortáveis) à mesa de
vinte lugares, bem ao lado de seus primos impecavelmente arrumados.
Participaram das orações e dos cantos. Meu
filho ajudou os primos mais novos nas leituras. Minha filha ajudou a trocar os
pratos na hora da sobremesa.
Eles riram, brincaram e ajudaram a servir o
café para os mais velhos.
Percebi, enquanto constatava como eram bonitos
e simpáticos, que não devia me importar com o que os outros pensassem.
Para mim, eles eram o máximo. Estavam
respeitando nossas tradições com entusiasmo e se relacionavam com a família de
forma amorosa. Isso vinha naturalmente - de seus corações.
Sentada em frente a eles, eu os observava.
Soube naquele momento que os cabelos, as roupas e as tatuagens eram só
afirmação de adolescente. Isso mudaria com o tempo. Mas sua participação nas
orações da nossa festa e a união de nossa família permaneceriam para sempre nos
seus corações. Mesmo quando fossem mais velhos, isso nunca iria mudar.
Logo a celebração do Pessah terminaria. A
música muito alta, os amigos e o grande tumulto voltariam à nossa vida. Eu
gostaria que essa noite especial não terminasse. Foram momentos preciosos que
só as mães podem compreender. Acho que não importa a idade dos filhos. Às vezes
é apenas um sorriso rápido e engraçado ou um pequeno gesto que faz cintilar em
nós um sentimento avassalador de amor absoluto.
Observando meus filhos, senti que estavam
alegres e em paz. Tive vontade de abraçá-los e dizer como os achava incríveis.
Mas não fiz isso. Queria beliscar suas
bochechas como fazia quando tinham nove anos e dizer o quanto os achava
bonitos. Mas também não fiz isso. Fiquei no meu lugar, cantei, comi e conversei
com os outros.
Mais tarde, em casa, eu lhes diria. Sozinha com
eles, diria o que representara terem ido à festa. Como eram sensacionais e como
estava orgulhosa de ser sua mãe.
Mais tarde, sozinha com eles, eu diria o quanto
os amo. E foi isso que fiz.
SABEDORIA DE SALOMÃO
LIVRO DOS REIS
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 64
Certo dia, duas prostitutas apresentaram-se
diante do rei Salomão e uma delas disse:
- Ó rei Salomão! Eu e esta mulher moramos na
mesma casa.
Eu dei à luz um menino e ela estava lá comigo.
Dois dias depois do nascimento do meu filho, ela também deu à luz um menino.
Somente nós duas estávamos na casa; não havia mais ninguém lá. Uma noite ela
rolou sem querer sobre seu filho e o sufocou. Então levantou-se durante a
noite, enquanto eu dormia, pegou o meu filho e o colocou na cama dela. Depois
colocou o menino morto nos meus braços. No outro dia de manhã, quando eu me
levantei para dar de mamar ao meu filho, vi que estava morto. Porém, quando reparei
bem, percebi que não era o meu filho.
Mas a outra mulher disse:
- Não é verdade. Pelo contrário, meu filho é o que
está vivo, e o seu é o que está morto!
E a primeira mulher respondeu:
- Não é, não! A criança morta é a sua, e a viva
é a minha!
E foi assim que discutiram na frente do rei.
Então o rei Salomão disse:
- Cada uma de vocês diz que a criança viva é a
sua, e que a morta é da outra.
Então mandou buscar uma espada e, quando a
trouxeram, disse:
- Cortem a criança viva pelo meio e deem a
metade para cada uma destas mulheres.
A verdadeira mãe do menino, com o coração cheio
de amor pelo filho, disse:
- Por favor, Senhor, não mate o meu filho!
Entregue-o a esta mulher!
Mas a outra disse:
- Podem cortá-Io em dois pedaços! Assim ele não
será nem meu nem seu.
Aí Salomão disse:
- Não matem a criança! Entreguem o menino à
primeira mulher porque ela é a mãe dele.
Todo o povo de Israel soube dessa decisão do
rei Salomão, e aí todos sentiram um grande respeito por ele, pois viram que
Deus lhe tinha dado sabedoria para julgar com justiça.
MOVENDO
MONTANHAS
JIM STOVALL Bits Pieces
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 66
Havia nos Andes duas tribos em guerra. Uma
vivia na parte baixa; a outra, na parte alta das montanhas.
Um dia, a parte baixa foi invadida pelos povos do
alto, que, além de saquearem os inimigos, raptaram um bebê e o levaram para as
montanhas.
Os povos da parte baixa não conheciam os
caminhos usados pelos povos da montanha. Não sabiam como chegar ao alto, como
chegar aos inimigos ou rastrear seus passos pelos terrenos escarpados.
Mesmo assim, enviaram seus melhores guerreiros
para subir a montanha e trazer a criança de volta.
Os homens tentaram diferentes métodos de
escalada.
Primeiro um caminho, depois outro. Após vários
dias de esforços, não tinham subido nem quinhentos metros.
Sentindo-se impotentes e sem esperança, os
homens da parte baixa consideraram a causa perdida e se prepararam para voltar
para sua cidade.
Enquanto arrumavam o equipamento para a
descida, viram a mãe do bebê andando na direção deles. Perceberam que ela
estava descendo a montanha que eles não tinham conseguido subir.
E então descobriram que o bebê estava amarrado
às costas da mulher. Como era possível?
Um dos homens a saudou, dizendo: "Nós não
tivemos êxito em subir a montanha. Como você chegou ao alto se nós, os homens
mais fortes e capazes da cidade, não conseguimos?" Ela encolheu os ombros
e respondeu: "É que não era o filho de vocês que estava lá”.
O DIA EM QUE EU ESTAVA TÃO OCUPADA
CINDY LADAGE
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 68
"Mamãe, veja!", gritou minha filha de
sete anos, DarIa, apontando para um filhote de falcão planando no ar.
"Hum, hum", murmurei, enquanto
dirigia, pensando no horário apertado daquele dia.
Seu rostinho mostrava decepção.
"O que foi, querida?", perguntei,
completamente absorta em meus pensamentos.
"Nada", respondeu DarIa. O momento se
fora. Perto de casa, diminuí a velocidade para tentar ver o coelhinho que toda
noite aparecia vindo de trás das árvores, mas ele não estava lá.
"Esta noite ele está muito ocupado",
eu disse.
Em casa, as tarefas me esperavam: jantar,
banho, telefonemas, arrumações. Até que chamei DarIa para dormir. Ela subiu as
escadas correndo. Cansada, beijei seu rosto, rezamos e a coloquei na cama.
"Mamãe, esqueci de lhe dar uma
coisa!", ela disse.
"Deixa para dar amanhã", respondi,
impaciente.
Mas ela balançou a cabeça e retrucou:
"Você não vai ter tempo amanhã!" "Vou sim!", respondi, na
defensiva.
Às vezes, por mais que tentasse, o tempo me
escorregava entre os dedos como areia numa ampulheta. Nunca era suficiente.
Nem para minha filha, nem para meu marido, nem
para mim.
Ela ainda não desistira. Franziu o narizinho
pintado de sardas numa careta e jogou o cabelo castanho para trás.
"Não vai não! Vai ser como hoje, quando eu
falei para você olhar o falcão. Você nem prestou atenção!" Eu estava muito
cansada para discutir e ela chegara bem perto da verdade.
"Boa noite", fechei a porta do quarto
dela com força.
Mais tarde, me lembrando de seu olhar
azul-acinzentado, pensei que daqui a pouco ela cresceria e iria embora.
Meu marido perguntou por que eu estava tão
abatida e lhe contei.
"Talvez ela ainda esteja acordada. Por que
você não vai lá?", ele falou, exercendo seu papel de pai.
Segui seu conselho, preferindo que a ideia
tivesse sido minha.
Abri a porta e a luz vinda da janela iluminava
a cama. Nas mãos de DarIa, um papel amassado. Devagar, abri sua mão para saber
a causa de nosso desentendimento.
Fiquei com os olhos cheios d'água. Ela rasgara
em pedacinhos um grande coração vermelho com um poema intitulado "Por que
Amo Minha Mãe!".
Catei os pedacinhos, montei o quebra-cabeça e
li:
Por que Amo Minha Mãe!
Mesmo tendo tanta coisa pra fazer e trabalhando
tanto, você sempre encontra tempo pra brincar.
Amo você, mamãe,
Porque sou a parte mais importante do seu dia
tão ocupado!
As palavras foram como uma flecha direta no meu
peito. Com sete anos, minha filha tinha uma sabedoria extraordinária.
Dez minutos depois, levei até seu quarto uma
bandeja com duas xícaras de chocolate quente e dois sanduíches com seu recheio
favorito. Quando toquei de leve no seu rosto, senti meu coração transbordar de
amor.
Ela acordou piscando com seus lindos cílios e
olhou para a bandeja.
"Para que isto?", perguntou, confusa
com a invasão noturna.
"É para você, que é a parte mais
importante do meu dia tão ocupado.
Ela sorriu e, sonolenta, bebeu a metade do seu
chocolate.
Então voltou a dormir. Fiquei ali um longo tempo,
acariciando o seu cabelo, dizendo o quanto a amava e como achava lindo que a
minha filhinha de sete anos pudesse me ensinar coisas tão fundamentais.
O DIA EM QUE SOLTAMOS PIPAS
FRANCES FOWLER apresentada por Ruth Rogness
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 73
"Linha!", gritou meu irmão.
"Precisamos de mais linha!' Era sábado, como sempre um dia ocupado, pois
"Trabalharás durante seis dias e farás todos os trabalhos" era levado
a sério então. Do lado de fora, papai e o vizinho, o senhor Patrick, também
cumpriam suas tarefas.
Mamãe e a senhora Patrick faziam a limpeza da
primavera.
O vento tornava aquele dia de março ideal para
arrumações de armário. As roupas de lã já balançavam no varal do quintal.
De alguma forma, os meninos tinham conseguido
ir para o morro atrás da casa com suas pipas. Agora, mesmo com o risco de
deixar meu irmão encurralado e obrigado a bater tapetes, eles o mandaram pegar
mais linha. Aparentemente não havia limites para a altura que as pipas poderiam
alcançar.
Mamãe olhou para a sala, a mobília desarrumada
esperando uma limpeza espartana. Mas seus olhos se dirigiram à janela:
"Venham, meninas! Vamos levar linha para os garotos e vê-los soltar as
pipas!" No caminho, encontramos a senhora Patrick rindo com um ar de
culpa, as filhas ao lado.
Nunca houve um dia tão bom para soltar pipas.
Deus não faz dois dias iguais no mesmo século. Pusemos toda a linha extra nas
pipas dos meninos e elas continuavam a subir. Mal podíamos distinguir os pontos
cor de laranja no céu. De vez em quando, puxávamos a linha devagar, fazendo-as
mergulhar, apenas para ter a alegria de vê-Ias subir de novo. Que emoção correr
com elas, para a direita, para a esquerda, percebendo que nossos pequenos
movimentos em direção ao chão refletiam-se minutos depois na majestosa dança
das pipas no céu! Escrevemos desejos em pedaços de papel e os encaixamos na
linha. De forma lenta e irresistível, eles subiram até alcançar as pipas. Com
certeza seriam desejos realizados.
Até nossos pais largaram enxadas e martelos e
se juntaram a nós. Nossas mães também brincaram, rindo como estudantes.
Seus penteados se desfizeram e os cachos caíram
sobre seus rostos, seus aventais riscadinhos batendo em suas pernas.
Misturada à nossa alegria havia alguma coisa
que causava admiração: os adultos estavam brincando conosco! Olhei para mamãe e
a achei realmente bonita. E ela já tinha mais de quarenta anos! Não sentimos o
tempo passar no alto da montanha. Não existia o tempo, apenas a brisa dourada.
Estávamos além de nossos corpos. Os pais esqueceram seus deveres e brincaram
sem qualquer vergonha. As crianças esqueceram disputas e implicâncias. Talvez
seja assim o reino do céu, pensei, confusa.
A tarde caía e nós, bêbados de sol e ar,
voltamos cambaleantes e sonolentos para casa. Acho que fizemos um lanche.
Acho que foi feita uma limpeza superficial, mas
a casa, no domingo, até que estava arrumada.
O estranho é que nós nunca mencionamos este dia
depois.
Eu me sentia um pouco envergonhada. Com
certeza, a experiência tinha sido mais profunda para mim do que para os outros,
e tranquei a lembrança lá no fundo, onde guardamos "as coisas que não
podem ser e mesmo assim são".
Passaram-se os anos e um dia eu estava ocupada
na cozinha enquanto minha filha de três anos insistia em "ir ao parque ver
os patos".
"Não posso!", eu disse. "Tenho
muitas coisas para fazer e, quando terminar, vou estar cansada para ir tão
longe." Minha mãe, que nos visitava naquele momento, parou um instante de
descascar as ervilhas e disse: "Está uma manhã linda, quente, mas com uma
brisa que me faz lembrar aquele dia em que soltamos pipas." Parei entre o
fogão e a pia. A porta trancada se abriu e trouxe um jorro de lembranças. Tirei
meu avental e disse à minha filha: "Vamos. Vovó tem razão. O dia está
muito bonito para se desperdiçar."
Passou-se uma década. Estávamos no pós-guerra.
Durante toda a noite ouvimos o filho mais jovem do senhor Patrick contar suas
experiências de prisioneiro num campo de concentração. Depois de falar
bastante, ficou em silêncio. Estaria pensando nas duras situações que
enfrentou?
De repente, com um sorriso nos lábios, ele
disse: "Ei! Vocês lembram... não, claro que não. Não deve ter deixado em
vocês a mesma impressão que deixou em mim." Tive até medo de perguntar:
"Lembrar o quê?" "No campo de prisioneiros, naquela situação tão
terrível, eu me lembrava sempre daquele dia. Vocês lembram o dia em que
soltamos pipas?"
Chegou o inverno e eu tinha a espinhosa missão
de visitar a senhora Patrick, que ficara viúva. Era difícil. Não podia
imaginá-Ia enfrentando a vida sozinha.
Conversamos um pouco sobre as famílias e sobre
as mudanças na cidade. Então, ela ficou em silêncio, olhando para o colo. Limpei
a garganta, me preparando para falar sobre sua perda e vê-Ia chorar.
Quando levantou o rosto, ela sorria: "Eu
estava aqui sentada, pensando. Henry se divertiu tanto naquele dia. Frances,
você se lembra do dia em que soltamos pipas?"
Este é o meu lugar favorito. Dentro do seu abraço.
A BONECA QUEBRADA
DAN CLARCK
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 77
Eis como uma amiga me contou a história passada
com sua filha.
Preocupada com sua demora em chegar da escola,
eu estava aborrecida quando ela finalmente apareceu. Com a voz zangada, pedi
que explicasse a razão do atraso.
Ela disse: "Mamãe, eu estava vindo a pé
com Julie quando, no meio do caminho, ela deixou cair a boneca, que se partiu
em mil pedaços." "Ah, meu bem", respondi, "você se atrasou
porque foi ajudar Julie a tentar colar os pedaços da boneca." Com sua
vozinha inocente, minha filha disse: "Não, mamãe, eu não sabia como
consertar a boneca. Só fiquei lá para ajudar Julie a chorar."
ALÉM DO CONTROLE
COLLEEN DERRICK HORNING
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 78
Quando tocaram a campainha naquela tarde, abri
a porta meio entorpecida. Era a pior hora para aparecer alguém! Um homem de
rosto simpático se apresentou: viera consertar o sistema de alarme.
No quinto mês de gravidez, eu estava com os
nervos à flor da pele, esperando o telefone tocar. Minha paz de espírito
poderia vir da notícia que aguardávamos.
Durante um ano e meio nós tínhamos tentado ter
um bebê, chegando a fazer testes de fertilidade, sem um resultado conclusivo.
Finalmente fiquei grávida.
O primeiro trimestre transcorreu normalmente, a
não ser pelos enjoos matinais, que eu sabia serem temporários. Esperava ansiosa
pelas consultas médicas, para saber cada vez mais sobre nosso filho. Então
quando o médico perguntou se eu queria fazer um exame de sangue que detectaria
algum eventual problema, concordamos imediatamente. Chegando os resultados, o
médico me telefonou e, com um tom profissional, embora preocupado, disse que
havia sugestão de síndrome de Down.
Para certificar-se, agendou um ultrassom e uma
amniocentese.
Embora apreensivos, meu marido e eu nos
emocionamos, pois pela primeira vez pudemos ver o bebê se mexer. Tudo se tornou
real de repente: íamos mesmo ter um bebê, um menino!
Não poderia haver nada de terrível com ele, não
é?
Foi duro saber que os resultados demorariam
duas semanas e que este período seria suficiente para pôr termo à gravidez de
maneira segura. Mas, qualquer que fosse o resultado, para nós esta não parecia
uma opção.
Não imaginava que duas semanas pudessem parecer
uma eternidade. Eu tentava me distrair, pensar em outras coisas, mas as
palavras "fora dos padrões de normalidade" ficavam se repetindo na
minha cabeça. Rob ia para o trabalho e eu me sentia desamparada em casa.
Finalmente chegou o dia de saber o resultado.
Nunca esquecerei meu nervosismo, em casa, sozinha, esperando o telefone tocar.
Mas ele não tocava e lá pelo meio-dia não aguentei mais.
Liguei para o médico, mas a enfermeira disse
não ter ainda a resposta. Foi neste dia que o técnico veio consertar o alarme.
Quando a campainha tocou, eu estava a ponto de
explodir.
Como um autômato, deixei o técnico entrar e
mostrei a ele o sistema de alarme, pensando: "Isso vai custar uma fortuna,
aconteceu na pior hora."
Fui ensinada a acreditar que "Deus sabe a
hora certa”, mas essa fé dava sinais de estar abalada. Umas duas horas depois,
a enfermeira ligou. Respirei fundo ao ouvir: "Temos uma notícia boa e uma
ruim."
A boa era que nosso filho não tinha síndrome de
Down. A ruim era que se apresentava um problema nos cromossomos. Se Rob e eu
também tivéssemos o problema, nosso filho nasceria bem. Mas, caso contrário,
significava que faltava alguma coisa na composição dos genes do bebê.
“Alguma coisa faltando?" Tentei não
gritar. "Como assim?
Isso quer dizer o quê?" "Desculpe,
senhora Horning, não se pode dizer o que há de errado com o bebê até ele
nascer. Agora o melhor a fazer é a senhora vir aqui imediatamente com seu
marido para um exame de sangue.
"Imediatamente? Podemos ficar sabendo
hoje?" "Podemos fazer o exame hoje e ter o resultado em cinco
dias." "Cinco dias?"
Foi quando perdi o controle. Não me lembro de
ter chorado e gritado tanto em meus trinta e quatro anos de vida. Parecia que
eu tinha levado um soco no estômago e que estava tomando fôlego para receber
outro. Lembro que liguei para o trabalho de Rob, ainda histérica.
"Colleen, querida, ouça. Peça ajuda à
vizinha. Vou sair logo que puder, mas não quero que você fique sozinha."
Desliguei o telefone, apavorada.
Fiquei ali, sem ar, e me lembrei então que o
técnico do alarme ainda estava trabalhando e provavelmente ouvira tudo. Com
vergonha, achei que tinha de me desculpar. Chorando, fui até a sala da frente e
o encontrei encostado no umbral da porta, como se esperasse por mim. Antes que
eu dissesse qualquer coisa, ele me levou até uma cadeira.
"Sente-se", ele disse. "E
respire fundo, procurando relaxar." As instruções específicas e o tom
gentil me pegaram de surpresa. Sentei e comecei a respirar, me sentindo mais
calma. Aquele estranho se sentou à minha frente e, numa voz tranquila, me
contou como ele e a mulher tinham perdido o primeiro filho. O bebê nascera
morto porque eles não sabiam que ela desenvolvera diabetes durante a gravidez.
Ele continuou dizendo como fora duro aceitar o fato até que, finalmente,
desistiram e admitiram que era algo que lhes fugia ao controle.
"Eu entendo como seu coração está doendo
agora. Mas só o que a senhora pode fazer é ter fé e compreender que o que está
acontecendo com seu bebê está fora do seu controle. Quanto mais tentar tomar as
rédeas da situação, ter controle sobre o bebê, sobre os exames, tudo isso, mais
a sua incapacidade de mudar as coisas vai fazer-lhe muito mal." Tomou
minha mão e disse que há poucos meses ele e a mulher tinham sido abençoados com
uma menininha saudável. Dessa vez, não tinha havido problemas. É claro que
pensam ainda no garotinho que perderam, mas hoje entendem e aceitam que, por
alguma razão, não era para ele viver.
Pediu para eu tentar manter a fé e afirmou que
sentia que tudo daria certo.
Então, com a mesma calma com que me contou sua
história, ele se levantou e se dirigiu à porta. Virou-se e disse que já
consertara o alarme.
Aquele homem me ajudou como nenhuma outra
pessoa poderia ter feito! Ao apertar sua mão e dizer "obrigada, me lembrei
de que não pagara pelo serviço.
Ele sorriu e disse que eu nada lhe devia. Tudo
que pedia era que eu mantivesse a fé.
Entreguei a Deus e, no final das contas, tudo
aconteceu na hora certa.
COMPLETAMENTE ERRADO
GERALD E. THURSTON JR.
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 83
Dizer que minha mãe era completamente
inexpressiva não é crítica nem reclamação. Ela era simplesmente uma dessas
mulheres que as pessoas não notam. O mundo está cheio de pessoas assim.
Nascida em uma família de alcoólatras, minha
mãe decidiu sair de Saint Louis aos dezessete anos porque, como ela dizia,
"Não podia aguentar mais um só minuto de discussão, bebida e loucura. Foi
para a Califórnia, morar com uma prima e começar vida nova. Isso aconteceu em
1959.
No ano seguinte se casou com meu pai, que era
da Marinha, e tiveram três filhos: Tammy, Tina e eu, Jerry. Meus pais compraram
uma casa pequena e simples no condado de Orange em 1967. Em 1975, apesar de
seus esforços, se divorciaram. Eu tinha doze anos.
Talvez pela grande mudança provocada pelo
divórcio, de repente passei a perceber minha mãe como pessoa. Notei que seu
rosto tinha círculos escuros em torno dos olhos e que seu corpo sofrera com a
gravidez e o parto dos filhos. Os homens não olhavam para ela. Parece que nunca
notaram os olhos luminosos que eu comecei a perceber com o tempo.
Como muitas outras mães sozinhas, a minha
também arrumou um segundo emprego e à noite distribuía formulários de corridas
de cavalo em lojas de bebidas alcoólicas. Ela me prometia um sorvete coberto de
chocolate para eu ir com ela, pois dizia ser a única forma de estarmos juntos
mais um pouco. Levava pilhas de formulários às lojas, sem receber sequer um
segundo olhar dos homens detrás dos balcões. Mamãe parecia invisível para os
homens.
Mais velho, eu amargava o desinteresse das
pessoas por minha mãe. Eu conhecia seu caráter, sua moral e o imenso
conhecimento adquirido por ser uma leitora insaciável. Percebi que a vida
silenciosa e heroica de minha mãe não era notada nem apreciada. Aquilo me doía.
Em dezenove de fevereiro de 1986 recebi um
telefonema no trabalho. Era minha mãe, com a notícia de que o resfriado de que
ela tentava se livrar há dois meses era na verdade um tumor no pulmão esquerdo.
Uma semana depois foi para a mesa de operação, mas nada havia a fazer. O médico
falou em quimioterapia e radioterapia, mas seus olhos nos diziam a dura
verdade.
Mamãe lutou com garra contra o tumor, mas
parecia que ninguém percebia sua fibra. Ela suportou os efeitos da radiação,
que atingiram sua laringe, afetando sua capacidade de engolir e até de
respirar. Enfrentou o pesadelo da quimioterapia, comprando uma peruca
vermelho-vivo para tentar chamar a atenção da família para o que estava
ocorrendo. Não funcionou. Ela lutou para "derrotar o monstro" até
perder a consciência, em dois de fevereiro de 1987, morrendo de mãos dadas com
seus filhos, que acariciavam seu rosto completamente inexpressivo. Aquilo me
encheu de raiva.
Raiva do mundo que não a notara. Eu a notara.
Pude observar a luta e a solidão cobrarem seu preço. Como não viram que essa
mulher inexpressiva na figura era, na verdade, um lindo ser humano? Tive raiva
até o dia do funeral.
Pessoas que eu não conhecia começaram a chegar
na capela simples onde ela se encontrava para ser notada pela última vez.
Pessoas que tinham trabalhado com ela há vinte
anos estavam lá, dizendo que não me viam desde que eu usava fraldas.
Amigos de seu último emprego, que eu não
conhecia, foram nos abraçar. Até o chefe com quem trabalhara há oito anos
esteve lá. Cumprimentou-me e disse que minha mãe inexpressiva era "uma das
mulheres mais bondosas que já conheci".
Comecei a prestar atenção em minha mãe como
pessoa aos doze anos e a achei totalmente inexpressiva. Olhei para a capela
cheia de pessoas que tinham notado minha mãe e podiam pensar outras coisas
dela, mas jamais que fosse inexpressiva.
Foi uma alegria profunda constatar que estava
completamente errado. Debaixo da aparência inexpressiva de minha mãe, essas
pessoas perceberam, o tempo todo, a pessoa extraordinária que estava ali.
O SUÉTER
PAMELA ALBEE
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 86
Era tarde demais quando me dei conta de meu erro.
Eu fora de tal forma tomada pela dor diante do rápido declínio e morte de meu
pai, que não parara para pensar em como a sua morte afetaria minha filha.
Papai havia passado meses reclamando de uma dor
no ombro, "um nervo pinçado" - foi o que achamos. Quando adoeceu
durante as férias e foi diagnosticado com um câncer primário e progressivo na
próstata, todos ficamos chocados.
Meu pai era uma dessas pessoas especiais que
nasceu com um brilho nos olhos. Jamais conheci alguém que não pensasse um mundo
de coisas boas a seu respeito. Crianças pequenas, em particular, sentiam-se
atraídas por ele como formiguinhas por mel. Ele juntava as mãos e sorria com
tanta alegria, que a criançada se aproximava correndo. Durante uma visita à
minha irmã, na Irlanda, ensinou a molecada do vilarejo a jogar futebol
americano. Era frequente as crianças irlandesas passarem pela casa à noite para
perguntar: "Será que o vovô pode sair para brincar com a gente?"
Assim, não era nenhuma surpresa que ele fosse especialmente próximo de minha
filha Jodi, de cinco anos, a última dentre todos os netos que continuou a morar
perto dele, nos Estados Unidos. Os dois viviam dando risadinhas e gargalhadas
juntos, durante horas, inventando histórias e alimentando animais de mentirinha
no quintal.
Quando encontraram o câncer de meu pai, já
havia se espalhado para os ossos e, a partir daí, tudo aconteceu rapidamente.
Quando íamos visitá-Io, Jodi sentava-se quietinha ao seu lado na cama e fingia
ler para ele - as brincadeiras barulhentas haviam ficado para trás. Eu lhe
explicara que o vovô estava muito doente e que não podia mais brincar com ela
como antigamente, mas era difícil para sua cabecinha de cinco anos compreender.
Perto do final, eu já não levava Jodi comigo
por não querer que ela se assustasse com a aparência do avô, com a expressão de
dor e de sofrimento no rosto daquele homem vital que todos tanto amávamos.
Depois que ele morreu, fiquei sem saber se Jodi
compreendia o caráter definitivo da morte ou se achava que o vovô estava fora
da cidade, "de férias". Mas, com o passar das semanas, ela foi
ficando muito quieta e retraída, chorando com frequência por motivos que eu
achava estranhos.
Certa noite, sentei-me com ela no colo e
acariciei seus cabelos, suavemente.
- Você me parece muito triste, meu docinho -
disse eu. Quer me dizer o que há de errado?
Ela passou alguns minutos em silêncio e, a
seguir, pôs-se a soluçar.
- Eu não consegui me despedir do vovô.
Naquele momento eu me dei conta de que, apesar
de meus bons propósitos, eu havia cometido um erro.
Através de uma nuvem de lágrimas mútuas,
ficamos sentadas juntas, uma embalando a outra, e conversamos sobre o vovô e
sobre todos os momentos maravilhosos passados com ele.
- Você quer dizer adeus para o vovô agora? -
perguntei.
Ela olhou para mim como se eu fosse só um
pouquinho esquisita.
- Feche os olhos. Agora imagine o rosto do vovô
bem à sua frente. Quando ele sorrir, você pode falar com ele.
De repente, um imenso sorriso invadiu seu
rosto.
- Ele está sorrindo tão grande para mim!
- Então diga a ele o que você quiser.
- Vovô - começou ela -, eu amo você e sinto
muito a sua falta. Quero me despedir de você. Tchau, vovô.
Então me lembrei dos mimos que pegara para mim
quando minha mãe empacotou as roupas de papai. Pedi a ela dois de seus suéteres
velhos confortáveis, aqueles com os quais ele gostava de ficar em casa nos fins
de semana. Fui pegar os dois suéteres azuis e dei um a Jodi.
- Estes são os suéteres especiais do vovô.
Quando estivermos tristes ou com saudades dele, é só vestir para sentí-Io nos
abraçar.
Nós duas choramos enquanto cada uma vestia o
seu suéter.
Então eu a segurei nos braços enquanto
adormecia. Pela primeira vez em semanas ela parecia estar em paz, com um
discreto sorriso no rosto.
Os dois suéteres foram muito usados através dos
anos.
Muitas vezes, quando Jodi estava com algum
problema, retirava-se para o quarto. Quando, mais tarde, eu ia verificar se
estava tudo bem, era normal encontrá-Ia deitada na cama envolta no suéter azul
do vovô - dormindo pacificamente com a mais sutil insinuação de um sorriso no
rosto.
Hoje Jodi tem dezoito anos e ainda adora usar o
suéter do avô. De alguma maneira, sempre lhe cabe perfeitamente. E sabem por
quê? Porque é do tamanho de um abraço.
CONFISSÕES DE UMA MADRASTA
CAROL KLINE
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 91
Ao conhecer Larry, meu futuro marido,
compreendi que era um pacote completo, incluindo McKenna, uma filha de dezoito
meses, e Lorin, um menino de quatro anos, nos fins de semana.
No dia em que conheci as crianças, contornamos
o lago com Larry carregando uma McKenna de fraldas no colo, enquanto Lorin
corria atrás de sapos para me mostrar. Fiquei atordoada. Aquelas crianças eram
uma imensa parte do homem que eu amava e, no entanto, tinham muito pouco a ver
comigo.
Como é que essa história de madrasta
funcionava?
Eu rapidamente me apaixonei pelo sorrisinho
travesso de Lorin e o corpinho rechonchudo de McKenna, quentinho, contra o meu,
quando eu a segurava no colo. Fui completamente tocada pela minha nova e
encantadora "família instantânea”, mas a mães das crianças, Dia, já era
outra história. Tínhamos um relacionamento cauteloso, as arestas de hostilidade
existentes entre nós duas muito tênuemente ocultadas. Eu fazia o possível para
ignorá-Ia e me concentrava nas duas crianças adoráveis as quais ela dera à luz.
As crianças e eu nos dávamos bem, embora Lorin
fosse um tanto reservado. Talvez fosse por lealdade à mãe ou por ser menino,
ou, aos quatro anos, pelo simples fato de querer mais independência. McKenna,
por ser tão pequenininha, não era dada a esse tipo de escrúpulos. Ela me amava
e deixava isso bem claro, sem reservas, com uma doçura e inocência que tiravam
o meu fôlego. Eu não conseguia resistir ao seu amor e, quando me apaixonei, foi
de verdade. Quase que imediatamente formamos nosso próprio fã-clube mútuo -
dois corações que pulsavam como um.
Na realidade foi McKenna quem primeiro me pediu
em casamento. Estávamos sentadas, juntas, na sala de espera de um aeroporto, a
caminho da casa dos pais de Larry. Com quase três anos, estava sentada no meu
colo, de frente para mim, brincando com o meu colar. De vez em quando, olhava
para o meu rosto com os olhos transbordando de adoração. Sorri, sentindo a
presença de meu imenso amor por ela em meu coração. Larry estava sentado ao
nosso lado e Lorin passeava pelas fileiras de cadeiras de plástico, fazendo barulhos
de motor de carro com a boca. Para um observador desavisado, éramos uma jovem
família como outra qualquer. Mas não éramos uma família porque Larry ainda não
havia feito aquela pergunta. E muito embora eu não quisesse forçar a barra, nós
dois sabíamos que minha paciência estava chegando ao limite. O que, eu me
perguntava, estaria ele esperando?
Então, McKenna arrancou a chupeta da boca e,
retribuindo o meu sorriso, perguntou, toda animada:
- Quer casar comigo?
Após um momento de sobressaltado silêncio,
rimos até a barriga doer. Eu por simples deleite, Larry pela liberação da
tensão e as crianças, simplesmente, porque os adultos. estavam rindo.
Felizmente, não demorou muito para que Larry seguisse o exemplo da filha com o
seu próprio pedido de casamento.
Com o passar do tempo, acostumei-me a ser mãe
em regime de meio expediente - e a ter a mãe das crianças como parte inevitável
de minha vida. Eu gostava de Dia, sinceramente, mas nossas posições pareciam
exigir um certo grau de mau humor mútuo que eu fazia o possível para sufocar.
Às vezes sentia o condenável desejo de que ela simplesmente sumisse. Abatida
por uma doença rápida e indolor, ela, em seu leito de morte, me pediria para
criar os filhos em seu lugar. Assim, as crianças ficariam conosco - seriam minhas
de fato - e nós poderíamos formar uma família "de verdade".
Felizmente, isso jamais aconteceu. Eu não
queria que ela morresse; apenas sentia ciúmes por ela ter tido filhos com o meu
marido. Está bem, está bem, concordo que ele era marido dela naquela época -
mas, ainda assim, a situação me exasperava. Vi as crianças crescerem, deixarem
de ser bebês e passarem a frequentar a escola. A mãe deles e eu dávamos
prosseguimento às nossas interações canhestras porém civilizadas, organizando o
ir e vir das crianças, negociando férias e feriados.
Meus amigos viviam dizendo que quem tinha de
lidar com a ex-mulher era Larry e, por algum tempo, tentamos isso. Mas como
madrasta ativa e cheia de boa vontade para com as crianças, eu vivia me metendo
nas decisões. Assim, Dia e eu acabamos voltando ao arranjo anterior e, com o
passar dos anos, notei que nossos telefonemas foram mudando. Notei que gostava
de conversar com Dia sobre as crianças. E acho que ela se deu conta de que
havia poucas pessoas no mundo que tinham tanto interesse, que eram tão encantadas
ou preocupadas com seus filhos quanto eu. Demos início a uma metamorfose lenta
porém perceptível, completada no ano em que Dia me enviou um cartão de Dia das
Mães me agradecendo por ser "co-mãe" de seus filhos.
Este foi o início de uma nova era para Dia e eu.
E muito embora nem sempre tenha sido perfeita, tenho consciência de que tem
sido extraordinária. Assim, tenho os meus próprios agradecimentos a fazer:
Obrigada, Dia, por ser grande o suficiente para
compartilhar os seus filhos comigo. Se você não o fosse, eu jamais saberia o
que é segurar um bebê adormecido e sentir a completa confiança demonstrada por
aqueles membros flácidos, de pele sedosa, reunidos, com todo o cuidado, em meus
braços. Jamais teria tido a oportunidade de me maravilhar com as curvas e
desvios da mente de um menino enquanto tenta encontrar sentido num universo tão
grande e complexo.
Jamais teria sabido que uma criança é capaz de
chorar tão alto quando a barriga dói ou que, depois de vomitar, podia sorrir
para a gente de forma tão radiante - as bochechas ainda molhadas de lágrimas, a
dor já esquecida.
Eu jamais teria assistido a um menino pelejar
para se tornar a sua própria pessoa ou participado tão ativamente do processo
de crescimento, tão dolorido e sério, de um adolescente. Não teria tido o
formidável privilégio de assistir aquele molequinho chato de doze anos, que me
enlouquecia com suas perguntas, se transformar num homem lindo, com um sorriso
de muitos megawatts e uma personalidade encantadora. E, enquanto se prepara
para ir para a faculdade, sei que está prestes a levar uma nova geração de mulheres
à loucura - por motivos completamente diferentes.
Não teria sentido a emoção de ver nossa linda
filha no palco expressando-se com graça e com uma profundidade de sentimento
antigo demais para alguém tão jovem. Ou de sentir a vaidade e o orgulho -
completamente desmerecidos (e censuráveis) - quando um desconhecido comenta que
McKenna se parece comigo.
Obrigada por transformar a manhã de Natal num
evento comunitário para que as crianças jamais tivessem de se sentir divididas
num dia que tanto amam. Olhei ao meu redor, um ano, e nos vi sentados ao redor
da árvore de Natal enquanto os meninos distribuíam os presentes. Lá estávamos,
você e seu marido, Larry e eu, as crianças e... surpreendentemente, eu me senti
em casa.
Compreendi, naquele momento, que você não
precisava sumir para sermos uma família de verdade.
Claro que eu gostaria de ser uma mãe perfeita.
Mas estou muito ocupada cuidando dos meus filhos.
A VISÃO REAL
MARSHA ARONS
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 96
Minha amiga Michelle é cega, mas você não
notaria se não prestasse muita atenção. Ela usa tão bem os outros sentidos,
inclusive o "sexto sentido" - a intuição -, que dificilmente deixa a
impressão de que não percebeu alguma coisa.
Michelle cuida dos filhos tão bem quanto
qualquer uma de nós, só que não esquenta a cabeça com detalhes. Seus filhos,
Sarah, de seis anos, e Aaron, de nove, se beneficiam disso.
Michelle comentou comigo que, como não consegue
escolher as roupas das crianças, e o marido não se sente com capacidade para
isso, Sarah e Aaron acabam resolvendo eles mesmos o que vestir. Para Michelle o
que importa é que as roupas estejam limpas e de acordo com a temperatura. E ela
acredita que as crianças já têm idade para dizer se sentem calor ou frio.
Um outro assunto sobre o qual Michelle
raramente discute com os filhos é quanto à limpeza da casa. Ela sabe que está
na hora de dar um bom jeito na casa quando tropeça em objetos ou brinquedos
largados pelo chão. Na casa de Michelle, as crianças aprenderam a colocar as
coisas nos devidos lugares, porque deixar tudo espalhado, mais do que aborrecer
sua mãe, significa perigo para ela. Na verdade, Michelle se loco move tão bem
pela casa que, com frequência, as pessoas que a visitam nem percebem que ela é
cega.
Percebi isso na primeira vez que minha filha
Kayla, de seis anos, foi brincar com Sarah. Kayla chegou em casa excitada com seu
dia. Contou-me que assaram biscoitos, jogaram e fizeram trabalhos de arte. Mas
estava especialmente entusiasmada com as pinturas feitas com os dedos.
Sorrindo, feliz, Kayla disse: "Mamãe, sabe
da maior? Hoje aprendi a misturar as cores! Azul com vermelho dá roxo e amarelo
com azul dá verde! Não é legal? E Michelle pintou conosco. Ela disse que gosta
de sentir a tinta escorrendo entre os dedos." A alegria de minha filha
chamou minha atenção e eu me dei conta de que jamais pintara com Kayla, porque
a bagunça provocada pelas tintas me incomodava especialmente. Ela acabou
aprendendo sobre cores com minha amiga cega. A ironia me fez parar e olhar para
minha filha e para mim mesma com outros olhos.
"Michelle me pediu para descrever o que eu
tinha feito e disse que meu trabalho passava alegria, orgulho e talento!"
Kayla disse que nunca sentira como era bom pintar com os dedos até que Michelle
lhe mostrou como pintar sem olhar para o papel.
Foi quando entendi que Kayla não sabia que
Michelle era cega. Jamais faláramos sobre o assunto.
Quando contei para ela, ficou quieta por um
momento.
Primeiro, não quis acreditar. "Mas, mamãe,
Michelle compreendeu exatamente o que estava na minha pintura!", Kayla
insistiu. E eu sabia que era verdade porque Michelle ouvira com a maior atenção
a descrição que Kayla fizera de seu trabalho.
Também ouvira Kayla falar com orgulho da
pintura, de como achara fantástico descobrir como as cores se misturam e o
prazer que sentira com a textura das tintas.
Ficamos em silêncio até Kayla dizer, devagar:
"Sabe, mamãe, Michelle realmente viu minha pintura. Ela usou meus olhos
para ver”.
Eu nunca ouvi ninguém se referir a Michelle
como cega. Ela não é cega. Ela tem uma espécie de "visão" que todas
as mães deveriam usar.
FECHE A BOCA E ABRA OS BRAÇOS
DIANE C. PERRONE
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 99
Uma amiga ligou com notícias perturbadoras: a
filha solteira estava grávida.
Relatou a cena terrível ocorrida no momento em
que a filha finalmente contou a ela e ao marido sobre a gravidez. Houve
acusações e recriminações, variações sobre o tema "Como pôde fazer isso
conosco?". Meu coração doeu por todos: pelos pais que se sentiam traídos e
pela filha que se envolveu numa situação complicada como aquela. Será que eu
poderia ajudar, servir de ponte entre as duas partes?
Fiquei tão arrasada com a situação, que fiz o
que faço - com alguma frequência - quando não consigo pensar com clareza:
liguei para minha mãe. Ela me lembrou de algo
que sempre a ouvi dizer. Imediatamente, escrevi um bilhete para minha amiga,
compartilhando o conselho de minha mãe: "Quando uma criança está em
apuros, feche a boca e abra os braços." Tentei seguir o mesmo conselho na
criação de meus filhos.
Tendo tido cinco em seis anos, é claro que nem
sempre conseguia. Tenho uma boca enorme e uma paciência minúscula.
Lembro-me de quando Kim, a mais velha, estava
com quatro anos e derrubou o abajur de seu quarto. Depois de me certificar de
que não estava machucada, me lancei numa invectiva sobre aquele abajur ser uma
antiguidade, sobre estar em nossa família há três gerações, sobre ela precisar
ter mais cuidado e como foi que aquilo tinha acontecido - e só então percebi o
pavor estampado em seu rosto. Os olhos estavam arregalados, o lábio tremia.
Então me lembrei das palavras de minha mãe.
Parei no meio da frase e abri os braços.
Kim correu para eles dizendo:
- Desculpa... Desculpa - repetia, entre soluços.
Nos sentamos em sua cama, abraçadas, nos embalando. Eu me sentia péssima por
tê-la assustado e por fazê-la crer, até mesmo por um segundo, que aquele abajur
era mais valioso para mim do que ela.
- Eu também sinto muito, Kim - disse quando ela
se acalmou o bastante para conseguir me ouvir. - Gente é mais importante do que
abajures. Ainda bem que você não se cortou.
Felizmente, ela me perdoou. O incidente do
abajur não deixou marcas perenes. Mas o episódio me ensinou que é melhor
segurar a língua do que tentar voltar atrás após um momento de fúria, medo,
desapontamento ou frustração.
Quando meus filhos eram adolescentes - todos os
cinco ao mesmo tempo - me deram inúmeros outros motivos para colocar a
sabedoria de minha mãe em prática: problemas com amigos, o desejo de ser
popular, não ter par para ir ao baile da escola, multas de trânsito,
experimentos de ciência malsucedidos e ficar em recuperação. Confesso, sem
pudores, que seguir o conselho de minha mãe não era a primeira coisa que me
passava pela mente quando um professor ou diretor telefonava da escola. Depois
de ir buscar o infrator da vez, a conversa do carro era, algumas vezes, ruidosa
e unilateral.
Entretanto, nas ocasiões em que me lembrava da
técnica de mamãe, eu não precisava voltar atrás no meu mordaz sarcasmo, me
desculpar por suposições errôneas ou suspender castigos muito pouco razoáveis.
É impressionante como a gente acaba sabendo muito mais da história e da
motivação por trás dela quando está abraçando uma criança, mesmo uma criança
num corpo adulto. Quando eu segurava a língua, acabava ouvindo meus filhos
falarem de seus medos, de sua raiva, de culpas e arrependimentos. Não ficavam
na defensiva porque eu não os estava acusando de coisa alguma. Podiam admitir
que estavam errados sabendo que eram amados, apesar de tudo. Dava para
trabalharmos com "o que você acha que devemos fazer agora”, em vez de
ficarmos presos a "como foi que a gente veio parar aqui?”
Meus filhos hoje estão crescidos, a maioria já
constituiu a própria família. Um deles veio me ver há alguns meses e disse:
"Mãe, cometi uma idiotice..." Depois
de um abraço, nos sentamos à mesa da cozinha.
Escutei e me limitei a assentir com a cabeça
durante quase uma hora enquanto aquela criança maravilhosa passava o seu
problema por uma peneira. Quando nos levantamos, recebi um abraço de urso que
quase esmagou os meus pulmões.
- Obrigado, mãe. Sabia que você me ajudaria a
resolver isto.
É incrível como pareço inteligente quando fecho
a boca e abro os braços.
As crianças precisam de orientação e de compreensão
bem mais do que de instrução.
ANN SULLIVAN
Não existe uma forma de ser uma mãe perfeita,
mas um milhão delas de ser uma boa mãe.
JILL CHURCHILL
A INSPEÇÃO
AUTOR DESCONHECIDO
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 103
Num acampamento de escoteiros, durante uma
inspeção, o monitor achou um guarda-chuva cuidadosamente enrolado no saco de
dormir de um dos meninos. Como, afinal, guarda-chuvas não faziam parte da lista
do que levar para o acampamento, ele pediu para o garoto explicar por que o
objeto estava ali.
Com um suspiro conformado, o menino disse:
"O senhor não sabe como são as mães?"
APERTE MINHA MÃO
MARY MARcDANTE
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 104
Você se lembra da sua infância, quando caía e
se machucava?
Lembra o que sua mãe fazia para acalmar a dor?
Minha mãe, Grace Rose, me levava no colo até sua cama e beijava meu machucado.
Então, ela sentava ao meu lado, pegava minha mão e falava: "Quando doer,
aperte minha mão e vou dizer “Eu te amo”.
Era sempre assim: eu apertava sua mão e, sem
falhar uma só vez, ouvia as palavras: "Mary, eu te amo." Às vezes, eu
fingia ter me machucado só para passar por esse ritual com ela. À medida que
fui crescendo, o ritual mudou, mas minha mãe sempre encontrava um modo de
diminuir a dor e aumentar a alegria em qualquer área da minha vida.
Numa época difícil, durante o segundo grau, ela
tinha sempre meus chocolates preferidos, recheados com amêndoas, quando eu
chegava em casa. Lá pelos meus vinte e poucos anos, mamãe muitas vezes
telefonava num fim de tarde convidando-me para vermos o pôr-do-sol ou o nascer
da lua. Deixava bilhetinhos amorosos sobre meu travesseiro quando eu chegava
tarde em casa e, quando fui morar sozinha, mandava-me vasinhos de flores
agradecendo as visitas que eu lhe fazia.
Mas minha melhor lembrança continuou sendo ela
segurando minha mão quando eu era pequena e repetindo: "Quando doer,
aperte minha mão e vou dizer 'Eu te amo'." Eu já tinha trinta e tantos
anos quando, uma manhã, papai telefonou para o meu trabalho. Era um homem
seguro e lúcido, mas a voz soava confusa e amedrontada. "Mary, há algo
errado com sua mãe”. Já chamei o médico, mas, por favor, venha logo que
puder." Quando cheguei, papai andava de um lado para o outro na sala e
mamãe estava deitada no quarto, olhos fechados, as mãos sobre o estômago.
Chamei por ela, tentando manter a voz o mais calma possível.
"Mamãe, estou aqui."
"Mary, é você?”, balbuciou ela.
"Sim, mamãe, sou eu."
Eu não estava preparada para a próxima pergunta
e, quando a ouvi, congelei, sem saber o que responder.
"Mary, eu vou morrer.
Meu olhos se encheram de lágrimas enquanto
olhava minha mãe querida ali, deitada, tão desamparada.
Ao tentar descobrir o que responder, pensei:
"O que mamãe diria num momento desses?"
Hesitei por um instante, esperando que as
palavras viessem.
"Mamãe, não sei se você vai morrer, mas
fique tranquila, tudo acabará bem." Apertei sua mão. "Eu amo
você." Ela gemeu: "Mary, sinto tanta dor." Mais uma vez fiquei
sem saber o que falar. Sentei a seu lado na cama e me ouvi dizendo:
"Mamãe, quando doer, aperte minha mão e vou dizer 'Eu te amo'." Ela
apertou minha mão.
"Mamãe, eu te amo."
Esta cena se repetiu muitas vezes durante os
dois anos seguintes, até sua morte, de câncer. Nós nunca sabemos quando virão
os momentos em que seremos testados. Mas sei que, quando chegarem, com quem
quer que eu esteja, oferecerei o ritual de amor de minha mãe: "Quando
doer, aperte minha mão e vou dizer 'Eu te amo'."
Eles parecem uns anjinhos quando estão dormindo.
Quem poderia dizer que durante o dia eles ficam gritando o
tempo todo?
MINHA FILHA MINHA MESTRA
JANET S. MEYER
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 108
As crianças nos ensinam coisas novas todos os
dias. Eu já tinha ouvido dizerem isso, mas foi só quando me tornei mãe que me
dei conta da dimensão desse ensinamento.
Quando Marissa tinha seis meses, parecia estar
sempre olhando para cima, procurando alguma coisa. Acompanhando seu olhar,
descobri a magia das folhas dançando nas árvores e o movimento das nuvens no
céu. Com oito meses, ela olhava para baixo, enquanto eu a empurrava no
carrinho. Percebi, então, que cada pedra é diferente, que as rachaduras nas
calçadas fazem desenhos interessantes e as folhas da grama têm verdes diversos.
Quando ela fez onze meses, aprendeu a dizer
"Uau!", palavra que usava, maravilhada, ante qualquer coisa nova e
deslumbrante, como a variedade de brinquedos do consultório do pediatra ou o
acúmulo de nuvens negras antes de uma tempestade. Ela falava baixinho
"Uau!" para coisas que realmente a impressionavam, como o sopro do
vento no seu rosto ou um bando de pombos levantando voo. E, finalmente, o
máximo em matéria de "Uau!" era sua boquinha aberta, mas sem emitir
som, reservado para ocasiões realmente surpreendentes, como um pôr-do-sol num
lago depois de um lindo dia ou fogos de artifício no céu de verão.
Marissa me ensinou muitas formas de dizer
"Eu te amo".
Quando tinha quatorze meses e estávamos
abraçadas, ela, com a cabecinha recostada no meu ombro, suspirou fundo e disse:
"Feliz." Num outro dia (já com dois anos e levada como ela só),
apontou para uma linda modelo na capa de uma revista e perguntou: “É você,
mamãe”.
Há pouco tempo, agora com três anos, entrou na
cozinha enquanto eu lavava a louça e ofereceu: "Posso ajudar?" Logo
depois, colocou a mão no meu braço e me fez derreter:
"Mamãe, se você fosse pequena, eu queria
ser sua amiga." Em momentos assim, tudo que posso dizer é
"Uau!".
As crianças reinventam o mundo pra você.
SUSAN SARANDON
O QUE É UMA AVÓ?
AUTOR DESCONHECIDO
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 110
Carta de um aluno da terceira série.
Uma avó é uma mulher velhinha que não tem
filhos. Ela gosta dos filhos dos outros. Um avô é um homem-avó. Ele leva os
meninos para passear e conversa com eles sobre pescaria e outros assuntos
parecidos.
As avós não fazem nada e por isso podem ficar
mais tempo com a gente. Como elas são velhinhas, não conseguem rolar pelo chão
ou correr. Mas não faz mal, porque nos levam ao shopping e compram tudo o que
nossos pais não querem comprar. Na casa delas tem sempre um vidro com balas e
uma lata cheia de suspiros. Contam histórias de nosso pai ou nossa mãe quando
eram pequenos, histórias da Bíblia, histórias de uns livros bem velhos com umas
figuras lindas. Passeiam conosco mostrando as flores, ensinando seus nomes, nos
fazendo sentir o perfume. Avós nunca “Apresse-se, “Arrume seu quarto”, “Coma
com modos”.
Normalmente, as avós são gordinhas, mas, mesmo
assim, elas nos ajudam a amarrar os sapatos. Quase todas usam óculos e eu já vi
uma tirando os dentes e as gengivas.
Quando a gente faz uma pergunta, a avó não diz:
"Menino, não vê que eu estou ocupada!" Ela pára, pensa e responde de
um jeito que a gente entende. As avós sabem um bocado de coisas.
As avós não falam com a gente como se nós fôssemos
umas criancinhas idiotas, nem apertam nosso queixo dizendo "Que
gracinha!", como fazem algumas visitas chatas. Quando leem para nós, não
pulam pedaços das histórias nem se importam de ler a mesma história várias
vezes. O colo das avós é quente e fofinho, bom de a gente sentar quando está
triste. A minha avó sabe fazer uma festinha bem de leve nas minhas costas que
eu adoro.
Todo mundo devia tentar ter uma avó, porque são
os únicos adultos que têm tempo pra nós.
O VISITANTE DO MEIO DA NOITE
EDITH DEAN
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 112
Cresci numa aldeia rural numa época em que nos
maravilhávamos com o telefone e os automóveis eram incapazes de atravessar
estradas cheias de lama. Foi antes da Grande Depressão, quando havia pouco para
todos e os vizinhos dependiam uns dos outros. Eu me lembro bem daquela noite.
Era início de outubro e pela janela víamos tudo
escuro, chuva forte e o vento se misturando. A turbulência maltratava nossa
pequena casa de madeira na área rural de Arkansas, e a tempestade ameaçava
apagar o lampião sobre a mesa da sala.
Aos nove anos, assustada, eu tinha certeza de
que a casa sairia voando a qualquer momento. Papai fora em direção ao norte,
procurando trabalho, e eu me sentia extremamente vulnerável. Mas mamãe
conseguia ficar calma, sentada, consertando suas roupas "para durarem
outro inverno".
"Ah, mamãe, você precisa de roupas
novas", eu disse, tentando puxar conversa. Numa noite assim, eu precisava
do conforto de uma voz bem serena.
Ela me abraçou. "Você precisa de roupas
melhores porque vai à escola." "Mas você não tem nem um casaco para o
inverno", retruquei.
"Deus prometeu suprir nossas necessidades.
Ele cumprirá sua promessa, não quando pedirmos, mas no Seu próprio tempo. Tudo
vai ficar bem." Eu invejava a fé inabalável de minha mãe, principalmente
em noites assim.
Uma lufada de vento desceu pela chaminé e
espalhou o carvão da lareira.
"Podemos trancar as portas?",
perguntei.
Mamãe sorriu, pegou a pequena pá preta da
lareira e espalhou cinzas sobre os carvões em brasa.
"Edith, não podemos evitar a tempestade. E
você sabe que ninguém aqui tranca as portas, especialmente numa noite assim,
porque alguém pode precisar entrar fugindo do mau tempo." Ela pegou o
lampião, foi para o quarto e eu a segui. Minha mãe me enfiou entre as cobertas,
mas, antes que tirasse o roupão de retalhos, o barulho repentino da porta da
frente aberta pelo vento fez entrar o cheiro de chuva e ouvimos o som de
objetos derrubados na sala. Também de repente a porta bateu e se fechou.
"Esse barulho todo não era só vento e
trovão." Mamãe pegou o lampião e voltou à sala. Eu tive medo de ir também,
mas o medo de ficar sozinha foi maior ainda.
Primeiro, só pudemos ver o conteúdo da cestinha
de costura de mamãe espalhado no chão. Então nossos olhos seguiram pegadas de
botas enlameadas no chão de madeira, da porta à cadeira estofada que ficava em
frente à lareira.
Um homem encharcado e desgrenhado, baixo e
corpulento, com um terno escuro e salpicado de lama estava afundado na cadeira.
Seu hálito exalava um cheiro terrível. Sua mão
esquerda, imóvel, segurava uma lata amassada.
"Mamãe, é o senhor Hall!", exclamei.
Mamãe apenas assentiu com a cabeça, enquanto,
com a pá, tirava os carvões queimados da lareira. Limpou as cinzas e levou os
pedaços de carvão para a fornalha da cozinha, cobrindo-os com aparas de pinho.
Ela disse: "Vou fazer café. Acenda o fogo
para ajudar nosso hóspede a se aquecer e a se secar." "Mas, mamãe,
ele está bêbado!" "Tão bêbado que entrou em nossa casa pensando estar
entrando na dele!" "Mas ele mora bem longe, lá embaixo na estrada”,
observei.
"Minha filha, o senhor Hall não é um
beberrão. Não sei o que aconteceu hoje. Mas ele é um homem bom." Eu sabia que
o senhor Hall se encontrava com alguém na estrada todas as segundas-feiras de
manhã e ia para sua pequena alfaiataria em Little Rock, onde trabalhava durante
toda a semana. Aos sábados à tarde ele voltava, caminhando com dificuldade,
apoiado em uma bengala.
Como se lesse meus pensamentos, mamãe murmurou:
"Ele deve se sentir muito solitário de vez em quando." Em pé na porta
da cozinha, fui tomada por uma preocupação. "Oh, mamãe, o que as pessoas
vão dizer sobre a bebedeira do senhor Hall?" ''As pessoas não têm de ficar
sabendo disso nunca. Você está me entendendo?"
"Estou, mamãe."
Enquanto a chuva continuava, mamãe levou para o
nosso hóspede uma caneca de café preto e fumegante. Levantou sua cabeça para
ajudá-Io a tomar o café, gole a gole. A caneca estava quase vazia quando ele
abriu os olhos o suficiente para nos reconhecer.
"Senhora Wood." "Sim, senhor
Hall, o senhor vai ficar bem." Enquanto mamãe levava a caneca de volta à
cozinha, o senhor Hall conseguiu se apoiar na bengala, afastou a colcha dobrada
sobre a cadeira e saiu cambaleando porta afora em direção à tempestade.
Ficamos observando-o enquanto chegava,
vacilante, até o portão da frente, os clarões dos raios iluminando o caminho.
"Parece que nosso hóspede já consegue
andar sozinho." "Mamãe, por que você o chama de nosso hóspede?",
perguntei. "Ele só é nosso vizinho. Nós não o convidamos a entrar."
"Um hóspede é qualquer pessoa que venha à
nossa casa em paz. Você se lembra quem é o próximo na história do Bom
Samaritano?" "O homem que ajudou o estranho", respondi.
"Fazendo dele nosso hóspede, Deus nos deu
a oportunidade de sermos próximas do senhor Hall." Algumas semanas mais
tarde, chegando da igreja, havia um saco de papel sobre a mesa. Nele se lia:
"Senhora Wood".
"Deve ser o vestido que a senhora Chiles
ficou de me emprestar para eu tirar o molde. Ela tem uma filha do seu tamanho.
Se quiser, pode abrir", mamãe disse, enquanto ia mudar de roupa.
Abri o saco amarfanhado e me surpreendi.
"Mamãe! É um casaco para você, e é lindo!" Mamãe voltou-se para olhar
o casaco que eu suspendia. Ela o experimentou, enfiando o braço direito e
depois o esquerdo pelas mangas. Naquela época eu não conhecia o significado
real da generosidade. Tudo o que eu pude ver, quando mamãe experimentou o
casaco, é que ele ficou perfeito nela.
O PROGNÓSTICO
ROCHELLE M. PENNINGTON
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 117
Uma jovem mãe, submetida a um tratamento contra
câncer, voltou do hospital sem cabelos, por causa da radioterapia, e muito
consciente da sua aparência.
Estava sentada na cozinha, quando seu filho
apareceu na porta, olhando-a curiosamente.
Quando a mãe iniciou o discurso que ensaiara
para ajudá-lo a entender o que via, o menino se aproximou e aconchegou-se em
seu colo, quietinho, a cabeça recostada em seu peito. A mãe acariciou a
cabecinha do filho e disse: "Você vai ver como daqui a pouco o meu cabelo
vai crescer e eu vou ficar melhor, como era antes."
O menininho se levantou, olhou para a mãe
pensativo.
Com a espontaneidade de seus seis anos,
respondeu: "Seu cabelo está diferente, mas seu coração está
igualzinho."
A mãe não precisava mais esperar por
"daqui a pouco" para melhorar. Com os olhos cheios de lágrimas, ela
se deu conta de que já estava muito melhor.
Toda criança nasce com a mensagem de que
Deus não perdeu a esperança na humanidade.
RABINDRANATH TA GORE
DANCE COMIGO
JEAN HARPER
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 119
Quando somos jovens e sonhamos com amor e
prazer, pensamos talvez em noites enluaradas em Veneza ou em passeios numa
praia ao pôr-do-sol. Ninguém nos diz que os melhores momentos da vida são
efêmeros, não planejados e quase sempre nos pegam de surpresa.
Não faz muito tempo, eu estava lendo uma
história para Annie, minha filha de sete anos, quando percebi seu olhar fixo em
mim. Tinha uma expressão longínqua, parecia meio hipnotizada, como se não desse
importância à história que ouvia.
Perguntei o que estava pensando.
"Mamãe", ela murmurou. "Não
consigo parar de olhar pra você. Você é tão bonita." Quase derreti de
emoção. Ela mal sabia que suas palavras sinceras e amorosas me dariam grande
apoio ao longo dos anos seguintes.
Pouco tempo depois, levei Sam, meu filho de
quatro anos, a uma elegante loja de departamentos, onde a melodia de uma canção
de amor nos levou até um pianista.
Sam e eu nos sentamos perto dele e o menino
parecia petrificado pela melodia. De repente, Sam se levantou, veio para minha
frente, tomou meu rosto em suas mãozinhas e disse:
"Mamãe, dance comigo."
Se essas mulheres que circulam nos ambientes
mais luxuosos e românticos soubessem a alegria que esse convite feito por um
menino de rosto redondo e dentes de leite me proporcionou! Embora as vendedoras
estivessem rindo de nós e nos apontando enquanto deslizávamos e rodopiávamos,
eu não trocaria minha dança com este jovem charmoso e irresistível nem mesmo
pelo universo inteiro.
OS GRAMPOS DE CABELO
LINDA GOODMAN
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 121
Quando eu tinha sete anos, ouvi minha mãe dizer
a uma de suas amigas que ela faria trinta anos no dia seguinte. Duas coisas me
ocorreram: eu jamais imaginara que minha mãe fazia aniversário e não me
lembrava de ela ter recebido um presente nesta data.
Bem - eu podia fazer alguma coisa a esse
respeito. Raspei meu cofrinho e contei: vinte e cinco cents - cinco semanadas.
Fui à loja da esquina e falei com o dono, o
senhor Sawyer, que queria comprar um presente de aniversário para minha mãe.
Ele me mostrou tudo que se encaixava naquele
preço. Havia uns bibelôs de cerâmica, mas ela já tinha muitos - e ia ter de
espaná-los uma vez por semana. Também havia umas caixinhas de doce, mas mamãe
era diabética - não seriam apropriados.
Finalmente, ele me mostrou um pacote de grampos
de cabelo. Os cabelos de mamãe eram longos e escuros e ela os lavava e enrolava
duas vezes por semana. Quando os soltava no dia seguinte, parecia uma artista
de cinema, com os cachos sobre os ombros. Então decidi que os grampos eram o
presente ideal e paguei ao senhor Swayer com minhas moedas.
Levei os grampos para casa e os embrulhei em
uma página de histórias em quadrinhos do jornal (não sobrara dinheiro para
papel de presente). Na manhã seguinte, a família reunida à mesa do café,
entreguei o pacote a mamãe, dizendo: "Feliz aniversário, mamãe!"
Aturdida, em silêncio e com lágrimas nos olhos, rasgou o papel. Quando viu os
grampos, já estava soluçando.
"Desculpe, mamãe, não queria fazer você
chorar. Só queria que tivesse um aniversário feliz." "Mas estou
contente, meu amor", disse, sorrindo entre lágrimas. "Sabe que é o
primeiro presente de aniversário que recebo na vida?" Ela então beijou meu
rosto e agradeceu: "Obrigada, querida." Virou-se para meus irmãos e
irmã: "Vejam, Linda me deu um presente de aniversário!" E fez o mesmo
com meu pai:
"Veja, Linda me deu um presente de
aniversário!" E foi para o banheiro lavar os cabelos e enrolá-Ios com os
grampos novos.
Quando mamãe saiu da sala, meu pai me olhou,
dizendo:
"Linda, quando eu era menino, lá no sertão
(meu pai sempre chamava de sertão o lugar onde nascera, nas montanhas), não nos
preocupávamos em dar presentes de aniversário para adultos. Só para as
crianças. E, na família de sua mãe, eram tão pobres que nem isso faziam. Mas
vendo como você deixou sua mãe feliz hoje, acho que preciso pensar nisso. O que
quero dizer, Linda, é que você inaugurou uma nova fase em nossa vida." E
inaugurei mesmo. Depois disso, mamãe passou a receber presentes de aniversário
todos os anos, de meus irmãos, de minha irmã, de meu pai e de mim. E, claro,
com o tempo, os filhos passaram a ter mais condições e a lhe dar presentes
melhores. Quando eu tinha vinte e cinco anos, dei a ela um aparelho de som, uma
tevê colorida e um forno de micro-ondas (que ela trocou por um aspirador de
pó).
Quando mamãe fez cinquenta anos, todos os
filhos se reuniram para lhe dar um presente espetacular: um anel com uma pérola
rodeada de brilhantes. Quando meu irmão mais velho lhe entregou o anel na festa
que fizemos para homenageá-la, admirou o presente e fez questão que passasse
entre os convidados: "Não tenho filhos maravilhosos?", ela repetia.
Podíamos ouvir os murmúrios enquanto o anel
passava de mão em mão.
Depois que os convidados se foram, fiquei para
ajudar na arrumação. Estava lavando a louça na cozinha quando ouvi meus pais
conversando na sala.
"Bem, Pauline", dizia meu pai,
"que lindo anel. Acho que foi o melhor presente de aniversário de sua
vida." Meus olhos se encheram de lágrimas quando ouvi sua resposta:
"Ted", ela disse docemente, "claro que é um anel lindo. Mas sabe
qual foi o melhor presente de aniversário que já recebi? Aquela caixa de
grampos."
O JOGO DA MATERNIDADE
JACKLYN LEE LINDSTROM
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 125
Você com certeza conhece jogos de perguntas e
respostas em que se ganham ou perdem peças. Sempre pensei que ser mãe é mais ou
menos participar de um jogo assim. Parece que passamos a maior parte do nosso
tempo num labirinto, tateando a cada minuto da vida em família, sem ter certeza
se fizemos pontos ou não.
Assim, preparei meu próprio jogo para as mães.
As regras são simples - você começa com dez peças e ganha ou perde outras ao
longo do jogo.
Está pronta? Vamos lá!
Primeira casa:
QUADRADO I - Você está esperando seu primeiro
filho. Se você olha para sua cintura engrossando e diz: "Será que eu vou
voltar ao meu manequim?", perde duas pedras, pelo seu pensamento ansioso.
QUADRADO 2 - Dois anos depois, você está
prestes a ter o segundo filho. Para evitar ciúmes do primeiro, você passa horas
se dedicando a ele e até lhe dá um boneco para ele mesmo alimentar, dar banho e
ninar. Quando o bebê chega, você afirma gloriosa para si mesma e para os
outros: "Ele não sentiu qualquer ciúme." Perde uma pedra por duas
razões: por tratar o ciúme como um sentimento anormal e por negar o que se
passa com seu filho.
QUADRADO 3 - O seu mais velho anunciou no
jantar que vai representar uma árvore na peça do colégio e que precisa de uma
fantasia para amanhã de manhã. Se fica acordada até três da manhã e faz uma
roupa inovadora e original, perde três pedras, por dar um exemplo impossível
para todas nós. Mas se você o faz meter-se num saco de papel pardo, com buracos
para a cabeça e para os braços e cola com fita adesiva folhas verdes na frente
e atrás, ganha cinco pedras, pois acabou de nos redimir.
QUADRADO 4 -Agora são três crianças e estão na
escola. Você descobriu que "mãe" é sinônimo de "motorista”. Num
dia típico, você deixou a mais nova na aula de música e foi com os meninos ao
treino de futebol. Dali voltou para apanhar a menina e deixar os outros
jogadores do time em suas casas. O jantar é corrido porque alguém tem ensaio do
coro às sete horas. Na hora de dormir, você descobre que está sobrando uma
criança. Mas não se apavora... isso já aconteceu antes e logo o telefone vai tocar,
pois uma mãe descobriu que lhe falta uma criança. Você ganha Cinco peças pela
resistência.
QUADRADO 5 - As gracinhas que você amorosamente
acomodou na cama por tantos anos e para quem contou histórias de repente tratam
você como se fosse uma débil mental. Ficam envergonhados de serem vistos em sua
companhia. Adivinhe: você é mãe de adolescentes, essas estranhas criaturas que
pensam ter mais de dois metros de altura e serem à prova de bala. Ganha oito
peças por heroísmo sob fogo cerrado. Nessa fase, lembre-se sempre de que você
carrega a arma mais poderosa - a chave do carro!
QUADRADO 6 - Você sabe que seu filho mais velho
foi para a faculdade quando vê a pilha de roupa suja jogada na sala da frente.
Se você a apanha para separar, lavar e passar, como antigamente... perde três
peças. Por favor, não faça isso! Se, em vez disso, você o pega pela mão e
mostra onde as máquinas de lavar e secar estão desde que ele era pequeno, ganha
cinco peças. As coisas mais importantes da vida não são ensinadas na faculdade,
lembre-se.
QUADRADO 7 - As crianças, por milagre, se
tornaram adultos responsáveis. Por acaso, você ouve o mais velho contando para
o filho dele as mesmas histórias que você lhe contava e você chora emocionada.
Não se desespere - essas coisas são as riquezas da maternidade e esse jogo
trata exatamente disso.
Parabéns. Você ultrapassou a linha de chegada e
está na hora de somar os pontos. O jogo se chama "maternidade" e, se
não perdeu todas as suas peças, você ganhou!
Entre o tempo gasto indo para a escola e fazendo o dever de
casa é difícil encontrar um espaço para dar atenção à minha boneca.
AS RIQUEZAS DE MAMÃE
MARY KENYON
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 129
Deve haver algo muito especial numa mãe que
consegue educar uma filha sem que ela tome consciência da pobreza em que vive.
Eu não sabia que era pobre, até a segunda série
tinha tudo de que precisava: nove irmãos e irmãs para brincar, livros para ler,
uma boneca feita de retalhos e roupas limpas que mamãe habilidosamente
remendava ou, muitas vezes, fazia. Minha mãe lavava e trançava meu cabelo à
noite para eu ir à escola no dia seguinte, meus sapatos marrons estavam sempre
limpos e engraxados. Eu era feliz na escola, adorava o cheiro de lápis novos e
do papel grosso que a professora distribuía para nossos trabalhos. Absorvia os conhecimentos
como uma esponja, ganhando o cobiçado privilégio de levar mensagens para a sala
do diretor durante uma semana.
Ainda me lembro do dia em que, com um
sentimento de orgulho, subi sozinha os degraus da escola. Indo para minha sala,
encontrei duas meninas mais velhas. Uma segredou para a outra: "Olhe, essa
é a menina pobre." E elas riram. Com o rosto vermelho e segurando as
lágrimas, fiquei transtornada.
No caminho para casa, tentei eliminar os
sentimentos conflitantes que os comentários das garotas me causaram. Fiquei
imaginando por que as meninas me consideravam pobre. Olhei de modo crítico para
meu vestido e, pela primeira vez, notei como era desbotado, um vinco na bainha
denunciando que tinha sido aproveitado. Sei que os pesados sapatos de menino
eram os únicos que evitavam que eu andasse na lateral dos pés, mas de repente
me senti envergonhada por serem tão feios.
Quando cheguei, tive pena de mim. Senti como se
estivesse entrando na casa de um estranho, olhando para tudo de modo crítico.
Vi o tapete velho na cozinha, manchas de dedos na pintura meio descascada das
portas. Abatida, não respondi à saudação alegre de minha mãe que preparava
biscoitos de aveia para o lanche. Tudo me pareceu feio e acanhado. Fiquei
trancada no quarto até a hora do jantar, imaginando como falar com mamãe sobre
pobreza. Por que da não me contara? Por que tive de descobrir por outras pessoas?
Enchi-me de coragem e fui para a cozinha:
"Nós somos pobres?", perguntei de repente, meio desafiadora. Esperei
que ela negasse, contestasse ou, pelo menos, desse uma explicação satisfatória,
para que eu não me sentisse tão mal. Minha mãe me olhou contemplativamente, sem
nada dizer por um instante.
"Pobres?", repetiu pousando a faca
com que descascava batatas. "Não, não somos pobres. Olhe para tudo que
temos", ela disse, apontando para meus irmãos que brincavam na outra sala.
Através dos olhos de minha mãe pude ver o fogo
da lareira que enchia a casa com seu calor, as cortinas coloridas e os tapetes
de retalhos feitos por ela e que enfeitavam a casa, o prato cheio de biscoitos
de aveia sobre a cômoda. Do lado de fora, o quintal que oferecia alegria e
aventura para dez crianças. Ela continuou: "Talvez algumas pessoas pensem
que somos pobres em matéria de dinheiro, mas temos tanto..." E, com um
sorriso, minha mãe se virou para preparar mais uma refeição para sua família,
não se dando conta de que, a cada noite, ela alimentava muito mais do que
estômagos vazios. Ela alimentava meu coração e minha alma.
BRINCAR TAMBÉM É IMPORTANTE
JAYNE JANDON FERRER
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 132
Perdoai-me, Senhor, por todas as tarefas que hoje
ficaram por fazer. Mas, de manhã, quando meu filho, com seus passinhos
incertos, entrou no quarto e pediu: "Mamãe, quer brincar comigo?", eu
simplesmente tive de dizer sim.
E entre os quebra-cabeças e caminhões, cubos de
madeira e bonecos, velhos chapéus, livros e risadas, dividimos mil pensamentos
especiais, centenas de esperanças, sonhos e muitos abraços. E quando à noite,
na hora de rezar, ele juntou as mãozinhas e falou baixinho: "Obrigado,
Deus, por mamãe e papai, pelos meus brinquedos, pelo cachorro-quente, pelo
sorvete de chocolate e por mamãe brincar comigo", eu sabia que tinha sido
um dia bem gasto.
E tinha certeza de que o Senhor entenderia.
FLORES PARA O DIA DAS MÃES
PATRICIA A. RINALDI
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 133
Quando meu marido anunciou calmamente que, após
onze anos de casamento, havia dado entrada em nosso divórcio e estava saindo de
casa, meu primeiro pensamento foi para os meus filhos. O menino tinha apenas
cinco anos e a menina quatro. Será que eu conseguiria nos manter unidos e
passar para eles um sentido de "família”? Será que eu, criando-os sozinha,
conseguiria manter o nosso lar e ensinar-lhes a ética e os valores dos quais
certamente precisariam para a vida? A única coisa que eu sabia era que precisava
tentar.
Frequentávamos a igreja todos os domingos.
Durante a semana, eu arranjava tempo para rever os deveres de casa com eles e,
frequentemente, discutíamos a importância de fazermos as coisas certas. Isso me
tomava tempo e energia quando eu tinha pouco de ambos para dar. Mas o pior era
não saber se realmente estavam absorvendo aquilo tudo.
Ao entrarmos na igreja no Dia das Mães, dois
anos após o divórcio, notei carrocinhas cheias de vasos com as mais lindas
flores ladeando o altar. Durante o sermão, o pastor disse que, a seu ver, ser
mãe era uma das tarefas mais difíceis da vida e que merecia não só
reconhecimento como, também, recompensa.
Assim, pediu que cada criança fosse até a
frente da igreja para escolher uma linda flor e entregá-la à mãe como símbolo
do quanto era amada e estimada.
De mãos dadas, meu filho e minha filha
percorreram o corredor com as outras crianças. Juntos, refletiram sobre qual
planta trazer para mim. Nós havíamos passado momentos muito difíceis e esse
pequeno gesto de valorização era tudo que eu precisava. Olhei aquelas lindas
begônias, as margaridas douradas e os amores-perfeitos violetas e pus-me a
planejar onde plantar o que quer que escolhessem para mim, pois certamente
trariam uma linda flor como demonstração de seu amor.
Meus filhos levaram a tarefa muito a sério e
olharam cada vaso. Muito depois de as outras crianças já terem retomado aos
seus lugares e presenteado suas mães com uma linda flor, meus dois ainda
escolhiam. Finalmente, com um grito de alegria, acharam algo bem no fundo. Com
sorrisos exuberantes a iluminar seus rostos, avançaram satisfeitos pelo
corredor até onde eu estava sentada e me presentearam com a planta que haviam
escolhido como demonstração de seu apreço por mim pelo Dia das Mães.
Fiquei olhando estarrecida para aquele pequeno
ser roto, murcho e doentio que meu filho estendia em minha direção.
Aflita, aceitei o vaso de suas mãos. Era óbvio
que os dois haviam escolhido a menor planta, a mais doente de todas – nem flor
tinha. Olhando para seus rostinhos sorridentes, percebi o orgulho que sentiam
daquela escolha e, sabendo o quanto haviam demorado para selecionar aquela
planta em especial, sorri e aceitei a lembrança.
Mais tarde, no entanto, tive de perguntar - de
todas aquelas flores maravilhosas, o que os havia feito escolher justamente
aquela para me dar?
Todo orgulhoso, meu filho declarou:
- É que aquela parecia precisar de você, mamãe.
Enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto, abracei meus dois filhos, bem
apertado. Eles acabavam de me dar o maior presente de Dia das Mães que jamais
poderiam ter imaginado. Todo o meu trabalho e sacrifício não havia sido em vão
- eles iam crescer perfeitamente bem.
O TELEFONEMA À MEIA-NOITE
CHRISTIE CRAIG
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 136
Todos nós conhecemos a sensação de receber
aquele telefonema no meio da noite. O telefonema daquela noite não foi
diferente.
Pulando da cama para atender àquela convocação
tilintante, focalizei os números vermelhos e luminosos do relógio. Meia noite.
Pensamentos aterrorizantes enchiam minha mente, um tanto atordoada pelo sono,
quando agarrei o fone.
- Alô?
Com o coração ribombando dentro do peito,
segurei o fone com mais força ainda e olhei para meu marido, que agora se
virava para ficar de frente para mim.
- Mamãe? - A estática mal permitia que eu
ouvisse o sussurro. Mas meus pensamentos imediatamente voltaram-se para minha
filha. Quando o som desesperado de uma voz jovem e chorosa ficou mais nítido
através da linha telefônica, tateei em busca de meu marido e pressionei seu
punho.
- Mamãe, eu sei que é tarde. Mas não... não
diga nada até eu terminar. E antes que você pergunte, sim, eu andei bebendo.
Quase perdi a direção e saí da estrada há
alguns quilômetros e...
Resfoleguei - um arquejo brusco, entrecortado.
Soltei meu marido e pressionei a mão de encontro à testa. O sono ainda anuviava
a minha mente e tentei vencer o pânico. Algo não estava certo.
- Fiquei tão assustada. Só conseguia pensar no
tamanho da sua dor se um policial batesse à sua porta para lhe dizer que eu
estava morta. Eu quero... quero ir para casa. Sei que você está doente de tanta
preocupação. Eu deveria ter ligado há dias, mas estava com tanto medo... com
tanto medo...
Soluços do mais profundo sentimento fluíram de
dentro do fone e desaguaram no meu coração. Imediatamente, visualizei o rosto
de minha filha e meus sentidos enevoados pareceram clarear.
- Acho...
- Não! Por favor, deixe-me terminar! Por favor!
- ela implorava, menos por zanga do que por desespero.
Fiz uma pausa e tentei pensar no que dizer.
Antes que pudesse ir em frente, ela continuou:
- Estou grávida, mamãe. Sei que não deveria
estar bebendo agora... justamente agora, mas estou com medo, mamãe. Com tanto
medo!
A voz se calou outra vez e eu mordi o lábio
sentindo os olhos umedecerem. Olhei para o meu marido sentado, imóvel, fazendo
movimentos com a boca sem emitir um único som: "Quem é?"
Balancei a cabeça e, como não respondi, ele
pulou da cama e deixou o quarto, retomando segundos depois com o sem-fio colado
ao ouvido.
Ela deve ter ouvido o dique na linha, pois
continuou:
- Você ainda está me ouvindo? Por favor, não
desligue!
Preciso de você. Estou me sentindo tão sozinha.
Apertei o telefone na mão e fitei meu marido em
busca de orientação.
- Estou aqui, eu não desligaria o telefone -
disse eu.
- Eu deveria ter lhe contado, mamãe. Sei que
deveria ter lhe contado. Mas, quando a gente conversa, você só fica dizendo o
que eu devo fazer. Lê todos aqueles folhetos sobre como conversar com os filhos
sobre sexo, e tudo o mais, mas só faz falar. Você não me escuta. Nunca deixa eu
lhe dizer como me sinto. É como se o que sinto não tivesse importância. Como
você é minha mãe, acha que tem todas as respostas. Mas algumas vezes não
preciso de respostas. Só quero alguém que me escute.
Engoli o bolo que se formava em minha garganta
e fiquei olhando, fixamente, para os folhetos de "Como conversar com seus
filhos" espalhados sobre a mesinha-de-cabeceira.
- Estou ouvindo - sussurrei.
- Sabe, lá na estrada, quando consegui
controlar o carro outra vez, comecei a pensar no bebê, em cuidar dele. Então,
vi o telefone público e foi como se pudesse ouvir você dizer que ninguém deve
beber e dirigir. Então chamei um táxi. Quero ir para casa.
- Que bom, meu bem - afirmei, o alívio
inundando o meu peito. Meu marido chegou mais perto, sentou-se ao meu lado e
entrelaçou os dedos nos meus. Compreendi, pelo toque, que ele achava que eu
estava fazendo e dizendo a coisa certa.
- Mas, sabe, acho que já consigo dirigir.
- Não! - vociferei. Meus músculos enrijeceram e
eu apertei ainda mais a mão de meu marido. - Por favor, espere o táxi.
Não desligue até o táxi chegar.
- Eu só quero ir para casa, mamãe.
- Eu sei. Mas faça isso pela mamãe. Espere o
táxi, por favor.
Fiquei ouvindo aquele silêncio, amedrontada.
Quando a resposta não veio, mordi o lábio e fechei os olhos. De alguma maneira,
eu precisava impedir que ela dirigisse.
- Pronto, o táxi chegou.
Só senti a tensão diminuir quando ouvi alguém
ao fundo perguntar sobre um táxi.
- Estou indo para casa, mamãe. - Então fez-se
um dique e o telefone ficou mudo.
Levantando da cama com lágrimas formando em
meus olhos, atravessei o corredor e fui até o quarto de minha filha de
dezesseis anos. O silêncio sombrio fazia pesar o ar. Meu marido chegou por trás
de mim, passou os braços em torno de meu corpo e pousou o queixo no topo de
minha cabeça.
Sequei as lágrimas das faces.
- Precisamos aprender a escutar - disse-lhe.
Ele me virou para que eu pudesse encará-lo.
- E vamos aprender. Você vai ver. - Então me
abraçou e eu afundei a cabeça em seu ombro.
Deixei que ele me abraçasse por diversos
minutos, então me afastei e cravei os olhos na cama. Ele me fitou por um
instante e, então, perguntou:
- Acha que algum dia ela vai se dar conta de
que discou o número errado?
Olhei para nossa filha, adormecida, e novamente
para ele.
- Talvez não tenha sido tão errado assim.
- Mãe, pai, o que é que vocês estão fazendo? -
perguntou aquela vozinha jovem, chegando abafada de debaixo do cobertor.
Aproximei-me de minha filha, que agora se
encontrava sentada, olhos fitando a escuridão.
- Estamos treinando - respondi.
- Treinando o quê? - murmurou ela, deitando-se
outra vez sobre o colchão, os olhos já fechados, o sono chegando.
- A escutar - disse eu, bem baixinho, roçando a
mão levemente em sua face.
Uma das necessidades humanas mais antigas é ter alguém
para se perguntar onde você está quando não volta para casa
à noite.
MARGARET MEAD
Sabe qual o presente que eu quero, vó? Você!
MÃES E FILHAS
PATRICIA BUNIN
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 142
-
Você não vai esquecer de trazer o espremedor de batatas, vai? - perguntei à
minha mãe logo depois de lhe contar que teria de fazer uma mastectomia, Mesmo
aos oitenta e dois anos de idade e a quatro mil e oitocentos quilômetros de
distância, ela sabia o que eu queria dizer com aquilo: purê de batatas bem
ralinho.
Era
isso que preparava para mim a cada doença ou percalço de minha infância -
servido numa tigela de sopa com uma reluzente colher redonda. Mas eu havia tido
sorte quando criança e raramente adoecia. Era mais frequente que aquela batata
medicinal resolvesse algum desapontamento ou resfriado.
Desta
vez, no entanto, a doença era séria.
Chegando
no voo da meia-noite, vindo da Virgínia, minha mãe me pareceu fresca como uma
margarida quando passou pela porta de minha casa, na Califórnia, no dia em que
voltei do hospital. Eu mal conseguia manter os olhos abertos, mas a última
coisa que vi antes de adormecer foi mamãe, abrindo o zíper da mala
cuidadosamente arrumada para pegar o espremedor de batatas de sessenta anos de
idade. Aquele que ganhou no chá de panelas, com um cabo de madeira já gasto e
anos de recordações.
Ela
estava na cozinha espremendo batatas para fazer purê no dia em que lhe contei,
chorosa, que teria de me submeter a uma quimioterapia. Ela baixou o espremedor
e me olhou diretamente nos olhos.
-
Fico com você o tempo que for necessário - disse-me ela.
-
Não tenho nada mais importante a fazer nesta vida do que ajudá-la a ficar bem.
- Eu sempre achara que era a teimosa da família, mas nos cinco meses que se
seguiram percebi que herdara essa característica muito honestamente.
Minha
mãe decidiu que eu não ia morrer antes dela.
Simplesmente
não aceitaria aquilo. Me levava para fazer caminhadas diárias até mesmo quando
eu não aguentava passar da entrada da garagem. Amassava as pílulas que eu tinha
de tomar e as enfiava em geleias porque, até mesmo na meia-idade e com uma
filha crescida, eu não conseguia engolir comprimidos muito melhor do que quando
era criança, Quando meus cabelos começaram a cair, ela comprou os chapéus mais
engraçadinhos para mim. Me dava refrigerante de gengibre sem gelo numa taça de
cristal para acalmar a minha barriga e ficava acordada comigo nas noites de
insônia. Servia-me chá em xícaras de porcelana.
Quando
eu estava para baixo, ela estava para cima. Quando ela estava para baixo, eu
devia estar dormindo. Nunca deixou que eu a visse assim. E, no final, eu fiquei
boa. E voltei a escrever.
Descobri
que o Dia das Mães não acontece em algum domingo de maio e sim em todos os dias
em que se tem a sorte de ter por perto uma mãe que nos ama.
Se eu soubesse como é maravilhoso ter netos, eu os teria
antes dos filhos. LOIS WYSE
A FÉ SE APRENDE PELO AMOR
D. PAULO EVARISTO ARNS - Extraído do livro Da Esperança à
Utopia
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 145
Quando lembro a figura de minha mãe me vem à
memória o livro escrito sobre ela por todos os filhos e netos (Mãe Helena, a
Oma - Curitiba, 1995). Minha mãe, extremamente dedicada a meu pai, sabia também
cultivar no coração dos filhos o amor a todas as pessoas e o respeito para com
os idosos e as crianças.
A recordação mais antiga que guardo de mamãe é
da época em que eu tinha uns três anos de idade: ela me revelou que eu tivera
uma irmãzinha chamada Irma que morrera com um ano e meio. Era véspera de
Finados. No dia seguinte iríamos todos rezar pelos falecidos. Passei a tarde e
à noite pensando como teria sido minha irmãzinha falecida. "Irma não pode
mais voltar pra ficar conosco?", perguntei a mamãe. Ela explicou que os
mortos estão vivos, mas com Deus, numa grande família em que tudo é só alegria,
e que eles nos ajudam. E prometeu: "Amanhã, na capela da colônia”, eu iria
sentir isso.
Sonho e excitação se misturaram.
"Amanhã" seria o dia! Iria ver como Irma, bem viva junto a Deus, nos
apareceria. Eu iria vê-la! Sabia que a capela, a maior e mais bela construção
da colônia, era a Casa de Deus. Não me lembro se a expectativa me deixou dormir
aquela noite.
Calça de brim, camisa estampada, procurei meus
tamancos.
Só cheguei a conhecer sapatos aos oito anos.
Arrumado, andava à frente de todos, a caminho da capela.
Ocupamos o terceiro banco. O altar, de madeira
esculpida, devia estar encobrindo o reino da alegria onde Deus se encontrava
com sua família, minha irmãzinha à nossa espera.
Tudo começou com o canto. Era o povo e o coral,
tão presente nas colônias alemãs, que se revezavam com as orações
"puxadas" pelo tio Jacó. De vez em quando me levantava do banco para
ver se não acontecia o que fora prometido por mamãe. Irma iria aparecer. Talvez
em meio aos anjos, perto de Deus Pai. Iria reconhecê-la de imediato e buscá-la
para trazer comigo, saltitando morro abaixo, percorrendo os duzentos metros que
separavam nossa casa da capela.
Em certo momento houve uma pausa. "É
agora”, pensei.
Olhei para o lado. Todos de cabeça abaixada
refletiam. Mas eu queria ver, e iria ver. Disso estava seguro.
A hora e meia de cantos, preces e intenções
sempre me parecera comprida demais. Naquele dia, não, porque esperava o
principal: ver a família de Deus e os amigos dele, entre os quais Irma, que eu
amava sem nunca a ter visto. Devia estar vestida de branco, ou de vestido de
chita colorido. Cabelos castanhos ou louros. Alegre, muito alegre, como todos
em casa.
Tive um choque quando papai se levantou e me
tomou pela mão. Ele, o chefe da colônia, certamente teria o direito de
encontrar-se primeiro com Deus, que era chefe maior ainda e pai de família
numerosa. Papai foi saindo do banco, fez uma reverência na direção do altar e
se dirigiu à porta da saída da capela.
Talvez o encontro fosse à frente da capela, o
lugar mais festivo da colônia, onde se faziam as festas, os leilões e as
quermesses. Lá é que se cortavam as melancias arrematadas, os bolos comprados e
as garrafas de gasosa, o refrigerante mais apreciado no lugar.
Todavia, à frente da capela só restavam o vazio
e o verde das pastagens. Papai me segurou mais firme pela mão enquanto eu
buscava descobrir onde estava mamãe para perguntar-lhe quando Irma iria
aparecer.
Fomos ao cemitério, a cinquenta passos dali.
Paramos à frente de um túmulo cercado de tijolos, enfeitado com muitas flores.
Aí chegou mamãe: rosto sereno, quase alegre. Ela era sempre assim quando
acabava de rezar. Reclamei:
- Mãe, não vi a Irma. Você prometeu que ela
voltava hoje.
Nem sei como cheguei a falar tanto. O auge da
emoção já se misturava com a decepção. Minha mãe acolheu, carinhosa, minha
decepção:
- Filho, vamos rezar mais um pouco.
Foi o tempo do pai-nosso e ave-maria, as únicas
orações que eu sabia rezar junto. Quando acabou a prece, ela encostou a cabeça
na minha, pôs a mão em meu ombro e disse:
- A gente vê Deus quando reza direito e sente
que ele está perto de nós para nos ajudar em tudo. Sua irmã Irma vai ser sua
companheira durante toda a vida para ajudá-lo. Só que você não pode vê-la como
vê a casa, o cachorrinho e a gente. Nós vemos Deus e os amigos dele quando
gostamos deles. É o coração que vê.
Não entendi tudo. Mas, na vida, muitas vezes me
soou a frase: "É o coração que vê Deus e seus amigos." A fé se
aprende pelo amor.
APRENDENDO A ESCUTAR
MARION BOND WEST
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 149
Um ano, viajei para uma conferência de escritores.
Ao chegar em casa, em Atlanta, minha família me aguardava. Depois de nos
abraçarmos, comecei a lhes contar sobre a viagem. Ou, pelo menos, tentei. Todos
queriam me contar alguma novidade diferente - especialmente Jeremy, de oito
anos. Pulava para cima e para baixo para ser ouvido e falava mais alto do que
as outras crianças, mais alto até do que meu marido, Jerry.
Todo mundo precisa de alguma coisa de mim,
pensei. Não querem nem saber sobre a minha viagem. O que é mesmo que Jeremy não
pára de repetir?
- Cartolina, mamãe! Eu preciso de cartolina.
Vamos ter um concurso lá na escola.
Acalmei-o, com evasivas, prometendo que
conversaríamos mais tarde. De volta ao lar, me reacostumei ao telefone, à
campainha, a separar a roupa suja, a participar do revezamento de mães que
levam as crianças na escola, a responder perguntas e a secar líquidos
entornados. Eu lutava contra a arrepiante certeza de que, por mais que
tentasse, não conseguia acompanhar as necessidades de minha família. Enquanto
andava de um lado para o outro, apressada, tentando decidir o que fazer a
seguir, Jeremy me lembrava:
- Manhê, preciso de cartolina.
Pouco a pouco, entretanto, passou a falar mais
baixo, quase como se falasse com ele mesmo. Assim, coloquei o pedido de Jeremy
no final da minha longa lista de afazeres. Talvez ele simplesmente desista de
falar nessa cartolina, pensei, esperançosa.
Em meu terceiro dia em casa, consegui roubar
quinze minutinhos para tentar digitar um artigo. Sentada diante da máquina de
escrever, ouvi a secadora parar. Hora de colocar outro cesto de roupa para
secar. Dois telefonemas importantes precisavam ser retomados. Uma de minhas
filhas havia implorado comigo, diversas vezes, para ouví-Ia recitar parte de
"Os Cantos de Cantuária”. Uma das gatas passou mais de uma hora miando na
minha cara, tentando fazer com que a alimentasse. Alguém havia derramado suco de
laranja no chão da cozinha e lambuzado tudo com uma toalha seca. Já passava da
hora de começar a preparar o jantar e eu ainda nem havia almoçado. Não
obstante, escrevi alegremente durante alguns parcos minutos.
Uma pequena sombra caiu sobre a minha folha de
papel. Eu sabia quem era antes mesmo de erguer a vista. Levantei os olhos,
mesmo assim. Jeremy ficou ali, de pé, me observando calado. Oh, Senhor, permita
que ele não toque no assunto outra vez. Eu sei que precisa de cartolina. Mas eu
preciso escrever.
Sorri muito sutilmente para Jeremy e continuei
a digitar. Ele me olhou por mais alguns minutos e virou-se para ir embora. Por
pouco não o ouço comentar:
- Tudo bem, o concurso termina amanhã mesmo.
Eu queria tanto escrever que, com um esforço
mínimo, poderia ter deixado de ouvir aquela observação. Mas não dava para
ignorar a voz silenciosa que falou, com urgência, direto ao meu coração. Vá
comprar a cartolina dele - agora! Desliguei a máquina de escrever elétrica.
- Vamos comprar cartolina, Jeremy.
Ele parou, virou e me olhou sem sorrir e sem
nada dizer quase como se não tivesse me ouvido.
- Vamos - eu o apressei, agarrando a bolsa e as
chaves do carro.
Mesmo assim, ele não se mexeu.
- Precisa comprar mais alguma coisa, mamãe?
- Não, só a sua cartolina.
Caminhei em direção à porta. Ele molengou um
pouco e perguntou:
- Está indo à papelaria só por minha causa?
Parei e baixei a cabeça para olhá-lo. Realmente
olhá-lo.
Marcas do que quer que tivesse comido na escola
manchavam sua camisa. Os sapatos largos desamarrados e os restos de suco de
laranja que viravam para cima os cantos daquela boquinha sem sorriso conferiam
a Jeremy a aparência de um palhacinho.
Subitamente, uma expressão de puro deleite
invadiu o seu rosto, apagando qualquer traço de incredulidade. Não creio que
jamais esquecerei aquele momento. Dali em diante, passou a movimentar-se com
incrível rapidez e, correndo para a base da escada, atirou a cabeça para trás e
gritou:
- Ei, Julie, Jen, Jon, a mamãe vai me levar à
papelaria!
Alguém precisa de alguma coisa?
Ninguém respondeu, mas ele não pareceu notar.
Correu para o carro com expressão de manhã de Natal. Na loja, em vez de correr
à minha frente, segurou firme a minha mão e começou a falar muito rápido,
contando sobre o concurso.
- O assunto é prevenção contra incêndios. A professora
anunciou há muito tempo e, quando falei com você, você disse que a gente falava
disso mais tarde. Aí, você viajou. O concurso termina amanhã. Vou ter de dar um
duro danado. E se eu ganhar?
E ele foi em frente com infindável entusiasmo,
como se tivesse pedido que eu comprasse a cartolina uma única vez.
Jeremy não queria um pedido de desculpas. Isso
teria estragado a sua alegria. Então, me limitei a escutá-lo. Prestei mais
atenção no que dizia do que jamais havia prestado, para quem quer que fosse.
Depois que comprou a cartolina, eu perguntei:
- Vai precisar de mais alguma coisa?
- Você tem bastante dinheiro? - sussurrou.
Sorri para ele, sentindo-me muito rica de
repente.
- Tenho, por acaso hoje eu estou cheia de
dinheiro. Do que mais precisa?
- Você pode comprar uma cola só para mim e
cartolina colorida?
Peguei os artigos restantes e, ao chegarmos ao
caixa, Jeremy, que normalmente não faz confidências a estranhos, disse: - Vou
fazer um pôster. Minha mãe me trouxe até aqui para comprar o material. - Ele
tentava soar natural, mas o rosto o entregava.
Passou a tarde toda trabalhando no pôster,
silenciosamente e com enorme determinação.
O vencedor do concurso foi anunciado pelo
alto-falante da escola dois dias depois. Jeremy ganhou. Seu pôster foi então
inscrito no concurso do condado. Venceu este também. O diretor da escola
escreveu-lhe uma carta e anexou um cheque de cinco dólares. Jeremy escreveu uma
história sobre o concurso.
Deixou-a sobre a cômoda e eu a li. Uma frase
saltou aos meus olhos: "Então a mamãe parou de bater à máquina, escutou o
que eu estava dizendo e me levou, eu sozinho, na papelaria." Algumas
semanas mais tarde, um imenso envelope pardo chegou pelo correio endereçado a
Jeremy. Ele o abriu com um rasgão e leu em voz alta -lentamente e quase sem
acreditar - o Certificado de Honra: "Este documento atesta que Jeremy West
tem a honra de chegar às finais estaduais do Concurso de Pôsteres da Geórgia
com o tema Prevenção contra Incêndios." Fora assinado pelo
tesoureiro-geral do estado.
Jeremy se atirou no chão e deu cambalhotas,
rindo bem alto. Emolduramos o certificado e, com frequência, quando o olho,
lembro-me de que, por muito pouco, quase dera as costas para o seu pedido: de
que comprasse uma cartolina para ele.
AMOR DE MÃE
PAT LAYE
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 154
Quando penso na família de Clara Harden, o que
me vem à mente é a felicidade. O som de risos sempre me acolheu em minhas
visitas.
O modo de vida deles era muito, mas muito
diferente do meu. A mãe de Clara acreditava que alimentar a mente era mais
importante do que realizar tarefas triviais. Para ela, cuidar da casa não era
uma grande prioridade. Com cinco filhos de idades variadas - indo de Clara, a
mais velha, com doze anos, a um bebê de dois anos -, essa falta de ordem às
vezes me incomodava, mas nunca por muito tempo. Aquela casa vivia imersa em
algum estado de caos, com pelo menos uma pessoa em crise real ou imaginária.
Mas eu adorava fazer parte daquele bando turbulento, com sua atitude
despreocupada e positiva perante a vida. A mãe de Clara nunca estava ocupada
demais para nós.
Parava de passar roupa para nos ajudar com
algum projeto da equipe de chefes de torcida ou então desligava o aspirador de
pó para convocar a trupe inteira para um passeio no bosque para colher
espécimes para o projeto de ciências de algum filho.
Nunca dava para saber o que você ia acabar
fazendo quando visitava aquela família. Suas vidas eram repletas de
divertimento e de amor - de muito amor.
Assim, o dia em que as crianças da família
Harden saltaram do ônibus escolar com olhos vermelhos e inchados, eu soube que
algo de muito errado havia acontecido. Corri até Clara e puxei-a para um canto
implorando para ouvir o que havia acontecido, mas sem estar preparada para a
resposta. Na noite anterior, a mãe de Clara lhes contara que tinha um tumor
terminal no cérebro e que lhe restava apenas alguns meses de vida. Eu me lembro
tão bem daquela manhã. Clara e eu fomos para trás do prédio da escola onde soluçamos,
abraçadas, sem saber como dar fim àquela dor incrível. Ficamos ali,
compartilhando o nosso pesar até tocar o sinal para a primeira aula.
Vários dias se passaram até eu ir à casa dos
Harden outra vez. Apreensiva com a angústia e o sofrimento e habitada por uma
imensa culpa por minha vida ter continuado igual, fui protelando até minha mãe
me convencer de que não podia negligenciar minha amiga e sua família num
momento de tristeza.
Então fui fazer-lhes uma visita. Quando entrei
na casa, para minha surpresa e deleite, ouvi música alegre e uma barulheira de
vozes numa animada discussão entrecortada por risadas e gemidos queixosos. A
Sra. Harden estava sentada no sofá jogando Banco Imobiliário com todos os
filhos à sua volta. Todos me receberam com sorrisos enquanto eu lutava para
conter o meu assombro. Não era isto que eu esperava.
Finalmente, Clara desvencilhou-se do jogo e
fomos para o seu quarto, onde ela me explicou o que estava acontecendo. A mãe
lhes dissera que o maior presente que poderiam lhe dar era tocar a vida como se
nada estivesse errado. Queria que suas últimas recordações fossem felizes e
todos haviam concordado em se esforçar.
Um dia, a mãe de Clara me convidou para um
evento especial. Corri para lá e a encontrei com um imenso turbante dourado na
cabeça. Ela me explicou que havia resolvido usar aquilo em vez de uma peruca,
já que os cabelos começavam a cair.
Colocou miçangas, cola, hidrográficas
coloridas, tesouras e pano sobre a mesa e nos instruiu a enfeitá-Io, enquanto
permanecia sentada como o mais nobre marajá. Transformamos um turbante sem
graça num objeto de chamativa beleza, cada um de nós dando o seu toque
especial. Mesmo enquanto discutíamos onde colocar a bugiganga seguinte, eu me
dei conta do quanto a Sra.
Harden estava pálida e frágil. Mais tarde,
tiramos uma foto com a mãe de Clara, cada qual apontando orgulhosamente para a
sua contribuição para o turbante. Uma recordação divertida de se guardar -
muito embora o temor silencioso de que ela nos deixasse não estivesse muito
longe.
Finalmente chegou o triste dia em que a mãe de
Clara morreu. Nas semanas que se seguiram, a angústia e a dor dos Harden foi
algo impossível de descrever.
Então, um dia, cheguei na escola e encontrei
uma Clara muito animada, rindo e gesticulando alvoroçada diante dos colegas de
turma. Ouvi o nome de sua mãe ser repetido com frequência. A velha Clara estava
de volta. Quando cheguei ao seu lado, ela me explicou o motivo de sua alegria.
Naquela manhã, ao vestir a irmãzinha mais nova para a escola, havia encontrado
um bilhete engraçado que a mãe escondera dentro da meia da menina. Era como ter
a mãe de volta.
Naquela tarde, a família Harden virou a casa de
cabeça para baixo à caça de mais recados. Cada nova mensagem encontrada era
compartilhada, embora algumas tenham passado despercebidas. No Natal, ao
tirarem os enfeites do sótão, encontraram uma maravilhosa mensagem de Natal.
Nos anos que se seguiram, as mensagens
continuaram a surgir, esporadicamente. Uma emergiu até mesmo na formatura de
Clara, e outra, no dia de seu casamento. A mãe havia confiado cartas a amigos,
que as entregavam em cada ocasião especial.
Até mesmo no dia em que nasceu o primeiro filho
de Clara, chegou um cartão com uma comovente mensagem. Cada filho recebeu esses
bilhetes curtos e engraçados ou então cartas repletas de amor, até o último se
tornar adulto.
O Sr. Harden se casou outra vez e no dia de seu
casamento um amigo lhe entregou uma carta escrita pela esposa - a ser lida para
os filhos - na qual ela lhe desejava felicidades e instruía os filhos a
cercarem a madrasta de amor, pois tinha imensa fé de que o pai jamais
escolheria uma mulher que não fosse generosa e carinhosa com seus preciosos
rebentos.
Muitas vezes pensei na dor que a mãe de Clara
deve ter sentido ao escrever aquelas cartas para os filhos. Também imaginei a
alegria traquinas que a invadia enquanto escondia aqueles bilhetinhos. Mas em
nenhum momento deixei de me impressionar com as recordações maravilhosas que
ela proporcionou para aquelas crianças apesar da dor que sofreu, em silêncio, e
da angústia que deve ter sentido em deixar a sua adorada família.
Esses atos de desprendimento exemplificam o
maior amor materno que jamais conheci.
Estou convencido de que o maior legado que podemos deixar
para os nossos filhos são lembranças felizes.
OG MANDINO
SAINDO DE CASA
BETH COPELAND VARGO
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 159
- Eu não vou chorar - disse a Chuck, meu marido,
ao deixarmos a sessão de orientação para pais, organizada diversos meses antes
de nossa filha partir para a faculdade.
Talvez as outras mães chorassem ao deixarem os
seus filhos no alojamento, mas eu não choraria. Olhei à minha volta, no
auditório, para todas as outras mães e me perguntei quais delas seriam as
choronas. Pensei assim: "Eu é que não vou me agarrar a uma caixa de lenços
de papel quando chegar a hora de me despedir de Sarah. Sou mais forte do que
isso. Para que me lamuriar e soluçar só porque a minha garotinha está
crescendo?" Passamos a tarde inteira ouvindo os pais dos veteranos falarem
do quanto as nossas vidas mudariam quando nossos filhos partissem para a
faculdade. Uma mãe mais experiente avisou que choraríamos até chegar em casa.
Cutuquei Chuck:
- Isto é ridículo - comentei. - Por que será
que estão dando tanta trela para isso tudo? - Ser mãe era importante para mim,
mas, pelo amor de Deus, não era a única coisa! Tenho emprego, tenho amigos, eu
tenho uma vida!
Sarah e eu passamos o verão inteiro nos
alfinetando. Eu detestava sua mania de dizer que não aguentava esperar até
partir para a faculdade - como se sua vida em casa, conosco, fosse uma espécie
de cativeiro. Ela odiava o fato de eu viver pedindo que limpasse o quarto e
colocasse a louça suja dentro da pia; a maneira de eu resmungar quando
precisava usar o telefone e ela estava ocupando a linha; a maneira de lhe
perguntar por onde andara quando saía com os amigos. Afinal de contas, tinha
dezoito anos. Não precisava ficar dando satisfações à mãe a cada
cinco minutos.
Em agosto, encontrei minha amiga Pat na
biblioteca.
Pat recordou as semanas anteriores à partida da
filha para a faculdade.
- Passamos o verão inteiro às turras - contou.
- Acho que foi a nossa forma de nos acostumarmos a viver longe uma da outra.
Quando a gente passa o tempo todo discutindo, com raiva, não se sente tão mal
quando ela está partindo.
- Além disso - reagi, pensativa -, ela não se
sente tão mal por estar partindo quando passa o tempo todo fula da vida com a
mãe.
No dia da mudança, nós a ajudamos a desfazer as
malas e a guardar seus pertences no quarto do alojamento. Cobri o colchão de
Sarah com lençóis extralongos enquanto Chuck montava uma prateleira dentro de
seu guarda-roupa. Depois do almoço, nos despedimos, nos abraçamos no meio-fio
e, então, Chuck e eu partimos.
A mulher da orientação estava enganada, pensei.
Isto não é tão ruim assim.
Dois dias depois, entrei em seu quarto. A porta
estava aberta, a cama estava feita e toda a desordem da infância e da
adolescência haviam sumido. E de repente eu me dei conta.
Ela se fora.
Mais tarde, enquanto passava aspirador na sala,
pensei ter ouvido alguém dizer: "Mãe." Desliguei o aspirador para
ouvir os passos atravessarem a porta, para responder ao chamado de uma criança.
Foi então que compreendi que estava sozinha.
Sarah havia partido e nada, nunca mais, seria
igual.
Tive vontade de ouvir sua voz. Queria saber
como ela estava. Queria que ela se sentasse na beiradinha de minha cama à
noite, como fazia antigamente, para me contar sobre o seu dia, sobre as aulas,
sobre os professores, sobre os amigos, sobre os garotos dos quais gostava,
sobre os garotos que gostavam dela...
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou Chuck ao chegar
em casa. Eu cortava legumes para refogar. Ele olhou para o meu rosto. - Você
está chorando?
- São as cebolas - funguei, enquanto uma
lágrima serpenteava pela minha face.
Depois do jantar, eu disse:
- Vamos ligar para ela. Talvez esteja esperando
que liguemos.
- Mas só fazem dois dias - disse Chuck. - Vamos
lhe dar pelo menos uma semana para se assentar.
Ele tinha razão, é claro. Eu não queria me
transformar numa espécie de mãe psicótica. Me lembrei de como era ter dezoito
anos e estar longe de casa pela primeira vez. Ela estava fazendo novos amigos,
aprendendo novas ideias, formando novos elos. Eu precisava lhe dar espaço, a
distância da qual precisava.
Então, o telefone tocou.
- Oi, mãe - disse Sarah. - Dava para você
mandar umas fotos para eu colocar no quadro de cortiça? E alguns bichinhos de
pelúcia?
Ela queria o ursinho. Queria uma foto minha com
o pai - e uma do irmão mais novo. Adorava estar na faculdade, mas também sentia
saudades nossas. E então começou a me contar sobre o seu dia, sobre as aulas,
sobre os professores, sobre os meninos dos quais gostava, sobre os meninos que
gostavam dela....
Sempre tive a sensação de que Deus nos empresta nossos
filhos até terem, aproximadamente, dezoito anos. Se você não tiver feito pontos
com eles até então, já é tarde demais.
BETTY FORD
É O CORAÇÃO QUE LEMBRA
TINA WHITTLE
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 163
"A mãe de quem você se lembra, e a mãe que
você será”.
Essas palavras inundaram a minha mente na manhã
em que fui mãe pela primeira vez. Ao colocarem Kaley em meus braços, aquela
trouxinha quentinha e agitada de olhos arregalados, jurei para mim mesma que
seria a melhor das mães, o tipo de mãe da qual eu me lembrava: amorosa,
paciente, eternamente calma e plácida. Minha vida inteira havia pulsado com
amor e, enquanto acariciava a minúscula cabeça de meu bebê e o sentia virar o
rosto para afocinhar o meu dedo, jurei para ela:
- Você só conhecerá o amor, pequenininha.
Eu me lembrei da citação outra vez duas semanas
mais tarde, às três da manhã, enquanto andava em círculos com minha
recém-nascida aos berros, cheia de cólicas. Naquele momento, entretanto,
aquelas palavras não me serviam de consolo. Afinal de contas, que bebê ia
querer se lembrar de mim como eu estava então - privada de um boa noite de
sono, ansiosa e com a paciência mais gasta do que uma lâmina de sabão.
E apesar da promessa que havia feito, eu
certamente não estava sentindo amor algum. Na verdade, não estava sentindo
grande coisa. Estava entorpecida, fraca de tanta fadiga, tentando fazer tudo
sozinha embora meu marido e minha mãe estivessem dormindo próximos dali, ao
final do corredor. Tentava fazer Kaley se calar e a segurava mais perto de mim,
mas ela apenas esperneava, sacudia o corpo todo e gritava ainda mais alto. E
subitamente não pude conter as lágrimas. Fui afundando o corpo até o chão da
sala escura, coloquei-a sobre o colo e solucei com o rosto enterrado nas mãos.
Não sei quanto tempo fiquei assim, mas, muito
embora parecessem horas, não podem ter sido mais do que alguns minutos. Através
de uma névoa de lágrimas, vi uma luz acender no corredor, desenhando a silhueta
de minha mãe enquanto vestia o robe. Logo senti a sua mão em meu ombro.
- Dê-me o bebê - disse.
Não discuti. Derrotada, me limitei a lhe passar
aquela trouxinha barulhenta e me arrastei até o sofá, onde deitei com o corpo
encolhido numa bolinha bem apertada.
Minha mãe murmurou ao pé do ouvido de Kaley e,
com imensa facilidade - fruto de décadas de prática -, passou-a para o ombro.
E, por fim, o pranto se transformou em fungadas, as fungadas em soluços e, dali
a meia hora, eu só ouvia ronquinhos abafados de bebê.
Senti alívio, mas não senti paz. Que espécie de
mãe era eu que não conseguia acalmar a própria filha? Que espécie de mãe era eu
que nem ao menos quis tentar? Observei mamãe sentar-se na cadeira de balanço,
olhei-a dar início ao ritmo que, eu sei, havia embalado o meu sono em
incontáveis noites. Tudo o que consegui sentir foi uma desesperada e exausta
sensação de fracasso.
- Sou uma mãe terrível - murmurei.
- Não, não é.
- Você não compreende. - Novas lágrimas
começaram a brotar no canto de meus olhos. - Neste exato instante, eu nem ao
menos gosto dela. Meu próprio bebê.
Minha mãe riu baixinho.
- Bem, ela não está muito gostável hoje, está?
Mas você ficou com ela o tempo todo. Quicou com ela no colo, a embalou,
caminhou com ela. E, quando nada disso funcionou, você apenas a segurou nos
braços e a manteve próxima.
Eu me sentei e abracei os joelhos.
- Mas a única coisa que consigo sentir é
frustração, raiva e impaciência. Que tipo de mãe é essa?
Minha mãe não respondeu imediatamente. Apenas
olhou para o bebê, adormecido em seus braços. Mas ficou com um ar pensativo e,
quando falou, sua voz transmitia algo de longínquo e melancólico:
- Eu me lembro de todas elas - disse,
suavemente. Especialmente da última. Depois que você nasceu, eu costumava
rezar, pedindo paciência. Eu chorava e implorava para que me dessem paciência.
- Ela me olhou, um meio sorriso em seu rosto. - Acho que não fui ouvida, até
hoje.
Eu não podia crer no que estava ouvindo.
- Mas mamãe, eis aí o que melhor me lembro a
seu respeito.
Não importava o que acontecesse, você nunca
perdia a serenidade. De alguma maneira, você conseguia fazer tudo acontecer ao
mesmo tempo.
E era verdade. Não importava quantos brownies
precisassem ser assados de última hora, quantos pôsteres para o projeto de
ciências precisassem ser coloridos - minha mãe sempre dava um jeito. Sempre
calma. Sempre serena. Como enfermeira, seus horários eram irregulares, mas a
cada peça de teatro, a cada recital do qual participei, mesmo que não
conseguisse chegar a tempo para ver as cortinas se abrirem, eu sempre podia
contar em ver um vulto conhecido, vestido de branco, entrar discretamente no
auditório escuro.
Essa era a mãe da qual eu me lembrava, a mãe
que fazia cada momento contar. A mãe que nunca se portou como eu acabava de me
portar.
- Eu sempre pude contar com você - afirmei. -
Sempre.
Mas, para minha imensa surpresa, ela revirou os
olhos.
- Pode ser que você recorde os fatos assim, mas
eu só lembro de me sentir sendo puxada em sete direções diferentes ao mesmo
tempo. Você e seu irmão, seu pai, o pessoal do trabalho.
Todos precisavam de mim, mas eu nunca tinha
tempo o bastante para estar disponível para todo mundo.
- Mas você estava sempre disponível!
Ela balançou a cabeça.
- Não como eu gostaria de ter estado, com a frequência
de pelo período que gostaria de ter estado. Então rezava e pedia paciência,
para que eu pudesse aproveitar ao máximo o tempo que, de fato, tínhamos juntas.
Mas você sabe o que dizem. Deus não nos dá paciência. Ele apenas nos envia
momentos que nos façam treinar a paciência, e o faz repetidamente.
Ela olhou para Kaley.
- Momentos como este.
Olhei as duas e então, subitamente, compreendi:
as lembranças não são guardadas em nossas mentes - perfeitamente aptas a
registrar detalhes de forma incorreta - e sim em nossos corações. Minha mãe e
eu não recordávamos a minha infância da mesma forma, mas compartilhávamos
aquilo que de fato importava.
Ambas nos lembrávamos do amor.
Levantei do sofá e fui me sentar ao pé da
cadeira de balanço.
Ficamos assim por um bom tempo: minha mãe,
minha filha e eu.
E muito embora a choradeira tenha começado
outra vez com o nascer do sol, naquele momento dourado e tranquilo - eu sentada
aos pés de minha mãe, com a mão nos cabelinhos sedosos de minha filha -
murmurei um silencioso "muito obrigada”.
Se Kaley, de alguma maneira, se lembrar daquela
noite, espero que recorde o amor instintivo que me fez permanecer ao seu lado
apesar de tudo.
Jamais houve uma criança tão encantadora, mas sua mãe
ficava satisfeita quando o fazia dormir. RALPH WALDO EMERSON
Eu devo ter dois corações, mãe. Porque eu te amo tanto.
UMA CRIANÇA SEM MÃE
JANE KIRBY
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 169
A morte de minha mãe foi rápida e brutal - teve
um vírus no estômago na sexta-feira à noite e estava morta na segunda-feira de
manhã. Não houve tempo de me despedir. Não estava preparada para perdê-la. Mas
como explicar a morte para uma criança de dois anos? Perguntei a meu pai como
eu reagira.
"Você era muito pequena, foi fácil
distraí-Ia." Sua resposta apressada me fez entender que, na época, ele não
conversara comigo sobre o assunto e mesmo agora só fala de mamãe se o
pressiono.
Quase todas os personagens da minha infância
eram como eu - sem mãe: Cinderela, Dumbo, Bambi e Branca de Neve. Os autores
usam a técnica de criar personagens sem mães para dar-lhes um status de
heroínas e fazê-las despertar mais carinho. E eu, criança, gostava das heroínas
- não porque as visse como abandonadas e vulneráveis, mas porque tínhamos
alguma coisa em comum.
Imagino que vocês esperam que eu fale da
tristeza que senti por ser órfã de mãe, ou das habilidades que tive de
desenvolver para compensar a perda. Mas a verdade é que não posso dizer que
senti falta de mãe, pois houve várias mulheres que, cada uma a seu modo,
desempenharam função de mãe para mim.
Fui cercada de tias, irmãs, avó afetuosíssimas
que capricharam nas minhas refeições, trançaram meu cabelo, me contaram
histórias na hora de dormir e ouviram minhas histórias com interesse. Fui
levada e buscada na escola com cuidado, prepararam-me para viver com
naturalidade a primeira menstruação, deram-me o primeiro sutiã. Meu pai foi uma
presença protetora e não me lembro de jamais ter sido carente de amor ou sentir
falta de abraços quando era pequena.
Na época da escola, intuí que o fato de não ter
mãe me tornava especial, mais importante de alguma forma. Usei isso com as
freiras para que me dessem um tratamento diferente. Usei também com meu pai,
reclamando dele quando se atrasava para me apanhar: "Se mamãe estivesse
viva, aposto que ela chegaria na hora." Na fase de competição entre
adolescentes, quando minhas amigas se queixavam de suas mães, eu dizia:
"Vocês, pelo menos, têm mãe." Foi só quando tive meu filho que
comecei a sentir falta de minha mãe. Não porque ela poderia me ajudar a cuidar
dele, mas porque, com Jacob, veio o entendimento do que uma mãe dá a seu filho,
do que uma mãe é. Senti por meu filho um amor absoluto que eu não imaginava que
um ser humano pudesse ter pelo outro. Percebi o que eu perdera e do que eu
sentira falta, mas que nunca me ocorrera.
Fiquei especialmente atenta quando ele fez dois
anos e cinco dias, exatamente a idade que eu tinha quando minha mãe morreu.
Procurava entender como sua morte me afetara. Tentava imaginar como seria uma
criança que mal começou a andar e tem o centro de sua vida roubado. Mas não
conseguia me lembrar da experiência.
Eu não podia voltar àquela época. Em vez disso,
fixei-me na minha relação com Jacob - de mãe para filho e não de filho para
mãe.
Colocava seus dedinhos roliços na palma da
minha mão e imaginava que minha mãe também segurara meus dedos assim.
Brincava com ele de "aperto de mão
secreto" - três apertos de mão enquanto eu murmurava "amo você".
Quem fazia assim comigo era minha avó materna. Talvez ela também tenha brincado
dessa forma com minha mãe. Quando consolava Jacob em sua tristeza ou fazia
cosquinhas na sua barriga para que ele risse, achava que certamente mamãe
fizera o mesmo comigo.
Pela primeira vez eu pensava em minha mãe como
uma mulher que amara sua filha e se alegrara com ela com a mesma paixão que eu
sentia por Jacob. Então chorei muitas vezes, de forma profunda, como uma
purificação.
Chorei pela mulher que foi tirada de sua filha.
Chorei por aquela menininha que eu queria abraçar e a quem eu queria dizer o
quanto lamentava a perda que ela sofrera. Dizer que eu a protegeria e a
ajudaria a se sentir segura. Queria que ela soubesse que fora muito e
profundamente amada por sua mãe.
Fazer isso me deu liberdade de experimentar
todas as sensações que eu passara a vida negando.
Agora, quando leio para Jacob dormir e vejo
filmes com ele, ainda tenho empatia por personagens solitários: o ET, separado
da nave mãe, o bebê dinossauro que perdeu a mãe tão cedo, a Pequena Sereia, que
só tinha o pai, e a Bela, que enfrentou a Fera sem ter a mãe para lhe dar
conselhos. E agora, apesar de ser imensamente grata por todas as figuras
femininas que desempenharam para mim função materna, também entendo como corta
o coração a ideia de uma criança sem mãe. O que a vida não me ensinou, eu aprendi
com meu filho.
ÓCULOS ESCUROS
BEVERLY BECKHAM
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 173
Temos uma foto dele em algum lugar. É a foto de
um garotinho de cinco anos com o coração partido, atirado num banco da Disney,
tentando conter as lágrimas, os lábios tão tensos que quase dá para vê-Ios
tremer, as orelhas de Mickey tortas.
Mas é possível que não tenhamos essa foto a não
ser em nossa lembrança. Ainda assim, é a mesma imagem compartilhada por mim e
por meu marido: um dia de sol, uma luz branca cintilando nas janelas da Main
Street e refletindo dezenas de carruagens com rodas de cromo. Luz e calor
bruxuleavam por todos os lados e nossos dois filhos clamavam por óculos
escuros:
- Por favor, mamãe? Pai, por favor, por favor!
Entramos rapidamente numa loja e Rob escolheu
óculos de Pato Donald, um troço de plástico azul e branco que escorregava do
nariz, deixando-o mais parecido com o Tio Patinhas do que com o Pato Donald.
Mas não lhe dissemos isso. Ele amava aqueles óculos. Lauren, já intensamente
preocupada em andar na moda apesar dos três anos, escolheu óculos cor-de-rosa
da Minnie porque vestia rosa naquele dia.
Saíram da escuridão da loja para a claridade do
dia com os óculos no rosto, subiram a Main Street, atravessaram o castelo e
entraram na Terra da Fantasia. Quando andaram no brinquedo do Peter Pan,
tiraram os óculos e os seguraram, fazendo o mesmo no Piratas do Caribe.
De alguma forma, depois disso, talvez
justamente quando saíram desse brinquedo específico, ou quem sabe quando parou
para amarrar os tênis ou para ajeitar as orelhas do Mickey, ou quando paramos
para almoçar, os óculos de Pato Donald desapareceram. E Robbie, que tinha cinco
anos e amava aqueles óculos, chorou.
"Se você os amava tanto, deveria ter tido
mais cuidado com eles", foi o que lhe dissemos. Ou alguma coisa do gênero.
Imagino eu. Mas éramos jovens e pouco versados na arte de criar filhos e,
afinal, não era para a gente lhe ensinar a cuidar de suas coisas? Não era nosso
dever nos certificarmos de que ele compreendia que dinheiro não cresce em
árvores?
Quanto custaram os óculos? Um dólar? Dois
dólares? Que mal haveria em secarmos as suas lágrimas e dizermos: "Venha,
vamos comprar outros. Sei que você não queria perdê-Ios." Será que ele
teria se transformado numa pessoa do mal por causa disso? Teríamos nós o
corrompido de alguma forma imprevisível?
Lauren disse:
- Você pode ficar com os meus, Robbie. - Mas
ele não queria os óculos dela. Eram cor-de-rosa. Eram óculos de menina.
Os dele eram azuis, eram óculos de menino. E
haviam sumido.
Ele os adorava e agora estava arrasado.
Se eu pudesse fazer tudo outra vez, teria
voltado a Main Street, comprado outro par de óculos de Pato Donald novinhos em
folha e fingido que os encontrara no chão. Eu teria berrado:
"Ei, olhe só o que achei!" E ele
teria se levantado na mesma hora, corrido - rindo -, atirado os braços em torno
de mim e colocado os óculos no rosto. E é assim que nos lembraríamos daquele
dia.
Vivendo e aprendendo.
Há alguns meses, estávamos em Orlando, não
exatamente na cena do crime, mas bastante perto. Nosso filho, há muito adulto,
estava lá a trabalho e pegamos um avião para encontrá-lo. Em meio àquela
agitação de carros alugados, restaurantes e deslocamentos para cá e para lá,
adivinhe só? Ele perdeu os óculos escuros!
Não ralhamos com ele, nem ao menos nos passou
pela cabeça dizer: se você gostava tanto deles, deveria ter sido mais
cuidadoso. Todo mundo perde coisas o tempo todo. Em vez disso, fizemos o que a
maioria dos adultos faz por outros adultos: tentamos ajudá-Io a descobrir onde
os teria deixado e - imagine só - acabou por encontrá-Ios numa sala de reunião
na qual estivera no dia anterior.
Tinha um sorriso estampado no rosto ao voltar
para o carro.
Passos lépidos, olhos ocultos pelos óculos
escuros, ele em nada lembrava aquele menino de cinco anos.
Exceto para mim.
Foi o meu primeiro filho e o primeiro sempre
paga o preço mais alto por você ser nova naquilo, por seguir tudo à risca e não
querer errar sendo boazinha demais. Mas aí acaba errando do mesmo jeito porque,
na verdade: você lá sabe o que está fazendo?
Sei que, como pais, temos obrigação de ensinar
aos nossos filhos. Mas também sei que nem tudo precisa ser uma lição.
Às vezes, óculos escuros são só isso: óculos
escuros perdidos e nada mais.
UM FILHO PERFEITO
SHARON
DREW MORGAN
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 177
Aos
vinte e seis anos, tive um lindo bebê. Seu cabelo era escuro, seus olhos,
verdes, e tinha os cílios mais longos que eu jamais vira. Falou aos nove meses,
andou aos dez e, aos dois anos, já esquiava. Era minha alegria e eu sentia por
ele um amor intenso, que nem imaginava ser possível existir.
Como
todas as mães, eu sonhava com o futuro de George. Quem sabe seria um
engenheiro? Um esquiador, com certeza.
Era
tão inteligente que frequentava uma escola especial. Uma vez, eu contava uma
dessas "histórias de mãe" para uma amiga e ela perguntou: "Que
bom que George é perfeito. Você o amaria tanto se ele não fosse?" Pensei
sobre a pergunta, mas a esqueci até o ano seguinte.
Um
dia, aos oito anos, George se levantou com o pé apontando para cima, só
conseguindo andar se apoiando no calcanhar. Percorremos consultórios médicos
enquanto o problema atingia uma perna, depois a outra. Ouvimos alguns
diagnósticos até chegar ao de distonia generalizada, um problema neurológico.
Ele perderia a capacidade de andar e talvez o controle da maioria dos músculos,
num doloroso processo.
Eu
sentia muito ódio: de Deus, que fizera aquela maldade comigo e com meu filho,
de mim, que de alguma forma causara nele um problema genético, e de George, por
sua deformação.
Eu
me envergonhava de andar com ele na rua. As pessoas o viam e rapidamente me
fitavam com pena. Às vezes, eu não suportava olhá-Io, de tão torto e feio.
Gritava para que ele andasse reto, porque não aguentava ver como ele se tornara
deformado. George sorria, dizendo: "Estou tentando, mamãe." Eu não o
achava mais bonito. Só conseguia ver suas pernas tortas, seus braços, costas e
dedos tortos. Não queria mais amá-Io, porque tinha medo de perdê-lo. Não podia
mais sonhar com o que ele seria no futuro, pois nem sabia se ele teria um
futuro. Pensava sempre que não poderia dançar com ele no seu casamento.
Um
dia, fiquei de coração tão partido ao vê-Io tentar colocar seus pés tortos no
seu amado skate, que tratei de guardá-Io no armário, dizendo que era para ele
"usar depois".
Toda
vez que lia para George na hora de dormir, ele me perguntava a mesma coisa:
"Se rezarmos muito, você acha que vou estar andando quando acordar?"
"Não, mas acho que devemos rezar de qualquer jeito." "Sabe,
mamãe, os outros meninos me chamam de aleijado, não querem mais brincar comigo.
Não tenho mais amigos. Odeio eles. Me odeio." Tentamos todos os remédios,
dietas e médicos possíveis.
Procurei
o centro de pesquisas sobre a doença e fundei a Associação Inglesa dos
Portadores de Distonia. Dirigi minha vida para procurar a cura para esse mal,
querendo que meu filho voltasse a ser normal.
Aos
poucos, a relação com George foi me ensinando a perdoar, mas eu ainda me sentia
paralisada pelo medo. Foi quando uma amiga me levou a um grupo de oração, onde
aprendi a praticar diariamente. Fui adquirindo uma paz interior que não
conhecera antes, mesmo quando meu filho era perfeito. Descobri que o problema
que vivíamos era uma chance de crescimento para nós, tão dolorosa quanto
preciosa. Agora, o amor parecia maior do que qualquer sensação que eu pudesse
compreender. Vi que George era meu professor e que a lição era o amor.
Sei
que George sempre será um pouco diferente das outras crianças - mas é meu filho
querido. Parei de ter vergonha quando seu corpo não estava reto. Aceitei que
ele crescesse com perspectivas diferentes das outras pessoas. Mas ele se
desenvolveu com mais paciência, mais ambição e mais coragem do que qualquer
pessoa que eu já conhecera.
Aos
dezoito anos, George conseguiu esticar uma das pernas.
Jogou
fora uma muleta. No mês seguinte, jogou a outra. Seu andar era capenga, mas
andava sozinho. Veio visitar-me logo depois disso e, quando abri a porta de
casa, vi na minha frente um rapaz alto e bonito. "Oi, mamãe", ele
sorriu. "Quer ir dançar?"
Numa
recente reunião de minhas colegas de escola, todas comentavam os sucessos dos
filhos.
"Meu
filho é músico." "Minha filha é médica." Quando chegou minha
vez, falei com extremo orgulho:
"Meu
filho anda. E ele é perfeito."
MARY
RACHEL NAOMI REMEN extraída do livro As Bênçãos do Meu Avô.
Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 181
O filho de Mary veio passar em casa a semana de
férias da universidade. Sentia-se cansado e estava pálido, perdera a
vitalidade. Preocupada, ela o levou ao médico, que diagnosticou uma forma rara
de câncer. Era incurável.
Quando Mary ouviu o diagnóstico, o filho já
voltara para a faculdade. Ela subiu os degraus da entrada, abriu a porta com
força e uivou com rodas as suas forças. Gritando de revolta, correu de quarto
em quarto abrindo as janelas com ímpeto e dando socos no ar. O marido tentou
acalmá-Ia sem resultado. Assustado, ele telefonou para um terapeuta que vinham
consultando juntos e correu com o telefone até o quarto onde Mary gritava
diante da janela aberta.
- Mary, Mary - disse ele -, o terapeuta está ao
telefone.
Ao ouvir isso, ela avançou sobre o marido,
gritando:
- O terapeuta? O terapeuta? Fale você com o
terapeuta, Harry. Eu vou falar com Deus.
Mary precisou de toda a sua raiva, força de
vontade e vitalidade para atravessar os quatorze meses que se seguiram. Com a
ajuda das quatro filhas, ela levou o rapaz a quem quer que pudesse ajudar.
Tentaram de tudo, mas o câncer avançou com fúria, transformando-o numa sombra
de si mesmo, até que, finalmente, ele morreu nos braços da mãe. Tinha apenas 20
anos. Todo aquele amor materno não fora capaz de salvá-Io.
Mary sentiu que sua vida se fora com o filho.
Passou vários meses entorpecida. Inconsolável.
Cerca de dois anos mais tarde, Mary foi com seu
irmão a uma igreja católica que nunca visitara. Sem conseguir rezar, ela
caminhou sem destino pela nave até parar em frente a uma imagem da Virgem
Maria. De repente, a dor que estava congelada em seu coração encontrou palavras
e ela perguntou em voz alta:
- Como a senhora conseguiu, Maria? Como
conseguiu renunciar a seu filho? Como conseguiu encontrar uma maneira de
continuar vivendo depois que ele morreu? Onde descobriu alguma esperança de
conforto?
Com lágrimas descendo pelo rosto, ela disse à
Virgem que sempre fora uma boa pessoa, uma boa mãe.
- Por quê? - inquiriu. - Por quê?
Que razão poderia haver para uma pessoa tão
cheia de vida, tão nova, tão brilhante, sofrer e morrer? Mary sabia, sem sombra
de dúvida, que jamais superaria aquela perda. Ainda chorando, ela contou à
Virgem como seu filho era jovem, como ele se esquecia de comer, como não sabia
lavar as próprias roupas direito.
- Ele precisava de uma mãe - disse, em
lágrimas. - Ele ainda precisa de uma mãe. Não posso compreender, mas entrego-o
aos seus cuidados.
Virou-se de costas e saiu da igreja.
Um ou dois dias depois, enquanto dirigia para o
trabalho, Mary surpreendeu-se ao perceber que estava cantarolando um antigo
hino de louvor sobre o consolo. Com o passar do tempo, devagarinho, ela foi
conseguindo aliviar seu coração.
Fiquei perplexa com a força dessa história,
impressionada com a intensidade do amor de Mary pelo filho e da dor pela sua
perda. Não consegui dizer nada. Mary olhou para mim e sorriu:
- E o Mistério, Rachel? O Mistério é que é
possível ser reconfortada.
Recentemente, Mary escreveu-me uma carta para
contar que duas de suas filhas estão grávidas. Na próxima primavera, uma delas
trará ao mundo um menino, seu primeiro neto.
UM MOMENTO PODE DURAR PARA SEMPRE
GRAHAM PORTER
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 9
Nossas férias no lago Michigan tinham
terminado. Para evitar engarrafamentos na volta para casa, eu tinha acordado de
madrugada para colocar no carro a parafernália dos nossos filhos, com idades de
três a nove anos. Não era exatamente a minha ideia de diversão. Mas consegui o
milagre de estar com tudo arrumado precisamente no horário que estipulara.
Voltei ao chalé e encontrei minha mulher, Evie, acabando de varrer a areia do
chão.
- São seis e meia, hora de partir - eu disse. -
Onde estão as crianças?
Evie deixou a vassoura de lado.
- Deixei que fossem até a praia para se
despedirem.
Balancei a cabeça, aborrecido, porque isso
atrapalhava o meu horário cuidadosamente planejado. Por que, então, acordar tão
cedo se não íamos conseguir estar na estrada antes que o tráfego ficasse
insuportável? Afinal, as crianças já tinham passado duas ótimas semanas fazendo
castelos de areia e passeando por toda a região do lago à procura de pedras
mágicas. E hoje elas só tinham que relaxar no carro - ou dormir, se quisessem-,
enquanto eu me encarregaria da longa volta para casa.
Abri a porta de tela, passei pela varanda.
Encontrei meus quatro filhos na praia, depois das dunas suaves do terreno.
Tinham tirado os sapatos e estavam andando na
ponta dos pés na água, rindo e pulando cada vez que uma onda quebrava em suas
pernas. O xis da questão era o quanto poderiam entrar no lago sem encharcar as
roupas. Fiquei irritado ao lembrar que todas as roupas secas das crianças já
estavam guardadas, sabe Deus onde, na mala entupida do carro.
Com a firmeza de um sargento, fiz uma concha
com as mãos para gritar que fossem todos imediatamente para o carro.
Mas, por algum motivo, as palavras de
repreensão ficaram presas na garganta. O sol, ainda baixo no céu da manhã,
desenhava uma silhueta dourada ao redor de cada uma das crianças, que
brincavam. Elas só tinham aqueles momentos finais para espremer a última gota
de felicidade do sol, da água e do céu.
Quanto mais eu olhava, mais a cena à minha
frente adquiria uma aura mágica, pois jamais se repetiria novamente. Que
mudanças podemos esperar em nossas vidas depois que se passar mais um ano,
outros dez anos? A única realidade era aquele momento, a praia cintilante e as
crianças - minhas crianças com a luz do sol enfeitando seus cabelos, o som das
risadas se misturando ao vento e às ondas.
"Por que eu cismara de ir embora às seis e
meia da manhã, a ponto de sair correndo do chalé para brigar com eles?",
me perguntei. Eu tinha em mente impor uma disciplina construtiva ou estava
apenas com vontade de ralhar porque tinha um longo dia no volante pela frente?
Afinal, não há prêmios a receber por partir exatamente na hora. E como poderia
esperar manter a comunicação com meus filhos, agora e daqui a alguns anos, se
não conseguisse manter viva a memória da minha própria juventude?
Na beira d'água, mais embaixo, minha filha mais
velha fazia sinais para que me juntasse a eles. Então os outros começaram a
acenar também, chamando por Evie e por mim, para nos divertirmos com eles.
Hesitei, mas apenas por um instante. Corri, então, até o chalé para trazer
minha mulher pela mão. Meio correndo, meio escorregando pelas dunas, logo
chegamos à praia, jogando longe os sapatos. Numa alegre bravata, entramos na
água além do ponto em que as crianças estavam, Evie segurando a saia e eu a
bainha das calças. Até que o pé de Evie escorregou e ela afundou na água
gritando e, de propósito, me puxou também.
Hoje, anos depois, ainda me emociono ao lembrar
as risadas das crianças naquele dia - boas gargalhadas e um sentimento de
camaradagem. E, muitas vezes, quando elas pensam em suas lembranças mais caras,
aqueles poucos momentos ocorridos há tanto tempo estão entre as recordações
mais preciosas.
O BENFEITOR SECRETO
WOODY McKAY JR.
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 12
Por volta de 1910, meu pai era motorista de um homem
muito rico e testemunhou o empenho do patrão em ajudar anonimamente pessoas que
jamais poderiam retribuir o favor.
Meu pai me contou várias histórias fascinantes
dessa época, mas uma em especial ficou guardada para sempre na minha memória.
Um dia, ele levou seu patrão a um encontro de negócios em outra cidade. Nos
arredores pararam para comer um sanduíche.
Enquanto comiam, vários garotos passaram pelo
carro, brincando com arcos. Um deles mancava. Chegando mais perto da janela, o
patrão de meu pai viu que o garoto tinha um dos pés deformado. Ele saiu do
carro e alcançou o menino.
- Este pé lhe traz muitos problemas? -
perguntou.
- Tenho de andar devagar - o garoto respondeu.
- E preciso cortar um pedaço do sapato para poder pisar melhor. Mas dá para ir
levando. Por que o senhor está me perguntando isso?
- Talvez eu possa ajudá-lo a curar seu pé. Você
gostaria?
- Claro - disse o menino, embora tenha ficado
um pouco confuso com a pergunta.
O empresário anotou o nome do garoto, voltou
para o carro e disse a meu pai: "Woody, o garoto que manca se chama Jimmy
e tem oito anos. Descubra onde ele mora e pegue o endereço e os nomes dos
pais." Ele entregou a meu pai um pedaço de papel com o nome do menino e
pediu: "Vá visitar a família dele esta tarde e faça o possível para
conseguir permissão para deixarem operar o pé de Jimmy. Podemos tratar da
papelada depois. As despesas são todas por minha conta." Eles acabaram de
comer seus sanduíches e meu pai levou o chefe para seu compromisso de trabalho.
Não foi difícil conseguir o endereço de Jimmy
numa loja próxima. Quase todos conheciam o menino com o pé deformado.
A pequena casa em que Jimmy e a família moravam
precisava de pintura e de consertos. Olhando à volta, meu pai viu camisas
rasgadas e vestidos remendados no varal ao lado da construção. Um pneu velho
pendurado por uma corda num carvalho servia de balanço.
Uma mulher de trinta e poucos anos respondeu à
batida na porta enferrujada. Parecia cansada e suas feições revelavam uma vida
difícil.
- Boa-tarde - meu pai cumprimentou. - A senhora
é a mãe de Jimmy?
Ela franziu um pouco as sobrancelhas antes de
responder.
- Sou. Ele se meteu em alguma encrenca? - Seus
olhos examinavam o colarinho engomado de meu pai e seu terno bem passado.
- Não, senhora. Eu represento um homem rico que
quer resolver o problema do pé de seu filho, para que ele possa brincar como
todos os seus amigos.
- A troco de quê, moço? Nada é de graça nessa
vida.
- Não se trata de uma brincadeira. Se for
possível, gostaria de explicar o que está acontecendo à senhora e a seu marido,
se ele estiver em casa. Sei que é inesperado e não a culpo por achar suspeito.
Ela olhou para meu pai novamente e, ainda
hesitante, convidou-o a entrar. "Henry", ela gritou, "tem um homem
aqui dizendo que quer ajudar a resolver o problema do pé de Jimmy." Por
quase uma hora, meu pai explicou o plano e respondeu às perguntas do casal.
- Se permitirem que Jimmy seja operado, vou
lhes mandar algumas autorizações para assinar. Meu patrão pagará todas as
despesas, como já lhes disse - concluiu.
Perplexos, os pais do garoto se olharam. Ainda
não tinham muita certeza quanto ao que estava acontecendo.
- Aqui está meu cartão. Quando enviar os papéis
para autorização, vou mandar uma carta esclarecendo tudo sobre o que
conversamos. Se tiverem mais alguma pergunta, telefonem ou escrevam para este
endereço.
Isso pareceu lhes dar um pouco mais de
confiança, e meu pai foi embora. Sua missão fora cumprida.
Mais tarde, o patrão de meu pai entrou em
contato com o prefeito e lhe pediu que enviasse alguém à casa de Jimmy para
reafirmar à família que a oferta era legítima. Naturalmente, o nome do
benfeitor não foi mencionado.
Logo, com as autorizações assinadas, meu pai
levou Jimmy a um excelente hospital em outro estado para a primeira de cinco
operações a que seria submetido.
As cirurgias foram um sucesso. Jimmy se tornou
o queridinho das enfermeiras na ala de ortopedia. Todos se abraçaram e choraram
quando ele deixou o hospital pela última vez. Num gesto de carinho, deram-lhe
um presente especial: um novo par de sapatos, feitos sob medida para seus pés
"novos".
Jimmy e meu pai se tornaram grandes amigos
durante as idas e vindas do hospital. Na última viagem, quando o garoto voltava
definitivamente para casa, eles cantaram, falaram sobre o que Jimmy poderia
fazer com seu pé normal e dividiram momentos de silêncio à medida que se
aproximavam da casa.
O menino deu um largo sorriso ao sair do carro.
Seus pais e os dois irmãos o esperavam, juntos, na maltratada porta da frente.
- Fiquem aí - Jimmy gritou para eles.
Todos ficaram olhando, surpresos, enquanto o
garoto caminhava até eles. O defeito tinha desaparecido.
Com abraços, beijos e sorrisos receberam o
menino com o "pé curado". Seus pais balançavam as cabeças e sorriam
enquanto o observavam. Ainda não podiam acreditar que um homem que nunca tinham
visto pagara uma enorme quantia para consertar o pé de um menino que ele nem
conhecia.
O rico benfeitor tirou os óculos e enxugou as
lágrimas quando meu pai relatou a cena da volta de Jimmy para casa.
"Faça mais uma coisa”, ele disse.
"Perto do Natal, vá a uma boa loja de sapatos. Faça com que chamem cada
membro da família de Jimmy para que escolham um novo par de sapatos. Pagarei
pelos sapatos de todos. Mas comunique que farei isso apenas uma vez. Não quero
que fiquem dependentes de mim." Jimmy se tornou um homem de negócios
bem-sucedido.
Que eu saiba, ele nunca soube quem pagou por
suas cirurgias.
Seu benfeitor, o Sr. Henry Ford, sempre disse
que é mais divertido fazer algo pelas pessoas quando elas não sabem quem lhes
fez o bem.
Nota do Tradutor: Henry Ford (1863-1947),
pioneiro da indústria automobilística americana, fundou a Henry Ford Company em
1902 e a Ford Motor Company em 1903.
Dá prazer ajudar outras pessoas. PAUL NEWMAN
UM OUTRO FATO MARCANTE
RICHARD COHEN
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 17
Há muitos anos, meus pais, minha mulher, meu filho
e eu jantamos num desses restaurantes onde o cardápio está escrito num
quadro-negro. Depois de uma ótima refeição, o garçom colocou a conta no centro
da mesa. Eis o que aconteceu: meu pai não apanhou a nota.
A conversa continuou. Finalmente percebi. Era
para eu me encarregar da conta. Depois de ir a centenas de restaurantes com
meus pais, depois de pensar a vida toda que meu pai é que era o dono do
dinheiro, tudo tinha mudado. Apanhei a nota e minha visão de mim mesmo mudou de
repente.
Eu era um adulto.
Algumas pessoas demarcam a vida em anos. Eu
meço a minha por pequenos fatos, por ritos de passagem. Não me tornei rapaz
numa idade determinada - treze anos, por exemplo -, mas quando um garoto entrou
na loja em que eu trabalhava e me chamou de "senhor". Ele repetiu
"senhor" várias vezes, olhando direto para mim. Aquilo foi como um
soco: era comigo! De repente passei a ser um senhor.
Houve outros fatos marcantes. Os policiais da
minha juventude sempre me pareceram grandes, enormes até, e, naturalmente, eram
mais velhos do que eu. Até que um dia, num instante, percebi que eles não eram
nada disso. Na verdade, alguns eram garotos - e pequenos. Chegou o dia em que
me dei conta de que todos os jogadores de futebol da partida a que estava
assistindo eram mais novos do que eu. Eram apenas garotos altos. Com tal fato
marcante foi-se embora a fantasia de que um dia, talvez, eu também pudesse me
tornar um jogador de futebol. Mesmo sem jamais ter alcançado a montanha, eu a
tinha transposto.
Nunca pensei que chegaria a cair no sono vendo
televisão, como meu pai fazia. Agora, sou ótimo nisso. Nunca pensei que iria à
praia sem nadar. E acabei de passar o verão todo no litoral sem entrar na água
uma só vez. Nunca pensei que apreciaria ópera, mas agora a combinação de voz e
orquestra me atraem. Nunca imaginei que ia preferir ficar em casa à noite, mas
agora me vejo recusando convites para festas. Considerava estranhas as pessoas
que observavam pássaros, mas nesse verão me peguei fazendo a mesma coisa. Acho
até que vou escrever um livro a respeito. Anseio por uma convicção religiosa
que jamais imaginei querer e sinto uma proximidade com antepassados que já
partiram há muito tempo. E o mais incrível é que, nas discussões com meu filho,
repito os argumentos de meu pai - e ainda saio perdendo.
Um dia, comprei uma casa. Um dia - que dia! -
tornei-me pai e, não muito depois disso, paguei a conta no lugar de meu pai.
Imaginava que esse dia tinha sido um rito de passagem para mim. Mas, depois, já
um pouco mais velho, compreendi que fora para ele também. Um outro fato
marcante.
ACABARAM-SE AS MATINÊS DE DOMINGO
LENNY GROSSMAN
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 20
Sempre gostei de cinema, desde garoto. Ia
sempre às matinês de domingo no cinema Monroe, ver filmes como Se Meu Fusca
Falasse e Um Astronauta Fora de Órbita. Então, quando fiz dez anos, em 1970,
meus hormônios se manifestaram com vontade.
Aprontei umas confusões (o que naquele tempo
significava colocar fogo em gasolina na rua e roubar gibis) e meu gosto por
cinema mudou. Não me contentava mais com filmes da Disney, mas ainda não podia
assistir a filmes proibidos para menores.
Foi quando começaram a aparecer na televisão as
chamadas para Operação França. Eram sensacionais, cheias de vigor e mexiam com
a minha testosterona. Aquele filme era mesmo coisa de homem. Mas eu ia perdê-Io
porque não tinha idade suficiente. Lembro bem quando meu pai e meu irmão mais
velho, Peter, foram ver o filme. Era uma noite gelada e eles disseram:
- Vamos chegar tarde.
Operação França rompeu barreiras. A perseguição
de carro era ousada, nervosa e emocionante, como nunca se vira antes.
Gene Hackman, no papel de Popeye Doyle, estava distante
daqueles policiais certinhos a que estávamos acostumados. Fazia um detetive
nova-iorquino, um anti-herói desbocado, racista e raivoso (o filme depois
receberia vários Oscar: melhor filme, diretor, ator, roteiro e edição). Eu era
fanático por cinema e sentia que estava perdendo uma coisa histórica. Enquanto
Peter se divertia com papai, eu estava destinado a ter outra noite monótona em
casa, com mamãe e Steven, meu irmão mais novo.
Quando os dois chegaram, expressaram o que eu
já sabia. O filme era sensacional. Hackman era fantástico! Ah, como eu queria
ser mais velho e poder...
- Você quer ir ver o filme, Leonard?
"Era mesmo meu pai que tinha acabado de
dizer aquilo? Eu tinha ouvido direito?" A confirmação veio em um segundo,
de minha mãe.
- Ed, você acha mesmo que ele deve ver o filme?
"Ah, mamãe, não acabe com a minha chance.
Não plante a semente da dúvida. Fique calada só mais um pouquinho, até que eu
consiga arrancar uma promessa." Então as doces palavras vieram e, com
elas, caiu a resistência.
- Não vejo por que não. Acho que ele já tem
idade para esse tipo de filme. Podemos ir amanhã à noite.
- Mas você foi hoje com Peter. Vai ver de novo
amanhã?
Meu pai olhou em minha direção. Com certeza viu
meus olhos cheios de ansiedade e expectativa.
- Claro, por que não? - ele disse.
- Yes! - gritei, pulando no ar.
Na noite seguinte, eu mal conseguia jantar. Não
via a hora de sair e ver o filme que imaginara que só meu irmão seria
autorizado a ver.
- Leonard, se você não comer alguma coisa, vai
ficar com fome no cinema - papai disse, rindo consigo mesmo.
Finalmente o jantar acabou. Vestimos nossos
casacos e nos dirigimos à porta. Meu pai sorriu e avisou:
- Vamos chegar tarde.
Entramos no carro e senti o cheiro da colônia
Old Spice de papai. Estava muito frio, mas o carro ficou quentinho logo que ele
ligou o aquecimento. Podia perceber o amor que ele tinha por mim. Aquele era um
tempo que teríamos só para nós dois.
Mesmo tendo visto o filme na noite anterior,
papai ia me levar ao cinema. Nem esperou que algumas semanas se passassem.
Naquele tempo, esse tipo de filme era proibido
para menores de doze anos. Eu parecia ter mais idade, mas meu pai ainda deu uma
gorjeta para a moça da bilheteria para não termos problema na hora de entrar.
Operação França era ainda melhor do que eu esperava, o filme mais excitante que
já tinha visto. E o mais adulto.
Quando chegamos em casa depois da sessão, virei
para meu pai e o olhei longamente. Queria que soubesse como me fizera feliz,
como fora maravilhoso ele pensar em mim como adulto (pelo menos de alguma
forma), mas tudo que consegui dizer foi:
- Obrigado por me levar, papai.
Ele me envolveu com seus braços fortes e
ficamos assim num abraço apertado, mais longo do que o normal.
- O prazer foi todo meu! - ele disse.
E foi.
Depois desse dia, meu pai e eu íamos sempre ao
cinema, só nós dois. A censura dos filmes perdeu a importância. Eu tinha visto
um, podia ver todos. Meu rito de passagem se completara.
Quando fiz quinze anos, as coisas mudaram um
pouco e passei a ir mais ao cinema com meus amigos do que com meu pai.
Em 1975, Peter, eu e dois amigos ficamos duas
horas na fila para assistir a Tubarão. Voltei para casa agitadíssimo por causa
disso. Que filme sensacional! Ainda me lembro de meu pai se lamentando porque
nós, os adolescentes, não o deixáramos ir conosco ao que ele chamou de
"evento". Minha mãe não o acompanharia de jeito nenhum e, certamente,
ele não iria sozinho. Agora ele era o pai, e adolescentes realmente não querem
saber de pais por perto quando vão ao cinema em grupo.
- Olha, papai - eu disse. - Você quer ir ver o
filme?
Ele me pareceu um pouco surpreso.
- Claro, vou adorar.
- Tudo bem, nós vamos. Amanhã à noite. Só você
e eu.
- Que máximo - ele disse, virando-se para que eu
não percebesse que estava rindo de orelha a orelha.
Na noite seguinte ficamos duas horas na fila
para ver Tubarão. E, dessa vez, fui eu que tive o prazer de "levar"
meu pai ao cinema. O prazer foi todo meu.
UMA DAS MINHAS LEMBRANÇAS FAVORITAS
ROSALIE SILVERMAN
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 24
Quando comecei a sair com rapazes, com uns
dezoito anos, minha mãe sempre ficava acordada, me esperando chegar em casa.
Assim que entrava no apartamento, ela ia comigo para meu quarto, sentava-se na
cama e me fazia contar sobre o encontro.
Normalmente, a essa hora, papai estava
dormindo, mas nossa conversa chegava até o quarto deles, que era bem próximo.
"Vocês duas vão ficar com esse papo até de
manhã?," ele reclamava. "Não podem esperar até amanhã para
conversar?" Minha mãe dizia para ele ficar quieto e voltar a dormir. Ele
resmungava e ficava em silêncio por um tempo, mas depois recomeçava.
"Lillian, volte para a cama. Quando ela estiver pronta para se casar com o
rapaz, você faz todas essas perguntas." Finalmente mamãe e eu nos dávamos
um beijo de boa noite e ela voltava para o quarto para acalmar o papai.
Meu pai, quando jovem, atuara como comediante e
sapateador em espetáculos de variedades. Quando esse tipo de teatro acabou,
seus sonhos em relação ao mundo das artes acabaram também. Mas, ao longo dos
anos, ele nunca perdeu a oportunidade de contar piadas, cantar ou sapatear um
pouco.
Era uma pessoa animada e expansiva, que sempre
tinha um sorriso ou uma palavra amiga para todos.
Num fim de semana, minha mãe foi visitar uns
parentes, e eu tinha um encontro no sábado à noite. Prometi a papai que não
chegaria tarde demais e tentei convencê-Io de que não havia necessidade de me
esperar acordado. O rapaz conheceu meu pai quando foi me buscar. Os dois se
cumprimentaram e nós saímos.
Acontece que voltei mais tarde do que o
prometido e, quando caminhava em direção à minha casa, vi meu pai na janela do
nosso apartamento no terceiro andar esperando por mim.
Continuei conversando com o rapaz, tentando
distraí-Io para que não visse meu pai, porque eu ficaria tremendamente sem
graça. Logo que chegamos à porta do apartamento, despedi-me rapidamente e
esperei até ouvir a porta do prédio fechar, antes de pegar a chave e entrar em
casa Caminhando na ponta dos pés, vi a porta do quarto de meus pais fechada.
"Ótimo", pensei, achando que papai fora dormir.
Fiquei aliviada em não ter de lhe dar
explicações sobre a hora tardia. Abri a porta do meu quarto, entrei e quase caí
no chão.
Lá estava papai sentado na minha cama, com um
largo sorriso e usando um dos vestidos de mamãe. O cabelo crespo estava eriçado
para cima e as pernas cruzadas. Com uma mão no joelho e outra no quadril, ele
começou a falar com voz fina:
- Então, como foi o encontro? O que ele disse e
o que você disse? Aonde foram jantar? Foram ao cinema? Vão se ver de novo?
Aliás, em que ele trabalha? Ele tratou você bem? Espero que tenha sido um
cavalheiro. Você acha que ele tem sérias intenções?
- Papai, calma, uma pergunta de cada vez. Foi
apenas nosso terceiro encontro.
- Quero todas as informações que sua mãe tem
quando você fala com ela.
Devemos ter conversado e rido por quase uma
hora.
Finalmente, eu disse:
- Hora de dormir, de manhã a gente conversa.
Quem está cansada agora sou eu.
Papai me deu um abraço, um beijo de boa-noite e
me disse:
- Temos de nos lembrar de todos os detalhes
para contar à sua mãe quando chegar, para ela não achar que ficou de fora.
Rir é a melhor forma de se comunicar.
ROBERT FULGHUM
O VISITANTE DA NOITE
HARTLEY F. DAILEY
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 27
O vale de Greenbriar estava quase escondido
pelas nuvens baixas que provocavam chuvas intermitentes. Eu caminhava com
dificuldade pelo terreno cheio de lama, me preparando para os afazeres da tarde
em nossa fazenda, quando olhei para a estrada que passava pela nossa casa e
serpenteava pelo vale. Um carro estava parado ao lado da pista, um pouco além
do pasto.
Naturalmente o carro estava com problemas. De
outra forma, um homem bem-vestido não estaria tentando consertá10 sob a chuva.
Via-se que ele não era um mecânico, mexendo no motor e tentando
desesperadamente dar a partida.
Quando terminei o que tinha de fazer e fechei o
celeiro, já era quase noite. O carro ainda estava lá. Peguei, então, uma
lanterna e fui até a estrada. O homem ficou meio assustado quando me aproximei,
mas se mostrou ansioso pelo meu auxílio. Era um carro pequeno, da mesma marca
do meu, embora mais novo. Em minutos identifiquei o problema.
- É a bobina - eu disse.
- Mas não pode ser! - exclamou. - Acabei de
instalar uma nova, há cerca de um mês.
Era um rapaz jovem, pouco mais que um menino. Tinha
uns dezoito anos, no máximo. Parecia que ia chorar.
- Estou muito longe de casa. Está chovendo. E
preciso dar partida no carro. Tenho de dar partida! - disse quase soluçando.
- É, mas a situação é essa - eu disse. -
Bobinas são muito sensíveis. Às vezes duram por anos. Outras se acabam numa
questão de horas. Posso pegar um cavalo e levar o carro até o celeiro. Daí
vamos ver o que dá para fazer por você. Podemos tentar a bobina do meu carro.
Se funcionar, conheço uma pessoa aqui perto que pode lhe vender uma.
Eu estava certo. Com a bobina do meu carro, o
motor imediatamente pegou, como novo.
- Viu? Era simples - eu disse sorrindo. - Vamos
ver Bill David ali adiante. Ele vai lhe vender uma nova bobina e você poderá
seguir seu caminho. Espere só um instante enquanto aviso à minha mulher, Jane,
aonde vou.
No caminho para a loja de David, achei que o
rapaz estava meio estranho. Ele estacionou no escuro, atrás da loja, e não quis
sair do carro.
- Estou molhado e com frio - se desculpou. -
Aqui está o dinheiro. O senhor se importaria de entrar e comprar a bobina para
mim?
Acabáramos de trocar a bobina quando minha
filhinha, Linda, veio até o celeiro.
- Mamãe mandou dizer que o jantar está pronto -
ela anunciou. E, virando-se para o jovem, acrescentou: - Ela disse para você
entrar e jantar também.
- Ah, não posso - ele protestou. - Tenho de ir.
Não, não, não dá para ficar.
- Não seja ridículo - eu disse. - Afinal,
quanto tempo você vai levar para jantar? Além disso, ninguém vem à casa de Jane
na hora da refeição e sai sem comer. Você não gostaria que ela se deitasse na
lama na frente do seu carro, gostaria?
Ainda protestando, ele se deixou conduzir até a
casa. Mas eu tinha a impressão de que seu protesto não era por educação.
Ele se manteve calado enquanto eu fazia a
prece. Mas parecia agitado durante a refeição. Mal tocou a comida, o que foi
quase um insulto a Jane, uma exímia cozinheira.
Depois do jantar, ele se levantou rapidamente e
anunciou que devia partir. Mas não contava com a reação de Jane. - Olhe aqui -
ela disse, me olhando em busca de apoio. Está chovendo muito lá fora. Suas
roupas estão completamente molhadas e você vai acabar resfriado. Aposto que
também está cansado porque deve ter dirigido muito hoje. Fique conosco esta
noite. Amanhã estará aquecido, seco e descansado.
Aprovei com a cabeça, olhando para Jane. Não é
aconselhável acolher estranhos dessa maneira. Infelizmente, há muitas pessoas
em quem não se pode confiar. Mas eu gostara do rapaz.
Tive a certeza de que não haveria problema.
Relutante, ele concordou em ficar. Jane levou-o
até o quarto de visitas e colocou suas roupas para secar perto da lareira. Na
manhã seguinte ela as passou antes de servir ao visitante um belo café da
manhã. Essa refeição o rapaz comeu com prazer. Parecia que estava mais calmo
naquela manhã. Ele nos agradeceu efusivamente quando saiu.
Mas, quando pegou a estrada, aconteceu uma
coisa estranha. Na noite anterior, ele estava descendo o vale. Ao partir, tomou
a direção oposta, voltando para a capital. Ficamos pensando nisso por um bom
tempo, mas concluímos que ele se confundira na estrada.
O tempo passou e nunca mais soubemos notícias
do jovem.
Nem esperávamos saber, na verdade. Os dias se
transformaram em meses, os meses em anos. A Grande Depressão acabou e veio a
Segunda Guerra. Que, a seu tempo, acabou também. Linda cresceu e tinha agora
sua própria casa. As coisas na fazenda estavam muito diferentes daqueles
primeiros dias de luta. Jane e eu vivíamos de maneira confortável, rodeados
pelo aprazível vale Greenbriar.
Há poucos dias recebi uma carta de Chicago. Uma
carta pessoal, num papel requintado e caro. "Quem nesse mundo poderá estar
me escrevendo de Chicago?", pensei. Abri a carta e li:
Caro Sr. McDonald:
Não imagino que o senhor se lembre do jovem a
quem ajudou, anos atrás, quando o carro dele quebrou.
Faz muito tempo e imagino que o senhor tenha
auxiliado a muitos outros. Mas duvido que tenha ajudado alguém do mesmo modo
como me ajudou.
Imagine que, naquela noite, eu estava fugindo.
Eu tinha no carro uma grande soma de dinheiro que eu roubara de meu patrão.
Quero que o senhor saiba que tenho pais cristãos, boas pessoas. Mas esqueci
seus ensinamentos e me juntei ao mau rebanho. Eu sabia que tinha cometi um erro
terrível.
Mas o senhor e sua mulher foram muito bons para
mim. Naquela noite, em sua casa, comecei a ver como estava errado. Antes de
amanhecer, tomei uma decisão. No dia seguinte, voltei ao meu emprego e
confessei o que fizera. Devolvi todo o dinheiro a meu patrão e lhe implorei
perdão.
Ele podia ter me processado e me mandado para a
cadeia por muitos anos. Mas, como é um homem bom, ele me devolveu o emprego.
Nunca mais me desviei do bom caminho. Agora estou casado, com uma mulher
adorável e temos duas lindas crianças. Trabalhei bastante e tenho uma boa
posição na empresa. Não sou rico, mas estou numa boa situação.
Eu poderia recompensá-lo generosamente pelo que
o senhor fez por mim naquela noite. Mas não acredito que o senhor queira isso.
Então resolvi estabelecer um fundo para ajudar outras pessoas que cometeram o
mesmo e quero que eu. Desta forma, acredito poder pagar pelo meu erro.
Que Deus o abençoe, senhor, e à sua bondosa
esposa, que me ajudou ainda mais do que o senhor sabia.
Entrei em casa e dei a carta a Jane. Enquanto a
lia, vi que seus olhos se encheram de lágrimas. Com o semblante sereno, ela
colocou a carta de lado.
- "Fui peregrino e me acolhestes..."
- ela citou Mateus.
- "Tive fome e me destes de comer...
estava preso e viestes ver-me”.
Nenhum ato de bondade, por menor que seja, jamais é em vão.
Esopo
A FUNCIONÁRIA DO ANO
KEN SWARNER
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 33
Estou gostando muito mais do meu trabalho agora
que Larry Johnson arrumou suas coisas e saiu do nosso departamento. Não quero
parecer insensível, mas não dá para aguentar uma pessoa que tenha tanto tempo
livre e que seja tão tranquila puxando você ou os outros colegas para baixo.
Por muitos anos, meus colegas e eu trabalhamos
muito bem, todos planejando nos manter no mesmo emprego até a aposentadoria.
Então, no último dezembro, Larry chegou. Dei
uma olhada nele e convoquei uma reunião de emergência na sala do café.
- Não quero apavorar ninguém - eu disse. - Mas
há alguma coisa esquisita com esse recém-chegado.
A equipe pareceu preocupada.
- Alguém reparou em suas roupas? Elas são
passadas.
Uma onda de medo se espalhou pelos rostos.
- A pele de seu rosto é clara. O cabelo é
penteado. Os sapatos engraxados.
As pessoas começaram a chorar.
- Você está querendo dizer... - balbuciou
Steve, da contabilidade.
- É - interrompi. - Acho que ele não tem
filhos.
Todo mundo gritou.
Mandamos um esquadrão de reconhecimento à mesa
de Larry para confirmar minhas suspeitas.
- Com certeza, mas é pior do que você pensou.
Ele nem sequer é casado - o líder do esquadrão contou ao retomar.
Os problemas começaram imediatamente. Enquanto
estávamos fazendo o que sempre tínhamos feito - levar crianças a consultas
médicas, voltar correndo em casa por uma lancheira esquecida e angariar fundos
para os escoteiros no elevador -, Larry estava chegando cedo, almoçando na
própria mesa de trabalho e trabalhando até tarde.
Então aconteceu o inevitável. O chefe notou.
- Alguém já notou como Larry está trabalhando?
- ele rosnou.
Como explicar que tínhamos responsabilidades em
relação a nossas crianças? Ele jamais compreenderia.
- Talvez Larry seja um bom candidato para o
novo posto como assistente da diretoria - sugeri ao chefe. - Ia ficar bem para
o senhor recomendá-lo.
E foi assim que nos livramos de Larry "Sem
Filhos" Johnson.
No dia seguinte, a funcionária que veio
substituir Larry
chegou com uma marquinha de leite atrás de cada
orelha e com um colar feito de macarrão seco corno único enfeite. Fui o
primeiro a cumprimentá-Ia.
- Você pretende trabalhar além do horário? -
perguntei nervoso.
Ela estremeceu.
- Está vendo esses círculos escuros à volta dos
meus olhos?
Estou acordada desde a madrugada trocando
fraldas sujas e, quando sair daqui, vou ter de levar dez brownies com formato
de carinha do outro lado da cidade para a festa em que meus filhos vão receber
os distintivos de escoteiros. Quem tem tempo de trabalhar?
Ela tem meu voto para ser a Funcionária do Ano.
O ESTRANHO QUE SE TORNOU MEU PAI
SUSAN J. GORDON
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 36
Numa tarde de sábado, minha mãe insistiu para
que eu pusesse minha melhor roupa porque queria me apresentar ao seu novo
namorado. Ele estava agora lá fora, esperando no carro.
Ela já tivera outros namorados antes. Por que
eu tinha de parar o que estava fazendo e trocar de roupa por causa dele? Por
quê?
Porque, como soube depois, ele a pedira em
casamento na noite anterior. Ele já conhecia meu irmão e agora queria me
conhecer.
- Oi, senhor Cohan - eu disse, louca para
voltar para casa e continuar a jogar.
- Oi, Susan - respondeu o homem de meia-idade e
cabelos crespos. Sua voz era suave, quase tímida, quando estendeu a mão e me
cumprimentou.
Depois que ele e minha mãe se casaram, eu não
sabia como chamá-lo. Por um bom tempo não o chamei de nada. "Leo" não
parecia certo. Ele me chamava de Susan, ou Sue, como minha mãe e meu irmão. Ele
não tinha de me chamar de "filha”. Eu tinha de chamá-lo de
"pai"? Quem era aquele homem para mim? Parecia ser bondoso e delicado
e até gostava da minha companhia. Mas um pai? Chamá-Io de pai o tornaria um
pai? Entrando para uma família que já tinha uma mãe, um garoto adolescente e
uma menina de doze anos, Leo sabia que não seria automaticamente tratado como
pai. Éramos um grupo há muito estabelecido. Ele era a peça nova a ser
encaixada. Não que tivesse de competir com qualquer amor que sentíssemos por
nosso pai "verdadeiro", um homem frio e egoísta, que nunca fora
bondoso nos anos em que tivemos contato. Leo tinha de competir com uma
fantasia, nossas altas e irreais expectativas do que deveria ser um pai
perfeito: amoroso, disponível, generoso, inteligente, bonito e sempre pronto a
nos dar apoio. E, como todo pai perfeito, alguém que considerasse os filhos
perfeitos também.
Ele provavelmente tinha suas próprias
fantasias. Órfão desde criança, Leo tinha sido criado por irmãos e irmãs mais
velhos que, embora o amassem, jamais puseram os interesses dele em primeiro
lugar, como um pai ou mãe devotados fariam.
Agora, aos cinquenta anos, ele se casara com
uma mulher com dois filhos, aceitando todas as responsabilidades e obrigações
financeiras que isso acarretava.
No primeiro ano em que nós quatro vivemos
juntos, Leo passou um bom tempo consertando coisas em nossa casa. Era sua
maneira de fincar raízes, de estabelecer uma base sólida para nossa nova
família. Ele envernizou o painel de madeira do escritório, colocou papel de
parede nos quartos e construiu armários de cedro no porão.
Mas, enquanto nos tornávamos uma família, eu
estava virando a típica adolescente: egoísta, desafiadora e rebelde. Minha mãe e
eu, que sempre fôramos próximas, agora parecíamos discutir o tempo todo.
- Por que você não pode se comportar? - ela me
perguntava, zangada.
- Você não me deixa fazer nada do jeito que eu
quero! - eu contestava, saindo do quarto como um tufão.
Precisava falar com alguém e encontrei Leo no
porão.
Devagar, metodicamente, ele estava aplainando
uma peça de madeira. Enquanto a lixava com cuidado, me deixou falar e me
ofereceu um pedaço de lixa para ajudá-lo a aparar as arestas.
- Ela é impossível! - disse. - Grita comigo por
qualquer coisinha. Tudo que faço tem de ser perfeito para ela aprovar.
Leo balançava a cabeça enquanto eu falava,
continuando seu trabalho. Gostaria que ficasse a meu favor, mas ele sabia que
estava numa situação delicada.
- Sua mãe quer apenas o melhor para você -
disse suavemente.
- Isso não deve ser tão difícil para uma garota
tão excepcional.
Leo e eu passamos um bocado de tempo juntos no
porão naquele primeiro inverno. Ele me ensinou a trabalhar com ferramentas de
modo que eu também pudesse construir, pintar e consertar coisas. Trabalhar ali
com ele foi uma boa maneira de extravasar minhas frustrações adolescentes. O
porão, aonde minha mãe raramente ia, tornou-se um "porto seguro" para
mim.
Meu padrasto estava lá para me ajudar sempre
que eu precisava. Não resolvia meus problemas, mas me encorajava a organizar as
coisas dentro da minha cabeça. Eu precisava de alguém que me ouvisse e ele
fazia exatamente isso.
- Sabe, você e sua mãe têm muito em comum. As
duas são cheias de energia, corajosas e têm opiniões fortes. É por isso que às
vezes uma irrita a outra. Mas é isso também o que eu gosto em vocês - nas duas.
Ele muitas vezes trazia surpresas para casa: um
quadro para a parede do meu quarto, uma revista de esporte para meu irmão. No
jantar, ouvia nossas histórias sobre o time da escola e nossas piadas bobas.
Ele nos tratava como se fôssemos as crianças mais inteligentes do mundo.
- Que tal essa? - começava, e sabíamos o que
vinha a seguir:
uma nova charada que ele ouvira no trabalho ou
lera no jornal.
Ele ria depois de termos acertado a resposta.
- Sabia que não ia conseguir pegar vocês! -
sorria, orgulhoso.
No primeiro mês de agosto que passamos juntos
fui de bicicleta fazer compras na cidade, levando todo o dinheiro que recebera
no mês anterior fazendo pequenos serviços para os vizinhos. Entrei numa loja de
artigos masculinos e um cheiro de loção após barba me intoxicou. Aos treze
anos, viera comprar meu primeiro presente de Dia dos Pais.
Escolhi uma gravata de seda azul, enfeitada com
fileiras de peixinhos, e a levei para casa. No domingo de manhã, quando a dei a
Leo, ele a colocou imediatamente.
- Muito obrigado, gostei muito - ele agradeceu,
beijando meu rosto.
- De nada - respondi. - Feliz Dia dos Pais,
papai. - Falei aquilo da maneira mais natural possível, mas vi que ele sorriu.
Tinha me ouvido.
Aos poucos, com o passar do tempo, nossa nova
família criou suas próprias raízes e tradições. Leo nos viu entrar na
universidade, casar e constituir nossas próprias famílias. Até morrer, aos
setenta e nove anos, ele dividiu muito de seu tempo e de seu amor com nossos
filhos - seus netos. Levou-os para passear em seus carrinhos, leu para eles e
os ninou. Mais tarde, ensinou-os a pescar e a trabalhar com ferramentas, como
fizera comigo.
Leo escolheu minha mãe - e a mim e a meu irmão
também.
Éramos família e amigos por escolha. Sua
amizade e seu amor foram presentes dos quais jamais me esquecerei.
Aquele que cria, não o que gera, é o pai. ÊXODO
PESCAR E SOLTAR
DEE BERRY
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 41
Uma antiga mágoa estava enterrada entre pai e
filho, regada pelo silêncio, adubada pelo tempo. Ela cresceu forte, como tais
mágoas crescem quando são negligenciadas pelo perdão.
Sarah observou isso acontecer entre o marido e
o sogro.
Estava lá quando a mágoa foi plantada e sempre
procurou uma forma de dar um fim àquela história. O único bálsamo que
encontrara até então fora Joshua, seu filho. Os dois homens adoravam o menino,
como se os sentimentos que costumavam ter um pelo outro precisassem de um
escoadouro, um beneficiário, um herdeiro.
Joshua amava o avô Bill e suas histórias de
como crescera na floresta. Por duas semanas, a cada verão, Sarah levava o
menino à casa do avô, no lago. Ali no cais, vovô Bill e Joshua se sentavam para
pescar, desde que o sol nascia até que Sarah os chamasse para jantar. Mas ela
nunca deixava o menino sair no barco - era muito pequeno, dizia.
Num verão, depois de avô e neto muito
insistirem, Sarah finalmente deixou Joshua sair no barco. Mas impôs como
condição que o garoto esperasse até o fim do mês, quando faria sete anos.
Ted jamais acompanhava a mulher e o filho nas
visitas a seu pai. Mas Sarah insistia que o garoto tinha de conhecer o avô,
pois ela sempre lamentou não ter conhecido seus avós.
Como presente de aniversário, Ted deu ao filho
sua primeira vara de pescar. Era apenas um caniço leve com um molinete à prova
de acidentes, mas Joshua mal podia esperar a visita ao lago do avô.
Antes de lavar a louça no dia do aniversário,
Sarah ligara para o sogro, combinando a saída de Joshua de barco. Quando Ted
descobriu, ficou furioso!
- É a primeira vez que o garoto vai sair para
pescar de barco, Sarah, e eu queria levá-lo.
- Então vá com eles - Sarah disse, enxugando a
última travessa.
- Você sabe que isso não é possível - Ted
respondeu secamente.
Sarah jogou o pano de prato no chão, virou-se
para o marido com um olhar furioso e disse:
- Não sei de nada disso, Ted Wilkins! Tudo que
sei é que Joshua quer ir pescar com o avô e com o pai. Que tipo de homem você é
para deixar uma discussão antiga impedi-lo de fazer seu filho feliz?
A indignação de Ted se quebrou ante a lógica de
Sarah. Ela apresentara um argumento que atingiu seu coração.
- Bem, mas ele não vai me deixar entrar na
propriedade, muito menos no barco - Ted disse em voz baixa, vindo-se para o
outro lado.
- Vai sim, depois que eu falar com ele! - Sarah
disse, indo em direção ao telefone.
Foi uma conversa longa, mas que deu frutos.
Vovô Bill, embora relutante, concordou que Ted se juntasse a eles. Depois de
tantos anos, os dois se cumprimentaram friamente. Mas um olhar para o rosto de
Joshua bastou para colocar os dois homens em seus lugares. O menino estava
radiante.
Este fora seu desejo secreto de aniversário!
Encheram o barco com equipamento de pesca
suficiente para afundar o Titanic, pois cada homem levou sua caixa de
apetrechos cheia de segredos. Sarah, por precaução, colocou em Joshua um
salva-vidas laranja, que quase cobriu seu nariz quando se sentou no amplo barco
de alumínio.
Quando Sarah soltou a bolina e empurrou o barco
para longe do cais, Ted e vovô Bill gritaram:
- Você não vem junto?
- Não, pescar é coisa de homem - ela respondeu,
acenando. - Divirtam-se!
Teimosamente, Ted se sentou na proa de frente
para o lado direito, com Joshua no largo assento do meio, perto das varas de
pescar. Vovô Bill ficou na popa, olhando para todos os lados, menos para a
proa.
Os homens se revezavam mostrando a Joshua como
pescar truta e como usar a isca artificial para pegar outros tipos de peixe.
Mas nem por uma vez um falou com o outro, só falavam com Joshua.
Passaram pelas pedras da margem, pelas piscinas
cheias de sombras, os bancos de areia cobertos pela água, até mesmo pela
escarpada pedreira de granito. Mas, depois de um dia inteiro no barco, estavam
exaustos, sem terem pescado um só peixe. Finalmente tentaram fazer as minhocas
flutuarem perto do banco de areia entulhado de junco.
- Isso não está sendo do jeito que eu pensei -
Joshua disse, fazendo tromba, enquanto o barco balançava com os homens em
silêncio. a menino percebia uma certa tensão entre o pai e o avô, mas não
compreendia bem do que se tratava.
- É, Joshua, alguns dias são assim - Ted
explicou.
Bem nesse instante a linha de Joshua disparou -
e num minuto os dois homens começaram a falar com ele.
- Mantenha o caniço para cima! - vovô gritou,
agitadíssimo.
- Enrole a linha, filho, enrole a linha! - Ted
disse, com o mesmo entusiasmo. - Veja o freio.
Joshua não tinha ideia do que estava
acontecendo. Ele nunca, na verdade, pescara qualquer coisa grande o suficiente
para puxar tanta linha.
- Papai, vá lá e ajude com o freio, ele não
sabe como fazer - Ted rapidamente acrescentou.
O peixe fez uma pausa na sua batalha pela vida
e vovô Bill foi ajudar o neto, que estava completamente atrapalhado. Com
habilidade, vovô Bill prendeu a linha entre o indicador e o polegar; mas um
puxão avisou que o peixe resistia, a linha estava muito esticada.
A truta não estava cansada; na verdade, tinha
outras ideias.
Com raiva, subiu à superfície, pulando no ar
quente de verão a mais de dez metros do barco. a peixe fez um movimento rápido,
parecia um arco-íris prata e verde, a água pingando de seu corpo vigoroso. Veio
então o barulho que os dois homens sabiam significar desastre: o ruído seco da
linha se partindo por causa da tensão.
Vovô Bill ainda tentou segurar a linha entre os
dedos, mas não aguentou por muito tempo.
- Suspenda a linha na vertical, Ted - ele
gritou.
Ted mergulhou para apanhar a linha que se
enrolou nas guias da vara. Joshua caiu no fundo do barco e, de repente, a
tensão na vara cessou. Vovô Bill segurou a linha e começou a puxá-Ia,
enrolando-a na mão. Puxou o quanto pôde, mas viu as mãos se enrolarem em nós.
Foi quando Ted veio ajudar e ficou preso também. Bill conseguiu se soltar e
tentou novamente. A linha esticada cortava as palmas das mãos e os dedos, mas
nenhum dos dois reclamava, pois, afinal, era o primeiro peixe de Joshua.
- Estou vendo o peixe! Pegue a rede, Joshua,
pegue a rede gritou Ted.
O garoto foi até o lado inclinado do barco e
tentou pegar a truta com a rede colorida, verde forte. Mas o peixe ainda não
estava vencido. Com um golpe vigoroso da cauda, ele pulou a quase um metro de
altura. Pensando rápido, Joshua ficou em pé no assento e rodopiou a rede atrás
de si, conseguindo pegar o peixe no ar, como se fosse uma borboleta!
Juntos, Ted e Billy se agarraram ao colete
salva-vidas de Joshua, puxando a tempo o menino para dentro do barco. Os dois
homens e o menino riam histericamente enquanto a truta de uns dois quilos e
meio se debatia no fundo do barco. Joshua conseguira apanhar seu primeiro
peixe. Na volta para casa, os três reviveram suas proezas naquele triunfo como
velhos amigos.
Sarah ficou completamente surpresa ao se
aproximar do cais e ver o marido e o sogro disputando quem contaria a história.
O jeito distante e frio desaparecera de suas
vozes, um interrompendo o outro para parabenizar por um ato ousado na aventura.
Joshua, o peito cheio de orgulho, segurava a rede com um único peixe, que valia
um troféu.
Sarah tirou uma fotografia dos três abraçados,
com Joshua e o peixe no meio. Estavam rindo como se tivessem apanhado o maior
peixe do mundo.
- Ei, papai, vamos ensinar a Joshua como limpar
o peixe Ted disse, enquanto se encaminhavam para o cais.
Vendo-os, Sarah sorriu para si mesma. Bastou um
garoto e um peixe para que voltassem a ser uma família.
Todo filho, em algum momento, desafia o pai, briga, se
afasta, apenas para voltar - se tiver sorte ainda mais próximo e protegido do
que antes.
LEONARD BERNSTEIN
A MELHOR ÉPOCA DA VIDA
JOE KEMP
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 47
Era quinze de junho e em dois dias eu faria
trinta anos. Estava inseguro com a rapidez com que o tempo tinha passado e
temia que os melhores anos tivessem ficado para trás.
Minha rotina diária incluía uma sessão de
ginástica antes do trabalho. Todas as manhãs encontrava com meu amigo Nicholas
na academia. Ele tinha setenta e nove anos e estava em plena forma. Quando o
cumprimentei naquele dia, ele percebeu que eu não estava animado como sempre e
perguntou se havia alguma coisa errada. Disse-lhe que estava ansioso por estar
fazendo trinta anos. Fiquei imaginando como olharia para trás quando chegasse à
idade de Nicholas, então lhe perguntei:
- Qual foi a melhor época da sua vida?
Sem hesitar, Nicholas respondeu:
- Bem, Joe, esta é minha resposta filosófica à
sua pergunta filosófica: quando era criança na Áustria e meus pais cuidavam de
mim, sem que eu precisasse me preocupar com nada, aquela foi a melhor época da
minha vida. Quando fui para a escola e aprendi as coisas que sei hoje, aquela
foi a melhor época da minha vida. Quando arrumei meu primeiro emprego, passei a
ter responsabilidades e a ser pago por meu esforço, aquela foi a melhor época
da minha vida. Quando conheci minha mulher e me apaixonei, aquela foi a melhor
época da minha vida. Veio a Segunda Guerra e minha mulher e eu tivemos de sair
da Áustria para salvar nossas vidas. Quando estávamos juntos e a salvo num
navio, vindo para a América do Norte, aquela foi a melhor época da minha vida.
Quando viemos para o Canadá e formamos uma família, aquela foi a melhor época
da minha vida.
Quando me tornei um jovem pai e pude ver meus
filhos crescerem, aquela foi a melhor época da minha vida. E agora, Joe, tenho
setenta e nove anos e estou com saúde. Me sinto bem e continuo apaixonado por
minha mulher, exatamente como quando a conheci. Esta é a melhor época da minha
vida.
A GAROTINHA DO PAPAI
MICHELE CAMPBELL
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 49
- Você conta para o papai, em vez de eu contar?
Essa era a pior parte. Com dezessete anos,
dizer à minha mãe que estava grávida já era difícil, mas dizer a meu pai era
impossível. Papai sempre fora uma fonte constante de coragem em minha vida.
Sempre me olhara com orgulho e eu sempre tentara levar a vida de modo a
deixá-Io orgulhoso. Até isso acontecer. Agora estava tudo perdido. Eu não ia
mais ser a garotinha do papai. Ele nunca mais me olharia da mesma maneira. Dei
um suspiro derrotada e me inclinei em direção à mamãe, para ela me consolar.
- Vou ter de deixar você em algum lugar na hora
de contar a seu pai. Sabe por quê?
- Sei, mamãe. Porque ele não vai conseguir
olhar para mim.
Fui passar a noite com o pastor de nossa
igreja, irmão Lu, a única pessoa com quem me sentia bem naquela época. Ele me
deu conselhos e me confortou enquanto mamãe foi para casa e telefonou para meu
pai no trabalho, para lhe dar a notícia.
Era tudo tão irreal. Naquela época, estar com
alguém que não me julgasse era uma coisa boa. Rezamos, conversamos e comecei a
aceitar e a entender o caminho à minha frente.
Então, vi os faróis do carro refletidos na
janela.
Mamãe viera me buscar para voltar para casa e
eu sabia que papai deveria estar junto. Eu tinha tanto medo. Corri da sala para
o banheiro, trancando a porta. Irmão Lu me seguiu e me repreendeu.
- Menina, você não pode fazer isso. Terá de
enfrentá-Io mais cedo ou mais tarde. Ele não vai voltar para casa sem você.
Venha cá.
- Tudo bem, mas o senhor fica comigo. Estou com
medo.
- Claro, menina, claro.
Abri a porta e, devagar, segui irmão Lu até a
sala. Papai e mamãe ainda não tinham entrado. Imaginei que estivessem no carro,
mamãe preparando papai para o que fosse fazer ou falar quando me visse. Minha
mãe sabia o quanto eu estava apavorada. Mas eu não estava com medo de que meu
pai fosse gritar ou ficar zangado. Não estava com medo dele. Era a tristeza de
seus olhos que me amedrontava. Tristeza por saber que eu estava com problemas e
sofrendo e que não recorrera a ele para me ajudar e apoiar. A compreensão de
que eu não era mais a sua menininha.
Ouvi passos na calçada e a batida suave na
porta de madeira. Meu lábio começou a tremer e me debulhei de novo em lágrimas,
me escondendo atrás do pastor. Mamãe entrou primeiro e o abraçou, então me
olhou com um sorriso sem graça. Seus olhos estavam inchados de chorar, e eu
fiquei agradecida por ela não ter chorado na minha frente. Então vi meu pai.
Ele sequer estendeu a mão a Luther, apenas cumprimentou-o com a cabeça ao
entrar. Veio em minha direção e me envolveu em seus braços fortes, me segurando
bem perto dele enquanto murmurava:
- Amo você. Amo você e vou amar seu bebê
também.
Ele não chorou. Não o meu pai. Mas senti seu
corpo tremendo. Sabia que ele fizera todo o esforço possível para não chorar e
eu estava orgulhosa dele por isso. E agradecida. Quando se afastou e me olhou,
havia amor e orgulho em seus olhos. Mesmo naquele momento difícil.
- Desculpe, papai. Gosto tanto de você.
- Eu sei. Vamos para casa. - E fomos.
Todo o meu medo tinha ido embora. Ainda haveria
dor e provações que eu sequer podia imaginar. Mas eu tinha uma família forte e
amorosa, com a qual sempre poderia contar.
Principalmente, eu era ainda a menininha do
papai e, sabendo disso, não haveria montanha que não pudesse escalar ou
tempestade que não pudesse aguentar.
Obrigada, papai.
AO DEITAR-ME EM MEU LEITO
DIANA DWAN POOLE
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 52
Quando garota, queria ser médica, mas não tinha
dinheiro suficiente para pagar a faculdade de Medicina. Assim, fui fazer
Enfermagem. Em 1966, no último ano, uma pessoa encarregada de recrutar
profissionais para o Exército foi fazer uma palestra na escola. Tudo parecia
tão emocionante: eu teria a chance de trabalhar, seria bem paga e, o mais
importante de tudo, não teria de ir para o Vietnã se não quisesse - e eu não
queria.
Eu me alistei. Depois de um treinamento básico,
fui designada para o Hospital Letterman, em Presidio, São Francisco.
Durante os dois anos em que trabalhei lá fui
chamada para ir ao Vietnã três vezes. Nas duas primeiras me recusei, mas na
terceira achei que estava preparada para aquela experiência.
Pousamos na Base Aérea de Tan Son Nhut e,
quando a porta do avião se abriu, quase caí para trás tal o calor e o mau
cheiro. De repente, percebi que, aos vinte e três anos, não conhecia muita
coisa da vida. Fiquei com medo, mas não havia como desistir.
Depois de uma entrevista, fui designada para o
Septuagésimo Sétimo Hospital Evac, em Qui Nhon. Quando o helicóptero pousou na
pista do hospital, puseram minhas coisas no chão. Desci, segurando a saia. Os
soldados no helicóptero gritaram: "Boa sorte, capitão", enquanto
decolavam.
Eu estava com meu uniforme classe A, o que
significava que estava também de meias de náilon e salto alto. Nada menos
adequado para o ambiente. Quilômetros de arame farpado, a parte de cima em
espiral, rodeavam o complexo do hospital e o campo de pouso ao lado. Empinei os
ombros e entrei no soturno prédio de concreto à minha frente. Disseram-me para
dormir um pouco, pois começaria no dia seguinte. Foi bom dormir e, pela manhã,
vesti uniforme e botas do Exército, exatamente como os soldados. Era a roupa que
usaria no hospital.
Como eu era capitão, fui designada
enfermeira-chefe na ala da ortopedia, que basicamente abrigava soldados com
amputações traumáticas. Levei meu papel a sério e tinha reputação de rígida.
Ter sido enfermeira nos Estados Unidos por dois
anos não me preparou adequadamente para o Vietnã. Testemunhei um enorme
sofrimento e vi muitos homens morrerem. Uma de minhas regras era que às
enfermeiras não era permitido chorar.
Os homens feridos e à beira da morte que
estavam sob nossos cuidados precisavam de nossa força, eu lhes dizia. Não
podíamos nos dar ao luxo de dar vazão aos nossos sentimentos.
Por outro lado, eu era sempre direta com os
soldados.
Nunca dizia: ''Ah, você vai ficar bom", se
isso não fosse verdade.
Eu não mentia.
Mas me lembro de um garoto a quem eu não queria
contar a situação real. O soldado, muito ferido, não podia ter mais de dezoito
anos. Vi imediatamente que não havia mais nada a fazer para salvá-lo. Ele
jamais gritou ou se queixou, mesmo quando estava sentindo muita dor.
Um dia ele me perguntou:
- Eu vou morrer?
- Você acha que vai? - eu respondi.
Ele disse:
- Acho que sim.
- Você sabe rezar? - perguntei.
- Eu sei ''Ao Deitar-me em Meu Leito".
- Ótimo.
Quando me pediu para segurar sua mão, alguma
coisa estalou em mim. O garoto merecia mais do que uma mão que apertasse a sua.
- Vou fazer melhor do que isso - eu lhe disse.
Sabia que podia ser criticada pelas
enfermeiras, pelos soldados e pelos pacientes, mas não me importei. Não havia
ninguém olhando e me deitei na cama com o soldado. Pus meus braços à sua volta,
tocando seu rosto e seu cabelo enquanto ele se aninhava no meu colo. Beijei seu
rosto e juntos recitamos:
“Ao deitar-me em meu leito, peço ao Senhor que
guarde a minha alma.
Se eu morrer antes de acordar, peço a Deus que
cuide da minha alma. "
Então ele me olhou e disse apenas mais uma
frase: ''Amo você, mamãe, amo você", antes de morrer nos meus braços,
calma e tranquilamente, como se estivesse mesmo indo dormir.
Depois de um minuto, saí furtivamente da cama e
olhei à volta. Tenho certeza de que meu rosto estava com a fisionomia fechada,
pronta para enfrentar qualquer um que me recriminasse. Mas eu não precisava ter
me preocupado. Todas as enfermeiras e os outros soldados que ali serviam tinham
quebrado a minha regra e estavam chorando, silenciosamente, as lágrimas
escorrendo pelo rosto.
Pensei na mãe do soldado morto. Ela receberia
um telegrama informando-a de que o filho morrera de "ferimentos de
guerra”. Só isso estaria no telegrama. Imaginei que ela ficaria para sempre
querendo saber o que acontecera. Será que ele morrera no campo de batalha?
Havia alguém com ele? Será que sofreu? Se eu fosse sua mãe, ia precisar saber.
Assim, mais tarde, eu me sentei e lhe escrevi
uma carta.
Achei que ela gostaria de saber que, nos
últimos momentos, o filho pensara nela. Mas, principalmente, queria que
soubesse que o filho não morrera sozinho.
Todos aqueles soldados pertencem a alguém.
Eles têm pai, mãe, mulheres, filhos...
Têm alguém que os ama.
LIZ ALLEN, enfermeira no Vietnã
SE VOCÊ ME AMA ME DIGA
MITCH ANTHONY
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 56
Jerry não se esquece daquele dia de inverno em que
nevava e seu filho mais velho quase sofreu um acidente sério. Jeff mal tinha um
ano de carteira e isso deixava Jerry nervoso toda vez que o rapaz saía de
carro. A proximidade com o desastre aumentou sua ansiedade.
Um dia, logo depois do quase-acidente, Jeff
disse ao pai que ia a uma festa e voltaria tarde.
- Dirija com cuidado! - Jerry advertiu.
Jeff virou-se para o pai com um olhar de
tristeza e perguntou:
- Por que você sempre diz isso?
- Digo o quê?
- "Dirija com cuidado." É como se
você não confiasse em mim dirigindo.
- Não, filho, não é nada disso - Jerry
explicou. - É só uma maneira de dizer "Eu te amo".
- Olhe, papai, se você quer dizer que me ama,
diga isso! Se não, posso confundir a mensagem.
- Mas... - Jerry hesitou. - E se seus amigos
estiverem com você? Se eu disser "Eu te amo", você pode ficar sem
graça.
- Nesse caso, papai, quando estiver se
despedindo, basta colocar sua mão perto do coração e eu vou fazer a mesma coisa
- Jeff sugeriu.
Jerry entendeu que seu filho, tanto quanto ele,
queria expressar seu amor.
- Estamos combinados - ele disse.
Alguns dias depois, Jeff estava pronto para
sair de novo, dessa vez com um amigo.
- Papai, pode me emprestar o carro? - ele
pediu.
- Claro - Jerry respondeu. - Aonde você vai?
- Ao centro da cidade.
Jerry lhe deu as chaves.
- Jeff, divirta-se - disse o pai, colocando
discretamente a mão perto do coração.
Jeff fez a mesma coisa.
- Claro, papai.
Jerry piscou. E Jeff, chegando perto do pai,
falou baixinho:
- Piscar não faz parte do nosso trato.
Jerry ficou meio surpreso.
- Tudo bem, papai, até mais tarde - Jeff disse
enquanto se dirigia à porta.
Antes de sair, ele se virou - e piscou.
Expressar afeto é o melhor dos métodos quando se quer
acender
a paixão no coração de alguém e senti-la no seu próprio.
RUTH STAFFORD PEALE
É PRECISO SER UM HOMEM ESPECIAL
PARA SER UM BOM PADRASTO
BETH MULLALLY
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 58
Chegando o Dia dos Pais, me passou pela cabeça
que, neste país, falta comemorar uma data, o Dia do Padrasto. Se há quem mereça
um dia especial são as almas valentes que têm de se encaixar em famílias já
prontas com o cuidado e o esmero de um neurocirurgião.
É por isso que temos o Dia do Pai Bob em nossa família.
É a nossa versão do Dia do Padrasto, em homenagem a Bob, o padrasto de meus
filhos. Eis por que nós celebramos esse dia.
Pai Bob acabou de se mudar.
- Se você fizer alguma coisa que magoe minha
mãe, fique sabendo que mando você para o hospital - diz o rapaz que está na
faculdade e que é muito maior do que o padrasto.
- Não vou esquecer - diz Pai Bob.
- Você não vai querer agora me dizer o que eu
tenho de fazer - diz o garoto que está no primeiro grau. - Você não é meu Pai.
- Não vou esquecer - diz Pai Bob.
O rapaz que está na faculdade telefona. O carro
quebrou a setenta quilômetros de casa.
- Já estou chegando - diz Pai Bob.
O vice-diretor da escola está no telefone. O
garoto que está no primeiro grau se envolveu numa briga.
- Já estou chegando - diz Pai Bob.
- Preciso de uma gravata para usar com essa
camisa - diz o rapaz que está na faculdade.
- Escolha uma no meu armário - diz Pai Bob.
- Você devia pôr um brinco na orelha - diz o
garoto que está no primeiro grau.
- Você precisa parar de arrotar à mesa - diz
Pai Bob.
- Vou tentar - diz o garoto.
- Não vou esquecer - diz Pai Bob.
- O que você achou da garota com quem eu saí
ontem? pergunta o rapaz.
- É importante para você saber? - pergunta Pai
Bob.
- É - diz o rapaz.
- Preciso falar com você - diz o garoto.
- Preciso falar com você - diz Pai Bob.
- Acho que devíamos fazer uma coisa para selar
a relação entre padrasto e enteado - diz o rapaz.
- Fazendo o quê? - pergunta Pai Bob.
- Trocando o óleo do meu carro - diz o rapaz.
- Acho que devíamos fazer uma coisa para selar
a relação entre padrasto e enteado - diz o garoto.
- Fazendo o quê? - pergunta Pai Bob.
- Me dando uma carona até o cinema - diz o
garoto.
- Eu sabia - diz Pai Bob.
- Se beber, não dirija. Me telefone - diz Pai
Bob ao rapaz.
- Obrigado. Se beber, não dirija. Me telefone -
diz o rapaz.
- Obrigado - diz Pai Bob.
- A que horas tenho de chegar em casa? -
pergunta o garoto.
- Às onze e meia - diz Pai Bob.
- Tudo bem - diz o garoto.
- Nunca pense em fazer nada que possa magoá-Io
- o rapaz me diz. - Precisamos dele.
- Não vou esquecer - eu digo.
E por isso temos o Dia do Pai Bob. Os meninos
compram para o padrasto um brinquedo novo com o qual todos possam se divertir
juntos. Pai Bob faz um churrasco. E eu fico feliz pela sorte de Pai Bob ter
entrado nessa família de forma tão encantadora que agora parece que ele sempre
esteve ali.
TIO BUN
JAN NATIONS
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 61
Tio Bun era uma pessoa fascinante. Não nos
visitava com frequência, mas ao ir a nossa casa quando eu era criança, nos anos
quarenta e cinquenta, tudo ficava diferente durante o tempo que passava
conosco. Éramos oito filhos e a maior parte de nossa diversão vinha de fazer
tortas de lama, brincar com vaga-lumes e com outros insetos que surgiam no
verão, além de construir casas de boneca no antigo galinheiro.
Para nós, tio Bun era um viajante que rodava o
mundo.
Quando vinha nos visitar, contava histórias
sobre os lugares em que estivera e as pessoas que conhecera. Fazia todos nós
vermos a vida sob uma nova perspectiva. Normalmente trazia um presente
maravilhoso para cada um e, às vezes, íamos até a pequena loja no centro da
cidade e ele nos comprava um saco inteiro de balas de um centavo. O saco
parecia enorme quando eu era uma garotinha.
Nunca sabíamos quando teríamos notícia de tio
Bun. Eu atribuía isso ao fato de sua "carreira” - qualquer que ela fosse
mantê-lo por demais ocupado para fazer planos. Às vezes, ao invés de nos
visitar, enviava uma enorme caixa cheia de surpresas especiais, coisas que
nunca tínhamos visto antes. Não existia maior felicidade do que abrir aqueles
baús de amor feitos de papelão marrom.
Lembro que ficava imaginando como tio Bun
deveria ser rico para poder nos comprar tantas coisas lindas. Não podia deixar
de comparar aquele tio animado e generoso com meu próprio pai:
um homem simples, com uma vida simples,
trabalhando nas minas de chumbo e fazendo pequenos consertos quando podia para
manter um lar para sua mulher e filhos. Eu adorava papai e sabia que era um bom
homem. Mas sua vida era sem nenhum glamour se comparada com a de seu irmão
jovial, que tinha um brilho nos olhos, um largo sorriso e histórias
fascinantes. Tio Bun sempre nos ligava um dia ou dois antes de chegar e, logo
que papai desligava o telefone e nos contava que ele viria, ficávamos super
agitados. Adorávamos tio Bun e esperávamos ansiosamente por aquela bem-vinda
quebra de nossa rotina.
O que eu não sabia quando criança é que, quando
tio Bun telefonava, papai ia até a cidade e mandava uma ordem de pagamento ao
irmão com as economias que guardava. Cada centavo que tio Bun gastava conosco
saía do bolso de papai.
Ao longo dos anos, as peças começaram a se
encaixar: as muitas viagens de tio Bun eram feitas de trem, sem passagem, na
traseira de vagões de carga. Suas histórias eram de pessoas que viajavam com
ele, histórias que ele exagerava um pouco.
Nunca soube por que tio Bun escolheu viver como
vivia ou por que meu pai manteve seu segredo durante todos aqueles anos.
O que sei é que, numa situação em que seria
fácil ficar com o crédito, papai manteve um comportamento nada egoísta. Através
de tio Bun, papai nos deu presentes de lugares onde nunca esteve.
E, através de nós, tio Bun participou da vida
em família e recebeu o amor que não tinha na sua vida solitária. Com meu pai,
que jamais disse uma palavra a respeito, aprendi tudo sobre o amor generoso e
incondicional.
ANTES O PAI, AGORA O FILHO
W.W. MEADE
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 64
Numa noite de inverno, eu estava lendo e meu
filho, Luke, se aproximou timidamente em silêncio. Ficou fora da meia-lua de
luz que vinha de um abajur de bronze de que eu gostava muito. Antigamente
ficava na mesa do consultório médico de meu pai.
Naquela época, Luke gostava de me trazer seus
problemas mais sérios quando eu estava lendo. No ano anterior fazia isso sempre
que eu estava trabalhando no jardim. Talvez ele se sentisse mais à vontade em
relação a suas dificuldades quando eu estava fazendo aquilo que ele estava se
preparando para fazer.
Quando começou a se interessar em ver as coisas
crescerem, aprendeu a plantar sementes e a deixá-Ias na terra ao invés de
desenterrá-Ias na manhã seguinte para ver se tinham crescido.
Agora estava começando a ler sozinho - embora
ele não fosse admitir para mim.
Levantei os olhos do jornal e ele me deu um
sorriso largo.
Mas, de repente, sua expressão tornou-se séria:
- Quebrei minha serra - disse, mostrando o
brinquedo que tinha escondido atrás das costas. - Olhe só.
Luke não me pediu para consertá-Ia. Sua
confiança de que eu poderia fazer isso era o respeito de um menininho ao
milagroso consertador de triciclos, trenzinhos e vários outros brinquedos. O
cabo de plástico azul da serra se partira. Meu pai, que apreciava as
ferramentas de todas as profissões, não teria aprovado uma serra com cabo de
plástico.
Eu disse:
- Faltam uns pedacinhos. Estão com você?
Ele abriu a mão e me estendeu os pedaços que
tinham sobrado. Eu não tinha ideia de como consertar a serra.
Luke me olhou firme, a expressão revelando
total confiança de que eu poderia fazer qualquer coisa. Aquele olhar revolveu
lembranças. Examinei a serra cuidadosamente, remexendo as pecinhas quebradas na
minha mão como remexia o passado em minha mente.
Quando tinha sete anos, fui ao consultório de
meu pai depois da escola, num dia de novembro. Meu pai era realmente o melhor
médico da pequena cidade de Ohio River, onde morávamos.
Ele sempre surpreendia a mim - e a seus
pacientes - pelas coisas que podia fazer. Podia não apenas curar os males de
qualquer pessoa, não importava o quê, mas também dominar um cavalo, fazer um
pião e escorregar pela montanha em pé no meu trenó! Eu gostava de ficar na sala
de espera do consultório ouvindo as pessoas me chamarem de
"doutorzinho" e observando seus pacientes, que sempre saíam de sua
sala melhor do que entravam.
Mas, naquele dia, quando eu tinha sete anos,
estava lá para ver meu melhor amigo, Jimmy Hardesty. Ele não ia à escola há
três dias, e sua mãe enviara um bilhete à enfermeira de meu pai dizendo que
levaria Jimmy ao consultório naquele dia.
Quando o último paciente do dia foi embora,
Jimmy ainda não chegara. Meu pai e eu saímos então para visitar doentes em
casa. Ele gostava que eu fosse com ele e adorava me contar histórias enquanto
dirigia. Eram quase sete horas quando terminamos. Quando voltávamos para casa,
papai disse de repente: "Vamos ver como está o Jimmy." Fiquei
contente e agradecido, certo de que meu pai estava fazendo aquilo para me
agradar. Mas, quando chegamos à antiga casa de pedras cinza, havia uma luz
acesa na janela superior da parte de trás e uma outra na varanda dos fundos -
antigamente era assim que se avisava que havia algum problema na casa.
Papai estacionou o carro perto da porta de
entrada. Alice, a irmã mais velha de Jimmy, saiu correndo e passou os braços à
volta de meu pai, chorando e tremendo, tentando falar.
_ Ah, doutor. Jimmy está morrendo! Papai saiu à
sua procura. Graças a Deus, o senhor está aqui.
Meu pai nunca se apressava. Costumava dizer que
não há nenhuma razão para correr. Se você tivesse de correr, já era tarde
demais. Mas disse para Alice soltá-Io e correu. Eu os segui pela cozinha,
subindo pela escada estreita e escura da sala. Jimmy estava com a respiração
ofegante e fazia um ruído alto, cheio de ar. O menino tinha montes de
cobertores sobre ele, de modo que mal podíamos ver seu rosto na luz
tremeluzente das lamparinas de querosene. Parecia exausto e sua pele brilhava.
Sua mãe estava extremamente abatida.
- Ah, doutor. Por favor, nos ajude. Era só um
resfriado, então, de tarde, ele começou com esse suor terrível.
Eu nunca tinha visto a mãe de Jimmy assim
antes. Ela ficou atrás de mim, com as mãos nos meus ombros, enquanto meu pai
auscultava o peito de seu filho. Ele preparou uma injeção e levantou a agulha
perto da luz. Eu tinha certeza de que ali estava para acontecer o milagre a que
todos temos direito. Papai deu a injeção em Jimmy. Então pegou um chumaço de
gaze e colocou na boca de meu amigo. Inclinou-se sobre ele e começou a respirar
junto com ele. Ninguém se mexia no quarto e não havia outro som, a não ser a respiração
regular de meu pai e a resposta da respiração de Jimmy, alta e sibilante.
Então, repentinamente como um raio, havia
apenas o terrível som da respiração de meu pai. Senti as mãos da mãe de Jimmy
pressionarem meus ombros e eu sabia, como ela sabia, que alguma coisa
acontecera. Mas meu pai continuou a soprar nos pulmões de Jimmy. Passou-se um
bom tempo e a senhora Hardesty foi até a cama, pôs a mão no braço de meu pai e
disse:
- Ele se foi, doutor. Venha. Meu menino não
está mais conosco.
Mas meu pai não se mexeu. A senhora Hardesty
então me pegou pela mão e descemos, para a cozinha. Ela se sentou numa cadeira
de balanço, e Alice, com um ar desamparado como eu jamais vira em ninguém,
jogou-se no colo da mãe. Saí até a varanda e me sentei no degrau mais alto da
escada, ali na escuridão gelada. Não queria que ninguém me visse ou falasse
comigo.
Quando o senhor Hardesty chegou e viu nosso
carro, entrou na casa e, por um minuto, ouvi vozes. Seguiu-se um silêncio,
depois mais vozes. Finalmente meu pai saiu e o segui até o carro. Durante todo
o solitário caminho de volta, ele não falou uma palavra. E eu não podia me
arriscar a dizer nada para ele.
O mundo que eu pensava conhecer se partira no
fundo do meu coração. Em vez de irmos para casa, fomos a seu consultório.
Ele começou a pesquisar em seus livros,
procurando por alguma coisa que pudesse ter feito. Eu queria detê-Io, mas não
sabia como. Não podia imaginar como a noite terminaria. De vez em quando, sem
querer, eu começava a chorar novamente.
Finalmente alguém bateu à porta e fui até a
sala da frente, agradecido a quem quer que fosse. Notícias sobre nascimentos e
mortes correm rápido e vão longe numa comunidade como a nossa. Mamãe viera nos
procurar.
Ela se ajoelhou, me abraçou, esfregou a parte
de trás da minha cabeça e eu a abracei, como não fazia desde que era bebê.
_ Ah, mamãe, por que ele não conseguiu, por que
ele não conseguiu? - eu soluçava, com a cabeça em seu ombro.
Ela esfregou minhas costas até me acalmar.
Então disse:
_ Seu pai é maior que você, mas ele é menor que
a vida. Nós o amamos pelo que ele pode fazer, não o amamos menos pelo que não
pode fazer. O amor aceita o que encontra, seja o que for.
Embora eu não tenha certeza de ter compreendido
o que ela quis dizer, sei que percebi a importância de suas palavras. Então ela
entrou para falar com meu pai. Aquele inverno pareceu ter durado uma
eternidade, mas todas essas lembranças passaram pela minha mente em segundos.
Continuei a remexer as peças do brinquedo
quebrado de Luke e lhe disse:
- Não posso consertar.
- Pode, sim.
- Não, não posso. Desculpe.
Ele me olhou e a expressão de confiança
desapareceu de seu rosto. Seu lábio inferior tremia e ele tentava segurar as
lágrimas que surgiram.
Eu o coloquei no colo e o consolei da melhor
maneira que pude - tanto pelo brinquedo quebrado quanto por ter acabado com a
sua ilusão de que eu era infalível. Aos poucos o choro diminuiu. Eu tinha
certeza de que ele percebera minha tristeza por tê-Io decepcionado ao
demonstrar que era um simples mortal. Luke ficou aninhado em meu colo por um
bom tempo, o braço à volta do meu pescoço.
Quando ele saiu da sala, me dando um olhar
direto e amigável, pude ouvir a voz de minha mãe me dizendo, do seu jeito
incontestável, que o amor não era condicional. Antes o pai, agora o filho. Eu
sabia com certeza que da angústia daquela descoberta vinha a primeira luz,
ainda fraca, da compreensão.
PÉS GRANDES, CORAÇÃO MAIOR AINDA
AUTOR DESCONHECIDO Do livro de Brian Cavanaugh, The Sower
Seeds
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 70
O verão ainda não havia começado, mas fazia um
calor insuportável. Parecia que todo mundo estava procurando por algum tipo de
alívio e, assim, a sorveteria era um lugar natural para se ir.
Um menininha, com o dinheiro apertado na mão,
entrou na loja. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, o empregado asperamente
mandou que saísse e lesse o cartaz na porta - e que ficasse lá fora até que
calçasse uns sapatos. A menina saiu devagar e um homem bem alto a seguiu até a
calçada.
Ele ficou observando enquanto a garota leu o
cartaz em frente à loja: PROIBIDO ENTRAR DESCALÇO. Lágrimas começaram a rolar
pelo rosto da menina, que se virou para ir embora. Então o homem alto a chamou.
Ele se sentou no meio-fio, tirou seus sapatos número quarenta e quatro e os
colocou em frente à garota, dizendo:
- Tome aqui. Você não vai conseguir andar com
eles, mas, se for deslizando os pés, pode buscar sua casquinha de sorvete.
O homem levantou a menina e colocou os pés dela
nos sapatos.
- Não precisa ter pressa. Estou cansado de
andar por aí e vou ficar muito bem aqui sentado, tomando meu sorvete.
Impossível não notar o brilho nos olhos da
menina quando ela chegou no balcão e pediu a casquinha de sorvete.
Ele era um homem grande, é verdade. Tinha uma
barriga grande, sapatos grandes, mas, principalmente, tinha um grande coração.
Quando as boas ações falam, as palavras não são
necessárias.
PROVÉRBIO AFRICANO
PAPAI, TENHO UM BOLA DE PLÁSTICO
JEFF BOHNE
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 72
Estava preocupado com a minha filha. Betsy
estava entrando na adolescência e passava por uma daquelas fases em que
qualquer pequeno problema parece uma tragédia. Nos últimos tempos, andava
cabisbaixa porque uma de suas melhores amigas resolvera implicar com suas
roupas e debochar de tudo que ela dizia.
Queria encontrar uma forma de ensinar a Betsy
que a vida é cheia de altos e baixos e que precisamos enfrentar as adversidades
de cabeça erguida, sem deixar que afetem nossa autoestima. Mas fazer com que
ela compreendesse isso não seria uma tarefa fácil. Como a maioria das meninas
da sua idade, Betsy achava que os pais viviam em outro mundo e não entendiam
seus problemas.
- Minha vida é uma droga. Ninguém se importa
comigo e às vezes penso que ninguém ligaria se eu não estivesse mais aqui - ela
me respondeu uma noite, quando tentei conversar com ela sobre a melhor maneira
de lidar com as críticas da amiga.
- Eu e sua mãe nos importamos. Você é uma
garota fabulosa - disse, dando-lhe um beijo de boa-noite.
Antes de dormir, conversei com minha mulher,
Nancy, sobre o que podíamos fazer para ajudar Betsy. Pensamos numa boa
estratégia.
No dia seguinte, durante o jantar com Betsy e o
caçula, Andy, minha mulher lembrou "casualmente" de um discurso que o
pastor de nossa igreja tinha feito há alguns dias. Ele tinha comparado os
problemas com uma bola de plástico, daquelas bem leves que as crianças gostam
de jogar na praia.
O pastor pediu que imaginássemos que estávamos
no fundo de uma piscina e tentávamos manter a bola entre as pernas, sob a água.
Isso era fácil por algum tempo, mas depois só havia duas possibilidades. Ou
você ficava tão cansado que deixava a bola escapar e pipocar na superfície ou -
o que é pior - ficava tão cansado em tentar mantê-la submersa que acabava se
afogando.
A mensagem do pastor era clara: não adianta
tentar esconder os problemas a qualquer custo. Mesmo usando toda nossa força e
determinação, em algum momento eles virão à tona e lutar contra isso pode
arruinar nossa vida. Por outro lado, ao observar as mentiras, mágoas, dúvidas e
medos à luz do dia, temos muito mais chances de superar os obstáculos e
perceber que não eram assim tão importantes.
Depois que Nancy contou a história, pude ver
que os meninos estavam tentando entender o que aquilo tinha a ver com eles.
Expliquei que, às vezes, todos nós temos nossas
"bolas de plástico", que tentamos esconder. Pedi que, a partir de
então, sempre que eles tivessem dificuldade em nos contar um problema, deveriam
simplesmente dizer: "Tenho uma bola de plástico." Nancy e eu
prometemos que a única coisa que faríamos por vinte e quatro horas seria ouvir.
Nada de gritos, julgamentos, conselhos: apenas ouvir. Depois de vinte e quatro
horas, poderíamos tentar lhes ajudar a sair do problema. O fundamental era que
soubessem que sempre estaríamos por perto e prontos para ouvir, independente da
gravidade da situação.
Através dos anos, eles nos apresentaram muitas
"bolas de plástico", normalmente tarde da noite. Algumas eram mais
sérias que outras. Algumas até engraçadas e tentávamos não rir quando nos
contavam. Outras jamais chegaram aos nossos ouvidos, mas foram divididas com
amigos da família. Sempre nos submetemos à regra das vinte e quatro horas.
Nunca voltamos atrás em nossa promessa, não importando o quanto queríamos
reagir ao que contavam.
Os dois agora são adultos. Tenho certeza de que
ainda têm "bolas de plástico" de vez em quando. Todos temos. Mas
sabem que estaremos por perto para ouvi-los. Afinal, o que é uma bola de
plástico? Algo que desaparece quando você a solta ao vento.
A ÚNICA LEMBRANÇA QUE PERMANECE
TED KRUGER
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 75
Tenho muitas lembranças de meu pai e da minha infância
com ele em nosso apartamento perto da linha do trem. Por vinte anos, ouvimos o
barulho do trem como se passasse ao lado da janela do quarto.
Tarde da noite, papai esperava sozinho na
estação pelo trem que o levava à fábrica, onde trabalhava no turno que começava
à meia-noite.
Naquela noite especial, esperei com ele no
escuro para me de pedir. Seu rosto estava crispado. O filho mais novo fora
convocado para a guerra. Eu devia me apresentar às seis da manhã do dia
seguinte, enquanto ele estivesse trabalhando na máquina de cortar papel.
Meu pai e eu conversamos sobre a revolta que
ele sentia. Não queria que eles levassem seu filho, de apenas dezenove anos,
que jamais bebera ou fumara sequer um cigarro, para lutar na Europa. Ele
colocou as mãos sobre meus ombros magros:
"Tenha cuidado, Srulic, e, se precisar de
alguma coisa, me escreva que eu consigo para você." De repente, ouviu-se o
barulho do trem que se aproximava.
Ele me abraçou apertado e suavemente beijou-me
o rosto. Com os olhos cheios de lágrimas, murmurou: “Amo você, meu filho."
O trem chegou, as portas se fecharam e ele desapareceu na noite.
Um mês depois, aos quarenta e seis anos, meu
pai morreu.
Tenho setenta e seis anos agora. Uma vez ouvi o
repórter Pete Hamill, de Nova York, dizer que as lembranças são a maior herança
de um homem e tenho de concordar. Sobrevivi a quatro invasões na Segunda
Guerra. Tenho uma vida cheia de toda espécie de experiências. Mas a única
lembrança que permanece é a de uma noite quando meu pai disse: “Amo você, meu
filho."
Você nunca sabe quando está forjando uma lembrança.
RICKIE LEE JONES
RITOS DE PASSAGEM EM TURBILHÃO
STEFAN BECHTEL
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 77
Cheguei à região das florestas canadenses com
meu filho Adam, que acabara de fazer treze anos. Eu estava pronto para alguma
coisa extravagante. Se quisesse algo calmo e seguro, teria ficado em casa.
"O papel da mãe é ensinar o filho a se afastar do perigo", pensei. Já
o pai deve mostrar como chegar um pouco mais perto do limite.
Assim, fomos a uma loja de artigos esportivos
em Minnesota e nos equipamos com mapas, barracas, material de pescaria e
mantimentos para passar cinco dias na floresta. Pegamos um hidroavião para o
Parque Provincial Quetico, em Ontário, dois mil e setecentos quilômetros
quadrados de lagos de águas negras e florestas assombradas por lobos,
mergulhões e alces, perto da fronteira de Minnesota, a partir da região dos
Grandes Lagos.
No posto da ilha Hilly, onde o avião pousou num
vale arborizado, pusemos o equipamento numa canoa de alumínio e partimos. Assim
que ultrapassamos o primeiro ponto rochoso, estávamos completamente sós. A
tarde estava nublada e uma luz cinzenta e difusa coloria as águas inclinadas
das cachoeiras. À nossa volta, a margem rochosa tinha uma linha escura de
árvores que se estendia na vastidão.
Paramos pela primeira vez depois de algumas
horas remando para fazer uma pequena caminhada perto da cachoeira de Brewer,
uma queda de uns seis metros, cheia de espuma, que se estendia por quase
duzentos metros. Carregamos o equipamento até o alto da cachoeira em duas
viagens. Na terceira levamos a canoa.
- Por que não descemos com o barco? - Adam
perguntou de repente, quando estávamos no alto da queda-d'água, com a canoa
agora vazia.
Deixando de lado momentaneamente a
racionalidade, respondi:
- Claro, por que não?
Afinal, não parecia nada terrível - há pouco
tempo fizéramos rafting no rio Novo, em West Virginia, e, comparando o rio e a
cachoeira, parecia fácil. Adam me lembrou de colocar o colete salva-vidas. Subi
na popa, ele na proa e fomos adiante. A água cor de chá puxava o bote.
- Fique na esquerda! - gritei, tentando nos
guiar para fora do tumulto espumoso do centro da cachoeira.
- Não, vamos bem para o meio! - Adam gritou de
volta.
E assim fizemos.
E foi quando uma queda de quase um metro, não
visível da beira, apareceu à nossa frente. Num instante o barco chegou à beira
do precipício, balançou de um lado para o outro e virou de cabeça para baixo.
Vi Adam voando por cima do barco, o que logo
aconteceu comigo. Afundei e subi, bebendo água, mexendo as mãos,
tentando segurar em alguma coisa. Com a força da torrente, afundei novamente e
fui arrastado para baixo, batendo em pedras submersas. Minhas botas de
caminhada, cheias d'água, instantaneamente se tornaram um peso enorme. Num
relance, vi o salva-vidas roxo de Adam sendo arrastado para longe de mim.
Adam! - gritei, mas não ouvi a voz dele.
Quando comecei a planejar essa viagem, morrer
afogado não era meu maior medo. O maior medo era não termos nada a dizer um ao
outro, que Adam logo se cansasse da minha companhia e começasse a querer estar
ali com um amigo ou - o que seria pior - com o seu Game Boy.
Quando conversei com ele sobre fazer uma viagem
de aventuras para comemorar seus treze anos, Adam me disse que o que queria
mesmo era descer e subir o Grand Canyon. Basicamente, queria ter uma boa
história para se gabar. Mas eu preferia alguma coisa mais calma e tranquila.
Queria lhe mostrar a região das florestas, mas sem ter de provar nada para
ninguém. Mas, principalmente, queria me reaproximar de meu filho, que eu
parecia ter perdido em meio a discos dos Smashing Pumpkins, Nintendo, bonés
enfiados ao contrário na cabeça e tudo o mais. EIe estava passando tão depressa
da doce vulnerabilidade da infância para a terrível teimosia da adolescência
que eu às vezes imaginava que Ia acordar e descobrir que lhe nascera uma enorme
barba durante a noite.
Como muitos pais de minha geração, eu também
queria que houvesse, na vida de meu filho, alguma comemoração, algum rito que
delineasse claramente a passagem da infância para a iminente vida adulta - um
acontecimento mais espiritual do que tirar uma carteira de motorista e menos
doloroso do que uma circuncisão.
Acertamos em fazer o passeio de canoa. Para meu
alívio, as preocupações sobre não ter o que conversar se mostraram absurdas. Na
verdade, ele parecia desejar a minha companhia tanto quanto eu desejava a dele.
Redescobri, naquele rapaz crescido, o mesmo menino curioso e engraçado de anos
atrás.
Remando por aqueles lagos lindos e reluzentes,
os dois numa canoa estreita na água escura, fiquei surpreso em descobrir como
aquele garoto pesava - já que, para o barco não inclinar, tentava manter o
equilíbrio com o lastro dos nossos corpos.
Com uma onda de simpatia, percebi que o corpo
daquele menino magrinho estava sofrendo uma violenta investida de testosterona
e acumulando massa muscular a cada hora. Também me dei conta de que seus
movimentos eram como uma série de explosões cinéticas - ele se balançava
abruptamente de um lado para outro, batia na lateral do barco, não remava e, de
repente, começava a remar furiosamente. Minha tarefa, concluí, não era reprimir
aquela energia excessiva, mas ensiná-Io a equilibrá-Ia.
No fundo, acho que também pretendi usar a
viagem para ter conversas sérias de pai para filho sobre crescer, ter
responsabilidades e tudo o mais. Meu texto ensaiado era aborrecido pretensioso.
Todos esses pensamentos tomaram conta de mim em
meio ao pânico, enquanto nós dois descíamos pela torrente d'água.
Consegui ver novamente o salva-vidas roxo de
Adam e o localizei nadando em minha direção. Então, abruptamente fomos os dois
lançados para fora do canal principal e caímos num redemoinho espumante.
Surpreso, eu o ouvi rir e gritar: "Que barato, cara!" Eu estava morto
de medo, mas ele estava se divertindo a valer.
Finalmente meu pé tocou o fundo e consegui me
levantar.
Quando Adam também conseguiu, olhei para ele,
que ainda tinha na cabeça o boné ensopado de seu time de basquete, e nós dois
começamos a rir e gritar bem alto. A canoa, da qual só víamos as pontas da popa
e da proa, de tão cheia d'água, tinha sido levada pelo vale e devia estar a uns
duzentos metros dali.
Tivemos de atravessar o canal a nado, nos
agarramos depois a um tronco que encontramos e finalmente caminhamos pela
floresta para apanhar o barco, bastante avariado.
Só mais tarde percebi que, durante toda a
malsucedida aventura, nós dois trocamos de lugar nos papéis de homem e garoto.
Meu filho sugeriu a loucura de descer a cachoeira com a canoa, mas aconselhou
que eu pusesse o colete salva-vidas. Eu concordei com seu plano nada adequado e
depois tentei me comportar como adulto. Meu filho riu o tempo todo durante a
descida e eu - exatamente como meu pai - estava morto de preocupação.
Eu estava ensinando Adam a ser um homem, mas,
ao mesmo tempo, ele estava me lembrando de que não devia esquecer minha
meninice. Ele também estava demonstrando mais uma coisa: que podia, às vezes,
ser mais sensato e adulto que eu; que às vezes podia estar certo e eu errado;
que alguma parte dele já era adulta. Achei esta revelação reconfortante, mas,
ao mesmo tempo, perturbadora. Afinal, é inerente à noção de iniciar meu filho
na idade adulta a de que estou transferindo meu papel para ele. Eu estava preparando
aquele que ia me substituir. No final, minha ideia original e pretensiosa de
levar meu filho para a floresta para se tornar adulto tinha se mostrado um
pouco arrogante e simplista demais. Na verdade, eu parecia ter tanto a aprender
quanto a ensinar.
Com dificuldade, saímos da água em direção à
margem e, por alguns momentos, nos sentimos exultantes e vivos - ensopados,
batizados, despertos. Tínhamos vivido juntos uma aventura. Alguma coisa nos
acontecera e tínhamos sobrevivido.
A viagem tinha apenas começado.
Quando tiver certeza de que vai começar uma aventura,
limpe o mel do nariz e se ajeite o melhor que puder,
de modo a estar pronto para qualquer coisa que aconteça.
URSINHO PUFF, de A. A. Milne
PERMISSÃO PARA CHORAR
HANOCH MCCARTY
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 83
Sozinho, sentado à mesa de jantar, o resto da
casa às escuras, comecei a chorar.
Finalmente tinha conseguido colocar os dois
meninos na cama. Pai solteiro há pouco tempo, tinha de ser pai e mãe para meus
filhos. Dera banho nos dois, com suas risadas de prazer, corridas malucas pela
casa, gargalhando e jogando coisas um no outro. Mais ou menos acalmados,
deitaram para eu fazer em cada um os prescritos cinco minutos de massagem.
Peguei, o violão e comecei meu ritual noturno de músicas folclóricas,
terminando com a favorita dos dois meninos. Cantei-a repetidamente, reduzindo
aos poucos o ritmo e o volume até que tivessem aparentemente dormindo.
Recentemente divorciado, com a custódia dos
filhos, estava determinado a lhes proporcionar uma vida doméstica a mais normal
e estável possível. Para eles, estava sempre feliz. Tentava ao máximo manter as
atividades costumeiras sem muitas alterações. Esse ritual noturno sempre
acontecera. A única diferença é que agora a mãe estava ausente. Eu conseguira
realizá-Io mais uma vez: outra noite concluída com sucesso.
Eu me levantei devagar, cuidadosamente,
tentando não fazer qualquer barulho que pudesse despertá-Ios, pedindo mais
canções e mais histórias. Saí do quarto na ponta dos pés, fechei a porta até a
metade e desci as escadas.
Sentado à mesa de jantar, joguei-me na cadeira,
ciente de que era a primeira vez, desde que chegara em casa do trabalho, que
conseguia me sentar. Tinha cozinhado e servido o jantar aos meninos, batalhando
para que comessem. Tinha lavado a louça ao mesmo tempo que tentava lhes dar a
atenção que exigiam.
Ajudara o mais velho, que estava na segunda
série, com o dever de casa. Tinha elogiado os desenhos do mais novo e exclamado
ohs! de admiração com sua elaborada construção com os blocos de Lego. O banho,
as histórias, as massagens nas costas, as canções e agora, finalmente, um
pequeno momento só para mim. O silêncio era um alívio, por enquanto.
Então, tudo se acumulou em mim: a fadiga, o
peso da responsabilidade, a preocupação com as contas que não tinha a certeza
de poder pagar naquele mês. Os detalhes infindáveis do dia-a-dia de uma casa.
Até há pouco tempo estava casado e tinha alguém para dividir essas tarefas,
essas contas e essas preocupações.
E a solidão. Eu me sentia como se estivesse no
fundo de um grande mar de solidão. Tudo aquilo vinha junto e eu estava
completamente perdido, indefeso. Comecei a chorar, inesperada e
convulsivamente. Fiquei ali, em silêncio, soluçando.
Bem nessa hora, um par de bracinhos me rodeou
pela cintura e um rosto me examinou com atenção. Olhei para a carinha simpática
do meu filho de cinco anos.
Fiquei envergonhado por meu filho me ver
chorando.
- Desculpe, Ethan, não sabia que você ainda
estava acordado.
Não sei por que isso acontece, mas tantas
pessoas se desculpam quando choram e não sou exceção.
- Eu não queria chorar. Desculpe. Estou um
pouco triste hoje.
- Tudo bem, papai. Não tem problema chorar,
você é apenas uma pessoa.
Não posso descrever como me deixou feliz aquele
garotinho que, com a sabedoria da inocência, me deu permissão para chorar.
Parecia que estava dizendo que eu não tinha de ser sempre forte, que às vezes
podia me permitir ser fraco e demonstrar meus sentimentos.
Ele deslizou para o meu colo e ficamos
abraçados, conversando um pouco. Eu o levei de volta para a cama e o ajeitei
entre as cobertas. De alguma forma, eu também consegui dormir naquela noite.
Obrigado, meu filho.
Acima de tudo, dê valor ao amor que recebe. Ele vai
sobreviver por muito tempo depois que sua riqueza e sua saúde tiverem acabado.
OG MANDINO
UMA NOVA PERSPECTIVA
SEAN COXE
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 86
Quando era criança, sempre podia contar com meu
pai para olhar as dificuldades sob outra perspectiva, fosse uma perna quebrada
ou um coração partido. Anos depois, eu estava arrasada, com uma série de
problemas pessoais. Precisando de ajuda e me sentindo derrotada, gastei minhas
últimas economias numa viagem à Flórida para ver papai.
Na última noite da minha visita, estávamos na
ponta de um píer olhando o pôr-do-sol. Não conseguia mais conter meu amargor.
- Sabe, papai, se pudéssemos juntar todos os
bons momentos da vida, não durariam vinte minutos.
- É - ele concordou.
Olhei-o, espantada. Ele ainda estava estudando
o sol que se punha no horizonte. Então, olhando firmemente nos meus olhos,
acrescentou tranquilamente:
- São como tesouros, não são?
UM ESCRITOR NA PRISÃO
CLAIRE BRAZ- VALENTINE
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 87
Fui convidada a ministrar uma oficina literária
na prisão estadual de Susanville, perto das montanhas de Sierra Nevada, no
norte da Califórnia.
Os homens que cumprem pena foram, em sua
maioria, condenados por problemas com drogas. Estão alojados em grandes
dormitórios com beliches. Não têm qualquer privacidade, nenhum lugar para
estarem sozinhos, nenhum lugar para pensar tranquilamente. Eu sempre ficava
apreensiva ao entrar em penitenciárias. Já fizera esse tipo de oficina em
muitas prisões da Califórnia, mas que tinham celas. Em celas, mesmo se
divididas com outro preso, pode-se encontrar um pouquinho de tempo para
escrever. Com certeza esses homens em Susanville não iam se interessar pelo que
eu tinha para oferecer.
Decidira passar os dois dias de curso dando um
seminário sobre monólogos. Queria que aqueles homens tivessem a chance de
escrever e então representar ante uma câmera. Queria que se vissem em vídeo
antes que eu fosse embora no fim do segundo dia. Sentia que a vida na prisão
provavelmente tirara deles a maior parte da identidade e que escrever e
representar podia restaurar um pouco de quem foram ou de quem poderiam ser.
Fiquei satisfeita porque vinte presos se matricularam.
Era o número máximo que eu dissera que poderia aceitar. Passei a primeira hora
com eles falando sobre como era ser um escritor. Dizendo que há alegria e
liberdade nas palavras. Que não interessava o quanto eram obrigados a ser como
os outros, a se vestir como os outros, comer a mesma comida, ter o mesmo
horário, pois, na escrita, poderiam finalmente ser diferentes - o quanto
quisessem. Escrever pode ser a mais libertadora de todas as artes. Você pode
ser livre através da palavra. Não há limites. Disse-Ihes que todas as vezes que
pegava um lápis ou me sentava diante do computador ou da máquina de escrever
era como se voltasse para casa, para a casa da minha arte, das minhas palavras.
Esse era um mundo que ninguém poderia me tirar. Essa arte me sustentaria
através de todos os meus dias.
Os homens prestavam atenção e, quando eu
finalmente disse que começassem seus projetos de texto, eles se esforçaram.
Menos um deles. O jovem relutara em participar
naquele primeiro dia, quando pedi que escrevessem seus monólogos. Todos os
outros liam, reescreviam, liam novamente, mas ele ficou ali quieto, apagando,
escrevendo, rasgando rascunhos, recomeçando. Sempre que me aproximava de sua
mesa, ele, envergonhado, cobria a folha com os braços.
- Posso ver? - pedi.
- Prefiro que a senhora não veja - respondeu
com um sorriso tímido.
Pensei, "que pena”. Mesmo que não
estivesse participando como os outros, estava escrevendo. Escolheu passar o dia
todo nessa sala quente e sufocante trabalhando em alguma coisa chamada
monólogo. Naquela manhã, provavelmente, ele sequer conhecia o significado
daquela palavra. Isso devia me deixar feliz. Mas não deixou. Estava preocupada
com a necessidade de ele ter alguma privacidade, com sua inabilidade de
partilhar, sabendo que ele estava pensando que seu texto não era
suficientemente bom.
Eu já trabalhava em prisões há muitos anos para
ser enganada por sua timidez. Sabia que muitos dos internos tinham aprendido,
desde muito pequenos, que não conseguiam fazer nada direito. Tinham sofrido
abusos e tormentos quando crianças e não tinham qualquer autoconfiança. Mas não
importava o quanto eu elogiasse os outros internos, ele não cederia.
Voltou para o dormitório naquela noite com seu
texto enfiado no bolso da calça. Muitos tinham deixado os trabalhos sobre as
mesas. Mas não ele. Não se arriscou a deixar que eu lesse depois que ele
estivesse atrás das grades. Tinha razão, é claro. Eu teria ido direto à sua
mesa no minuto em que ele saísse pela porta. O rapaz tinha feito o julgamento
certo de mim.
No segundo dia, todos os homens voltaram à
sala. Aquilo me deixou especialmente satisfeita. O rapaz voltou também.
Nesse dia haveria a leitura e a gravação.
Imaginei como o aluno silencioso e tímido enfrentaria isso. Estava realmente
surpresa de vê-Io ali. Penteara o cabelo louro e comprido, a blusa estava bem
passada. Naturalmente pensara que seria filmado e queria estar bem. Finalmente
eu ia ouvir o que tinha escrito.
Ele não falou muito durante as atuações. Eu
dera apenas algumas instruções, mas dissera que queria ouvir seus personagens
me dizendo o que realmente sentiam, o que é que ninguém compreendia a respeito
deles e por que precisavam falar. O rapaz louro ficou sentado quieto,
observando os demais apresentarem os trabalhos. Um dos homens escrevera um
monólogo para Deus, um outro decidira interpretar Abraham Lincoln, o outro,
Martin Luther King, Jr. Alguns dos monólogos eram engraçados, outros sérios.
Mesmo sem terem tido tempo para decorar os textos, quando começavam a ler, mal
se viam os papéis em suas mãos. Eu estava profundamente emocionada com o
resultado.
Finalmente, ele era o único que não tinha lido
o monólogo.
Quando todos já tinham terminado, perguntei:
- Está pronto, agora?
- Acho que não - ele respondeu com uma voz
delicada.
Então os outros começaram a cobrar.
- Cara, se eu pude fazer, você pode também.
Vamos lá, tente. Você vai gostar. Vamos, cara, não seja tímido. Ninguém vai
julgar você aqui.
Então ele se levantou e ficou em frente à
câmera. Parecia tão jovem. Os papéis em sua mão tremiam como pássaros
assustados, mas ele começou seu monólogo com determinação: "Meu nome é
Bruce. Tenho vinte e um anos e estou morto. Estou morto porque fui preso por
causa de drogas. Nunca liguei para nada nesta vida. Nem para mim mesmo. Só me
importava em conseguir a próxima dose. Eu mataria por mais uma dose. Com
certeza, mataria por mais uma dose." Ele continuou a falar de sua vida,
como crescera em meio à pobreza, com pais alcoólatras, sofrendo maus-tratos e
fome, sem ter uma vida própria, passando de um lar adotivo para outro. Enquanto
lia, mostrava cicatrizes no corpo, marcas de queimaduras nos braços, onde seu
pai embriagado apagava cigarros, os cortes nos punhos causados por uma
tentativa de acabar com a vida. Não pude evitar. Fiquei com os olhos cheios d'
água. Meu Deus, por que eu pedira para ele dividir essa dor terrível? Então o
rapaz chegou ao fim da história.
"Embora eu tenha morrido na prisão, tenho
uma coisa para lhes dizer. Eu acabo de renascer. Voltei a me levantar, como na
Bíblia. Um dia uma mulher veio e me disse para escrever. Eu jamais tinha
escrito antes, mas escrevi assim mesmo. Fiquei por oito horas numa cadeira e me
concentrei como nunca tinha me concentrado na vida. Antes, eu sequer conseguia
ficar parado!
Escrevi sobre o horror que foi a minha vida até
agora e finalmente consegui sentir alguma coisa. Sentir pena. De mim mesmo. E
eu senti mais uma coisa. Senti alegria. Eu estava escrevendo e o que eu estava
escrevendo era bom. Eu era um escritor! E ia me levantar ante todos aqueles
homens na sala e ia dizer isso..." Ao proferir essas palavras, ele
levantou o pequeno manuscrito no ar. "Isso é mais importante para mim que
qualquer droga. O que eu queria dizer é que morri como um viciado em drogas e
renasci como um escritor."
Todos ficamos sentados ali, impressionados. A
câmera continuou a filmar. Ele fez uma pequena mesura e disse
"Obrigado", mais uma vez, com sua voz calma. Os outros aplaudiram
fortemente. Ele andou até onde eu estava e apertou minhas mãos. Aos presos não
é permitido tocar os professores, mas não contestei.
- A senhora me proporcionou uma coisa que
nenhuma droga jamais proporcionou. O respeito por mim mesmo - ele disse.
Penso nele com frequência. Rezo para que tenha
continuado a ter respeito por si mesmo através da palavra escrita. Sei, no
entanto, que naquele dia, naquela sala, com aqueles homens, nasceu um escritor.
Depois de uma longa e terrível viagem, uma alma perdida voltara para casa, a
casa das palavras.
ESTATÍSTICAS
THE BEST OF BITS &
PIECES
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 93
A mulher de um estatístico, disposta a procurar
um emprego, persuadiu o marido a ficar em casa por um dia tomando conta das
crianças.
Quando voltou, ele lhe entregou o seguinte
relatório:
Lágrimas enxugadas, nove vezes. Sapatos
amarrados, treze vezes.
Bolas de encher compradas, dezesseis.
Média de duração de uma bola, dez segundos.
Advertência às crianças para não atravessar a
rua, vinte e uma vezes.
Número de vezes que as crianças atravessaram a
rua, vinte e uma vezes.
Número de vezes que farei isso de novo, zero.
A PESCARIA MAIS IMPORTANTE DA VIDA
JAMES P. LENFESTEY, apresentada por Diana Von Holdt
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 94
Ele tinha onze anos e, a cada oportunidade que
surgia, ia pescar no cais junto ao chalé da família, numa ilha no meio de um
lago de New Hampshire.
A temporada de pesca só começaria no dia
seguinte, mas ele e o pai saíram no fim de tarde para pegar peixes-lua e
percas, cuja pesca era liberada. O menino amarrou uma isca e começou a praticar
arremessos, provocando ondulações coloridas na água.
Logo as ondulações se tornaram prateadas por
causa do efeito da Lua nascendo sobre o lago.
Quando o caniço vergou, soube que havia algo enorme
do outro lado da linha. O pai olhava com admiração enquanto o garoto habilmente
arrastava o peixe ao longo do cais.
Finalmente, com muito cuidado, ele levantou o
peixe exausto da água. Era o maior que já tinha visto, mas era um dos peixes
cuja pesca só era permitida na temporada.
O garoto e o pai olharam para o peixe, tão
bonito, as guelras para trás e para a frente sob a luz da lua. O pai acendeu um
fósforo e olhou o relógio. Eram dez da noite - faltavam duas horas para a
abertura da temporada. O pai olhou para o peixe, depois para o menino.
- Você tem de devolvê-Io, filho - ele disse.
- Mas, papai! - reclamou o menino.
- Vai aparecer outro peixe - disse o pai.
- Não tão grande como este - choramingou o
filho.
O menino olhou à volta do lago. Não havia
outros pescadores ou barcos visíveis ao luar. Olhou novamente para o pai.
Mesmo sem ninguém por perto, o garoto sabia,
pela clareza da voz do pai, que a decisão não era negociável. Devagar tirou o
anzol da boca do enorme peixe e o devolveu à água escura.
A criatura movimentou rapidamente seu corpo
poderoso e desapareceu. O menino desconfiou que jamais veria um peixe tão
grande como aquele.
Isso aconteceu há trinta e quatro anos. Hoje,
aquele garoto é um arquiteto de sucesso em Nova York. O chalé de seu pai ainda
está lá, na ilha no meio do lago, e ele leva seus filhos e filhas para pescar
no mesmo cais.
E ele estava certo. Nunca mais conseguiu pescar
um peixe tão maravilhoso como o daquela noite, há tanto tempo. Mas ele sempre
vê o mesmo peixe - repetidamente - todas as vezes que se depara com uma questão
de ética.
Porque, como seu pai lhe ensinou, a ética é
simplesmente uma questão de certo e errado. Apenas a prática da ética é que é
difícil. Agimos corretamente quando ninguém está olhando?
Nós nos recusamos a passar por cima de regras
para conseguir entregar o projeto a tempo? Ou nos recusamos a negociar ações
com base em informações que sabemos que não devíamos ter?
Faríamos isso se nos tivessem ensinado a
devolver o peixe para a água quando éramos jovens. Porque teríamos aprendido a
verdade.
A decisão de fazer a coisa certa está vívida em
nossas lembranças. É uma história que contaremos com orgulho a filhos e netos.
Não é uma história sobre como tivemos a
oportunidade de derrotar o sistema e a aproveitamos, mas sobre como fizemos a
coisa certa e ficamos fortalecidos para sempre.
As lições de moral que realmente permanecem
são as que vêm não dos livros, mas da experiência.
MARK TWAIN
O MOMENTO DE MOLLIE
BILL SHORE
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 97
Trabalhei muitos anos no meio político, numa
carreira que me tomava muito tempo e exigia que viajasse com frequência.
Quando o senador Bob Kerrey concorreu à
presidência dos Estados Unidos em 1992, por exemplo, ajudei-o na campanha e
acabei passando um bocado de tempo longe de minha mulher, Bonnie, e de nossos
dois filhos pequenos, Zach e Mollie.
Depois da campanha, vim para casa para aprender
uma lição importante sobre como equilibrar carreira e família, sobre o que as
crianças realmente precisam receber de um pai - e sobre como construir e
demolir paredes.
Um pouco antes do terceiro aniversário de
Molly, eu acabara de voltar de uma série de viagens com o senador, algumas
durando seis ou sete dias, com uma rápida parada em casa para pegar mais roupa
limpa.
Mollie e eu estávamos voltando do mercado na
nossa vizinhança em Silver Spring, no estado de Maryland, quando ela me
perguntou:
- Papai, em que rua é a sua casa?
- O quê? - Pensei ter ouvido errado.
- Em que rua é a sua casa?
Foi um momento crítico. Embora ela soubesse que
eu era seu pai e que sua mãe e eu éramos casados, não sabia que eu morava na
mesma casa que ela.
Embora pudesse convencê-Ia de que morávamos no
mesmo endereço, sua incerteza quanto ao meu lugar em sua vida continuou a se
manifestar de várias maneiras. Um joelho machucado a fazia correr para a mãe,
não para mim. Uma questão levantada por alguma coisa ouvida na escola seria
guardada por horas, até que a mãe estivesse por perto.
Compreendi que não só tinha de passar mais
tempo com Mollie, como passar esse tempo de uma forma diferente. Quanto mais eu
a sentia se distanciar de mim, mais tentava fazer coisas que nos aproximassem,
como ir à piscina ou ao cinema.
Mas, se Mollie e eu não tivéssemos uma
atividade programada, eu ia cuidar de afazeres em casa. Era para maximizar o
tempo e ser útil.
Quando era para ler uma história na hora de
dormir, Bonnie me chamava depois de vestir Mollie e colocá-Ia na cama. Eu
entrava em seu quarto como um dentista que espera o paciente ser preparado
porque não tem um minuto a perder.
Era assim que eu me sentia e, agora tenho
certeza, era como Mollie se sentia também.
Mas tudo mudou numa noite de verão. Mollie
estava ficando frustrada, tentando construir um esconderijo secreto no quintal
da casa. Era fim de tarde e ela deveria estar ocupada até a hora de dormir, mas
os ladrilhos acinzentados e finos que tentava apoiar uns nos outros continuavam
a cair. Estava fazendo isso há dias, às vezes com um amiguinho da vizinhança,
às vezes sozinha. Quando as paredes despencaram pela última vez, quebrando-se,
ela começou a chorar.
- Sabe do que você precisa para conseguir fazer
esse trabalho, Mollie? - perguntei.
- Do quê?
- Precisa de uns sessenta tijolos.
- É, mas não temos sessenta tijolos.
- Mas podemos conseguir.
- Onde?
- Na loja de material de construção. Vá calçar
os sapatos e entre no carro.
Fomos até a loja, distante uns oito
quilômetros, e achamos os tijolos. Comecei a colocá-Ios, vários de cada vez,
num carrinho tipo plataforma. Eram grosseiros e pesados e percebi que era um
trabalho para eu fazer. Do carrinho teriam de ser colocados no jipe e ainda
descarregados em casa.
- Por favor, papai, deixe eu fazer isso. Por
favor! - Mollie pediu.
Se eu deixasse, íamos ficar lá para sempre. Ela
teria de usar as duas mãos para pegar apenas um deles. Olhei o relógio e tentei
controlar minha impaciência.
- Mas, querida, são muito pesados.
- Por favor, papai, quero muito fazer isso -
ela choramingou, dirigindo-se rapidamente à pilha de tijolos e levantando um
deles com as duas mãos. Ela o arrastou até o carrinho e o colocou perto dos
muitos que eu já pusera ali.
Aquilo ia levar a noite toda.
Mollie voltou até a pilha e cuidadosamente
escolheu outro tijolo. Não teve pressa em escolher.
Então compreendi que ela queria que aquilo
durasse a noite toda.
Era difícil nós dois termos um tempo assim,
juntos e sozinhos. Isso seria o tipo de atitude impulsiva tomada por seu irmão
mais velho, Zach, para ficarmos só os dois. Mas, com Zach, talvez numa maneira
masculina de agir, o ideal seria terminar logo a tarefa e irmos construir a
parede. Mollie queria que aquele momento durasse.
Encostei-me em um dos estrados de madeira e
respirei fundo. Mollie, trabalhando firme no carregamento dos tijolos, relaxou
e começou a conversar, falando sobre o que ela já construíra, sobre a escola,
as amigas e a próxima aula de equitação.
Comecei a entender: estávamos ali comprando
tijolos para fazer uma parede, mas, na verdade, estávamos demolindo uma parede,
tijolo por tijolo - a parede que ameaçou me separar de minha filha.
Desde então aprendi o que a mãe dela já sabia:
como assistir a um programa de tevê com Mollie, mesmo sendo um programa que não
quero ver; como ficar com ela sem ao mesmo tempo ler um jornal ou uma revista,
estando ali por inteiro.
Mollie não me quer por causa do que eu posso
lhe dar, para onde posso levá-Ia ou mesmo por causa das coisas que podemos
fazer juntos. Ela me quer por mim mesmo.
PARA MEU NETO
FLOYD WICKMAN E TERRI SLODIN
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 102
Ouvi num domingo, na igreja, a história de uma família
de refugiados do Leste europeu, forçada a sair de casa por tropas invasoras.
Perceberam que a única chance de escapar dos horrores da guerra era atravessar
as montanhas que circundavam a cidade. Tinham certeza de que estariam a salvo
num país vizinho e neutro, caso conseguissem fazer a travessia. Mas o avô não
estava bem e a viagem seria dura.
- Me deixem para trás - pediu ele. - Os
soldados não vão se importar com um homem velho como eu.
- Vão, sim - disse o filho. - Para o senhor
será a morte.
- Não podemos deixar o senhor aqui, papai -
reforçou a filha. - Se o senhor não for, então nós também não vamos.
O idoso finalmente cedeu e a família, composta
de umas dez pessoas de diversas idades, inclusive uma netinha de um ano, partiu
em direção à cadeia de montanhas que se via à distância. Caminharam em
silêncio, revezando-se para carregar o bebê, o que tornou mais difícil a subida
do desfiladeiro.
Depois de várias horas, o avô se sentou numa
rocha e deixou pender a cabeça.
- Continuem sozinhos. Não vou conseguir -
disse.
- Vai, sim - encorajou o filho. - Tem de
conseguir.
- Não - disse o avô. - Me deixem aqui.
- Vamos - disse o filho. - Precisamos do
senhor, é a sua vez de carregar o bebê.
O homem levantou o rosto e viu as fisionomias
cansadas dos demais. Olhou para o bebê envolto num cobertor, agora no colo de
seu neto de treze anos, um menino magrinho.
- Claro - disse o avô. - É a minha vez. Vamos,
passem o bebê para mim. - Ele se levantou e ajeitou o bebê no colo, olhando seu
rostinho inocente. De repente, sentiu uma força renovada e um enorme desejo de
ver sua família a salvo numa terra em que a guerra seria uma memória distante.
- Vamos - ele disse, com determinação. - Já
estou bem. Só precisava descansar um pouco. Vamos andando.
O grupo prosseguiu, com o avô carregando o
bebê. E, naquela noite, a família conseguiu cruzar a fronteira a salvo. Todos
os que iniciaram o longo percurso pelas montanhas conseguiram terminá-Io,
inclusive o avô.
Nada como ter netos para reforçar sua crença na
hereditariedade.
DOUG LARSON
TODO MUNDO CONHECE TODO MUNDO
LEA MACDONALD
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 104
Hoje foi um dia especial, o tipo de dia que
reforça a nossa fé, mesmo que ela seja frágil.
Aprendi uma lição, ensinada por meu filho de
seis anos, Brandon.
Eu o observava na mesa da cozinha, arrumando
cuidadosamente sua lancheira. Ia levá-Io comigo ao trabalho. Ele dizia:
- Vou ser um trabalhador.
Ali estavam cuidadosamente dispostas todas as
coisas de que ele precisaria durante o dia: um livrinho para colorir, lápis,
uma caixa com bonequinhos, um bolinho de cereja, um "sandiche" (como
ele dizia) de salada de ovo e três ovos de Páscoa.
Conviver com Brandon nos faz ver que o tempo
não tem qualquer significado. Como estava atrasado, pedi:
- Se apresse! - Tenho certeza de que ele pensa
que o relógio é uma arma secreta inventada pelos suíços.
Ele se apressou. Na verdade, deixou em casa o
caprichado pacote do sanduíche, um problema que não me deixou esquecer nos
quarenta e cinco minutos que levamos até a cidade.
Reclamou comigo várias vezes, dizendo:
- Papai, você me fez correr. Agora não tenho
nada para comer.
Durante o tempo que durou a repreensão, ele
mudou as palavras, mas o sentido permaneceu o mesmo:
- Preciso de alguma coisa para comer, você me
fez esquecer o lanche.
Comprei um sanduíche e outro bolinho num
restaurante da cidade. Satisfeito, Brandon carregou a sacola para a caminhonete
e logo seus pensamentos rebeldes do tipo "sem sanduíche, nada de
trabalho" foram embora.
Chegamos a um chalé nos arredores de Kingston,
em Ontário, Canadá. Nosso serviço: instalar um carpete na casa.
Toquei a campainha. Ouvi o ferrolho sendo
aberto, depois a fechadura e a correntinha de segurança. A porta se abriu
devagar e surgiu um homem idoso e magro. Parecia doente. O cabelo branco cobria
apenas algumas partes da cabeça. A camisa azul-clara sobrava nos ombros, como
se pendurada em um cabide.
Sorri, perguntando se ele era o senhor Burch.
- Sou. Você veio colocar o carpete?
- Vim, sim.
- Tudo bem. Vou deixar esta porta aberta.
- Certo, vou começar o serviço.
- O senhor tem uma "geladelà'? - Brandon perguntou
de repente. O senhor olhou para ele, que lhe esticou a mão com seu lanche.
- Tenho, sim. Você sabe onde ela está?
- Sei, sim - disse Brandon, seguindo em frente.
- Está na cozinha.
Eu ia dizer a Brandon que era muito atrevimento
ir entrando daquele jeito, mas, antes que pudesse fazê-Io, o senhor levou o
dedo aos lábios, indicando que não havia problema.
- Tudo bem, ele não vai passar da cozinha. Ele
realmente ajuda você?
Fiz que sim com a cabeça. Brandon voltou,
perguntando com sua voz mais encantadora:
- O senhor tem um livro de colorir?
Mais uma vez eu quase disse a Brandon que
estava sendo inconveniente. Fiz um gesto indicando que fosse para fora. O
senhor segurou-me levemente a mão. Olhou para Brandon.
- Seu pai me disse que você o ajuda.
- Sou um trabalhador - Brandon respondeu,
orgulhosamente.
Olhei para baixo e acrescentei:
- Parece que o trabalho dele hoje é manter o
cliente ocupado.
O senhor olhou para Brandon e soltou minha mão,
com um pequeno sorriso.
- Quem sabe você pode trabalhar um pouco e me
mostrar como se faz para colorir?
Com um ar muito sério, Brandon perguntou:
- Papai, você vai ficar bem?
- O senhor Burch vai ficar bem? - questionei.
- Vamos ficar bem. Vamos ficar aqui na mesa.
Venha me ajudar a pegar o livro, trabalhador.
Fui até a caminhonete, voltando com o material
e meu bloco de anotações a tempo de ouvir Brandon comentar:
- O senhor já coloriu este livro. O senhor
colore muito bem.
- Não, não fui eu que colori. Foram meus netos.
- O que são netos? - Brandon perguntou,
curioso.
- São os filhos dos meus filhos. Eu sou o avô.
- O que é um avô?
- Quando você crescer, se casar e tiver seus
próprios filhos, seu pai vai ser avô. E sua mãe vai ser avó. Eles vão ser os
avós de seus filhos. Entendeu?
Brandon fez uma pausa e disse:
- Entendi, vovô.
- Não, eu não sou o seu avô - explicou o
senhor.
Brandon afastou o cabelo dos olhos. Estudando
os lápis de cor, escolheu um, continuou a colorir e disse:
- Todo mundo conhece todo mundo, o
senhor sabia?
- Não tenho tanta certeza. Por que você está
dizendo isso?
- O senhor perguntou, olhando com curiosidade
para o meu filho, que, aplicado, continuava a colorir.
- Nós todos viemos de Deus. Ele fez todos nós.
Somos uma "familà' .
- É verdade. Deus fez todas as coisas - o
senhor confirmou.
- Eu sei - disse Brandon, com uma voz alegre. -
Ele me disse.
Eu nunca antes ouvira meu filho falar dessas
coisas, a não ser uma vez em que fôramos à igreja para assistir a um auto de
Natal. Enquanto esperávamos pela apresentação, ele me perguntou por que porta
Deus entraria se Ele fosse se sentar perto de nós.
- Ele lhe disse? - O senhor estava visivelmente
curioso.
- É, Ele disse. Ele vive lá em cima. - Brandon
apontou para o teto, olhando para o alto com respeito. - Eu "lembo"
de quando estava lá e falei com ele.
- E o que foi que Ele lhe disse? - O senhor
pousou o lápis sobre a mesa, prestando atenção em Brandon.
- Ele disse que somos todos uma "familà'.
- Depois de uma pausa, meu filho acrescentou, com lógica: - Então o senhor é
meu avô.
O senhor Burch me olhou de longe e sorriu.
Fiquei envergonhado por ele ter me flagrado observando a conversa. Ele disse a
Brandon que continuasse colorindo, pois ia verificar como estava indo o
serviço.
O senhor caminhou vagarosamente até onde eu
estava.
- Como está indo? - perguntou.
- Tudo bem - respondi. - Não vai demorar. - O
senhor deu um leve sorriso.
- O menino tem um avô?
Parei um pouco o que estava fazendo.
- Não, não tem. Eles se foram quando ele
nasceu. Ele tem uma avó, mas ela tem a saúde frágil, não está bem.
- Sei do que você está falando. Eu tenho
câncer. Também não vou ficar nesta terra muito tempo.
- Sinto muito saber disso, senhor Butch. Perdi
minha mãe com câncer.
Ele me olhou com seus olhos cansados, mas
sorridentes.
- Todo garoto precisa de um avô - disse
suavemente.
Concordei e disse:
- Mas esse não era o destino de Brandon.
O senhor olhou de novo para Brandon, que
coloria animadamente. Virou-se para mim e perguntou:
- Você vem muito à cidade, filho?
- Eu? - perguntei.
-É.
- Venho quase todos os dias. O senhor me olhou
novamente.
- Quem sabe você pode trazer o Brandon aqui de
vez em quando, se estiver por perto, assim por uma meia hora? O que você acha?
Dentro da casa vi Brandon, que parara de
colorir e estava prestando atenção ao que falávamos.
- Pode, papai? Somos "gandes" amigos.
Podemos almoçar juntos.
- Tudo bem, se não atrapalhar o senhor Burch.
O senhor foi até a mesa, Brandon deslizou pela
cadeira e foi até a geladeira.
- Hora do lanche, vovô. Aqui tem para nós dois.
- Brandon voltou à mesa e tirou as coisas da sacola de papel.
- O senhor tem uma faca? - Brandon perguntou.
O senhor fez menção de se levantar.
- Deixe que eu pego. Me diga onde está - disse
Brandon.
- As facas para manteiga estão no canto do
balcão, na gaveta.
- Achei!
Brandon voltou à mesa. Desembrulhou o bolinho.
Como se cortasse um diamante, dividiu-o em dois pedaços idênticos.
Colocou um deles sobre o plástico que o
envolvia. Empurrou-o em direção ao senhor Burch.
- Este é seu. - Em seguida, desembrulhou
cuidadosamente o sanduíche e partiu-o ao meio. - Este é seu também. Temos que
comer o "sandiche" primeiro. É o que a mamãe diz.
- Tudo bem - respondeu o senhor Burch.
- Você gosta de suco, Brandon?
- Gosto de suco de laranja.
Caminhando devagar, o senhor Burch foi até a
geladeira.
Pegou uma lata de suco e encheu dois copos
pequenos. Colocou um deles em frente a Brandon.
- Obrigado, vovô.
Enquanto comiam, Brandon fazia perguntas ao
senhor Burch e continuava a colorir - Você joga hóquei, Brandon?
- Jogo - Brandon respondeu, examinando a ponta
do sanduíche antes de mordê-Ia. - Papai me levou, com Tyler e Adam, no inverno.
- Há muitos anos, eu jogava num time de
primeira linha, estava quase pronto para jogar na Liga Nacional de Hóquei, mas
nunca fui convocado. Mas uma vez participei de uma partida com um jogador que
foi para a Liga. Era um ótimo profissional. Ele se chamava Bill Moore - contou
o senhor Burch.
Meu coração veio até a garganta.
- Tutter Moore? - perguntei.
O senhor Burch me olhou, surpreso.
- É, era ele... foi convocado para ir a Boston
várias vezes.
Você ouviu falar dele?
- Ouvi - disse com a voz embargada. - O senhor
está lanchando com o neto dele.
O senhor virou-se para Brandon e fixou o olhar
no menino, que o olhava inocentemente.
- É... ele se parece muito com Tutter. E o nome
da avó é Lillian?
- É - respondi.
O senhor segurou a mão de Brandon.
- Brandon, tenho de lhe pedir desculpas. Você
estava certo e eu errado. Todo mundo conhece mesmo todo mundo.
Se você procurar uma forma de ajudar alguém, estará se
ajudando também.
AUTOR DESCONHECIDO
UM PEDAÇO DE GIZ
HOLLY SMELTZER
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 112
Em casa, era natural termos medo de papai.
Até mesmo mamãe tinha medo dele. Quando éramos
crianças, minha irmã e eu achávamos que todas as famílias eram daquela maneira.
Que toda família tinha um alcoólatra imprevisível, impossível de se agradar, e
uma mãe que rezava e estava sempre ali para proteger os filhos. Pensávamos que
Deus tinha determinado as coisas daquele jeito.
Éramos boas crianças. Mamãe estava sempre nos
dizendo isso, apesar de papai não reconhecer. Em parte, éramos boas porque não
ousávamos fazer nada. Éramos crianças tranquilas, tímidas, que quase não
falavam - e nunca falávamos quando papai estava em casa. As pessoas achavam que
Deus abençoara mamãe com meninas tão doces. Ela tinha muito orgulho de nós!
Então chegou o dia em que descobrimos uma coisa
nova e divertida para fazer.
Sabíamos que aquilo não aborreceria ninguém.
Não nos arriscávamos quanto a isso. Em casa, tínhamos uma porta de madeira.
Descobrimos que podíamos desenhar sobre ela com giz e apagar facilmente,
esfregando. Vamos nos divertir muito.
Começamos a fazer nossos desenhos, lindas
figuras traçadas em toda a porta. Foi um divertimento. Ficamos surpresas ao
descobrir nosso talento. Eram bons os desenhos! Foi quando decidimos acabar
nossa obra de arte. Estávamos orgulhosas do nosso trabalho. Sabíamos que mamãe
ia adorar. Ia querer que todos os amigos viessem vê-Io e talvez eles quisessem
que também pintássemos as portas de suas casas.
Descobríramos uma coisa em que éramos realmente
boas!
Mas o elogio que esperávamos não veio. Em vez
de ver a beleza do trabalho, tudo em que mamãe pensou foi no tempo que levaria
e no esforço que faria para remover tudo.
Estava uma fera. Nós não compreendemos por que,
mas sabíamos tudo sobre broncas - e estávamos metidas numa grande confusão!
Corremos para procurar um lugar para nos
esconder. No bosque cheio de árvores que ficava atrás de casa não era difícil
duas crianças pequenas se sentirem a salvo. Juntas, ficamos atrás de uma
árvore, sem nos mexermos. Logo ouvimos as vozes amedrontadas de mamãe e dos
vizinhos nos chamando. Mesmo assim sequer nos mexemos. Eles estavam com medo de
que tivéssemos fugido e nos afogado no lago.
Estávamos com medo de sermos achadas.
O sol se pôs, começou a escurecer. As pessoas
começaram a ficar mais ansiosas e nós, com mais medo. O tempo passava e, quanto
mais tempo ficávamos escondidas, mais difícil era sair. Àquela altura, mamãe já
estava convencida de que alguma coisa horrível nos acontecera e chamou a
polícia. Sabíamos que alguma coisa estava se passando porque ouvíamos as vozes
do grupo se misturando. E a busca continuava, agora com vozes fortes de homens
se sobrepondo às demais. Se antes estávamos com medo, naquela hora ficamos apavoradas!
Abraçadas na escuridão, ouvimos uma outra voz,
que imediatamente reconhecemos com horror: a de papai. Mas havia algo
estranhamente diferente em sua voz. Nela sentíamos alguma coisa que jamais
tínhamos sentido antes.
Medo, agonia, desespero - não podíamos dar um
nome -, mas era assim que era. Então vieram as lágrimas mescladas às preces.
Estava nosso pai ajoelhado pedindo alguma coisa
a Deus?
Nosso pai, com lágrimas no rosto, prometendo
dedicar a Deus a própria vida se Ele devolvesse suas meninas a salvo?
Nada em nossa vida nos preparara para essa
espécie de choque. Nenhuma de nós se lembra de ter tomado a decisão.
Fomos arrastadas até ele como um ímã, nossos
medos se perdendo na floresta. Não sabemos sequer se nós é que realmente demos
os passos ou se Deus de alguma forma nos deslocou e nos fez chegar a seus
braços. Mas nos lembramos daqueles braços fortes e amorosos que nos envolveram,
papai chorando, nos apertando como se fôssemos tesouros.
As coisas mudaram depois do que aconteceu.
Tínhamos um novo pai. Era como se o antigo tivesse ficado enterrado na
floresta. Deus levara aquele, substituindo-o por outro, um que nos amava e era
grato por nos ter como filhas.
Mamãe sempre nos disse que Deus faz milagres.
Acho que ela estava certa. Ele mudou toda a nossa família com um pedaço de giz.
MEU SEGREDO DE AMOR
ROBERT FULGHUM
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 116
Fica numa prateleira no alto do armário. Já foi
uma caixa de sapatos enfeitada para o Dia dos Pais, um presente da minha filha
mais velha. Dentro dela, papel-cartão rosa, vermelho e branco, desenhos e
colagens com três tipos de macarrão, jujubas e confeitas - tudo aquilo grudado
com um exagero de cola branca.
A caixa de sapatos está enrugada e mofada onde
as jujubas e os confeitas derreteram. Está grudenta em alguns lugares. Mas é um
repositório de relíquias da infância dos meus filhos.
Se levantar a tampa, você vai entender por que
a guardo.
Em folhas dobradas e desbotadas de bloco
pautado, agora frágeis, estão as palavras: "Oi, papai", "Felis
Di dos Pais" e "Ti amo". No fundo da caixa, colados, vinte e
três corações feitos de miçangas. Com seus rabiscos, cada um dos três escreveu
o nome. É o produto do amor em seu estado mais puro e verdadeiro.
As crianças agora são adultas. Ainda me amam,
embora tenham dificuldade, às vezes, de demonstrar. O amor se complica com a
idade e o conhecimento. É amor, sim, mas não é simples. Não é uma coisa que se
poderia colocar numa caixa de sapatos.
Ninguém sabe que aquele presente antigo e
grudento está lá. De v~ em quando eu o desço do armário e abro a caixa. É uma
coisa em que posso tocar, segurar e acreditar, agora que não há mais bracinhos
ao redor do meu pescoço.
É o meu baú do tesouro. E ele significa amor.
Quero que o enterrem comigo. Quero levá-Ia aonde quer que eu vá.
UMA FAMÍLIA PARA FREDDIE
ABBIE BLAIR
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 118
Lembro-me da primeira vez em que vi Freddie.
Estava em pé no seu cercadinho na agência de adoção onde trabalho. Ele me deu
um sorriso cheio de dentes. "Que bebê bonito", pensei.
- Será que você vai conseguir achar uma família
para Freddie? - a moça que tomava conta dele na agência me perguntou.
Foi quando percebi. Freddie tinha nascido sem
os braços.
- Ele é tão esperto. Só tem dez meses, já anda
e fala. - Ela o beijou. - Diga "bolá' para a senhora Blair.
Freddie sorriu para mim e escondeu a cabeça no
ombro da encarregada.
- Vamos, Freddie, não faça assim - ela disse. -
Ele é realmente muito afável, um garoto muito, muito bonzinho.
Freddie me fazia lembrar meu próprio filho com aquela
idade, os mesmos cachos escuros e espessos, os mesmos olhos marrons.
- Não vai se esquecer dele, senhora Blair? Vai
tentar?
- Não vou me esquecer.
Fui para o andar de cima e peguei minha lista
atualizada de "crianças de difícil colocação".
Freddie
é um menino de dez meses de idade, branco, de origem protestante, inglesa e
francesa. Tem olhos e cabelos castanhos e pele clara. Freddie nasceu sem os
braços, mas goza de boa saúde. A pessoa que se ocupa dele na agência considera
sua inteligência superior à média e ele já está andando, além de dizer algumas
palavras. É uma criança carinhosa e amorosa. Freddie foi abandonado por sua mãe
biológica e está pronto para ser adotado.
"Ele está pronto", pensei. "Mas
quem está pronto para ele?" Eram dez horas de uma linda manhã de fim de
verão e a agência estava cheia de casais - casais sendo entrevistados,
conhecendo bebês, famílias sendo formadas. Esses casais quase sempre têm o
mesmo sonho: querem uma criança parecida com eles, com pouca idade e - o mais
importante - sem problemas.
- Se ele tiver um problema depois de o
levarmos, tudo bem.
É um risco que corremos, como quaisquer outros
pais. Mas escolher um bebê que já tem um problema, aí é demais - eles dizem.
E quem pode culpá-Ios?
Eu não era a única a procurar pais para
Freddie. Todas as pessoas encarregadas das entrevistas com novos casais
interessados começavam a conversa com uma esperança: talvez aqueles quisessem
ficar com Freddie. Mas o verão passou, chegou o outono e Freddie ainda estava
conosco no seu primeiro aniversário.
- Freddie é gaaande - dizia o menino, rindo. -
Gaaande.
E então eu os encontrei.
Começou como sempre começa: uma mensagem
impessoal na secretária eletrônica, um novo caso, uma nova família a ser
analisada, duas pessoas que queriam uma criança. Eram Frances e Edwin Pearson.
Ela com quarenta e um anos, ele com quarenta e cinco. Ela dona-de-casa, ele
motorista de caminhão.
Fui vê-los. Viviam numa casa de madeira branca
bem pequena, num grande terreno cheio de sol e árvores antigas.
Juntos me receberam à porta, ansiosos e mortos
de medo.
A senhora Pearson serviu um café quentinho e
biscoitos assados no forno. Sentaram à minha frente, num sofá, bem perto um do
outro, de mãos dadas. Depois de um momento, a senhora Pearson falou.
- Hoje é nosso aniversário de casamento.
Dezoito anos.
- Anos muito bons, com a exceção... - disse o
senhor Pearson, olhando para a mulher.
- É. Com a exceção, sempre a exceção... - Ela
olhou em volta. - A casa está arrumada demais, dá para entender?
Pensei na sala da minha casa e nos meus três
filhos, agora adolescentes.
- Dá, dá para entender - respondi.
- Será que estamos muito velhos?
Sorri.
- Vocês não se acham velhos e nós também não
achamos.
- A gente sempre pensa que vai ser num mês,
depois no próximo. Exames. Testes. Todas essas coisas. Um monte de vezes. Mas
nunca aconteceu nada. Você fica com aquela esperança e o tempo vai passando -
disse a senhora Pearson.
- Já tentamos adotar antes. Uma agência nos
disse que nosso apartamento era pequeno demais, então compramos esta casa. Em
outra agência nos disseram que eu ganhava muito pouco. Resolvemos nos
conformar, mas um amigo nos indicou a sua agência e decidimos fazer uma última
tentativa - o marido acrescentou.
- Fico contente com isso - eu disse.
A senhora Pearson olhou orgulhosa para o
marido.
- Será que podemos escolher? - ela perguntou. -
Conseguir um menino para meu marido?
- Vamos tentar arrumar um garoto - eu disse. -
Que tipo de garoto?
A senhora Pearson riu.
- Quantos tipos existem? Basta que seja menino.
Meu marido gosta muito de esportes. Jogava futebol e basquete quando estava no
colégio. Ele será um ótimo pai.
O senhor Pearson me olhou.
- Sei que a senhora não pode dizer exatamente
agora, mas pode nos dar uma ideia de quando será? Já esperamos tanto tempo!
Hesitei. Sempre faziam essa pergunta.
- Talvez no próximo verão - a senhora Pearson
falou. Poderíamos levá-Io à praia.
- A senhora não teria um garoto para nós? Deve
haver um menininho em algum lugar. - Depois de uma pausa, o senhor Pearson
continuou. - Claro que não podemos dar a ele o mesmo que outras pessoas. Não
temos muito dinheiro guardado.
- Mas temos um monte de amor - acrescentou a
mulher. Amor nós guardamos bastante.
- Bem, há um menininho. Ele tem treze meses -
eu disse, cautelosa.
- Ah, uma bela idade - disse a senhora Pearson.
- Tenho uma fotografia dele. É um menino
maravilhoso, mas nasceu sem os braços - disse, mostrando a foto de Freddie.
Olharam a fotografia em silêncio, estudando-a.
O senhor Pearson olhou para a mulher.
- O que você acha, Fran?
- Futevôlei. Você pode ensinar futevôlei para
ele - a senhora Pearson disse, entusiasmada.
- O esporte não é a coisa mais importante. O
importante é aprender como usar a cabeça. Ele pode viver sem os braços. Mas
nunca sem a cabeça. Pode ir à faculdade. Vamos economizar para isso - o senhor
Pearson falou.
- Um menino, é um menino - insistiu a senhora
Pearson. - Ele precisa jogar alguma coisa. Você pode ensinar.
- Vou ensinar. Os braços não são tudo. Talvez
consigamos uns braços para ele.
Eles se esqueceram de que eu estava ali. Mas
talvez o senhor Pearson estivesse certo. Talvez um dia Freddie pudesse ter
braços artificiais. Na verdade ele tinha protuberâncias onde os braços deveriam
estar.
- Então vocês gostariam de vê-Io?
Eles me olharam.
- Quando podemos apanhá-Io?
- Vocês acham que podem querer ficar com ele?
A senhora Pearson me olhou.
- Se podemos? - ela disse. - Podemos?
- Nós o queremos - disse o marido.
Olhando para a fotografia novamente, a senhora
Pearson perguntou:
- Você estava esperando por nós, não estava?
- O nome dele é Freddie, mas vocês podem
trocar.
- Não. Frederick Pearson - o nome combina com o
nosso.
E assim foi.
Houve formalidades, é claro. E, quando marcamos
a data para a entrega de Freddie, as luzes de Natal enfeitavam as ruas da
cidade e havia guirlandas penduradas em todos os lugares.
Encontrei os Pearson na sala de espera. Em seus
casacos, uns flocos de neve.
- Seu filho já está aqui - lhes disse. - Vamos
subir, que vou trazê-Io para vocês.
- Estou nervosa! - disse a senhora Pearson. - E
se ele não gostar de nós?
Pus a mão sobre seu braço.
- Vou apanhá-Io - eu disse.
A pessoa encarregada de Freddie o vestira com
uma roupa nova, branca, com um ramo de azevinho e tiutinhas vermelhas bordados
na gola. Seu cabelo brilhava, um monte de cachos escuros.
- Para casa - Freddie me disse, sorrindo,
quando a encarregada o colocou no meu colo.
- Eu disse isso a ele. Disse que ele estava
indo para sua casa nova - ela falou.
Ela o beijou, os olhos cheios de lágrimas.
- Até logo, querido. Seja um bom menino.
- Bom menino - disse Freddie alegremente. -
Para casa.
Levei-o ao andar de cima, até a sala onde os
Pearson estavam esperando. Quando cheguei, coloquei-o no chão e abri a porta.
- Feliz Natal- eu disse.
Freddy deu uns passos cambaleantes, sem muito
equilíbrio, olhando firmemente para as duas pessoas à frente dele. Os Pearson
ficaram maravilhados.
O senhor Pearson se apoiou em um dos joelhos.
- Freddie, venha cá. Venha aqui com o papai.
Freddie olhou para trás, me procurando. Mas
logo se virou e andou devagar até eles, que abriram os braços e o envolveram
carinhosamente.
UMA BOA AÇÃO A MITZVAH
ARNOLD GEIER
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 125
Era o outono de 1945 e voltei a Viena com as
primeiras tropas americanas de ocupação. Estivera lá três meses antes como
intérprete de alemão numa missão especial destinada a negociar a divisão da
cidade em quatro zonas de aliados, parecido com o que fora feito em Berlim. Eu
era fluente em alemão porque, apenas seis anos antes, emigrara de Berlim para
os Estados Unidos. Assim que foi possível, me alistei no Exército americano
para servir meu novo país e estava orgulhoso em vestir seu uniforme.
Numa sexta-feira à noite, sentindo saudades de
casa, dirigi-me à única sinagoga que restara em Viena para assistir à
cerimônia. As pessoas que vi ali davam pena. Cerca de cinquenta homens e
mulheres, magros e pobremente vestidos. Falavam com sotaque ídiche e presumi
que eram remanescentes de prósperas comunidades judaicas da Europa, agora
reunidos naquele lugar, separados do resto do mundo. Quando viram meu uniforme
americano, todos se reuniram à minha volta para ver um soldado amigo numa
sinagoga. Para surpresa geral, eu era capaz de conversar com eles em ídiche
fluente.
Enquanto conversávamos, percebi que minhas
suspeitas estavam certas. Aquelas pessoas eram sobreviventes do Holocausto, que
tinham se reunido na sinagoga para ver se podiam achar alguém, qualquer pessoa,
que pudesse dar notícias de um parente ou amigo que também tivesse sobrevivido.
Como não havia nenhum correio civilizado da Áustria para o resto do mundo,
essas reuniões eram a única esperança para os sobreviventes terem notícias de
suas famílias.
Um dos homens timidamente me pediu se eu
poderia fazer a gentileza de mandar uma mensagem para um parente na Inglaterra,
que ele sabia estar vivo. Eu sabia que o correio militar não é para enviar
cartas de civis, mas como podia dizer não? Aquelas pessoas, que literalmente
tinham vivido o inferno, precisavam que parentes preocupados soubessem que elas
tinham sobrevivido. Quando concordei, todo mundo queria mandar uma mensagem.
Cinquenta mensagens eram muito mais que uma: eu
tinha de pensar rápido. Anunciei, então, que voltaria à sinagoga na próxima
sexta-feira à noite e receberia mensagens curtas escritas em inglês, alemão ou
ídiche, colocadas em envelopes abertos. Se as cartas preenchessem tais
requisitos, eu as mandaria pelo correio do Exército.
Na semana seguinte, como prometera, voltei à
sinagoga.
Quando abri a porta, fiquei chocado. O lugar
estava lotado, cheio de pessoas que correram em minha direção, me estendendo
seus envelopes. Eram tantos que tive de pedir a alguém para me arrumar uma
caixa para colocá-los. Passei a semana seguinte verificando cada mensagem por
razões de segurança, me certificando de que continham apenas o permitido. Então
mandei as cartas para o mundo inteiro. Eu me senti maravilhosamente bem em
saber que aquelas talvez fossem as primeiras notícias para a maioria daqueles parentes,
comunicando que as pessoas que amavam tinham sobrevivido aos horrores do
Holocausto. "Uma boa ação, uma pequena mitzvah" - pensei.
Passou-se cerca de um mês. Aquilo tudo já
estava se dissolvendo na minha mente quando o "carteiro" do Exército
de repente entrou tropeçando na minha sala, carregado com sal os cheios de
pacotes.
O que está acontecendo? - ele perguntou. Os
pacotes que ele colocava no chão vinham de todos os lugares, endereçados às
pessoas que eu encontrara na sinagoga, aos meus cuidados, cabo Arnold Geier. Eu
não esperava esse resultado.
O que devia fazer?
Walter, um colega com quem trabalhara numa
equipe de interrogatório, também antigo refugiado da Alemanha, riu quando viu a
pilha de cartas.
- Vou ajudar você a distribuir as cartas - se
ofereceu.
O que mais podíamos fazer? Eu guardara uma
lista dos nomes e endereços das pessoas que tinham me dado mensagens, então
pedi um jipe fechado, equipado para o inverno, e o enchi com os pacotes. À
noite e pela madrugada, Walter e eu percorremos as ruas de pedra de Viena
entregando pacotes para sobreviventes surpresos e agradecidos. A maioria deles
vivia na zona soviética da cidade. Tínhamos de entrar naquela área tarde da
noite e as patrulhas soviéticas muitas vezes nos paravam, desconfiadas. Mas
éramos tecnicamente aliados, de modo que pudemos explicar que estávamos
entregando pacotes a sobreviventes do terror nazista e fomos autorizados a
entrar, sem problemas.
Os pacotes continuaram a chegar por mais uma
semana e o volume de correspondência começou a aborrecer os encarregados do
Exército. Continuamos com nossas entregas noturnas por toda Viena, mas eu
estava preocupado com o descontrole surgido da minha oferta bem-intencionada.
Finalmente, uma manhã, nosso comandante me
chamou ao escritório. Queria saber por que eu estava recebendo tantos pacotes.
Sabendo que o oficial era judeu e assim entenderia minha motivação, decidi
dizer a verdade. Admiti ter feito mau uso do correio militar para ajudar
sobreviventes e fazer uma boa ação tão necessária. Não esperava que meu simples
gesto se transformasse naquilo. Ele me advertiu duramente e então sorriu.
- Bem, por essa vez passa - ele disse, me
dispensando.
Às vezes me lembro do caminho que minha boa
ação tomou.
Sim, eu perdera o controle da situação, mas
somente da maneira que acontece com uma verdadeira mitzvah: aumentando e
devolvendo o bem realizado, até que tenha preenchido seu propósito.
Eu fui o instrumento escolhido para permitir
que famílias ansiosas soubessem que aqueles que amavam estavam vivos.
OS VERÕES DOS CHUCHUZINHOS
SUSAN ARNETT-HUTSON
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 129
Em todos os verões no final dos anos sessenta,
minhas duas irmãs e eu pegávamos o ônibus para ir do Arizona até Arkansas,
ficar com papai.
Veterano da Segunda Guerra, papai tinha muitos
problemas de saúde e qualquer um deles seria capaz de fazer uma pessoa perder o
senso de humor. Mas não ele.
Tenho memórias vívidas de papai nos acordando
de manhã.
Como havia perdido as pernas, ele andava pela
casa numa cadeira de rodas, gritando: "Upa, upa, upa! Levantem-se e venham
aproveitar este lindo dia!" Se não nos levantávamos imediatamente, ele
repetia sua música em cadência, batendo palmas. Isso não era um teatro que
fazia para nós. Cada dia era, para ele, realmente um lindo dia.
Voltando aos anos sessenta, é bom lembrar que
naquela época não havia lugares para os deficientes estacionarem, nem rampas de
acesso a cadeiras de rodas, como hoje, então cada ida ao mercado era uma tarefa
difícil. Papai não queria ajuda de ninguém. Ele se movimentava devagar, mas
seguro, assobiando o tempo todo. Como adolescente, eu sentia vergonha, mas, se
papai percebia, nada dizia.
Uma vez, numa loja, ele nos encontrou na seção
de maquiagem e resolveu olhar os produtos conosco. Apanhou um estojo de pó e
começou a ler a etiqueta em voz alta. "Deixa sua pele macia como seda, da
cabeça aos pés. Bem, isso deixa metade de mim de fora”, ele disse, rindo. Nós
acabamos rindo também.
Ele tinha um talento para encontrar humor em
tudo que fazia.
Aqueles verões sempre acabavam cedo demais. Ele
nos levava de carro ao Arizona todos os anos. Quando lhe perguntavam no posto
de controle na fronteira entre o Novo México e o Arizona se estava trazendo
frutas ou vegetais, ele respondia:
"Apenas três chuchuzinhos." Já faz
muito tempo que papai se foi, mas ficaram as lições que nos ensinou: você só
será deficiente se permitir isso. Sei agora, tarde demais, que qualquer dos
seus "chuchuzinhos" teria orgulho de andar a seu lado - assobiando -
e ficaria feliz em acordar ao som de sua voz, levantar e apreciar um daqueles
lindos dias.
Em memória de Marian Segal Arnett Jr.,
veterano da Segunda Guerra, 1928-1970
NÃO ME SOLTE, PAPAI
RICHARD H. LOMAX
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 131
Faz mais de doze anos. Às vezes parece que foi ontem,
às vezes parece uma eternidade. Minha garotinha finalmente ganhou sua
bicicleta. Não um triciclo, mas uma bicicleta de duas rodas. Foi o resultado de
uma bem-sucedida visita a um bazar de objetos de segunda mão na vizinhança. Uma
bicicleta de menina, num perfeito cor-de-rosa. Minha filha logo se apaixonou.
Conseguida a pechincha, coloquei nosso novo tesouro na caminhonete e fui para
casa. Mal consegui tirar a novidade do carro, pois minha filha queria começar a
pedalar imediatamente! Era um dia quente e ensolarado, ideal para se aprender a
andar de bicicleta.
Ser pai implica participar de uma série de
acontecimentos que se encaixam de um modo ou de outro numa contradição básica:
queremos que nossos filhos cresçam e sejam independentes, ao mesmo tempo que
desejamos que continuem a depender de nós. Ficamos relutantes em aceitar que o
amor que os filhos sentem por nós se baseia no que sentem, não no que fazemos
por eles.
Posso ver minha garotinha em sua nova
bicicleta. Ainda é tão pequena, mas está toda ansiosa. Sua voz rouca me pede:
- Não me solte, papai!
Com uma das mãos seguro o assento e com a outra
o guidão. Corro devagar ao lado da bicicleta. Às vezes, levanto uma das mãos,
mas ouço:
- Não me solte, papai!
Mesmo levando em conta as imprecisões da minha
memória, lembro que ela conseguiu dominar a complexa atividade com rapidez,
depois de um certo desapontamento por não adquirir perícia instantânea na
matéria. Ela enfrentava o desafio com um vigoroso e quase comovente desejo de
sucesso, o que viria a se tornar uma característica sua. Mais uma vez tentei
largar a bicicleta.
- Não me solte, papai!
Ela almoça correndo, pois só pensa na
bicicleta. Voltamos para a pista de testes, a calçada. Apesar do medo que ela
sente, a cambaleante roda da frente começa a se estabilizar. Falta pouco agora.
Posso sentir que sua confiança aumenta. Tenho de apressar meu passo a seu lado.
Suas pernas se movimentam com renovadas força e confiança.
Que acontecimento durante a fase de crescimento
de uma criança representa melhor a conquista da independência?
Aprender a andar é um início de independência.
Aprender a falar e a expressar pensamentos originais é mais um passo nessa
estrada. Mas são passos lentos e permitem que os pais se acostumem aos poucos.
Aprender a andar de bicicleta é aprender a voar - uma experiência que quase
instantaneamente dá à pessoa uma liberdade nova, permanente e irrevogável.
Chegou a hora. Há alguns minutos eu já
percebera que ela conseguira alcançar o momento mágico que torna possível essa
improvável forma de transporte. Minha filha percebe também.
Agora, minha mão não lhe serve mais de
equilíbrio, mas a faz hesitar. Meu corpo se move pesada e desajeitadamente a
seu lado e não lhe oferece mais conforto - agora faz com que perca a
concentração.
- Solte, papai!
Ela acelera e sai correndo. As
marias-chiquinhas voam no ar. Ela anda pelo menos uns quinze metros antes de
parar num canteiro ao lado da calçada. Está radiante de felicidade.
No rosto, um sorriso que só pode ser de enorme
satisfação.
Sorrio também. Não apenas por compartilhar de
sua realização, mas porque me dou conta de que ela iniciou um caminho. E vai
seguí-Io, tranquila.
Ser pai significa ter alegrias e tristezas. Há
acontecimentos que, inexplicavelmente, causam as duas coisas ao mesmo tempo.
Algumas vezes seguramos, às vezes soltamos. Uma pequena ajuda com a bicicleta.
Um abraço e uma bênção na hora de ir para a escola. Como pais, somos destinados
a segurar e a soltar, cada coisa na sua hora. De bom grado deixo meus filhos se
lançarem em direção ao futuro. Encorajo sua independência para descobrirem suas
potencialidades e seus talentos. Mas soltá-Ios? Nunca.
VOCÊ PODE FAZER QUALQUER COISA
TINA KARRATTI
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 135
Há muitos anos, meu pai recebeu o diagnóstico
de uma doença cardíaca terminal. Ele se aposentou por incapacidade permanente e
não podia ter um emprego fixo. Ficou bem por um período, mas de repente teve um
problema e precisou ser hospitalizado.
Como queria fazer alguma coisa para se manter
ocupado, ele resolveu trabalhar como voluntário no hospital infantil local.
Papai adorava crianças. Era a ocupação perfeita para ele. Acabou trabalhando no
setor onde estavam crianças em estado crítico e terminal.
Conversava e brincava com elas e faziam
trabalhos manuais e artesanato. Às vezes, uma das crianças não resistia. Para
confortar os familiares, papai lhes dizia que em breve estaria com seus filhos
no Céu e cuidaria deles até sua chegada. Também perguntava ao pai ou à mãe se
gostariam de mandar, através dele, uma mensagem para o filho.
As atitudes de meu pai pareciam ajudar as
famílias a superar o sofrimento. Certa vez, uma menina de oito ou nove anos foi
internada com uma doença rara que a paralisara do pescoço para baixo. Não sei o
nome da doença ou qual o prognóstico, mas sei que tudo aquilo era muito triste
para a garotinha. Ela não podia fazer nada, estava muito deprimida. Meu pai
decidiu tentar ajudá-Ia. Começou a visitá-Ia no quarto, levando tintas, pincéis
e papel. Ele arrumava o papel num apoio, punha o pincel na boca e começava a
pintar. Ele não usava as mãos de forma alguma. Somente a cabeça se mexia. Ele a
visitava sempre que podia e pintava para ela. Durante todo o tempo dizia:
"Olhe, você pode fazer qualquer coisa que sua mente quiser." A menina
começou então a pintar usando a boca, e ela e meu pai se tornaram amigos. Logo
depois, a garotinha saiu do hospital porque os médicos acharam que nada mais
poderiam fazer por ela. Meu pai também deixou um pouco o voluntariado no
hospital infantil porque ficou doente. Algum tempo depois, ele se recuperou e
voltou ao hospital para trabalhar no balcão de atendimento que ficava no hall
de entrada. Um dia, as portas da frente se abriram. A menininha que estivera
paralisada entrou, mas, dessa vez, andando. Foi até meu pai e o abraçou bem forte.
Ela lhe deu um desenho que fizera usando as mãos. Na parte de baixo estava
escrito: "Muito obrigada por me ajudar a andar." Papai chorava sempre
que nos contava essa história - e nós também. Ele dizia que, às vezes, o amor
tem mais poder do que os médicos. Meu pai - que morreu apenas alguns meses
depois que a menina lhe deu o desenho - amava cada criança naquele hospital.
Você não vai aprender a ser forte, paciente e corajoso
se apenas lhe acontecerem coisas maravilhosas.
MARY TYLER MOORE
A BATALHA FINAL
SENADOR DANIEL INOUYE
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 137
Itália, 1945. Quando o primeiro e o segundo
pelotões da Companhia E da Quadragésima Segunda Equipe do Regimento de Combate
Nipo-Americano se aproximaram das defesas alemãs, podíamos ouvir o ruído de
tiros de fuzil e, de vez em quando, uma metralhadora disparar à direita.
Então tudo começou, metralhadoras e granadas
devolvendo os ataques em violentas saraivadas. Fui atingido por uma bala na
barriga, mas continuei a me movimentar, conduzindo meus homens e ainda lançando
granadas.
Quando levei meu braço para trás, num relance
de luz e escuridão, eu o vi, o alemão sem rosto, como uma tira de filme rodando
num projetor desregulado. Num instante eu podia vê-lo até a altura da cintura,
em pé, na casamata e, no seguinte, ele estava apontando para meu rosto um rifle
com lança-granadas, a uma distância de menos de dez metros. Mesmo eu levantando
o braço para lançar a granada, ele atirou e sua granada explodiu no meu
cotovelo direito. Olhei para meu braço pendurado e vi minha granada pendendo de
um punho que, de repente, não me pertencia mais.
Passou-se um tempo e, finalmente, o socorro
veio e me aplicaram uma injeção de morfina. Então me levaram para o pé da
montanha.
Era o dia 21 de abril. A resistência alemã no
nosso setor acabou no dia 23 de abril. Nove dias depois, a guerra na Itália
tinha terminado e, uma semana depois disso, o inimigo se rendeu
incondicionalmente.
Eu ainda tinha outra guerra pela frente. Quando
se convenceram de que eu não ia morrer, fui transferido para o hospital-geral
de Leghom. E foi lá, no dia 1 de maio, que amputaram meu braço direito. Não
foi, emocionalmente, um grande problema para mim. Sabia o que ia acontecer e,
de fato, por um tempo, parara de pensar no braço como se ele me pertencesse.
Mas aceitar o fato e enfrentar a reabilitação eram coisas completamente
diferentes. Eu me acostumei com a ideia antes da operação. Minha reabilitação começou
quase imediatamente após.
Estava olhando para o teto na tarde do meu
primeiro dia como amputado quando uma enfermeira chegou perto da cama e
perguntou se eu estava precisando de alguma coisa.
- Um cigarro cairia bem - eu disse.
- Claro - ela sorriu e se afastou, retomando em
alguns minutos com um pacote novinho de Camels. - Tome aqui, tenente - disse,
ainda sorrindo, e simplesmente colocou o maço sobre meu peito e continuou a
fazer seu trabalho. Por um instante, fiquei apenas olhando. Então toquei o maço
com os dedos da mão esquerda, tentando imaginar como seria se eu resolvesse me
aventurar a abri-lo com uma só mão. Olhei pela ala para ver se havia alguém ali
que estivesse bom o suficiente para me ajudar, mas todos pareciam tão mal
quanto eu: naturalmente aquela não era a ala reservada para oficiais com
problemas de pé-de-atleta e cãibras. Então comecei a manusear sem jeito aquele
maldito maço, segurando-o sob o queixo e tentando abri-lo com as unhas. Ele
continuava a escorregar e a se afastar, eu tentando pegá-lo, suando com raiva e
frustração, como se estivesse fazendo uma marcha forçada. Em quinze minutos
consegui rasgar em pedaços o maço e metade dos cigarros, mas finalmente
consegui colocar um deles entre meus lábios. Foi quando percebi que a
enfermeira não me trouxera fósforos.
Toquei a campainha e ela veio se requebrando,
sorrindo, ainda com aquela aura de animação que me fez ter vontade de lhe dar
um soco.
- Preciso de um fósforo - eu disse.
- Ah, claro que precisa - ela disse,
encantadora. Tirou uma caixinha de fósforos do bolso e cuidadosamente a colocou
na minha mão. E foi embora novamente!
Se tivesse seguido meu primeiro impulso, teria
gritado com ela, com raiva. Se tivesse seguido o segundo, teria começado a
chorar. Mas, encaremos a situação, eu já era bem crescido, um oficial, e não
podia deixar uma enfermeira qualquer levar a melhor. Simplesmente não podia.
Então comecei a tentar me entender com os
fósforos. Eu segurava a caixa, a empurrava, virava e a deixava cair, sem nunca
conseguir pegar um dos fósforos, muito menos acendê-lo. Mas, àquela altura,
decidira que preferia ferver em óleo a pedir a ela qualquer coisa novamente.
Então fiquei ali deitado, enfurecido, tendo pensamentos pouco cristãos em
relação ao anjo da misericórdia.
Eu estava quase cochilando quando ela apareceu
novamente, sempre sorrindo.
- Qual é o problema, tenente? - perguntou, com
um tom de satisfação. - Decidiu deixar de fumar? Ah, mas isso é bom... cigarros
fazem tossir e...
- Não consegui acender a porcaria.
Ela fez um estalido com a língua, lamentando
não ter pensado nisso e sentou-se graciosamente na beirada da cama.
- Eu devia ter imaginado - ela disse, tirando
da minha mão a caixa de fósforos destroçada. - Alguns amputados gostam de
tentar por si mesmos. Isso lhes dá uma sensação de, digamos, realização. Mas
não tem importância. Há muitas outras coisas que o senhor vai aprender sozinho.
Nós apenas damos a partida.
Olhei para ela embasbacado. Eu sequer sabia
sobre o que ela estava falando. A partida em quê? Quem precisava dela?
- Olhe, apenas acenda o cigarro, está bem? Faz
três horas que estou tentando fumar esse troço - rosnei.
- É, eu sei. - Nada a alterava. Realmente nada.
- Mas o senhor entende. Não vou estar por perto o tempo todo para acender seu
cigarro. O senhor não pode depender de outras pessoas. Agora tem apenas uma mão
para fazer tudo o que antes fazia com duas. E tem de aprender como. Vamos
começar com os fósforos, está bem?
Ela abriu a caixa, uma daquelas que têm tampa,
dobrou um fósforo para a frente, fechou a parte de cima, fez um movimento
rápido com o fósforo para baixo e o acendeu. Tudo com uma só mão, em meio
segundo.
- Viu só? - ela disse.
- Vi - disse num sussurro.
- Agora é a sua vez.
E eu consegui. Acendi o cigarro. E
imediatamente ela deu um sorriso sincero. Foi adorável. Gostaria de me lembrar
de seu nome - jamais me esquecerei de seu rosto -, mas tudo que lembro é que
era de Eagle Pass, Texas, e, no que me diz respeito, a melhor das malditas
enfermeiras do Exército dos Estados Unidos.
Num instante me fizera ver o trabalho que eu
tinha pela frente e, nas semanas seguintes, encontrou mil maneiras sutis de me
ajudar a lidar com isso. E, no ano e meio que levei para voltar a ser um
cidadão com capacidade plena, ninguém jamais fez alguma coisa mais importante
para mim do que aquela enfermeira na tarde em que me mostrou como acender um
cigarro. Na tarde em que minha reabilitação começou.
DOCE COMO CHOCOLATE
ROGER DEAN KISER
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 142
Imagino que todos conhecemos alguém na
vizinhança que fica meio isolado e tem pouco a ver com o resto da comunidade.
Você conhece o tipo, certo? Bem, eu não sou
exatamente assim, embora não esteja longe disso.
Já fui casado muitíssimas vezes. Na verdade,
seria embaraçoso mencionar o número exato de vezes. Todos os casamentos foram
muito bons, no que me diz respeito, embora tenham terminado porque eu era
incapaz de demonstrar plenamente amor ou afeição. Achava muito fácil ser
agradável, bom e responsável. Quer dizer, o que há além de ser bom, generoso,
honesto e responsável? Fui criado num orfanato e não imaginava que alguém
pudesse dar - ou querer - mais do que isso.
Até que um dia aquela garotinha apareceu na
minha porta com as mãos sujas e chocolate espalhado por todo o rosto.
- Não se mexa, quer dizer, não mexa nem um
músculo gritei com ela, correndo para buscar uma toalha molhada.
"Essas crianças não conseguem fazer nada
sem me criar um problema”, pensei, enquanto voltava para limpar suas mãos e seu
rosto. Pelo resto do dia fiquei como um carcereiro vigiando aquela
encrenqueira. Não queria que ela encostasse nas minhas coisas. Mas tudo o que
ouvi foi "Posso pegar isso?" e "Posso pegar aquilo?".
Pensei que ia perder o resto de cabelo que ainda tinha antes do dia acabar.
Graças a Deus, o telefone finalmente tocou. Respirei aliviado, vinham buscá-la.
Mas não! Eles não iriam voltar da cidade e queriam saber se eu podia ficar com
ela aquela noite. Procurando uma aspirina, balancei a cabeça e me conformei:
"Acho que não tenho escolha." Mais tarde, naquela noite, coloquei
Chelsey para dormir e estava para sair do quarto quando ela me olhou e
perguntou:
- Vovô, você me ama?
- Claro que amo! Sou seu avô! - gritei,
fechando rapidamente a porta do quarto.
- Amo você também, vovô - ouvi através da
porta.
Fiquei alguns segundos com a cabeça encostada
na parede.
Imediatamente abri a porta e fiquei ali olhando
para ela na cama. Ela se aproximou e beijou minha mão. Agarrei aquela garotinha
de três anos e abracei-a o mais apertado que pude. Eu não sabia, até aquele
momento, como era o sentimento do amor e nunca percebera isso - eu não o
conhecia.
Agora vovô e sua menininha querida comem
chocolate na poltrona favorita da vovó, até que vovó apanhe a vassoura e nos
expulse para o quarto onde assistimos juntos a desenhos animados e sujamos tudo
de chocolate. Essa garotinha nunca mais vai ter de perguntar a seu avô, nunca
mais, se ele a ama.
É verdade que temos de aprender a amar antes de
começarmos a viver de verdade, mesmo aos cinquenta e três anos.
Se meu coração pode se tornar puro e amoroso como o de uma
criança,
acho que não deve haver felicidade maior.
KITARO NISHIDA
NO BANCO
JAMES ROBINSON
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 145
Lembro-me de quando nosso filho Randy jogava
muitíssimo bem na Liga Infantil de Futebol. Ele tinha feito uma série de gols
incríveis naquele ano e ajudado seu time a chegar à final do campeonato. Era o
ano de sua vida e eu, como qualquer pai, estava todo orgulhoso.
Mesmo tendo um desempenho excepcional, Randy
foi diversas vezes para o banco de reservas porque os técnicos queriam dar
oportunidade ao maior número de garotos possível. Sempre educado, Randy não se
queixava e parecia contente em dar aos outros a chance de brilhar. Ele não
estava lutando pelo lugar.
Mas eu estava!
Mais de uma vez disse ao treinador como me
sentia sobre o fato. Como ele podia deixar no banco um garoto que se saíra tão
bem naquele ano? Como podia substituí-lo por meninos que não se importavam
tanto, nem jogavam tão bem? Ele não queria vencer? Não estava enviando os
sinais errados, deixando de lado o garoto que se esforçava mais e jogava
melhor?
Na verdade havia realmente sinais errados
naquele campo. Mas não vinham do técnico. Era a minha impaciência, minha
atitude do tipo vencer-a-qualquer-preço, que estava enviando os sinais errados!
Randy não gostava de ver o pai conversando com
o técnico.
Isso o deixava nervoso e o envergonhava. Ele
ficava olhando por cima do ombro, imaginando como o pai iria reagir a essa ou
àquela decisão. Havia uma nuvem ameaçando aquele ano espetacular. No fundo do
coração, eu sabia que minhas atitudes o aborreciam - e pedi a Deus que me
ajudasse a dar uma freada naquilo.
Quando Randy foi chamado para o time juvenil,
todos ficamos eufóricos. Lembro que cheguei um pouco atrasado a um dos jogos
porque vinha de uma viagem e fui direto do aeroporto. Andando do estacionamento
para o estádio, vi que a equipe de Randy já estava em campo e meu coração
começou a bater mais depressa.
Mas onde estava Randy? Cheguei perto das
arquibancadas e lá estava ele, sentado no banco. O que era aquilo? Não fazia o
menor sentido! Aquele era o artilheiro do time. E ele estava começando o jogo
no banco?
Sério, Randy olhou por cima do ombro,
observando enquanto eu me sentava na arquibancada. Vendo a expressão de seu
rosto, honestamente me senti como se pudesse ler seus pensamentos.
Ele estava pensando: "Ah, Senhor. Eu sei
que papai está muito desapontado e aborrecido por me ver no banco. Meu Deus,
por favor, não o deixe dizer nada, nem demonstrar o que sente." Pela graça
divina, aquele foi o momento em que finalmente compreendi. Enquanto dirigia do
aeroporto para o estádio, me senti impressionado por, de alguma forma, ter de
convencer aquele jovem de como me orgulhava dele - e de que ele não precisava
estar em campo para receber minha aprovação.
Cheguei perto da cerca e me inclinei. Meu filho
olhou para cima, um pouco apreensivo.
- Randy, quero que você saiba que papai está
tão contente em ver você no banco como estaria se você estivesse jogando e
fazendo gols. Eu não podia estar mais orgulhoso. Você é meu filho e não tem que
fazer nada para me agradar ou receber minha aprovação. Minha aprovação é de cem
por cento. Amo você, meu filho.
Seus olhos se encheram de lágrimas, e ele
sorriu. De alguma maneira, eu sabia que tinha tocado num ponto delicado. E
agradeci a Deus de coração, pois sabia que tinha feito exatamente o que era
certo.
Um casaco rasgado logo é consertado,
mas palavras ásperas machucam o coração de uma criança.
HENRY WADSWORTH LONGFELLOW
O DESPERTAR DE RYAN
BOB WELCH
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 148
Estava sentado numa banheira cheia de chapas de
gesso mofadas quando meu filho de treze anos perguntou:
- Qualquer dia desses você me leva para jogar
golfe?
Eu tinha um banheiro para reformar e queria
dizer não, mas falei:
- Claro, qual é a sua sugestão?
- Bem, talvez você pudesse pegar meu amigo
Jared e eu no colégio, na sexta-feira, e nos levar até Oakway.
- Boa ideia.
Caía uma chuva fina na sexta-feira e, olhando
pela janela, pensei em desistir do programa. A escolha mais racional seria
continuar trabalhando na reforma do banheiro. Mas, na hora marcada, troquei o
uniforme de "cuidados com o lar" pelo de "cuidados com a chuva”
e coloquei os tacos na mala do carro, os meus e os dos meninos. Em frente à
escola, Ryan e Jared me esperavam. Ryan me olhou com uma expressão perplexa.
- Para que o chapéu de golfe, papai?
Era uma pergunta boba, como se alguém
perguntasse a um mergulhador para que as nadadeiras.
- Bem, eu imaginei que íamos jogar golfe.
Seguiu-se uma pausa peculiar, como uma linha de
telefone que ficou temporariamente muda.
- Ah, você também vai jogar? - ele perguntou.
De repente, a pergunta me atingiu como um soco
no estômago.
Treze anos de paternidade passaram ante meus
olhos. O nascimento. As fraldas. As mamadeiras tarde da noite. Ajudando nos
deveres do colégio. Construindo fortes. Consertando bicicletas. Indo a jogos.
Acampando. Indo juntos a todos os lugares meu filho e eu.
Agora, eu não tinha sido convidado. Era isso.
Era o fim do nosso relacionamento da forma como eu sempre o conhecera.
Isso era: "Adios, pai, obrigado pelas lembranças,
mas agora já sou grande o bastante para fazer meus próprios swings, então volte
para sua cadeira de balanço e para suas palavras cruzadas." Todas essas
lembranças passaram em dois segundos, como um raio, me deixando uns três
segundos para responder antes que Ryan ficasse desconfiado e pensasse que eu
estava realmente querendo ir jogar golfe com ele e o amigo.
Eu tinha de dizer alguma coisa. O que eu queria
dizer era:
"Como você pôde fazer isso comigo? Me
jogar para o lado, assim, como se eu fosse uma isca de caranguejo que não se
usou?" Éramos uma dupla. Isso era abandono.
Por que tudo tinha de mudar?
Chega dessas divagações. Precisava ser sincero
com ele.
Precisava dizer o quanto estava magoado.
Dividir com ele meus sentimentos mais profundos. Reunir toda a coragem que
encontrasse e abrir meu coração.
Então eu disse:
- Eu? Jogar? Você sabe que estou cheio de coisa
para fazer com aquela reforma em casa.
Continuamos em silêncio por alguns momentos.
- Como você pretende pagar? - perguntei, meu
ego ferido procurando o punhal.
- Você pode me emprestar o dinheiro?
Ah, então entendi. Ele não queria a mim, mas
aceitaria meu dinheiro sem problemas.
- Tudo bem - respondi.
Deixei Ryan e Jared no clube, desejei-Ihes boa
sorte e voltei para casa. Meu filho estava sozinho, agora, sem ninguém para lhe
dizer como acertar uma bola difícil em declive, ou como tirar a bola da banca
de areia. E se caísse um raio? E se ele tivesse hipotermia? Se fosse atropelado
por um carrinho? E se aparecesse um bando de esquilos agressivos? Ele é tão
pequeno. Quem tomaria conta dele?
Lá estava eu, sozinho, cada vez mais longe
dele. Não apenas agora, mas para sempre. Era isso. O elo se rompera. A vida
nunca mais seria a mesma.
Entrei em casa.
- O que você está fazendo aqui? - minha mulher
perguntou.
Eu sabia que ia parecer um garoto de treze
anos, o único da turma a não ser convidado para a festa, mas, mantendo minha
hesitação imatura, falei assim mesmo, com um tom mal-humorado:
- Não fui convidado.
Seguiu-se outra daquelas pausas peculiares.
Então minha mulher riu. Gargalhou. No início aquilo me magoou. Aí também ri e a
situação foi se tornando mais clara.
Voltei à reforma do banheiro e comecei a
entender que a vida é assim mesmo: em última análise, pais e filhos têm de
mudar. Eu tinha preparado Ryan para aquele momento desde que ele nasceu: não
para jogar golfe comigo, mas para se jogar no mundo sem mim. Com seus próprios
tacos de golfe. Suas próprias estratégias. Sua própria confiança.
Deus estava transformando meu filho num homem.
Aumentando o espaço aqui, adicionando uma nova
característica ali. Em resumo, permitindo que ele se tornasse mais do que seria
se eu continuasse a protegê-lo. Exatamente como quando eu era garoto e, com a
idade de Ryan, jogava minha bolsa xadrez de golfe nas costas e pedalava oito
quilômetros para jogar num campo público pequeno chamado Marysville que eu
imaginava ser o chiquérrimo Augusta National Golf Club.
Lembro-me como me sentia adulto, entrando na
sede escura, onde a fumaça levantava da mesa de pôquer, e orgulhosamente
pagando dois dólares por nove buracos. Será que gostaria que meu pai estivesse
ali comigo? Não. Um garoto tem de fazer o que um garoto tem de fazer: crescer.
Voltei à reforma do banheiro. Algumas horas
depois, ouvi Ryan entrar em casa. Reclamou com a mãe que não embocava seus
putts, que cortava seus slices, que o campo parecia um lago.
Parecia que eu estava ouvindo alguém que
conhecia bem. Com seus tênis encharcados, eu podia ouvir os passos se dirigindo
ao banheiro onde eu estava trabalhando.
- Papai - ele disse, molhando o chão. - Meu
jogo está horrível. Você pode me levar para jogar qualquer hora? Estou
precisando de ajuda.
Tive vontade de abraçá-lo e levantar a serra
que estava usando para celebrar e gritar: "Ele ainda precisa de mim!"
Eu queria dizer a Deus: "Obrigado por me deixar fazer parte desse processo
de transformação." Em vez disso, coloquei no rosto um olhar de pai sério
e, estoicamente, disse:
- Claro, Ry, quando você quiser.
ÚLTIMAS PALAVRAS
H. L. "BUD" TENNEY
Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 153
Eu chegara do trabalho há uns quinze ou vinte
minutos quando meu filho mais velho, Eduardo, que estava brincando do lado de
fora, entrou em casa - estava muito sério. Tinha apenas seis anos à época.
Marco, dois anos e meio mais novo, estava logo atrás dele.
Eu assistia ao noticiário da televisão quando
Eduardo ficou na minha frente. Sabia que ele tinha alguma coisa em mente.
Meu filho podia falar comigo sobre qualquer
assunto. E achava que eu tinha respostas para tudo.
Fiquei imaginando se havia alguma coisa errada
ou se ia apenas me fazer uma de suas perguntas sérias sobre as regras do jogo
em que estava envolvido com o irmão. Mas estava concentrado demais para esse
tipo de assunto. Resolvi lhe dar toda a atenção.
Ele disse bem devagar:
- Papai, preciso falar com você.
- Tudo bem, Dudu, o que é?
- Já sou grande agora, não sou?
- Claro que é. Me diga em que está pensando.
- Não quero que você me chame mais de
"Dudu", quero que você me chame de "Duda”, e não quero mais
chamar você de "papai", quero chamar você de "pai".
Tendo dito isso, parecia ainda mais sério e
nervoso. Dei o sorriso mais orgulhoso da minha vida.
- Tudo bem, Duda. Vou chamar você de
"Duda" ou de "Eduardo" e vou esperar ansiosamente para você
me chamar de "pai". Mas nunca me chame pelo nome, está bem?
Ele pareceu mais calmo e disse, numa voz forte:
- Posso ir lá fora de novo e brincar, pai?
Respondi que sim.
- Ainda quero chamar você de "papai"
- disse o meu filho mais novo.
- Que coisa boa! - respondi.
Nos dias seguintes, todas as vezes que Eduardo
tinha qualquer coisa para me falar, ele começava com "pai".
Mesmo se quisesse saber o que tínhamos para o
jantar, perguntava: "Pai, qual é o jantar?" Não demorou muito para
Marco seguir os passos do irmão.
Eu não pude deixar de sorrir. Minha mulher
virou o rosto para sorrir também.
Meu filho Eduardo morreu em 1993. Um dia antes
nos falamos ao telefone sobre como estava se sentindo. Seis semanas antes, ele
fora submetido a uma operação para remover um câncer em um dos testículos. Mas
este não fora atingido, graças a Deus.
Eduardo me disse que estava com a vista
embaçada e os dedos dormentes, além de dificuldades para pronunciar as
palavras. Eu lhe disse que ficaria bem. O problema era que tinha voltado a
trabalhar logo depois da cirurgia. Ele concordou e disse que ia diminuir um
pouco o ritmo. Os dois rimos porque sabíamos que ele não faria isso.
- Amo você, Dudu - eu disse.
- Amo você também, papai - ele respondeu com
uma risada adorável.
- Boa-noite, Dudu.
- Boa-noite, papai - ele disse ao desligar.
Foram as últimas palavras que trocamos. No dia
seguinte, lá pelo meio-dia, soube que Eduardo estava no hospital. Quando
cheguei, ele estava em coma. A tarde, o médico nos avisou que um aneurisma se
rompera no cérebro do meu filho. Ele morreu à noite, às sete horas e seis
minutos.
Enquanto eu estava rezando por sua vida, muitas
coisas me passaram pela mente. Sobretudo, serei sempre agradecido a Deus pelas
últimas palavras de meu filho. Não ficara nenhuma questão pendente entre nós.
Tivéramos um bom relacionamento. Embora sua morte tenha sido obviamente
dolorosa - para ele física e para mim emocionalmente -, a inocência e a doçura
daquela recordação da infância partilhada por nós ofereceram uma lembrança
comovente para um pai que viu seu filho partir cedo demais.
Não há amizade, não há amor que se compare ao amor de um
pai pelo filho.
HENRY WARD BEECHER
QUANDO ESTAMOS SOZINHOS PODEMOS DANÇAR
BETH ASHLEY
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 9
O navio estava cheio de passageiros, muitos
deles aposentados, todos animados para os próximos três dias de divertimento.
Na minha frente, no corredor acarpetado, vi uma
mulher pequena com uma calça marrom de poliéster, ombros curvados, cabelos
brancos e bem curtos.
Pelo alto-falante, a familiar Begin the
Beguine, com Arrie Shaw. De repente, aconteceu uma coisa maravilhosa.
A mulher, sem perceber que havia alguém atrás
dela, começou a balançar e sacudir. Estalava os dedos. Girava os quadris.
Fazia passos rápidos e graciosos - para a
frente, arrastando os pés, para o lado.
Quando alcançou a porta que levava ao
restaurante, ela parou, deixou sua dança para trás e entrou no salão como se
fosse outra pessoa.
Na verdade, voltou a ser aquela senhora
corcunda.
Muitas vezes eu me lembro dessa cena. E penso
nela agora, no dia do meu aniversário. Muita gente nem imagina que eu ainda
possa dançar.
Os jovens pensam que as pessoas da minha idade
não têm mais direito a música, romance, dança ou sonhos.
Eles nos veem como a idade nos moldou:
camuflados em rugas, cinturas grossas e cabelos grisalhos.
Não veem todas as outras pessoas que existem
dentro de nós.
Mostramos ao mundo uma certa aparência porque
essa é a regra que o costume impõe. Somos os velhos sábios amalucados, as
dignas matronas.
Não temos liberdade de movimento para deixar as
outras pessoas que existem em nós agirem - ou para usar nossas outras vidas.
Ninguém imagina, por exemplo, que ainda sou a
moça magrinha que cresceu num lindo lugar perto de Boston.
Dentro de mim, ainda me vejo como a mais nova
de quatro filhos de uma família feliz, com uma linda mãe e um pai sempre
alegre. Não importa que meus pais já tenham morrido há muito tempo e que
sejamos agora apenas três irmãos.
Ainda sou a criança meio presunçosa, acostumada
com carrões e empregadas - embora meu pai tenha perdido seu dinheiro na Grande
Depressão e eu viva hoje em dia de contracheque em contracheque.
Você nunca perde amando. Sempre perde deixando de amar.
BARBARA DE ANGELIS
A CICATRIZ
JOANNA SLAN
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 11
Ele passou o dedo polegar suavemente sobre a
pele da minha face. a cirurgião plástico, uns quinze anos mais velho do que eu,
era bastante atraente. Um homem viril, de olhar intenso, quase irresistível.
- Humm - o médico fez calmamente. - Você é
modelo?
"Isso só pode ser uma piada. Ele está de
brincadeira?", pensei, procurando em seu rosto bonito sinais de zombaria.
Não tinha como alguém jamais me confundir com uma modelo. Eu era feia. Minha
mãe costumava casualmente se referir à minha irmã como "minha filha
bonita”. Qualquer um podia ver que eu era feia. Afinal, eu tinha a cicatriz
para provar.
O acidente tinha acontecido quando eu estava na
quarta série. Um menino da vizinhança lançou um pedaço de concreto que bateu na
lateral do meu rosto. Um médico do pronto socorro juntou com pontos os
fragmentos da pele machucada da face e suturou a carne em pedaços do lado de
dentro da boca.
Pelo resto do ano usei um enorme curativo da
maçã do rosto ao queixo, cobrindo a feia cicatriz.
Algumas semanas após o acidente, um exame de
vista revelou que eu era míope. Acima do desajeitado curativo havia, agora, um
grande e pesado par de óculos. À volta da cabeça, um monte de cachos crespos,
que parecia bolor crescendo num pão velho. Para economizar, mamãe me levara a
um salão de beleza-escola, onde uma aprendiz cortara meu cabelo. A moça, super
cuidadosa, usou alegremente a tesoura, fazendo empilhar tufos de cabelo no
chão. Quando o instrutor veio conferir, o mal estava feito. Seguiu-se uma rápida
conferência e acabamos ganhando um vale para um penteado grátis na próxima
visita.
- Bem - meu pai suspirou -, você sempre será
bonita para mim. - E, hesitando, acrescentou: - Mesmo que não seja para o resto
do mundo.
Tudo bem. Obrigada. Como se eu não pudesse
ouvir as brincadeiras das outras crianças na escola. Como se não pudesse ver
como era diferente das outras meninas que as professoras paparicavam. Como se
eu, às vezes, não desse uma olhada em mim mesma no espelho do banheiro. Numa
cultura que valoriza a beleza, uma menina feia se sente exilada. Minha
aparência me causava uma dor sem fim. Eu me sentava no quarto e chorava toda
vez que a família via na tevê um concurso de beleza ou um show
"caça-talentos".
Finalmente decidi que, se não podia ser bonita,
seria, pelo menos, bem-arrumada. Os anos foram se passando e aprendi a pentear
o cabelo, a usar lentes de contato e a tirar proveito da maquiagem. Observando
o que funcionava para as outras mulheres, aprendi a me vestir valorizando meu
tipo. E agora eu estava noiva para casar. A cicatriz, que ficou menor e
esmaecida com a idade, se interpunha entre mim e uma vida nova.
- Claro que não sou uma modelo - respondi com
uma certa dose de indignação.
O cirurgião plástico cruzou os braços sobre o
peito e me olhou, como se estivesse me avaliando.
- Então por que você está preocupada com a
cicatriz? Se não há uma razão profissional para removê-Ia, o que a trouxe aqui
hoje?
De repente, ele representava todos os homens
que eu já conhecera. Os oito garotos que, na adolescência, recusaram meu
convite para uma festa onde as meninas é que tinham de chamar os meninos. Os
poucos rapazes com quem saí quando estava na faculdade. Os vários homens que me
ignoraram desde então. O homem cujo anel eu usava na mão esquerda. Toquei meu
rosto. A cicatriz confirmava: eu era feia. A sala parecia girar e meus olhos se
encheram de lágrimas.
O médico puxou uma banqueta para perto de mim e
se sentou. Seus joelhos quase tocavam os meus. Sua voz era baixa e suave.
- Deixe-me dizer o que eu vejo. Vejo uma bela
mulher. Não uma mulher perfeita, mas uma mulher bonita. Lauren Hutton tem os
dentes da frente separados. Elizabeth Taylor tem uma cicatriz bem pequena na
testa - ele disse, quase sussurrando.
O cirurgião parou de falar e me estendeu um
espelho.
- Tenho para mim que toda mulher notável tem
uma imperfeição e acredito que esta imperfeição faz sua beleza mais notável,
porque isso nos garante que ela é humana.
Ele empurrou a banqueta e se levantou:
- Eu não vou tocar na cicatriz. Não deixe
ninguém fazer brincadeiras sobre seu rosto. Você é encantadora do jeito que é.
A beleza, na verdade, vem de dentro da mulher.
Acredite. Saber isso faz parte da minha especialidade.
E ele saiu.
Eu me olhei no espelho. Ele tinha razão. De
alguma maneira, através dos anos, aquela criança feia se tornara uma mulher
bonita. Desde aquele dia no consultório do médico, já ouvi muitas vezes, dito
por homens e mulheres, que sou bonita. E sei que sou.
Quando mudei minha maneira de me ver, os outros
foram forçados a mudar o modo como me viam. O médico não removeu a cicatriz do
meu rosto, ele removeu a cicatriz da minha alma.
SEGUNDA PELE
CAROLINE CASTLE HICKS
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 15
Meu velho par favorito de jeans nunca mais
caberá em mim.
Finalmente aceitei esta verdade imutável.
Depois de ter tido dois filhos a quem amamentei, meu corpo sofreu uma
metamorfose.
Posso ter voltado ao meu peso de antes, mas
mudanças sutis e expansões aconteceram - minha própria versão de um
deslocamento continental. Quando adolescente, nunca entendi a diferença entre
tamanhos de criança e de moças. As roupas de moças pareciam de gente velha.
Agora é tão claro que cinturas de vespa e bumbuns minúsculos são armadilhas
fugazes da juventude. Mas está tudo bem porque, enquanto os velhos jeans não
fecham mais, a vida que troquei por eles me cabe melhor que tudo.
Para mim, é uma época da vida de pés descalços,
shorts e camiseta. Rapidamente me ambientei à maternidade em idade jovem. É o
melhor papel que já representei. Nada de costuras apertadas, zíperes
atrapalhando. Apenas um sentimento de que saí do quarto de vestir com algo que
finalmente me cai bem. Adoro sentir o bebê no meu colo: sua cabecinha cabe
direitinho debaixo do meu queixo, as mãozinhas se espalhando como pequenas
estrelas-do-mar cor-de-rosa nos meus braços.
Adoro o jeito com que minha filha de oito anos
anda ao nosso lado enquanto atravessamos o estacionamento ensolarado do
mercado. Nos lindos dias de primavera a brisa levanta seu delicado
rabo-de-cavalo e rimos ao ver como o sol faz o bebê fungar e apertar os
olhinhos. Quero sempre estar com eles, como uma costureira diante de duas
medidas de seda perfeita, imaginando o que fazer com elas, embora hesitante em
alterá-Ias, com medo de perder o peso de sua inteireza.
Nas poucas manhãs em que acordo antes deles,
entro em seus quartos e os olhos enquanto dormem, os rostos amarrotados e
rosados. Finalmente se contorcem e se espreguiçam, prontos para um abraço. Eu
os pego em meus braços, enterro meu rosto neles e respiro fundo. São como
toalhas que acabei de tirar da secadora, macios e quentinhos.
Às vezes eu sigo as vozes das meninas no quarto
da minha filha, onde ela e as amigas brincam, todas arrumadas, entaladas até o
joelho num chiffon de bazar caseiro, experimentando a vida através das roupas.
Exageradas e envaidecidas diante do espelho, se enfeitam com contas baratas e
colocam tiaras de lantejoulas e papelão. Vejo essas meninas com seus cabelos
lisos e brilhantes que elásticos e fivelas não conseguem domar. Estão sempre
ajeitando fios rebeldes atrás das orelhas e, nesse gesto adulto, vejo lampejos
das mulheres em que se transformarão.
Sei que muito em breve essas nuvens de organdi
e renda ficarão para sempre em caixas amassadas, as que agora servem de baús de
tesouros e tronos de princesas. Vão se tornar trajes inúteis da meninice de
minha filha que serão devolvidos para mim.
Por ora, entretanto, meus filhos se aninham
comigo no sofá à noite, muitas vezes adormecendo, braços e pernas bambos e
macios contra o meu corpo, como as dobras de uma camisola bem usada. Por ora
ainda enfeitamos uns aos outros, e eles ficam felizes em serem vestidos pelo
meu abraço. Sei que vão existir situações que serão como usar suéteres de lã
malfeitos e salto de um centímetro. Temos de, juntos, experimentar novos
modelos, puxando e amassando, mas tentando deixar o tecido básico intacto.
Nesse ponto, teremos tecido uma complicada tapeçaria de padrão peculiar, com
seus fios puxados, esgarçada e rasgada.
Mas não vou me esquecer desta época, das
cabeças sonolentas no meu ombro, de pijamas com pezinhos e vestidos iguais para
mãe e filha, de mãozinhas agarradas na minha mão. Esta época me cai bem. Tenho
planos de usá-Ia da melhor maneira possível.
Vejo a educação de uma criança não só como um trabalho de
amor e um dever, mas como uma profissão tão interessante,
desafiadora e honrosa como qualquer outra no mundo e
aquela que exigiu de
mim o melhor que eu podia dar.
ROSE KENNEDY
UM DE CADA VEZ
JAROLDEEN EDWARDS
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 18
Era um dia muito frio e chuvoso e eu não tinha
a menor vontade de dirigir da praia até a montanha gelada em Lake Arrowhead,
onde minha filha Carolyn morava.
Uma semana antes, ela telefonara insistindo que
eu fosse ver os narcisos que algumas mulheres tinham plantado no alto da
montanha. Assim, aqui estava eu, fazendo, relutante, a viagem de duas horas.
Quando vi como o nevoeiro estava espesso na
estrada cheia de vento que levava ao alto, já estava longe demais para voltar.
Então, avancei pela perigosa autoestrada
chamada Aba do Mundo, na direção da casa de minha filha.
- Não dirijo nem mais um metro! - anunciei. -
Vou parar e almoçar e, assim que o nevoeiro baixar, vou descer.
- Mas eu preciso que você me leve até a garagem
para eu pegar meu carro - Carolyn disse. - Não podemos pelo menos fazer isso?
- Quanto tempo até lá? - perguntei, prudente.
- Uns três minutos - ela respondeu. - Deixe que
eu dirijo, estou acostumada.
Depois de dez minutos de estrada e olhei para
ela ansiosamente.
- Entendi você dizer que era coisa de três
minutos.
Ela sorriu:
- É um desvio.
Voltamos à estrada da montanha, com um denso
nevoeiro.
"Nada pode valer isso", pensei. Mas
era tarde demais para voltar. Dobramos num caminho estreito que levava a um
estacionamento ao lado de uma pequena igreja de pedra. O nevoeiro começava a
ceder e uns raios de sol, ainda fracos, num lusco-fusco, tentavam passar por
ele.
Carolyn saiu do carro e eu, relutante, a segui.
O caminho que seguimos era cheio de agulhas de pinheiros. E a montanha se
derramava bem à direita.
Aos poucos, a paz e o silêncio do lugar
começaram a relaxar minha mente. Foi quando, virando uma curva, prendi a
respiração, maravilhada. Do alto da montanha, descendo por vários acres entre
recôncavos e vales, entre árvores e arbustos, seguindo o terreno, havia rios de
narcisos de um viço radiante. Cada matiz do amarelo - do mais pálido marfim ao
mais profundo limão até o mais vivo salmão-laranja - resplandecia como um
tapete à nossa frente.
Era como se o sol tivesse deixado cair gotas de
ouro em riachos montanha abaixo. No centro dessa coloração fantástica havia
jacintos roxos, que caíam como em cascata. Por todo o jardim havia plataformas
para meditação, enfeitadas com barris de tulipas cor de coral. E como se essa
mina de cores não bastasse, acima dos narcisos, azulões se moviam rapidamente e
brincavam, com seus peitos cor de magenta e asas de safira, como se fossem
joias em movimento.
Uma profusão de perguntas encheu minha mente:
Quem criou tal beleza nesse lugar afastado? Quanto tempo levou para fazer um
jardim tão magnífico? Como?
À medida que nos aproximávamos da casa que
ficava no centro da propriedade, vimos um cartaz: Respostas às perguntas que eu
sei que você está fazendo.
A primeira resposta era Uma Mulher - Duas Mãos,
Dois Pés e Muito Pouco Cérebro. A segunda era Iniciado em 1958. E a terceira,
Um de Cada Vez.
Voltando para casa, fiquei em silêncio no
carro. Estava tão emocionada com o que vira que mal podia falar.
- Ela mudou o mundo - eu disse finalmente. - Um
bulbo de cada vez. Pense só. Ela começou há mais de cinquenta anos.
E o mundo ficou para sempre diferente e melhor
porque ela fez um pouco com um esforço constante.
A maravilha que eu presenciara não me saía da
cabeça.
- Imagine se eu tivesse tido uma visão e
trabalhado nela, um pouquinho a cada dia, por todos esses anos perdidos. O que
eu teria realizado?
Carolyn me olhou de lado, sorrindo.
- Comece amanhã - ela disse. - Melhor ainda,
comece hoje.
Se eu tivesse dois pedaços de pão, eu venderia um e
compraria jacintos, porque eles alimentariam minha alma.
ALCORÃO
O ESPELHO TEM TRÊS FACES
KRISTINA CLIFF-EVANS
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 22
Tenho cinquenta e um anos. A idade de minha mãe
quando morreu. Lembro-me claramente do seu último dia de vida. Era uma
segunda-feira chuvosa e minha mãe não conseguia respirar.
- É fluido - disse o médico. - Vamos extrair o
líquido dos pulmões.
Sentaram minha mãe na cama do hospital e
introduziram uma longa agulha em suas costas. Tentaram repetidas vezes, mas não
conseguiram retirar qualquer líquido. Nem aliviar sua dor.
- Não há fluido - o médico disse. - É só tumor.
Não podemos ajudá-la a respirar.
Lembro as palavras desesperadas de minha mãe:
- Não consigo respirar. Aumentem o oxigênio por
favor.
Mas aumentar o oxigênio não ajudou. Seus
pulmões, tomados pelo câncer, lutavam pelo ar. Minha mãe sussurrou para mim
suas últimas palavras:
- Quero que seja bem rápido.
Minha mãe devia ter envelhecido. Seu cabelo
escuro, salpicado de cinza, devia ter se tornado branco como neve. As linhas do
rosto, delineadas pelos sorrisos, deviam ter-se tornado rugas suaves. Seu
caminhar rápido devia ter-se tornado um andar mais lento, mais maduro.
Minha mãe devia ter vivido para ver seus cinco
netos crescerem. Para envolvê-los com seu jeito de amar tão especial e
ensinar-lhes coisas com sua sabedoria. Ela devia ter partilhado, mão na mão,
seus anos dourados com papai - ela foi a única mulher a quem ele amou. Mas nada
disso aconteceu. Ela não estava mais aqui, nunca teve a oportunidade. Tinha
cinquenta e um anos e morreu.
Eu tinha vinte e sete anos, então. Ao longo dos
anos, nunca se passou um dia sem que eu pensasse em alguma coisa que quisesse
lhe dizer, perguntar ou mostrar a ela. Eu me revoltava contra a injustiça dessa
situação. Não era justo minha mãe ter morrido com cinquenta e um anos.
Agora sou eu que tenho cinquenta e um anos.
Olho no espelho e me espanto: sofri transformações lentas, mas inegáveis. Ali
está ela com seu cabelo salpicado de cinza, os olhos escuros e intensos, aquela
expressão no meu rosto. Quando ouço minha voz, é a voz dela. Eu me tornei minha
mãe.
Estou entrando num novo e estranho estágio da
vida. Eu sempre olhei adiante para ver minha mãe. Num instante cheguei perto
dela. Agora estou começando a ficar mais velha que minha mãe. A direção em que
eu olhava para vê-la vai mudar.
Em breve terei de olhar para trás.
Aos poucos, minha mãe vai se tornar jovem em
comparação a mim. No lugar dela, quem vai ficar velha sou eu - sou eu quem vai
ficar com a cabeça branquinha, do jeito que ela devia ter ficado. Quem vai
ficar com aquele modo de andar mais maduro, quem vai ver as rugas suaves que
ela nunca viu. E isso vai continuar até o dia em que eu tiver setenta e cinco
anos, a idade que ela teria hoje. Nesse dia, completada a inversão de papéis,
eu me virarei para ela a fim de olhá-Ia, mas verei, no seu lugar, minha própria
filha, com cinquenta e um anos - minha mãe.
Sou um reflexo das minhas gerações passadas
e a essência das que vêm depois de mim.
MARTHA KINNE
O MELHOR DE TODOS OS DISTINTIVOS
GERRY NISKERN
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 25
Quando me tornei escoteira, minha mãe me contou
esta história acontecida com a sua tropa de escoteiras há muito tempo, durante
a Segunda Guerra Mundial.
Na manhã de um sábado gelado de dezembro, as
meninas de onze anos da nossa tropa de escoteiras se reuniram, agitadas, no
ponto de ônibus, onde já estava nossa chefe, a Sra. Taylor. Carregávamos
grandes bolsas de papel com frigideiras, tigelas e artigos diversos de
mercearia. Nesse dia, há muito esperado, nós, as garotas da Tropa 11, iríamos
receber nossos distintivos de cozinheiras.
- Nada é tão saboroso quanto a primeira
refeição que você mesma faz, especialmente quando se cozinha a lenha, num
acampamento dizia, sorrindo, a Sra. Taylor.
Teríamos de fazer três baldeações até nosso
destino, no deserto. No primeiro ônibus, estávamos todas agarradas aos nossos
produtos como se fossem bolsas de joias. Diversas mães tinham contribuído
generosamente com preciosos cupons de racionamento para que pudéssemos comprar
o material para um verdadeiro café da manhã: panquecas com manteiga de verdade,
bacon e até um pouco de açúcar mascavo para urna calda caseira! Nós, as
escoteiras, receberíamos nossos distintivos apesar da adversidade, apesar da
guerra. Nas nossas cabeças, não estávamos apenas aprendendo a cozinhar no
deserto, estávamos fazendo nossa parte para manter a vida seguindo seu curso no
front doméstico.
Finalmente chegamos ao Parque Papango, um lindo
refúgio no deserto, cheio de árvores de tronco verde, arbustos cinzentos e
maciças formações de rocha vermelha. Quando começamos a caminhar pela estrada
de barro que conduzia ao parque, um caminhão do exército americano, cheio de
prisioneiros de guerra alemães, passou por nós, indo também na direção do
parque.
- Lá vão aqueles alemães! - disse urna das
garotas, com desprezo. - Eu os odeio!
- Por que eles tiveram de iniciar a guerra? –
urna outra reclamou. - Meu pai está fora há tanto tempo.
Nós todas tínhamos pais, irmãos ou tios lutando
na Europa.
Com determinação, chegamos até o local do nosso
acampamento e logo o bacon estava crepitando nas frigideiras, enquanto as
panquecas ficavam com as beiradas douradas.
A refeição foi um sucesso. A previsão da Sra.
Taylor sobre nosso prazer gastronômico estava correta.
Depois de comermos, urna das meninas começou a
cantar urna canção de escoteiros enquanto limpávamos o espaço que tínhamos
usado. Urna a urna, todas nós nos juntamos a ela. Nossa chefe iniciou urna
outra canção e continuamos a cantar com entusiasmo.
Foi quando, inesperadamente, ouvimos vozes
masculinas. Urna linda melodia cantada em tons profundos e fortes encheu o ar
de dezembro e chegou até nós.
Erguemos o olhar para ver a caverna natural em
forma de concha formada pelas grandes pedras vermelhas, chamada Buraco na
Rocha, onde estavam agora os prisioneiros alemães e seus vigias.
Quando os soldados estrangeiros terminaram a
canção, nós começamos outra. Responderam com outra persistente melodia. Não
compreendíamos urna só palavra do que diziam, mas, para nosso prazer, nós
continuamos a trocar canções na clara manhã do deserto.
Finalmente uma das garotas começou a cantar
Noite Feliz e nós todas juntamos nossas vozes ao cântico de Natal. Seguiram-se
alguns momentos de silêncio e então... a melodia, tão familiar, voltou para
nós:
"Stille Nacht, Heilige Nacht..." -
Como eles podem saber nossos cânticos de Natal? - uma das meninas perguntou à
chefe. Eles são inimigos do nosso país!
Continuamos a ouvir com admiração. Por um
momento peculiar e inesquecível, os homens na caverna se tornaram pais e irmãos
de alguém e eles nos viram como suas amadas filhas e irmãs.
Nos anos que se seguiram provavelmente outras
pessoas olharam nossos novos distintivos como prova de que poderíamos cozinhar
a lenha, num acampamento. Mas, para nós, eles eram lembranças da necessidade de
paz, de uma estranha transformação que aconteceu numa época de Natal.
UM PRESENTE PARA ROBBY
TONI FULCO
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 33
O pequeno Robby, sobrinho de nossa vizinha,
tirou, com cuidado, uma colherada de sua ração de água, colocou o líquido num
pires e se dirigiu à porta. Como eu odiava aquele racionamento de água! Éramos
forçados a tomar banho sem sabonete no pequeno reservatório que dividíamos com
Jessie, nossa vaca. Ela era tudo que tínhamos agora. Os poços estavam secos, a
safra tinha virado pó, levando nossos sonhos, durante a pior seca já vista em
nossa pequena comunidade rural.
Segurei a porta de tela para Robby e o
observei, sorrindo, enquanto ele sentava, devagar, nos degraus. Parecia um
anjo, com dúzias de abelhas à volta de seus cachos desalinhados, como se
formassem um halo. Ele imitava o zumbido, o que as atraiu para o pires a fim de
beber o precioso líquido.
As palavras de sua tia ecoavam nos meus
ouvidos:
"Não sei o que estava pensando quando
fiquei com ele. Os médicos dizem que ele não se machucou no acidente que matou
minha irmã, mas ele não fala. Tudo bem, faz uns ruídos, mas que não são
humanos. Ele vive num mundo particular, este garoto positivamente não é como
meus filhos." Por que ela não conseguia ver os dons maravilhosos que
aquele menino de quatro anos possuía? Meu coração doía por Robby. Ele se
tornara a melhor parte de nosso mundo, me ajudando, animado, com o jardim,
andando no trator ou carregando feno com meu marido. Ele fora abençoado com uma
natureza amorosa e uma profunda admiração por todas as coisas vivas, e eu sabia
que ele podia conversar com os animais.
Nós nos alegrávamos com as descobertas que ele,
feliz, dividia COI1OSco. Seus olhos marrons, inquisitivos e, muitas vezes,
inquietos, espalhavam total compreensão do que era dito. Eu gostaria de
adotá-Io. Sua tia já sugerira isso muitas vezes. Nós nos denominávamos mamãe c
papai para Robby e, antes da seca, faláramos sobre adoção. Mas os tempos eram
tão duros que eu não tinha como abordar o assunto com Tom. O trabalho que ele
fora obrigado a aceitar na cidade para comprar comida para Jessie e suprir nossas
necessidades básicas já cobrava um alto preço a seu espírito.
A tia de Robby, sem hesitar, concordou com o
pedido que o menino passasse o verão em nossa casa. De qualquer maneira, ele
estava conosco todos os dias. Enxuguei uma lágrima, lembrando como ele parecia
pequeno e frágil quando rapidamente colocou sua mão na minha e me entregou um
saco amarrotado de papel pardo. Nele havia duas camisetas desbotadas que
tínhamos comprado para ele na feira do condado no ano passado e um par de
shorts bastante surrados. Isso e as roupas que
levava no corpo eram seus únicos pertences, com a exceção de um objeto muito
estimado.
Numa corda de seda à volta do pescoço estava
pendurado um apito feito a mão. Tom o fizera no caso de Robby estar perdido ou
em perigo. Afinal de contas, ele não podia gritar por socorro. O garoto sabia
perfeitamente que o apito não era um brinquedo. Era apenas para emergências e,
se ele apitasse, Tom e eu iríamos correndo. Eu lhe contara a história do menino
que dera um alarme falso e sabia que Robby me entendera.
Dei um suspiro enquanto secava e guardava a
louça do jantar. Tom entrou na cozinha e apanhou a bacia de lavar louça.
Toda gota de água reciclada era usada na
pequena horta que Robby plantara ao lado da varanda. Ele se orgulhava tanto
dela que tentávamos desesperadamente salvá-Ia. Mas, sem chuva, logo estaria
perdida. Tom pôs a bacia no balcão e me disse:
- Sabe, querida - ele começou -, tenho pensado
muito sobre Robby ultimamente.
Meu coração começou a bater, ansioso, mas,
antes que ele continuasse, um som agudo veio do jardim, fazendo-nos pular.
"Meu Deus! É o apito de Robby!"
Quando chegamos à porta, o apito silvava febrilmente. Visões de uma cascavel me
vinham à cabeça enquanto corríamos para o jardim. Corremos até Robby, que
apontava freneticamente em direção ao céu sem deixar que tirássemos o apito de
sua mão.
Olhamos na mesma direção e tivemos a mais bela
das visões.
Nuvens de chuva, enormes nuvens de chuva,
pretas de dar medo!
Robby, ajude, depressa! Precisamos de todos os
recipientes!
O apito caiu de seus lábios e ele correu comigo
até a casa. Tom correu em direção ao celeiro para trazer uma velha tina. Quando
todos os baldes foram colocados no jardim, Robby voltou às pressas para a casa.
Veio com três colheres de madeira que apanhou na gaveta. Ficou com uma e
entregou as outras para Tom e para mim.
Apanhou um pote de mantimento dos grandes e se
sentou, de pernas cruzadas. Virou o pote ao contrário e, com a colher, marcava
um ritmo. Tom e eu pegamos outros potes e nos juntamos a ele.
- Chuva para Robby! Chuva para Robby! - eu
entoava a cada batida.
Uma gota d'água bateu no meu pote, depois
outra.
Logo o jardim estava completamente encharcado
por uma chuva gloriosa. Ficamos ali parados, rostos erguidos, para sentir o
luxo daquela chuva. Tom pegou Robby no colo e dançou entre os baldes, gritando
com alegria e entusiasmo. Foi quando ouvi - suavemente a princípio, depois cada
vez mais alto - a risada mais maravilhosa, impetuosa e alegre. Tom se virou
para me mostrar o rosto de Robby. Com a cabeça pendendo para trás, ele estava
rindo alto, claramente! Eu abracei os dois, deixando as lágrimas se misturarem
com a chuva. Robby soltou Tom e se agarrou no meu pescoço.
- Do W-W-Wobby! - ele gaguejou. Estendendo sua
mãozinha, como se para colher a chuva que caía, ele riu novamente.
- Suva... do W-W-Wobby... Mamã - ele sussurrou.
PRONTA PARA PATNAR
BETSY HALL HUTCHINSON
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 36
Meus olhos pararam no item idade do formulário
que estava preenchendo para alugar os patins in-line. Será que era mesmo
necessário colocar no papel o número que me rotulava como cidadã idosa? Minha
idade não parecia apropriada à atividade. Mas qual seria a idade
"correta”? Que número eu deveria escrever?
Apesar desse pequeno desvio de pensamento, não
pude resistir à oportunidade de ouro: depois de mais de quarenta anos de
formadas, seis amigas da época do segundo grau estavam se reunindo para um fim
de semana na praia.
Dorothy trouxera seus patins in-line para
aproveitar as calçadas lisas, largas e cheias de curvas. Algumas de nós
estávamos ansiosas para nos juntarmos a ela nessa aventura. Outras hesitavam.
As desculpas eram várias: "Não patino desde a época da escola”, "Meu
joelho não está bom”, “Tenho medo de me machucar", "Patins in-line
são diferentes dos roller”.
Cada uma de nós ficava mais agitada à medida
que experimentava as joelheiras, os patins e as munhequeiras (nesta ordem) de
Dorothy. Gentilmente auxiliadas por ela, decidimos tentar dar uma volta perto
de uma parede, o que imaginávamos ser mais seguro. Ajudava o fato de algumas de
nós saberem esquiar - movimento de parar parecia semelhante.
Quando começamos a trocar socos com aquela que
estava sobre os patins e a discutir como crianças para saber de quem era a vez
de patinar, sabíamos que estávamos prontas. Estávamos todas dispostas a alugar
o equipamento.
Era inegável meu entusiasmo! Aquela sensação na
sola dos pés me levou de volta à infância. Ainda me lembro do gostoso
clique-clique-clique de quando corria a toda velocidade sobre as fissuras dos
quadrados de cimento das calçadas da minha cidade natal.
Naquela época, as ruas, as calçadas e terrenos
vazios da vizinhança eram nosso playground. Sob a sombra de árvores majestosas,
o grupo de crianças patinava, pulava corda, brincava de amarelinha e andava de
bicicleta durante todo o verão. As mais velhas organizavam projetos mais
ambiciosos: carnavais, produções teatrais, exposições de cachorro e desfiles.
Os irmãos menores ficavam de ajudantes.
Ao pôr-do-sol nos reuníamos sob as árvores para
tocar violão e cantar.
Mas em qualquer dia do verão eu estava sobre
meus patins roller, com a chave dos patins balançando num fio de algodão
encardido pendurado ao redor do pescoço, os joelhos cheios de cascas de
machucados, Normalmente realizávamos nossas proezas mais ousadas descendo a
ladeira íngreme que levava à rua seguinte no final do nosso quarteirão. Em
altíssima velocidade, descíamos berrando até pararmos lá embaixo, com uma
guinada de corpo para a esquerda. Batíamos ruidosamente contra uma porta de
garagem estrategicamente localizada. A porta (para desprazer do dono da casa)
estava permanentemente marcada com uma fileira de mãos de crianças.
Agora, quase cinco décadas depois, alegremente
protegida por joelheiras e munhequeiras, tendo nos pés os patins alugados, sigo
Dorothy (minha amiga desde a quarta série) pelo caminho que leva ao passeio
largo e liso, onde poderemos realmente decolar. Virando a cabeça, Dorothy sorri
para mim e diz:
Agora temos oito anos!
Com certeza - concordo, Este era o número que
eu estava procurando.
Vou envelhecer, mas sem perder o gosto pela vida,
porque a última curva da estrada vai ser a melhor.
HENRY VAN DYKE
AS MULHERES QUEREM LINGERIE
ROBERT FULGHUM
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 40
"As mulheres PRECISAM de roupa de baixo,
mas QUEREM lingerie." Essa frase do presidente da Victoria's Secret abria
uma grande matéria na revista Forbes. "Ele deve conhecer o assunto, já que
tem seiscentas lojas e uma companhia com um catálogo de vendas de dois bilhões
de dólares para respaldar tal afirmativa", pensei. De alguma forma, hoje
posso atestar que isso é verdade.
Estava em um shopping center em Cleveland
fazendo hora antes de ir a um lançamento de livro e passei numa loja da
Victoria's Secreto Entrei, olhei as peças, a vendedora ofereceu ajuda. Enquanto
conversávamos, a moça me contou que a loja começara como um lugar onde um homem
poderia comprar lingerie para agradar uma mulher. Agora, o objetivo era
conquistar mulheres que quisessem agradar a si mesmas - que desejassem se
sentir bonitas e sensuais.
Enquanto falávamos, percebi uma senhora vestida
de forma conservadora que entrou devagarinho na loja, com um deliberado ar de
dignidade. Examinou as peças delicadas nas prateleiras. Sentia as texturas dos
tecidos de vez em quando. Dispensando a ajuda da vendedora, a senhora saiu da
loja. Quando eu saí, vi que ela estava em frente à vitrine, olhando atentamente
a lingerie exposta.
Uma hora depois, passei novamente no corredor e
vi a mulher no mesmo lugar, em pé, enxugando os olhos com um lenço, Chorando.
- Desculpe, não pude deixar de perceber a sua
aflição. Está tudo bem?
Não, não estou bem. Estou apaixonada. - E ela
me contou a sua história, do jeito que as pessoas só fazem com quem não
conhecem.
Era uma viúva de setenta e dois anos. Filhos
criados, netos. E tudo mais.
Num impulso fora à festa de comemoração de
cinquenta anos de formatura de sua antiga turma da faculdade, em St. Louis. E
ele estava lá. O homem por quem fora apaixonada naquela época. Completamente
apaixonada. Sua família proibira o casamento por considerá-lo de classe
inferior, segundo seus padrões. Ela fora enviada à Costa Leste para terminar o
curso. Não teve mais notícias e alguém lhe dissera que ele tinha morrido na
guerra.
Mas lá estava ele. Tivera uma próspera carreira
no ramo de seguros, se casara, tivera filhos l' agora estava viúvo. E era ainda
muito alinhado. Além do mais, ele fora à reunião na tentativa de encontrá-la.
"Buá" (estou repetindo a senhora). Parecia que o tempo não tinha
passado.
Eles conversaram, riram, dançaram, beberam um
monte de ponche e acabaram um nos braços do outro, se beijando.
"Beijando" (estou de novo repetindo). A parte do beijo a deixou
nervosa. A senhora contou que estava sentindo coisas que não sentia há muito
tempo.
Quando ele fez alguns movimentos, sugerindo que
iria além do beijo, ela se afastou. Uma parte dela dizia que já estava muito
velha para aquele tipo de coisa. Mas uma outra parte dizia que a verdade era
que sua roupa de baixo é que estava velha demais para esse tipo de coisa.
Ela foi para casa. Trocaram cartas. Conversaram
pelo telefone. Decidiram que a vida era curta demais para ser desperdiçada e
que deveriam passar um fim de semana juntos. Ela o convidou para ir a Oberlin,
onde morava. Ele chegaria na sexta-feira. Então ali estava ela, num shopping
elegante, soluçando do lado de fora da loja da Victoria´s Secret. Não estava se
sentindo nem bonita nem sexy, mas velha e boba.
Não posso contar como essa história terminou
realmente muito menos o que aconteceu no fim de semana em Oberlin.
Não é da minha conta. Mas posso dizer que o
senhor de St. Louis pode, mais cedo ou mais tarde, ter uma surpresa.
Ela não vai contar a ele que um estranho a
encontrou chorando em frente à vitrine da Victoria´s Secret, a pegou pelo braço
e entrou com ela na loja. Ou que esse estranho disse à vendedora que sua tia
precisava de uma lingerie bonita para uma amiga que tinha mais ou menos o mesmo
corpo que ela, que tal amiga estava apaixonada, mas tinha vergonha de ir à
loja. Não, o conjunto preto feito para seduzir falaria por si.
Quando as mulheres precisam de roupa de baixo,
mas querem lingerie, a idade não deveria jamais ser um problema. A senhora
podia não ser tão jovial quanto antes, mas se sentia atraente, pelo menos mais
uma vez, como nunca fora. Por que querer viver tanto tempo a não ser que coisas
assim sejam possíveis?
A idade não protege você do amor.
Mas o amor, de alguma forma, protege você da idade.
JEANNE MOUREAU
CARTA DE UMA MÃE AO MUNDO
AUTOR DESCONHECIDO
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 40
Caro mundo,
Meu filho começou hoje na escola. Por um tempo,
tudo vai ser estranho e diferente para ele. E eu gostaria que você o tratasse
com carinho.
Veja bem, até agora, ele tem vivido como um
rei. É o mandachuva aqui em casa. Eu estou sempre ao lado dele, curando suas
feridas e aquietando seu coração.
Mas agora tudo vai ser diferente.
Esta manhã ele vai sair pela porta da rua,
acenar para mim e começar sua grande aventura, que provavelmente incluirá
guerras, tragédia e sofrimento.
Para viver neste mundo é preciso fé, amor e
coragem.
Por isso, mundo, eu gostaria que você o pegasse
pela mão e ensinasse o que ele precisa saber. Ensine-o, mas com carinho, se
possível. Ensine-o que, para cada malandro que existe por aí, existe também um
herói. Que para cada político corrupto existe um líder dedicado. Que para todo
inimigo existe também um amigo. Ensine-o sobre as maravilhas dos livros.
Dê a ele um momento de silêncio para que possa
ponderar sobre o mistério eterno dos pássaros no céu, das abelhas ao sol e das
flores nas campinas. Ensine-o que é muito mais digno fracassar do que
trapacear.
Ensine-o a ter fé nas próprias ideias, mesmo
quando todo mundo lhe disser que ele está errado. Ensine-o a vender seu cérebro
e seus músculos pelo mais alto preço, mas que seu coração e sua alma nunca
estejam à venda.
Ensine-o a fechar os ouvidos para o clamor da
multidão... e manter-se firme e disposto a lutar quando achar que está certo.
Ensine-o com carinho, mundo, mas não o mime,
pois é o teste do fogo que produz o aço mais resistente.
Essa é a lei, mundo, mas veja o que você pode
fazer por mim. Ele é um rapazinho tão especial!
ATRÁS DE TODO GRANDE HOMEM
EXISTE UMA GRANDE MULHER
THE BEST OF BITS e PIECES
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 42
Thomas Wheeler, alto executivo de uma multinacional, viajava com sua mulher
por uma estrada interestadual quando notou que o carro estava com pouca
gasolina. Ele parou num posto muito simples, com apenas uma bomba de
combustível. Pediu ao único atendente que enchesse o tanque e verificasse o
óleo enquanto ele dava lima volta para esticar as pernas.
Ao retomar para o carro, percebeu que o frentista e sua mulher estavam num
papo animado. A conversa parou enquanto Wheeler pagava pela gasolina. Mas,
quando voltava para o carro, ele viu o rapaz acenar e dizer:
- Foi ótimo falar com
você.
Ao sair do posto, o marido perguntou ・mulher se ela conhecia o atendente. Ela imediatamente admitiu que sim.
Tinham frequentado a mesma escola e ela o namorara por cerca de um ano.
- Puxa, você teve sorte de eu ter aparecido - Wheeler se vangloriou. - Se
tivesse se casado com ele, seria agora a esposa de um frentista de posto de
gasolina em vez de ser esposa de um alto executivo.
- Meu querido - respondeu a mulher -, se eu tivesse me casado com ele, ele
seria o alto executivo e você o frentista do posto de gasolina.
NUNCA É TARDE DEMAIS
MILDRED COHN
Extraído de Chocolate
for a Woman´s Soul de Kay Allenbaugh
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 44
Num estalo o sonho da minha vida se realizou.
Aos sessenta e oito anos, terminei meu curso universitário - com louvor.
Foi uma realização triunfante, embora um pouco
amarga.
Eu tinha um casamento amoroso e feliz,
preenchido com viagens, amigos e filhos. Então meu marido morreu. Eu jamais
tinha feito nada sozinha. Nunca.
Vi que podia ficar em casa c lamentar a minha
perda ou fazer alguma coisa que eu desejara toda a minha vida. Eu poderia ir
para a faculdade.
Nunca tive tanto medo em tomar uma decisão.
Mas tomar a decisão era uma coisa. Fazer
realmente o curso era outra. Eu estava muito nervosa no primeiro dia de aula.
Estava apavorada. Eu conseguiria achar a sala? Será que eu ia chamar atenção
pela minha incapacidade? Será que os professores pensariam que eu estava ali
por falta do que fazer? Conseguiria dar conta do recado? E se todos fossem mais
inteligentes do que eu?
No fim do primeiro dia estava exausta.
Mas também estava entusiasmada. Sabia que ia conseguir.
Embora fosse difícil, o estímulo de aprender coisas novas valia a pena. Meu
amor pela arte me levou a concentrar minhas cadeiras no curso de história da
arte. Era um prazer passar os dias ouvindo os professores.
Um dos meus prazeres inesperados foi estar com
os outros alunos. A diferença de idade não era problema, embora tivesse sido um
choque, no início, os meninos me chamarem pelo primeiro nome. Eles eram ótimos,
discutíamos a matéria, estudávamos e andávamos juntos. Um rapaz até me ensinou
a usar computadores. E o melhor de tudo: ninguém falava sobre colesterol.
Também recebia muita atenção de meus
professores (a maioria deles com idade para ser meus filhos). Imagino que não
estavam acostumados a ter um aluno tão interessado em suas aulas. Com o passar
do tempo, muitos me usavam como fonte. Na aula de história, ninguém mais podia
dizer como foi ter vivido na época da Grande Depressão. Eu podia e, assim, me
pediam para falar sobre minhas experiências. Muitos de meus conhecidos pensavam
que eu estava louca. Às vezes eu também pensava. Os trabalhos, as provas, as horas
de pesquisa, as corridas para atravessar o campus e chegar a tempo na próxima
aula, a exaustão. Entretanto, nada disso me impediu de preencher todos os
requisitos acadêmicos, inclusive fazer aulas de educação física. Estava
determinada a cumprir tudo que fosse necessário para obter o diploma.
Minhas filhas me deram todo o apoio. Falavam
sobre inversão de papéis. Nós planejávamos nossas visitas na época das minhas
férias escolares. Elas me ajudavam com minhas tarefas de casa, se condoíam
quando eu falava de problemas com algum professor e diziam para eu não me
preocupar em tirar boas notas. (Juravam que eu estava me vingando delas por
todas as vezes que me ligaram em pânico quando estavam na escola.) Além de
frequentar as aulas, aprendi que podia estudar no exterior, fazendo excursões
acompanhadas por professores durante o verão. Uma das viagens foi para a Europa
Oriental (antes da queda do comunismo). Em outra, o roteiro era explorar os
principais museus da Itália. Eu viajara bastante com meu marido, mas nunca
sozinha. Fiquei apreensiva na primeira vez, mas conheci pessoas maravilhosas
que me colocaram sob suas asas. Tinha conseguido dar mais um passo para fazer
as coisas por mim mesma.
Eu mal sabia que minha experiência na faculdade
me daria um conhecimento que não vem só dos livros. Olhando para trás,
compreendo que ir à faculdade me manteve jovem. Eu nunca estava aborrecida.
Estava sendo exposta a novas ideias e pontos de vista. O mais importante é ter
ganho confiança, saber que posso realizar coisas por mim mesma.
No dia antes de sua morte, meu marido me
perguntou se eu voltaria à faculdade. Ele estava me dizendo para continuar a
viver e realizar um sonho. No dia da minha formatura, quatro anos mais tarde,
quando atravessei o palco para receber meu diploma, eu o senti ali, me
aplaudindo de pé.
A maior recompensa pelo esforço de uma pessoa
não é o que ela ganha com isso, mas o que ela se torna
através dele.
JOHN RUSKIN
MINHA ÁRVORE DE DINHEIRO
RUTH SZUKALOWSKI
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 47
Por anos desejei ter um jardim. Passava horas
pensando nas coisas diferentes que eu poderia plantar para fazer um bonito
conjunto.
Mas então tivemos Matthew. E Marvin. E os
gêmeos, Alisa e Alan. E então Helen. Cinco filhos. Eu estava muito ocupada com
a educação deles para pensar em cuidar de um jardim.
Tempo e dinheiro eram curtos. Com frequência,
quando meus filhos eram pequenos e um deles queria alguma coisa que custava
muito caro, eu costumava dizer: "Você está vendo alguma árvore de dinheiro
lá fora? Dinheiro não dá em árvores, você sabe." Finalmente, todos os
cinco concluíram o segundo grau e a faculdade e seguiram seus caminhos. Comecei
a pensar novamente em ter um jardim.
Mas não tinha tanta certeza. Quer dizer,
jardins custam realmente caro e, depois de todos esses anos, eu estava
acostumada a viver com um orçamento apertado, sem supérfluos.
Então, numa manhã de primavera, no Dia das
Mães, estava na cozinha quando percebi que os carros buzinavam quando passavam
pela frente da casa. Olhei pela janela e lá estava uma árvore nova plantada bem
no meu jardim. Pensei ser um salgueiro-chorão, porque eu via que havia coisas
penduradas em todos os galhos. Resolvi colocar os óculos - e não pude acreditar
nos meus olhos.
Havia uma árvore de dinheiro no meu jardim!
Fui olhar de perto. Era verdade! Havia notas,
uma centena delas, coladas em toda a árvore. Imagine todas as flores que
poderia comprar com aquele dinheiro! Havia também um bilhete grudado: "Eu
lhe devo oito horas de capina. Com amor, Matthew." Matthew também manteve
sua promessa. Ele preparou um canteiro medindo 3m x 4,5m para mim. E meus
outros filhos me deram de presente ferramentas, enfeites, uma treliça, uma
passadeira de girassol e livros de jardinagem.
Isso aconteceu há três anos. Meu jardim agora
está uma beleza, exatamente como eu queria. Quando vou tirar as ervas daninhas
ou cuidar das flores, não sinto tanta falta de meus filhos como antes. Parece
que eles estão ali comigo.
Moro numa região onde os invernos são longos e
muito frios, enquanto os verões são curtos demais. Mas agora, a cada ano,
quando o inverno chega, olho pela janela e penso nas flores que verei na
próxima primavera no meu pequeno jardim.
Penso no que meus filhos fizeram por mim e fico
com os olhos cheios de lágrimas - todas às vezes. Ainda não tenho certeza de
que dinheiro cresce em árvores. Mas sei que o amor nasce.
Enquanto tentamos ensinar a nossos filhos tudo sobre a
vida,
eles nos mostram que a vida é tudo.
ANGELA SCHWINDT
A FLOR NO CABELO
BETTIE B. YOUNG De
Gifts of the Heart
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 50
Ela sempre usava uma flor no cabelo. Sempre. Eu
achava aquilo meio esquisito. Uma flor ao meio-dia? Para trabalhar? Para
reuniões do escritório? Ela era uma estagiária de design gráfico no grande e
movimentado escritório onde eu trabalhava. Todo dia ela chegava com seu estilo
próprio e ultramoderno, com uma flor no cabelo. Normalmente, a flor combinava
com o resto da roupa e era como se estivesse ali desabrochando, como um
guarda-sol de cor vívida, preso nas ondas castanhas do cabelo. Às vezes, como
na comemoração de Natal da firma, a flor dava um ar de festa e parecia
adequada. Mas, para trabalhar, era estranho. Algumas das mulheres mais
convencionais do escritório se indignavam e achavam que alguém deveria
informá-Ia sobre as "regras", que devem ser "levadas a
sério", no mundo dos negócios. Outras - eu inclusive - pensavam que era só
o jeito dela.
Entre nós, a chamávamos de flower power ou
"a garota da flor".
- A garota da flor já fez o design preliminar
daquele projeto? - alguém perguntava, com um risinho.
- Claro, ficou muito bom. O talento dela
realmente floresceu - seria a resposta debochada. E nós nos divertíamos.
Pensávamos, naquela época, que era apenas uma
brincadeira inocente. Ninguém, que eu saiba, perguntou à moça por que ela usava
sempre uma flor no cabelo. Na verdade, acho que perguntaríamos se aparecesse
sem ela.
O que aconteceu um dia. Quando ela deixou um.
projeto na minha sala, disse casualmente:
- Vi que hoje você não colocou a flor no cabelo.
Estou tão acostumada a vê-la com a flor que me pareceu que está faltando alguma
coisa.
- Ah, é - ela respondeu baixinho, num tom
sombrio, diferente do seu jeito normalmente vivo e alegre. A pausa
significativa que se seguiu pareceu estranha e me fez perguntar:
- Tudo bem com você?
Embora esperasse um "Tudo bem", eu
sabia que havia alguma coisa mais séria do que uma flor faltando.
- Ah - ela disse com uma expressão triste e
serena. - Hoje é aniversário da morte de minha mãe. Eu sinto muita falta dela.
Acho que estou um pouco triste.
- Compreendo - eu disse, com pena, mas sem
querer entrar em conversas sentimentais. - Tenho certeza de que é um assunto
difícil para você - continuei, o meu lado profissional querendo que ela
concordasse, mas meu coração entendendo que havia mais.
- Não, está tudo bem. Sei que estou muito
sensível hoje. É um dia de luto, eu acho. Veja só... - e ela começou a me
contar.
Minha mãe teve um câncer e ficou muito mal. Ela
era amorosa e generosa. Como sabia que ia morrer, ela gravou em vídeo várias
mensagens para eu ver a cada aniversário, dos dezesseis aos vinte e cinco anos.
Hoje é meu vigésimo quinto aniversário e essa manhã eu vi a última fita. Acho
que ainda estou digerindo isso. E querendo que ela estivesse viva.
- Sei como você se sente - eu disse.
- Obrigada por sua delicadeza. Quanto a não ter
colocado a flor... quando eu era menina, minha mãe sempre punha flores no meu
cabelo. Um dia, quando ela estava no hospital, eu levei uma enorme rosa do
jardim de casa. Quando a aproximei dela para que pudesse sentir o perfume, ela
pegou a flor, acariciou meu cabelo, afastando-o do rosto e prendeu a rosa num
grampo, como fazia quando eu era pequena. Ela morreu naquele mesmo dia.
Fiquei com os olhos cheios d'água quando ela
disse:
- Sempre uso uma flor no cabelo, desde então.
Me faz pensar que ela está comigo mesmo em espírito. Mas...
Ela suspirou e continuou:
- Hoje, na fita, ela me dizia que lamentava não
estar aqui para me ver crescer e que esperava ter sido uma boa mãe, mas
gostaria de ter um sinal de que eu estava me tornando autossuficiente. Era como
minha mãe pensava, como ela falava. Ela era tão sábia...
- É, me parece muito sábio - concordei com a
cabeça.
- Então eu pensei que sinal poderia ser. E
imaginei que poderia ser a flor. Vou sentir falta dela, do que representa.
Seus olhos castanhos pareciam perdidos em
lembranças quando ela falou:
- Tive tanta sorte em tê-la como mãe... - Sua
voz foi sumindo até que ela me olhou de novo e riu tristemente. - Mas não acho
que eu tenha de usar uma flor para me lembrar dessas coisas. Sei disso. Era só
um sinal externo das minhas queridas lembranças. Elas ainda estão comigo, mesmo
sem a flor, mas ainda sinto falta dela... Ah, aqui está o projeto. Espero que
você aprove. - Ela me entregou o trabalho, assinado com uma flor desenhada, sua
marca registrada, sob seu nome.
Quando eu era jovem, me lembro de ter ouvido:
"Nunca julgue os outros até passar pela mesma situação." Pensei sobre
todas as vezes em que fui insensível em relação a essa moça com a flor no
cabelo e que triste que, infelizmente, eu tenha feito isso por falta de
informação, sem saber de sua história e da cruz que ela tinha de carregar. Eu
me orgulhava de conhecer detalhadamente cada faceta da minha empresa e sabia o
papel e a função de cada empregado.
Foi terrível o que eu fiz, convicta de que a
vida pessoal da pessoa não tem nada a ver com sua vida profissional, devendo
ser deixada na porta da empresa quando ela vai trabalhar. Naquele dia, eu soube
que a flor que a jovem usava era a expressão do seu amor - uma forma de
permanecer ligada à jovem mãe, que ela perdera ainda menina.
Examinei o projeto que ela apresentara e me
senti feliz em saber que fora desenvolvido por alguém com tanta capacidade de
sentir... de ser. Não me admira que seu trabalho fosse realmente excelente. Ela
vivia com seu coração e me fez revisitar o meu.
O maior presente é um pedaço de você mesmo.
RALPH WALDO EMERSON
UM ANJO DE CHAPÉU VERMELHO
TAMI Fox
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 54
Sentada na lanchonete em frente à clínica, não
queria admitir o meu medo. No dia seguinte eu seria internada para fazer uma
cirurgia na espinha, uma operação de alto risco. Eu tinha perdido meu pai havia
poucas semanas e me sentia desamparada:
Era como se a luz que me guiava tivesse
retomado ao Céu. Mas eu tentava encontrar forças na minha fé.
"Oh, Senhor, nessa época de provações,
mande-me um anjo.
Quando me preparava para sair, vi uma senhora
idosa se dirigindo vagarosamente para o caixa. Fiquei atrás dela, admirando sua
elegância - um lindo vestido xadrez vermelho e preto, um lenço, um broche e um
chapéu vermelho-escarlate.
- Desculpe, senhora, mas não posso deixar de
lhe dizer como é bonita. Vê-la assim tão elegante encheu-me de alegria.
Ela segurou a minha mão e disse:
- Minha doce criança, Deus a abençoe. Eu tenho
um braço artificial, uma placa de metal no outro e esta perna não é minha.
Levo um bom tempo para conseguir me vestir.
Tento me arrumar da melhor maneira possível, mas, à medida que os anos passam,
parece que as pessoas pensam que não tem importância vestir-se bem. Você hoje
fez com que eu me sentisse uma pessoa especial. Que o Senhor possa protegê-la e
abençoá-Ia porque você deve ser um anjinho enviado por Ele.
A senhora se foi sem que eu conseguisse dizer
uma só palavra. Ela tocou a minha alma de tal forma que só podia ser o anjo que
eu pedira.
Se quiser ser amado, ame e seja amável.
BENJAMIN FRANKLIN
O MÁGICO E A MOÇA CEGA
MICHAEL JEFFREYS
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 56
Meu amigo Whit é mágico profissional e foi
contratado por um restaurante para fazer mágicas durante o jantar, distraindo
os clientes. Uma noite ele se aproximou de uma família e, depois de se
apresentar, puxou um baralho e começou seu número. Virando-se para uma moça
sentada à mesa, pediu que ela escolhesse uma carta. O pai da moça lhe disse que
a filha, Wendy, era cega.
Whit disse:
- Tudo bem. Se ela concordar, eu gostaria de
fazer um número com ela.
Virando-se para a moça, meu amigo perguntou:
- Wendy, você gostaria de me ajudar numa
mágica?
Um tanto tímida, ela encolheu os ombros e
respondeu:
- Tudo bem.
Whit se sentou em frente à moça e disse:
- Vou segurar uma carta, Wendy, que será
vermelha ou preta. O que eu quero é que você use seus poderes psíquicos e me
diga de que cor é a carta, vermelha ou preta. Você entendeu?
Wendy concordou com a cabeça. Whit segurou o
rei de paus e perguntou:
- Wendy, esta carta é preta ou vermelha?
Depois de um momento, a moça cega respondeu:
- Preta.
Sua família sorriu. Whit levantou o sete de
copas e disse:
- Esta carta é vermelha ou preta?
- Vermelha - Wendy respondeu.
Então Whit levantou uma terceira carta, o três
de ouros, e perguntou:
- Vermelha ou preta?
- Vermelha! - Wendy disse sem hesitar.
Seus pais riram nervosamente. O mágico levantou
mais três cartas e a moça acertou todas. Incrivelmente, ela acertou as seis
vezes! Sua família não podia acreditar em sua sorte. Na sétima carta, Whit
levantou o cinco de copas e falou:
Wendy, quero que você me diga qual é a carta e
de que naipe ela é... se é de copas, ouros, paus ou espadas.
Depois de um momento, Wendy respondeu,
confiante:
- É o cinco de copas.
Os parentes deixaram escapar um grito. Eles
estavam aturdidos! O pai de Wendy perguntou a Whit se ele estava fazendo algum
tipo de truque ou mágica mesmo. Whit respondeu:
- O senhor terá de perguntar a Wendy.
O pai, então, perguntou à filha:
- Wendy, como você fez isso?
Ela sorriu e disse:
- É mágica!
Whit cumprimentou a família, deu um abraço em
Wendy, deixou seu cartão de visitas e se despediu. Estava claro que ele havia
criado um momento mágico que aquela família jamais esqueceria.
A questão, naturalmente, é como Wendy sabia a
cor das cartas? Já que Whit nunca a havia encontrado até aquele momento no
restaurante, ele não poderia ter lhe dito antes que cartas eram vermelhas e
quais eram pretas. E, já que Wendy era cega, era impossível para ela ver as
cores ou o valor das cartas quando ele as levantou. Como foi, então?
Whit pôde criar seu milagre usando um código
secreto e rapidez de pensamento. No início de sua carreira, ele havia criado um
código para que uma pessoa pudesse passar informações para outra com os pés,
sem usar palavras. Ele nunca tivera a chance de usar o código até aquele
momento no restaurante.
Quando Whit se sentou em frente a Wendy e disse
"Vou segurar uma carta, Wendy, e ela será vermelha ou preta, ele bateu de
leve no pé dela (sob a mesa) uma vez quando disse a palavra "vermelha” e
duas vezes quando disse "preta”.
Para ter' certeza de que ela o havia entendido,
ele repetiu os sinais secretos, dizendo: "O que eu quero é que você use
seus poderes psíquicos e me diga de que cor é a carta, vermelha (um toque) ou
preta (dois toques). Você entendeu?"
Quando Wendy concordou com a cabeça, ele sabia
que ela havia compreendido o código e estava disposta a colaborar com o truque.
Sua família supôs que, quando ele perguntou se ela "havia entendido",
estava se referindo às suas instruções verbais.
Como ele passou para ela a informação sobre o
cinco de copas? Simples. Ele tocou no pé dela cinco vezes para ela saber que
ele tinha um cinco. Quando ele perguntou se a carta era de copas, espadas, paus
ou ouros, ele comunicou o naipe tocando no pé dela ao dizer "copas".
A mágica real desta história é o efeito que
teve em Wendy.
Não só lhe deu a chance de brilhar por uns
momentos e se sentir especial diante da família, mas tornou-a uma estrela em
casa, pois sua família contou a todos os amigos sobre a espantosa experiência
“psíquica”.
Alguns meses depois, Whit recebeu um pacote de
Wendy.
Nele, um baralho em braile, com um bilhete. No
bilhete, ela lhe agradecia por tê-la feito sentir-se tão especial e por ter lhe
permitido "ver", mesmo que por apenas alguns momentos.
Ela disse que ainda não contara à família como
acertara as cartas, apesar de eles continuarem a lhe perguntar. Ela terminava
dizendo que lhe enviava o baralho em braile para ele poder fazer mais mágicas
com pessoas cegas.
NAS RAIAS DA LOUCURA
ERMA BOMBECK
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 60
De vez em quando, algo acontece em nossa vida que
nos leva a reavaliar nossas prioridades. Às vezes é um aniversário traumático
ou um amigo passando por uma crise. Para mim, foi o enterro de um grande amigo
que me deixou vulnerável, confusa e incerta quanto ao meu papel nesta vida.
Eu queria tirar todas as minhas economias do
banco e ir para o Taiti. Queria pôr os pratos de plástico no asfalto e dar
marcha à ré, passando sobre eles. Queria ter aulas de balé. Jogar fora todas as
flores artificiais e substituí-las por uma selva de trepadeiras e folhagens.
Queria tirar todos os tapetes e deixar a poeira se espalhar por onde quisesse.
Nessa mesma noite, refleti sobre a minha vida,
mudei as estratégias e fiz um juramento. Eu não seria como a mulher do Titanic
que, ao subir no bote salva-vidas rumo a um destino incerto, lamentou,
arrependida: "Se eu soubesse que isso iria acontecer, teria pedido mousse
de chocolate de sobremesa." Então, prepare-se, mundo! A Madame Praticidade
vai começar a viver cada dia como se fosse o último.
Lembra-se daquela grande vela em formato de
rosa que juntou poeira na sala de estar e acabou ficando toda mole no verão?
Eu a acendi ontem.
E o vidro do carro, aquele do meu lado, que
tinha urna pequena rachadura e que eu disse que substituiria quando fosse
vender o carro? Bem, já mandei pôr outro no lugar.
Adivinhe quem está vindo para jantar esta
noite? Eva e Jack, com quem me encontrei em dezesseis casamentos e para os
quais eu dizia sempre a mesma coisa:
- Precisamos nos encontrar um dia destes!
E sabe aquela lata de pescado que eu não queria
abrir porque sou a única que come peixe e não conseguia suportar a ideia de
desperdiçar o resto? Adivinhe o que aconteceu com ela!
Enquanto eu lavava as mãos com um sabonete
cor-de-rosa em formato de concha, meu marido disse:
- Pensei que você fosse guardar alguns desses
sabonetes.
Você os molhou e eles não se parecem mais com
uma concha. Olhei para baixo, para a mão cheia de espuma e pensei: ''A concha
só serve para aprisionar a vida, eu queria lhe dar a chance de ser uma outra
coisa."
O DOTE
ROY EXUM
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 62
No distante Pacífico Sul há uma ilha chamada
Nurabandi e, perto dela, uma outra, de nome Kiniwata.
Os nativos dessas ilhas são pessoas maravilhosas,
boas e altivas, mas entre eles existe o antigo costume de se oferecer um dote
para a família de uma moça quando ela é pedida em casamento.
Johnny Lingo vivia na ilha de Nurabandi. Era
elegante e rico, talvez o homem de negócios mais capaz em toda a ilha.
Todos sabiam que, jovem e solteiro, ele poderia
se casar com qualquer das meninas da região.
Mas Johnny só tinha olhos para Sarita, que
morava em Kiniwata, o que intrigava muitas pessoas.
Sarita era uma moça simples, pouco atraente.
Quando andava, seus ombros se curvavam e sua cabeça se abaixava.
Mas Johnny estava apaixonado por Sarita e
combinou de se encontrar com o pai da moça, um homem chamado Sam Karoo, para
pedir sua mão em casamento e combinarem o dote.
O dote era sempre pago em vacas, animais muito
valorizados nas pequenas ilhas do Pacífico. Contava-se que as famílias de
algumas das moças mais bonitas da região recebiam quatro vacas como dote e, em
casos excepcionais, cinco.
Johnny Lingo era o comerciante mais sagaz da
ilha de Nurabandi, e o pai de Sarita era um nada na ilha de Kiniwata.
Sabendo disso, Sam Karoo, preocupado, reuniu a
família na véspera do encontro e, nervosamente, anunciou sua estratégia: ele
pediria a Johnny três vacas, acenando com a possibilidade de receber duas, até
ter certeza de que o noivo daria pelo menos uma.
No dia seguinte, logo no início da reunião,
Johnny olhou firmemente nos olhos de Sam Karoo e disse tranquilamente: - Venho
pedir a mão de Sarita em casamento e gostaria de oferecer oito vacas como dote.
Sam, gaguejando, disse que estava bem assim. O
casamento foi maravilhoso, mas ninguém na ilha conseguiu compreender por que
Johnny dera oito vacas como dote para se casar com Sarita.
Seis meses depois, um visitante americano, o
talentoso escritor Pat McGerr, encontrou-se com Johnny Lingo em sua bela casa
em Nurabandi e perguntou-lhe sobre as oito vacas.
O escritor já estivera na ilha de Kiniwata,
onde soube que os moradores ainda comentavam o fato de o simplório Sam ter
passado Johnny para trás com o dote de oito vacas por Sarita, tão simples e sem
graça.
Mas, em Nurabandi, ninguém ousava rir de Johnny
Lingo, pois ele era muito considerado na ilha. Quando o escritor finalmente
encontrou Johnny, os olhos do recém-casado brilhavam durante a conversa:
- Soube que falam de mim em Kiniwata. Minha
mulher é de lá.
- É, eu sei - disse o escritor.
- Pois me conte, o que dizem? - perguntou
Johnny.
O escritor, tentando usar toda a sua
diplomacia, respondeu:
- Bem, que você se casou com Sarita numa linda
festa.
Johnny pressionou o escritor até que ele
finalmente lhe contou:
- Comentam que você deu oito vacas como dote
por sua mulher e ninguém compreende por que fez isso.
Quando o escritor acabou de dizer essas
palavras, a mulher mais bonita que já vira entrou na sala para colocar flores
sobre a mesa.
Era alta, tinha um lindo porte. O queixo era
reto. E, quando seus olhos cruzaram com os de Johnny, havia uma inegável
faísca.
- Esta é minha mulher, Sarita - disse Johnny,
que agora se divertia com a situação, ao ver o escritor completamente
assombrado. Sarita pediu licença, e então Johnny começou a explicar.
- Você nunca pensou o que deve significar para
uma mulher saber que o marido ofereceu por ela o valor mínimo pelo qual poderia
ser comprada? Depois do casamento, as mulheres falam entre si, se vangloriam de
quanto os maridos deram por elas. Uma diz quatro vacas, outra diz três. Mas
como se sente a mulher pela qual o marido deu apenas uma vaca? - questionou
Johnny. - Eu não deixaria isso acontecer com a minha Sarita. Queria que ela
ficasse contente, sim, mas era mais que isso.
Você diz que ela não se parece com a descrição
que fizeram dela.
É verdade, mas muitas coisas mudam uma mulher.
Acontecem coisas no interior e também no exterior das pessoas, mas o mais
importante é o que cada uma pensa sobre si mesma. Em Kiniwata, Sarita
acreditava que nada valia, mas agora sabe que vale mais que qualquer das
mulheres dessas ilhas.
Johnny Lingo fez uma pausa e acrescentou:
- Eu queria me casar com Sarita desde o início.
Eu a amava, não a qualquer outra. Mas eu também queria ter uma mulher que
valesse oito vacas e, como você pode ver, meu sonho se tornou realidade.
DESPESA ZERO
M. ADAMS
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 66
Uma noite, minha mulher estava na cozinha
preparando o jantar quando nosso filho veio falar com ela e lhe entregou um
papel em que andara escrevendo. A mãe enxugou a mão no avental e leu:
Por cortar a grama 7 reais
Por arrumar meu quarto esta semana 5 reais
Por ir ao mercado com você 1 real
Por tomar conta de meu irmãozinho enquanto você
ia fazer compras 1 real
Por levar o lixo para fora 75 centavos
Por ter boas notas 5 reais
Por limpar o quintal e juntar as folhas caídas
2,5 reais
Total devido 22,25 reais
A mãe ficou olhando para ele, espantada, e -
posso lhe garantir - dava para ver as lembranças passando por sua mente.
Então ela pegou a caneta e escreveu no verso do
mesmo papel:
Pelos nove meses em que eu o carreguei na
barriga, enquanto você crescia dentro de mim. Despesa zero.
Por todas as noites em que eu fiquei acordada,
cuidando de suas febres e rezando por você. Despesa zero.
Por todos os momentos dolorosos e todas as lágrimas
que você me fez derramar nesses anos. Despesa zero.
Por todas as noites cheias de apreensão e pelas
preocupações que eu sabia que viriam. Despesa zero.
Pelos brinquedos, pela comida, pelas roupas e
até por assoar o seu nariz. Despesa zero, meu filho.
Quando você somar tudo isso, verá que o
verdadeiro amor não tem preço, seu custo é zero.
Bem, meus caros, quando o filho acabou de ler o
que a mãe escrevera, seus olhos estavam cheios d'água e ele olhou firme para
ela e disse:
- Mamãe, eu te amo muito.
Aí ele pegou a caneta e escreveu em letras bem
grandes: TOTALMENTE PAGO.
MUDANDO DE IDÉIA
MURIEL J. BUSSMAN
Enviada por Winnie Luttrell
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 68
Quando nossa irmã mais nova nasceu, sessenta
anos atrás, meu irmão tinha seis anos e eu oito. Eu sempre fora a "irmã
grande", e ele sempre fora "o bebê".
A chegada da menininha foi uma surpresa para
nós dois.
Naquela época, não se falava muito sobre
"rivalidade entre irmãos" e nenhum "especialista" nos
ensinou como lidar com uma criança nova em casa. Mas tínhamos avós inteligentes
e amorosos.
Eu estava maravilhada com a neném, gostava de
segurá-Ia no colo e de ajudar minha mãe. Mas os sentimentos de meu irmão eram
diferentes. Ele a olhava rapidamente e saía, preferindo ir para o quarto. Eu o
chamava para brincar, mas ele não queria saber de nada.
- Por que eles tinham de arrumar esse bebê?
Um dia, vovô veio nos visitar e, com nossa
irmãzinha no colo, disse a meu irmão:
- Sabe, ela se parece com o carneirinho que
nasceu lá em casa e que estou alimentando na mamadeira. Tenho de ficar tomando
conta dele e dar de mamar várias vezes ao dia, exatamente como sua mãe faz com
o bebê.
Num sussurro, mas que meu avô pôde ouvir, meu
irmão disse:
Pois eu preferia o carneirinho.
Embora vovô, para mim, parecesse velho (eu
imaginava que ele tinha uns cinqüenta anos), ele podia escutar muito bem.
- Bem - disse vovô -, se você preferia ter um
carneiro, quem sabe podemos fazer uma troca? Eu lhe dou um dia para pensar e,
se você amanhã ainda quiser trocar, fazemos negócio.
Achei ter visto vovô piscar para mamãe, mas
sabia que devia estar errada, pois meu avô nunca piscava para ninguém.
Depois que meu avô saiu, mamãe se ofereceu para
ler uma história para meu irmão. Ele se aninhou na cama, e ela leu para de por
um bom tempo.
Meu irmão não parava de olhar para o bebê e
mamãe pediu-lhe que o segurasse um instante, enquanto apanhava uma fralda.
Quando voltou, meu irmão tinha nossa irmãzinha no colo gentilmente acariciava
seus cabelos negros e macios. Ficou deslumbrado quando ela agarrou o dedo que
ele oferecia.
- Mamãe, veja, ela está segurando minha mão!
- CIaro, ela sabe que você é seu irmão querido
- disse mamãe sorrindo.
Ele ainda ficou com o bebê no colo por alguns
minutos e parecia muito mais contente quando foi dormir. Nosso avô voltou na
noite seguinte, como prometera, e conversou com meu irmão.
- Então, está pronto para trocar a neném por um
carneiro?
Meu irmão pareceu surpreso com o fato de vovô
se lembrar do acordo.
- Ela agora vale dois carneiros.
Vovô fingiu espanto com a quebra do contrato.
Ele disse que tinha de pensar sobre o assunto e que conversariam no dia
seguinte.
Como o dia seguinte era sábado, meu irmão e eu
ficamos em casa, segurando nossa irmãzinha, vendo-a tomar banho, ser colocada
no berço. Meu irmão não a tirava do colo. Pareceu preocupado quando vovô veio
visitar-nos à noite e falou sobre a troca combinada.
- Olhe, andei pensando sobre aquela história de
trocar a neném pelo carneiro e acho que você está jogando duro. Mas acho que
ela pode valer mesmo dois carneiros. Podemos fazer negócio.
Meu irmão hesitou um pouco antes de responder:
- Ela agora está um dia mais velha, acho que já
vale cinco carneiros.
Vovô demonstrou surpresa e balançou lentamente
a cabeça.
- Não sei, não. Vou ter de ir para casa e
pensar sobre a oferta. Talvez tenha de conversar com o gerente do banco.
Quando vovô foi embora, meu irmão parecia
preocupado.
Chamei-o para brincar, mas ele foi para o
quarto de mamãe e ficou segurando nossa irmãzinha um tempão.
No domingo, vovô veio à nossa casa logo depois
do almoço.
Explicou a meu irmão que viera cedo porque
ainda tinha de reunir os cinco carneiros e arrumar o quarto da neném em sua
casa.
Meu irmão respirou Fundo, olhou vovô direto nos
olhos e anunciou:
- Ela vale cinqüenta carneiros agora!
Vovô o olhou incrédulo e balançou a cabeça.
- Acho que não dá para fazer negócio. Não tenho
cinqüenta carneiros para dar por um único bebê. Você vai ter que ficar com sua
irmã e ajudar seus pais a tomarem conta dela.
Meu irmão deu um sorriso que ele não sabe que
eu percebi e, dessa vez, tenho certeza de que vi vovô piscar para mamãe.
O DIA NA PRAIA
ARTHUR GORDON Enviada por Wayne W. Hinckley
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 72
Não faz muito tempo que passei por um daqueles
períodos de desânimo que muitos de nós enfrentam de tempos em tempos, uma queda
súbita no gráfico da vida, quando tudo fica chato e desinteressante, a energia
diminui e o entusiasmo acaba. O efeito que isso teve sobre o meu trabalho foi
assustador. Toda manhã eu cerrava os dentes e murmurava: "Hoje a vida vai
recuperar um pouco do significado que costumava ter antigamente. Você vai
conseguir superar isso. Você vai conseguir." Mas os dias modorrentos se
repetiam e a apatia ficava cada vez maior. Até que chegou o dia em que eu
percebi que precisava de ajuda.
O homem a quem recorri era médico. Não
psiquiatra, só médico. Ele era mais velho do que eu e escondia sob a aparente
rispidez uma grande experiência e sabedoria.
- Não sei o que há de errado - eu disse
desolada -, parece que estou num beco sem saída. Você pode me ajudar?
- Não sei - ele respondeu sem pressa.
Com os dedos formando uma tenda, ele ficou ali
me olhando com um ar pensativo por um longo tempo. Então, abruptamente,
perguntou:
- Em que ocasião você foi mais feliz na
infância?
- Na infância? - repeti. - Bem, na praia, eu
acho. Tínhamos uma casa de veraneio lá. Todos nós a adorávamos.
Ele olhou pela janela e fitou as folhas de
outono que caíam numa ciranda.
- Você poderia seguir algumas instruções por
apenas um dia?
- Acho que sim - disse, disposta a tentar
qualquer coisa.
- Muito bem. Eis o que eu quero que você faça.
Ele me disse para ir à praia sozinha na manhã
seguinte, procurando chegar lá antes das nove horas. Eu poderia comer alguma
coisa, mas não deveria ler, escrever, ouvir rádio ou conversar com quem quer
que fosse.
- Além disso - ele continuou -, darei a você
uma prescrição que terá de seguir de três em três horas.
Ele destacou quatro folhas em branco do bloco
de receitas, escreveu alguma coisa em cada uma delas, dobrou-as, numerou-as e
me entregou as folhas.
- Tome isso às nove, ao meio-dia, às três e às
seis da tarde.
- Está falando sério? - perguntei.
Ele soltou uma risadinha.
- Você não vai achar que estou brincando quando
tiver de pagar a consulta!
Na manhã seguinte fui de carro para a praia,
sem dar muito crédito à coisa toda. Estava sozinha. O nordeste soprava, o mar
parecia cinzento e tempestuoso. Sentei no carro, com o dia todo pela frente,
sem ter muito o que fazer. Então peguei a primeira folha dobrada. Nela estava
escrito: OUÇA ATENTAMENTE.
Fiquei olhando aquelas duas palavras. "Ora
essa”, pensei, "o homem deve estar maluco." Ele tinha proibido
música, noticiários e qualquer conversa. O que mais havia ali para ouvir?
Levantei a cabeça e apurei os ouvidos. Não
havia nenhum som além do rugido das ondas, do grito de uma gaivota, do zumbido
de um avião em algum lugar no céu. Todos esses sons eu já conhecia.
Saí do carro. Uma rajada de vento fez bater à
porta num golpe. É esse tipo de coisa, perguntei a mim mesma, que tenho de
ouvir atentamente?
Escalei uma duna e avistei a praia deserta. Ali
o mar bramia com tal fúria que encobria todos os outros sons. Mesmo assim deve
haver sons por trás de outros sons - o atrito suave da areia levada pela maré,
os sussurros do vento na relva das dunas - se chegarmos perto o suficiente para
ouvi-los.
Impulsivamente me abaixei e, sentindo-me um
tanto ridícula, enfiei a cabeça num emaranhado de algas marinhas. Fiz então uma
descoberta: se ouve atentamente, existe uma &ação de segundo em que tudo
faz uma pausa e fica em suspenso. Nesse instante de quietude, o pensamento
parece parar. A mente sossega.
Voltei para o carro e escorreguei para trás do
volante. OUÇA ATENTAMENTE. Enquanto voltava a ouvir o rugido profundo do mar,
dei por mim pensando na fúria desenfreada de suas tempestades. Então percebi
que eu estava pensando em coisas maiores do que eu mesma - e que isso trazia um
certo alívio.
Ainda assim, a manhã passou devagar. O hábito
de remoer problemas era tão forte que eu me sentia perdida sem ele.
Perto do meio-dia o vento já havia varrido as
nuvens do céu e o mar tinha um brilho sólido, lustroso e aprazível. Desdobrei a
segunda "receita”. E mais uma vez fiquei ali sentada, num misto de espanto
e exasperação. Dessa vez eram três palavras:
TENTE VOLTAR NO TEMPO.
A que tempo? Ao passado, obviamente. Mas para
quê, se todas as minhas preocupações estavam relacionadas ao presente ou ao
futuro?
Saí do carro e comecei a vagar pelas dunas em
reflexão. O médico me mandara ir à praia porque aquele era um lugar que me
trazia boas lembranças. Talvez fossem essas lembranças que eu devesse evocar: a
grande felicidade que eu deixara para trás, meio esquecida.
Decidi trabalhar nessas vagas impressões como
faria um pintor, retocando as cores, avivando os contornos. Eu selecionaria
algumas ocasiões e recapitularia tudo da forma mais detalhada possível. Faria
uma imagem mental completa das pessoas, com suas roupas e gestos. Ouviria
(atentamente) o timbre exato de cada voz, o eco deixado pelas risadas.
A maré estava baixando agora, mas eu ainda
ouvia o estrondo da arrebentação. Então optei por voltar vinte anos no tempo, à
época da minha última pescaria com meu irmão mais novo.
Ele morrera durante a Segunda Guerra, mas eu
descobri que, se fechasse os olhos e fizesse um esforço, eu conseguiria vê-lo
com espantosa nitidez, até mesmo seu estado de espírito e a animação em seus
olhos.
Na verdade, eu conseguia ver tudo: a baía onde
costumávamos pescar, o horizonte borrado com as cores do sol nascente, os
vagalhões se desmanchando em espuma, com imponência e vagar. Eu sentia o
torvelinho cálido das marolas nos joelhos, via o arquear repentino do caniço do
meu irmão quando ele fisgava um peixe, ouvia seu grito exultante. Pedaço por
pedaço, reconstruí a cena, intacta e cristalina sob o verniz transparente do
tempo. Então ela se desvaneceu.
Levantei-me devagar. TENTE VOLTAR NO TEMPO. As
pessoas felizes costumam ser seguras e confiantes. Será que, se tentássemos
voltar no tempo e tocar essa felicidade, não seria possível resgatar um brilho
fugaz de poder, fontes diminutas de força?
Esse segundo período do dia passou mais rápido.
Enquanto o sol iniciava sua longa jornada oblíqua rumo ao horizonte, meus
pensamentos vagavam pelo passado, revivendo alguns episódios, descobrindo
outros que tinham sido completamente esquecidos.
Repassei mentalmente todos aqueles anos,
recordei acontecimentos e percebi, pelo entusiasmo repentino em meu peito, que
nenhuma gentileza é jamais desperdiçada ou esquecida.
Lá pelas três horas a maré já baixara e o som
das ondas era apenas um sussurro ritmado, como a respiração de um gigante.
Demorei-me no meu ninho de areia, sentindo-me
relaxada e satisfeita - e um pouquinho envaidecida também. As prescrições do
médico eram fáceis de seguir.
Mas eu não estava preparada para o que veio
depois. Desta vez as palavras não eram uma amável sugestão. Elas pareciam mais
uma ordem. REAVALIE A SUA MOTIVAÇÃO.
Minha primeira reação foi puramente defensiva.
Não há nada de errado com a minha motivação. Quero ter sucesso na vida - e quem
não quer? Quero conseguir um certo reconhecimento, mas isso todo mundo quer.
Quero ter mais segurança.
E por que não?
Talvez, disse uma vozinha em algum lugar dentro
da minha cabeça, isso não baste. Talvez seja por isso que a engrenagem tenha
começado a parar.
Peguei um punhado de areia e deixei que escorresse
por entre meus dedos. No passado, sempre que meu trabalho ia bem, era porque
havia uma certa espontaneidade, um certo improviso, uma certa liberdade. Mais
tarde acabei ficando calculista, competente e desanimada. Por quê? Porque eu
tinha perdido de vista o trabalho em si e visado apenas as recompensas que ele
supostamente me traria. O trabalho deixara de ser um fim em si mesmo e passara
a ser um meio de ganhar dinheiro, de pagar as contas. O sentimento de dar algo
de si mesmo, de ajudar as pessoas, de fazer uma contribuição, acabara esquecido
em meio à busca frenética por segurança.
Num lampejo de lucidez, vi que, com a motivação
errada, nada pode dar certo. Não importa se você é cabeleireira, vendedora de
seguros, dona-de-casa ou mãe de cinco filhos - ou outra coisa qualquer. Quando
sente que está fazendo algo pelos outros, você trabalha bem. Quando só está
preocupada consigo mesma, seu desempenho nunca é tão bom. Essa é uma lei tão
inexorável quanto a gravidade.
Fiquei sentada ali por muito tempo. Ao longe,
no baixio, eu ouvia o murmúrio das ondas se transformando num rugido abafado, à
medida que a maré subia. Às minhas costas, os raios de sol eram quase
horizontais. Meu tempo na praia se esgotara e eu sentia uma relutante admiração
pelo médico e pelas "prescrições" que, de modo tão improvisado e
habilidoso, ele me aconselhara seguir. Constatei, então, que havia nelas uma
progressão terapêutica que poderia ajudar qualquer um que passasse por
dificuldades.
OUÇA ATENTAMENTE: acalmar uma mente em
turbilhão, imprimir-lhe um ritmo mais lento, mudar o foco de atenção dos
problemas para fatos externos.
TENTE VOLTAR NO TEMPO. Como a mente humana só
consegue se concentrar numa ideia de cada vez, você esquece o presente quando
evoca a felicidade do passado.
REAVALIE A SUA MOTIVAÇÃO: essa era a parte
central do tratamento. Desafiava a pessoa a reconsiderar, a fazer com que sua
motivação entrasse em sintonia com suas capacidades e com sua consciência. Mas
a mente tem de estar lúcida e tranquila para fazer isso - por isso as seis
horas precedentes de silêncio.
O poente era uma chama carmesim quando abri a
última folha de papel. Cinco palavras desta vez. Caminhei vagarosamente pela
praia. Uns poucos metros abaixo da marca da maré alta, eu parei e li novamente:
ESCREVA SEUS PROBLEMAS NA AREIA.
Deixei que o vento levasse o papel, abaixei-me
e peguei um fragmento de concha. Ajoelhada ali, sob a abóbada celeste, escrevi
várias palavras na areia, uma sobre a outra. Então me afastei sem olhar para
trás. Eu inscrevera minhas preocupações na areia. E a maré estava subindo. Em
breve, meus problemas seriam apagados pelas ondas do mar. E só restariam a paz
e o silêncio.
Guarde suas preocupações num bolso furado.
CARTÃO-POSTAL ANTIGO
O AMOR SÃO AS AVÓS
ERMA BOMBECK Apresentada por Tonette Holle
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 80
Uma criança pequena, que mora na minha rua,
estava curiosa sobre avós e isso me fez pensar que, para uma criança, elas são
uma espécie de aparição inexplicada, sem descrição de tarefas e com poucas
credenciais. Parecem apenas fazer parte do cenário.
Esta história, então, é para os pequenos que
querem saber o que são as avós.
Você sempre pode contar com uma avó para
comprar todos os seus doces, sementes de flores, os cartões mais bonitos da
papelaria, fita adesiva de bichinhos, estojo novo, amendoim torradinho e dez
tíquetes para andar de pônei. (Também uma caixa de bala puxa-puxa, se sua avó
ainda tem dentes fortes.) Avós ajudam você a lavar a louça, quando é a sua vez.
Assistem por três horas a uma comédia grega se
o neto está atuando e ficam imaginando como é que Aristófanes teve tempo de
escrever peças se ele era casado com Jackie Onassis.
São as únicas babás que não cobram extra depois
da meia-noite - ou melhor, que nunca cobram nada nem antes, nem depois da
meia-noite.
Avós compram os presentes que sua mãe diz que
você não precisa.
Chegam três horas mais cedo para o seu batismo,
a sua formatura e seu casamento porque querem se sentar num lugar de onde
possam ver tudo.
Fingem que não o reconhecem sob a fantasia da
festa de Halloween.
Avós o adoram quando você é um bebê careca,
mesmo quando se torna um pai careca e também o adoram com todo o cabelo entre
essas duas fases.
Uma avó vai colocar um suéter em você quando
ela estiver com frio, alimentá-Io quando ela está com fome e colocá-Io na cama
quando ela estiver cansada.
Vai morrer de orgulho ao vê-la nas
apresentações de balé, não importa que você esteja lá no fundo do palco, atrás
de outras trinta garotas.
Avós vão emoldurar o desenho que você fez da
própria mão e colocá-Io num lugar de destaque na sua sala de visitas estilo
mediterrâneo.
As avós são aquelas que põem um dinheiro
escondido na sua mão um pouco antes do Dia das Mães.
Que ajudam você com seus botões, zíperes e
laços de sapato e que não têm nenhuma pressa em ver você crescer.
Quando ainda é um bebê, as avós vão ver se você
está chorando exatamente quando está no maior sono.
Quando um neto diz: "Vovó, como é que pode
você não ter nenhum filho?", ela segura a vontade de chorar.
A BEIRA DO PENHASCO
KATHLEEN LOUISE SMILEY
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 83
Na noite anterior à minha partida para Israel,
meu pai e eu tivemos o mesmo tipo de conversa que durara toda a semana.
- Mas por que Israel? - ele perguntara no mesmo
tom usado para "Por que China?" ou "Por que Rússia?" ou
qualquer outro país que eu anunciava que ia visitar.
- Está acontecendo uma guerra lá, você sabe –
ele acrescentara.
- Eu sei, papai. Há guerras em todo lugar.
Por que eu insistia em ir a lugares tão
perigosos?, ele perguntou antes de dizer as palavras de sempre:
- Bem, você nunca me deu ouvidos antes. Por que
eu vou achar que vai me ouvir agora? - Como era de seu feitio, fechou os olhos,
soltou um suspiro e balançou a cabeça.
No meio dessas "discussões", minha
irmã sempre procurava desanuviar o ambiente. Embora ela já soubesse que não
adiantava nada, bem que tentava.
- Kath - sugeriu -, por que você não faz um
curso de férias na Inglaterra? Lá não é perigoso.
Como sempre, ela não conseguia entender.
Ninguém na família jamais me compreendeu
realmente.
Nunca consegui viver de acordo com as ideias
que eles tinham quanto à forma de eu levar a vida. A Inglaterra não era
divertida na medida certa. Eu queria ir a outro lugar e experimentar alguma
coisa diferente. Minha alma sempre fora inquieta e queria se aventurar em
lugares desconhecidos. Mamãe dizia que eu tinha sangue cigano.
Minha irmã e eu temos três anos e meio de
diferença, mas todo um mundo nos separa no que se refere ao modo como vivemos.
Ela é conservadora e calma. Eu me arrisco muito, e a única hora em que estou
calma é quando estou dormindo. Passei a maior parte da minha vida adulta me
desculpando com ela e com o resto da família por ser diferente, por causar-lhes
embaraço por alguma roupa que vestia, algo que fazia ou falava.
Sou aquela que usa um chapéu enfeitado de
frutas ou uma roupa toda colorida quando todo mundo está de preto básico.
A que conta uma piada inadequada no meio do
jantar. A que chora assistindo a um lacrimejante filme antigo. Como ficam
embaraçados! Alguém uma vez me disse que não invejava minha tarefa de despertar
emoções em toda a família.
Como minha irmã é totalmente diferente de mim -
ou como eu sou tão diferente dela -, não somos muito chegadas.
Quanto mais velhas e mais ocupadas, menos nos
vemos, embora moremos perto uma da outra. Quando estamos juntas, sinto que ela
fica segurando a respiração, esperando que eu faça ou diga alguma coisa
"errada”, enquanto eu caminho em ovos e rezo para que isso não aconteça.
Mas sempre acontece.
Já que minha irmã parecia a menos aborrecida
com meus planos de verão, humildemente perguntei se ela poderia me levar ao
aeroporto.
- Tudo bem, mas não conte a papai! - sorri e
concordei.
Não é que nosso pai seja algum tirano. Sabemos
que ele nos ama bastante. Isso fica claro por todos os sacrifícios que fez por
nós. Eu não teria cursado Direito se não fosse por ele. Na verdade, ele só fica
preocupado e custa-lhe muito separar sua preocupação do seu amor.
Na ida para o aeroporto, no dia seguinte, minha
irmã estava calada como sempre. Mas, pela primeira vez desde que eu decidira
viajar, começou a fazer perguntas: por onde planejara passar, onde ia ficar.
Parecia sinceramente interessada.
Minha família não é de despedidas emocionadas.
Então, com um "divirta-se" e um rápido "amo você também",
minha irmã foi embora. Fiquei triste porque senti que ela não conseguia me
entender. Queria que, naquele momento, ela fosse comigo, mas sabia que não
faria isso.
Despachei a bagagem, sentei e comecei a me
organizar. Abri a bolsa que minha irmã arrumara antes de sairmos. Ali, com o
passaporte, os cheques de viagem e outros papéis importantes, estava um pequeno
envelope branco escrito com a caligrafia de minha irmã. Abri o envelope e achei
um cartão de boa viagem. Era um cartão engraçado, com um desenho na frente.
Minha família sempre gostou de dar cartões divertidos e este não era diferente
- ou eu pensava que não era.
Quando abri o cartão, entendi que minha irmã,
que eu já decidira que não conseguia me compreender, realmente entendera tudo.
Parecia que existia uma pequena parte dela que queria ser eu, talvez uma
pequena parte dela que sempre quis que ela fosse eu. No cartão, apenas as
palavras que minha irmã escrevera:
Eu realmente admiro você por levar sua vida de
maneira tão plena.
Sua irmã, Kristy.
E do outro lado estava escrito:
ApoIo estava no alto do penhasco: "Venham
para a beira”, ele disse.
"Não podemos", eles disseram, "é
muito alto." "Venham para a beira." "Não podemos",
responderam, "é muito alto." "Venham para abeira", ApoIo
insistiu.
"Não podemos, vamos cair."
"Venham para a beira”, ele disse.
Eles vieram e ele os empurrou.
E eles voaram.
Minha irmã, por um breve instante, me mostrou
um lado muito precioso dela mesma, escondido até aquele dia.
Ou talvez eu nunca tivesse prestado bastante
atenção. Com as lágrimas escorrendo, virei-me e olhei pelo vidro. No terminal,
minha irmã sorria e acenava para mim. Pude ver seus lábios dizendo "Eu te
amo". Sorri de volta, porque, pela primeira vez, eu sabia que ela me amava
de verdade.
MAIS BONITAS DO QUE SARDAS
SUE MONK KIDD
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 88
Aconteceu num dia em que estava com minha filha
no zoológico. Vi uma avó com uma garotinha cujo rosto era todo salpicado de
sardas vermelhas e brilhantes. As crianças estavam esperando numa fila para que
um artista pintasse suas faces com patinhas de tigre.
- Você tem tantas sardas que ele não vai ter
onde pintar um menino gritou na fila. Sem graça, a menininha abaixou a cabeça.
A avó ajoelhou-se perto dela e disse:
- Adoro suas sardas.
- Mas eu detesto - ela replicou.
- Quando eu era menina, sempre quis ter sardas
- disse a senhora, passando o dedo pela face da neta. - Sardas são tão bonitas!
A menina levantou o rosto:
- São mesmo?
- Claro - disse a avó. - Quer ver? Me diga uma
coisa mais bonita que sardas.
A garotinha, olhando para o rosto sorridente da
senhora, respondeu suavemente:
- Rugas.
Aquele momento me ensinou para sempre que, se
olharmos para os outros com os olhos do amor, não veremos o que possam ter de
feio. Apenas o que têm de bonito.
As rugas deviam indicar apenas onde os sorrisos estiveram.
MARK TWAIN
ROMANCE AOS 75 ANOS
LILLIAN DARR
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 90
Ali estava ele, alto e bonito nos seus setenta
e um anos. Ali estava eu, com quase setenta, quando sua figura atingiu em cheio
meu coração.
Esperávamos na antessala do mesmo médico.
Folheávamos revistas, sentados perto um do outro. Mas tenho certeza de que eu
não conseguia prestar a mínima atenção no que estava lendo...
Uma hora depois, surpreendi-me ao vê-la no
balcão da farmácia enquanto eu falava com o atendente.
- Temos de parar de nos encontrar assim - eu
disse. Ele respondeu gentilmente, mas percebi que nem havia me notado no
consultório.
Seu nome era Bill. Este estranho que tanto me
atraíra era o pai da professora de minha neta no jardim-de-infância. Seu
próprio neto era da mesma turma e, curiosamente, as crianças se adoravam.
Cada um de nós se mudara para Iowa para ficar
perto dos filhos c netos. Tínhamos deixado histórias de romances infelizes trás
e, de certa forma, estávamos recomeçando.
Quanto mais eu conhecia esse homem, mais ficava
impressionada. Ele se preocupara em construir sua casa respeitando o meio
ambiente. Era um artista e professor de história da arte.
Pacifista, tinha recusado se alistar na época
da guerra. Cada vez mais eu me dava conta de como nossos valores coincidiam.
Um dia, Bill me telefonou para se desculpar por
não ter me acompanhado até a porta na véspera. Eu lhe garanti que, sendo uma
mulher liberada, não precisava daqueles mimos.
O que quero dizer é que, se a tivesse
acompanhado, eu poderia ter-lhe dado um beijo de boa-noite - ele respondeu.
Dizem que tudo tem hora certa para acontecer. E
tem mesmo. Eu dividia temporariamente um quarto apertado na casa de meu filho,
planejando me mudar para um quarto alugado.
Bill e eu estávamos, digamos, namorando há
apenas alguns dias quando ele disse:
- Seria divertido planejar nosso jardim juntos.
Isso significava que nossas vidas estavam se entrelaçando
e nada poderia me deixar mais feliz. Logo, de forma doce e sensível, Bill
sugeriu que nos casássemos para proteger-me de falatórios em nossa pequena
comunidade. Eu disse que não me importava com as aparências. Depois de algumas
semanas, surpreendi-me, um dia, sentada em seu colo. Ele me olhou e disse
calmamente:
- Seria divertido planejarmos juntos o nosso
casamento. Eu não sabia que meu coração era capaz de bater daquela maneira.
Como eu poderia dizer não?
Organizamos um casamento elegante e refinado,
numa lua cheia de junho. Tantas pessoas demonstraram vontade de comparecer à
cerimônia que pusemos um anúncio no jornal local, em que nossos quatro netos
convidavam para o casamento dos avós.
No altar, eu disse as palavras que me vinham do
coração:
- Tudo em minha vida me preparou para este
momento mágico.
Tenho a certeza de que nada foi em vão. Bill e
eu nos unimos num período da vida em que cada um já tinha passado por muitas
vivências, momentos de dor e também de alegria. Finalmente chegamos a um
estágio de paz interior, autossuficiência e amor-próprio.
Quando penso na nossa história, lembro-me da
seguinte passagem:
Devo conquistar minha solidão por mim mesmo.
Devo estar bem comigo mesmo ou nada terei para
oferecer.
Duas metades não têm escolha a não ser se
unirem e, sim, com certeza, elas formarão um inteiro.
Mas dois inteiros quando combinam...
É a beleza. É o amor.
As melhores e mais belas coisas da vida não podem ser
vistas nem tocadas.
Precisam ser sentidas com o coração.
HELEN KELLER
QUE LINDO DIA, NÃO É?
ADAPTADO POR BARBARA JOHNSON
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 93
O dia já começou errado. Ela perdeu a hora, estava
atrasada para o trabalho. Tudo que aconteceu no escritório contribuiu para
deixá-la ainda mais nervosa. Quando chegou ao ponto de ônibus de volta para
casa, o estômago era um grande nó.
Como sempre, o ônibus estava atrasado - e
cheio. Teve de ficar em pé no corredor. O veículo chacoalhava e ela mal
conseguia se equilibrar, ficando ainda mais desanimada.
Até que ela ouviu uma voz que vinha da parte da
frente do ônibus. Por causa do monte de gente, não podia ver o homem, mas podia
ouví-Io comentar o cenário de primavera, chamando atenção para cada ponto de
referência que se aproximava. Esta igreja. Aquele parque. O cemitério. O corpo
de bombeiros. Logo todos os passageiros estavam olhando pelas janelas. O
entusiasmo do homem era tão contagiante que ela sorriu pela primeira vez
naquele dia.
O ônibus chegou ao ponto em que ela deveria
saltar.
Tentando chegar à porta, deu uma olhada no
guia: um senhor mais velho, de barba, usando óculos escuros e carregando uma
bengala fina e branca.
Pior que não ver é não ter visão.
HELEN KELLER
NOSSO MENINO DO NATAL
SHIRLEY BARKSDALE
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 95
Sendo filha única, o Natal era calmo demais na
minha casa.
Imaginei um dia me casar, ter seis filhos e um
Natal cheio de energia e amor.
Encontrei o homem que tinha o mesmo sonho, mas
não considerávamos a possibilidade da infertilidade. Sem hesitar, entramos numa
fila de adoção e, dentro de um ano, ele chegou.
Nós o chamamos nosso Menino do Natal porque o
recebemos durante o período de festas, apenas com seis dias de vida. Então a
natureza nos surpreendeu mais uma vez. Numa rápida sucessão, acrescentamos dois
filhos biológicos à família. Não eram exatamente tantos como esperávamos, mas,
comparando com a minha infância, três crianças já formavam uma multidão
inteiramente satisfatória.
À medida que crescia, nosso Menino do Natal foi
deixando claro que escolher e decorar a árvore de Natal era sua tarefa. Ele se
antecipava e fazia sua lista de presentes antes de terminarmos de comer o peru
da festa de Ação de Graças. Ele nos fazia entoar cânticos, nossas vozes
terríveis contrastando com o seu diapasão perfeito. A cada Natal ele nos
enlouquecia, levando-nos a um caos de pura felicidade.
Nossos amigos têm razão ao dizer que crianças
adotadas não são iguais às outras. Através de sua hereditariedade, nosso menino
alegrou nossas vidas com sua disposição incontida, sua evidente sagacidade. Ele
fazia com que nos comportássemos melhor do que éramos.
Mas, no seu vigésimo sexto Natal, ele partiu
tão inesperadamente quanto chegou. Morreu num acidente de carro numa rua de
Dênver cheia de gelo, quando voltava para casa, onde o esperavam a mulher e a
filha pequena. Mas antes estivera em nossa casa para decorar a árvore, ritual
que nunca abandonara.
Abalados pelo luto, meu marido e eu vendemos a
casa cheia de lembranças. Mudamos para a Califórnia, deixando para trás nossos
amigos e nossa congregação.
Nos dezessete anos seguintes, sua mulher se
casou novamente e sua filha terminou o colégio. Meu marido e eu envelhecemos e
nos aposentamos e, em dezembro de 1986, decidimos voltar a Denver.
Chegamos à cidade junto com uma tempestade de
neve, as luzes da cidade iluminando a escuridão. Olhei para as montanhas onde
nosso filho costumava ir na época do Natal para buscar a árvore perfeita.
Estava enterrado ali, mas eu não conseguia visitar seu túmulo.
Fomos para uma casa pequena, muito diferente
daquela onde tínhamos vivido. Era silenciosa, como a da minha infância. Nosso
outro filho se casara, morava em outro estado e tinha agora suas próprias
tradições natalinas. Nossa filha, uma artista, parecia preenchida pela
carreira.
Um dia, olhava para as montanhas cobertas de
neve quando ouvi um carro chegando e a insistente campainha da porta.
Lá estava nossa neta e, nos seus olhos verdes e
no sorriso atrevido, vi o reflexo do nosso Menino do Natal.
Atrás dela, puxando um enorme pinheiro, a mãe,
o padrasto e o meio-irmão de dez anos. Passaram por nós com uma lufada de
risos, abriram uma garrafa de vinho e brindaram à nossa volta. Decoraram a
árvore e empilharam lindos embrulhos de presentes sob os galhos.
- Você reconhece os enfeites? - perguntou minha
ex-nora.
Eram dele; guardei-os para você.
Quando murmurei, numa dolorosa lembrança, que
há dezessete anos não tínhamos uma árvore, nossa atrevida neta disse:
Então está na hora de mudar isso.
Saíram num turbilhão, empurrando um ao outro
pela porta, mas pedindo-nos que fôssemos com eles à igreja na manhã seguinte e
nos convidando para a ceia de Natal.
- Não, não podemos - comecei a falar.
- Claro que podem - ordenou nossa neta, mandona
como o pai. - Vou cantar um solo e quero que estejam lá.
Há muito tempo havíamos desistido de assistir
às emocionantes cerimônias de Natal, mas agora, sob pressão, estávamos firmes
no banco da frente, segurando as lágrimas.
Chegou a hora do solo. A linda voz de soprano
de nossa neta elevou-se, fervorosa e verdadeira, em perfeito diapasão. Ela
cantou Noite Feliz, que trouxe amargas lembranças. Numa resposta emocional e
rara, a congregação aplaudiu com prazer.
Como seu pai gostaria de viver este momento!
Fomos avisados de que haveria "um monte de
gente" na ceia - mas não esperávamos trinta e cinco! Os parentes enchiam a
casa.
Crianças pequenas, barulhentas e agitadas,
pareciam saltar das paredes. Eu não identificava quem era filho de quem, mas
isso não tinha importância. Eles nos deixaram à vontade e nos incluíram no
sentimento de alegre companheirismo. Entoávamos cânticos em voz alta e fora do
tom, salvos apenas pela aturdida soprano.
Um pouco depois do jantar ocorreu-me que uma
família de verdade nem sempre é formada apenas pelo mesmo sangue e carne. O que
importa é o que vem do coração. Se não fosse por nosso filho adotado, não
estaríamos agora rodeados por estranhos que se importavam conosco.
Mais tarde, nossa neta pediu que saíssemos com
ela.
- Eu dirijo - ela disse. - Há um lugar aonde
gosto de ir. Ela pulou ao volante do carro e, com a confiança de quem acabara
de tirar a carteira, foi em direção às montanhas. Ao lado da lápide havia uma
pedra em formato de coração, meio quebrada, pintada por nossa filha artista. Na
superfície desgastada ela escrevera: ''Ao meu irmão, com amor." Em cima do
túmulo, uma guirlanda de Natal. Nosso outro filho, soubemos, envia uma todos os
anos.
Em meio a um silêncio reconfortante, apesar do
frio, não esperávamos a atitude imprevista de nossa neta. Mais uma vez naquele
dia ela soltou a voz, bela como a de seu pai, e, ali nas montanhas, cantou Joy
to the World, que o eco repetiu diversas vezes.
Quando a última nota se ouviu, eu senti, pela
primeira vez desde a morte de nosso filho, um sentimento de paz, da
continuidade positiva da vida, de renovada fé e esperança. O real significado
do Natal nos havia sido devolvido. Aleluia!
SEMPRE AO MEU LADO
SUZANNE THOMAS LAWLOR
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 100
Mamãe e eu saímos da mesma fôrma. O mesmo
cabelo liso e escuro, os mesmos olhos míopes e o mesmo tipo de corpo.
Minha mãe era o meu porto seguro. Apesar de
todo o preparo e estudo, eu era tímida e insegura. Ela estava sempre a meu
lado, me apoiando, me dando força. Era professora de estudos sociais na escola
onde eu cursava o segundo grau e todos os meus amigos a conheciam e gostavam
dela.
Eu tinha dezesseis anos quando um simples
resfriado se transformou numa pneumonia que levou minha mãe em uma semana.
De repente, meu mundo desmoronou. As portas
pareciam se fechar e eu me via no meio de um túnel escuro. Pensava em todas as
perguntas que gostaria de ter feito à minha mãe - desde coisas maiores sobre
sua vida e o que ia no seu coração até questões mais simples, como a receita
dos doces do Natal ou a medida de açúcar de sua famosa torta de limão e
merengue.
Minha mãe nunca mais estaria a meu lado. Eu me
sentia profundamente triste, sozinha e desamparada.
A partir daí, eu, antes aberta e idealista, me
transformei em uma garota amarga e sarcástica, como se meu coração tivesse uma
couraça de tristeza e culpa. Eu me torturava pensando no que poderia ter feito
ou dito para manifestar meu amor nas vezes em que a percebi triste e não dei
atenção, em alguma palavra áspera que lhe dissera. Era tarde demais.
Quando estava no segundo ano da faculdade,
aprendi a fazer meditação e, aos poucos, comecei a sair da armadura que usava
para me proteger. Sentada, olhos fechados, eu sentia aflorarem as lágrimas
purificadoras que me restauravam.
Uma manhã, durante a meditação, as lembranças
tristes e geradoras de culpa voltaram a me assaltar. Lembrei-me então de uma
história que minha mãe me contara sobre meu avô, acometido por um câncer de
garganta quando ela só tinha oito anos. Pouco antes de morrer, ele lhe dissera:
- Evelyn, lembre-se disso: se alguma coisa me
acontecer e você realmente precisar de mim, me chame. Estarei por perto para
ajudar.
Minha mãe me contou que, na época da faculdade,
ela se apaixonara por um rapaz que lhe partiu o coração. Ela se sentiu tão
triste que, dentro dela, chamou pelo pai.
- De repente eu senti que ele estava ali, no
meu quarto.
Senti todo o seu amor e soube que tudo ficaria
bem.
Achei que valia a pena tentar. Então, chamei
minha mãe em pensamento. "Me desculpe", repeti várias vezes,
soluçando.
Alguma coisa mudou naquele momento. Foi como se
colocassem sobre meus ombros um manto de paz. No meu coração, ouvi minha mãe
dizer: "Agora eu posso compreender tudo. Não há do que se desculpar.
Acredite no meu amor." Eu me livrei do peso que carregara por tantos anos.
Senti, naquele momento, uma espécie de liberdade inebriante.
Alguns anos depois, na véspera de meu casamento
com Tony, meu marido querido, senti falta de minha mãe como jamais sentira.
Gostaria que ela dividisse comigo aquele momento. Precisava de sua sabedoria e
queria sua bênção. Mais uma vez chamei por ela.
Logo depois da cerimônia, uma amiga da família
de meu noivo me chamou à parte:
- O nome Forshay diz alguma coisa para você? -
perguntou.
- Claro - respondi. - É o nome de solteira de
minha mãe.
Por quê?
Ela falou pausadamente:
- Durante a cerimônia, aconteceu uma coisa
extraordinária.
Eu pude ver você e Tony envolvidos por um
espírito de muita luz que transmitia um grande amor a vocês. Foi tão bonito que
não pude me conter e comecei a chorar. Ouvi então um nome sussurrado no meu
ouvido: Forshay.
Eu não conseguia dar uma só palavra. Ela
continuou:
- E o espírito trouxe uma mensagem para você.
Quer que você saiba que sempre será amada, que nunca deve duvidar disso. E que
esse amor chegará a você através dos seus amigos.
Nesse momento eu entendi profundamente que o
amor sobrevive à morte. A partir desse dia, às vezes percebo alguma coisa nos
olhos de um amigo ou de alguém de quem gosto - ou mesmo nos meus próprios
olhos, no espelho, e sei que minha mãe está ao meu lado me amando com carinho.
HISTÓRIA E QUÍMICA
E. LYNNE WRIGHT
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 104
No outro dia estava no cabeleireiro e ouvi
algumas mulheres se queixando porque não havia mais em seus casamentos o
romance, as centelhas e a animação dos primeiros anos. Não havia mais
arrebatamento, elas diziam, nem emoção.
- A vida é assim - uma delas falou. - É
inevitável. O tempo passa. As coisas mudam.
- Queria ter aquela química de volta - uma
outra disse, suspirando. - Tenho inveja dos jovens apaixonados. Violinos e
fogos de artifício.
Lembrei os primeiros tempos do meu próprio e
especial romance, quando eu mais flutuava do que andava. Nunca tinha fome e
muitas vezes me esquecia de comer. Meu cabelo brilhava, minha pela era lisinha
e eu era educada, simpática e estava sempre bem-humorada. Quando meu amor e eu
estávamos longe um do outro, eu passava cada minuto pensando nele. Ficava
infeliz até nos vermos novamente, às vezes um espaço de duas ou três horas. A
vida era composta de maraviIhosos sobressaltos, um atrás do outro: quando será
que o telefone iria tocar, será que ele apareceria de surpresa na minha casa ou
quando as nossas mãos iriam esbarrar por acaso.
Agora, este é o mesmo homem que, hoje, só se
lembra do nosso aniversário de casamento de cinco em cinco anos, que
dificilmente fecha a porta ou a gaveta do armário da cozinha que acabou de
abrir, que resiste a comprar roupas novas até que eu, às escondidas, me livre
de algumas coisas do armário para preservar a dignidade da família.
Eu não diria que ele é previsível, mas ele
pergunta "O que você fez para o almoço?" seis dias na semana, depois
de termos concordado, desde sua aposentadoria, que cada um cuidaria da própria
comida na hora do almoço. Há pouco tempo ele me perguntou "O que você quer
de presente de aniversário?" tantas vezes que, finalmente, pressionada, eu
disse o que queria. Ele me deu outra coisa.
Ele só gosta de filmes ou programas de tevê se
neles há perseguições de carros, explosões ou tiroteios a cada sete minutos e,
naturalmente, sempre num volume de estourar os tímpanos. Ele considera que é
seu direito, por ter nascido homem, comandar o controle remoto da televisão. É
incapaz de falar em voz baixa ou fechar a porta da frente sem fazer estremecer
a casa.
Mas... este é também o homem que, quando eu
decido fazer dieta, diz: "Por quê? Para mim, você está bem." Que se
levanta numa noite fria para apanhar mais um cobertor porque sabe que estou com
frio. Que me deu um colar maravilhoso pelo meu mencionado aniversário depois de
eu ter pedido um agasalho para velejar, me dizendo que eu mesma devia comprar
aquele outro negócio.
Ele tem mais dignidade no dedo mindinho do que qualquer
outra pessoa que eu conheço tem no corpo inteiro. Há pouco tempo, contou com
orgulho aos meus parentes que eu me ocupei das despesas quando ele estava no
início de carreira e o dinheiro era curto - isso trinta e quatro anos depois do
acontecido. É um homem que, apesar de sua frugalidade causada pelas épocas de
vacas magras, empresta grandes quantias a nossos filhos adultos sem hesitar,
sem prazo e sem cobrar juros. Pode-se sempre contar com ele numa crise - calmo,
racional, forte, justo e amoroso.
Durante todos esses anos, ele esteve ao meu
lado, me abraçando e apoiando: quando minha mãe morreu, durante os partos dos
nossos filhos e quando eu fiquei doente de cama. Meu marido tomou conta do meu
coração desde a primeira vez que o vi.
Outro dia fiquei me lembrando das mulheres no
cabeleireiro enquanto esperava no carro por ele, que tinha ido do outro lado da
rua dar um recado. O que vi na calçada foi um homem magro, bem-apessoado e
forte. Sua cabeça estava abaixada e ele caminhava, com as mãos no bolso,
assobiando.
Muito atraente. Ele levantou a cabeça e sorriu.
Zing!
O pai de meus filhos. O outro nome no meu talão
de cheques. O homem por quem me apaixonei.
História e química. Não há nada melhor.
O DIA EM QUE EU CHOREI
MEG HILL
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 107
Eu não chorei quando o médico disse para mim e
para o meu marido que Kristi, nossa filha de dois anos, tinha - como
suspeitávamos - uma deficiência mental.
-Vamos, chore - aconselhou gentilmente o
médico. - Chorar ajuda a prevenir dificuldades emocionais sérias.
Apesar da imensa dor que eu sentia, não
consegui chorar naquele momento, nem durante os muitos meses que se seguiam.
Quando Kristi já tinha idade para ir à escola,
nós a matriculamos no jardim-de-infância do colégio do nosso bairro. Ela estava
com sete anos.
Eu achei que fosse chorar no dia em que a
deixei naquela sala cheia de crianças de cinco anos. Fiquei na escola, vendo
Kristi passar horas e horas brincando sozinha, uma criança
"diferente" no meio de outras vinte. Senti um aperto enorme no coração,
mas nenhuma lágrima saiu de meus olhos.
Com o passar do tempo, coisas positivas
começaram a acontecer com Kristi e seus colegas de classe. Quando se
vangloriavam de suas proezas, os colegas de Kristi sempre tinham o cuidado de
elogiá-la: "Kristi escreveu todas as palavras certas hoje." Ninguém
acrescentava que os exercícios dela eram mais fáceis do que os dos outros. Os
avanços de Kristi eram registrados com alegria pela turma.
Foi no segundo ano de Kristi na escola que ela
enfrentou sua experiência mais desafiante. O grande evento do final do ano era
uma competição, o ponto culminante das atividades de educação física. Kristi
estava muito atrás da turma em coordenação motora. Meu marido e eu temíamos
aquele dia.
No dia do evento, Kristi fingiu que estava
doente. Eu fiquei extremamente dividida, tentada por um lado a deixá-Ia em
casa, mas também consciente de que seria importante para ela vencer o medo. Com
um nó na garganta, levei uma Kristi pálida e relutante até o ônibus da escola e
me preparei para assistir à competição.
Sentada no meio dos outros pais, sentia meu
coração bater forte. Quando chegou a vez de Kristi, eu entendi o que a
preocupava. Sua classe estava dividida em times de revezamento.
Com suas reações desengonçadas, hesitantes e
lentas, ela com certeza iria prejudicar o seu time.
No entanto, a apresentação foi correndo bem, até
a hora da corrida de sacos. Cada criança tinha que entrar em um saco na linha
de partida, pular até a linha de chegada, fazer o caminho de volta sem sair do
saco.
Observei minha filhinha de pé, perto do fim da
sua fila de companheiros, com uma aparência assustada.
Mas, quando se aproximou o momento de Kristi
participar da corrida, ocorreu uma troca de lugares em seu time. O menino mais
alto da fila foi para trás de Kristi e segurou-a pela cintura. Dois outros
meninos ficaram um pouco à frente dela.
Quando chegou a vez de Kristi, aqueles dois
meninos pegaram o saco vazio e o abriram. O menino mais alto suspendeu Kristi e
a colocou suavemente dentro do saco. Uma menina à frente de nossa filha pegou-a
pela mão e a sustentou brevemente, enquanto Kristi recuperava o equilíbrio. E
então lá foi ela, pulando, sorridente e orgulhosa.
Em meio às aclamações dos professores, colegas
e pais de alunos, eu me afastei lentamente, agradecendo a Deus por aquelas
pessoas calorosas e compreensivas que tinham tornado possível para a minha
filha deficiente agir como seus semelhantes.
E então, finalmente, eu chorei.
PERSEVERANÇA
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 110
Quando
o mundo inteiro escurece
E
nada se pode enxergar,
Quando
pairam tantas sombras,
Senhor,
que eu possa perseverar.
Quando
tudo já foi tentado,
Todo
caminho explorado,
Faça-me
apenas lembrar
Que
às vezes o percurso é lento
E
é preciso ir mais devagar.
Que
no caminho a percorrer
Talvez
seja este o momento
De
parar e repousar,
De
tentar compreender
E
com meu Deus conversar.
Ganho
forças, prossigo, quero,
Sem
duvidar nem temer,
Sei
sem ter como saber,
Que
tudo vai se acertar.
E,
por isso, eu persevero.
ANNE STORTZ
A LISTA
AGNES MOENCH
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 112
Muitas vezes minha amiga June dizia: "Se
eu ficar rica, vou me mudar para um apartamento maior e comprar um guarda-roupa
inteiramente novo." Eu ouvia e pensava: "Vai sonhando, minha amiga.
Suas chances de ficar rica são tantas quanto as minhas." Mas, para
surpresa de todos, há alguns anos, June recebeu uma herança considerável.
A princípio, June não falou nada sobre o
dinheiro. Mas, depois do choque inicial, só pensava nisso. Como ela acredita
piamente em fazer listas para tudo, não fiquei surpresa ao encontrá-Ia um dia
anotando as maneiras de gastar sua riqueza recém-conquistada.
À medida que o tempo passava, ela mudava a
lista. O que antes ficava na parte de baixo agora estava na de cima. Ouvi falar
das mudanças por algum tempo e acabei lhe dizendo:
- June, não precisa gastar toda a sua herança
de uma vez só.
Pense um pouco, reze, peça orientação a Deus.
- Você tem razão - ela respondeu, meio
irritada.
Depois disso, fiquei de lado, só observando a
lista mudar a cada dia. Até que uma manhã June me telefonou.
- Decidi como quero usar minha herança - ela
disse. - Você pode passar por aqui? Quero ouvir sua opinião.
Eu não estava exatamente ansiosa para ouvir,
mas éramos amigas há muito tempo e decidi ir até lá. Estava determinada a ficar
de boca fechada, o que quer que estivesse na lista.
June me serviu um café e colocou uma folha de
papel sobre a mesa. Para minha mais completa surpresa, só havia t rês palavras
escritas, em grandes letras de fôrma: IGREJA, CARIDADE, NETOS - nesta ordem.
Embora eu tivesse resolvido ficar calada, não podia deixar de perguntar como
chegara a tal decisão.
- Bem - ela disse -, segui seu conselho e
rezei, não uma, mas muitas vezes. A Igreja significa muito para mim. Deste
modo, espero que a minha doação possa ajudar na realização de sua missão.
June continuou:
- Foi um pouco mais difícil optar pelas obras
de caridade.
Mas, como sempre quis ajudar as crianças, este
é um caminho para fazer alguma coisa por elas.
E emendou:
- Quanto aos netos, eles vão dividir parte da
herança.
Mas não acho que tenham de receber tudo de mão
beijada. É importante saberem o que significa trabalhar e guardar o próprio
dinheiro.
Não resisti:
- E o tal apartamento grande que você sempre
quis ter?
- Não parece mais tão importante - ela
respondeu com um sorriso.
Então June moveu a mão e pude ver algumas
poucas palavras escritas em letras minúsculas no cantinho inferior da folha.
Apontei com o dedo e perguntei:
- O que é isso?
- Ah - ela exclamou, corando. - Uma anotação
para mim.
Inclinei-me para ler as letras miúdas e caí
numa gargalhada.
June escrevera:
E TAMBÉM um novo guarda-roupa.
Não somos ricos pelo que temos, mas sim pelo que não
precisamos ter. EMMANUEL KANT
O JARDIM DE VOVÓ
LEANN THIEMAN
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 115
Eu adorava observar minha avó capinando o solo
de argila no meu jardim.
- Não sei como você pode cultivar qualquer coisa
nisso ela resmungava.
- O solo do Colorado não se compara com o seu,
em Iowa, vovó! - eu disse, olhando-a com admiração, gravando aquele momento em
minha memória para sempre. Mechas prateadas escapavam do lenço de cabelo
enquanto o corpo magro se inclinava para arrancar do chão um punhado de erva
daninha.
- Essa porcaria cresce em qualquer lugar - ela
ria. - Até neste solo!
Embora vivesse sozinha em sua fazenda em Iowa,
onde ela e vovô tinham se instalado há meio século, ela ainda mantinha um pomar
que podia sustentar toda a vizinhança!
Alguns dos dias favoritos da minha infância
foram passados no verão, em seu jardim, ajudando-a a arrancar as plantas que
ela identificava como ervas daninhas ou plantando vegetais e flores. Ela me
ensinara que jardinagem não era só cultivar plantas, mas cultivar fé. Cada
semente plantada era uma prova disso. Quando eu tinha sete anos, perguntei a
ela: - Vovó, como é que as sementes sabem que as raízes devem crescer para
baixo e a parte verde deve crescer para cima?
- Fé - era sua resposta.
Quando eu cresci e me casei, meu marido
reconheceu a marca que a terra de vovó deixara sob minhas unhas e no meu
coração.
Ele apoiou meu sonho de viver fora da cidade e
no nosso pedaço de terra de dois acres havia cavalo, cachorro, gato, coelho,
seis galinhas e, naturalmente, um grande pomar. Eu me sentia privilegiada e
contentíssima por ter vovó ali, cuidando da terra.
Vovó encostou a enxada perto da cerca e veio
até o canteiro de flores para me ajudar a plantar as margaridas que trouxera do
seu jardim para o meu. Ela não sabia que eu a estava observando enquanto dava
batidinhas na terra à volta da base de uma planta. Fazendo com a mão o
sinal-da-cruz sobre a planta, ela sussurrava: "Deus a abençoe.
Cresça." Eu quase me esquecera da bênção do jardim da época da minha
juventude. Dez anos depois disso, essas margaridas ainda dão flores.
Vovó agora está cuidando do jardim de Deus, mas
ainda sinto sua influência a cada dia. Sempre que jogo sementes na terra, faço
um sinal-da-cruz sobre elas e digo: "Deus as abençoe, cresçam.
E, quando o silêncio se faz, posso ainda ouvir
sua bênção, alimentando minha fé: "Deus a abençoe. Cresça."
Cada lâmina de grama tem um anjo
que se inclina sobre ela e sussurra: "Cresça!
Cresça!"
TALMUDE
RON
DAN CLARK
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 118
Ron era um adolescente de quinze anos,
estudante da primeira série do segundo grau da sua escola. Era dia de final do
campeonato do colégio e ele era o único de sua turma na equipe principal de
futebol. Entusiasmado, convidou sua mãe para assistir à partida. Seria a
primeira vez que ela assistiria a um jogo e prometeu comparecer e levar várias
de suas amigas. O jogo finalmente terminou e ela foi esperar o filho na porta
do vestiário para levá-lo de carro para casa.
- O que você achou do jogo, mamãe? Você viu os
três gols sensacionais do nosso time e a nossa defesa cerrada? E o
contra-ataque do time adversário quando deixamos a bola escapar logo nos
primeiros minutos do segundo tempo, mas que conseguimos recuperar? - Ron
perguntou.
A mãe respondeu:
- Ron, você foi magnífico. Você teve tanta
presença, e fiquei tão orgulhosa. Você levantou suas meias até o joelho onze
vezes durante o jogo e sei que você estava transpirando muito porque tomou
quatro bebidas energéticas e jogou água no rosto duas vezes. Gostei quando você
saiu do seu lugar para dar tapinhas nas costas do número nove, do número cinco
e do dezoito quando eles foram substituídos.
- Mamãe, como é que você sabe isso tudo? E como
você pode dizer que eu fui magnífico? Eu nem joguei essa partida.
A mãe sorriu e abraçou o filho.
- Ron, eu não entendo nada de futebol. Não vim
aqui para ver o jogo. Vim aqui para ver você!
O QUE SIGNIFICA SER APAIXONADA
BARBARA DE ANGELIS
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 120
O que significa ser uma pessoa apaixonada? É
mais do que ser casada ou fazer amor com alguém. Milhões de pessoas são
casadas, milhões de pessoas fazem sexo, mas poucas são realmente apaixonadas.
Para ser na apaixonada, você tem de se entregar e se comprometer numa eterna
troca de intimidade com seu companheiro.
Você é apaixonada quando reconhece que a vida
lhe deu aquele companheiro como uma dádiva e você se alegra por isso todos os
dias.
Você é apaixonada quando se lembra de que seu
companheiro não lhe pertence - é apenas um empréstimo do universo.
Você é apaixonada quando entende que nada que
acontece entre vocês deixa de ter significado, que tudo que diz tem o poder de
deixar o seu amor alegre ou triste e tudo o que faz fortalece a ligação ou a
enfraquece.
Você é na apaixonada quando compreende tudo
isso e, assim, acorda cada manhã agradecida por ter mais um dia para amar e
desfrutar esse amor com seu companheiro.
Ser apaixonada por alguém é uma bênção. Você
recebeu a dádiva de ter alguém escolhido para caminhar ao seu lado, alguém com
quem partilhará seus dias e suas noites, sua cama e seus problemas. Essa outra
pessoa poderá ver partes secretas do seu eu que ninguém mais poderá ver. Tocará
partes do seu corpo que ninguém mais tocará. Vai procurar você no seu
esconderijo e lhe oferecerá seus braços como um refúgio seguro e amoroso.
Seu amor lhe oferece vários milagres a cada
dia. Tem o poder de fazê-la feliz com um sorriso, com sua voz, seu perfume, o
modo de caminhar. Tem o poder de acabar com sua solidão e de tornar sublime o
que é comum. Ele é seu caminho para alcançar o Céu aqui na Terra.
Estar presente é mais do que apenas estar aqui.
MALcoM FORBES
NEGÓCIO ARRISCADO
JÔ COUDERT
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 122
Uma mulher que diz sua idade é capaz de dizer
qualquer coisa, de acordo com Oscar Wilde. Sendo assim, não tenho a menor
intenção de declarar a minha, embora admita que não estou mais na primeira
juventude. Na verdade, qualquer música da época da Segunda Guerra Mundial que
você mencione eu poderei cantar inteirinha.
Isso já lhe dá uma ideia de por que eu me senti
uma boba quando comprei a motocicleta. Enquanto assinava o cheque, não podia
acreditar que eu estava mesmo fazendo uma compra tão inconsequente. É verdade
que, por anos, eu pensara como seria divertido ter uma motocicleta.
- Para quê? - debochavam minha família e
amigos.
- Para me aventurar por pequenas estradas
escondidas - eu respondia.
- Mas você pode usar o carro - diziam. Sim, mas
numa motocicleta eu poderia parar e admirar as flores do campo e 'prestar
atenção no suave barulho de um rio.
- Você vai acabar se matando - todos me
desanimavam.
Foi por isso que nunca me dispus seriamente a
comprar uma motocicleta.
Então por que, quando um amigo sugeriu que
parássemos numa loja, eu me vi comprando uma daquelas perigosas engenhocas? Tudo
bem, a motocicleta era elegante, novinha e veio no meu tom favorito de azul.
Mas o verdadeiro motivo era que eu tinha de
deixar cair minha máscara. Por anos eu dissera que queria uma motocicleta. Ali
estava minha oportunidade. Se fraquejasse, tenho a impressão de que minha vida
começaria a declinar. Já vira isso acontecer com outras pessoas - recusar
aquele emprego dos sonhos por medo de mudar de cidade, deixar de fazer rafting
num rio porque o barco pode virar. Eu percebia que a vida da pessoa ficava mais
estreita, mais restrita, como se fechar uma porta tivesse fechado outras, ainda
desconhecidas.
Preenchi o cheque e paguei.
O próximo passo seria cuidar da habilitação.
Quando apresentei minha carteira de motorista para a jovem loura no balcão do
departamento de trânsito, ela a conferiu indiferente até chegar à "data de
nascimento". Os olhos se desviaram para o meu rosto, ela deu um sorriso
zombeteiro.
- A senhora já não está meio velha para se
juntar aos Hell´s Angels? - perguntou numa voz arrastada.
Quando saí pela primeira vez com a moto,
concordei plenamente com suas palavras. Eu estava nervosa. Ficava me dizendo o
tempo todo onde eram o acelerador e os freios. Um carro vinha atrás de mim e
acabei deslizando no cascalho e me esborrachando no chão. Onde era o freio? Por
que eu estava indo tão depressa?
O pânico tinha congelado minha mão no
acelerador. E os freios não eram nos pedais, mas no guidom. Assim que descobri
como parar, saí da moto e fui a pé com ela para casa.
Tentei novamente no dia seguinte e no outro. No
quarto dia, relaxei o suficiente para fazer uma maravilhosa descoberta: eu
podia sentir o cheiro do campo - a relva, as margaridas, a terra molhada e as
rosas selvagens. E podia ver de onde vinham as flores. A paisagem não era como
um filme que passa rapidamente, mas uma tapeçaria de folhas e galhos costurados
e pétalas bordadas. Quer dizer, se eu conseguisse levantar os olhos da estrada
o tempo suficiente para dar uma olhada.
Procurando um lugar seguro para praticar,
descobri um caminho asfaltado, que levava até uma fábrica. A cada dia eu
aumentava a velocidade, inclinando nas curvas, ousando mais nas manobras. Não
tinha ideia de que deixar o vento bater no rosto livremente podia ser tão
divertido.
Um dia, com confiança redobrada, ousei ir até a
cidade que ficava a uns três quilômetros, acompanhando o rio. Parei a moto
junto à margem e peguei um saco com pão velho que guardara para alimentar os
patos. Vi que por ali estavam dois garotos que ficaram admirando a motocicleta.
Um deles me chamou, batendo no meu ombro.
- Eu e ele - ele disse, apontando o amigo -
queremos trocar nossas bicicletas pela sua moto.
Comecei a rir, mas seu rosto sardento estava
totalmente sério. Com uma voz grave, eu disse:
- É uma bela oferta, mas acho que não vou ter
muito o que fazer com duas bicicletas.
Ele balançou a cabeça. Compreendia minha
situação.
Como você se chama? Quanto que a motocicleta
corre?
Alguma coisa parecia não bater bem enquanto
conversávamos. Então compreendi que era exatamente isso: nós estávamos
conversando. Para eles, eu não era uma mulher idosa. Era a dona de um brinquedo
maravilhoso e isso eliminou o abismo entre nós.
Os vizinhos tinham um sentimento parecido.
Quando eu passava com a moto, eles riam, acenavam e, muitas vezes, gritavam:
E aí, como está se saindo?
Primeiro pensei que era porque eu parecia
engraçada com meu capacete branco, óculos de aro de chifre e luvas e jaqueta de
couro mesmo nos dias mais quentes (para proteção, no caso de queda). Mas,
quando eu tirava os olhos da estrada, percebia que seus rostos eram amáveis e
que sentiam uma espécie de prazer indireto com a minha aventura.
Mas eu sabia que fora realmente aceita quando
um adolescente a cabeça do lado de fora de seu carro envenenado, e gritava com
sorriso de aprovação:
- Vamos lá, minha senhora!
- Eu consegui! - respondia. E estou feliz, é o
que tenho pensado desde então. A motocicleta realmente me levou a caminhos
desconhecidos. Ela me proporcionou novas aventuras.
Mas, principalmente, me fez sentir que as
portas da minha vida continuam abertas. Tudo é possível.
É claro que há riscos. Não mudei de opinião
quanto a isso. Por outro lado, uma amiga que falara muito sobre os perigos de
uma motocicleta levou um tombo na banheira e quebrou braço. Uma outra, viúva,
que estava para voltar para a faculdade, mas desistiu com medo de ser
ridicularizada, entrou em profunda depressão.
Penso nelas e vejo que a única coisa mais
perigosa que não correr riscos é não se arriscar. Talvez as pessoas esperem que
você se torne inconsequente à medida que envelhece. É a forma de continuar
dizendo sim à vida. E, talvez, dizer sim, não ser prudente, seja o que
realmente é importante na vida.
Eu me arrisquei a tudo que desejei... e o que eu desejo eu
faço.
HERMAN MELVILLE
AJUDA PARA QUEM AJUDA
MARLENA THOMPSON
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 127
Aos dezoito anos, deixei minha casa no
Brooklyn, Nova York, para ir estudar história na Universidade de Leeds, em
Yorkshire, na Inglaterra. Foi uma época cheia de novidades, mas estressante,
pois tinha de me adaptar a um lugar novo, sem ter ainda me acostumado com a dor
da perda recente de meu pai - fato que ainda não conseguira assimilar.
Um dia, no mercado, tentando decidir que flores
alegrariam meu quarto de estudante, confortável, mas sem graça, vi um senhor
com dificuldade para se apoiar em sua bengala enquanto carregava um saco de
maçãs. Corri para apanhar as maçãs, dando-lhe tempo de recuperar o equilíbrio.
- Obrigado, querida - ele disse, com aquela
cadência característica de Yorkshire, que não me canso de ouvir. - Já estou
bem, agora, não se preocupe - acrescentou, sorrindo para mim, não só com os
lábios, mas com um par de brilhantes olhos azuis.
- Posso caminhar com o senhor - disse. - Só
para ter certeza de que essas maçãs não vão virar purê antes da hora.
Ele riu e disse:
- Você está bem longe de casa, não é, moça?
Você é dos Estados Unidos?
- Só de um dos estados, Nova York. Vou lhe
falar sobre isso enquanto caminhamos.
Assim começou minha amizade com o Sr. Burns, um
homem cujo sorriso e carinho logo se tornariam muito importantes para mim.
No caminho, o Sr. Burns (a quem eu sempre me
dirigia assim, nunca o chamava pelo primeiro nome) se inclinava pesadamente
sobre a bengala, resistente e enfeitada com os nós da madeira, que me lembrava
um cajado bíblico. Quando chegamos à casa dele, ajudei-o a colocar os pacotes
sobre a mesa e insisti em auxiliar na preparação do "chá" - quer
dizer, sua refeição.
Interpretei seu débil protesto como um
agradecimento.
Depois de fazer o chá, perguntei se haveria
problema de eu voltar para visitá-lo. Pensei em estar com ele de vez em quando,
para ver se precisava de alguma coisa. Com uma piscadela e um sorriso, ele
respondeu:
- Eu jamais recusaria uma oferta vinda de
alguém de tão bom coração, moça.
Voltei no dia seguinte, mais ou menos na mesma
hora, de modo a poder ajudar mais uma vez na hora da refeição. A bengala era
uma lembrança silenciosa de seu problema e, embora nunca pedisse ajuda, não
protestava quando era auxiliado.
Nessa mesma noite tivemos nossa primeira
conversa "de abrir o coração". O Sr. Burns me perguntou sobre meus estudos,
meus planos e, principalmente, sobre minha família. Disse-lhe que perdera meu
pai há pouco tempo, mas não falei muito mais sobre o relacionamento que tinha
com ele. Em resposta, meu amigo apontou duas fotografias em porta-retratos na
mesa perto de sua cadeira. Eram duas mulheres, uma bem mais velha que a outra.
Mas a semelhança entre elas era surpreendente.
Esta é Mary - ele disse, indicando a fotografia
da mulher mais velha. - Ela se foi há seis anos. E aquela é nossa Alice. Era
uma ótima enfermeira. Minha Mary não suportou a dor de perdê-la.
Derramei ali as lágrimas que eu não conseguira
chorar pela minha própria dor. Chorei por Mary. E por Alice. Chorei pelo
Sr.Burns. E chorei por meu pai, a quem nunca pude dizer adeus.
Eu visitava o Sr. Burns duas vezes por semana,
sempre no mesmo dia. Invariavelmente ele estava sentado em sua cadeira, a
bengala encostada à parede. A pequena televisão em preto-e-branco estava sempre
desligada, pois meu amigo preferia se distrair com seus livros e discos. Ele
parecia sempre contente em me ver. Embora eu dissesse a mim mesma que sentia
prazer em ser útil, na verdade me sentia ainda melhor por ter conhecido alguém
a quem podia revelar meus pensamentos e sensações que, até então, eu mal revelara
a mim mesma.
Enquanto eu fazia o chá, conversávamos. Eu lhe
contei que me sentia terrivelmente culpada por não estar bem com meu pai nas
duas semanas antes de sua morte. Não tive a oportunidade de lhe pedir perdão.
Nem ele de pedir o meu.
Embora o Sr. Burns também falasse, contava
muito menos coisas do que eu. Lembro-me bem dele prestando atenção no que eu
dizia. E muita atenção! Ele não só se mostrava atento, mas absorvia as
informações, acrescentando detalhes da sua própria experiência e imaginação
para compreender melhor.
Depois de um mês mais ou menos, resolvi visitar
meu amigo num "dia de folga". Nem me preocupei em telefonar antes,
pois imaginei que este tipo de cerimônia não cabia no nosso relacionamento.
Quando cheguei, eu o surpreendi trabalhando no jardim, inclinando-se com
facilidade e levantando-se igualmente sem qualquer problema. Fiquei confusa.
Aquele era o mesmo homem que usava aquela bengala que parecia um cajado?
De repente, o Sr. Burns olhou em minha direção.
Percebendo minha surpresa, acenou mais do que encabulado. Sem nada dizer,
aceitei seu convite para entrar.
- Bem, moça. Deixe que dessa vez eu lhe prepare
o chá.
Você parece exausta.
- Mas, como? - eu comecei. - Eu pensei...
- Eu sei o que você pensou, querida. Quando
você me viu a primeira vez, no mercado, eu tinha torcido o tornozelo um pouco
mais cedo naquele dia. Tropeçara numa pedra enquanto cuidava do jardim. Sempre
fui um desajeitado.
Mas... quando foi que o senhor voltou a andar
normalmente?
Seus olhos, não sei como, pareciam felizes e
arrependidos ao mesmo tempo.
- Ah, bem... acho que no dia seguinte ao nosso
encontro.
- Mas, por quê? - perguntei, completamente
perplexa.
Com certeza ele não podia ter fingido precisar
de ajuda só para eu lhe fazer o chá de vez em quando.
- Da segunda vez que você veio aqui, querida,
foi quando percebi como você estava infeliz. Sozinha, triste a respeito de seu
pai e tudo o mais. Pensei que podia lhe emprestar meu ombro calejado para você
se apoiar. Mas eu sabia que você achava que estava vindo aqui por minha causa,
não por causa de seus problemas. Achei que não voltaria se achasse que eu
estava bem.
E eu sabia que você estava precisando conversar
com alguém.
Alguém mais velho, até mesmo mais velho que seu
pai. E ainda alguém que soubesse ouvir.
- E a bengala?
- Ah, é uma bonita bengala, não é? Eu a uso
quando vou fazer algum passeio em terreno mais difícil. Vou chamar você para ir
comigo no próximo.
E foi assim. O homem que eu me dispusera a
ajudar foi quem me ajudou. Ele me deu de presente um pouco do seu tempo, doou
atenção e bondade a uma jovem que precisava das duas coisas.
Uma das mais bonitas compensações da vida é que ninguém
pode sinceramente tentar ajudar a outra pessoa sem ajudar a si mesmo.
RALPH WALDO EMERSON
NUNCA LHE DISSEMOS QUE ELE NÃO CONSEGUIRIA
KATHY LAMANCUSA
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 132
Quando meu filho Joey nasceu, seus pés eram
torcidos para cima, a parte inferior encostava em sua barriga. Como mãe de
primeira viagem, achei aquilo estranho, mas não percebi exatamente o que
significava. Na verdade, Joey nascera com uma deformação nos pés. Os médicos
asseguraram que, com tratamento adequado, ele poderia andar normalmente, mas
provavelmente não seria capaz de correr muito bem. Os primeiros três anos de
vida, Joey passou entre cirurgias, gessos e aparelhos. Massagens, fisioterapia,
exercícios. Quando tinha uns sete ou oito anos, quem o visse caminhar não
perceberia que tivera um problema.
Se andasse grandes distâncias, como em parques
de diversão ou no zoológico, reclamava que sentia as pernas cansadas e doídas.
Tinha de parar, tomar um refrigerante ou um sorvete e conversar sobre o que já
vira e o que ainda ia ver. Jamais lhe contamos porque suas pernas ficavam
doloridas e porque eram fracas. Nem que aquilo era normal para quem tinha uma
deformidade de nascença. Nunca lhe dissemos, então ele nunca soube.
As crianças da vizinhança, brincando, corriam
para lá e para cá, como todas as crianças. Joey brincava com elas e corria
também. Nunca lhe dissemos que provavelmente nunca poderia correr tão bem como
os amiguinhos. Não lhe dissemos que era diferente. Nunca lhe dissemos, então
ele nunca soube.
Na sétima série, decidiu fazer parte da equipe
de atletismo da escola. Treinava todos os dias com os outros garotos. Parecia
que era o mais esforçado do grupo e que corria mais que qualquer um deles.
Talvez percebesse que habilidades tão naturais nos outros não eram naturais
nele mesmo. Não lhe dissemos que, embora pudesse correr, provavelmente seria
sempre um dos últimos a chegar. Não lhe dissemos que não devia esperar fazer
parte do "primeiro time", elite composta pelos melhores corredores. Não
lhe dissemos que dificilmente faria parte do "primeiro time", então
ele nunca soube.
Joey continuou a correr de seis a oito
quilômetros por dia, todos os dias. Jamais vou me esquecer de quando estava com
mais de trinta e nove graus de febre e não quis ficar em casa porque tinha
treino. Preocupei-me o dia inteiro. Imaginava que logo receberia um telefonema
para que fosse buscá-lo. Ninguém telefonou.
No horário do término das aulas fui até a área
de treinamento, imaginando que, se Joey me visse por lá, talvez decidisse
faltar ao treino naquela tarde. Mas, quando cheguei, eu o vi correndo sozinho.
Aproximei-me com o carro e fiquei dirigindo devagar, emparelhada com ele.
Perguntei como estava se sentindo. "Bem" - respondeu. Faltava fazer
pouco mais de três quilômetros. O suor lhe escorria pelo rosto, os olhos
estavam vidrados pela febre. Mesmo assim, olhava firme para a frente e
continuava a correr. Nunca lhe dissemos que ele não podia correr quilômetros
com mais de trinta e nove graus de febre. Nunca lhe dissemos, então ele nunca
soube.
Duas semanas depois, na véspera da penúltima
corrida da temporada, os nomes dos componentes do "primeiro time"
foram anunciados. Joey era o sexto da lista. Ele conseguira estar entre os
melhores. Era o único aluno da sétima série. Os demais eram todos da oitava.
Nunca lhe dissemos que não devia esperar fazer parte da elite. Não lhe dissemos
que não seria capaz. Nunca lhe dissemos que não conseguiria, então ele nunca
soube. E ele conseguiu.
Eles conseguem porque pensam que conseguem.
VIRGÍLIO
UM BEIJO DE BOA-NOITE
PHYLLIS VOLKENS, com supervisão de Jane Hanna
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 135
Sou enfermeira e sempre que chegava ao asilo
para trabalhar no turno da noite percorria os corredores para conversar e ver
se estava tudo em ordem. Muitas vezes encontrava Kate e Chris sentados com seus
álbuns no colo, vendo fotos e relembrando o passado. Com orgulho, Kate me
mostrava retratos antigos em que Chris aparecia, alto, louro e alinhado, e ela,
bonita, morena e sorridente. Dois namorados lembrando alegremente a sua
história. Como era lindo vê-los juntos. A luz do sol refletindo em seus cabelos
brancos, os rostos vincados pela idade iluminados pelas lembranças capturadas
para sempre nas fotos dos álbuns.
Às vezes a equipe do turno da noite via Kate e
Chris caminhando de mãos dadas. O assunto passava a ser o amor do casal e o que
aconteceria quando um deles morresse. Todos conhecíamos a força de Chris e
sabíamos o quanto Kate dependia dele. Muitas vezes nos perguntávamos como
ficaria Kate se Chris morresse primeiro.
A hora de dormir tinha todo um ritual. Eu
trazia a medicação da noite e encontrava Kate na sua cadeira, de camisola e
chinelos, me esperando. Chris e eu a observávamos enquanto ela tomava seu
remédio. Então, com muito cuidado, Chris a ajudava a passar da cadeira para a
cama, ajeitando as cobertas ao redor do corpo frágil.
Observando esse ato de amor, eu pensava pela
milésima vez:
"Meu Deus, por que os asilos não têm camas
de casal? Marido e mulher dormem juntos a vida inteira e justamente num asilo,
onde mais precisam de aconchego, são privados de um costume que os confortou
toda a vida."
"Como são tolas essas regras”, eu pensava
enquanto o observava Chris se levantar e desligar a luz sobre a cama de Kate.
Então ele se curvava para beijá-Ia docemente,
acariciando seu rosto, e os dois sorriam enquanto ele levantava a grade lateral
da cama. Do corredor, eu podia ouvir Chris dizer "Boa-noite, Kate" e
ela responder "Boa-noite, Chris". Depois ele se dirigia para sua
cama, no outro extremo do quarto.
Cumprindo a escala, fiquei dois dias sem
trabalhar e, quando voltei, a primeira notícia que me deram foi "Chris
morreu ontem de manhã".
- Como?
- Um ataque cardíaco fulminante.
- Como está Kate?
-Mal.
Fui ao quarto de Kate. Ela se encontrava em sua
cadeira sem se mexer, mãos no colo, olhos parados. Pegando as suas mãos nas
minhas, eu disse:
- Kate, é Phyllis.
Ela nem piscou, seus olhos permaneceram fitando
o nada.
Segurei seu queixo com a mão e, devagarinho,
virei seu rosto para que ela me olhasse.
- Kate, acabo de saber que aconteceu com Chris.
Sinto muito.
Ouvindo o nome "Chris", seus olhos
brilharam. Ela me olhou, confusa a princípio, aos poucos me reconhecendo.
- Chris se foi - ela sussurrou.
- Eu sei - respondi. - Eu sei.
Nós nos desdobramos nos cuidados e no carinho
com Kate.
Gradativamente ela retomou sua rotina. Muitas
vezes, quando passava pelo seu quarto, eu a observava sentada em sua cadeira,
álbum no colo, olhando com tristeza as fotos de Chris.
Para Kate, a pior parte do dia era a hora de
dormir. Ela pedira para dormir na cama do marido, mas, apesar de tentarmos
reproduzir os gestos dele, Kate permanecia em silêncio, tristemente retraída.
Uma hora depois de ter sido colocada na cama, ela continuava acordada, olhos
fixos no teto.
.As semanas se passaram e a hora de dormir
ainda era muito difícil. Kate parecia sempre inquieta e insegura. Eu pressentia
que devia haver uma razão para isso, mas não encontrava a causa. Então, uma
noite, quando estava saindo do quarto depois de várias tentativas inúteis para
tranquilizar Kate, ocorreu-me uma ideia. Voltei atrás, aproximei-me dela,
acariciei seu rosto e, debruçando-me, beijei-a, dizendo "Boa-noite,
querida".
Foi como se eu tivesse aberto uma comporta.
Lágrimas caíam pelo rosto de Kate, suas mãos seguravam as minhas.
- Chris sempre me dava um beijo de boa-noite -
ela disse, chorando.
- Eu sei - sussurrei.
- Eu sinto tanta falta dele, tanta falta do
beijo que ele me dava na hora de dormir. - Ela fez uma pausa enquanto eu
enxugava suas lágrimas. - Sem o beijo dele parece que eu não estou indo dormir.
Muito obrigada por me dar um beijo.
Kate ensaiou um sorriso.
- Sabe - ela me confidenciou -, Chris costumava
cantar uma canção para mim. E eu deito aqui à noite e penso nisso.
- Como era?
Kate sorriu, segurou minha mão e limpou a
garganta. Então ela cantou, com sua voz pequena, mas ainda melodiosa:
Me beije, meu amor, e então nos separaremos
E quando eu estiver muito velha para sonhar
Este beijo estará bem vivo no meu coração.
TOMANDO FÔLEGO
THE BEST OF BITS e
PIECES
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 139
Trabalhar fora pode ser duro, mas ter um
emprego e criar filhos pode ser pior ainda.
Existe uma história sobre a mãe de três garotos
levados que, numa noite de verão, brincavam de polícia-e-Iadrão no quintal de
casa.
Um dos meninos "atirou" na mãe e
gritou:
- Bangue! Matei você!
Ela desabou no chão e, como não voltou a se
levantar, um vizinho veio correndo para ver se ela se machucara ao cair.
Quando o vizinho se ajoelhou ao lado dela, a
mãe, sobrecarregada de trabalho, abriu um olho e disse:
- Psiiiu! Não me entregue. É a minha única
chance de descansar.
AS COISAS QUE DESEJO A VOCÊ
LEE PITTS
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 140
Tentamos de todas as maneiras facilitar as
coisas para nossos filhos e isso acaba piorando as coisas.
Com os meus netos, vou fazer diferente.
Gostaria realmente que aprendessem a aproveitar
as roupas do irmão mais velho, a apreciar sorvete caseiro e bolo de carne feito
com as sobras do almoço. Gostaria mesmo.
Meu neto querido, espero que aprenda a ser
humilde ao descobrir seus erros e a ser honesto mesmo se ninguém estiver
olhando.
Espero que aprenda a arrumar a cama e a aparar
o jardim, além de lavar o carro - e que ninguém lhe dê um carro novinho quando
você tiver dezesseis anos.
Será bom se, pelo menos uma vez, você vir um
bezerrinho nascer e tiver um bom amigo ao seu lado se precisar sacrificar o seu
cachorro de estimação.
Espero que consiga um olho roxo lutando por
alguma coisa em que acredite.
Que divida um quarto com seu irmão mais novo.
Tudo bem se você desenhar uma linha no chão, demarcando o seu lado.
Mas, se ele quiser ir para sua cama porque está
com medo, espero que você deixe.
E, quando você quiser ir ver um filme da Disney
e seu irmão quiser ir junto, espero que você o leve.
Espero que escale montanhas com seus amigos e
que more numa cidade onde possa fazer isso com segurança.
Se você quiser um estilingue, espero que seu
pai o ensine a fazer um, em vez de comprar. Também espero que aprenda a mexer
na terra e a ler livros. E que, além de usar máquinas de calcular e
computadores, aprenda a somar e a diminuir de cabeça.
Espero que seus amigos gozem você quando se
apaixonar pela primeira vez. Quando você responder atravessado à sua mãe,
espero que aprenda que gosto tem o sabão de coco.
Que machuque o joelho subindo uma montanha,
queime a mão no fogão e queime a língua num café muito quente. Sem gravidade,
lógico.
Espero que fique enjoado se alguém fumar perto
de você.
Não me importo se experimentar cerveja uma vez.
Mas espero que não goste. E, se um amigo lhe oferecer um baseado ou qualquer
droga, espero que seja esperto o bastante para saber que essa pessoa não é sua
amiga.
Espero, é claro, que encontre tempo para se
sentar na varanda com seu avô e para ir pescar com seu tio.
Espero que sua mãe castigue você quando jogar
uma bola de futebol na janela do vizinho e que ela o abrace e beije quando você
lhe der um molde de gesso da sua mão.
São essas as coisas que desejo a você -
dificuldades e desapontamento, trabalho duro e felicidade.
Não se pode ensinar as crianças a cuidarem de si mesmas sem
que as deixemos tentar. Elas cometerão erros e desses erros virá a sabedoria.
H.W. BEECHER
VENDO COM OS OLHOS DO CORAÇÃO
BARBARA JEANNE FISHER
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 143
Eu estava cega! Foi apenas por seis semanas,
mas pareceu uma eternidade.
Nesse período, eu fiquei internada sozinha, com
multo medo e morta de saudade do meu marido e dos meus cinco filhos. Tenho
certeza de que a escuridão exagerava todos esses sentimentos. Eu levava horas,
dias até, imaginando se poderia ver meus filhos novamente. Passei tanto tempo
com pena de mim mesma que, quando a enfermeira avisou que eu teria uma colega
de quarto, nem me animei. Ironicamente, não queria que ninguém me visse naquela
situação.
O nome da minha companheira de quarto era Joni.
Gostei dela imediatamente. Joni estava sempre alegre e nunca se queixava de sua
doença. Quando sentia que eu estava com medo ou deprimida, ela dizia,
brincando, que eu tinha sorte em não poder me ver no espelho durante aquele
período. Meu cabelo estava emaranhado por ficar sempre na cama e eu engordara
muito por causa da cortisona.
Depois das visitas do meu marido, Joe, e das
crianças, era Joni quem lia para mim todos os bilhetinhos e cartões recheados
de "Eu te amo" e "Fique logo boa, mamãe". Era Joni quem
abria minha correspondência, descrevia as flores que eu recebia de parentes e
amigos e me ajudava na hora das refeições. Para me alegrar, ela dizia que eu
tinha sorte de não poder ver a comida do hospital!
Uma tarde, meu marido veio me visitar sozinho.
Eu e ele conversamos sobre a possibilidade de eu não voltar a enxergar. Joe me
assegurou que isso não afetaria em nada seus sentimentos por mim e que, não
importava o que acontecesse, teríamos sempre um ao outro. Juntos,
continuaríamos a criar nossos filhos. Por horas, ele apenas me segurou em seus
braços, deixou-me chorar e tentou iluminar um pouquinho meu mundo tão escuro.
Joni deve ter sentido que precisávamos ficar a
sós e permaneceu tão quieta durante a visita que eu achei que ela não estava no
quarto. Depois que Joe saiu, ela disse:
- Você não sabe como é feliz em ter tantas
pessoas que a amam! Seu marido e seus filhos são tão lindos! Você tem tanta
sorte!
Naquele momento percebi, pela primeira vez, que
durante as semanas que passamos juntas no hospital minha companheira não havia
recebido a visita de marido nem de filhos. Sua mãe e o padre vinham de vez em
quando, mas ficavam pouco tempo.
Eu estivera tão envolvida com meus problemas
que sequer permitira que ela se abrisse comigo. Pelas visitas do médico, eu
sabia que seu estado era delicado, mas nunca perguntara sobre a sua doença.
Entendi, então, como fora egoísta e me odiei por isso. Virei para o lado e
comecei a chorar. Pedi a Deus que me perdoasse. Prometi que, logo pela manhã,
eu perguntaria a Joni sobre sua vida, sua doença e seus problemas e diria como
estava agradecida por tudo que ela fizera por mim. Eu lhe diria como realmente gostava
dela.
Nunca tive a oportunidade. Quando acordei, a
cortina estava puxada entre as duas camas. Eu podia perceber pessoas
sussurrando e tentei escutar o que diziam. Então ouvi o padre repetir:
- Que ela possa descansar em paz.
Antes que eu pudesse dizer-lhe que a amava,
Joni tinha morrido.
Soube depois que ela sabia, ao se internar no
hospital, que jamais sairia dali. Mesmo assim, nunca se queixou e passou seus
últimos dias me dando esperança.
Joni deve ter sentido que sua vida estava no
fim exatamente na noite em que falou sobre como eu tinha sorte. Depois que
chorei até dormir, ela me escreveu um bilhete. A enfermeira o leu para mim
naquela manhã e, quando voltei a enxergar, eu o reli muitas vezes:
Minha amiga, Obrigada por tornar meus dias tão
especiais!
Fiquei muito feliz com nossa amizade. Sei que
você também se importa comigo, a 'sua vista que não é vista': Algumas vezes,
para que prestemos atenção, Deus nos derruba, ou ao menos nos torna cegos.
Nesse meu último suspiro, rezo para que você logo volte a enxergar, mas não
especificamente como pensa. Você só pode aprender a ver se o fizer com o
coração. Sua vida, então, será completa.
Lembre-se de mim com carinho,
Joni
Naquela noite acordei de um longo sono. Deitada
na cama, percebi que podia identificar algum brilho na pequena lâmpada na
mesinha-de-cabeceira. Minha visão estava voltando! Era só um pouquinho, mas eu
podia ver!
Mais importante ainda era que, pela primeira
vez na vida, eu podia ver também com o coração. Mesmo que eu jamais venha a
saber como era o rosto de Joni, tenho certeza de que ela era uma das pessoas
mais bonitas do mundo.
Perdi minha visão muitas vezes desde então,
mas, graças a Joni, nunca me permitirei "perder de vista” as coisas que
são importantes na vida, como carinho, amor e, às vezes, arrependimento.
Nunca a vida é tão dura que você não possa
torná-la melhor pelo modo como a leva.
ELLEN GLASGOW
JUNTOS NÓS VAMOS CONSEGUIR
DAN CLARK
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 147
Bob Butler perdeu as pernas em 1965, na
explosão de uma mina, no Vietnã. Voltou para casa como herói. Vinte anos
depois, ele provou, mais uma vez, que o heroísmo vem do coração.
Ele estava trabalhando em sua garagem, numa
pequena cidade do Arizona, num dia quente de verão, quando ouviu gritos de
mulher vindo de uma casa vizinha. Butler foi em direção aos gritos, empurrando
sua cadeira de rodas, mas a vegetação densa não permitia que ele chegasse à
porta dos fundos. O veterano de guerra saiu da cadeira e foi se arrastando pelo
chão, entre os arbustos.
"Tinha de conseguir", ele conta.
"Não importava o quanto doesse".
Quando Butler chegou à casa, viu que os gritos
vinham da piscina, no fundo da qual estava uma menininha de três anos.
Ela nascera sem os braços e caíra na água. Não
tinha como nadar. Na beira, a mãe da criança gritava histericamente. Butler
mergulhou até o fundo da piscina, trazendo a pequena Stephanie. Seu rosto
estava azul, ela não tinha pulso e não respirava.
Butler imediatamente iniciou manobras de
ressuscitação na criança, enquanto a mãe telefonava para os bombeiros. Mas lhe
disseram que os paramédicos estavam em outro atendimento.
Impotente, a mulher chorava e segurava o ombro
de Butler.
Continuando a socorrer Stephanie, ele
calmamente assegurou à mãe:
- Não se preocupe. Eu fui os braços dela para
sair da piscina. Tudo vai dar certo. Agora sou os seus pulmões. Juntos, nós
vamos conseguir.
Segundos depois, a menininha tossiu, recobrou a
consciência e começou a chorar. Enquanto se abraçavam alegremente, a mãe de
Stephanie perguntou a Butler como ele sabia que tudo ia dar certo.
- Quando perdi as pernas na guerra, estava
sozinho num campo - ele contou. - Não havia ninguém para ajudar, apenas uma
menininha vietnamita. Enquanto lutava para me arrastar até seu vilarejo, ela
sussurrou num inglês atravessado: "Está tudo bem. Você vai viver. Eu ser
suas pernas. Juntos nós conseguir." Agora foi a minha oportunidade de
retribuir o favor Butler disse à mãe da criança.
Somos todos anjos de uma única asa.
Só quando ajudamos uns aos outros é que conseguimos voar.
LUCIANO DE CRESCENZO
O HOMEM SEM NOME
NAOMI JAMES
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 149
- Saiam, saiam! Está
pegando fogo!
Fui acordada repentinamente por uma voz que eu
não reconhecia e pulei da cama. Depressa! Depressa! Levantem! Levantem!
Eram as únicas palavras em que eu podia pensar
ou dizer enquanto corria pelo apartamento, acordando meus filhos e netos.
O aviso veio a tempo e todos pudemos sair.
Naquela fria manhã do Dia de Ação de Graças, meu marido Bobby, dois de nossos
três filhos, já crescidos, o irmão gêmeo de meu marido, com seus dois netos se
juntaram do lado de fora e viram nosso apartamento e nosso restaurante queimar
por inteiro. Quando o dia clareou, só a lareira de tijolos estava de pé.
Mas estávamos agradecidos por estarmos vivos.
Quem nos acordara? Como poderíamos agradecer a essa pessoa?
O hotel de cento e vinte e quatro quartos ao
lado do restaurante também era da família e estava intacto. A encarregada da
recepção, que não percebera o fogo, nos disse que um homem numa caminhonete
parara no meio da estrada deserta, entrara correndo no saguão do hotel e lhe
dissera para ligar para os bombeiros. Logo depois ele começou a bater nas
portas.
Quem era o homem? Perguntamos a todos - aos
bombeiros, aos policiais, aos hóspedes. Ninguém o vira, a não ser a atendente
da recepção. Pusemos um anúncio no jornal, pedindo informações. Nunca
poderíamos lhe agradecer o suficiente por ter salvo as vidas de nossa família,
mas queríamos expressar nossa gratidão de alguma forma.
Nos anos que se seguiram, agradecíamos a Deus,
a cada Dia de Ação de Graças, por essa pessoa que tanto fizera por nós e que
Ele sabia quem era.
No dia de Natal, em 1994, meu marido Bobby e
eu, nossos três filhos, suas mulheres e nossos nove netos nos reunimos na casa
de nosso filho mais velho. Mais uma vez nos lembramos do homem que salvara
nossas vidas. Sem ele, nossos netos sequer teriam nascido. Pedimos a Deus que o
abençoasse e que um dia nos permitisse conhecê-lo.
Uns dias depois do Natal, Bobbye eu fomos à
casa de Ray Horton, um de nossos chefes de carpinteiros, para pegar umas
ferramentas. Ele nos convidou para tomar um café e começamos a conversar,
falando sobre lugares em que estivéramos e coisas que tínhamos feito.
Ray nos contou que construíra casas em
Portland, Texas, em 1969 e 1970. Contamos que tivéramos um restaurante e um
hotel lá.
Ray virou-se para sua mulher e disse:
- Você se lembra de eu ter lhe contado sobre um
incêndio naquele hotel?
No mesmo momento, Bobby e Ray se deram conta de
que ele estava falando sobre o nosso hotel. Os dois se levantaram, ficaram um
em frente ao outro e se abraçaram chorando. E nós todos nos abraçamos e
choramos, sabendo que tínhamos encontrado a pessoa que Deus enviara para salvar
nossas vidas.
Naquele instante, finalmente, pudemos agradecer
ao homem que permanecera sem nome por vinte e cinco anos.
A gratidão nasce nos corações que
se preocupam em considerar benevolências recebidas.
CHARLES E. JEFFERSON
LEMBRANDO DE ESQUECER
AMY SEEGER
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 152
Clara Barton, que fundou a Cruz Vermelha
americana quando tinha cinquenta e um anos, era considerada "tímida como
um rato, mas brava como um leão". Comprometida com sua missão, continuou a
exercê-Ia mesmo na velhice. Não deixou que a idade a atrapalhasse.
Ela ia aonde quer que houvesse alguém
precisando de conforto, em áreas de guerra, locais onde havia enchentes,
terremotos ou febre amarela. Aos setenta e sete anos, estava nos campos de
batalha de Cuba, na guerra hispano-americana. Clara continuou seu trabalho até
morrer, aos noventa e um anos.
Um dia, já bem velhinha, alguém a lembrou de
uma ofensa que lhe fora dirigida, anos antes. Mas ela agiu como se jamais
tivesse ouvido falar daquilo.
- Não se recorda? - a amiga perguntou.
- Não - Clara respondeu. - Lembro-me
nitidamente de ter esquecido isso.
Se realmente desejamos amar, devemos aprender a perdoar.
MADRE TERESA
O ÚLTIMO POTE DE GELEIA
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 153
A infância de nossos filhos foi marcada por uma
coisa muito simples: sanduíches de geleia que até meu marido e eu gostávamos de
saborear. Mas não eram quaisquer sanduíches, porque a geleia que os recheava
era preparada especialmente por minha sogra com as frutas colhidas em seu
sítio.
Minha sogra só fazia geleia de uva ou amora. A
minha colaboração consistia apenas em guardar os potes de papinha de bebê e
enviá-los para sua casa. Ela então os enchia com a deliciosa geleia, fechava
com cera e nos mandava de volta. Durante os meus vinte e dois anos de casada,
toda vez que queria fazer um sanduíche de geleia bastava esticar a mão e
apanhar um dos potinhos na despensa ou na geladeira. Estavam sempre lá. Fazer
geleia era uma alegria para minha sogra.
Meu sogro faleceu há muitos anos, e neste
último dezembro minha sogra também se foi. Entre as coisas a serem divididas
entre os filhos estava o estoque da despensa. Cada filho escolheu o que queria
entre os muitos vidros de suco de tomate, sementes cruas e geleia. Quando meu
marido trouxe para casa os potes que ficaram para ele, nós os colocamos
cuidadosamente na despensa.
Outro dia, quando fui fazer um sanduíche, eu o
vi. Sozinho, no canto da prateleira, um pequeno pote de geleia de uva. A tampa
tinha até uns pontos de ferrugem. Sobre a tampa, com pincel atômico, estava
escrito UVA e o ano em que a geleia fora feita.
Só
quando peguei o pote foi que me dei conta. Abri novamente a porta da despensa
para ter certeza. Era o último pote da geleia feita pelas mãos amorosas e
pacientes da minha sogra.
Durante
esse ano após a sua morte, cada vez que abríamos um pote de geleia no café da
manhã, ela se fazia presente. De repente' tomamos consciência de que nossos
filhos nunca passaram um dia sem a geleia feita pela avó. Aquilo que nos
parecia a coisa mais natural do mundo hoje se transformara num grande tesouro.
Com
o pote nas mãos, meu coração se encheu de lembranças. Podia ver minha sogra
chorando no dia do nosso casamento e, mais tarde, beijando e mimando nossos
filhos. Podia vê-la andando pela fazenda, colhendo uvas, ou percorrendo o
bosque em busca de amoras. Depois, debruçada sobre o tacho esperando a geleia
ficar no ponto. Foram muitas as imagens que desfilaram na minha frente e em
todas aparecia aquela mulher alegre, generosa, capaz de tanto afeto.
Coloquei
o pote de volta na prateleira. Não se tratava mais de um simples pote de
geleia. Era o fim de uma tradição da família. Imagino que eu acreditei que,
enquanto ele estivesse ali, uma parte de minha sogra permaneceria viva.
Temos
em casa muitas coisas que pertenceram aos pais do meu marido, coisas que irão
passar para nossos filhos. Mas não estou pronta para abrir mão desse último
pote de geleia e da riqueza de lembranças que ele me traz. Um dia vamos ter de
abri-lo ou jogá-lo fora... mas não hoje.
ANDY SKIDMORE
RESISTINDO
DEBORAH SHOUSE
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 156
Quando criança, costumava acordar, vestir meu
jeans e descer correndo a rua até a casa de Ann.
Hoje não me apresso. Passeio pela nossa antiga
vizinhança, prestando atenção ao arbusto de murta cujas frutas Ann e eu
costumávamos roubar, nas árvores de magnólia que ainda embelezam os gramados,
no banco de cimento onde Ann e eu nos sentávamos para rogar pragas nos outros.
Respiro fundo e bato na porta da casa da
família de Ann.
Seu pai chega à porta.
- Ela está no quarto - ele diz.
A entrada parece menor do que eu me lembrava.
- Entre - diz Ann, quando bato timidamente na
porta.
Antes de girar a maçaneta, observo as
fotografias que estão na parede do saguão: Ann sem os dois dentes da frente,
Ann com um vestido amarelo de babados, Ann em cima de um cavalo, Ann em sua
beca de formatura. Nos anos que passamos sem nos ver, acrescentamos às nossas
vidas carreiras, maridos e filhos.
Nos últimos cinco anos, Ann vem lutando contra
um câncer.
Ela parece frágil e bonita, apoiada nos
travesseiros, numa camisola de cetim rosa. Um lenço vermelho lhe cobre a
cabeça.
Um cigarro tremula em sua mão direita.
Quando tinha quatorze anos, Ann acordava e
riscava um fósforo na parede para acender o primeiro cigarro do dia. Eu adorava
ver as marcas de carvão pela superfície, como símbolos orientais. Decadente, eu
pensava, sendo invejosa. Ela podia fazer o que quisesse porque seu pai nunca se
zangava.
O pai de Ann entra no quarto, trazendo xícaras
de chá de ervas.
- Você precisa de mais alguma coisa? -
pergunta. Fios prateados agora suavizam seu cabelo, antes tão escuro.
Ann sorri e faz que não com a cabeça. Bate
levemente na cama, indicando um lugar, e eu me sento a seu lado, abraçando-a
gentilmente. Eu a seguro como se ela fosse um segredo se revelando.
- Veja só! Finalmente, estou mais magra que
você - ela diz, rindo e esticando as pernas que agora parecem de criança em sua
magreza.
A morfina que lhe permite sentar-se sem dor
suavizou seu discurso. Mas seu riso é o mesmo. A doçura de seu rosto redondo é
a de quando tinha quatro anos e nos tornamos amigas.
- Vamos ser melhores amigas? - Ann me
perguntara. As duas em pé, apenas uma cerca nos separando. As famílias tinham
acabado de se mudar para a vizinhança.
- Claro - respondi.
- Debbie, venha jantar - minha mãe chamou pela
segunda vez.
Vi Ann descer a rua até sua casa, se inclinando
para colher dentes-de-Ieão pelo caminho. Então atravessei o pátio, a grama nova
beliscando meus pés. Eu me sentia como um balão que finalmente se soltara em
direção ao céu. Algo importante acontecera: eu não dependia mais de pai e mãe
para ser amada. Eu tinha uma amiga.
- Com licença, preciso ir ao banheiro - Ann
diz.
Ela sempre me ganhava no revezamento. Agora ela
caminha com cuidado, como se tivesse ovos nos bolsos. Penso em nós quando
crianças, socadas no banheiro da casa, nos alternando, uma no vaso, a outra
pendurada na lateral da banheira. Ir ao banheiro era o mesmo que jogar xadrez
ou trocar a roupa de bonecas.
Não víamos motivo de nos separarmos naquele
momento.
Mas nós nos separamos por anos, embora sempre
em contato quando precisávamos de apoio e de uma boa conversa. Ela conhece
minhas filhas sem jamais tê-Ias visto, e eu adoro seu marido pelo carinho e
apoio que ele lhe dedica. Olho à volta de seu antigo quarto e vejo a prateleira
com os velhos exemplares dos livros que teceram um caminho em nossa infância.
- Você quer ver minha cabeça? - Ann pergunta,
quando volta ao quarto.
- Quero - respondo.
Seguro a respiração quando ela tira o lenço.
Ann parece luminosa sem ele. A curva poderosa da cabeça é suavizada por algumas
mechas de cabelo.
Toco meu próprio cabelo, lembrando as horas de
agonia que passei enrolando-o, para ter as mesmas ondas suaves de Ann. Seu
cabelo escuro sempre ondulava da maneira certa, enquanto o meu era um
emaranhado de cachos.
- No início, eu estava com medo de andar sem a
peruca.
Mas meu marido acabou gostando de me ver assim.
Peguei-o olhando para mim e sorrindo - ela conta.
Lentamente Ann se ajeita na cama e, como
fizemos tantas vezes, conversamos. Costumávamos falar sobre rapazes, agora
falávamos de homens. Antes falávamos sobre a escola, agora o assunto era o
trabalho. Falávamos sobre o que gostaríamos de ser e o que considerávamos
importante: ainda fazemos isso.
Nossa história nos une, como berloques numa
pulseira de prata.
Ann me fala de seu ano, no qual suportou dores
terríveis, incapaz de comer, imaginando-se sem forças sequer para acabar a
série de quimioterapia. Fico em silêncio ante sua coragem, admirada com sua
força.
- Fale-me de você - ela insiste. - Sobre suas
filhas.
Quando começo a falar, vejo seus olhos fechados
e tremulando.
Também fecho os meus. Quando crianças,
dormíamos juntas em muitos lugares diferentes: o banco de trás dos carros de
nossos pais, sua casa de boneca perto da macieira, minha cama dupla, um
cobertor estendido no gramado da frente.
Acordo sentindo um cobertor sobre mim. O pai de
Ann está me cobrindo. Minha amiga já está sob uma colcha marrom.
- Você estava dormindo tão serena - ele
sussurra. - Lembrei a época em que eram meninas.
Eu sinto ali aconchego e carinho. Observo Ann
dormindo, reconhecendo seu rosto como uma canção familiar.
Ela abre os olhos e sorri para mim.
- Eu não teria adormecido na frente de uma
pessoa qualquer - ela diz.
- Nem eu - retruco.
Chego mais perto e toco seu pulso. Lembro-me de
nossas brincadeiras, quando nos dávamos as mãos e as crianças tentavam passar
pela barreira que formávamos. Provocávamos Billy, que batia em nossas mãos
grudadas. Conseguíamos nos manter firmes, mãos sempre unidas.
Ann segura minha mão. Seu rosto se crispa de
dor. Entrelaço meus dedos com os dela e aperto firmemente.
Um amigo pode ser considerado a obra-prima da natureza.
RALPH WALDO EMERSON
O POTE RACHADO
WILLY McNAMARA
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 161
Um carregador de água indiano servia seu mestre
transportando água de um riacho até sua casa. Ele carregava a água em dois
potes pendurados nas extremidades de uma vara que equilibrava sobre os ombros.
Um dos potes tinha uma rachadura, o outro
estava intacto. O pote sem rachaduras sempre chegava cheio à casa do mestre,
enquanto o outro chegava pela metade.
Essa mesma história se estendeu por dois anos
inteiros.
Todos os dias o carregador de água entregava na
casa do mestre um pote cheio e o outro pela metade. O pote que chegava cheio
naturalmente sentia orgulho do serviço que prestava, consciente de que cumpria
o fim para o qual fora feito. Mas o pote rachado era infeliz, envergonhava-se
da sua condição imperfeita, sentindo-se miserável por ser capaz de cumprir
apenas metade da tarefa para a qual se destinava.
Depois de uma eternidade do que lhe parecia um
terrível fracasso, o pote rachado falou para o carregador de água:
- Sinto tanta vergonha de mim mesmo! Queria lhe
pedir desculpa.
- Mas por quê? - perguntou o carregador de
água.
- Nos últimos dois anos essa rachadura na minha
lateral fez com que a água vazasse pelo caminho até a casa do mestre, fazendo
com que eu só conseguisse entregar metade da minha carga.
Você fez o seu trabalho, mas, por causa do meu
defeito, não pôde beber o valor integral pelos seus esforços - lastimou o pote
aflito.
Gentilmente, o carregador de água disse ao
pote:
- Quando voltarmos da casa do mestre hoje,
repare nas flores adoráveis às margens do caminho.
Quando o trio fez o caminho de volta, colina
acima, o velho pote rachado notou as belas flores do campo - o sol fazendo cintilar
suas faces brilhantes, a brisa curvando seus caules. Mas ainda assim, no fim da
trilha, o pote defeituoso sentiu-se mal porque novamente tinha deixado vazar
metade do seu conteúdo. Por isso, mais uma vez, pediu desculpas ao carregador
pela sua falha.
Mas o carregador disse ao pote:
- Você notou que só havia flores de um lado da
estrada? Como eu sempre soube dessa sua "falha”, semeei flores nesse lado
do caminho e todo dia, ao fazermos o trajeto de volta, você rega essas flores.
E todos os dias posso colher essas lindas flores e enfeitar a mesa do nosso
mestre. Se você não fosse do jeito que é, o mestre não poderia apreciar a
beleza graciosa dessas flores em sua casa.
PAPÉIS TROCADOS
THE BEST OF BITS e
PIECES
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 163
Mary tinha um marido muito machista. Ambos
trabalhavam em horário integral, mas ele não a ajudava em nada que se referisse
à casa, muito menos no serviço doméstico. Isso, ele dizia, era trabalho de
mulher.
Mas, numa noite, Mary chegou e encontrou as
crianças já de banho tomado, a máquina de lavar batendo roupas, um outro tanto
na secadora. O jantar estava pronto e a mesa lindamente posta, até com um
arranjo de flores.
Mary ficou atônita, e imediatamente quis saber
que milagre era aquele. Acontece que Charley, o marido, lera um artigo de
revista segundo o qual mulheres que trabalham fora se comportariam de maneira
mais romântica se não ficassem tão cansadas, tendo de fazer todo o serviço de
casa depois de darem duro o dia inteiro.
No dia seguinte, Mary mal podia esperar para
contar a novidade às colegas do escritório.
- Como foi? - elas perguntaram.
- Bem, o jantar foi ótimo - Mary disse. -
Charley inclusive lavou a louça, ajudou as crianças com os deveres da escola,
dobrou a roupa limpa e pôs tudo nos lugares.
- Mas e depois? - as amigas queriam saber.
- Não aconteceu nada - Mary disse. - Charley
estava cansado demais.
ENCONTRO COM BETTY FURNESS
BARBARA HAINES HOWETT
Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 165
Era o ano de 1964, quando os turistas
disputavam o famoso calçadão de Atlantic City com a Convenção Nacional
Democrática.
Na ocasião, eu trabalhava como garçonete num
restaurante muito frequentado, além de criar cinco filhos e ajudar meu marido
com o nosso mais novo empreendimento - um jornal semanal. Portanto, apesar da
minha euforia e da abundância de gorjetas, eu estava simplesmente exausta e só
via a hora de tudo aquilo acabar.
Uma noite, aproximei-me da mesa de uma cliente
sem muito entusiasmo. Ela era mais magra e delicada do que eu podia me lembrar
dos anos em que passou abrindo e fechando geladeiras nos comerciais da década
de 1950, mas a voz firme e agradável era inconfundível. A mulher que iria
jantar ali sozinha era Betty Furness.
Seu jeito caloroso e amigável amenizou o meu
espanto por ter de servir uma celebridade. Soube então que ela viera a Atlantic
City para fazer a cobertura jornalística da Convenção Nacional Democrática para
um programa de rádio. Quando trouxe sua conta, juntei coragem para lhe pedir
uma entrevista para o nosso pequeno jornal de subúrbio. Ela aceitou,
convidando-me para almoçar.
Dois dias depois, ao me aproximar do hotel onde
ela se hospedava, eu me sentia ora exultante com a sorte que tivera, ora
nervosa diante da perspectiva de entrevistar uma mulher que um dia já chegara a
receber mil e trezentas cartas de fãs semanalmente.
Eu já sabia um bocado sobre o meu tema. Modelo
de uma grande agência aos catorze anos e estrela de cinema aos dezesseis, ela
acabou se tornando um sucesso nos palcos. Mas era mais conhecida pela carreira
brilhante como a mulher número 1 em vendas em todo os Estados Unidos. O nome
Betty Furness era sinônimo de eletrodoméstico.
Por isso, durante a entrevista, me surpreendi
com sua eloquência:
- Nunca mais farei outro comercial de TV na
minha vida ela afirmou.
Betty me explicou que, quando fechou pela
última vez a porta de uma geladeira nos comerciais da década de 1960, ela
estava determinada a seguir uma outra carreira, desta vez no campo dos
noticiários.
- Eu sabia que o mundo estava cheio de
informações e que as pessoas estavam ávidas por elas - contou-me Betty. -
Queria fazer parte disso.
E, no entanto, apesar de trabalhar nos
noticiários da CBS, ela só ouvia-lhe dizerem que, tecnicamente, ela não era uma
repórter.
- Isso era o que eu mais queria ser, mas a
imprensa e o público se recusavam a levar a sério o meu desejo de fazer
noticiários.
Havia alguma coisa na história dela que me
pareceu extremamente familiar. Todo mundo me via como uma "simples
garçonete", não como uma escritora. "Escritor é quem escreve",
as pessoas diziam. Mas quando eu teria o dinheiro, o tempo, a força e a
perseverança suficiente para me transformar no que eu queria - alguém como essa
mulher, que tivera três carreiras pelas quais a maioria das mulheres daria tudo
e que agora buscava uma outra para se realizar plenamente.
Mas a medida real do caráter dela, as
"dimensões" do mundo dessa mulher, revelou-se no seu comentário
final.
- Toda a minha vida se baseou numa única
filosofia. Tenha o trabalho que tiver, faça-o da melhor forma possível e você
acabará topando com as oportunidades certas de fazer o que realmente quer.
Nos anos que se seguiram a esse maravilhoso
encontro com Betty, pude vê-Ia colocar sua sabedoria em prática. Pouco tempo
depois da convenção, sua incrível força de vontade e sua visão positiva
levaram-na a conseguir uma nova e desafiadora carreira como assistente especial
de Lyndon Johnson para assuntos relacionados ao consumidor. Ela progrediu mais
ainda e tornou-se chefe do Conselho de Proteção ao Consumidor em Nova York e
membro da comissão encarregada dos assuntos ligados ao consumidor. Quando ouvi essa
notícia, lembrei-me da filosofia dela e desejei-lhe felicidades.
Nos últimos anos, costumo vê-Ia toda noite no
canal 5 de Nova York, como a primeira repórter de TV sobre assuntos
relacionados ao consumidor. Rio em reconhecimento quando ela comenta sobre
fabricantes de lençóis que não cabem nos colchões. Fiquei satisfeita quando
soube através dela o que de fato continham alguns remédios comprados sem
receita médica. E uma das suas reportagens mais recentes era típica de Betty:
como se proteger dos hospitais - isso enquanto ela mesma entrava e saía de
hospitais para se tratar de um câncer.
Ao longo dos anos, continuei estudando as
palavras de Betty, que eu anexei à sua foto autografada. Coisas extraordinárias
aconteceram na minha vida depois que me empenhei em colocar essas palavras em
prática - algumas depois reforçadas pelo especialista em mitologia Joseph
Campbell, que escreveu: "Siga a sua brisa interior e portas se abrirão
onde antes não havia portas." Empregos que eu nunca quis ou imaginei que
um dia teria passaram a ser apaixonantes, caminhos inesperados levaram-me a
lugares com que nunca sonhei. Tudo começou aos trancos e barrancos. Passei de
garçonete a gerente de relações públicas de um hospital, de repórter de jornal
a editora associada de várias revistas, de consultora editorial a instrutora
internacional - até finalmente realizar meu sonho de ser escritora
profissional.
No dia em que vi o obituário de Betty soube
que, aos setenta e seis anos, ela recebera o título de "a repórter mais
idosa da TV". Enquanto lia sobre a vida dela e suas realizações, voltei à
época daquela entrevista, quando ela contou seus segredos para mim. Mal sabia
eu a grande dádiva que estava recebendo dessa generosa mulher que, naquele dia,
percebera minha frustração.
Lembro-me dos participantes da convenção
passando rapidamente por mim, enquanto eu pensava que minha vida não era
exatamente o que eu pretendia. No entanto, eu tive a oportunidade de
entrevistá-Ia, não tive? Tenha o trabalho que tiver, faça-o da melhor forma
possível e você acabará topando com as oportunidades certas de fazer o que
realmente quer.
Sim, ao longo dos anos tínhamos perseguido
nossos sonhos separadamente e encontrado nossas oportunidades. Foi preciso
talento, visão, comprometimento, perseverança e, o que é mais importante, uma
fé inquebrantável de que podíamos reinventar a nós mesmas.
Mas tudo começou naquele momento, ali nas ruas
de Atlantic City. Respirando fundo, forcei passagem entre a multidão, deixando
um pouco de lado minhas ideias piramidais para a matéria que eu queria escrever
aquela noite sobre Betty Furness.
Primeiro, eu tinha um trabalho para fazer da
melhor maneira possível. Precisava alimentar minha família.
UM CÂNTICO NA ESCURIDÃO
Max Lucado
Histórias Para o Coração 15
Se fosse em qualquer outro dia, provavelmente eu
não teria parado. Assim como a maioria das pessoas que caminhavam por aquela
avenida movimentada, eu não teria notado a presença dele ali, em pé. Porém, em
minha mente, eu sabia qual era o verdadeiro motivo de ele estar naquele lugar,
por isso parei.
Eu havia passado parte da manhã preparando um
estudo sobre o capítulo nove de João, aquele que narra a história do homem cego
de nascença. Eu já havia almoçado e retornava a meu escritório quando o
avistei. Ele estava cantando. Segurava uma bengala de alumínio na mão esquerda;
a mão direita estava estendida e aberta, aguardando esmolas. Ele era cego.
Passei por ele e, após uns cinco passos, parei
e resmunguei alguma coisa para mim mesmo a respeito da hipocrisia e dei
meia-volta.
Coloquei alguns trocados na mão dele.
- Obrigado - ele disse. Em seguida, proferiu
uma frase muito comum no Brasil: - Deus lhe pague e lhe dê muita saúde.
Desejo irônico.
Mais uma vez, segui meu caminho. Novamente, o
estudo daquela manhã sobre o capítulo nove de João me fez parar: "Jesus
viu um homem cego de nascença". Parei e meditei. Se Jesus estivesse aqui.
teria visto esse homem. Eu não tinha certeza do que aquilo significava, mas
sabia que não havia feito o que devia. Dei meia-volta outra vez.
Imaginando que minha esmola tivesse dado a mim
o direito de fazer o que fiz em seguida, parei perto de um carro nas
proximidades e fiquei observando. Forcei-me a olhar para ele. Eu ficaria ali
até ver nele mais do que um simples indigente cego em uma via movimentada do
centro do Rio de Janeiro.
Eu o vi cantar. Alguns pedintes encolhem-se em
uma esquina suplicando piedade. Outros deitam seus filhos em cobertores no meio
da calçada, sem nenhum pudor, imaginando que somente as pessoas de coração
empedernido não dariam atenção a um bebê sujo e desnudo pedindo um pedaço de
pão.:..
Aquele homem, porém, não fazia nada disso.
Estava em pé. Tinha um porte altivo. E cantava. Cantava alto. Até mesmo com
orgulho.
Qualquer um de nós teria mais motivos para
cantar do que ele, más ele era o único que cantava. E mais: cantava canções
folclóricas.
Em determinado momento, achei que ele cantou um
hino, mas não tive certeza.
Sua voz rouca não combinava com o burburinho de
um centro comercial. Igual a um papagaio que conseguiu entrar em uma fábrica
barulhenta, ou a uma corça perdida em um cruzamento viário, seu cântico evocava
um estranho casamento entre o progresso e a simplicidade.
Os passantes reagiam de maneiras diferentes.
Alguns olhavam descaradamente para ele, com ar de curiosidade. Outros pareciam
desconfortáveis. Abaixavam a cabeça ou desviavam o caminho.
- Nada de tristeza hoje, por favor.
A maioria, contudo, mal notava a presença dele.
Tinham a mente ocupada, a agenda cheia, e ele não passava de... bem, ele não
passava de um mendigo cego.
Fiquei satisfeito por aquele homem não poder
ver o modo como as pessoas olhavam para ele. Após alguns minutos, voltei a
aproximar-me dele.
- Você almoçou? - perguntei. Ele parou de cantar. Virou a cabeça na
direção de minha voz e dirigiu o rosto para um ponto além de minha orelha. Seu
olhar era vazio. Ele disse que estava com fome. Dirigi-me a uma lanchonete nas
proximidades e comprei um sanduíche e um refrigerante gelado para ele.
Quando voltei, ele continuava a cantar com as
mãos vazias.
Agradeceu-me a comida. Sentamo-nos em um banco
perto dali. Entre uma mordida e outra, ele me contou um pouco de sua vida.
Tinha 28 anos. Era solteiro._ Vivia com os pais e sete irmãos.
- Você é cego de nascença? Não. Sofri um acidente quando era menino.
Ele não se dispôs a contar detalhes, e eu não
tive coragem de perguntar.
Apesar de termos quase a mesma idade, estávamos
a anos-luz de distância. Minhas três décadas de vida consistiam de férias de
verão em excursões com a família, Escola Dominical, equipes de debate, futebol
e uma busca pelo Todo-Poderoso. Crescer cego no Brasil certamente não oferecia
nenhuma dessas regalias.
Minhas preocupações diárias atuais estavam
voltadas para pessoas, pensamentos, conceitos e comunicação. O dia dele era
feito de preocupações de sobrevivência: moedas, donativos e comida. Eu iria
para casa - um belo apartamento com comida quente e uma esposa bondosa. Eu
detestava pensar no lar para o qual ele voltaria.
Já havia visto barracos apinhados de gente nos
morros do Rio de Janeiro e podia imaginar como seria o dele. E a recepção que
ele teria... haveria alguém para fazê-la sentir-se especial quando voltasse
para casa?
Estive a ponto de -perguntar-lhe: "Você
não fica furioso por eu não ser você? Não fica acordado à noite se perguntando
por que o quinhão que lhe coube foi tão diferente do de alguém que ganhou muito
dinheiro ou de outras pessoas nascidas 30 anos atrás?" Eu trajava camisa,
gravata e sapatos novos. Os sapatos dele tinham furos, e a roupa era volumosa,
bem maior que seu corpo.
Uma das pernas da calça estava rasgada no
joelho.
Mesmo assim, ele cantava. Apesar de cego e sem
dinheiro, ele havia encontrado uma canção e a cantava com intrepidez. (Eu me
perguntei de que compartimento de seu coração teria surgido aquela canção.) Na
pior das hipóteses, imaginei, ele cantava por desespero. A canção era tudo o
que ele possuía. Mesmo quando não recebia nenhuma moeda, ele tinha, ao menos,
uma canção. Contudo, parecia ter uma grande paz interior para estar cantando
apenas para sobreviver.
Ou talvez cantasse por ignorância. Talvez não
soubesse o valor daquilo que nunca teve.
Não. Eu decidi que a motivação que explicava
sua conduta era a última imaginável. Ele estava cantando de alegria. Talvez
aquele pobre homem cego tivesse descoberto uma vela chamada satisfação, que
iluminava seu mundo totalmente escuro. Alguém deve ter-lhe dito, ou talvez ele
tivesse descoberto sozinho, que a alegria de amanhã origina-se da aceitação do
hoje. Aceitação daquilo que pelo menos momentaneamente, não podemos modificar.
- Olhei para aquela imensidão de rostos que
passavam por nós.
Semblantes carrancudos. Profissionais. Alguns
determinados. Outros disfarçados. Mas ninguém estava cantando, nem mesmo
silenciosamente. Como seria se o rosto de cada pessoa demonstrasse o que
realmente se passava em seu coração? Quantos diriam "Desesperado!
Dificuldades nos negócios!" ou "Quebrado:
Necessitando de Conserto" ou
"Decepcionado, Agitado e Apavorado"? Pouquíssimos.
A ironia era dolorosamente engraçada. Aquele
cego podia ser o homem mais sereno da rua. Sem nenhum diploma, sem nenhum
reconhecimento, sem nenhum futuro pelo menos no
sentido estrito da palavra. E eu me perguntei quantas pessoas naquela cidade
tresloucada trocariam suas salas de reuniões e ternos elegantes, por um segundo
sequer, para ter a oportunidade de beber um pouco da água do poço daquele
jovem.
"Fé é o pássaro que canta enquanto o dia
ainda não clareou."
Antes de ajudar meu amigo a voltar à sua
posição de pedinte, tentei verbalizar minha empatia.
- A vida é dura, não?
Um ligeiro sorriso. Novamente, ele virou o
rosto na direção de minha voz e ameaçou dar uma resposta, mas fez uma pausa e
disse:
- É melhor eu voltar ao meu trabalho.
Mesmo a uma distância de quase um quarteirão,
eu ainda o ouvia cantar. E podia vê-lo com os olhos da mente. Porém, o homem
que agora eu' via era diferente daquele a quem eu dera alguns trocados. Apesar
de continuar cego, ele possuía um discernimento extraordinário. E, apesar de
ser eu quem enxergava; foi ele quem me deu uma nova visão.
SEMPRE RESTA ALGUMA COISA PARA AMAR
Tony Campolo
Histórias Para o Coração 20
Alguns anos atrás, assisti à peça Raisin in the
Sun (Uva Passa ao Sol), de Lorraine Hansberry, e ouvi um trecho que até hoje
não me sai da memória. Na peça, uma família afro-americana recebe US$ 10.000
provenientes do seguro de vida do pai. A dona da casa vê no dinheiro a
oportunidade de deixar o gueto onde vivia no Harlem e de mudar-se para uma casa
no campo, enfeitada com jardineiras. À filha, uma moça muito inteligente, vê no
dinheiro a oportunidade de realizar seu sonho de estudar medicina.
O filho mais velho, contudo, apresenta um
argumento difícil de ser ignorado. Quer o dinheiro para que ele e um
"amigo" iniciem um negócio juntos. Diz à família que, com o dinheiro,
ele poderá trabalhar por conta própria e facilitar a vida de todos. Promete
que, sê puder lançar mão do dinheiro, proporcionará à família todos os
confortos que a vida lhes negou.
Mesmo contra a vontade, a mãe cede aos apelos
do filho. Ela tem de admitir que as oportunidades nunca foram tão boas para ele
e que ele merece a vida boa que esse dinheiro pode oferecer-lhe.
Conforme você deve ter imaginado, o tal
"amigo" foge da cidade com o dinheiro. Desolado, o filho é forçado a
voltar para casa e dizer à Família que suas esperanças para o futuro lhe foram
roubadas e que seus sonhos; de uma vida melhor foram desfeitos. A irmã
atira-lhe no rosto toda sorte de insultos. Qualifica-o com as palavras mais
grosseiras que se possa imaginar. Seu desprezo em relação ao irmão não tem
limites.
Quando ela pára um pouco para respirar, a mãe a
interrompe e diz:
- Pensei que tivesse ensinado você a amar seu
irmão.
Beneatha, a filha, responde:
- Amar meu irmão? Não restou nada nele para eu
amar.
E a mãe diz:
- Sempre sobra alguma coisa para amar. E, se
você não aprendeu isso, não aprendeu nada. Você chorou por ele hoje? Não estou
perguntando se você chorou por causa de si mesma e de nossa família, por termos
perdido todo aquele dinheiro. Estou perguntando se chorou por ele: por aquilo
que ele sofreu e pelas conseqüências que terá de enfrentar. Filha, quando você
acha que é tempo de amar alguém com mais intensidade: no momento em que faz
coisas boas e facilita a vida de todos? Bem, então você ainda não aprendeu nada,
porque esse não é o verdadeiro momento de amar. Devemos amar quando a pessoa
está se sentindo humilhada e não consegue acreditar em Si mesma, porque o mundo
a castigou demais. Se julgar alguém, faça-o da forma certa; filha, da forma certa. Tenha a certeza
de que você levou em conta os revezes que ele sofreu antes de chegar ao ponto
em que está agora.
Essa é a graça misericordiosa! É o amor
ofertado quando não se fez nada para merecê-lo. É o perdão concedido quando não
se fez nada para conquistá-lo. É a dádiva que flui como as águas refrescantes
de um riacho para extinguir as labaredas provocadas por palavras de condenação
carregadas de ira.
O amor que o Pai nos oferece é muito mais
abundante e generoso.
A graça que Deus nos dá é muito mais copiosa.
ACEITAÇÃO
Paul Brad e Philip Yancey
Histórias Para o Coração 22
John Karmegan, um paciente leproso, foi me procurar
em Vellore na Índia. Sua enfermidade se encontrava-se em estado avançado. Pouco
podíamos fazer por ele em termos
cirúrgicos, seus pés e mãos já haviam
sofrido lesões irreparáveis.
Podíamos, contudo, oferecer-lhe um lugar para
morar e um emprego no Centro Vida Nova.
Uma paralisia de um dos lados da face o impedia
de sorrir normalmente. Quando John tentava dar um sorriso, suas feições ficavam
distorcidas, chamando a atenção para a paralisia. Normalmente as pessoas
reagiam com um grito sufocado ou com um gesto de medo e por isso ele aprendeu a
não sorrir. Margaret minha esposa, havia suturado parcialmente suas pálpebras
para proteger-lhe a visão. A paranoia de John foi aumentando cada vez mais em
relação ao que os outros pensavam dele.
- John teve problemas terríveis no convívio
social, talvez como forma de reagir à sua aparência desfigurada. Demonstrava
raiva pelo mundo e agia como um baderneiro. Lembro-me de várias situações
tensas que tivemos de enfrentar pelo fato de haver provas contra John de
envolvimento em roubos e em outros atos de desonestidade.
Ele tratava seus companheiros enfermos com
crueldade e resistia a toda sorte de autoridade chegando ao ponto de organizar
greves de fome para nos hostilizar. Na opinião da maioria das pessoas ele era
um homem irrecuperável.
Essa condição irrecuperável de John deve ter
atraído a atenção de minha mãe, porque ela sempre dedicou-se a compreender os
elementos mais indesejáveis da espécie humana. Ela preocupou-se com ele e
passava horas a seu lado, até o dia em que o levou aceitar a fé cristã e foi
batizado em um tanque de cimento nas instalações do leprosário.
A conversão, contudo, não diminuiu os acessos
de raiva de John contra o mundo. Ele fez alguns amigos entre os companheiros de
enfermidade, mas uma vida inteira de rejeição e de maus-tratos deixaram marcas
permanentes de exacerbação contra todas as outras pessoas. Certo dia, John me
perguntou, de maneira quase desafiadora, o que aconteceria se ele visitasse a
igreja Tamil de Vellore.
Fui falar com os líderes da igreja, descrevi
John e assegurei-Ihes que, apesar de suas deformidades marcantes, ele havia
entrado em uma fase da doença que não poria em risco a saúde dos membros da
congregação. Os líderes concordaram com a visita de John. Ele pode participar
da Ceia? - perguntei, sabendo que a igreja usava o mesmo cálice para todos.
Eles se entreolharam, refletiram por alguns
instantes e concordaram em que John também poderia participar.
Pouco tempo depois, levei John à igreja, que se
reunia em uma casa simples A Igreja era uma casa de tijolos caiados, com teto
de chapas de ferro onduladas. Foi um momento tenso para ele. Todos nós, pessoas
sadias, mal podemos imaginar o trauma e a paranoia que ocorrem dentro de um
paciente leproso que tenta, pela primeira vez, entrar em um ambiente como
aquele. Fiquei em pé ao lado dele nos fundos da igreja. Seu rosto paralisado
não expressava nenhuma reação, mas um ligeiro tremor deixava transparecer seu turbilhão
interior. Orei silenciosamente para que nenhum membro da Igreja demonstrasse o
mais leve sinal de rejeição.
Assim que entramos na igreja, durante o cântico
do primeiro hino, um indiano virou-se para trás e nos viu. Devíamos ser a dupla
estranha: um branco de pé ao lado de um leproso com um rosto desfigurado.
Prendi a respiração.
E vejam o que aconteceu. O homem fechou o
hinário, deu um largo sorriso e apontou para a cadeira a seu lado, convidando
John a sentar-se ali. John foi pego de surpresa. Altivo, ele caminhou com
passos arrastados até a fileira de cadeiras e sentou-se. Murmurei uma oração de
gratidão.
Aquele único incidente marcou uma mudança
radical na vida de John. Anos mais tarde, retomei a Vellore e fiz uma visita a
uma fábrica que havia sido instalada para dar emprego a deficientes físicos. O
gerente queria mostrar-me um equipamento que produzia minúsculos parafusos para
peças de máquinas de escrever. Enquanto caminhávamos pela fábrica barulhenta, o
gerente gritou para mim que me apresentaria a um funcionário exemplar, o qual
acabara de receber um prêmio da matriz, representando todas as filiais da Índia,
pela excelente qualidade de seu trabalho, com um número extremamente baixo de
peças rejeitadas. Quando chegamos ao seu focal de trabalho, o operário virou-se
para nos cumprimentar, e eu vi o inconfundível rosto desfigurado de John
Karmegan. Ele limpou a graxa de sua mão rechonchuda e contorceu o rosto, dando
o sorriso mais feio, mais encantador e radiante que já vi. Em seguida, ele me
mostrou, para minha avaliação, um punhado daqueles minúsculos parafusos que o
fizeram ganhar o prêmio.
Um simples gesto de aceitação talvez não
signifique muito, mas, para John Karmegan, provou ser decisivo. Após ter sido
ignorado a vida inteira por sua imagem física ele finalmente foi acolhido por
causa de outra Imagem. Eu acabara de ver uma reprodução da própria
reconciliação de Cristo. Seu Espírito havia induzido seu Corpo na terra a
adotar um novo membro, e, finalmente, John soube que pertencia a ele.
CORAGEM
Histórias Para o Coração 26
Aconteceu algumas semanas antes do Natal de
1911. As lindas paisagens cobertas de neve da Europa estavam enegrecidas pela
guerra.
As trincheiras, de um lado, abrigavam alemães
e, do outro, norte-americanos. A Primeira Guerra Mundial estava em curso. A
troca de tiros era intensa. Separando os inimigos havia uma faixa de terra
muito estreita, que não pertencia a nenhum dos lados. Um jovem soldado alemão
que tentara cruzá-la foi baleado e acabou enroscado na cerca de arame farpado.
Ele gritou de desespero, gemia de dor. Entre uma bomba e outra, todos os
norte-americanos daquele setor podiam ouvir seus gritos. Não suportando mais
aquilo, um soldado norte-americano saiu da trincheira e rastejou em direção ao
soldado alemão. Quando os norte-americanos perceberam o que o colega estava
fazendo, imediatamente pararam de atirar, mas os alemães prosseguiram. Um
oficial alemão viu o gesto altruísta do jovem norte americano e ordenou que
seus comandados cessassem fogo. Houve um silêncio estranho naquela faixa de
terra. O norte-americano rastejou até o soldado alemão e o desenroscou do arame
farpado. Em seguida, ele se levantou, apoiou o alemão, e caminhou em direção às
trincheiras inimigas e o deixou nos braços dos companheiros. Após ter feito
isto, virou-se para voltar às trincheiras norte-americanas.
De repente, sentiu uma mão pousar em seu ombro
e olhou para trás. Lá estava um oficial alemão que havia recebido a Cruz de
Ferro, a mais alta condecoração alemã por bravura. Ele arrancou a medalha da
farda e a colocou na do norte-americano, que retornou para sua trincheira.
Quando chegou são e salvo, todos voltaram a ocupar-se com a loucura da guerra!
HUMPTY DUMPTY RECEBE NOVA VISTA
Vic
Pentz
Histórias Para o Coração 28
Mas,
logo a seguir, o Rei tomou conhecimento da queda de Humpty e ficou muito
preocupado. Deixando de lado
seus
aparatos reais e disfarçado como um mendigo
qualquer, o Rei atravessou, despercebido, os majestosos portões
do palácio e misturou-se à vida agitada e confusa do povo de seu reino.
O
Rei andou a esmo por ruas secundárias e vielas à procura de Humpty. Após vários
dias e noites, o persistente monarca o encontrou. Os fragmentos do corpo de
Humpty estavam em uma viela espalhados em um raio de mais de três metros,
misturados com cacos de vidro e latas de cerveja amassadas. Apesar de sentir-se
fraco por ter andado tanto tempo à procura de Humpty, o Rei ficou muito feliz ao
vê-lo. Correu para perto dele e gritou:
-
Humpty! Sou eu, o seu Rei! Tenho poderes maiores que os de meus homens e
cavalos, que não conseguiram juntar seus pedaços. Fique tranquilo. Estou aqui para ajudar!
-
Deixe-me em paz - disse Humpty, com a boca retorcida. - Já me acostumei a esta
nova vida. Estou até gostando dela.
-
Mas ... - foi tudo o que o Rei pôde dizer antes de Humpty prosseguir.
-
Não se preocupe, estou bem. Gosto
daqui. Daquelas latas amassadas ... da
maneira como a luz do Sol brilha nos vidros quebrados... Aqui deve ser o jardim
mais famoso do mundo!
O
Rei tentou novamente.
-
Eu lhe asseguro que meu reino tem muito mais a oferecer do que esta viela
escura. Lá existem montanhas verdejantes, ondas quebrando na praia, cidades
exuberantes...
Mas
Humpty não queria saber de nada disso. E, assim, o Rei retornou aborrecido ao
palácio.
Uma
semana depois, um dos olhos de Humpty virou em direção ao céu, e ele viu mais
uma vez o rosto preocupado do Rei pairando sobre os fragmentos de seu corpo.
-
Eu vim para ajudar - disse o Rei, com firmeza.
-
Deixe-me em paz, está bem? - disse Humpty. -Acabei de falar com meu psiquiatra,
e ele me garantiu que vou viver bem neste ambiente, da forma como ele é. Você é
um medroso. Um homem te m de lidar com a
vida como ela é. Sou realista.
-
Mas você não gostaria, pelo menos, de andar?
- perguntou o Rei.
-
Olhe - retrucou Humpty-, assim que eu me levantar e começar a andar, vou ter de
permanecer em pé e continuar a andar. A esta altura da vida, não estou disposto
a me submeter a isso. Agora, com licença. Você está fazendo sombra, impedindo
que eu receba a luz do Sol.
O
Rei deu meia-volta com relutância e atravessou as ruas de seu reino em direção
ao palácio.
Depois
de um ano, o Rei aventurou-se a visitar Humpty novamente.
Por
incrível que possa parecer, em uma bela manhã ensolarada os ouvidos de Humpty
captaram os passos firmes do Rei. Desta vez, ele 'estava preparado. O olho de
Humpty fixou-se naquela figura alta e, no mesmo instante; ele conseguiu
proferir as palavras:
-
Meu Rei!
Imediatamente,
o Rei ajoelhou-se sobre o chão forrado
de cacos de vidro. Suas mãos fortes e hábeis começaram a ajuntar cuidadosamente
os fragmentos de Humpty. Algum tempo depois de completar seu trabalho, o Rei
ficou em pé, levantando do chão a figura de um jovem vigoroso.
Os
dois caminharam de mãos dadas por todo o reino. Juntos escalaram montanhas
verdejantes. Juntos correram pelas praias desertas. Juntos riram e
divertiram-se, caminhando pelas cidades deslumbrantes dos domínios do Rei. Essa
aventura jamais teve fim. E a
profundidade, a largura e a altura da amizade entre eles também jamais teve
fim.
Certo
dia, enquanto ambos caminhavam pela calçada de uma das cidades do Rei, Humpty
ouviu uma observação que fez seu coração saltar de alegria por sua nova vida e
lembrar-se com tristeza da antiga viela. Alguém perguntou:
-
Quem são aqueles dois homens? Outro respondeu:
-
O da esquerda é o velho Humpty Dumpty. Não sei quem é o da direita, mas os dois
parecem irmãos!
N.
da T: Humpty Dumpty é um personagem de poemas infantis ingleses, com a forma de
um ovo, que cai de um muro e se espatifa.
LIÇÕES DE UMA JOVEM ENFERMEIRA
Rebecca Manley Pippert
Histórias Para o Coração 31
Eileen foi uma de suas primeiras pacientes, um caso
completamente sem esperanças. "Um aneurisma cerebral (rompimento de veias
no cérebro)", escreve a enfermeira, "impedia que ela tivesse
consciência do que ocorria em todo o seu corpo." Logo os médicos
concluíram que Eileen estava totalmente inconsciente, incapaz de sentir dor e
alheia a tudo o que se passava a seu redor. A equipe de enfermagem do hospital
tinha a responsabilidade de virá-la no leito a cada hora para evitar a formação
de escaras e de alimentá-la duas vezes por dia "com uma espécie de mingau
ralo que passava por um tubo até chegar ao estômago". Cuidar dela era uma
tarefa ingrata.
- Em estados tão graves como esse - dissera-lhe
uma enfermeira mais antiga do hospital -, você precisa desligar-se
emocionalmente da situação.
Em consequência disso, Eileen começou a ser
tratada cada vez mais como um objeto, um vegetal...
A jovem enfermeira, porém, decidiu que não
trataria aquela paciente assim. Ela conversava com Eileen, cantava para ela,
incentivava-a e chegou até a presenteá-la com algumas lembrancinhas. Certo dia,
quando a situação ficou realmente muito complicada, sendo a ocasião ideal para a
jovem enfermeira descarregar toda sua frustração sobre a paciente, ela,
pelo contrário, agiu com extrema bondade. Era o Dia de Ações de Graças, e a
enfermeira disse à paciente:
- Eu estava muito mal-humorada esta manhã,
Eileen, porque hoje seria o meu dia de folga. Mas, agora que estou aqui,
sinto-me feliz. Eu não poderia deixar de vê-la no Dia de Ação de Graças. Você
sabia que hoje é Dia de Ação de Graças?
Nesse exato momento, o telefone tocou. Enquanto
se virava para atendê-lo, a enfermeira olhou de relance para a paciente. Ela
relatou: Eileen estava "olhando para mim ... chorando. Grandes lágrimas
caíam sobre o travesseiro, e seu corpo inteiro tremia".
Aquela única manifestação de emoção que Eileen
deixou transparecer foi suficiente para mudar a atitude de todos os
funcionários do hospital em relação a ela. Pouco tempo depois, Eileen faleceu.
A jovem enfermeira encerra seu artigo dizendo: "Continuo a pensar nela...
Ocorreu-me que devo muito a ela. Se não fosse Eileen, eu jamais saberia o que
significa dedicar-se a alguém que não pode oferecer nada em troca."
É IMPORTANTE
Jeff Ostrander
Histórias Para o Coração 34
No litoral do imenso oceano Atlântico, vivia um
senhor idoso. Todos os dias, quando a maré baixava, ele fazia uma caminhada de
quilômetros ao longo da praia. Outro homem que morava nas proximidades o
observava desaparecer na distância e, mais tarde, retomar ao ponto de partida.
O vizinho também via que, enquanto caminhava, o velho curvava-se, de tempos em
tempos, para pegar alguma coisa na areia e a atirava na água.
Certo dia, enquanto o velho caminhava pela
praia, o vizinho o seguiu para matar a curiosidade. Da mesma maneira de sempre,
o velho curvou-se e pegou delicadamente alguma coisa da areia e a atirou no
mar. Quando o velho curvou-se novamente, o vizinho encontrava-se a uma
distância razoável para ver que ele estava pegando uma estrela-do-mar que
ficara presa na areia quando a maré baixou e que, evidentemente, morreria de
desidratação antes que a maré voltasse a subir. Quando o velho virou-se para
devolver a estrela-do-mar ao oceano, o vizinho o chamou com um tom zombeteiro
na voz:
- Ei, velhote! O que você está fazendo? Esta
praia estende-se por centenas de quilômetros, e existem milhares de
estrelas-do-mar sendo atiradas aqui todos os dias! Você não acredita mesmo que
seja importante devolver algumas ao mar...
O velho ouviu com atenção. Depois de uma pausa,
levantou a estrela-do-mar diante do rosto de seu vizinho e disse:
- Para esta aqui é importante.
O SIGNIFICADO DE MISERICÓRDIA
Alice Gray
Histórias Para o Coração 35
Havia um jovem no exército de Napoleão que
cometeu um ato tão terrível a ponto de ser condenado à morte. Na véspera de seu
fuzilamento, a mãe do jovem foi falar com Napoleão e implorou misericórdia para
o filho.
Napoleão replicou:
- Mulher, seu filho não merece misericórdia.
- Eu sei - ela disse. - Se ele a merecesse, não
seria misericórdia.
ESCOLHIDO
Histórias Para o Coração 37
Todas as vezes que fico decepcionada com o que
me acontece nesta vida, paro e penso no pequeno Jamie Scott. Jamie estava tentando
conseguir um papel na peça da escola. A mãe dele me contou que ele havia se
dedicado de todo o coração àquela tarefa, mas ela receava que o filho não fosse
escolhido. No dia marcado para a distribuição dos papéis, fui com ela buscar
Jamie após as aulas. Jamie correu para a mãe, com os olhos brilhando, cheios de
orgulho e euforia.
- Sabe o que aconteceu, mãe? - ele gritou,
animado, em seguida proferindo estas palavras que até hoje me servem de lição:
- Fui escolhido para bater palmas e dar vivas.
O PRIMEIRO PÁSSARO
William
E. Barton
Histórias Para o Coração 39
O
inverno havia sido longo. Muito frio, com bastante neve, e a primavera ainda
não tinha chegado. Levantei-me bem cedo, olhei através de minha janela e
contemplei um pássaro.
Em
seguida, chamei Keturah e disse:
-
Vem rápido e apressa-te para ver quem chegou à janela. Aqui está um amigo nosso
que veio de um país longínquo para nos visitar.
Keturah
aproximou-se da janela e também viu o pássaro.
O
pássaro olhou para nós e saiu saltitando pela terra tria e árida à procura da
minhoca madrugadora, porém o pássaro foi mais madrugador que a minhoca. E
Keturah correu à cozinha para ver o que poderia encontrar para o pássaro comer.
Eu
me dirigi ao pássaro e disse:
-
Estiveste em um lugar quente, onde o sol brilhou. E poderias ter continuado lá.
Mas estás aqui. E vieste enquanto ainda é inverno, porque a profecia da
primavera está em teu sangue. Tua fé é a essência de coisas que esperaste e a
evidência de coisas que não viste. Chegaste aqui depois de voares muitos
quilômetros, sim, centenas de quilômetros, rumo a uma terra desolada, porque
tens dentro de tua alma a certeza de que a primavera está próxima. Oh, oxalá
houvesse entre os seres humanos certeza tal que encaminhasse alguém para seu
alto destino com uma convicção tão grande quanto a tua!
E
eu pensei nos olhos, formados na escuridão, mas feitos para enxergar a luz; e
nos ouvidos maravilhosamente modelados no silêncio, mas feitos para ouvir
música; e na alma humana, que nasceu em um mundo onde existe o pecado, mas que
também nasceu com a esperança da retidão.
E
eu abençoei o passarinho que me fez pensar nessas coisas. E, quando fui à
cidade naquele dia, as pessoas diziam:
-
Que coisa! O inverno não está muito frio e longo? E eu respondi:
-
Não quero mais ouvir falar do inverno. E elas perguntaram:
-
Por que não devemos falar do inverno? Não estás vendo o termômetro e as latas
de carvão vazias?
Ergui
a cabeça com orgulho e disse:
-
Não quero mais ouvir falar do inverno. Esta manhã vi o primeiro pássaro. Para
mim, a primavera já chegou.
NÃO DESISTA
Charles Swindow
Histórias Para o Coração 41
Ignace Jan Paderewski, famoso compositor e
pianista, estava programado para apresentar-se em um grande salão de concertos
nos Estados Unidos. Foi uma noite inesquecível – smokings e vestidos longos,
uma ostentação da alta sociedade. Presente na plateia naquela noite estava uma
mãe acompanhada de seu irrequieto filho de nove anos. Cansado de esperar, o
filho se mexia constantemente na poltrona. A mãe tinha esperança de que ele se
animasse a estudar piano ao ouvir o imortal Paderewski tocar.
Mesmo contra a vontade, o menino estava ali.
Enquanto ela virou-se para conversar com alguns amigos, o menino desistiu de
ficar sentado. Afastou-se dela estranhamente atraído pelo enorme piano de ébano
Steinway e pela macia banqueta de couro instalados no imenso palco, cujas
inúmeras lâmpadas acesas chegavam a ofuscar os olhos. Sem atrair a atenção da
requintada plateia, o menino sentou-se na banqueta, com os olhos arregalados
diante das teclas brancas e pretas. Em seguida, colocou seus dedos pequenos e
trêmulos nas teclas certas e começou a tocar o "Bife".
O vozerio da plateia cessou, e centenas de
rostos carrancudos voltaram-se em direção ao garoto. Irritadas, as pessoas
começaram a gritar:
"Tirem essee garoto daí!"
"Quem trouxe essae moleque aqui?"
"Onde está a mãe dele?"
"Mandem o garoto parar!"
Dos bastidores, o mestre ouviu a gritaria e pôs-se
a imaginar o que estaria acontecendo. Apressado, ele pegou sua casaca e correu
para o palco. Sem dizer uma só palavra, curvou-se sobre o garoto, passou os
braços ao redor dele e começou a improvisar uma música que se harmonizava com o
Bife para torná-Io mais melodioso.
Enquanto os dois tocavam. Paderewski sussurrava
o tempo todo ao ouvido do garoto:
- Continue. Não desista. Continue tocando...
não pare... não desista.
O mesmo acontece conosco. Esforçamo-nos para
Ievar adiante um projeto, que parece tão insignificante quanto o
"Bife" em um salão de concertos. E. quando estamos prontos para
desistir, chega o Mestre, que se curva sobre nós e sussurra:
Continue... Não desista. Vá em frente... não
pare, não desista. enquanto Ele improvisa uma melodia para nos ajudar,
proporcionando o toque certo no momento certo.
O CONVIDADO DO MAESTRO
Max Lucado
Histórias Para o Coração 43
O que acontece quando um cão interrompe um
concerto? Para responder a essa pergunta, acompanhe-me em uma visita a
Lawrence, Kansas, em uma noite de primavera.
Sente-se no Hoch Auditorium e contemple a
Orquestra Leipzig:
Gewandhaus - a mais antiga orquestra em
atividade no mundo.
Ela já foi regida pelo; maiores compositores e
maestros da história e existe desde os tempos de Beethoven (alguns músicos
foram substituídos).
Você vai ver homens elegantes, vestidos à moda
europeia, tomando assento no palco. Vai ouvir os profissionais afinando
cuidadosamente seus instrumentos. A percussionista aproxima o ouvido do
timbale. O violinista tange a corda de náilon. O clarinetista ajusta a palheta.
E você endireita o corpo na poltrona, enquanto as luzes diminuem de intensidade
e as afinações terminam. A música já vai começar.
O maestro, trajando fraque, caminha com passos
firmes pelo palco, sobe ao pódio e faz um gesto para que a orquestra se
levante. Você e outras duas mil pessoas aplaudem. Os músicos voltam a
sentar-se, o maestro posiciona-se corretamente: e a plateia prende a
respiração.
Existe um segundo de silêncio entre o relâmpago
e o trovão. E há um segundo de silêncio entre o levantar da batuta e a explosão
da música. Quando a orquestra começa a tocar, os céus abrem-se e todos ficam
deliciosamente enlevados com a melodia da Terceira Sinfonia de Beethoven.
Foi esse o poder daquela noite de primavera em
Lawrence, Kansas. Daquela noite quente de primavera em Lawrence, Kansas.
Mencionei a temperatura para você compreender por
que as portas ficaram abertas. Estava quente. O Hoch Auditorium, um edifício
histórico, não tinha ar condicionado. O resultado da combinação de luzes
brilhantes no palco com trajes formais e música arrebatadora é uma orquestra
cheia de vivacidade. As portas laterais do "'palco foram abertas para que
uma brisa fortuita pudesse penetrar no ambiente.
Surge, do lado do palco um cão. Não um cão
feroz. Não um cão louco. Apenas um cão curioso. Ele passa pela dupla de
contrabaixos, segue em direção aos segundos-violinos e passeia por entre os
violoncelos.
O cão passa em meio aos componentes da
orquestra. Todos olham para ele, uns
para os outros e, em seguida, tocam o próximo compasso.
O cão dá preferência a um determinado
violoncelo. Talvez por causa do arco ferindo lateralmente as cordas. Talvez
porque as cordas estivessem no nível de seus olhos. Por um motivo ou outro, o
violoncelo atraiu a atenção do cão, e ele parou e pôs-se a observar. O
violoncelista não sabia ao certo o que fazer. Ele nunca havia tocado para uma
plateia canina.
Mas o cão não fez nada, a não ser olhar por
alguns instantes, e continuou a andar.
Se ele tivesse passado pela orquestra inteira,
a música teria continuado. Se ele tivesse atravessado o palco, indo parar nas
mãos de um funcionário do teatro, a plateia talvez não tivesse notado sua
presença. Mas ele não arredou pé. Continuou no palco. Parecia à vontade diante
daquele esplendor. Andando a esmo entre os acordes da música.
Aproximou-se dos instrumentos de sopro, virou a
cabeça em direção aos pistons, deu alguns passos entre os flautistas e parou ao
lado do maestro. E a Terceira Sinfonia de Beethoven foi interrompida. Os
músicos riram. A plateia riu. O cão olhou para o maestro e fungou. E o maestro
abaixou a batuta.
A orquestra mais histórica do mundo. Uma das
mais comoventes obras compostas até hoje. Uma noite envolta em glória. Tudo
arruinado por causa dos caprichos de um cão.
Os risos cessaram assim que o maestro olhou
para trás. Haveria uma reação de fúria? A plateia silenciou diante do olhar
firme do maestro. Um pavio curto teria sido aceso? O refinado diretor alemão
olhou para a plateia, olhou para o cão. Em seguida, tornou a olhar para o povo,
levantou as mãos em sinal de rendição encolheu os ombros.
Todos caíram na gargalhada.
Ele desceu do pódio e coçou o cão atrás da
orelha. A cauda do cão voltou a balançar. O maestro falou com o cão. Falou em
alemão, e aparentemente o cão compreendeu. Os dois conversaram por alguns
instantes até que, por fim, o maestro pegou seu novo amigo pela coleira e o
retirou do palco. Pela maneira como o cão foi aplaudido, você poderia pensar
que ele era Pavarotti. O maestro voltou ao seu lugar, a música recomeçou.
Beethoven não foi prejudicado de maneira alguma por causa do incidente. Você é
capaz de se imaginar vivenciando essa cena no lugar do cão? Eu sim. Digamos que
nosso nome seja Fido. E imagine que Deus seja o Maestro.
E visualize o momento em que vamos entrar no
palco que pertence a Ele. Não merecemos. Não fazemos nada para merecer.
Poderemos até surpreender os músicos com nossa presença.
A música será grandiosa como nunca ouvimos.
Caminharemos em meio aos anjos e os ouviremos cantar. Fixaremos o olhar nas
luzes do céu e prenderemos a respiração diante de seu intenso fulgor.
E nos aproximaremos do Maestro, ficaremos a seu
lado adorando-o enquanto Ele rege... Veremos o que não pode ser visto e
viveremos esse evento. [Somos convidados] a aguçar os ouvidos para a canção
celestial e a ansiar pelo momento em que ficaremos ao lado do Maestro.
Ele também nos acolherá. E Ele também
conversará conosco.
Mas não nos mandará embora. Ele nos convidará a
ficar para sempre no palco, como seus convidados.
JIMMY DURANTE
Histórias Para o Coração 47
Há
uma história maravilhosa a respeito de Jimmy Durante, um dos grandes
comunicadores da geração passada. Ele foi convidado a participar de uma
apresentação para os veteranos da Segunda Guerra Mundial. Jimmy disse que sua
agenda estava lotada. Poderia estar lá por apenas alguns minutos. Só iria à
apresentação caso pudesse fazer um curto monólogo e sair imediatamente para o compromisso seguinte. Evidentemente, o
diretor concordou, satisfeito.
Porém,
enquanto Jimmy estava no palco, aconteceu uma coisa interessante. Ele terminou
o curto monólogo e continuou no lugar.
Os
aplausos eram cada vez mais intensos, e ele não se afastou dali. Passaram-se 15
minutos, 20, 30. Finalmente, ele curvou o corpo em sinal de agradecimento e
saiu do palco. Nos bastidores, alguém o parou e disse:
-
Pensei que você tivesse de ir embora logo. O que houve?
-
E eu precisava ir mesmo - Jimmy respondeu -, mas posso mostrar-lhe por que
fiquei. Vai entender se olhar para a primeira fila.
Na
primeira fila, havia dois homens. Ambos tinham perdido um braço na guerra. Um
perdera o braço direito, e o outro, o esquerdo. Juntos, conseguiam bater
palmas, e era exatamente o que estavam fazendo: batendo palmas com força e
gritando de entusiasmo.
O DIA EM QUE BART SIMPSON OROU
Lee
Strobel
Histórias Para o Coração 48
Bart
não estava indo bem na quarta série. Ser reprovado pelo péssimo resumo que fez
do livro A Ilha do Tesouro, do qual conhecia apenas o que estava escrito na
capa, foi a gota d'água. Sua professora convocou uma reunião com os pais de
Bart e o psiquiatra da escola, e todos
chegaram à conclusão de que o garoto
deveria repetir a quarta série.
Bart
ficou assustado demais!
-
Olhem dentro de meus olhos - ele disse. - Os senhores estão vendo minha
sinceridade? Estão vendo convicção? Estão vendo medo? Eu juro que posso
melhorar!
Afinal
de contas, não há nada pior a um garoto de dez anos do que repetir um ano na
escola.
Bart
elaborou um plano. Fez um acordo com um estudante inteligente chamado Martin.
Ensinaria Martin a ser malandro se o colega o ajudasse a passar na prova de
História dos Estados Unidos. O exame final seria extremamente importante,
porque, se fosse aprovado, Bart
receberia o diploma.
Bart
ensinou a Martin todos os macetes de malandragem, tais como: arrotar a um sinal
de comando, pichar portas das garagens, atirar pedras
com
estilingue em garotas sem que elas desconfiassem de onde partiram. E,
certamente, Martin tornou-se o garoto mais popular da escola - tão popular que
não teve tempo de ajudar Bart nos estudos.
Agora
imagine esta cena: noite anterior à grande prova. Bart, sentado diante
da escrivaninha em seu quarto, olhando fixamente para um livro aberto,
tentava estudar, quando
sentiu um arrepio ao se dar conta de que era tarde
demais. Ele não podia gravar tudo na memória em uma só noite para ser aprovado.
Depois de algum tempo, sua mãe espiou dentro do quarto e disse:
-
Já passa da hora de dormir, Bart.
Bart
fechou lentamente o livro. A poucas horas do exame, parecia que todas as suas
opções haviam evaporado. Foi quando ele ajoelhou-se ao lado da cama e orou a
Deus:
Não
há mais esperança. Bem, meu Velho Amigo,
acho que chegarei ao fim da estrada. Sei que não tenho sido um bom garoto e, se
tiver de ir à escola amanhã, vou
fracassar e perder o ano. Só preciso de mais um dia para estudar Senhor.
Preciso de ajuda! Uma greve de professores, falta de energia elétrica, uma
nevasca - qualquer coisa que faça a escola não funcionar amanhã. Sei que estou
pedindo demais, mas ninguém pode fazer nada por mim, a não o Senhor. Desde já,
obrigado. Seu amigo, Bart Simpson.
A
cena muda do lado de fora da casa de Bart. As luzes de seu quarto apagaram-se.
Estava frio e escuro. Após alguns instantes, um único floco de neve caiu no
chão. Em
seguida, outro. Mais outro. De repente, começou uma
verdadeira nevasca. Na verdade, foi a
maior na
história da cidade!
Ao fundo, ouvia-se
um coro de "Aleluias".
No dia
seguinte, a escola
não funcionou. Bart lutou contra a tentação de andar de
trenó com seus amigos e ficou em casa estudando com afinco. Quando chegou a
hora da prova, um dia depois, ele fez o melhor que pôde, mas respondeu errado a
uma pergunta. Aparentemente, havia sido reprovado - até que, no último
instante, Bart conseguiu somar milagrosamente mais um ponto e passou no exame
pela tangente, com um -D. Bart ficou tão contente que beijou sua professora
antes de atravessar a porta de saída da escola. Homer [seu pai] ficou
tão feliz que colou a
prova de Bart na porta da
geladeira e disse:
-
Estou orgulhoso de você, garoto. Ao que
Bart respondeu:
-
Obrigado, pai. Mas parte deste pertence a Deus.
NO BALCÃO
Paula
Kirk
Histórias Para o Coração 50
O
feriado da Páscoa foi terrível. Enquanto eu cruzava os corredores do aeroporto,
tinha o coração apertado diante da devastação ocorrida na vida de minha filha.
Após um ano de casamento, seu marido a abandonara, e ela quase entrou em estado
de choque por causa de tanta tristeza. Minha filha era controladora de tráfego
aéreo e estava muito preocupada, sem saber se teria condições de concentrar-se
no trabalho.
Parei
para comprar algumas lembrancinhas para meus netos quando retornasse a meu lar.
Enquanto o cartão de crédito era processado, a sorridente recepcionista
perguntou se eu havia gostado de sua terra natal.
-
É linda - eu disse. - Como outras cidades que já visitei.
-
É verdade - ela concordou. - Deus criou um mundo maravilhoso de que podemos
desfrutar. Há tanta diversidade! O que a senhora notou aqui de especial neste
feriado?
Imediatamente,
meus olhos encheram-se de lágrimas. O sofrimento era recente e ameaçava vir à
tona.
-
Não viajei por causa do feriado. Houve um problema muito sério na família.
Minha filha está atravessando uma fase difícil. Detesto ter de deixá-la sozinha
- eu disse, com certa dificuldade.
-
Oh, mas Deus é bom. Ele vai ajudar sua
filha.
-
Eu sei - murmurei por entre as lágrimas que agora corriam livremente pelo meu
rosto.
Levei
daquele balcão mais do que algumas lembrancinhas. Levei um pouco do poder da
ressurreição de Cristo - o poder do amor de Deus para alcançar e curar um
coração ferido.
TODAS AS COISAS BOAS
Irmã
Helen P. Mrosla
Histórias Para o Coração 51
Ele
foi meu aluno na terceira série do
Colégio Santa Maria, de Morris, Minnesota. Todos os meus 34 alunos eram
muito importantes para mim, mas Mark Eklund era especial, um em um milhão.
Muito cuidadoso com a aparência, ele estampava no rosto uma alegria tão grande
de viver que
suas travessuras ocasionais chegavam a ser encantadoras.
Mark
também falava sem parar. Eu precisava dizer-lhe repetidas vezes que não era
permitido conversar sem autorização. Porém, o que mais me impressionava era a
resposta sincera que ele me dava todas as vezes que eu o repreendia por mau
comportamento:
-
Obrigado por ter-me corrigido, Irmã!
A
princípio, eu não sabia como reagir, mas, com o passar do tempo, acostumei-me a
ouvir essa frase várias vezes ao dia.
Certa
manhã, minha paciência estava chegando ao fim quando, mais uma vez, Mark
começou a tagarelar. Foi então que cometi o erro de toda
professora novata. Olhei firme
para Mark e disse:
-
Se você disser mais uma palavra, vou colar um esparadrapo em sua boca!
Menos
de dez segundos depois, Chuck deixou escapar:
-
Mark está conversando novamente.
Eu
não havia pedido a nenhum dos alunos que me ajudasse a tomar conta de Mark, mas
tive de cumprir com a
palavra por ter feito a ameaça diante da classe.
Lembro-me
da cena como se tivesse acontecido esta manhã. Caminhei até minha mesa, abri deliberadamente a
gaveta e peguei um rolo de esparadrapo.
Sem dizer uma só palavra, dirigi-me à carteira de Mark, cortei dois pedaços
de esparadrapo e os colei em
formato de X em sua boca. Em seguida, voltei ao meu lugar e fiquei de frente
para a classe.
Quando
olhei para Mark para ver sua reação, ele piscou para mim. Foi o suficiente para
eu começar a rir. A classe inteira aplaudiu quando me aproximei da carteira de
Mark, retirei o esparadrapo e encolhi os ombros. Suas primeiras palavras foram:
- Obrigado por ter-me corrigido, Irmã.
No
final do ano, fui designada para lecionar
matemática para os alunos da
penúltima série. Os anos seguintes voaram, e, de repente, Mark voltou a ser meu
aluno. Ele estava muito mais bonito e continuava educado. Ouvia atentamente
minhas instruções sobre a "nova matemática" e já não conversava tanto
na nona série como fazia na terceira.
Em
uma determinada sexta-feira, as coisas não correram como deveriam. Depois de
estudarmos um novo conceito durante toda a semana, percebi que os alunos
estavam frustrados consigo mesmos, demonstrando irritação uns com os outros. Eu
teria de pôr 6m a essa situação antes que o controle da classe me fugisse das
mãos. Pedi aos alunos que relacionassem os nomes de todos os colegas de classe
em duas folhas de papel, deixando uma linha em branco depois de cada um. Em
seguida, pedi a eles que pensassem na coisa mais bonita que poderiam dizer a
respeito de cada colega e que a escrevessem no espaço correspondente.
A
tarefa durou o restante da aula. Ao saírem da classe, os alunos me entregaram
os papéis. Charlie sorriu, e Mark disse:
-
Obrigado pela aula, Irmã. Tenha um bom fim de semana.
Naquele
sábado, escrevi o nome de cada aluno em folhas de papel individualizadas e
relacionei os comentários de seus colegas. Na segunda-feira, entreguei a cada
aluno a folha de papel que lhe pertencia. Dentro de poucos minutos, a classe
inteira estava sorrindo.
-
Será verdade? - ouvi alguém sussurrar.
-
Eu nunca imaginei ser tão importante assim para alguém!
-
Eu não sabia que meus colegas gostavam tanto de mim!
Ninguém
voltou a falar daquelas folhas de papel na classe. Eu nunca fiquei sabendo se
eles trocaram ideias entre si ou com os pais, mas isso não importava. A tarefa
havia alcançado seu objetivo. Os alunos ficaram felizes consigo mesmos e com os
colegas.
Aquele
grupo de alunos deixou o colégio. Anos mais tarde, após eu ter retornado de
férias, meus pais foram encontrar-se comigo no aeroporto. Enquanto nos
dirigíamos para casa, minha mãe fez as perguntas rotineiras sobre a viagem: o
clima, minhas experiências em geral. Havia uma atmosfera um tanto estranha em nossa conversa. A certa
altura, minha mãe olhou de esguelha para meu pai e disse simplesmente:
-
E então?
Meu
pai limpou a garganta, conforme costumava
fazer antes de dizer algo importante:
-
Os Eklunds telefonaram ontem à noite - ele começou a dizer.
-
Verdade? - eu disse. - Faz anos que não tenho notícias deles.
Gostaria
de saber como Mark está. Papai respondeu serenamente:
-
Mark foi morto no Vietnã. O funeral será amanhã, e os pais dele gostariam que
você comparecesse.
Até
hoje me lembro do local exato da estrada I-494, onde meu pai me falou sobre
Mark.
Eu
nunca havia visto um militar das Forças
Armadas dentro de um caixão. Mark tinha urna fisionomia tão bonita, tão
amadurecida. Tudo o que pensei naquele momento foi: Mark, eu daria todos os
esparadrapos do mundo para que você pudesse conversar comigo.
A
igreja estava lotada de amigos de Mark. A irmã de Chuck cantou o "Hino da
Batalha da República". Por que teve de chover no dia do funeral? Foi
difícil chegar à beira da sepultura. O pastor proferiu as orações costumeiras,
e ouvimos o toque de silêncio. Uma a uma, todas as pessoas que amaram Mark
passaram pela última vez diante do caixão e o olharam.
Eu
fui a última. Naquele momento, um dos soldados que ajudara a carregar o esquife
aproximou-se de mim e perguntou:
-
A senhora foi professora de matemática de Mark?
Assenti
com a cabeça, sem tirar os olhos do caixão.
-
Mark falava muito a seu respeito.
Após
o funeral, a maioria dos ex-colegas de classe de Mark dirigiu-se à casa da
fazenda de Chuck para almoçar. Os pais de Mark estavam presentes, obviamente
aguardando minha chegada.
-
Queremos mostrar-lhe uma coisa- disse o pai dele, tirando uma carteira do
bolso. - Quando Mark foi morto, encontraram isso aqui com ele. Achamos que a
senhora reconheceria.
Ele
abriu a carteira e retirou cuidadosamente duas
folhas de caderno amassadas e que,
por certo, haviam sido dobradas e redobradas várias vezes.
Mesmo antes de olhar,
eu sabia que naqueles papéis
estavam relacionadas todas as coisas boas que
os colegas de Mark escreveram sobre ele.
-
Muito obrigada por ter feito isso - disse a mãe de Mark. - Como a senhora pode
ver, Mark guardava esses papéis como se fosse um tesouro.
Os
colegas de Mark começaram a se reunir ao redor de nós.
Charlie
sorriu timidamente e disse:
-
Eu ainda guardo minha lista. Está em casa, na primeira gaveta de minha
escrivaninha.
A
esposa de Chuck disse:
-
Chuck me pediu que colocasse a dele em nosso álbum de casamento.
-
Eu também guardei a· minha- disse Marilyn. - Está no meu diário.
Em
seguida, Vicki, outra colega de classe de Mark, enfiou a mão no bolso, tirou
uma carteira e mostrou ao grupo a sua lista surrada.
-
Carrego sempre esta lista comigo- ela disse sem pestanejar. - Acho que ela
salvou a vida de todos nós.
Foi
então que eu me sentei e chorei. Chorei por Mark e por todos os seus amigos que
nunca mais o veriam.
A MÃO
Histórias Para o Coração 55
O editorial do jornal no Dia de Ação de Graças
contava a história de uma professora que pediu a seus alunos da primeira série
que desenhassem alguma coisa pela qual eles se sentissem agradecidos. Ela não
podia imaginar o que aquelas crianças, criadas em bairros tão pobres, teriam
para agradecer.
Porém, ela sabia que a maioria desenharia perus
sobre mesas fartas de alimentos. A professora ficou muito surpresa com o
desenho que Douglas lhe entregou... uma simples mão desenhada com dificuldade.
De quem seria aquela mão? A classe foi atraída
por aquela imagem enigmática.
- Acho que deve ser a mão de Deus que traz
alimentos para nós - disse uma das crianças.
- É a de um fazendeiro - disse outra -, porque
ele cria perus.
Depois que todas as crianças retornaram a seus
lugares, a professora curvou-se sobre a carteira de Douglas e perguntou-lhe de
quem era aquela mão.
- Sua mão da senhora, professora - ele
murmurou.
A professora lembrou-se de que costumava
conduzir Douglas, um menino pobre e raquítico, ao recreio, segurando-o pela
mão.
Às vezes, ela ajudava outras crianças também,
mas aquele gesto significava muito para Douglas. Talvez seja esse o verdadeiro
sentido do Dia de Ação de Graças. Ser grato não pelas coisas materiais que
conquistamos, mas pela oportunidade de ser útil aos outros, mesmo que a ajuda
pareça insignificante.
O TRANSEUNTE
Histórias Para o Coração 58
Eu
o via quase todas as manhãs quando olhava pela janela da sala de estar de minha
casa. Ele passou a fazer parte de meu
dia-a-dia. Com o corpo ligeiramente curvado, ele arrastava um pouco uma das
pernas. O pé era tão torto que ele pisava mais com a lateral do que com a sola
do sapato. Eu
calculava que ele tivesse uns 80 anos. Vestia uma simples
camisa de flanela. Ao vê-lo sair sob o ar gelado das manhãs de inverno,
eu me perguntava se ele não estaria sentindo frio.
Certa
manhã, enquanto eu cuidava do jardim, vi o velho homem sorrir e despentear o cabelo
de um garotinho
que passava por ele
a caminho da escola.
É
agora ou nunca, pensei, atravessando corajosamente a rua e apresentando-me a ele.
Seus
olhos azuis desbotados criaram vida, e seu rosto contorceu-se em outro sorriso,
desta vez para mim.
-
Minha esposa e eu somos suíços. Viemos primeiro para o Canadá e depois para os
Estados Unidos - ele disse. - Já faz muitos anos. Trabalhamos muito. Conseguimos
economizar um pouco de dinheiro, o suficiente para
comprarmos um pedaço de terra. Como eu não falo inglês muito bem, pego as
cartilhas das crianças e estudo-as sozinho até aprender. - Ele riu ao olhar
para a escola de ensino fundamental do outro lado da cerca. Em seguida, seu
semblante ficou circunspecto. - Não temos filhos.
Refleti
sobre a conversa na quietude daquela manhã, profundamente emocionada pela
solidão que senti em sua voz enquanto ele falava dos parentes que restaram em
sua terra natal, cuja distância não era apenas medida em quilômetros. Eles
viviam em mundos completamente diferentes.
-
Minha esposa não está muito bem - ele me disse quando perguntei sobre ela.
Eu
queria aproximar-me dele, oferecer ajuda,
ser sua amiga, mas achei que já havia me intrometido
demais na vida daquele desconhecido. A palavra apropriada para o momento era
discrição. Comecei a volta r para minha casa.
-
Por favor - eu disse, deixando um convite em aberto-, qualquer dia desses,
quando o senhor estiver passando por aqui, entre e tome uma xícara de café
comigo.
Durante
alguns dias, eu não o vi passar diante de minha casa, mas pensava nele com
frequência. Estaria ele confinado em casa ou enfermo? Será que a saúde de sua
esposa havia piorado repentinamente? Se ao menos eu soubesse o nome dele ou
onde morava... Meu convite desajeitado não me saía da cabeça. Eu queria tanto
ser amiga dele!
Depois
de alguns meses, eu o vi novamente. Enquanto eu passava por um local a cerca de
15 minutos a pé de minha casa, avistei o seu familiar jeito de andar com
dificuldade e mancando. Ele caminhava lentamente, com os ombros caídos e um dos
pés tão retorcido que o calcanhar não se
encaixava no sapato. Seu rosto pálido estava mais magro que da última vez, mas
seus olhos ainda brilhavam, e ele sorriu reconhecendo-me quando voltei a me
apresentar. Fique i sabendo que o nome dele era Paul.
-
Não ando mais como costumava - ele explicou. - Não posso deixar minha esposa
muito tempo sozinha. A cabeça dela não está muito boa. - Ele fez uma careta e
tocou a testa com a mão. - Esquece tudo. - Em seguida, fez um gesto em direção
a uma casa verde e branca, de madeira, do outro lado da rua e perguntou:
-
A senhora gostaria de ir até lá para ver meus desenhos?
-
Estou indo buscar meu carro na oficina - eu disse, desculpando-me -, mas
adoraria vê-los em outra ocasião.
-
Então, venha esta noite, está bem? - Ele tinha um ar esperançoso.
-
Oh, sim - eu disse-, está combinado.
Naquela
noite, o aroma forte que exalava dos pinheiros tomava conta do ar gelado e
causticante. Paul aguardava com olhar esperançoso perto da janela. Quando ele
abriu a porta, vi que estava bem arrumado para receber uma visita.
Sua
esposa, magra e franzina, apareceu na porta da cozinha, enrolando os cabelos
brancos em formato de birote.
-
Entre, entre - ela insistiu, com um sorriso bonito para sua idade, estendendo a
mão macia e enrugada.
-
Esta - disse Paul - é Bertha, minha esposa. - Ele endireitou o corpo e ficou
mais alto. - Estamos casados há 56 anos.
Naquela
noite, conheci os desenhos de Paul feitos com caneta e tinta. Percorremos
cômodo por cômodo. Os quadros com molduras simples estavam pendurados nas
paredes, e as folhas avulsas, guardadas dentro de gavetas. Havia esboços de
pessoas famosas, paisagens, qualquer coisa que lhe viesse à mente. Cada um
tinha sua história.
Contudo,
a mais comovente era a dura realidade de um talento como o dele sendo ignorado
pelas pessoas de sua geração. Seu pai lhe dizia:
-
Não vou gastar dinheiro à toa com você. Se ficar sentado desenhando desse
jeito, nunca vai ser nada na vida.
A
mãe morreu quando ele tinha nove anos. Ele se lembrava da varinha batendo-lhe
na cabeça todas as vezes que ela o encontrava com um lápis e um bloco na mão.
-
Faça alguma coisa útil. Não perca seu tempo - ela ralhava.
Quando
retornamos à cozinha, Bertha procurava alguma coisa com que pudesse expressar
sua hospitalidade.
-
Eu gostaria de ter alguns bolinhos para lhe oferecer. Não posso mais cozinhar
como fazia antes.
- Agradeço muito. Acabei de jantar - eu disse.
O
jantar deles era entregue de carro por uma instituição filantrópica três vezes
por semana.
-
Não podemos comer muito. Sempre sobra
alguma coisa para o dia seguinte. Menos às segundas-feiras. Nesse dia, temos de
preparar nossa comida.
Eles
pediram que eu ficasse
mais um pouco. Sentamos e conversamos. A dignidade tomava conta de toda
a casa.
Paul
atendeu à porta na segunda-feira seguinte. Seus olhos voltaram-se para a
bandeja que eu carregava.
Ele
ficou feliz com
minha chegada, mas seu
semblante aflito e agitado deixava transparecer que eu
presenciaria uma briga.
Bertha,
pálida e nervosa, tentava controlar-se.
-
Não estamos nos sentindo bem hoje, e eu não consigo me lembrar de nada. - Ela
levantou as mãos em sinal de rendição. - Acho que é... velhice!
Eles
me conduziram à cozinha. A sopa em lata havia derramado no fogão.
As
mãos de Paul tremiam. Ele me mostrou o buraco provocado pelo fogo na manga de
sua camisa enquanto tentava aquecer a sopa. A labareda, abafada no momento de
minha chegada, havia provocado aquele estrago. Ele pôs a mão na testa e
suspirou, tentando readquirir o controle.
-
É isso que me aborrece às vezes - ele disse, arrumando as facas e os garfos na
mesa enquanto eu colocava ali a comida que havia preparado.
Bertha
continuava nervosa, sem saber onde colocara a colher de pau, que agora não era
mais necessária. Senti pena dela.
A
fragilidade, as irritações, as frustrações, as limitações e os temores causados
pela idade haviam sido demais para eles naquela manhã. Comovida ao ver tudo
aquilo, segurei as
mãos trêmulas de Bertha.
-
Podemos nos sentar e orar? - perguntei.
-
Oh! - exclamou Bertha. - É disso que precisamos. Paul sentou-se em uma cadeira
ao lado do sofá.
Depois
de orar, olhei para os dois. Gratidão e alívio estavam estampados no rosto
deles. Toda a tensão desaparecera. Abracei-os com força e fiquei feliz quando
eles também me abraçaram.
-
Você é muito boa para nós - disse Paul, dirigindo-se à mesa da sala de jantar e
puxando uma cadeira para sua esposa.
Não,
pensei, Deus é muito bom para mim. Ele permitiu que eu compartilhasse esse
momento em que tocava o coração de duas pessoas a quem Ele ama muito.
Como
me senti abençoada por isso! Eu queria me tornar amiga daquele casal, pois Ele
colocara esse desejo em meu coração.
O MENINO COM PARALISIA CEREBRAL
Tony Campolo
Histórias Para o Coração 63
Fui convidado para ser conselheiro de um acampamento
de alunos da penúltima série. Todo mundo deveria fazer isso pelo menos uma vez
na vida. A ideia fixa de garotos dessa idade.
durante um bom período. é atormentar as
pessoas. E. nesse caso particular, nesse acampamento específico, havia um
menino que sofria de paralisia cerebral. Seu nome era Billy. E seus colegas o
atormentavam.
Ah, e como o atormentavam! Quando Billy
atravessava o acampamento sem conseguir coordenar os movimentos, eles se
aproximavam e imitavam seus movimentos grotescos. Certo dia, eu o vi indagando
como chegar a determinado lugar.
- Qual... é..: o caminho... até... a loja...
de... artesanatos? - ele gaguejou com a boca contorcida.
E os garotos o imitaram, gaguejando da mesma
maneira.
- É... logo... ali... Billy - disseram, rindo
em seguida.
Fiquei furioso.
Minha raiva chegou ao ponto máximo na manhã de
quinta-feira, quando foi a vez de Billy dirigir a devocional. Eu me perguntei o
que aconteceria, porque eles haviam designado Billy para ser o orador. Eu sabia
que os garotos só queriam divertir-se à custa dele. Enquanto Billy caminhava
com passos lentos até a frente do auditório, eu podia ouvir risadinhas vindas
de todos os lados. Billy levou quase cinco minutos para proferir sete palavras:
- Jesus... me... ama... e... eu... amo...
Jesus.
Quando ele terminou, houve um silêncio mortal.
Olhei por cima do ombro e vi, em seguida, garotos da penúltima série gritando
de alegria por todo lado. Houve um reavivamento naquele local após o curto
testemunho de Billy. Em minhas viagens pelo mundo todo, encontro missionários e
pregadores que dizem:
- Lembra de mim? Estive naquele acampamento
para alunos da penúltima série.
Nós, os conselheiros havíamos feito todas as
tentativas possíveis para atrair aqueles garotos para Jesus. Chegamos a trazer
para dar testemunho jogadores de beisebol, cuja média; de pontos por jogo
haviam melhorado sensivelmente desde que começaram a orar. Mas Deus não
escolheu -usar aqueles exímios jogadores e, sim, um menino com paralisia
cerebral para quebrantar os espíritos arrogantes. Esse menino é uma dádiva de
Deus.
DIA DOS NAMORADOS
Dalle
Galloway
Histórias Para o Coração 67
O
pequeno Chad era um menino tímido e calado. Certo dia, ao retornar
para casa, contou à mãe que
gostaria de dar um cartão a cada colega de classe. Sua mãe ficou
angustiada. Eu não gostaria que ele fizesse, ela pensou, porque costumava
observar as crianças quando voltavam da escola para casa. Chad sempre caminhava
atrás dos colegas. Eles riam, brincavam e
conversavam entre si, mas Chad sempre era deixado de lado. Todavia, ele
decidiu que colaboraria com o filho. Comprou papel, cola e lápis de cor.
Durante três semanas, trabalhando dias a fio, Chad conseguiu, com muito
esforço, confeccionar 35 cartões.
O
Dia dos Namorados começava a amanhecer, e Chad não cabia em si de
contentamento! Empilhou os cartões cuidadosamente, colocou-os na mochila e
disparou porta afora. Sua mãe resolveu assar os biscoitos favoritos do filho e
servi-los com um copo de leite geladinho assim que ele chegasse da escola. Ela
sabia que Chad voltaria desapontado... e aquele lanche poderia
aliviar um pouco o seu sofrimento.
Era angustiante pensar que Chad não receberia muitos cartões - talvez nenhum.
Naquela
tarde, ela arrumou a mesa com os biscoitos e o leite. Quando ouviu o vozerio
dos garotos lá fora, olhou pela janela. Como sempre, lá vinham eles, rindo e se
divertindo. E, como sempre, lá vinha Chad atrás do grupo. Ele caminhava um
pouco mais rápido do que o normal. Ela esperava que o filho se desmanchasse em
lágrimas assim que entrasse em casa. Ele chegou com as mãos vazias e, quando
abriu a porta, a mãe lutava para conter o choro.
-
A mamãe preparou biscoitos quentes e leite para você.
Mas
Chad não prestou atenção no que ela disse. Caminhando com passos firmes e o
rosto brilhando de alegria, ele proferiu apenas estas palavras:
-
Nenhum... nenhum.
E,
em seguida, complementou:
-
Não esqueci nenhum, nenhum deles!
"
Nos Estados Unidos, comemorado em 14 de fevereiro. Nesse dia, as pessoas enviam
cartões não só aos namorados, mas também a amigos e pessoas queridas.
DECIDIR
Viktor E. Frankl
Histórias Para o Coração 69
O Dr. Victor E. Frankl, que sobreviveu a três terríveis
anos em Auschwitz e em outras prisões nazistas, registrou suas observações
sobre a vida nos campos de concentração de Hitler:
Nós, que vivemos em campos de concentração,
lembramo-nos dos homens que caminhavam pelos alojamentos confortando os
companheiros, oferecendo-lhes seu último pedaço de pão. Eles eram poucos em
número, mas deram provas suficientes de que tudo pode ser tirado de um homem,
menos uma coisa: a expressão última da liberdade humana - o poder de decidir
que atitude tomar em determinadas circunstâncias e que caminho seguir.
APENAS UM COMEÇO
Gary
Smalley e John Trent
Histórias Para o Coração 70
Conhecemos
um casal abastado de Dallas que enfrentou grandes dificuldades para ensinar a
seus filhos a arte de servir ao próximo. O problema era que, durante anos, as
crianças sempre tiveram tudo o que desejaram. Acostumaram-se tanto a ter seus
desejos satisfeitos que a ideia de "servir" alguém parecia coisa da
Idade Média... ou de Marte.
O
pai daquela família compreendeu que estava começando um pouco tarde, mas, um
momento! começar tarde é melhor do que não começar!
Cerca
de uma semana antes do feriado de Ação de Graças, ele disse à família:
-
Vamos fazer uma coisa diferente neste Dia de Ação de Graças. Seus filhos
adolescentes ficaram alerta
e prestaram atenção.
Normalmente,
quando o pai dizia coisas desse tipo, elas significavam algo exótico. Por exemplo,
navegar de barco a vela nas
Bahamas.
Mas
desta vez não foi nada disso.
-
Vamos trabalhar na missão - ele disse. - Vamos servir a ceia do Dia de Ação de
Graças a pessoas pobres e sem-teto.
-
Fazer o quê?
-
Ah, papai, você está brincando... não é verdade? Diga que está brincando...
Ele
não estava brincando. Os filhos concordaram por causa da insistência do pai, mas não
ficaram nada felizes diante dessa perspectiva.
Por um motivo qualquer, o pai havia tomado uma "atitude
excêntrica" e, aparentemente, tirara aquela ideia da própria cabeça.
Trabalhar na missão! E se os seus amigos soubessem disso?
Ninguém
poderia prever o que aconteceria naquele dia.
E ninguém da família podia lembrar-se de um dia melhor que passaram
juntos. Eles se aglomeraram na cozinha, colocaram o peru com o molho em
travessas enfeitadas, fatiaram a torta de abóbora e encheram um sem-número de
xícaras de café. Depois, brincaram com as crianças e ouviram os mais velhos
contarem histórias sobre o Dia de Ação de Graças que haviam acontecido muito
tempo atrás e bem longe dali.
O
pai ficou muito satisfeito (e por que não dizer atônito?) diante da reação dos
filhos. Mas não estava preparado para o pedido que lhe foi feito algumas
semanas depois.
-
Papai... queremos voltar à missão para servir a ceia de Natal!
E
eles serviram. Enquanto as crianças brincavam, eles reencontraram algumas
pessoas que conheceram no Dia de Ação de Graças. Uma determinada família
carente não lhes saía do pensamento, e todos ficaram felizes quando a viram
novamente na fila da sopa. Desde aquela ocasião, as famílias têm-se visitado.
Os adolescentes mimados arregaçaram as mangas outra vez para servir pessoas de
um dos bairros mais pobres de Dallas.
Houve
uma mudança importante, e ao mesmo tempo sutil, dentro daquela casa. Os
adolescentes deixaram de ter a certeza de que conseguiriam tudo na vida. Seus
pais notaram que eles ficaram mais sérios... mais responsáveis. Sim, foi um
começo tardio. Mas foi um começo.
COMO E A SUA CIDADE?
Histórias Para o Coração 72
Havia
um homem idoso e muito sábio. Todos os dias, ele se sentava em sua cadeira de
balanço, ao lado de um posto de gasolina, e esperava para cumprimentar os
motoristas que transitavam por sua pequena cidade. Certo dia, a neta desse
homem ajoelhou-se aos pés de sua cadeira e passou um longo tempo fazendo-lhe
companhia.
Enquanto
eles observavam as pessoas chegando e partindo, um homem alto, que parecia um
turista - pois o avô e a neta conheciam todos os moradores da cidade -, começou
a andar de um lado para o outro como se estivesse examinando o local para morar
ali. O forasteiro aproximou-se dos dois e perguntou:
-
Como é esta cidade?
O
senhor idoso virou-se lentamente e disse:
-
E como é a cidade de onde o senhor vem?
-
Na cidade de onde venho - respondeu o turista -, todo mundo critica todo mundo.
Os vizinhos fazem mexericos. É um lugar péssimo para viver. Estou feliz por
sair de lá. Não é muito agradável.
O
homem sentado na cadeira de balanço olhou para o forasteiro e disse:
-
Sabe de uma coisa? Esta cidade é exatamente assim.
Mais
ou menos uma hora depois, uma família que também estava de passagem pela cidade
fez uma parada para reabastecer. O carro rodou lentamente e parou diante do
local onde o senhor idoso e
NÃO ERA IMPORTANTE
Charles
Colson
Histórias Para o Coração 74
Os
jovens da Igreja Cristã de Shively, dirigidos na época pelo pastor da mocidade
Dave Stone, competiam bravamente
com
a igreja vizinha, a Batista de Shively, em tudo, principalmente nos jogos de
softball [forma modificada de beisebol, jogado com bola mais macia e maior].
Eles levavam a sério o Cristianismo, frequentando assiduamente o acampamento
bíblico de verão dirigido pelo jovem pastor.
O
estudo bíblico de uma das semanas referia-se ao capítulo 13 do Evangelho de
João, que menciona o episódio em que Jesus lavou os pés de seus
discípulos. Para enfatizar a lição sobre
a humildade, o pastor Stone dividiu os
jovens em grupos e pediu-lhes que saíssem para encontrar uma maneira
prática de ajudar alguém .
-
Quero que vocês sejam como Jesus nesta cidade durante as próximas duas horas -
ele disse. - Se Jesus estivesse aqui, o que Ele faria? Imaginem como Ele
ajudaria o povo.
Duas
horas depois, os jovens reuniram-se novamente na sala de estar da casa do
pastor para relatar o que haviam feito.
Um
grupo trabalhou durante duas horas no jardim de um senhor idoso. Outro comprou
sorvetes e os serviu a várias viúvas
da igreja. Um terceiro grupo visitou um membro da igreja que estava
hospitalizado e entregou-lhe um cartão. Outro foi a uma casa de repouso e
cantou cantigas natalinas - sim, cantigas natalinas em pleno mês de agosto. Um
idoso que morava ali comentou que foi o Natal mais feliz do qual ele se
lembrava.
Porém,
quando o quinto grupo levantou-se e relatou o que havia feito, todos deram um
gemido de desgosto. Esse grupo visitara a igreja rival, a Batista de Shively, e
perguntara ao pastor se ele conhecia alguém que necessitava de ajuda. O pastor
os encaminhou ao lar de uma senhora idosa que precisava de alguém para cuidar
de seu jardim. Ali, eles trabalharam durante duas horas, cortando a grama,
varrendo as folhas secas e aparando a cerca viva.
Quando
eles estavam prontos para partir, a senhora chamou o grupo e agradeceu o
trabalho de todos.
-
Eu não sei o que
faria sem sua ajuda - ela disse. -
Vocês, da Batista de Shively, estão sempre vindos aqui para me socorrer.
-
Batista de Shively! - interrompeu o pastor Stone. - Espero que vocês tenham
dito a ela que pertenciam à Igreja Cristã de Shively.
-
Por quê?
Não, não dissemos
- retrucou um dos
jovens .
-
Achamos que não era importante.
GALINHAS
Anne
Padden
Histórias Para o Coração 76
No
maravilhoso clássico de Jack London, White Fang [Caninos Brancos], conta a
história de um animal, metade cão e metade lobo, que luta para sobreviver na
floresta e, depois, aprende a viver no meio dos homens. Há um trecho em
particular que ficou gravado em meu coração.
White
Fang tinha predileção por galinhas e, em certa ocasião, invadiu um galinheiro e
matou 50. Seu dono, Weeden Scott, a quem White Fang considerava um deus e
"amava de todo o coração", chamou-lhe a atenção e, depois, colocou-o
dentro do galinheiro. Quando viu seu alimento favorito andando de um lado para
o outro debaixo de seu nariz, White Fang obedeceu a seu impulso natural e atacou uma das galinhas.
Imediatamente, seu dono o repreendeu com voz forte. Os dois ficaram juntos no
galinheiro por algum tempo. Todas as vezes que White Fang ameaçava atacar uma
galinha, a voz do dono o impedia. Assim, ele aprendeu aquilo que seu dono
queria não importunar as galinhas.
O
pai de Weeden Scott argumentou que "não podemos dominar o instinto de um
matador de galinhas", mas Weeden o desafiou e ambos concordaram em trancar White Fang no galinheiro durante a tarde inteira.
Trancado
no galinheiro e sem o olhar vigilante do dono, White Fang deitou-se e dormiu.
Levantou-se apenas uma vez e caminhou até a tina para beber água. As galinhas
não lhe deram atenção. Para White Fang, as galinhas simplesmente não existiam.
Às 16 horas, ele correu e deu um impulso com o corpo, indo parar no telhado do
galinheiro. Em seguida, saltou no chão do lado de fora e dirigiu-se para a
casa. Ele havia aprendido a regra.
Por
amor a seu dono e desejo de obedecer-lhe, White Fang dominou seus instintos
naturais. Talvez ele não tenha compreendido o motivo de ter-se curvado à
vontade do dono.
As
histórias sobre animais têm o dom de quebrantar nosso coração e, geralmente,
nos revelam uma grande verdade. A simplicidade e a pureza do amor e devoção de
White Fang a seu dono ajudaram-me a compreender que minha vida estará sempre
rodeada de "galinhas". Eu só preciso decidir uma coisa: a quem vou
servir?
O MILIONÁRIO E A LAVADORA DE ESCADAS
William
E. Barton
Histórias Para o Coração 78
Há
um certo milionário que tem um Escritório no Segundo Andar do Edifício do First
National Bank. Para subir até seu Escritório, ele usa o Elevador, mas, para
descer, usa as Escadas.
Ele
é um Homem Arrogante, que um dia foi pobre e progrediu no Mundo. É um Homem que
se fez por conta própria e adora seu criador.
Paga
o Aluguel regularmente no primeiro dia do mês e não se importa com os Seres
Humanos que dirigem os Elevadores, nem com quem Limpa as
Janelas dependurado a uma
grande altura da Calçada, nem com quem
atira Carvão com a pá nas fornalhas das
Caldeiras. No Natal, ele também não se lembra de dar uma Gorjeta ou um Peru a
eles.
Há
naquele Edifício uma Mulher Pobre que Lava as Escadas e os Corredores. Ele
passa por ela com frequência, mas só notou sua presença recentemente, porque
sua cabeça estava nas alturas, e ele só pensava em ganhar Mais Milhões.
Um
dia, ele saiu de seu Escritório e começou a descer as Escadas.
A
Lavadora de Escadas encontrava-se um pouco abaixo; porque ela começou a lavar
de cima para baixo e estava conferindo seu Trabalho. No degrau mais alto da Escada, em um local
molhado e ensaboado, havia um Grande
Pedaço de Sabão. E o Milionário pisou nele.
O
pé com o qual ele pisou no Sabão escorregou para o leste, onde nasce o Sol, e o
outro dirigiu-se por conta própria para o Ocaso. E o Milionário caiu sentado no
Primeiro Degrau, mas não permaneceu ali. Como tinha a intenção de
Descer, ele Desceu, mas não de acordo com seu Plano Original. E, enquanto
descia, ia batendo em cada degrau, provocando
o som de um Tambor.
A
Lavadora de Escadas afastou-se gentilmente para deixar o caminho livre.
Ao
chegar ao último degrau, ele levantou-se e refletiu se devia dirigir-se à
Administração do Edifício e exigir
que a Lavadora de Escadas fosse demitida; mas achou
que, se revelasse o motivo, provocaria muitos Risos entre os ocupantes do
Edifício. Portanto, resolveu manter a calma.
Porém,
a partir daquele dia, ele começa a notar a presença da Lavadora de Escadas e
passa por ela com Circunspecção.
Porque
não existe ninguém tão importante ou poderoso que possa dar-se ao luxo de
desprezar outro ser humano. Porque uma Lavadora de Escadas muito Humilde e uma
barra de Sabão Amarelo comum podem afastar os Problemas Comerciais da mente de
um Grande Homem com uma rapidez surpreendente.
Portanto,
medita sobre estas coisas e não te consideres tão importante, mesmo que estejas
perante os mais humildes filhos de Deus.
Se,
por acaso, tiveres de descer de teu
pedestal de orgulho e te afastares dali com tuas feridas doendo
um pouco mais porque suspeitas que a Lavadora de Escadas está Sorrindo em meio
à Espuma, enfrenta o dia de trabalho com mais ânimo por causa da alegria que
deste a ela.
Porque
estes são dias solenes, e aquele que põe um sorriso no rosto de uma Lavadora de
Escadas não viveu em vão.
O SINAL
Alice Gray
Histórias Para o Coração 80
O jovem estava sentado sozinho no ônibus e
passava a maior parte do tempo olhando pela janela. Ele tinha cerca de 25 anos,
bela aparência e rosto bondoso. A camisa azul-marinho combinava com a cor de
seus olhos. O cabelo era curto e bem penteado. Vez por outra, desviava o olhar
da janela, e a ansiedade estampada em seu semblante tocou o coração de uma avó
sentada do outro lado do corredor. Quando o ônibus já se aproximava dos limites
de uma pequena cidade, ela sentiu uma compaixão tão grande pelo jovem que atravessou
o corredor e pediu licença para sentar-se ao lado dele.
Após alguns momentos de conversa amena sobre o
clima quente da primavera, ele disse inesperadamente:
- Fiquei dois anos na prisão. Saí esta manhã e
estou indo para casa.
Suas palavras fluíram com mais facilidade
quando ele contou que sua família era pobre, porém orgulhosa, e que seu crime
trouxera vergonha e desgosto a todos. No decorrer daqueles dois anos, ele não
recebeu nenhuma notícia deles. Sabia que eram muito pobres para fazer uma
viagem tão longa até a prisão e que seus pais provavelmente se consideravam
incultos demais para escrever.
Ele parou de escrever para a família por não
ter recebido nenhuma resposta.
Três semanas antes de ser libertado, ele
escreveu uma carta desesperada a seus familiares dizendo que lamentava muito
ter causado tanto desapontamento a eles e pedindo perdão.
Contou-lhes que seria solto da prisão e que
pegaria um ônibus para sua cidade natal, que passava em frente da casa onde ele
havia crescido e onde seus pais ainda moravam. Disse que compreenderia se eles
não o perdoassem.
Na tentativa de facilitar as coisas para a
família, o jovem pediu que eles providenciassem um sinal que pudesse ser visto
do ônibus.
Se eles o tivessem perdoado e o aceitassem de
volta, deveriam amarrar uma fita branca na antiga macieira que ficava na frente
da casa. Se a fita não estivesse lá, ele continuaria no ônibus, iria embora da
cidade e da vida deles sempre.
À medida que o ônibus se aproximava de sua rua,
o jovem foi ficando cada vez mais nervoso, a ponto de ter medo de olhar pela
janela, porque estava certo de que não haveria nenhuma fita.
Depois de ouvir a história, a senhora
perguntou:
- Você se sentiria melhor se trocássemos de
lugar e eu me sentasse perto da janela para ver se a fita está lá?
O ônibus rodou mais alguns quarteirões e, em
seguida, a senhora avistou a árvore. Ela tocou carinhosamente o ombro do rapaz
e, sufocando as lágrimas, disse:
- Olhe! Olhe! A árvore inteira está coberta de
fitas brancas!
O BOM SAMARITANO
Tim
Hazel
Histórias
Para o Coração 83
Em
um semestre do ano letivo, um professor do seminário planejou sua aula de
pregação de maneira diferente. Queria que seus alunos pregassem sobre a
Parábola do Bom Samaritano e, no dia da aula, ele pôs seu plano em prática
pedindo aos alunos e alunas que fossem, um de cada vez, a uma classe vizinha
onde deveriam pregar um sermão. O professor deu a alguns alunos o prazo de dez
minutos para eles voltarem; a outros, deu menos tempo, forçando-os a correr
para cumprir o prazo. Os alunos tinham de atravessar um corredor e passar por
um mendigo, que estava plantado ali de propósito, aparentemente necessitando de
ajuda.
Os
resultados foram surpreendentes e ofereceram uma excelente lição para eles. A
porcentagem dos alunos generosos que pararam para ajudá-lo foi extremamente
baixa, principalmente por parte daqueles que tinham prazo mais curto. Quanto
mais escasso era o tempo, menos alunos paravam para ajudar o indigente. Quando
o professor revelou o que havia feito, você pode imaginar o impacto sobre
aquela classe de futuros líderes espirituais. Apressados para pregar um sermão
sobre o Bom Samaritano, eles passaram de largo pelo mendigo, conforme diz a
parábola. Devemos ter olhos para ver e mãos para ajudar, ou podemos não ajudar
nunca. Penso que este poema tão conhecido serve para expressar esse conceito:
Eu
estava faminto, e você organizou um clube humanitário para discutir minha fome.
Obrigado.
Eu
estava preso, e você se retirou tranquilamente para sua capela a fim de orar
por minha Libertação.
Que
bom!
Eu
estava nu e em sua mente você debateu a moralidade de minha aparência.
Qual
foi o proveito disso?
Eu
estava doente, e você ajoelhou-se e agradeceu sua saúde a Deus.
Mas eu precisava de você.
Eu
não tinha onde morar, e você fez um sermão para mim sobre a proteção do amor de
Deus.
Eu
queria que você me levasse para casa.
Eu
estava abandonado, e você me deixou sozinho para orar por mim.
Por
que não ficou comigo?
Você
parece tão Janto, tão próximo de Deus, mas eu continuo faminto, abandonado, com
frio e sofrendo.
Isso
faz diferença para você?
CONTENTAMENTO É...
Ruth
Senter
Histórias Para o Coração 85
Eu
ouvia a voz, mas não tinha condição de enxergar a pessoa.
Ela
estava do outro lado do armário do vestiário. Acabara de chegar da aula de
natação matinal. Sua voz assemelhava-se à própria manhã: forte, animada, cheia
de vida. Às 6h15 da manhã, atrairia a atenção de qualquer pessoa. Eu ouvi sua
voz firme:
-
Dolores, gostei muito do livro que você pegou para mim na semana passada. Sei
que a biblioteca fica fora de seu caminho. Não consegui parar de ler.
Solzhenitsyn é um grande escritor. Estou feliz por você ter-me sugerido o livro
dele.
-
Bom-dia, Pat - ela cumprimentou outra nadadora. Por um instante, a voz
melodiosa calou-se. Em seguida,
ouvi-a dizer:
-
Você já viu um dia tão esplêndido como este? Vi um par de cotovias enquanto
caminhava esta manhã.
Isso nos traz alegria de viver, não?
O
tom da voz era bom demais para ser verdade. Quem pode ser tão agradecido a essa
hora da manhã? A voz dela tinha um certo requinte. Talvez fosse uma mulher
rica, sem nada para fazer o dia inteiro, a não ser tomar uma xícara de chá em
sua varanda e ler Solzhenitsyn. Eu ficaria animada às 6 horas da manhã se
pudesse nadar e ler um livro ao longo do dia. Ou se possuísse uma casa de campo
nos bosques do Norte.
Contornei
o armário em direção aos chuveiros e fiquei frente a frente com a dona daquela
voz jovem. Ela estava arrumando seus apetrechos. O uniforme amarelo de
faxineira ficava bem assentado naquela mulher de uns 50 anos. Era um uniforme
que eu conhecia, acompanhado de vassouras, esfregões, panos de pó e baldes. Uma
empregada do local onde eu nadava. Ela deu um leve sorriso para mim, pegou sua
sacola de plástico das Lojas Americanas e caminhou apressada em direção à
porta, dizendo: "Tenha um glorioso
dia" a todos que encontrava.
Eu
não consegui tirar da mente aquele uniforme amarelo, enquanto dava minhas
braçadas e afundava o corpo na espuma da piscina de hidromassagem. Meus dois
companheiros estavam entretidos em uma conversa. Pelo menos um deles estava.
Sua voz cansada e triste falava de dores nos joelhos causadas por
artrite, aneurisma no coração, noites sem dormir e dias repletos de mal-estar.
Nada
estava bom ou na medida certa. A água estava quente demais, os jatos d'água não
eram suficientemente fortes para seus joelhos endurecidos, e os médicos haviam
demorado muito para diagnosticar seu caso. Com sua mão enfeitada com um anel de
brilhante, ele retirou a espuma branca do rosto. Parecia um ancião, mas
suspeitei que também tivesse uns 50 anos.
O
uniforme amarelo e o anel de brilhante, surpreendente e silencioso contraste,
provaram mais uma vez para mim que, quando Deus diz que "religiosidade
acompanhada de contentamento significa prosperidade", Ele quer dizer
exatamente isso. Naquela manhã, eu vi contentamento e descontentamento . Tomei
a decisão de jamais me esquecer disso.
Oração
de São Francisco de Assis
Senhor,
Faze
de mim um instrumento de tua paz.
Onde
houver ódio, que eu leve amor;
onde
houver desespero, que eu leve esperança;
onde
houver tristeza, que eu leve alegria;
onde
houver trevas, que eu leve luz.
Ó
Divino Mestre,
permite
que eu procure mais consolar que ser consolado;
amar
que ser amado.
Pois
é dando que recebemos,
é
perdoando que somos perdoados,
e
é morrendo que nascemos
para
a vida eterna.
EDUCAÇÃO
Histórias Para o Coração
89
Se a sua visão for para um ano, plante trigo.
Se a sua visão for para dez anos, plante
árvores.
Se a sua visão for para a vida inteira, plante
pessoas.
Provérbio Chinês
O ZELADOR DA FONTE
Charles
Swindoll
Histórias Para o Coração 91
O
"Zelador da Fonte" era um pacato habitante da floresta que vivia em
um povoado da Áustria nas encostas dos Alpes. O idoso cavalheiro fora
contratado havia muitos anos pelo então recém-constituído conselho municipal
para retirar entulhos das piscinas formadas pela água que descia pelas encostas
da montanha e abastecia a encantadora fonte da cidade. Com fiel e silenciosa
regularidade, ele inspecionava as colinas, retirava folhas e galhos secos e
limpava o limo que poderia obstruir ou contaminar o fluxo daquela corrente de
água fresca. Aos poucos, o povoado começou a atrair a atenção dos turistas.
Cisnes graciosos nadavam pela água cristalina. Rodas-d'água de várias empresas
localizadas na região giravam dia e noite. As plantações eram naturalmente
irrigadas, e a paisagem vista dos restaurantes tinha uma beleza indescritível.
Os
anos foram passando. Certa noite, o conselho da cidade reuniu-se para o
encontro semestral. Enquanto seus membros examinavam o orçamento, os olhos de
um deles fixaram-se no salário pago ao humilde zelador da fonte. O responsável pelas finanças perguntou:
-
Quem é esse velho? Por que está sendo pago todos esses anos? Ninguém o vê. Pelo que sabemos,
esse estranho guarda da reserva florestal não tem nenhuma utilidade para nós.
Ele não é mais necessário!
Por
unanimidade, resolveram dispensar os serviços do homem idoso.
Nada
mudou durante algumas semanas. No início do outono, as árvores começaram a
perder as folhas. Pequenos galhos desprendiam-se e caíam nas piscinas formadas
pelas nascentes, obstruindo o fluxo da água borbulhante. Certa tarde, alguém
notou uma leve coloração marrom-amarelada na fonte. Dois dias depois, a água
estava mais escura. Após uma semana, uma película de lodo cobria toda a
superfície ao longo das margens, provocando mau cheiro. As rodas-d'água
movimentavam-se com mais lentidão, e algumas chegaram a parar. Os cisnes
abandonaram o local, e os turistas também. Houve um surto de enfermidades no
povoado.
Constrangido,
o conselho convocou rapidamente uma reunião extraordinária de emergência.
Depois de reconhecer o erro grosseiro que haviam cometido, contrataram
novamente o zelador da fonte... e, algumas semanas depois, as águas do
autêntico rio da vida começaram a clarear. As rodas-d'água voltaram a funcionar
e, mais uma vez, a vida nos Alpes retomou o seu curso.
Por
mais fantasiosa que possa parecer, essa história é mais do que uma simples
lenda. Ela contém uma relevante e clara analogia diretamente relacionada à
época em que vivemos. Os cristãos representam para o nosso mundo o mesmo que o
zelador da fonte para o povoado. Um leve sabor do sal misturado com raios de
luz brilhantes e cheios de esperança podem parecer insignificantes e
desnecessários..., mas Deus vem em socorro de qualquer sociedade que tente
existir sem esses dois elementos! Veja, o povoado sem o Zelador da Fonte é uma
representação perfeita do sistema mundial sem o sal e sem a luz.
UM HOMEM NÃO PODE FICAR SENTADO À TOA
Howard Hendricks com Chip MacGregor
Histórias Para o Coração 93
Larry Walters era motorista de caminhão, mas o
sonho de sua vida era voar. Quando formou-se no II Grau, alistou-se na Força
Aérea, mas não conseguiu seu intento por ter visão fraca para vôo. Teve de contentar-se em ver outras pessoas
pilotando os caças a jato que cruzavam os céus, sobrevoando seu quintal. Todos
os dias, sentado em sua cadeira de preguiça no fim da tarde, ele sonhava com a
mágica de voar.
Mas certo dia ele teve uma ideia. Dirigiu-se ao
depósito de materiais excedentes da Aeronáutica de sua cidade e comprou um
tanque de hélio e 45 balões atmosféricos. Voltou ao seu quintal e usou tiras
para amarrar os balões à sua cadeira de balanço. Depois de tudo pronto, fez um
pacote com sanduíches e refrigerantes e carregou uma arma, imaginando que
poderia usa-la para estourar alguns balões quando chegasse o momento de
aterrissar. Seu plano era subir devagar, flutuar lentamente por algum tempo e
depois retornar à terra firme. Mas as coisas não funcionaram como ele havia
planejado. Assim que cortou o fio que prendia seu “balão” ao jipe, ele não
flutuou, mas projetou-se para cima como um tiro de canhão! Também não subiu
algumas centenas de metros, mas em pouco tempo estava a mais de 3 mil metros de
altitude. E ali não podia arriscar-se a estourar 1 único balão pois temia
desequilibrar a carga e sair voando como uma bexiga esvaziando. Assim, resolveu
ficar ali, flutuando até cair. Mas esse pequeno passeio durou 14 horas, sem que
ele soubesse o que poderia fazer para descer.
Finalmente Larry foi levado pelo vento às
proximidades do aeroporto internacional de LA. Um piloto da Pan-Am chamou a
torre pelo rádio e informou que acabara de ver um sujeito sentada em uma
cadeira preguiçosa a 3 mil metros, segurando uma arma no colo.
Quando escureceu Larry começou a voar em
direção ao mar. Nessa altura, a Marinha já havia enviado um helicóptero para
resgata-lo. Mas era difícil faze-lo pois o vento provocado pelas hélices
afastava cada vez mais a engenhoca de Larry. Depois de muito trabalho, um
bombeiro conseguiu descer do helicóptero até ele, e içados, resgata-lo.
Assim que pisou em terra firme, Larry foi
preso. Enquanto estava sendo conduzido à prisão, algemado, um repórter de
televisão perguntou:
- Sr. Walters, por que o senhor fez isso?
Larry parou, encarou o repórter e respondeu com
indiferença:
- Um homem não pode ficar sentado à toa
enquanto vê seu sonho passar e nada fazer para alcança-lo.
VAMOS, AGUENTEM FIRMES!
Howard Hendricks
Histórias Para o Coração 95
Há pouco tempo, perdi uma de minhas melhores amigas,
uma professora secular de 86 anos, a pessoa mais cheia de entusiasmo que já
conheci. A última vez que a vi no planeta Terra foi em uma daquelas festas
cristãs desinteressantes. Estávamos sentados ali, com ar piedoso, quando ela
chegou e disse:
- Hendricks! Faz tempo que não o vejo. Quais
foram os cinco livros que você leu no ano passado?
Mary foi professora por toda a vida. Mas os que
a conheceram testemunham que nunca viram alguém com tanto entusiasmo para
viver. Depois de aposentada, quando convidada a ir àquelas festas nostálgicas
tão desinteressantes, ela mudava o clima. Sua filosofia era:
- Não devemos ficar entediados um com o outro;
devemos provocar uma discussão, e, se não encontrarmos nada para discutir,
vamos procurar um motivo.
Geralmente perguntava às amigas mais íntimas:
- Colega, quais foram os 5 livros que você leu
no ano passado?
Quando Mary fez sua última viagem à Terra
Santa, estava com 83 anos. E foi acompanhando a delegação da Liga Nacional de
Futebol profissional americano. E não se engane: durante os jogos, ela ficava
nas arquibancadas, aos berros, gritando: Vamos, rapazes, aguentem firme! Ela
morreu dormindo, aos 86 anos. A filha contou que, pouco antes de morrer, ela
havia escrito numa caderneta seus objetivos para os 10 anos seguintes!
A BATALHA MAIS PRÓXIMA
Richard
C. Halverson
Histórias Para o Coração 96
Você
quer ser um vencedor? Concorra consigo mesmo, não com outras pessoas.
Vencer
seu parceiro de xadrez não significa necessariamente que tenha sido o seu
melhor jogo. Passar na frente de seu rival não significa que tenha sido a sua
melhor corrida. Você pode vencer outra pessoa e, mesmo assim, não usar todo o
seu potencial.
Tudo
na vida é assim. Para ser o melhor, você precisa competir consigo mesmo. Essa é
a maior competição da vida.
Um
perdedor é vencedor - não importa quantas derrotas ele teve - se vencer a si próprio.
Um
vencedor é perdedor - não importa quantas vitórias ele teve se perder a batalha
travada consigo mesmo. Alexandre, o Grande, conquistou o mundo e deplorou sua
falta de autocontrole.
A
vitória sobre os outros pode ser o verdadeiro motivo que contribui para que o
vencedor perca a luta contra si mesmo. A vitória o deixa orgulhoso, arrogante,
autossuficiente, descuidado e, às vezes, cruel.
Em
outras palavras, não é o que acontece com você que faz a diferença, mas a maneira como você lida com isso.
Aquele
que pára de amadurecer espiritualmente por pensar que conhece mais a Bíblia que
os outros ou por ter tido mais sucesso em seu ministério, está muito longe de
ser aquilo que Cristo planejou para ele.
Se
você tiver de se comparar a alguém, compare-se a Cristo. Permita que Ele modele
sua vida em todo o seu potencial, de acordo com seus planos divinos.
MENTOR
Howard Hendricks com Chip McGregor
Histórias Para o Coração 97
Em 1919, um homem que se recuperava dos
ferimentos sofridos na Grande Guerra da Europa alugou um pequeno apartamento em
Chicago. Ele escolheu um local nas proximidades da casa de Sherwood Anderson, o
autor famoso. Anderson havia escrito o aclamado romance Winesburg, Ohio e era
conhecido por sua disposição em ajudar escritores mais jovens.
Os dois homens tornaram-se amigos e passaram a
encontrar-se quase que diariamente durante dois anos. Faziam as refeições
juntos, davam longas caminhadas e discutiam, até altas horas da noite, a arte
de escrever bem. O rapaz sempre levava rascunhos de seu trabalho a Anderson, e
o autor veterano reagia com críticas cruelmente honestas. Todavia, o rapaz
nunca desanimou. Ele ouvia com atenção, fazia anotações e retornava à máquina
de escrever para aperfeiçoar sua obra. Não tentava defender-se, porque, conforme
comentou posteriormente: "Eu não sabia escrever até conhecer Sherwood
Anderson." Uma das coisas que Anderson fez para ajudar seu jovem protegido
foi apresentá-lo a seus colegas do mundo editorial. Em breve, o rapaz já estava
escrevendo sem ajuda. Em 1926, ele publicou seu primeiro romance, que foi
aclamado pela crítica. Seu título era The Sun Also Rises [O Sol Também se
Levanta], e o nome do autor era Ernest Hemingway.
Mas esperem um pouco! A história não termina
aqui. Depois que Hemingway partiu de Chicago, Anderson mudou-se para Nova
Orleans. Lá, ele conheceu outro jovem escritor, um poeta com um desejo
insaciável de aperfeiçoar seu talento. Anderson o fez passar pelos mesmos
testes de Hemingway - escrever, criticar, discutir, incentivar - e escrever
cada vez mais. Ele entregou exemplares de seus romances ao jovem e o incentivou
a lê-los atentamente, observando as palavras, os temas e o desenvolvimento do
personagem e da história. Um ano depois, Anderson ajudou o jovem a publicar seu
primeiro romance, Soldier Pay [O Pagamento do Soldado].
Três anos depois, aquele brilhante novo
talento, William Faulkner, escreveu The Sound and the Fury [O Som e a Fúria],
que rapidamente se tornou uma obra-prima norte-americana.
O papel de Anderson como mentor de autores
aspirantes não parou aí. Na Califórnia, ele passou vários anos trabalhando com
o dramaturgo Thomas Wolfe e com um jovem chamado John Steinbeck, entre outros.
Em resumo, três dos protegidos de Anderson ganharam o Prêmio Nobel de
Literatura e quatro Prêmios Pulitzer na mesma categoria. O famoso crítico
literário Malcolm Cowley disse que Anderson foi "o único escritor de sua
geração que deixou sua marca no estilo e na visão da geração seguinte".
Por que Anderson dedicou seu tempo e
conhecimentos com tanta generosidade para ajudar os mais jovens? Entre outros
motivos, talvez porque tivesse recebido a influência de um autor mais velho, o
grande Theodore Dreiser. Também passou um bom tempo ao lado de Carl Sandburg.
Considero instrutivo esse tipo de
comportamento. Além de refletir minha própria experiência, ele também ilustra o
princípio fundamental da experiência humana: a melhor maneira de causar impacto
no futuro é ajudar a construir a vida de outra pessoa. Isso é que é ser um
mentor.
SUCESSO
RECONTADA POR ALICE GRAY
Histórias Para o Coração 99
Madre Teresa participou de reuniões com reis,
presidentes e chefes de Estado do mundo inteiro. Eles compareciam usando
coroas, joias e roupas de seda, enquanto Madre Teresa usava seu tradicional
sári, preso por um alfinete de segurança.
Um nobre conversou com ela a respeito de seu
trabalho com a camada mais pobre da população de Calcutá. Ele perguntou se ela
não se sentia desanimada ao ver tão pouco sucesso em seu ministério.
Madre Teresa respondeu:
- Não, eu não me sinto desanimada. Veja, Deus
não me chamou para um ministério de sucesso. Ele me chamou para um ministério
de misericórdia.
O GUARDA-CHUVA VERMELHO
por Tania Gray
Histórias Para o Coração 100
A seca parecia não ter fim, e uma pequena
comunidade de fazendeiros do meio-oeste estava em dúvida sobre o que fazer. A
chuva era importante não apenas para manter a plantação viçosa, mas também para
prover meios de subsistência para os habitantes da cidade. Quando o problema se
tornou mais urgente, a igreja local achou que era tempo de envolver-se e
planejou uma reunião de oração para pedir chuva.
Como nos antigos rituais dos indígenas
norte-americanos, as pessoas começaram a chegar à igreja. Em breve, o pastor
também chegou e observou sua congregação afluindo ao local. Ele foi passando
lentamente de grupo em grupo, enquanto se dirigia ao púlpito para iniciar
oficialmente a reunião. Todas as pessoas que ele encontrou estavam conversando,
apreciando a oportunidade de rever os amigos. Quando o pastor postou-se diante
de seu rebanho, sua prioridade era silenciar o povo e dar início à reunião.
Assim que começou a pedir silêncio, ele
observou uma menina de 11 anos sentada na primeira fileira. Seu rosto angelical
brilhava de alegria e, a seu lado, havia um lindo guarda-chuva vermelho, pronto
para ser usado. A beleza e a inocência dessa cena fizeram o pastor sorrir para
si mesmo quando ele se deu conta da fé daquela menina, uma fé que o restante
das pessoas parecia ter esquecido. Todos haviam comparecido para orar pedindo
chuva... ela, para presenciar a resposta de Deus.
SÓ É NECESSÁRIO UM POUCO DE MOTIVAÇÃO
Zig Ziglar
Histórias Para o Coração 101
Gosto muito de uma história que o falecido Dr.
Ken McFarland gostava de contar. Um homem, que trabalhava das 16 horas até a
meia-noite, costumava ir a pé para casa após o expediente. Certa noite, a Lua
estava tão clara que ele resolveu cortar caminho pelo cemitério, poupando-se de
uma volta de uns 800 metros. Como não houve nenhum incidente, ele passou a
fazer isso regularmente, sempre seguindo o mesmo caminho. Uma noite, enquanto
atravessava o cemitério, ele não percebeu uma cova que havia sido aberta durante
o dia e caiu dentro dela. Imediatamente, ele começou a fazer um esforço
desesperado para sair dali. Suas tentativas fracassaram e, depois de alguns
minutos, ele decidiu relaxar e aguardar até o dia amanhecer para que alguém o
ajudasse a sair.
Ele sentou-se em um canto e estava quase
adormecendo quando um bêbado também caiu dentro da cova. Sua chegada despertou
o trabalhador, porque o bêbado tentava desesperadamente sair, agarrando-se nas
laterais da cova. Nosso herói esticou o braço, tocou a perna do bêbado e disse:
- Amigo, você não pode sair daqui...
Mas o bêbado saiu! -
Isso é que é motivação!
UMA AUTOBIOGRAFIA EM CINCO PARÁGRAFOS CURTOS
Portia Nelson
Histórias Para o Coração 102
1.
Eu
caminho pela rua. Há um buraco muito fundo na calçada.
Caio
dentro dele. Estou perdida. Fico desesperada. A culpa não foi minha. Vai
demorar uma eternidade para eu sair daqui.
2.
Eu
caminho pela rua. Há um buraco muito fundo na calçada.
Finjo
que não o vejo. Caio dentro dele. Não posso acreditar que caí no mesmo buraco,
mas a culpa não é minha. Vai demorar muito para eu sair daqui.
3.
Eu
caminho pela rua. Há um buraco muito fundo na calçada.
Eu
o vejo. Mesmo assim, caio dentro dele. É um hábito. Meus olhos estão abertos.
Eu sei onde estou. A culpa é minha. Saio imediatamente.
4.
Eu
caminho pela rua. Há um buraco muito fundo na calçada.
Eu
passo ao redor dele.
5.
Eu
caminho por outra rua.
NÃO DESANIME...
Alice Gray
Histórias Para o Coração 103
Um jovem caminhava por uma estrada deserta
quando ouviu um som semelhante a um gemido. Ele não sabia ao certo que ruído
era aquele, mas parecia vir de algum lugar embaixo da ponte. Conforme ele ia se
aproximando dela, o som ficava mais forte.
Foi então que ele viu uma cena comovente.
Deitado no leito do rio lamacento estava um cachorrinho de cerca de dois meses
de idade. Ele tinha um ferimento na cabeça e o corpo coberto de lama. As
patinhas da frente estavam amarradas com uma corda e inchadas.
Imediatamente, o jovem foi tomado de compaixão
e dispôs-se a ajudar o cachorrinho, mas, quando ele se aproximou, o gemido
cessou e o animal arreganhou os dentes e começou a rosnar. O jovem, porém, não
desanimou. Abaixou-se e passou a conversar carinhosamente com o animalzinho.
Depois de um certo tempo, o cachorrinho parou de rosnar e o jovem pôde
aproximar-se mais um pouco, até tocá-Io e começar a desamarrar a corda. O jovem
levou o cachorrinho para casa, cuidou de seus ferimentos, deu-lhe comida e água
e um lugar quentinho para dormir. Mesmo depois de tudo isso, o cachorro
continuava a arreganhar os dentes e a rosnar todas as vezes que o jovem se
aproximava. Ele, contudo, não desanimou.
Semanas depois, ele continuava cuidando do
cachorrinho até que, um dia, ao ver o jovem aproximar-se, o animal abanou a
cauda.
O amor e a bondade persistentes venceram, dando
início a uma longa amizade baseada em lealdade e confiança.
O HEAD HUNTER"
Josh McDowell
Histórias Para o Coração 105
Um "head hunter", pessoa
especializada em contratar executivos para empresas, contou-me o seguinte:
- Quando descubro um executivo para uma
organização, gosto de deixá-la desarmado. Ofereço um drinque, tiro o paletó e o
colete, afrouxo o nó da gravata, coloco os pés em cima da mesa e falo sobre
beisebol, futebol, família ou qualquer outro assunto, até que ele se sinta à
vontade. Quando percebo que ele está descontraído, debruço-me sobre a mesa,
olho firme dentro de seus olhos e pergunto:
"Qual é seu objetivo na vida?" É
impressionante ver como os executivos de alto nível se intimidam diante dessa
pergunta. Um dia, durante uma entrevista com um candidato, procedi de maneira
semelhante: coloquei os pés em cima da mesa e falei sobre futebol.
Em seguida, coloquei os cotovelos na mesa e
perguntei: "Qual é seu objetivo na vida, Bob?" E ele respondeu, sem
pestanejar:
"Ir para o céu e levar comigo o maior
número de pessoas que puder." Pela primeira vez em minha carreira eu
fiquei sem saber o que dizer.
SE EU PUDESSE RECOMEÇAR MINHA VIDA
Irmão Jeremiah
Histórias Para o Coração 106
Se eu pudesse recomeçar minha vida, tentaria
cometer mais erros. Encontraria tempo para relaxar. Seria mais transigente.
Seria mais tolo do que tenho sido. Levaria
poucas coisas a sério.
Viajaria mais. Escalaria mais montanhas,
nadaria mais e contemplaria mais crepúsculos. Faria mais caminhadas e
observaria a natureza.
Tomaria mais sorvetes e comeria menos feijão.
Teria mais problemas reais e menos problemas imaginários. Sou uma daquelas
pessoas que vive de maneira regrada, sensata e racional, hora após hora, dia
após dia. Oh, já tive bons momentos; e, se eu recomeçasse minha vida, teria
muitos outros. Na verdade, eu não tentaria ter mais nada. Apenas viveria um
momento após o outro, em vez de viver diariamente os anos seguintes. Sou aquele
tipo de pessoa que não sai de casa sem um termômetro, uma bolsa de água quente,
um antisséptico bucal, uma aspirina, uma capa e um guarda-chuva.
Se eu tivesse de começar de novo, passearia
bastante, faria muitas coisas e levaria a vida de maneira mais amena.
Se eu tivesse de recomeçar minha vida, rodaria
mais vezes no carrossel - colheria mais margaridas.
CARTA A UM TREINADOR
Pai de um atleta
Histórias Para o Coração 109
Prezado treinador, Acabei de ler sua carta
dirigida a meu filho e a nós (os pais) sobre as esperanças que você deposita
nos atletas sob seu comando. A mãe de Johnny e eu concordamos plenamente porque
reconhecemos os benefícios provenientes das práticas esportivas realizadas no
ensino médio.
Seu currículo deixa claro que você é um ótimo
treinador. Isso é muito importante.
Existe outra fase referente ao treinamento,
acredito eu, que é mais importante ainda. Permita-me explicar o que quero
dizer.
Treinador, a mãe de John e eu estamos lhe
entregando nosso bem mais valioso para ser treinado por várias semanas. Durante
esse período e ao longo dos próximos quatro anos, nosso filho vai torná-lo o
tema número uma das conversas aqui em casa. Ele vai contar que você poderia ter
vencido os Packers se não tivesse machucado o joelho em 1965. Vai contar sobre
a sua emoção ao contar que veio de um time pequeno e que venceu o Rivaltown.
Vamos ouvi-lo dizer que você ainda sabe jogar futebol americano. Enquanto estivermos
ouvindo tudo isso, os olhos de nosso filho estarão brilhando.
Treinador, você é um ídolo para ele.
Não temos mais muitos heróis. Joe Willie já não
é mais o mesmo!
Muitos profissionais venderiam a alma para
marcar um ponto.
Alguns atletas da faculdade foram notícia este ano
de maneira muito negativa. Todos sabem que os atletas da faculdade não são
ladrões, ou coisa assim, mas é isso que ouvimos falar.
Você é o herói de nosso filho. Confiamos em
você. Os músculos dele estão praticamente desenvolvidos, mas sua mente ainda é
frágil e fácil de ser manipulada. Sua responsabilidade é grande. Incuta coisas
boas na cabeça dele, treinador. Aos poucos!
ARMAS OU SEMENTES
Richard C. Halverson
Histórias Para o Coração 112
Você pode apresentar suas ideias a outros como
armas ou sementes.
Você pode dispará-Ias ou plantá-Ias; pode ferir
a cabeça das pessoas com elas ou plantá-Ias em seus corações.
Ideias usadas como armas matam a inspiração e
neutralizam a motivação. Usadas como sementes, criam raízes, desenvolvem-se e
tornam-se realidade na vida das pessoas nas quais foram plantadas.
O único risco da semente é este: assim que ela
crescer e tornar-se parte da pessoa na qual foi plantada, você provavelmente
não terá nenhum mérito por ter sido o autor da ideia. Mas se você estiver
disposto a fazer isso sem receber mérito... terá uma colheita abundante.
ROSAS NA LAPELA
Max Lucado
Histórias Para o Coração 115
John Blanchard levantou-se do banco, ajeitou o uniforme
do Exército e observou a multidão que tentava abrir caminho na Estação
Ferroviária Central de Nova York. Procurou avistar a moça cujo coração ele
conhecia, mas não o rosto - a moça com a rosa.
Seu interesse por ela começara 13 anos antes,
em uma biblioteca da Flórida. Ao retirar um livro da estante, ele ficou
intrigado, não com as palavras impressas, mas com as anotações escritas à mão
na margem. A letra delicada indicava ser a de uma pessoa ponderada e sensível.
Na primeira página do livro, ele descobriu o nome da proprietária anterior:
Srta. Hollis Maynell.
Depois de algum tempo e de várias tentativas, conseguiu
localizar o endereço dela. Morava em Nova York. Escreveu-lhe uma carta
apresentando-se e propondo uma troca de correspondência. No dia seguinte, ele
foi convocado para servir em uma base do outro lado do oceano. Era a Segunda
Guerra Mundial. Durante os 13 meses seguintes, os dois passaram a se conhecer
por correspondência.
Cada carta era uma semente caindo em um coração
fértil. Florescia um romance.
Blanchard pediu uma fotografia, mas ela
recusou-se a enviá-Ia.
Achava que, se ele realmente gostasse dela, não
haveria necessidade de fotografia.
Quando ele retornou da Europa, marcaram o
primeiro encontro às 19 horas na Estação Ferroviária Central de Nova York.
"Você me reconhecerá", ela escreveu,
"pela rosa que estarei usando na lapela." Assim, às 19 horas,
Blanchard estava na estação à espera da moça cujo coração ele amava, mas cujo
rosto nunca vira.
Deixemos que o próprio Blanchard conte o que
aconteceu.
Em minha direção vinha uma jovem alta e
esbelta. Seus cabelos loiros encaracolados caíam pelos ombros, deixando à
mostra delicadas orelhas; os olhos eram azuis da cor do céu. Os lábios e o
queixo tinham uma firmeza suave; trajando um costume verde-claro, parecia a
própria chegada da primavera. Comecei a caminhar em sua direção sem notar que
não havia rosa em sua lapela.
Quando me aproximei, um sorriso leve e
provocante brotou-lhe nos lábios.
- Gostaria de me acompanhar, marujo? - ela
murmurou.
De maneira quase incontrolável, dei um passo em
sua direção, e foi então que avistei Hollis Maynell.
Ela estava em pé atrás da jovem. Aparentava bem
mais de 40 anos, e seus cabelos, presos sob um chapéu surrado, deixavam
entrever alguns fios brancos. Seu corpo era roliço, tinha tornozelos grossos e
usava sapatos de salto baixo. A moça de costume verde-claro distanciava-se
rapidamente. Senti-me dividido, desejando ardentemente seguí-Ia, mas, ao mesmo
tempo, profundamente interessado em conhecer a mulher cujo entusiasmo me
acompanhara e me sustentara.
E lá estava ela. Seu rosto redondo e pálido
estampava delicadeza e sensibilidade; os olhos cinzentos irradiavam meiguice e
bondade.
Não hesitei. Peguei o pequeno livro azul, de
capa de couro, para me identificar. Não seria um caso de amor, mas poderia ser
algo precioso, algo talvez melhor que amor" uma amizade pela qual eu era e
seria eternamente grato.
Endireitei os ombros, cumprimentei e entreguei
o livro à mulher, apesar de sentir-me sufocado pela amargura de meu
desapontamento enquanto lhe dirigia a palavra.
- Sou o tenente John Blanchard, e você deve ser
a Srta. Maynell.
Estou satisfeito por você ter vindo
encontrar-me. Aceita um convite para jantar?
No rosto da mulher surgiu um sorriso largo e
bondoso.
- Não sei do que se trata, filho - ela
respondeu -, mas a jovem de costume verde, que acabou de passar por aqui,
pediu-me que usasse esta rosa na lapela. Instruiu-me também que, se você me
convidasse para jantar, eu deveria dizer que ela está à sua espera no
restaurante do outro lado da rua. Ela me contou que se tratava de uma espécie
de teste! Não é difícil compreender e admirar a sabedoria da Srta. Maynell...
REFLEXÕES
Charles R. Swindoll
Histórias Para o Coração 118
Aconteceu na semana passada. Depois que todos da
família se recolheram a seus quartos, coloquei um pouco mais de lenha na
lareira, sentei-me em minha cadeira favorita e li por mais de uma hora. No
decorrer da leitura, encontrei alguns pensamentos compilados por Ed Dayton, um
antigo líder do ministério Visão Mundial. Suas palavras fizeram-me retroceder
muitos anos no tempo, quando ele mencionou ter assistido a um filme de
curta-metragem chamado The Giving Tree [A Árvore Generosa], uma história
simples e fantasiosa sobre uma árvore que amava um garoto.
Quando era pequeno, o garoto balançava-se em
seus galhos, subia nela, comia suas maçãs e dormia à sua sombra. Eram tempos
felizes e sem preocupações. A árvore gostava muito dessa época.
Porém, à medida que foi crescendo, o garoto
passava cada vez menos tempo com a árvore.
- Vamos brincar - convidou a árvore um dia, mas
o rapaz estava interessado apenas em dinheiro. - Apanhe minhas maçãs e
venda-as.
a rapaz aceitou a sugestão, e a árvore ficou
feliz.
Ele ficou muito tempo sem aparecer, mas, no dia
em que retornou, a árvore sorriu.
- Vamos brincar - ela disse, mas o jovem
tornara-se adulto e estava cansado deste mundo. Queria sumir.
- Derrube-me ao chão - prosseguiu a árvore. -
Pegue meu tronco e faça um barco para você e navegue com ele.
O homem aceitou a sugestão, e a árvore ficou
feliz.
Muitos anos se passaram - verões e invernos,
dias de vento e noites solitárias - e a árvore continuou esperando. Finalmente,
o homem retornou, velho e cansado demais para brincar, para sair em busca de
riqueza, para navegar os mares.
- Fui cortada, mas ainda sobrou um toco, meu
amigo. Que tal sentar-se aqui e descansar? - disse a árvore.
O velho aceitou a sugestão, e a árvore ficou
feliz.
Com os olhos fixos no fogo, eu fiz uma
retrospectiva de minha vida, comparando-a com a da árvore e a daquele menino.
Identifiquei-me com ambos - e me entristeci.
Quantas árvores generosas eu tive na vida?
Quantas me deram parte delas para que eu crescesse, alcançasse meus objetivos,
fosse um homem realizado, encontrasse satisfação? Muitas, muitas mesmo.
Obrigado, Senhor, por todas elas. Seus nomes não caberiam nesta folha de papel.
O fogo extinguiu-se, e a lenha transformou-se
em carvão incandescente. Já era tarde da noite quando me deitei. Eu havia
chorado, mas agora sorria.
- Boa-noite, Senhor - eu disse.
Eu era um homem agradecido. Agradecido por ter
tido tempo de refletir.
O PEQUENO PRESENTE
Morris Chalfant
Histórias Para o Coração 120
O Rev. Chalfant conta a história de um casal que
estava comemorando bodas de ouro. Alguém perguntou ao marido qual era o segredo
do sucesso de seu casamento. Como as pessoas mais idosas costumam fazer, o
marido respondeu à pergunta com uma história.
Sua esposa, Sarah, foi sua única namorada. Ele
cresceu em um orfanato e trabalhou muito para conquistar o que desejava.
Nunca teve tempo para namorar até o dia em que
conheceu Sarah.
Antes que o jovem pudesse refletir, Sarah fez
com que ele a pedisse em casamento.
Depois das promessas feitas no dia da cerimônia
nupcial, o pai de Sara chamou o noivo de lado e entregou-lhe um pequeno
presente, dizendo:
- Dentro deste presente, está tudo o que você
necessita saber para ser feliz no casamento.
Nervoso, o jovem noivo rasgou a fita e o papel
para abrir o presente.
Dentro da caixa, havia um grande relógio de
ouro. Ele o pegou com cuidado... Depois de examiná-lo atentamente, ele viu no
mostrador uma frase que leria, obrigatoriamente, todas as vezes que quisesse
saber as horas... palavras que continham o segredo de um casamento feliz:
"Diga alguma coisa bonita a Sarah."
POR MINHA IRMÃ
Histórias Para o Coração 121
Esta é uma história verdadeira de um menino
cuja irmã necessitava de uma transfusão de sangue. O médico informou à família
que a menina tinha a mesma doença da qual o menino se recuperara dois anos
antes. Sua única chance de cura seria por meio da transfusão de sangue de
alguém que já houvesse contraído aquela doença. Como os dois irmãos tinham o
mesmo tipo raro de sangue, o menino seria o doador ideal.
- Você concorda em doar seu sangue a Mary? -
perguntou o médico.
Johnny hesitou. Seu lábio inferior começou a
tremer. Em seguida, ele sorriu e disse:
- Claro, por minha irmã.
Os dois irmãos foram conduzidos a uma sala do
hospital. Mary, pálida e magra. Johnny, robusto e sadio. Nenhum dos dois falou,
mas, quando seus olhos se encontraram, Johnny sorriu para a irmã.
Quando a enfermeira picou o braço de Johnny com
a agulha, o sorriso desapareceu. Ele viu o sangue passando pelo tubo.
No momento em que a transfusão estava quase
terminando, a voz de Johnny, levemente trêmula, quebrou o silêncio: - Doutor,
quando vou morrer?
Foi então que o médico entendeu por que Johnny
havia hesitado, por que seu lábio tremera quando concordou em doar seu sangue.
Ele pensou que doar sangue à irmã o levaria à
morte. Naquele breve momento, ele havia tomado uma grande decisão.
ENTREGA POSTERIOR
Cathy Miller
Histórias Para o Coração 122
O inverno nunca havia sido tão rigoroso. Do
aconchego de sua poltrona, Stella observava a violenta precipitação dos flocos
de neve açoitados pelo vento. Ela receava ficar perto da janela, com um temor
injustificado de que a nevasca pudesse atingi-Ia, cortar-lhe a respiração,
atraí-Ia para fora, para o caos. As casas do outro lado da rua estavam quase
ocultas pela fúria arrebatadora dos flocos de neve. Com um gesto distraído, a
anciã alisou a capa que cobria os braços da poltrona, sem tirar os olhos do espetáculo
que se desenrolava do outro lado da vidraça.
Quando conseguiu desviar o olhar da cena,
levantou-se com muito esforço da poltrona e aguardou alguns instantes para
equilibrar-se e firmar os pés no chão. Endireitando as costas e vencendo a dor
que ameaçava deixá-Ia com o corpo curvado para a frente, ela dirigiu-se com
determinação para a cozinha.
Ao chegar à porta da sala contígua, ela parou,
incapaz de lembrar-se do motivo que a conduzira até ali. O vento sibilante
ameaçava atravessar o cano da chaminé acima do fogão e entrar na pequenina
casa. Stella fixou os olhos castanhos no relógio na prateleira acima do fogão.
A hora - 15h15 - a fez lembrar-se de que se dirigira à cozinha para retirar
alguma coisa do freezer para preparar uma sopa. Outra refeição solitária que
ela não tinha vontade nenhuma de preparar e, muito menos, saborear.
De repente, ela segurou a maçaneta da porta da
geladeira e encostou a testa naquela superfície branca e fria, enquanto uma
onda de auto piedade ameaçava subjugá-la. A perda de seu querido Dave naquele
verão causava-lhe um sofrimento grande demais, difícil de aguentar. Como
poderia suportar aquela angústia, aquele vazio do dia-a-dia? Sua garganta
começou a doer, e ela fechou os olhos com força para conter as lágrimas.
Stella forçou-se a endireitar o corpo e sacudiu
a cabeça em atitude de autopunição. Repetiu sua lista de agradecimentos. Tinha
saúde, uma casa pequenina e renda suficiente para viver o restante de seus
dias. Tinha livros, assistia à TV, fazia trabalhos manuais.
Gostava de cuidar do jardim na primavera e no
verão, caminhar pelo parque deserto no final da rua e contemplar, da janela da
cozinha, os pássaros do inverno ajuntando-se ao redor do comedouro. Mas hoje
tudo está triste, ela pensou pesarosa, enquanto a nevasca batia na parede da
cozinha, no lado leste da casa.
- Ah, Dave, que falta você me faz! Eu nunca fiz
caso das tempestades quando você estava aqui.
O som de sua voz provocou um eco na cozinha.
Ela ligou o rádio que estava no balcão ao lado de uma fileira de caixas de
madeira muito bem alinhadas, começando com as mais altas e terminando com as
mais baixas. Um coral de alegres músicas natalinas subitamente tomou conta da
cozinha, mas aquilo só serviu para aumentar sua solidão.
Stella havia-se preparado para a morte do
marido. A partir do momento em que o médico diagnosticou câncer terminal, ambos
tiveram de enfrentar a luta inevitável para passarem juntos a maior parte do
tempo que lhes restava. Dave sempre manteve suas finanças em ordem. Stella não
tinha problemas dessa natureza na viuvez. Havia apenas aquela terrível
solidão... dias sem nenhum propósito.
Eles não tiveram filhos por opção. A vida lhes
deu satisfação e conforto. Ambos se contentavam com suas carreiras agitadas e
viviam felizes um com o outro.
Tiveram muitos amigos. Tiveram. Essa palavra
era bem apropriada para o momento atual. É muito difícil perder a pessoa que
amamos de todo o coração. Mas, ao longo dos anos, ela e Dave precisaram
enfrentar, reiteradas vezes, a morte de amigos e conhecidos. Todos eles tinham
mais ou menos a mesma idade - aquela idade em que o corpo humano começa a
desistir de tudo, morrer. Mas era necessário enfrentar - eles eram velhos!
E agora, no primeiro Natal sem Dave, Stella
estava sozinha.
Mabel e Jim a convidaram para passar os feriados
natalinos com eles na Flórida, mas viajar seria pior que ficar sozinha em casa.
Além de sentir falta do marido, ela também
sentiria falta da neve, do inverno e do aconchego de seu lar.
Com os dedos trêmulos, ela abaixou o volume do
rádio para ouvir a música bem baixinho. Olhou para a geladeira rapidamente e
decidiu que um prato de sopa quente seria uma refeição reconfortante naquela
noite.
Para sua surpresa, Stella viu que o carteiro
havia deixado correspondência em sua casa. Ela não ouvira o barulho das cartas
sendo colocadas por debaixo da porta. Pobre carteiro, andando na rua sob esta
neve! "Não há neve, nem tempestade que..." Com um inevitável
estremecimento de dor, ela curvou-se para pegar os envelopes brancos e úmidos
do chão. Entrou na sala de estar e sentou-se na banqueta do piano para
abri-los. Eram, na maioria, cartões de Natal, e seus olhos sorriram tristemente
diante da familiaridade das paisagens tradicionais e das mensagens cheias de
amor. Com os dedos doloridos pela artrite, ela os arrumou cuidadosamente ao
lado dos outros em cima do piano. Os cartões eram as únicas decorações de Natal
da casa. Faltava apenas uma semana, mas ela não tinha ânimo para montar uma
árvore simples nem o presépio que Dave confeccionara com as próprias mãos.
De repente, mergulhada naquela solidão, Stella
cobriu o rosto enrugado com as mãos, apoiou os cotovelos nas teclas do piano,
provocando um som forte e desafinado, e deixou que as lágrimas corressem
livremente. Como seria possível atravessar o Natal e o inverno inteiro? Seu
desejo era deitar-se na cama e cobrir-se com uma pilha de cobertores, e só sair
de lá quando a primavera e seus amigos retornassem.
A campainha da porta tocou forte, abafando o
som desafinado do piano. O toque foi tão inesperado que Stella teve de sufocar
um grito de surpresa. Quem poderia ter tido a ideia de visitá-Ia em um dia como
aquele? Enxugando as lágrimas, ela percebeu pela primeira vez quanto a sala
estava escura. A campainha tocou de novo.
Usando o piano para equilibrar-se, ela se
levantou e dirigiu-se para a porta de entrada, acendendo a luz da sala de
estar. Abriu a porta de madeira e olhou, cheia de compaixão, pela tela da porta
de proteção contra tempestades. Na varanda, açoitado pelo vento e pela neve,
estava um jovem desconhecido, cuja cabeça descoberta mal podia ser vista por
causa do grande pacote que ele carregava nos braços. Ela desviou o olhar para a
rua, mas só avistou um pequeno carro, que não lhe deu nenhuma pista sobre a identidade
do desconhecido. Voltando a olhar para o jovem, Stella notou que as mãos dele
estavam sem luvas, e as sobrancelhas erguidas, com um ar esperançoso que
começou a desaparecer por causa da neve que se formava no vidro. Reunindo
coragem, a anciã abriu uma fresta da porta, e ele afastou o rosto do pacote
para falar com ela.
- Sra. Thornhope?
Ela fez um movimento afirmativo com a cabeça.
Seu braço começava a tremer de frio e pelo esforço de manter a porta aberta
contra o vento. Ele prosseguiu, dizendo o que ela já esperava:
- Trago uma encomenda para a senhora.
A curiosidade afastou o receio instalado em sua
mente. Ela abriu mais a porta, o suficiente para o desconhecido passar, e
recuou um pouco para dar-lhe espaço. Ele entrou trazendo consigo uma rajada de
vento gelado. Sorrindo, colocou cuidadosamente a encomenda no chão e pegou um
envelope do bolso. Enquanto ele lhe entregava o envelope, um som partiu de
dentro da caixa. Stella deu um salto.
O jovem riu desculpando-se e curvou-se para
levantar as abas da tampa da caixa e segurou-as para que Stella pudesse olhar
dentro.
Ela aproximou-se cautelosamente e olhou para
baixo.
Era um cão! Para ser mais exato, um pequenino
cão de pêlos dourados, da raça Labrador. O jovem segurou o trêmulo cãozinho nos
braços e explicou:
- Ele é seu, senhora. Tem seis semanas de idade
e é um cão doméstico.
O cãozinho abanou a cauda, feliz por ter sido
libertado do cativeiro, e começou a lamber o rosto de seu benfeitor.
- Tínhamos a intenção de entregá-lo na véspera
de Natal - ele prosseguiu com um pouco de dificuldade, tentando desviar o rosto
das lambidas do cãozinho -, mas hoje é o último dia de expediente no canil.
Espero que a senhora não se importe por ter recebido o presente
antecipadamente.
Estarrecida e sem poder raciocinar com clareza,
incapaz de formar frases coerentes, ela gaguejou:
- Mas... eu não... isto é... quem...?
O jovem colocou o animal no capacho entre eles
e apontou para o envelope que ela continuava a segurar.
- Há uma carta aí dentro explicando tudo, e
muito mais. O cão foi comprado em julho, quando a mãe dele ainda estava prenhe,
para ser oferecido como presente de Natal. Se a senhora puder aguardar um
instante, vou buscar mais algumas coisas que deixei no carro.
Antes que Stella pudesse dizer alguma coisa,
ele já havia partido, retornando momentos depois com uma caixa enorme de
alimentos para cães, uma correia e um livro intitulado Como Cuidar de Seu Cão
Labrador. O cãozinho ficou o tempo todo sentado aos pés de Stella, fungando
feliz e olhando para ela com seus olhos castanhos.
O jovem já se preparava para ir embora.
Palavras aflitas brotaram dos lábios dela:
- Mas quem... comprou este cãozinho?
Parado na porta entreaberta, ele deu a resposta
que quase foi levada pelo vento, que despenteava seus cabelos:
- Seu marido, minha senhora.
E desapareceu de vista.
Acarta explicava tudo. Esquecendo-se
completamente do cãozinho aí:> ver aquela grafia tão familiar, Stella caminhou
como uma sonâmbula até sua poltrona perto da janela. Sem se dar conta de que o
cãozinho a havia seguido, ela forçou os olhos rasos de água a lerem a carta do
marido. Ele a escrevera três meses antes de morrer e a deixara com os
proprietários do canil para que fosse entregue posteriormente com o cão. Na
carta, ele dizia que aguardava com ansiedade o dia em que ambos voltariam a
ficar juntos. Era seu último presente de Natal para ela. A carta continha
palavras de amor, incentivo e conselhos para que ela fosse forte. E ele havia
enviado aquele animal para fazer-lhe companhia.
Lembrando-se do cãozinho pela primeira vez, ela
surpreendeu-se ao vê-lo sentado e olhando para ela, com uma espécie de sorriso
cômico na boca. Stella pôs as páginas de lado e estendeu a mão para pegar
aquele animalzinho de pêlos dourados. Havia imaginado que ele era mais pesado,
mas tinha o peso e tamanho da almofada do sofá. Ela o segurou nos braços, e ele
lambeu-lhe o queixo; depois, aninhou-se perto do pescoço dela. As lágrimas
voltaram a correr diante dessa troca de afeto, e o cão ouviu o choro sem se mexer.
Finalmente, Stella o colocou no colo e olhou
para ele solenemente.
Ela enxugou as lágrimas e tentou sorrir.
- Bem, criaturinha, aqui estamos, você e eu.
Com a língua rosada de fora, o cachorrinho
fungou concordando.
O sorriso de Stella tornou-se mais radiante, e
ela desviou o olhar para a janela. Era hora do crepúsculo, e a nevasca parecia
ter abrandado. Através dos flocos de neve que agora caíam com mais suavidade,
ela avistou as lâmpadas de Natal que enfeitavam as beiras dos telhados das
casas vizinhas. Os acordes da música "Alegria do Mundo" ecoavam da
cozinha.
De repente, Stella foi tomada por uma enorme
sensação de bênção e de paz, como se estivesse recebendo um abraço carinhoso.
Seu coração batia penosamente, mas de alegria e
de surpresa, não de sofrimento ou de solidão. Ela nunca mais se sentiria
sozinha.
Voltando a atenção para o cão, ela lhe disse:
- Sabe de uma coisa, meu amiguinho? Tenho uma
caixa no porão de que você vai gostar muito. Dentro dela, há uma árvore e
alguns enfeites e luzes que vão deixar você encantado! E acho que aquele antigo
presépio também está lá. Vamos procurá-los? O cachorrinho latiu feliz, como se
tivesse entendido cada palavra.
NAS TRINCHEIRAS
Stu Weber
Histórias Para o Coração 129
Você já deve ter ouvido a comovente história
sobre a grande amizade entre dois soldados nas trincheiras da Primeira Guerra
Mundial. Dois colegas serviam juntos em meio à miséria de um deplorável campo
de batalha na Europa. (Há uma versão que identifica os dois como irmãos.) Eles
passaram meses nas trincheiras, no frio e na lama, sob o tiroteio dos inimigos
e o comando de seus superiores.
De tempos em tempos, uma das tropas inimigas
investia contra a outra e retornava às suas trincheiras para cuidar de seus
ferimentos, enterrar seus mortos e aguardar o momento de repetir o ataque.
Durante esse período, muitas amizades tiveram
início em meio à desgraça. Dois soldados tornaram-se amigos íntimos. Dia após
dia, noite após noite, medo após medo, eles conversavam sobre a vida, a
família, a esperança ou sobre o que fariam quando (e se) conseguissem sair do
horror daquela guerra.
Em uma daquelas investidas infrutíferas,
"Jim" tombou gravemente ferido. Seu amigo Bill conseguiu retornar à
relativa segurança das trincheiras. Jim ficou estendido no chão sob os clarões
das explosões noturnas. Entre as trincheiras. Sozinho.
O tiroteio continuava. O perigo havia atingido
seu ponto máximo.
Aquele lugar entre as trincheiras era o mais
perigoso de todos. Mesmo assim, Bill queria ficar perto de seu amigo,
consolá-lo, animá-lo como só os amigos sabem fazer. O oficial encarregado não
permitiu que Bill saísse da trincheira. Era perigoso demais. Porém, assim que o
oficial virou as costas, Bill saiu da trincheira. Sem importar-se com o cheiro
de pólvora no ar, os abalos provocados pelos tiroteios e as batidas fortes de
seu coração, Bill chegou ao local onde Jim estava.
Algum tempo depois, ele conseguiu levar Jim de
volta para a segurança das trincheiras. Tarde demais. O amigo estava morto. Ao
ver o corpo de Jim, o oficial perguntou com ar de cinismo a Bill se "valeu
a pena". Bill respondeu sem hesitação:
- Sim, senhor, valeu. As últimas palavras de
meu amigo valeram a pena. Ele olhou para mim e disse: "Eu sabia que você
viria".
A FOTOGRAFIA AMASSADA
Philip Yancey
Histórias Para o Coração 131
Em um feriado, fui visitar minha mãe, que mora
a uns 1.200 quilômetros de minha casa. Lembramo-nos dos tempos antigos, como as
mães e os filhos costumam fazer. Inevitavelmente, a velha caixa de fotografias
foi retirada do armário, deixando à mostra uma pilha de retratos, registros de
uma série de acontecimentos de minha infância e adolescência: fantasias de
cowboys e de índios, traje de Coelho Pernalonga da peça do curso primário, meus
animais de estimação, vários recitais de piano e formaturas do curso primário,
secundário e da faculdade.
Entre essas fotografias, encontrei a de um
bebê, com meu nome escrito no verso. Era um retrato comum. Eu era parecido com
qualquer outro bebê: bochechas redondas, pouco cabelo e olhar desfocado e
arredio. A fotografia, porém, estava amassada e mutilada, como se tivesse sido
mordida por um animal doméstico. Perguntei à minha mãe por que ela guardava uma
fotografia naquele estado, uma vez que havia muitas outras intactas.
Existe um pormenor a respeito de minha família
que você precisa saber: quando eu tinha dez meses de idade, meu pai contraiu
poliomielite na região lombar da coluna vertebral. Ele morreu três meses
depois, logo após meu primeiro aniversário. Ele ficou totalmente paralisado aos
24 anos, com os músculos tão fracos a ponto de precisar viver dentro de um
enorme cilindro de aço, que lhe permitia respirar artificialmente. Recebia
poucas visitas. Na década de 1950, o pavor que as pessoas sentiam da
poliomielite era o mesmo que hoje sentem em relação à Aids. A única visitante
fiel era minha mãe, que se sentava em um determinado lugar para que ele pudesse
vê-la por um espelho instalado ao lado do pulmão artificial.
Minha mãe explicou-me que guardava aquela
fotografia como uma relíquia, porque, diante a enfermidade de meu pai, ela a
colocou no aparelho de respiração artificial. Ele pediu fotos dela e dos dois
filhos, e minha mãe teve de encaixá-las entre dois botões do aparelho. Era por
isso que minha foto estava tão estragada. Vi meu pai raras vezes depois que ele
deu entrada no hospital, porque não era permitida a entrada de crianças nas
alas reservadas a pacientes com poliomielite. Além disso, eu era um bebê e, se
tivesse conseguido entrar, não teria guardado sua fisionomia na memória.
Quando minha mãe me contou a história da
fotografia amassada, eu tive uma reação estranha e inesperada. Para mim,
parecia esquisito demais imaginar alguém se preocupando comigo, alguém de quem
eu nem me lembrava. Durante os últimos dias de vida, meu pai passou suas horas
de agonia olhando para aquelas três fotografias de sua família, de minha
família. Não havia mais nada ali para ser visto. O que ele fazia o dia inteiro?
Orava por nós? Sim, claro. Ele nos amava? Sim. Mas como uma pessoa
completamente paralisada pode manifestar amor, principalmente quando seus
filhos são impedidos de visitá-Ia?
Hoje penso sempre naquela fotografia amassada,
porque ela é uma das únicas ligações que tenho com aquele homem desconhecido
que foi meu pai, um desconhecido que morreu com dez anos menos do que tenho
agora. Alguém de quem eu não me lembro, que praticamente não conheci, passava o
dia inteiro pensando em mim, dedicando-se a mim, amando-me o mais que podia.
Talvez um dia eu tenha tempo, muito tempo, para restabelecer um relacionamento
cruelmente interrompido logo depois de ter começado.
Estou contando esta história porque a emoção
que vivenciei quando minha mãe me mostrou aquela fotografia amassada foi a
mesma que senti naquela noite de fevereiro, no alojamento da faculdade, quando,
pela primeira vez, acreditei em um Deus de amor. Eu me dei conta que Alguém
estava lá. Alguém observa a vida enquanto ela se desenrola neste planeta. E
mais, Alguém que me ama está lá. Foi uma estranha sensação de esperança, uma
sensação tão nova e poderosa que fazia valer a pena aceitar os desafios da vida.
CEDER
Autor Desconhecido
Histórias Para o Coração 134
Ceder não significa parar de me preocupar;
significa que eu não posso resolver os problemas da outra pessoa.
Ceder não significa isolar-me; significa que
não posso controlar a vida da outra pessoa.
Ceder não é tornar as coisas mais fáceis, mas
extrair lições das consequências de nossos atos.
Ceder é admitir que tenho limitações, o que
significa que o resultado final não depende de mim.
Ceder é não tentar modificar ou culpar outras
pessoas; eu só posso modificar a mim mesmo.
Ceder não significa deixar de prestar
assistência; significa continuar a demonstrar interesse.
Ceder não é jogar a culpa no outro, mas ter
espírito de solidariedade.
Ceder não é julgar, mas admitir que a outra
pessoa é um ser humano.
Ceder é não se intrometer tentando resolver
problemas alheios; é permitir que as pessoas encontrem as soluções por conta
própria.
Ceder é deixar de ser protetor; é permitir que
a outra pessoa enfrente a realidade.
Ceder não é rejeitar, mas aceitar.
Ceder não significa resmungar, censurar ou
discutir; significa aceitar as próprias falhas e corrigi-las.
Ceder não significa adaptar tudo conforme meus
desejos, mas aceitar cada dia como ele é e apreciar cada momento.
Ceder é não criticar nem controlar o outro, mas
tentar me transformar na pessoa que eu gostaria de ser.
Ceder não é arrepender-se do passado, mas
adquirir experiência e viver para o futuro.
Ceder é temer menos e amar mais.
O PODER DO AMOR
Allan Loy McGinnis
Histórias Para o Coração 136
Victor Frankl, um judeu vienense, foi
prisioneiro dos alemães durante mais de três anos. Transferido de um campo de
concentração para outro, chegou a passar vários meses em Auschwitz. O Dr.
Frankl contava que logo aprendeu uma forma de sobreviver: teria de barbear-se
diariamente, por mais enfermo que estivesse, mesmo que precisasse usar um caco
de vidro como lâmina.
Existia uma razão para isso: todas as manhãs,
os prisioneiros tinham de apresentar-se para a revista diária. Os enfermos que
não tinham condições de trabalhar naquele dia eram enviados para as câmaras de
gás. Se o prisioneiro estivesse barbeado, com aspecto sadio, suas chances de
escapar da morte naquele dia seriam maiores.
A parca ração diária para um trabalho tão
pesado consistia de 300g de pão e 800ml de uma sopa rala de aveia. Eles dormiam
em prateleiras, cujas tábuas tinham pouco mais de dois metros de largura. Em
cada prateleira, dormiam nove homens. Esses nove homens tinham apenas dois
cobertores para repartir entre eles.
Três apitos agudos os despertavam para
iniciarem o trabalho às três horas da madrugada.
Certa manhã, enquanto eles marchavam para
colocar os dormentes da ferrovia sobre o chão coberto de gelo a quilômetros de
distância do campo de concentração, os guardas que os escoltavam gritavam o
tempo todo e os empurravam com a coronha de seus rifles. Quem estivesse com o
pé machucado apoiava-se no braço do companheiro.
O homem ao lado de Frankl sussurrou, escondendo
a boca sob a gola da camisa:
- Se nossas esposas nos vissem! Espero que elas
estejam em melhor situação nos campos de concentração femininos e não saibam o
que está acontecendo conosco.
Frankl escreve:
"Aquelas palavras trouxeram-me lembranças
de minha esposa.
Enquanto percorríamos cambaleantes aquela
distância enorme, escorregando no gelo, apoiando-nos uns nos outros, arrastando
nossos companheiros e sendo arrastados, nada foi dito, mas nós dois sabíamos:
cada um de nós estava pensando em sua esposa. Vez por outra, eu olhava para o
céu, onde as estrelas desapareciam pouco a pouco e a luz rosada da manhã
começava a brilhar atrás das maciças nuvens escuras. Minha mente, porém,
visualizava a imagem de minha esposa, e essa imagem tinha uma nitidez
fantástica. Eu a ouvia conversando comigo, via seu sorriso, sua expressão
sincera e encorajadora." Um pensamento veio-me à mente: pela primeira vez
na vida, eu enxerguei a verdade declamada em versos por muitos poetas e
proclamada como sabedoria final por muitos filósofos. A verdade é: o amor é o
derradeiro e mais sublime objetivo ao qual o homem pode aspirar. Então
compreendi o significado do maior segredo que a poesia humana, a fé e o
pensamento humanos precisam divulgar: a salvação do homem é alcançada por meio
do amor e no amor.
1 Coríntios 13.13 NVI
O PRESENTE DOS MAGOS
O. Henry
Histórias Para o Coração 138
Um dólar e 87 centavos. Só isso. E 60 centavos
dessa quantia eram em trocadinhos. Moedas economizadas de uma em uma, ou de duas
em duas, depois de muitas pechinchas ao dono da mercearia, ao verdureiro e ao
açougueiro até que o rosto da pessoa ficasse corado de vergonha após aquela
silenciosa admissão de avareza que costuma estar implícita nessas situações.
Della contou o dinheiro três vezes. Um dólar e 87 centavos. No dia seguinte,
seria o Natal.
Não havia mais nada a fazer a não ser
afundar-se no pequeno sofá e chorar. E foi o que Della fez. Esse comportamento
induz à reflexão de que a vida é feita de soluços, choros contidos e sorrisos,
sendo que os choros contidos sempre predominam.
Enquanto a dona da casa passa gradualmente do
primeiro para o segundo plano, dê uma olhada no local. Um apartamento
mobiliado, alugado a 8 dólares por semana. Não foi difícil descrevê-lo com
precisão, mas vamos acrescentar ainda que se enquadrava nos ideais de um bando
de mendigos.
No vestíbulo de baixo, havia uma caixa de
correio, onde nunca eram colocadas cartas, e um botão de campainha que nenhum
ser mortal tocava. Havia também no local um cartão de visitas com um nome:
"Sr. James Dillingham Young".
O nome "Dillingham" fora muito
conhecido durante um período anterior de prosperidade, quando seu dono recebia
30 dólares por semana. Agora, com a renda reduzida a 20 dólares, as letras do
nome "Dillingham" estavam quase apagadas, como que pensando
seriamente em reduzir-se a um modesto e despretensioso "D".
Porém, todas as vezes que voltava para casa e
subia a escada que dava acesso a seu pequeno apartamento, o Sr. James
Dillingham Young era chamado de Jim e recebia um abraço amoroso da Sra.
James Dillingham Young, já apresentada a vocês
como Della.
Até aí, tudo bem.
Della parou de chorar e empoou um pouco o rosto
com uma esponja gasta. Aproximou-se da janela e observou, com ar inexpressivo,
um gato cinzento andando sobre uma cerca cinzenta de um quintal cinzento.
Amanhã seria dia de Natal, e ela possuía apenas 1 dólar e 87 centavos para
comprar um presente para Jim. Durante meses, economizou cada moeda que pôde, e
o resultado era esse. Uma renda de 20 dólares por semana não dura muito tempo.
As despesas foram maiores do que ela calculara.
Era sempre assim.
Apenas 1 dólar e 87 centavos para comprar um
presente para Jim.
O seu Jim. Ela passara horas felizes planejando
comprar um lindo presente para ele. Algo bem refinado, raro e valioso, digno da
honra de pertencer a Jim.
Havia um aparador com espelho alto que cobria o
espaço de parede entre as duas janelas da sala. É comum ver um móvel desses em
apartamentos de 8 dólares por semana de aluguel. Ao observar seu reflexo em uma
rápida sequência de faixas longitudinais, uma pessoa muito magra e ágil podia
ter uma ideia razoável de seu aspecto. Della, por ser esguia, havia dominado
essa arte.
De repente, ela se afastou da janela e
postou-se diante do espelho. Seus olhos estavam brilhantes, mas, em seguida,
seu rosto perdeu a cor. Ela soltou rapidamente os cabelos deixando-os cair por
inteiro.
Havia duas propriedades na família James
Dillingham Young das quais ambos tinham muito orgulho. Uma delas era o relógio
de ouro de Jim, que pertencera a seu pai e a seu avô. A outra eram os cabelos
de Della. Se a rainha de Sabá morasse no apartamento do outro lado do poço de
ventilação, Della penduraria seus cabelos na janela para secá-los, só para
protestar contra as joias e presentes de Sua Majestade. Se o rei Salomão fosse
o porteiro, com todos os seus tesouros empilhados no porão. Jim tiraria seu relógio
de ouro do bolso todas as vezes que passasse por ele, só para vê-lo arrancar as
barbas de inveja.
E agora, os lindos cabelos ondulados e
brilhantes de Della caíam ao redor de seu corpo, formando uma cascata marrom. O
comprimento chegava até o joelho, envolvendo-a como se fosse um belo vestido.
Em seguida, ela ergueu os cabelos com nervosismo e rapidez. Após um leve
vacilo, endireitou o corpo, enquanto uma lágrima ou duas caíam no surrado
carpete vermelho.
Entra em cena o velho casaco marrom; entra em
cena o velho chapéu marrom. Dando uma voltinha para admirar-se e com um brilho
nos olhos, ela atravessou a porta, desceu correndo a escada e chegou à rua.
Parou diante de uma placa e leu: "Mme.
Sofronie. Comércio de Cabelos de Todos os Tipos". Della subiu apressada um
lance de escada e parou, ofegante. A senhora, uma mulher gorda e de pele muito
branca, pouco cordial, não parecia chamar-se "Sofronie".
- A senhora compraria os meus cabelos? -
perguntou Della.
- Eu compro cabelos - disse a madame. - Tire o
chapéu para eu dar uma olhada.
Os cabelos ondulados marrons caíram em forma de
cascata.
- Vinte dólares - disse a madame erguendo os
cabelos volumosos com mãos hábeis.
- Negócio fechado - disse Della.
Oh, as duas horas seguintes foram de pura embriaguez.
Esqueçam a metáfora confusa. Ela vasculhou as lojas à procura de um presente
para Jim.
Por fim. o encontrou. Tinha sido feito
especialmente para Jim e para mais ninguém. Não havia nada semelhante em
qualquer outra loja, e não se esqueçam de que Della havia virado todas do
avesso. Era uma simples corrente de platina para relógio, de traçado modesto,
exibindo seu valor pela peça em si e não por enfeites espalhafatosos - como
todas as coisas boas deviam ser. Era digna do relógio. Assim que viu a
corrente, Della teve a certeza de que a compraria para Jim. Era parecida com
ele. Modéstia e valor a descrição aplicava-se a ambos. Ela pagou 21 dólares e
voltou apressada para casa com 87 centavos. Com seu relógio preso àquela nova
corrente, Jim poderia orgulhosamente ver as horas em qualquer empresa. Apesar
de o relógio ser grande, Jim consultava as horas discretamente por causa da
velha correia de couro que fazia as vezes de corrente.
Quando Della chegou ao apartamento, a euforia
deu lugar à prudência e ao bom senso. Procurou os frisadores de cabelo, acendeu
o gás e começou a trabalhar para reparar os estragos provocados pela
generosidade acompanhada de amor. O que sempre é uma tarefa insidiosa, caros
amigos - uma tarefa monumental.
Após 40 minutos, a cabeça de Della estava
coberta de pequenas peças de ferro para frisar os cabelos, que a deixaram
parecida com um garoto de rua. Ela olhou-se no longo espelho com atenção e ar
de crítica.
Se Jim não me matar, ela pensou, antes de olhar
uma segunda vez para mim, vai dizer que estou parecida com uma corista de Coney
Island. Mas o que eu poderia fazer... oh, o que eu poderia fazer com 1 dólar e
87 centavos?
Às 19 horas, o café estava coado e a frigideira
colocada sobre a parte posterior do fogão, pronta para fritar a carne picada.
Jim nunca se atrasava. Della pegou a corrente e
sentou-se em um dos cantos da mesa~ perto da porta por onde ele sempre entrava.
Em seguida, ouviu os passos dele subindo o primeiro lance da escada.
Seu rosto empalideceu por alguns instantes.
Della tinha o hábito de murmurar pequenas orações sobre as coisas simples do
cotidiano, e naquele momento ela orou: Por favor, Deus, peço-te que ele
continue me achando bonita.
A porta foi aberta. Jim entrou e fechou-a.
Parecia abatido e muito circunspecto. Pobre homem! Tinha apenas 22 anos e a
responsabilidade de sustentar uma família! Precisava de um novo sobretudo e
estava sem luvas.
Assim que fechou a porta, Jim ficou tão imóvel
quanto um cão de caça ao sentir o cheiro de uma codorniz. Seus olhos fixaram-se
em Della com uma expressão que ela não conseguia entender, e isso a deixou
aterrorizada. Não era uma expressão de raiva, nem de surpresa, nem de
desaprovação, nem de horror, nem de outra emoção que ela estava preparada para
ver no rosto do marido. Ele simplesmente olhava firme para ela com aquela
expressão estranha no rosto.
Della afastou-se repentinamente da mesa e foi
ao encontro dele.
- Jim, querido - ela choramingou -, não me olhe
desta maneira.
Cortei meus cabelos e os vendi porque não
poderia passar o Natal sem ter um presente para lhe dar. Eles vão crescer
novamente...
Você não se importa, não é? Eu tive de fazer
isso. Meus cabelos crescem rápido. Diga "Feliz Natal! ", Jim, e vamos
voltar a ser felizes. Você não sabe que coisa linda, muito linda, maravilhosa,
eu comprei para lhe dar.
- Você cortou os cabelos? - perguntou Jim
penosamente, como se não tivesse entendido o óbvio, mesmo depois de um grande
esforço mental.
- Cortei-os e vendi-os - disse Della. - Você
não gosta mais de mim? Mesmo de cabelos curtos, sou a mesma pessoa, não sou?
Jim olhou ao redor da sala com curiosidade.
- Você disse que seus cabelos desapareceram? -
ele perguntou com ar meio abobalhado.
- Não adianta procurá-los - disse Della. - Eles
foram vendidos.
Hoje é véspera de Natal, meu jovem. Seja
bondoso comigo, porque fiz isso por sua causa. Talvez os fios de cabelo de
minha cabeça estivessem contados. - A voz dela tinha agora uma súbita doçura.
- Mas ninguém pode contar o meu amor por você.
Posso fritar a carne, Jim?
Jim pareceu despertar do transe em que se
encontrava e passou os braços ao redor de Della. Vamos nos afastar durante dez
segundos 1 e desviar os olhos com discrição para um objeto qualquer do
apartamento. Oito dólares por semana ou um milhão por ano - que diferença faz?
Um matemático ou uma pessoa muito inteligente daria a resposta errada. Os magos
levaram presentes valiosos, mas não tinham nada a ver com o momento presente.
Essa sombria assertiva será ilustrada mais adiante.
Jim tirou um pacote do sobretudo e o colocou em
cima da mesa.
- Não se engane a meu respeito, Dell - ele
disse. - Não há corte t de cabelo, nem xampu, nem maneira de barbear que me
faça igualar à minha menina. Mas, se você desembrulhar este pacote, vai saber
por que estou divagando um pouco.
Dedos brancos e ágeis rasgaram a fita e o
papel. E, a seguir, um grito de alegria, de êxtase; e, depois, um suspiro, uma
rápida mudança de comportamento feminino para lágrimas e gemidos, necessitando
imediatamente de toda espécie de amparo por parte do chefe da casa.
Porque ali estavam Os Pentes - um conjunto de
pentes para serem colocados dos lados da cabeça e atrás, aqueles que Della
namorara tanto tempo em uma das vitrinas da Broadway. Pentes lindos, de
tartaruga, com enfeites de pedras preciosas - um ornamento para ser usado nos
lindos cabelos de antes. Ela sabia que eram pentes caros e os desejara de todo
o coração, sem a mínima esperança de possuí-los. E, agora, eram dela, mas as
madeixas que deveriam ser enfeitadas com aqueles lindos e almejados ornamentos
não mais existiam.
Della os segurou de encontro ao peito, e
finalmente conseguiu olhar para cima com uma expressão indefinida, dar um
sorriso e dizer:
- Meus cabelos crescem muito rápido, Jim!
Em seguida, ela levantou-se, ágil como um gato,
e deu um grito:
- Oh, oh!
Jim ainda não havia visto seu lindo presente.
Ela o segurou na palma da mão para que ele o visse. O frio metal precioso
parecia refletir o brilho do espírito ardente de Della.
- Não é linda, Jim? Rodei a cidade inteira à
procura dela. A partir de agora, você vai ter de consultar as horas centenas de
vezes por dia. Dê-me seu relógio. Quero ver como ele fica com a corrente.
Em vez de entregar-lhe o relógio, Jim
afundou-se no sofá, colocou as mãos atrás da cabeça e sorriu.
- Dell- ele disse -, vamos deixar os presentes
de Natal de lado por algum tempo. Eles são lindos demais para serem usados
neste momento. Vendi o relógio para conseguir dinheiro e comprar os pentes. E,
agora, acho que você deve fritar a carne.
Os magos, conforme você sabe, eram homens
sábios maravilhosamente sábios - que levaram presentes para o Bebê na
manjedoura. Eles inventaram a arte de oferecer presentes de Natal.
Por serem sábios, seus presentes também foram
sábios, talvez com a possibilidade de poderem ser trocados em caso de
duplicidade. E aqui eu relatei de modo imperfeito a você uma crônica comum de
dois jovens tolos, que sacrificaram insensatamente, um em prol do outro, os
maiores tesouros que tinham em casa. Mas, para os sábios de nossos dias, digo
que, dentre todos os que oferecem presentes, esses dois foram os mais sábios.
Dentre todos os que dão e recebem presentes, os que agem como eles são os mais
sábios. Por todos os lugares onde andam, são os mais sábios. Esses são os
magos.
ACREDITANDO UM NO OUTRO
Steve Stephens
Histórias Para o Coração 145
Em 1910, De Witt Wallace desenvolveu uma nova
ideia para uma revista. Consistia de uma coleção de artigos condensados, à qual
ele deu o nome de Reader´s Digest [Seleções]. De Witt elaborou um exemplar de
amostra e o enviou a todas as editoras do país. Ninguém demonstrou interesse.
De Witt ficou terrivelmente desanimado.
Por volta da mesma época, ele conheceu Lila
Bell Acheson, filha de um pastor presbiteriano. Em breve, ambos se apaixonaram
perdidamente. Lila acreditou no sonho de DeWitt. Não permitiu que ele
desistisse e o incentivou a prosseguir com sua ideia maravilhosa de publicar a
revista. Encorajado pela confiança que Lila depositava nele, De Witt enviou uma
circular pelo correio a todas as pessoas consideradas assinantes em potencial.
Em outubro de 1921, Lila casou-se com De Witt.
Ao retomarem da lua-de-mel, eles encontraram uma pilha de cartas de pessoas
interessadas em assinar a revista. Juntos eles trabalharam no Volume 1, Número
1, que foi publicado em fevereiro de 1922.
De Witt incluiu Lila Bell Acheson como
cofundadora, coeditora e coproprietária. A revista expandiu-se ao longo dos
anos. Agora, impressa em pelo menos 18 idiomas, a Reader´s Digest é a revista
de maior vendagem no mundo inteiro.
De Witt e Lila foram mais que marido e mulher;
foram amigos verdadeiros. Incentivaram e apoiaram um ao outro. Acreditaram um
no outro. Trabalharam lado a lado para concretizar seu sonho, e sempre se
respeitaram mutuamente. De Witt disse certa vez:
- Foi Lila quem transformou a revista em
realidade.
Imagino que Lila tenha dito o mesmo a respeito
de De Witt.
Sim, o amor acredita em todas as coisas. Ele
idealiza sonhos praticamente impossíveis, incentiva enquanto estão sendo
levados adiante e aplaude quando se tornam realidade.
ATO DE AMOR
Alice Gray
Histórias Para o Coração 147
Esta é a história de uma mãe que voltou para casa
após um árduo dia de trabalho. Sua filhinha apareceu na porta e correu para
abraçá-la.
- Mamãe, mamãe, aconteceram muitas coisas hoje
e quero contar tudo a você.
Depois de ouvir algumas frases, a mãe fez um
gesto indicando que ouviria o restante da história mais tarde, porque precisava
preparar o jantar. Durante a refeição, o telefone tocou, e a mãe teve de ouvir
outras histórias da família, mais longas e contadas em voz mais alta que a da
menina. Depois que a cozinha foi arrumada e as dúvidas sobre os deveres de casa
de seu irmão foram solucionadas, a menina tentou novamente contar as novidades
à mãe, mas já havia chegado a hora de ir para a cama.
A mãe dirigiu-se ao quarto da filha para
ajeitar suas cobertas e ouviu-a orando. Quando ela se curvou para afagar seus
cabelos encaracolados e beijar-lhe o rosto, a menina olhou para cima e
perguntou:
- Mamãe, você me ama mesmo quando não tem tempo
para me ouvir?
VOLTE PARA CASA
Max Luccado
Histórias Para o Coração 148
A casa pequenina era simples, mas adequada.
Consistia de um único cômodo grande e localizava-se em uma Tua de terra.
Sua cobertura de telhas vermelhas era igual à
de várias outras de um bairro pobre na periferia de uma cidade brasileira. Era
uma casa confortável. Maria e a filha, Cristina, haviam feito o que podiam para
dar um toque colorido às paredes cinzas e um ar de limpeza ao chão duro e
empoeirado: um antigo calendário, uma fotografia desbotada de um parente, um
crucifixo de madeira. A mobília era modesta: duas camas toscas, uma pia para
lavar o rosto e um fogão de lenha.
O marido de Maria morreu quando Cristina ainda
era bebê. A jovem mãe, que se recusou obstinadamente a casar-se novamente,
conseguiu um emprego para poder criar a filha pequena. E agora, 15 anos depois,
o pior já havia passado. Embora o salário de Maria como empregada doméstica não
lhe permitisse comprar uma ou outra futilidade, era suficiente para
proporcionar alimentos e roupas a ela e à filha. Agora, porém, Cristina já
tinha idade para conseguir um emprego e ajudar a mãe.
Algumas pessoas diziam que Cristina herdara o
espírito de independência da mãe. Ela resistia à ideia tradicional de casar-se
jovem e de constituir família. Não porque fosse incapaz de conseguir um marido.
Sua pele morena e olhos castanhos atraíam um grande número de admiradores à sua
porta. Ela possuía um jeito todo especial de jogar a cabeça para trás e
contagiava a todos com suas gargalhadas. Possuía também aquela certa magia,
inerente a poucas mulheres, que fazem os homens se sentirem reis só por estarem
perto delas. Mas era aquele ar de curiosidade que mantinha os rapazes ao
alcance de sua mão.
Ela dizia sempre que queria conhecer uma cidade
grande.
Sonhava em trocar seu vilarejo pobre e empoeirado
pela vida exuberante da cidade. Aquela ideia deixava sua mãe horrorizada.
Maria sempre mencionava a Cristina as
dificuldades de se morar em uma cidade grande.
- Lá, você vai ser uma desconhecida. Os
empregos são difíceis de conseguir, e a vida é cruel. Além disso, se você for
morar lá, o que vai fazer para ganhar a vida?
Maria sabia exatamente o que Cristina faria ou
teria de fazer para ganhar a vida.
Por isso um dia, com o coração apertado,
acordou certa manhã e viu a cama da filha vazia. Imediatamente entendeu que
Cristina havia partido. E imediatamente decidiu o que deveria fazer para
encontrá-la. Colocou algumas roupas em uma sacola, pegou todo o dinheiro que
possuía e deixou sua casa para trás.
A caminho do ponto de ônibus, ela decidiu fazer
uma última coisa: tirar uma fotografia. Entrou em um pequeno estúdio, fechou as
cortinas, e gastou tudo o que podia em fotografias. Com a bolsa cheia de
pequenos retratos branco e preto, ela entrou no ônibus com destino ao Rio de
Janeiro.
Maria sabia que Cristina não tinha meios de
ganhar dinheiro.
Sabia também que a filha era teimosa demais
para desistir. Quando o orgulho se choca com a fome, o ser humano é capaz de
fazer coisas realmente inconcebíveis.
Sabendo disso, Maria começou suas buscas.
Bares, hotéis, boates, qualquer canto que
abrigasse pessoas de rua ou prostitutas. Percorreu todos esses lugares e, em
cada um, deixava uma foto sua - pendurada em espelhos de banheiro, pregada em
quadro de avisos de hotéis, presa em cabinas telefônicas. E, no verso de cada
foto, ela escreveu um bilhete.
Pouco tempo depois, o dinheiro e as fotografias
acabaram, e Maria teve de voltar para casa. Vencida pelo cansaço, ela chorou
quando o ônibus começou a longa viagem de volta para seu vilarejo.
Algumas semanas depois, Cristina estava
descendo a escada de um hotel. Seu rosto jovem tinha um ar cansado. Seus olhos
castanhos não mais brilhavam com a euforia da juventude. Só estampavam
sofrimento e medo. As gargalhadas desapareceram. Os sonhos transformaram-se em
pesadelo. Como seria bom, ela pensara milhares de vezes, trocar aquele grande
número de camas pela segurança de seu leito aconchegante. Porém, em vários
sentidos, o seu vilarejo estava longe demais.
Quando ela chegou ao pé da escada, seus olhos
avistaram um rosto conhecido. Ela olhou mais uma vez, e lá estava, no espelho
do saguão uma pequena fotografia de sua mãe. Os olhos de Cristina começaram a
arder, e ela sentiu um aperto na garganta enquanto atravessava o saguão e
pegava a foto. No verso, estava escrito este convite irrecusável: "Não
importa o que você fez, não importa em quem você se transformou. Por favor,
volte para casa." Ela voltou.
UM DIA
Charles R. Swindoll
Histórias Para o Coração 153
UM DIA, QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM, as coisas
vão ser bem diferentes. A garagem não ficará lotada de bicicletas, de trilhos
de trenzinhos elétricos sobre madeira compensada, de cavaletes rodeados de
tábuas, pregos, martelo e serra, de "projetos experimentais"
inacabados e da gaiola do coelho. Poderei estacionar os dois carros nas vagas
certas e nunca mais tropeçarei em pranchas de skate, pilhas de papéis
(guardados para colaborar com as obras assistenciais da escola) ou sacos com
comida para coelhos - tudo espalhado pelo chão.
UM DIA, QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM, a cozinha
ficará incrivelmente arrumada. A pia não ficará cheia de pratos sujos, a
lixeira não ficará abarrotada de elásticos e de copos de papel, a geladeira não
ficará lotada de frascos de leite, e nunca mais perderemos as tampas dos vidros
de geleia e de ketchup e dos potes de manteiga de amendoim, de margarina e de
mostarda. A jarra d'água não será recolocada vazia, as fôrmas de gelo não
ficarão fora durante a noite, o liquidificador não ficará sujo, seis horas a fio,
de resíduos de vitamina preparada à meia-noite, e o mel ficará dentro do seu
pote.
UM DIA, QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM, minha
querida esposa terá tempo para vestir-se vagarosamente. Terá tempo para um
banho quente demorado (sem receio de ser interrompida por gritos assustados),
tempo para cuidar das unhas da mão (e dos pés, se desejar!) sem ter de
responder a uma dúzia de perguntas e de revisar a grafia correta das palavras,
tempo para cuidar dos cabelos durante a tarde sem ter de marcar um horário
espremido entre uma visita ao veterinário para levar um cão doente ou uma ida
ao ortodontista para levar uma criança de mau humor por ter perdido seu boné.
UM DIA, QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM, o
aparelho chamado "telefone" ficará desocupado, sem parecer ter
nascido grudado ao ouvido de um adolescente. Ele simplesmente ficará lá...
silencioso e, por incrível que pareça, pronto para ser usado! Não ficará melado
de batom, saliva, maionese, migalhas de salgadinhos ou com palitos de dentes
enfiados nos pequenos orifícios.
UM DIA, QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM, eu serei
capaz de enxergar através dos vidros do carro. Impressões digitais de mãos e
pés, lambidas e sinais de patas de cachorro (ninguém sabe como) serão
inexistentes. O banco traseiro não ficará em completa desordem, não nos
sentaremos mais em cima de pedrinhas e lápis de cor, o tanque de combustível
estará sempre cheio e (glória a Deus!) não terei de limpar mais uma vez a
sujeira do cachorro.
UM DIA, QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM, poderemos
voltar a conversar normalmente, isto é, conversar como qualquer pessoa normal.
As frases não serão intercaladas de grosserias. "Legal!" será uma
expressão em desuso. Não haverá batidas na porta do banheiro acompanhadas de
"Ande logo, estou apertado!" e "É a minha vez" não
necessitará da presença de um árbitro. E aquele artigo de revista será lido sem
interrupções e, depois, discutido longamente, sem que o pai e a mãe tenham de
esconder-se no sótão para terminar a conversa.
UM DIA, QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM, não vamos
mais precisar correr atrás do rolo de papel higiênico. Minha esposa não vai
perder as chaves. Não esqueceremos a porta da geladeira aberta. Eu não vou ter
de inventar novas maneiras de desviar a atenção das máquinas que vendem gomas
de mascar... nem ter de responder à pergunta "Papai, não é pecado você
dirigir a 75 quilômetros por hora quando a placa diz que o limite é de 55?....
nem prometer dar um beijo de boa-noite no coelho... nem ter de ficar acordado
até altas horas esperando a chegada deles... nem ter de pedir licença para
falar durante o jantar... nem ter de suportar socos de brincadeira, mas que são
realmente doloridos.
Sim, um dia, quando as crianças crescerem, as
coisas vão ser bem diferentes. Elas começarão a partir, uma após a outra, e a
casa voltará a ficar em ordem e talvez até com um toque de elegância. O tinir
da porcelana e da prata será ouvido em ocasiões especiais. O som do fogo
crepitando na lareira ecoará por todo o saguão da casa.
O telefone estará estranham ente mudo. A casa
estará sossegada... calma... sempre limpa... e vazia... e passaremos o tempo
aguardando a chegada de um dia, mas lembrando-nos do ontem. E pensando:
"Talvez a gente possa cuidar dos netos
para que esta casa volte a ter vida!"
Nenhum sucesso na vida - ser presidente de uma nação, ser
rico, frequentar faculdade, escrever um livro ou qualquer outra coisa - é capaz
de sobrepujar o sucesso do homem que tem a sensação do dever cumprido e cujos
filhos e netos se levantam e o chamam abençoado.
THEODORE ROSEVELT, 1917
MAIS PAPAI
John Trent
Histórias Para o Coração 156
Recentemente, uma mulher segurou meu braço após
uma palestra que fiz a respeito da enorme necessidade que temos de
autoafirmação.
- Dr. Trent, posso contar-lhe minha história? -
ela perguntou.
- Na verdade, é uma história a respeito do que
meu filho fez com minha neta e que ilustra o que foi dito aqui, a importância
da autoafirmação.
- Meu filho tem duas filhas - ela prosseguiu -,
uma com cinco anos e outra com aquela "terrível" idade de dois anos.
Quando uma avó usa a palavra
"terrível" para descrever um neto ou uma neta, podem acreditar,
porque é verdade!
- Nesses últimos anos, meu filho tem levado a menina
mais velha para passear com ele, mas só levou a mais nova recentemente. No
primeiro passeio com ela, levou-a para tomar o café da manhã em uma lanchonete.
Quando chegaram as panquecas, meu filho achou
que o momento seria propício para dizer à filha quanto ele a amava.
- Jenny - ele disse à filha - quero que você
saiba quanto eu a amo e como você sou especial para a mamãe e para mim. Oramos
por você durante anos, e, agora que está aqui e se transformou em uma menina
tão linda, estamos muito orgulhosos de você.
Depois de dizer isso, ele parou de falar e
esticou o braço para pegar o garfo e começar a comer, mas não chegou a
colocá-lo na boca. A menina pôs a mão sobre a do pai. Ele olhou para a filha e,
com voz meiga e suplicante, ela disse:
- Mais, papai... mais.
Ele pousou o garfo na mesa e prosseguiu,
apresentando outros motivos que o levavam a amar tanto a filha, e, em seguida,
fez menção de pegar o garfo novamente. Pela segunda vez... terceira vez... e
quarta vez, ele ouviu as palavras:
- Mais, papai... mais.
Aquele pai quase não conseguiu saborear o
desjejum naquela manhã, mas sua filha recebeu o sustento emocional de que tanto
necessitava. Alguns dias depois. ela correu espontaneamente em direção à mãe e
disse:
- Eu sou uma filha muito especial, mamãe. Foi o
papai que disse.
O QUE É UMA AVÓ?
Carta de um aluno da terceira série
Histórias Para o Coração 159
Avó é uma senhora que não tem filhos para
cuidar. Ela gosta dos filhos e filhas das outras pessoas. O avô é igual à avó,
só que é homem. Ele faz passeios com os meninos e conversa com eles sobre
pescaria e outros assuntos interessantes.
As avós não têm nada para fazer a não ser ficar
paradas. São muito velhas para brincar ou correr. Basta que elas nos levem ao
mercado onde existe um cavalinho de brinquedo e tenham bastante dinheiro para
gastar. E, se nos levarem para passear, devem passar devagarinho para observar
coisas como folhas bonitas e lagartas.
Elas nunca devem dizer "ande mais
depressa".
Geralmente, as avós são gordas, mas não tão
gordas que não consigam amarrar nossos sapatos. Elas usam óculos e roupas de
baixo esquisitas. Podem tirar da boca os dentes e as gengivas.
As avós não precisam ser espertas, precisam
apenas responder a perguntas do tipo "Por que Deus não é casado?" ou
"Por que os cachorros perseguem os gatos?".
As avós não falam linguagem de criancinha igual
às visitas, porque é difícil de entender. Quando elas lêem para nós, não pulam trechos
nem se importam de contar a mesma história outra vez.
Todos deveriam ter uma avó, principalmente se
não tiverem televisão, porque elas são as únicas pessoas adultas que têm tempo
para nós.
PAREDES
Richard A. McCray
Histórias Para o Coração 160
A fotografia do casamento sobre a mesa zombava
deles, daqueles dois cujas mentes não mais se entendiam.
Entre eles, uma enorme barricada, que um
tiroteio de palavras ou a mais pesada artilharia não seriam capazes de
derrubar.
Em algum momento da vida, entre o nascimento do
primeiro dente do filho mais velho e a formatura da filha mais nova, eles se
afastaram um do outro.
Ao longo dos anos, cada um desembaraçou
lentamente aquela bola de fios emaranhados chamada "eu", e, à medida
que tentavam desatar os nós apertados, cada um escondeu do outro o que estava
procurando.
Às vezes, ela chorava à noite e, sussurrando,
implorava à escuridão que lhe dissesse quem ela era.
Ele, deitado a seu lado como um urso
hibernando, não se dava conta do inverno que ela atravessava.
Um dia, depois de terem feito amor, ele quis
dizer a ela que tinha medo de morrer, mas, temeroso de desnudar sua alma,
resolveu falar da beleza dos seios dela.
Ela se matriculou em um curso de arte moderna,
tentando encontrar-se nas cores pinceladas na tela, queixando-se dos homens às
outras mulheres, dizendo que são insensíveis.
Ele subiu em um túmulo chamado "O
Escritório", embrulhou sua mente em uma mortalha de números, e enterrou-se
no meio dos clientes.
Lentamente, a parede entre eles foi subindo,
cimentada pela argamassa da indiferença.
Um dia, quando ambos tentaram se tocar,
encontraram uma barreira impossível de atravessar, e, recuando diante da frieza
da pedra, cada um afastou-se do estranho do outro lado.
Quando o amor morre, ele não morre em momentos
de ira, nem quando corpos ardentes perdem o calor.
Fica estagnado, ofegante, exausto, expirando
aos pés de uma parede que não consegue escalar.
GENEROSIDADE
James Dobson
Histórias Para o Coração 162
Meu pai sempre esteve pronto a ajudar os que
tinham fome. Ele era um evangelista que viajou a vários lugares para realizar
reuniões de avivamento. As viagens eram caras, e o dinheiro que possuíamos era
suficiente apenas para as necessidades básicas.
Um dos problemas era a maneira como as igrejas
pagavam os pastores e evangelistas naquela época. Os pastores recebiam salário
durante o ano inteiro, mas os evangelistas eram pagos somente quando
trabalhavam. Por conseguinte, a renda de meu pai cessava abruptamente durante
os feriados do Dia de Ação de Graças, do Natal, das férias de verão ou de
qualquer período em que ele precisasse descansar. Talvez tenha sido por isso
que o dinheiro era escasso quando ele ficava em casa. Mas isso não impedia meu
pai de ser generoso.
Eu me lembro de vê-lo partir para falar em uma
igreja pequenina e voltar para casa dez dias depois. Minha mãe o recebeu com
entusiasmo e perguntou sobre o avivamento. Ele sempre se empolgava ao falar
desse assunto. Nessas ocasiões, minha mãe o deixava falar e, depois, perguntava
sobre o dinheiro. As mulheres têm a mania de preocupar-se com essas coisas.
- Quanto eles lhe deram? - ela perguntou.
Tenho gravada na memória a expressão de meu
pai, quando ele sorriu e olhou para o chão.
- Eu... - ele gaguejou.
Minha mãe afastou-se e o encarou.
- Ah, já entendi - ela disse. - Você devolveu o
dinheiro novamente, não?
- Myrt - ele disse -, o pastor de lá está
atravessando um momento difícil. Seus filhos necessitam de muita coisa. Fiquei
com o coração partido. Os sapatos das crianças estão furados na sola e, numa
dessas manhãs frias, uma delas foi para a escola sem agasalho. Achei que devia
deixar com eles os 50 dólares que recebi.
Minha boa mãe olhou atentamente para ele por
alguns instantes e sorriu.
- Se Deus pediu a você que fizesse isso, tudo
bem.
Após alguns dias, o inevitável aconteceu. A
família Dobson ficou completamente sem dinheiro. Não havia reservas para
lançarmos mão. Foi então que meu pai nos reuniu no quarto para passarmos alguns
momentos em oração. Eu me lembro daquele dia como se fosse ontem. Ele orou em
primeiro lugar.
"Oh, Senhor, tu prometeste que, se
fôssemos fiéis contigo e com teu povo em tempos de bonança, não te esquecerias
de nós em tempos de necessidade. Temos tentado ser generosos com aquilo que nos
deste, e agora estamos implorando tua ajuda." Um menino muito sensível de
dez anos, chamado Jimmy, observou e ouviu atentamente o que se passou naquele
dia. O que vai acontecer?, ele pensou. Será que Deus ouviu a oração do papai?
No dia seguinte, um cheque inesperado de 1.200
dólares chegou, pelo correio. Verdade! Foi assim que aconteceu, não apenas uma,
mas várias vezes. Eu vi o Senhor devolver a meu pai tudo o que ele deu aos
outros. Não, Deus não fez de nós uma família rica, mas minha fé tempos de
juventude aumentou consideravelmente. Aprendi que não podemos exceder a Deus em
generosidade.
Meu pai continuou a agir da mesma maneira
durante a meia-idade e depois dos 60 anos. Eu me preocupava querendo saber como
ele e minha mãe sobreviveriam após a aposentadoria, porque o dinheiro era
escasso e não podia ser poupado. Se meu pai conseguisse muitos dólares, com
certeza os distribuiria aos necessitados. Eu me perguntava como eles viveriam
com a ninharia que era paga aos pastores e evangelistas jubilados. (Como viúva,
minha mãe recebia apenas 80 dólares e 50 centavos por meu pai ter trabalhado 44
anos na igreja.) É tremendamente injusto o tratamento que os pastores e
evangelistas jubilados e suas esposas recebem.
Certo dia, meu pai estava deitado na cama,
enquanto minha mãe se vestia. Ela olhou para ele, e ele estava chorando.
- O que houve? - ela perguntou.
- O Senhor acabou de falar comigo - ele
respondeu.
- Você quer me contar o que Ele falou?
- Ele me falou sobre você.
Minha mãe pediu-lhe que contasse qual foi a
mensagem do Senhor.
Meu pai disse:
- Foi uma experiência estranha. Eu estava
deitado aqui pensando em muitas coisas. Não estava orando nem pensando em você
quando o Senhor me disse: "Eu vou cuidar de Myrtle." Nenhum deles
entendeu a mensagem, deixando-a guardada na lista das coisas imponderáveis.
Cinco dias depois, meu pai teve um ataque cardíaco de grandes proporções e
faleceu após três meses.
Aos 66 anos de idade, aquele homem bondoso cujo
nome eu levo, partiu para encontrar-se com Cristo, a quem ele amou e serviu
durante todos aqueles anos.
Foi emocionante testemunhar a maneira como Deus
cumpriu sua promessa de cuidar de minha mãe. Mesmo quando ela estava sofrendo
em fase terminal do mal de Parkinson e necessitando de constantes cuidados a um
custo astronômico, Deus a sustentou. A pequena herança que meu pai deixou à sua
esposa multiplicou-se nos anos após sua partida. Foi suficiente para pagar tudo
o que elã necessitou, inclusive os incessantes cuidados de que precisava.
Deus também esteve com ela de outra maneira,
carregando-a e protegendo-a em seus braços até o dia em que a levou consigo. Em
suma, meu pai nunca chegou perto de exceder a generosidade de Deus!
QUANDO VOCÊ PENSOU
QUE EU NÃO ESTAVA OLHANDO
Mary Rita Schilke Korzan
Histórias Para o Coração 165
Quando você pensou que eu não estava olhando, eu
o vi pendurar minha primeira pintura na geladeira e quis fazer outra.
Quando você pensou que eu não estava olhando,
eu o vi dar comida a um gato de rua e achei muito bom alguém gostar de animais.
Quando você pensou que eu não estava olhando,
eu o vi preparar o meu bolo favorito e descobri que pequenas coisas são muito
significativas.
Quando você pensou que eu não estava olhando,
eu o ouvi proferir uma oração e acreditei que existe um Deus com quem eu posso
sempre conversar.
Quando você pensou que eu não estava olhando,
senti seu beijo de boa-noite e me senti amada.
Quando você pensou que eu não estava olhando,
eu vi lágrimas em seus olhos e aprendi que, nos momentos em que nos sentimos
magoados, é bom chorar.
Quando você pensou que eu não estava olhando,
eu vi que você se preocupa comigo e desejei ser a melhor pessoa possível.
Quando você pensou que eu não estava olhando,
eu olhei... e quis agradecer todas as coisas que vi quando você pensou que eu
não estava olhando.
CRESCER
Marilyn K. McAuley
Histórias Para o Coração 166
Danny tinha apenas três anos de idade quando
ele e seu pai vieram morar conosco durante um ano. Todas as manhãs, ficávamos
em pé na porta para jogar beijos de despedida ao vovô e ao papai quando eles
saíam para trabalhar. Em seguida, Danny e a vovó entravam de volta na casa para
construir arranha-céus com tijolinhos de brinquedo e fazer longas viagens a
lugares maravilhosos lendo livros e mais livros. Mais tarde, caminhávamos pela
estradinha em direção à rodovia para pegar a correspondência diária e ouvíamos
o sussurro do vento por entre os galhos dos altos pinheiros.
Certa noite, depois de voltar do trabalho, o
vovô pegou Danny no colo e disse:
- Vamos comer um hambúrguer.
No carro, enquanto fazíamos o percurso de 45
minutos até a cidade, cantamos e conversamos. De repente, houve um grande
silêncio. Depois de pensar um pouco, Danny disse:
- O vovô tem um emprego, e o papai tem um
emprego. Quando eu crescer, vou ter um emprego.
- Muito bem, Danny - disse o vovô.
Após mais alguns instantes de reflexão, Danny
complementou:
- E, quando a vovó crescer, ela também vai ter
um emprego.
MESMO QUANDO ESTÁ ESCURO
Ron Mehl
Histórias Para o Coração 167
Ele era um homem forte que estava enfrentando
um inimigo muito mais forte. Sua jovem esposa ficou gravemente enferma e
faleceu, deixando o homenzarrão sozinho e uma filha loirinha, de olhos grandes,
que ainda não havia completado cinco anos.
A cerimônia fúnebre na pequena capela da cidade
foi simples e carregada de dor. Após o sepultamento no pequeno cemitério, os
vizinhos do homem reuniram-se ao redor dele.
- Por favor, venha com sua filha passar alguns
dias conosco disse alguém. - Vocês não devem voltar para casa ainda.
Mesmo diante de tanto sofrimento, o homem
disse:
- Obrigado, meus amigos, pela oferta generosa.
Mas nós precisamos voltar para casa. Minha filhinha e eu precisamos enfrentar
esta dor.
Assim, o homenzarrão e a menina voltaram para
casa, que agora parecia vazia e sem vida. O pai colocou a cama da filha em seu
quarto, para que eles pudessem passar juntos a escuridão da primeira noite.
Os minutos passaram lentamente, e a menina
estava tendo grande dificuldade para dormir... a mesma de seu pai. O que pode
afligir mais o coração de um pai que ver uma criança soluçando de saudades da
mãe que nunca mais vai voltar?
A menina continuou a chorar noite adentro. O
homem esticou o braço para tentar consolá-la da melhor maneira possível. Após
alguns instantes, a menina conseguiu parar de chorar. Pensando que a filha já
estava dormindo, o pai olhou para cima e orou, com a voz entrecortada:
- Eu confio em ti, ó Pai, a noite está escura
demais!
Ao ouvir a oração do pai, a menina começou a
chorar novamente.
- Eu pensei que você estivesse dormindo,
querida - ele disse.
- Eu tentei, papai. Estava triste por você. Eu
tentei de verdade.
Mas não consegui dormir. Papai, você já viu uma
noite tão escura assim? Por que, papai? Eu não posso ver você. Está escuro
demais.
- Em seguida, por entre as lágrimas, a menina
disse baixinho:
- Mas você me ama mesmo quando está escuro, não
é verdade, papai? Você me ama mesmo quando eu não posso enxergar você, não é
verdade, papai?
Como resposta, o homem pegou a filha da cama
com suas mãos enormes, colocou-a de encontro ao peito e segurou-a
carinhosamente até ela dormir.
Quando ela se aquietou, o homem voltou a orar.
Assumiu para si todo o choro da filha e o transferiu para Deus.
"Pai, a noite está escura demais. Não
posso te enxergar. Mas tu me amas, mesmo quando está escuro e eu não posso te
enxergar, não é verdade, Pai?" Naquelas horas tão tenebrosas, o Senhor o
tocou dando-lhe novas forças para prosseguir. Ele sabia que Deus continuaria a
amá-Io, mesmo no escuro.
VOCÊ TEM UM MINUTO?
David Jeremiah
Uma mãe que acabara de ler um livro sobre a
arte de educar filhos... estava convicta a respeito de alguns de seus fracassos
como mãe. Ao sentir isso, ela subiu a escada para conversar com o filho. Quando
chegou ao pavimento superior da casa, escutou a barulheira da bateria que
estava sendo tocada com força no quarto do filho. Ela queria dizer-lhe uma
coisa, mas, quando bateu na porta, sentiu-se acovardada.
- Você tem um minuto? - ela perguntou, assim
que o filho abriu a porta.
- Você sabe que sempre tenho um minuto para
você, mãe respondeu o garoto.
- Sabe, filho, eu... eu... eu adoro a maneira
como você toca bateria.
- Você gosta? - disse o garoto. - Que bom!
Obrigado, mãe.
Ela afastou-se do quarto e dirigiu-se para a
escada. Depois de descer alguns degraus, ela se deu conta de que não dissera o
que desejava. Resolveu voltar e bateu outra vez na porta.
- Sou eu novamente! Você tem mais um minuto? -
ela perguntou.
- Eu já disse que sempre tenho um minuto para
você, mãe.
Ela entrou e sentou-se na cama.
- Quando estive aqui antes, eu tinha uma coisa
para lhe dizer e não disse. O que eu queria dizer era que... seu pai e eu...
achamos que você é um ótimo filho.
- Você e meu pai? - ele perguntou.
- Sim, seu pai e eu.
- Que bom, mãe! Muito obrigado.
Ela saiu do quarto e, mais uma vez, depois de
ter descido alguns degraus se deu conta de que havia chegado perto de dizer o
que desejava, mas não dissera ao filho que o amava. Subiu novamente a escada e
voltou a bater na porta do quarto. Desta vez, ele a ouviu chegando. Antes que
ela tivesse tempo de perguntar, ele gritou:
- Sim, eu tenho um minuto!
A mãe sentou-se na cama mais uma vez.
- Sabe, filho, tentei duas vezes e não
consegui. Eu subi até aqui para lhe dizer isso. Eu amo você. Eu amo você de
todo o coração. Eu não vim aqui dizer que seu pai e eu amamos você, mas que eu
amo você.
- Mãe, isso é bom demais! Eu também amo você! -
ele disse.
dando-lhe um grande abraço.
Ela saiu do quarto e estava chegando ao topo da
escada quando ouviu o filho perguntar, com a cabeça para fora da porta:
- Mãe, você tem um minuto?
Ela riu e disse:
- Claro!
- Mãe, você acabou de voltar de um seminário?
ORAÇÃO DE UM PAI
John Ellis
Querido Pai celestial, podes me perdoar por eu
ter magoado meus filhos?
Por ter nascido em lar humilde, pensei que uma
casa grande fizesse com que meus filhos se sentissem importantes. Eu não me dei
conta de que eles só precisavam de meu amor.
Pensei que o dinheiro Ihes trouxesse
felicidade, mas ele os fez pensar que os bens materiais são mais importantes
que as pessoas.
Pensei que, se lhes desse umas surras de vez em
quando, eles seriam valentes, capazes de se defender sozinhos. Com isso, eu
cessei de buscar sabedoria para poder discipliná-los e ensiná-Ios.
Pensei que, se os deixasse agir por conta
própria, eles seriam independentes. Só consegui fazer com que meu filho mais
velho se considerasse pai do mais novo.
Pensei que, se encobrisse todos os problemas da
família, eu estaria mantendo a paz no lar. Eu os ensinei a fugir em vez de
liderar.
Pensei que, se fingisse em público que minha
família era perfeita, eu estaria transmitindo respeitabilidade a meus filhos.
Eu os ensinei a viver uma mentira e a guardar segredo a respeito da verdade.
Pensei que tudo o que precisava fazer como pai
seria ganhar dinheiro, estar sempre presente em casa e suprir todas as
necessidades materiais de meus filhos. Eu lhes ensinei a maneira errada de ser
pai. O problema é que eles vão ter de aprender sozinhos o que é ser um pai de
verdade.
E, querido Deus, Espero que consigas ler esta
oração. A maior parte das palavras ficou borrada por minhas lágrimas.
FÉRIAS DE VERÃO
Bruce Larson
Tenho um grande amigo em Montgomery, Alabama.
Poucos anos atrás, esse amigo me contou uma história inesquecível de umas
férias de verão que ele planejou para a esposa e filhos.
Impossibilitado de acompanhá-los por motivos
profissionais, ele os ajudou a planejar cada dia da viagem, na perua da
família, a um acampamento de férias, desde Montgomery até a Califórnia e a
costa oeste, e de volta a Montgomery.
Ele conhecia muito bem o caminho e sabia o
momento exato em que a família estaria atravessando as Montanhas Rochosas.
Assim, meu amigo pegou um avião até o aeroporto mais próximo daquele local e
alugou um carro com motorista para levá-lo ao ponto da estrada que era passagem
obrigatória para todos os carros. Ele ficou sentado várias horas à beira da
estrada aguardando a chegada da perua da família. Quando a avistou, foi para o
meio da estrada e fez um sinal com o dedo polegar pedindo carona à família, que
imaginava que o pai estivesse a quase 5.000 quilômetros de distância.
- Coleman - eu disse a meu amigo -, eu não
ficaria surpreso se eles tivessem acelerado estrada afora de tanto susto ou que
tivessem morrido de ataque cardíaco. Que história incrível! Por que você
inventou toda essa cena?
- Bem, Bruce - ele disse -, um dia eu vou
morrer, e, quando esse dia chegar, quero que meus filhos e minha esposa digam:
"O papai era um sujeito muito divertido."
Vejam só, pensei. Aqui está um homem cujo
objetivo é divertir e proporcionar felicidade a outra pessoa. Esse pensamento
me fez imaginar o que minha família vai dizer de mim após minha morte. Tenho
certeza de que vão dizer: "O papai era um sujeito legal, mas se preocupava
demais em apagar as luzes, fechar as janelas, inspecionar a casa e cortar a
grama." Mas eu também gostaria que eles dissessem que o papai era um
sujeito que fez da vida uma grande diversão.
PARA MEU FILHO ADULTO
Autora Desconhecida
Minhas
mãos trabalhavam sem parar;
Eu
não tinha tempo para brincar com seus joguinhos, quando você me pedia.
Eu
não tinha tempo para você durante o dia.
Lavava
suas roupas, costurava e cozinhava;
Mas
quando o caderno de desenhos você pintava
E
queria que brincássemos juntos, só nós dois,
Eu
sempre lhe dizia: "Depois. meu filho, depois."
Eu
arrumava suas cobertas antes de me deitar,
Apagava
a luz depois de ouvir você orar.
Em
seguida, saía do quarto de mansinho...
Eu
gostaria de ter ficado mais um pouquinho.
Porque
a vida é curta, os anos passam rapidamente...
E
um menino cresce rápido, tão de repente.
E
agora ele não está mais a meu lado.
Contando-me
histórias ou um segredo guardado.
Não
há mais desenhos para pintar;
Não
existem mais joguinhos para brincar.
Nem
beijos de boa-noite, nem as orações de antes.
Tudo
isso pertence a tempos tão distantes.
Minhas
mãos, outrora ocupadas, não têm mais o que fazer.
Os
dias são longos, difíceis demais para preencher.
Eu
gostaria de voltar no tempo e com você repartir
As
pequenas coisas que você costumava me pedir.
27 COISAS QUE NÃO SE DEVE DIZER AO CÔNJUGE
Steve Stephens
Não há nada mais penoso que a falta de um bom
diálogo com a pessoa que você ama. É por meio do diálogo que estabelecemos uma
ligação recíproca e que nossos espíritos se tocam.
Se, porventura, essa ligação for contaminada,
em breve todo o relacionamento ficará envenenado. É apenas uma questão de
tempo.
E, para que exista um bom diálogo, é necessário
saber o que não' se deve dizer, em vez de saber o que se deve dizer...
Portanto, eu reuni alguns amigos íntimos e
pedi-Ihes que relacionassem o que não se deve dizer ao cônjuge. Esta é a lista
que me foi apresentada:
Eu já lhe disse isso.
Você é igual à sua mãe.
Você sempre está de mau humor.
Parece que você não pensa.
A culpa é sua.
O que há de errado com você?
Você só sabe reclamar.
Você não gosta de nada que eu faço.
Você tem o que merece.
Por que você nunca me ouve?
Você não pode ser um pouco mais responsável?
O que você tem na cabeça?
É impossível viver com você!
Não sei como eu consigo aguentar você.
Mesmo que eu repita mais de mil vezes, não vai
adiantar nada.
Posso fazer o que eu quiser.
Se você não gosta, vá embora.
Você não sabe fazer nada certo?
Aquilo foi uma estupidez.
Você só pensa em si mesmo(a).
Se você me amasse de verdade, faria o que peço.
Você não passa de uma criancinha.
Uma reviravolta até que seria bom.
Você merece receber uma dose de seu veneno.
Qual é o seu problema?
Eu não consigo entender você.
Por que você sempre está com a razão?
37 COISAS QUE SE DEVE DIZER AO CÔNJUGE
Steve Stephens
Um
casamento feliz é um porto seguro onde podemos relaxar e nos recuperar das
tensões do dia-a-dia. Precisamos ouvir coisas positivas de nosso companheiro ou
companheira. Da mesma forma que eu reuni alguns amigos para relacionarem uma
lista do que não se deve dizer ao cônjuge, eles também sugeriram o que
gostariam de ouvir.
Belo
trabalho!
Você
é maravilhoso(a).
O
que você fez foi muito bom.
Você
está deslumbrante hoje. Eu não me completo sem você.
Agradeço
tudo o que você tem feito por mim em todos esses anos.
Você
está em primeiro lugar na minha vida, antes dos filhos, da carreira, dos
amigos, de tudo.
Estou
feliz por ter-me casado com você.
Você
é o(a) meu (minha) melhor amigo(a).
Se
tivesse de começar tudo de novo, eu me casaria com você.
Corno
quis ter você ao meu lado hoje!
Senti
sua falta hoje.
Não
consegui parar de pensar em você hoje.
É
bom acordar a seu lado.
Você
sempre será o meu amor.
Adoro
ver o brilho em seus olhos quando você sorri.
Como
sempre, você está com uma ótima aparência hoje.
Eu
confio em você.
Eu
sempre posso contar com você.
Você
faz com que eu me sinta bem.
Estou
muito orgulhoso(a) por ter-me casado com você.
Sinto
muito.
O
erro foi meu.
Do
que você gosta?
Em
que você está pensando?
Quero
ouvir com atenção.
Você
é muito especial.
Não
posso imaginar viver sem você.
Eu
gostaria de ser um(a) companheiro(a) melhor.
O
que posso fazer para ajudar você?
Ore
por mim.
Estou
orando por você hoje.
Eu
aprecio cada momento que passamos juntos.
Obrigado(a)
por me amar.
Obrigado(a)
por me aceitar.
Obrigado(a)
por ser meu (minha) companheiro(a).
Você
torna meus dias mais brilhantes.
DE MAIOR VALOR
Jerry B. Jenkins
Um amigo meu, pai de duas filhas, admite que
não se importa de amedrontar um pouco os rapazes. Suas filhas sentem-se
constrangidas quando ele pede para ficar alguns momentos a sós com os namorados
delas, e acham que seria melhor ele transmitir aos rapazes a ideia de que é um
pai legal, não um pai mesquinho e protetor. Mas existem certas situações que
merecem um tratamento meio desajeitado. Os rapazes podem pensar que esse tipo
de pai é superprotetor. Contudo, para os pais que têm filhas, isso não existe.
Outro amigo meu usa a analogia de um carro
esportivo para expressar-se com mais precisão. Ele diz ao rapaz:
- Se eu tivesse um carro esportivo raro e
caríssimo e lhe emprestasse para dar uma voltinha com ele, você tomaria muito
cuidado, não é verdade?
- Oh, claro que sim, senhor.
- E você cuidaria melhor dele do que do seu,
certo?
- Sim, senhor.
- Eu também não deveria imaginar que você
sairia por aí cantando pneus, deveria?
- Não, senhor.
- Então, deixe-me dizer uma coisa, de homem
para homem, para que as coisas fiquem bem claras. Para mim, minha filha tem um
valor infinitamente maior que qualquer carro. Você entende aonde quero chegar?
Eu a estou emprestando a você por algumas horas, e não gostaria de saber que
ela foi tratada com menos cuidado ou respeito que recebe de mim. Sou
responsável por ela. É minha filha.
Eu estou confiando em você. E essa confiança
não admite uma segunda chance. Entendeu?
A essa altura, o rapaz deve estar imaginando
por que não escolheu outra garota para sair. Ele se limita a balançar a cabeça
positivamente, incapaz de falar. Na maioria das vezes, leva a moça para casa
antes do horário prometido. Talvez a filha se queixe da atitude do pai, mas, no
fundo, sente-se amada e querida, e você pode ter certeza de que ela se casará
com um homem que a tratará dessa maneira.
UM FILHO QUE CAUSOU TANTAS LÁGRIMAS
Ruth Bell Graham
Santo Agostinho não foi sempre uma pessoa
piedosa. Sua mãe, Mônica, ensinou-lhe as doutrinas do Cristianismo e orava por
ele, mas a mente incrível de seu filho a deixava atormentada. Certo dia, quando
era adolescente, ele avisou que estava abandonando sua fé em Cristo para seguir
uma heresia moderna P Passou a ter uma vida imoral. E Agostinho nunca fez as
coisas pela metade. Foi o melhor e o primeiro aluno no colégio e tornou-se o
melhor e o primeiro nas festas mundanas da juventude.
Eu não conseguia distinguir a diferença entre o
claro brilho da afeição e a escuridão da luxúria... Eu não conseguia permanecer
dentro do reino da luz, onde a amizade liga uma alma a outra...
E, assim, eu poluí o riacho da amizade com as
águas imundas da luxúria.2 Não dei ouvidos ao clangor dos grilhões de minha
mortalidade, ao castigo do orgulho que existia em minha alma, e afastei-me de
Ti, e Tu me deixaste sozinho. Fui atirado de um lado para o outro, vivi de
maneira dissoluta e desregrada, mergulhei fundo em minhas fornicações, e Tu
preservaste a Tua paz, oh, Tu, minha alegria tardia!...3
Cada um de nós tem uma maneira própria de
pecar. Alguns se deixam enganar porque seu pecado é socialmente aceitável;
afinal, aquele pecado não é tão grave assim. Outros sofrem as consequências
porque seu pecado não é aceito pela sociedade; vão parar na cadeia ou são
desprezados pelas pessoas que costumavam chamá-los de amigos. A história de
Agostinho é igual à nossa:
A perda da fé sempre ocorre quando os sentidos
começam a despertar. Nesse momento crítico, em que os instintos naturais
afloram, na maioria das vezes a consciência das coisas de natureza espiritual
fica ofuscada ou totalmente destruída. Não é a razão que afasta o jovem de
Deus, é a carne. O ceticismo só serve para criar desculpas para a nova vida que
ele está levando.
Mônica, contudo, continuou a orar. Orava pelos
pecados e pela heresia do filho. Orava pela luta do filho com Deus. E Agostinho
sabia disso.
Passaram quase nove anos, nos quais eu
chafurdei na lama do mais profundo abismo e na escuridão da hipocrisia...
Durante todo esse tempo, aquela viúva casta, piedosa e sensata... não cessou de
orar a Ti, suplicando em meu favor. E suas orações chegaram à Tua presença;
contudo, Tu continuaste a permitir que eu me envolvesse cada vez mais naquela
escuridão.
Aqueles anos não foram fáceis para Mônica.
Qualquer mãe que tenha um filho perdido na escuridão sabe disso. Foram anos de
sofrimento. Finalmente, ela recorreu ao bispo, um homem devoto que conhecia
muito bem a Bíblia, e pediu-lhe que conversasse com Agostinho para apontar seus
erros. O bispo recusou-se.
Naquela época, Agostinho tinha a fama de ser um
ótimo orador e debatedor.
Em vez de conversar com Agostinho, o bispo
dirigiu sábias palavras de conforto a Mônica, dizendo que uma mente tão
inteligente como a de seu filho enxergaria o caminho certo por meio das
decepções. Citou o próprio exemplo - ele havia sido maniqueísta.
Mônica não se sentiu confortada com aquelas palavras.
Continuou a implorar ao bispo em meio a rios de lágrimas. Finalmente, cansado
diante da tenacidade daquela mulher e, ao mesmo tempo, sem saber o que fazer
diante de tanto sofrimento, o bispo disse:
- Vá, vá! Deixe-me em paz. Continue a viver sua
vida. Não é possível que um filho, que lhe causa tantas lágrimas, possa se
perder.
Palavras ásperas entremeadas de bondade e
compaixão.
O filho rebelde continuou a fugir de sua mãe e
de Deus. Fugiu durante muitos anos. Um dia, porém, Agostinho deu ouvidos a
Santo Ambrósio, bispo de Milão, o religioso mais conceituado da época.
Exausto depois de tantos anos de fuga, convicto
e quebrantado, Agostinho arrependeu-se e aceitou Jesus.
Segundo os historiadores e estudiosos cristãos,
Santo Agostinho modificou o curso da História. Suas obras foram e continuam
sendo mais lidas do que as de quase todos os outros autores ao longo dos
séculos. Ele também é capaz de falar à geração atual como que transmitindo uma
mensagem de coração para coração. Santo Agostinho levou a bom termo as
esperanças e as orações piedosas de sua mãe. Alguns dizem que ele foi uma
ferramenta usada por Deus para manter acesa a chama do Novo Testamento quando o
Império Romano desmoronou. Pouco tempo depois que o Filho Pródigo voltou para
casa, sua mãe lhe disse que não tinha mais motivos para viver. Passara a vida
inteira desejando vê-lo voltar e aceitar Jesus. Nove dias depois, ela morreu.
O pai do Filho Pródigo do livro de Lucas estava
tão ansioso por ver o filho retomar que o avistou quando "vinha ele ainda
longe".
Mônica fez o mesmo. Ela o seguia de longe
enquanto ele fugia; reclamava de seus modos rebeldes quando ele voltava para
casa. Nunca parou de orar pelo filho que lhe causou tantas lágrimas. Agostinho
aprendeu com ela uma lição que muitos filhos pródigos têm aprendido a respeito
de nosso Pai celestial: "A única maneira de um homem se perder é
afastando-se de Ti; e, se ele afastar-se de Ti, para onde irá? Ele só poderá
fugir de Tua misericórdia rumo à Tua ira. " Deus deseja ardentemente mudar
as pessoas, afastando-as do foco de sua ira e levando-as em direção à sua
misericórdia. É terrivelmente penoso ver um filho ou uma filha escolher o
próprio caminho e segui-lo, mas devemos fazer o mesmo que a mãe de Agostinho.
Foi assim que Jesus nos ensinou. Espere por eles, ore por eles e nunca pare de
orar por eles. E, depois, olhe para a estrada com esperança. Talvez você possa
ver seu filho, aquele que lhe causou tantas lágrimas, surgindo em meio a uma
nuvem de poeira no horizonte.
CONCEDE-ME UM FILHO
General Douglas A. MacArthur
Concede-me um filho, ó Senhor, que seja forte o
suficiente para entender quando está fraco, que seja corajoso o suficiente para
admitir que está com medo: um filho que tenha orgulho e que não se curve diante
de uma derrota honesta, e que seja humilde e cavalheiro diante da vitória.
Concede-me um filho cuja espinha dorsal não se
dobre: um filho que te conheça - e que saiba que a pedra fundamental do
conhecimento é conhecer a si mesmo.
Conduze-o, eu oro, não no caminho da facilidade
e do conforto, mas sob a força e o aguilhão das dificuldades e desafios.
Permite que ele aprenda a permanecer firme na tempestade: permite que ele
aprenda a ter compaixão pelos que caem.
Concede-me um filho cujo coração seja límpido,
cujos objetivos sejam altos: um filho que saiba dominar-se e não que tente
dominar outros homens: um filho que aprenda a rir, mas que também nunca
desaprenda a chorar; um filho que pense no futuro, sem nunca esquecer o
passado.
E depois que meu filho for tudo isto, eu oro,
acrescenta-lhe um pouco de senso de humor, de modo que ele possa ser sempre
sério, mas que nunca se comporte de maneira muito séria. Dá-lhe humildade para
que ele possa sempre lembrar-se da simplicidade da verdadeira grandeza, da
mente aberta para a verdadeira sabedoria, da humildade da verdadeira força. E,
depois, permite que eu, seu pai, me atreva a murmurar: "Minha vida não foi
em vão."
GRANDE DAMA
Tim Hansel
Lembro-me dos tempos em que eu estava na quarta
série e você costumava ficar acordada até altas horas só para me fazer uma
fantasia de Zorro para a festa de Halloween. Eu sabia que você era uma boa mãe,
mas não imaginava que fosse uma grande dama.
Lembro-me de quando você tinha dois empregos,
de quando você corria para o salão de beleza em frente a nossa casa para que
nossa família não passasse necessidades. Você trabalhava horas a fio e, mesmo
assim, conseguia sorrir o tempo todo. Eu sabia que você trabalhava muito, mas
não imaginava que fosse uma grande dama.
Lembro-me do dia em que cheguei tarde em
casa... na verdade, era perto de meia-noite, talvez um pouco mais, e eu lhe
contei que ia representar o papel de rei na peça da escola no dia seguinte.
Você ficou entusiasmada e deu um jeito de criar um manto púrpura de rei com
pele de arminho (feita de algodão com leves pinceladas de tinta preta). Depois
de todo aquele trabalho, eu esqueci de me virar no palco, e ninguém viu o
resultado de todo o seu esforço. Mesmo assim, você foi capaz de rir, amar e
apreciar aqueles momentos. Eu sabia que você era uma mãe inigualável, que podia
transmitir ânimo em qualquer situação, mas não imaginava que fosse uma grande
dama.
Lembro-me de quando parti a cabeça ao meio pela
sexta vez consecutiva, e você disse ao pessoal da escola:
- Ele vai ficar bom. Só não pode esforçar-se
muito. Vou voltar mais tarde para ver como ele está.
O pessoal da escola e eu sabíamos que você era
durona, mas eu não imaginava que fosse uma grande dama.
Lembro-me dos tempos do grupo escolar e do
ginásio quando você me ajudava a fazer os deveres de casa, quando você fazia
roupas para eu usar nas festas da escola, quando você assistia a todos os meus
jogos. Naquela época, eu sabia que você faria de tudo para ajudar seus filhos,
mas não imaginava que fosse uma grande dama.
Lembro-me do dia em que levei 43 colegas para
casa às 3h30 da madrugada, quando eu trabalhava na Young Life [uma organização
cristã de jovens] e perguntei a você se eles poderiam passar o resto da noite
em casa e tomar o café da manhã. Lembro-me de que você se levantou às 4h30 para
fazer esse trabalho heroico. Naquela época, eu sabia que você era uma mãe
alegre e generosa, mas não imaginava que fosse uma grande dama.
Lembro-me de quando você assistia a meus jogos
de basquete e de futebol no ginásio e ficava tão empolgada que chegava a bater
na pessoa à sua frente com aquelas bolas de lã coloridas. Lembro-me até de ver
você torcendo por mim no meio da quadra ou do campo. Naquela época, eu sabia
que você era uma pessoa incentivadora, mas não imaginava que fosse uma grande
dama.
Lembro-me de todos os sacrifícios que você fez
para que eu fosse estudar na faculdade de Stanford - de seus trabalhos extras,
das encomendas que você me mandava regularmente, das cartas que me transmitiam
a certeza de que eu não estava só. Eu sabia que você era uma grande amiga, mas
não imaginava que fosse uma grande dama.
Lembro-me do dia da formatura em Stanford,
quando decidi trabalhar por 200 dólares por mês para cuidar de crianças do
ministério de jovens Young Life. Embora você e papai tivessem pensado que eu
havia voltado ao primeiro degrau da escada, você continuou a incentivar-me.
Lembro-me de quando você foi me ajudar a instalar-me no pequeno apartamento de
um cômodo. Você deu um toque especial, de amor, a uma moradia tão simples.
Naquela época - e em várias outras - eu me dei conta de que você era muito
criativa, mas não imaginava que fosse uma grande dama.
O tempo passou, eu fiquei mais velho, casei e
constituí família.
Você assumiu o papel de avó, apesar de nunca
ter envelhecido.
Naquela época, eu sabia que Deus havia
esculpido um lugar especial na vida quando a criou, mas não imaginava que você
fosse uma grande, uma grande dama.
Sofri um acidente. A vida tornou-se difícil
para mim. Mas, como sempre, você permaneceu a meu lado. Algumas coisas, pensei,
nunca mudam, e fiquei profundamente grato por- isso. Eu me dei conta do que já
sabia havia muito tempo - que você era uma ótima enfermeira - mas não imaginava
que fosse uma grande, uma grande dama.
Escrevi alguns livros e, aparentemente, os
leitores gostaram deles. Você e papai ficaram tão orgulhosos que chegaram a
oferecer exemplares dos livros a seus amigos, só para mostrar as proezas de um
de seus filhos. Naquela época, eu me dei conta da grande promotora de vendas
que você era, mas não imaginava que fosse uma grande, uma grande dama.
Os tempos mudaram... os anos passaram, e um dos
homens mais notáveis que conheci morreu. Ainda me lembro de você no culto
fúnebre, em pé e com o corpo ereto, usando um lindo vestido roxo e dizendo às
pessoas:
- Somos uma família muito abençoada e estamos
agradecidos por essa "vida tão bem vivida".
Naqueles momentos, eu vi uma mulher que
conseguia permanecer firme e agradecida em meio a circunstâncias tão difíceis.
Comecei a descobrir que você é uma grande, uma grande dama.
Neste último ano, quando você teve de viver
mais sozinha que nunca, tudo o que observei e passei em todos aqueles anos
juntou-se e transformou-se em uma coisa nova para mim. Agora seu riso é mais
feliz, sua força é mais intensa, seu amor é mais profundo e estou descobrindo
que você é verdadeiramente uma grande, uma grande dama.
Obrigado por ter-me escolhido para ser um de
seus filhos.
SE TIVÉSSEMOS ANDADO MAIS DEPRESSA
Billy Rose
Havia um rapaz que cuidava, com o pai, de um
pequeno pedaço de terra. Várias vezes por ano, eles lotavam o velho carro de
boi com legumes e dirigiam-se até a cidade mais próxima para vender sua
produção. Com exceção do nome e dos cuidados dedicados ao pedaço de terra, pai
e filho tinham poucas coisas em comum. O homem mais velho levava a vida de
maneira pacata. O mais novo estava sempre com pressa... era
"dinâmico".
Certa manhã ensolarada, eles se levantaram bem
cedo, atrelaram o boi ao carro e iniciaram a longa viagem. O filho imaginou
que, se eles andassem mais depressa, rodando o dia inteiro e a noite inteira,
conseguiriam vender a mercadoria no início da manhã seguinte. Com essa ideia em
mente, ele cutucava o boi com uma varinha, insistindo para que o animal andasse
mais rápido.
- Vá com calma, filho - disse o pai -, para
você ter vida mais longa.
- Se chegarmos ao mercado antes dos outros,
vamos ter mais chances de conseguir preços melhores - argumentou o filho. O pai
não replicou. Cobriu os olhos com o chapéu e começou a cochilar. Ansioso e
irritado, o rapaz voltou a cutucar o boi para que ele andasse mais rápido, mas
seus passos continuavam no mesmo ritmo.
Depois de levarem quatro horas para percorrer
um trecho de mais de seis quilômetros, eles chegaram diante de uma casinha. O
pai despertou, sorriu e disse:
- Aqui é a casa de seu tio. Vamos entrar para
cumprimentá-lo.
- Mas já estamos uma hora atrasados -
queixou-se o apressadinho.
- Alguns minutos a mais não vão fazer
diferença. Meu irmão e eu moramos tão perto, mas só nos vemos raramente - disse
o pai, com voz pausada.
Impaciente e zangado, o rapaz ouviu os dois
homens conversarem e rirem por quase uma hora. No restante da viagem, o pai
assumiu o comando do carro de boi. Quando eles chegaram a uma bifurcação na
estrada, o pai conduziu o carro para a direita.
- O caminho pela esquerda é mais curto - disse
o filho.
- Eu sei - replicou o pai -, mas este é mais
bonito.
- O senhor não se preocupa com o horário? -
perguntou o jovem, com impaciência.
- Claro que me preocupo! É por isso que gosto
de ver o que é bonito e de apreciar cada momento.
Ao longo do caminho sinuoso, havia lindas
campinas, flores silvestres e um riacho de águas formando pequenas ondulações.
O rapaz não viu nada disso por estar zangado,
preocupado e fervendo de ansiedade. Não chegou sequer a ver o lindo pôr-do-sol
naquele dia.
No momento do crepúsculo, eles estavam passando
por um imenso jardim colorido. Ao sentir o perfume das flores e ao ouvir o
borbulhar das águas do riacho, o pai parou o carro.
- Vamos dormir aqui - ele disse, com um
suspiro.
- É a última vez que viajo com o senhor - vociferou
o filho. O senhor está mais interessado em ver o pôr-do-sol e em sentir o
perfume das flores do que em ganhar dinheiro!
- Essa foi a coisa mais bonita que você disse
nesse tempo todo - sorriu o pai.
Alguns minutos depois, ele estava roncando -
enquanto o filho olhava para as estrelas. A noite arrastou-se lentamente, e o
rapaz não conseguiu descansar.
Antes do alvorecer, o jovem sacudiu o pai para
despertá-Io. Atrelaram novamente o boi ao carro e prosseguiram a viagem.
Depois de rodarem quase dois quilômetros, eles
avistaram outro fazendeiro - um homem totalmente desconhecido - tentando tirar
seu carro de boi de uma vala.
- Dê uma mãozinha a ele - cochichou o pai.
- Para perdermos mais tempo ainda? - explodiu o
rapaz.
- Relaxe, filho... você também poderia ter
caído em uma vala.
Devemos ajudar quem precisa, não se esqueça
disso.
O rapaz olhou para o outro lado, zangado.
Já eram quase 8 horas da manhã quando eles
conseguiram tirar o carro de boi da vala. De repente, um grande clarão iluminou
o céu, seguido de um ruído semelhante ao de um trovão. O céu estava escuro
atrás das montanhas.
- Parece que está chovendo muito na cidade -
disse o pai.
- Se tivéssemos andado mais depressa, já
teríamos vendido toda a nossa mercadoria - resmungou o filho.
- Vá com calma... para ter vida mais longa,
para apreciar a vida por mais tempo - aconselhou o bondoso pai.
A tarde já estava terminando quando eles
chegaram ao topo da montanha, de onde se avistava a cidade. Eles pararam e
ficaram olhando para baixo durante um longo, longo tempo. Nenhum dos dois
proferiu uma só palavra. Finalmente, o jovem pousou a mão no ombro do pai e
disse:
- Agora entendo o que o senhor queria dizer,
pai.
Eles deram meia-volta com o carro de boi e
começaram a afastar-se lentamente do local onde antes existia a cidade de
Hiroshima.
O MARTELO, A LIMA E A FORNALHA
Charles R. Swindoll
Foi o encantador Rutherford quem disse, em meio
a dolorosas provações e magoas:
- Louvado seja Deus pelo martelo, pela lima e
pela fornalha!
Vamos pensar nisso. O martelo é um instrumento
útil e jeitoso. É uma ferramenta essencial e de grande serventia para fincar os
pregos no lugar. Cada martelada força-os a se aprofundar, enquanto a cabeça do
martelo os golpeia.
Mas, se o prego tivesse sensibilidade e
inteligência, nos contaria o outro lado da história. Para o prego, o martelo é
um patrão bruto e implacável - um inimigo que adora dominar pela força. Essa é
a visão que o prego tem do martelo. É correta, exceto por um detalhe.
O prego se esquece de que tanto ele como o
martelo são dominados pelo mesmo operário. O operário decide que
"cabeça" deverá ser martelada... e que martelo será usado para fazer
o trabalho.
Essa decisão depende da soberania do
carpinteiro. Deixemos o prego de lado, mas sempre nos lembrando de que ele e o
martelo são dominados pelo mesmo operário e que seu ressentimento vai
desaparecendo à medida que ele se rende ao carpinteiro sem queixar-se. A mesma
analogia se aplica ao metal que suporta o desgaste da lima e o calor da
fornalha. Se o metal esquecer-se de que ele e as ferramentas são objetos dos
cuidados do mesmo artesão, isso aumentará o ódio e o ressentimento. O metal
deve ter em mente que o artesão sabe o que está fazendo... e que faz o que é
melhor.
As mágoas e as decepções são semelhantes ao
martelo, à lima e à fornalha. Apresentam-se de todas as formas e tamanhos: um
romance rompido, uma enfermidade prolongada que leva à morte prematura, um
objetivo não alcançado na vida, um lar ou casamento desfeito, uma amizade
desfeita, uma criança desobediente e rebelde, um diagnóstico médico
aconselhando "cirurgia imediata", uma repetição de ano no colégio,
uma depressão que não desaparece, um hábito que não podemos dominar. Às vezes,
as mágoas surgem inesperadamente... outras vezes, surgem depois de muitos
meses, minando lentamente como se corroessem a terra.
Será que estou me dirigindo a um
"prego" que começou a ressentir-se dos golpes do martelo? Você está à
beira do desespero, pensando que não tem condições de suportar mais um dia de
mágoas? É isso que o abate? Por mais
dificuldade que você tenha em acreditar nisso hoje, o Mestre sabe o que está
fazendo. Seu Salvador conhece até onde você pode chegar. Os golpes, os
desgastes e os pontos de fusão existem para remodelá-Io, não para destruí-lo.
Seu valor aumenta cada vez mais quando Ele passa longo tempo debruçado sobre
sua vida.
TRÊS HOMENS E UMA PONTE
Sandy Snavely
Aponte passou a ser uma espécie de boa amiga
para mim. Quando comecei a atravessá-Ia todas as manhãs a caminho do trabalho,
ela era o sinal de que minha longa viagem estava quase no fim. Porém, depois de
algum tempo, comecei a observar as pessoas que a atravessavam a pé. A Ponte de
Ross Island é uma das poucas de Portland que permite o trânsito de pedestres e
de veículos. Havia um jovem negro por quem eu passava quase todas as manhãs.
Seu rosto inteligente e bonito demonstrava determinação e motivação. Comecei a
orar por ele, por seu dia e por sua vida.
Quando não o via na ponte, eu me preocupava.
Agora, ele não passa mais por ali. Eu gostaria de saber onde ele está, como
está. Seria um estudante? Teria terminado o curso no colégio? Teria ficado
doente por ter enfrentado os dias frios e impiedosos do inverno? Ou teria
comprado um carro e passara a percorrer diariamente, como eu, aquele trecho
sobre quatro rodas?
Há também o homem idoso que, vez por outra, é
visto carregando uma enorme cruz de metal no ombro e um cartaz nas costas onde
se lê: "Jesus salva o pecador do inferno". Sinto sempre um nó no
estômago quando o vejo. Ele não é uma pessoa por quem eu possa orar com tanta
facilidade como oro por meu jovem amigo negro.
Talvez porque minha fé não seja tão ousada
quanto a dele. Talvez porque a cruz que ele carrega, embora aparentemente
grande e pesada, seja transportada com a ajuda de um carrinho com rodas.
Existe alguma coisa naquela cena que me deixa
perturbada.
Mas a imagem que está gravada mais fundo em
minha memória é a de um homem sem teto e seu cão. O homem estava com a barba
por fazer e os cabelos desgrenhados. Usava uma
velha jaqueta de camuflagem do exército, calça e botas militares. Seus cabelos
eram compridos e ainda não tinham tons grisalhos de velhice. Sua mochila era
muito pesada, forçando seus ombros para a frente. Embora a cena fosse comum
naquele local, cheguei à conclusão de que era o cão que transmitia tanto amor a
ela. Era um cão Labrador preto, grande, velho e visivelmente leal. Também
carregava uma mochila. A mochila tinha bolsos, cujos pesos eram distribuídos proporcionalmente
de cada lado do corpo. O homem e seu cão deixavam transparecer uma imagem
comovente de verdadeira amizade. Quantas vezes em minha vida eu desejei que
meus fardos fossem carregados de maneira tão carinhosa.
Meu jovem amigo negro me fez pensar em orar em
seu favor, porque ele era carente, espiritualmente falando. O senhor idoso com
a cruz ilustrou de modo cruel a necessidade de bondade e de autenticidade
quando falo de minha fé. Mas foi o homem sem-teto e seu cão que me fizeram
lembrar do profundo anseio que cada alma sente, do grito de cada coração: ter
alguém ao nosso lado cujo amor seja tão incondicional e tão desinteressado que
se recuse a censurar ou julgar os "comos" e os "porquês" da
carga, mas que nos acompanhe e nos ajude a carregar nosso fardo. Existe um
enorme privilégio tanto em se ter uma carga para carregar como em ser o
carregador da carga, tanto em necessitar de ajuda como em prestar ajuda.
Em minha caminhada pela vida, sei que haverá
muitas pontes para eu atravessar. Quer seja tentando prosseguir, quer lutando
ao lado de um amigo para chegar ao outro lado, vou guardar em meu coração as
preciosas lições que aprendi com os três homens e a ponte.
INCRÍVEL
David Jeremiah
Aconteceu por volta das 12 horas do Dia das
Mães. De acordo com uma notícia divulgada em todo o país, Michael Murray, de 27
anos, resolveu levar seus dois filhos ao hospital de Massachusetts, onde a mãe
deles estava trabalhando como enfermeira no centro cirúrgico. A família queria
levar um presente do Dia das Mães para ela: um colar de ouro com a inscrição
"Mãe Número Um" e uma rosa. Depois de cumprirem a missão, o pai e os
dois filhos retornaram à garagem interna e escura para pegar o carro.
Murray pôs Matthew, de três meses, no assento
de bebê, colocou-o em cima do teto solar do carro e dirigiu a atenção à
irmãzinha de Matthew, de 21 meses, para prender o cinto de segurança ao redor
dela. Distraído, Murray sentou-se no banco do motorista e deu partida,
esquecendo-se de Matthew no teto do carro.
Saindo lentamente da garagem escura, Murray
dirigiu o carro pelas ruas movimentadas em direção à rodovia interestadual 290.
Apesar do trânsito pesado, ninguém buzinou nem
chamou-lhe a atenção para dizer que havia alguma coisa errada. Ao entrar na via
expressa que corta a cidade, Murray acelerou até atingir a velocidade de 80
km/h. De repente, ele ouviu um barulho no teto. Foi quando o assento de bebê,
com Matthew amarrado nele, começou a escorregar. Ele conta:
- Olhei para o lugar no carro onde Matthew
deveria estar e depois para o espelho retrovisor. Vi meu filho escorregando em
direção à pista, preso ao assento de bebê. E foi ali que ele caiu. No meio da
pista, onde outros carros deveriam passar...
O assento de bebê voou do teto do carro, caiu
na pista e foi deslizando com quase a mesma velocidade dos veículos que vinham
no mesmo sentido. O dono de um antiquário chamado James Boothby, que vinha
atrás do carro de Murray, acompanhou o desenrolar de toda a cena. Viu o peque
nino Matthew voar do teto do carro e cair na pista.
Ele conta:
Vi uma coisa no ar. A princípio, pensei que
alguém tivesse atirado um objeto pela janela do carro. Em seguida, notei algo
parecido com uma boneca. Quando a boneca abriu a boca, eu me dei conta de que
era um bebê caído na pista. Ele deu um ou dois saltos sobre o asfalto, mas não
chegou a se inclinar. Simplesmente caiu na pista e deslizou um pouco. Pisei com
força no freio e atravessei o carro na estrada para que nenhum outro veículo
conseguisse passar. Saltei do carro, corri e avistei um bebê, sem nenhum arranhão,
preso ao assento. Peguei-o nos braços e entreguei-o a seu pai, que estava
petrificado.
Essa história verdadeira tem de ser creditada a
um milagre nota 10, que eu e você já conhecemos. Deus interveio naquela
situação para que não acontecesse uma incrível tragédia.
LUTAS
Recontada
por Alice Gray
Quando
ele era menino, adorava borboletas. Oh, não para capturá-las nem para colocá-las
em molduras, mas para admirar seus desenhos e hábitos.
Agora,
depois de adulto e tendo um filho recém-nascido, ele voltou a ficar fascinado
por um casulo encontrado à margem de um caminho no parque. Um ramo havia
despencado da árvore, e o casulo preso a ele caiu intacto ao chão.
Conforme
havia visto sua mãe fazer, o homem enrolou o casulo com extremo cuidado em um
lenço e o levou para casa. O casulo passou a morar temporariamente dentro de um
pote de conservas de boca larga com furos na tampa. Foi colocado sobre a
estante acima da lareira para poder ser
visto facilmente e
protegido do gato curioso da
família, que adoraria ver aquela
bolinha de fios de seda entre
suas patas.
O
homem observava o casulo com atenção. O interesse de sua esposa durou apenas
alguns minutos, mas ele continuou a examiná-lo. A princípio, quase
imperceptivelmente, o casulo movimentou-se. O homem aproximou-se mais um pouco
e viu que o casulo estremecia pela atividade que havia dentro dele. Nada mais
aconteceu. O casulo continuou grudado ao ramo e não havia nenhum sinal de asas.
De
repente, o estremecimento intensificou-se, fazendo o homem imaginar que a
borboleta morreria de tanto lutar para sair. Ele tirou a tampa do pote, pegou
uma espátula afiada na gaveta de sua escrivaninha e fez uma minúscula incisão
no lado do casulo.
Quase
que imediatamente, uma asa apareceu seguida da outra. A borboleta estava livre!
Ela
parecia feliz por estar livre e caminhou ao redor da boca do pote e pela beira
da estante sobre a lareira. Mas não voou. O homem imaginou que as asas
necessitassem de tempo para secar, mas o tempo passou e a borboleta não saiu do
lugar.
Preocupado,
o homem chamou um vizinho, professor de ciências no colégio. Contou-lhe que
havia encontrado o casulo e que o colocara no pote. Relatou a respeito do
estremecimento do casulo enquanto a borboleta tentava sair. Quando ele
descreveu a pequena incisão que fez no casulo, o professor o interrompeu:
-
Ah, então o motivo foi esse. A luta é que dá ·forças para a borboleta voar.
O
mesmo acontece conosco. Às vezes, são as lutas na vida que fortalecem nossa fé.
VOCÊ QUER SER CURADO?
Kay
Arthur
"Você
quer ser curado?" Superficialmente, parece uma pergunta tola! A princípio,
pensamos: "Quem não gostaria de ser
curado?".
Enquanto
faço essas perguntas, minha mente voa até um homem sentado diante de um dos
portões da Cidade Velha de Jerusalém. Recentemente, um homem sentado no chão
chamou-me a atenção, enquanto eu saía da Cidade Velha em direção ao tráfego
barulhento dos ônibus lotados de árabes até a porta, enquanto eu ouvia os sons
das buzinas dos impacientes motoristas de táxi, enquanto eu via o brilho do sol
desaparecendo em meio às ruas estreitas, muradas e apinhadas da Cidade Velha.
Ele ficava conversando alegremente com os outros colegas mendigos até aparecer
um turista. Naquela altura, a conversa
cessava, e ele levantava os olhos tristes em silêncio e estendia a mão pedindo
uma esmola. Com a outra mão, ele levantava a perna da calça para exibir uma
ferida aberta - uma ferida arroxeada, coberta de manchas brancas purulentas que
brilhavam ao sol.
Meu
coração de enfermeira me fez parar. Eu queria curvar-me e cobrir a ferida
aberta para protegê-la da poeira levantada pelos carros que passavam em velo c
id a d e pelo portão. Sua perna necessitava de cuidados.
A ferida deveria
ser lavada , medicada
e tratada por alguma pessoa de
sensibilidade. Se não recebesse cuidados, aumentaria de tamanho até alcançar o
osso, e talvez aquele homem perdesse a
perna!
Atraída
por suas súplicas, parei para examinar a perna e olhei dentro de seus olhos
tristes, mas minha amiga puxou-me gentilmente pelo braço, forçando-me a seguir nosso rumo. Eu era uma turista e não entendia nada dessas
coisas. No caminho, ela me contou que aquele homem não queria ser curado.
Ganhava a vida com aquela ferida. Uma pessoa que ficava sentada ali, em meio ao
pó e à sujeira de Jerusalém,
recebendo a piedade
das pessoas acompanhada de algumas moedas, não tinha
necessidade de enfrentar as responsabilidades como qualquer outro cidadão de
Israel.
Aquele
me digo ferido poderia ter sido curado. As portas do hospital estavam abertas
para ele e havia remédios para tratá-lo, mas o mendigo não queria sarar. Quando
me virei para trás com curiosidade, dirigi um último olhar a alguém que poderia
estar em condições melhores.
O
homem mencionado em João 5 estava enfermo havia 38 anos. Não sabemos por quanto
tempo ele ficou estendido ao lado do tanque de Betesda. Só sabemos que, quando
Jesus passou por ali e perguntou-lhe se ele queria ficar curado, o homem teve
de fazer uma escolha: continuar com a mesma vida ou aceitar ser curado.
Imagine,
querido leitor, se Jesus lhe perguntasse se você gostaria de ficar curado -
emocional, física e espiritualmente. O que você responderia?
HERANÇA
Sally J. Knower
A velha cadeira de balanço rangeu e estalou
quando Jenny a empurrou com a mão. As molas do assento haviam furado a almofada
de crina de cavalo e estavam à mostra. Apesar da iluminação fraca do sótão, ela
podia enxergar a madeira manchada e o verniz descascado. Ela arrastou aquela
relíquia até a escada e começou a descer com a cadeira, degrau por degrau,
equilibrando-se desajeitadamente por causa de seu ventre volumoso. Quando
chegou ao pé da escada, ela esticou os músculos das costas.
- Jenny Lester, o que você fez? Você não devia
ter descido a escada com essa cadeira - repreendeu Audrea Lester.
- Não se preocupe, eu estou bem, mãe Lester.
O bebê contorceu-se e chutou em sinal de
protesto. Sorrindo, ela passou a mão de leve na barriga para agradar aquele ser
rebelde lá dentro e disse a ele:
- Espere um pouco. Um dia, vou balançar você na
cadeira da vovó Lester.
Clara e Harry Lester compraram a cadeira de
balanço logo após o casamento, em 1889. Ela foi adquirida em uma loja de móveis
usados em Lincoln, Nebraska, e transportada de carroça até a fazenda do casal
nos arredores de Fairbury. Harry poliu a madeira.
Clara revestiu o encosto e o assento com
almofadas de crina de cavalo. Até as crianças nascerem, somente visitas
especiais, como o reverendo Jorganson, sentavam-se nela. Depois, Clara a
colocou entre o fogão de lenha e a mesa na cozinha, um cômodo da casa com
muitas utilidades.
Clara apossou-se da cadeira para embalar as
crianças. Ela as deixava ali balançando, enquanto mexia a panela para evitar
que o cozido queimasse. Entre o preparo de um pote de geleia em conserva e
outro, ela dava um empurrãozinho na cadeira, à qual as crianças ficavam presas
com uma toalha para que não caíssem.
Quando seu terceiro filho contraiu febre
escarlate e começou a delirar, ela arrastava a cadeira para todos os lugares
aonde ia.
Deus, se é verdade que estás aí, ela suplicava
em tom afrontoso, ajuda-me a cuidar deste pequenino. Quando ele ficou curado,
lágrimas de alívio molharam seu avental. Deus, acredito que tu és real.
Obrigada por ter teres salvado meu filho. Agora ele é teu, Senhor; e eu também.
A cadeira tornou-se seu altar e seu pódio. Ela se
sentava com as pernas cruzadas e inclinava o corpo em direção à lâmpada para
ler a Bíblia. Depois, colocava-a de frente para um dos cantos da sala a fim de
isolar-se para orar.
A cadeira acompanhava o ritmo das cantigas de
ninar e dos hinos de louvor. Acompanhava também as batidas de seu pé quando
Harry extraía uma música de sua concertina.
Clara remendava as meias de seus filhos e abria
vagens de feijão sentada na ampla almofada da cadeira de balanço. Quando os
netos nasceram, eles se balançavam nos braços da cadeira.
Sentada na cadeira, ela cativava sua
descendência contando histórias de aventuras verdadeiras, como aquela sobre o
dia em que o cão raivoso entrou correndo na fazenda sem morder ninguém, ou
sobre o tornado que arrancou as telhas da casa e ninguém ficou ferido. Contava
a história de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que sobreviveram depois de
ficarem dentro de uma fornalha ardente, e a história de Davi, quando ele matou
Golias.
A cadeira foi colocada perto do leito de Harry,
enquanto ele lutava contra o câncer. Clara sentava-se atenta ao lado dele e
segurava-lhe a mão. Depois que ele morreu, ela levou a cadeira para perto do
fogão, perguntando a si mesma se um dia voltaria a sentir-se aquecida.
Os impostos aumentaram, mas o dinheiro não. Os
recursos de Clara começaram a diminuir. A fazenda precisava ser vendida. Ela
sentou-se na cadeira, balançando para a frente e para trás, enquanto as peças,
os equipamentos e os móveis eram leiloados. Cada objeto que ia embora parecia
uma parte dela que estava sendo arrancada.
Clara ficou apenas com a cadeira. Levou-a
consigo quando foi morar com o filho mais novo, Robert, e sua esposa, Audrea.
Audrea abriu espaço para colocar a cadeira. Não
combinava com a mobília francesa provençal da casa da cidade. Ela acolheu a
sogra, mas Clara sentia-se desconfortável, como se fosse um grão de milho
dentro de um sapato domingueiro.
Foi, então, que Jimmy nasceu. O último neto a
ser embalado nos seus braços e a puxar seus cabelos. À medida que ele crescia,
ela encolhia. A baixa oxigenação no cérebro apagou, aos poucos, sua memória.
Ela só se lembrava de Deus e de sua cadeira. Ruídos estranhos - motores de
carro, buzinas e brecadas bruscas interrompiam-lhe o sono. Clara passava horas
agitadas, embrulhada em um cobertor, orando e desejando voltar para casa.
Após sua morte, a velha e desgastada cadeira
foi deixada no quarto de Jimmy. Ele adorou a ideia. Usava-a para caçar tigres.
Usava-a como charrete puxada por cavalos. Fazia
os deveres de casa sentado nela, ao mesmo tempo em que ouvia o som barulhento
de seu rádio. Ali, ele sonhava e planejava seu futuro.
A cadeira começou a estalar sob o peso de um
menino que se transformou em homem.
Quando ele foi para a faculdade, seu velho
quarto ficou destinado a hóspedes e servia como sala de leitura. A cadeira de
balanço sumiu.
Uma colega com o rosto cheio de sardas chamou a
atenção de Jimmy, e ele tornou-se seu namorado quando estava no último ano.
Os dois se casaram. Jenny trabalhava enquanto
ele frequentava o seminário. Recebeu o primeiro convite para ser pastor de uma
igreja na mesma época em que ia ser pai.
O primeiro filho do casal começou a crescer no
ventre de Jenny.
- Eu gostaria de ter conservado a cadeira de
minha avó - disse Jimmy, acariciando o ventre de Jenny. - Você poderia embalar
nosso filho nela.
- Ou nossa filha - contra-argumentou Jenny.
- A velha cadeira de balanço era especial.
Fiquei muito orgulhoso quando ganhei aquela cadeira. Eu gostaria de saber onde
ela está agora.
- Mãe Lester - perguntou Jenny na primeira
ocasião em que viu a sogra depois daquela conversa com o marido. - O que foi
feito da cadeira de balanço que Jimmy tinha no quarto dele?
- Está no sótão - respondeu Audrea.
- Eu gostaria de vê-la. Tive uma ideia.
- Vou mostrá-Ia a você. Está mal conservada.
Você vai ver que o enchimento está saindo para fora da capa da almofada e a
madeira está manchada - disse Audrea assim que acendeu a luz do sótão.
Jenny passou a mão pelo encosto da cadeira.
- As manchas não são tão fortes. Acrescentaram
um toque especial à cadeira. Vai dar um pouco de trabalho, mas acho que ela
pode ser restaurada. Posso tentar? Eu gostaria de fazer uma surpresa a Jimmy.
Seria um ótimo presente de aniversário.
- Você pode fazer o que quiser com ela. Pode
até trabalhar nela no antigo quarto de Jimmy.
Enquanto mãe Lester arrumava o quarto de
visitas, Jenny desceu a escada com a cadeira. Estava ansiosa demais para
iniciar o trabalho.
A linda cor de carvalho reapareceu depois que Jenny
lixou cuidadosamente a antiga superfície. A madeira brilhou sob a nova camada
de verniz. Jenny prendeu as molas no lugar. Ficaram escondidas debaixo de uma
nova capa.
No dia da festa de aniversário de Jimmy, Jenny
passou uma fita ao redor do espaldar da cadeira, como se fosse a faixa de
"Miss América".
- Que arte você está aprontando, Jenny Lester?
- perguntou Jimmy quando ela o conduziu escada acima até seu antigo quarto.
- O seu sorriso diz tudo.
- Feche os olhos até eu abrir a porta. Melhor
ainda, cubra os olhos com as mãos. - Ele obedeceu sem pestanejar. - Não vale
espiar por entre os dedos!
- Você está parecendo uma criança feliz - disse
Jimmy, rindo. Tem certeza de que já está na idade deter um filho?
- Está bem - ela disse depois de tê-lo
posicionado em frente à cadeira. - Pode olhar. Feliz aniversário!
- A cadeira de balanço da vovó Lester! Oh,
querida, que maravilha! - ele exclamou enquanto passava a faixa de Miss América
ao redor do corpo de Jenny.
Naquela noite, em casa, Jimmy colocou a cadeira
ao lado da cama de casal e sentou-se nela com Jenny no colo.
- É melhor eu sair daqui - disse Jenny quando a
cadeira começou a ranger e a estalar. - Ela está reclamando.
- Não - disse Jimmy enquanto Jenny tentava
levantar-se. Você não vai a lugar nenhum. Ela não está reclamando. Está apenas
conversando conosco.
- Quer dizer que ela também fala? Parece que
tem vida própria - brincou Jenny.
- Ela representa uma herança - disse Jimmy. -
Quando nosso filho nascer, vou contar a ele sobre a herança de fé que começou
com a vovó Lester e atravessou quatro gerações para chegar até ele.
- Ou ela - contra-argumentou Jenny, sonolenta.
VELHICE - CHEGA MAIS CEDO DO QUE VOCÊ PENSA
Anônimo
Ela chega mais cedo do que você pensa - tudo
fica mais distante agora do que era antes.
A esquina ficou duas vezes mais longe - e, no
caminho, apareceu uma subida.
Observo que desisti de correr para pegar o
ônibus - agora, o ponto ficou mais distante.
Parece que estão construindo escadas com
degraus mais altos que antigamente, e você já notou como as letras dos jornais
diminuíram?
Parece um absurdo pedir que alguém fale mais
alto... todos falam tão baixo que mal consigo ouvi-los.
As roupas ficaram muito apertadas,
principalmente nos quadris.
É praticamente impossível amarrar meus sapatos.
As pessoas estão mudando parecem mais jovens do
que quando eu tinha a idade delas.
Por outro lado, as pessoas de minha idade estão
muito mais velhas do que eu.
Outro dia, encontrei uma antiga colega de
classe; ela estava tão velha que nem se lembrou de mim.
Eu me pus a pensar nessas coisas enquanto
penteava os cabelos hoje de manhã.
Olhei no espelho e não me reconheci. Já não
fazem mais espelhos como antigamente...
A ORQUESTRA
Judy Ursehel Straalsund
Havia uma cidade com uma orquestra. A Orquestra
tinha todos os tipos de instrumentos que você pode imaginar.
De banjos a gaitas de fole, de flautins a
pianos, de castanholas a cornetins.
Era uma honra e um privilégio fazer parte da
Orquestra, apesar de não haver nenhuma exigência para ingressar nela. O Maestro
havia convidado qualquer pessoa para participar, com uma condição: o contrato
era para o resto da vida. Alguns músicos recusaram-se a fazer parte por temer
que um contrato dessa natureza pudesse sufocar sua criatividade artística.
Outros se preocuparam imaginando o que aconteceria se não gostassem da música
que o Maestro escolhesse para eles tocarem.
O Maestro entregou a todos os seus músicos a
partitura de uma peça que Ele havia composto chamada Grand Finale e pediu-lhes
que a praticassem para tocá-Ia no Dia do Concerto. Cada setor da Orquestra
assumiu seu papel com seriedade e estudou sua parte com esmero. Mas os músicos
notaram que alguns setores da Orquestra estavam ensaiando a peça de maneira
diferente.
- Vejam aqueles violinos - queixou-se o setor
dos pistons. - Não existe harmonia nem motivo para eles tocarem daquela
maneira.
Cada vez eles tocam diferente. Por que eles não
fazem como nós, praticando as escalas e os estudos? Eles nem conhecem os
princípios musicais básicos!
- Vou dizer uma coisa - resmungou um dos violinistas
ao observar o ensaio dos pistons. - É difícil de acreditar que eles sempre
fazem a mesma coisa. Deve ser cansativo demais! Por que eles não fazem como
nós, permitindo que a alegria da música os conduza?
- Vocês acreditam nisso? - disse um dos
percussionistas, com um suspiro. - Os fagotistas ficam o tempo todo naquela
sala de estudos abafada e, depois, voltam para casa. Eles não têm experiência
em tocar para outras pessoas. Ficaram parados no tempo.
- Chegamos até a duvidar de que eles assinaram
o contrato disseram os fagotistas. - Aqueles percussionistas são muito
ocupados.
Saem todas as noites e frequentam os piores
lugares possíveis.
Devem ter pouco tempo para praticar.
Certo dia, os músicos tiveram a oportunidade de
se reunir.
A conversa, é claro, girou em torno da maneira
como cada um interpretava a partitura.
- É uma marcha de vitória - disse o
trompetista, com convicção.
- Deve ser tocada com ar solene e triunfal.
- Não, não - afirmou o harpista. - É uma canção
de amor... doce, alegre e terna.
- Que loucura! - interrompeu o clarinetista. -
É um hino... para ser tocado com reverência e adoração.
Embora cada setor tivesse ensaiado várias vezes
separadamente, os músicos não chegaram a um acordo na hora do ensaio geral.
Ninguém sabia como a peça ficaria no conjunto.
E eles discordaram de maneira tão violenta sobre o momento e as condições da
execução que acharam melhor não continuar a discutir o assunto.
A cidade ainda tem sua orquestra. Os grupos de
músicos continuam a ensaiar. Mas aqueles que os ouvem se perguntam:
Estarão eles prontos para tocar juntos quando o
Maestro levantar a batuta no Dia do Concerto?
RENDA-SE!
Billy Graham
Certo dia, enquanto brincava com um vaso muito valioso, um garotinho
colocou a mão dentro dele e não conseguiu tirá-Ia.
Seu pai tentou ajudá-lo, mas não obteve êxito. Eles já estavam pensando em
quebrar o vaso quando o pai disse:
- Vamos, meu filho, faça mais uma tentativa. Abra a mão, estique os dedos
da maneira como estou fazendo e puxe-a com força.
Para sua surpresa, o garotinho disse:
- Não posso, papai. Se eu esticar os dedos, minha moeda vai cair dentro do
vaso.
Sorria, se você quiser... quase todos nós somos iguais a esse garotinho,
tão apegados às pequenas coisas do mundo que não podemos aceitar a libertação.
Renda-se! Solte-a e permita que Deus conduza a sua vida.
DESGOVERNADOS
Cliff Schimmels
Em uma manhã de inverno, um ano antes de eu
ingressar na escola, meu pai me convidou para ajudá-lo a alimentar as vacas.
Achei que seria divertido. Vesti roupas grossas, calcei minhas luvas de couro
amarradas por cordões, e saí com meu pai para assumir meu lugar no mundo do
trabalho.
Era uma manhã agradável. Apesar do frio, o sol
brilhava com intensidade, e o chão estava coberto com uma camada de neve.
Arreamos a dupla Babe e Blue e subimos a
montanha com uma carroça cheia de feno. Quando encontramos as vacas,
descarregamos o feno e iniciamos o caminho de volta para casa. De repente, meu
pai teve uma ideia:
- Você gostaria de dirigir a carroça? - ele
perguntou.
Eu respondi de maneira tipicamente machista.
Gosto de dirigir qualquer coisa: carros, caminhões, carrinhos de golfe ou
carroças puxadas por burros. Penso que isso me dá poder. Há uma sensação muito
grande de poder quando estou no controle de alguma coisa maior do que eu, e
isso faz bem ao meu ego masculino.
Peguei as rédeas, prendi-as nas mãos conforme
meu pai me mostrou, e seguimos lentamente para casa. Piquei emocionado.
Estava no controle. Estava dirigindo. Mas a
caminhada lenta deixou-me entediado. Decidi que, enquanto eu estivesse no
controle, devíamos acelerar mais. Aticei os cavalos, e eles começaram a correr.
A princípio, eles trotaram, e eu achei que o ritmo estava bom. Chegaríamos mais
rápido em casa. Mas Babe e Blue tiveram outra ideia. Decidiram que, se
corressem, chegaríamos mais rápido ainda.
Os cavalos puseram em prática sua ideia e
começaram a correr.
De acordo com o que me lembro, eles estavam
correndo rápido demais, como cavalos no hipódromo, porém essa observação deve
conter um certo grau de exagero. Mas eles estavam correndo. A carroça
sacolejava ao cruzar a esburacada estrada de terra. Quando passamos voando
pelas campinas, concluí que estávamos em perigo e comecei a fazer o melhor que
podia para reduzir a velocidade daqueles cavalos desgovernados. Puxei as rédeas
com tanta força que cheguei a sentir cãibras nas mãos. Gritei e supliquei, mas
de nada adiantou. Babe e Blue continuavam a correr.
Olhei de relance para meu pai e vi que ele
estava sentado calmamente, olhando a pastagem e observando o mundo passar por
ele. Naquela altura, eu estava apavorado. As rédeas cortavam minhas mãos, e
lágrimas corriam por meu rosto quase congelado por causa do frio. E meu pai
continuava tranquilo, observando o mundo passar por ele.
Finalmente, no auge do desespero, eu me virei e
disse a ele da maneira mais calma que consegui:
- Pegue as rédeas, papai, não dirigir.
Agora que sou mais velho e as crianças me
chamam de vovô, eu me lembro daquela cena pelo menos uma vez por dia.
Independentemente de quem somos, da idade que temos, de nossa experiência ou
influência, existe sempre aquele momento em que nossa única reação é nos
virarmos para o Pai e dizer:
- Pegue as rédeas, não quero mais dirigir.
SIGNIFICATIVO
Joni Eareckson Toda
Todas as manhãs, Connie abre a porta do quarto
de Diane e começa a longa rotina de exercitar sua amiga paralítica e de dar
banho nela.
Os raios de sol atravessam as persianas,
inundando o quarto com seu brilho suave e dourado. As cobertas estão no mesmo
lugar desde que Connie as arrumou por cima de Diane na noite anterior. Apesar
disso, ela sabe que sua amiga já acordou.
- Você está pronta para levantar?
- Não... ainda não - soa a voz fraca debaixo
das cobertas.
Connie dá um longo suspiro, sorri e sai
fechando a porta.
A história se repete a cada manhã no
apartamento de Connie e Diane. t>- rotina raramente muda. Os raios de sol já
estão banhando a metade da manhã quando Diane está pronta para sentar-se em sua
cadeira de rodas. Aquelas longas horas na cama, porém, são significativas.
Em seu santuário silencioso, Diane vira
levemente a cabeça no travesseiro e olha para o painel de cortiça pendurado na
parede.
Seus olhos esquadrinham cada cartão pregado com
percevejo.
Cada fotografia. Cada pedaço de papel preso com
alfinete. O silêncio é quebrado quando Diane começa a murmurar.
Ela está orando.
Algumas pessoas olham para Diane - rígida e
imóvel- e balançam a cabeça de um lado para o outro. Ela necessita que alguém
lhe dê comida, que alguém a conduza na cadeira de rodas. As limitações causadas
por esclerose múltipla aumentam a cada ano. Seus dedos estão curvos e imóveis.
Sua voz não passa de um sussurro. As pessoas olham para ela e dizem:
- Que situação. A vida dela não tem sentido.
Ela não pode fazer nada.
Mas Diane é uma mulher confiante, convencida de
que sua vida tem um significado. Suas orações intercessoras são importantes.
Ela move as montanhas que bloqueiam o caminho
dos missionários.
Ela ajuda a abrir os olhos das pessoas
espiritualmente cegas do sudeste da Ásia.
Ela afasta o reino das trevas que obscurece os becos
e ruas dos baderneiros da região leste de Los Angeles.
Ela ajuda mães sem-teto... mães ou pais
solteiros... crianças que sofrem maus-tratos... adolescentes sem esperanças...
meninos com deficiência física... e anciãos agonizantes ou esquecidos na casa
de repouso na rua onde ela mora.
Diane trabalha na linha de frente, levando
adiante o evangelho de Cristo, amparando as pessoas piedosas e fracas,
transmitindo entusiasmo a crentes em dúvida, dando força a outros guerreiros da
oração e amando seu Senhor e Salvador.
Essa mulher humilde e serena enxerga o seu
lugar no mundo; não interessa se outras pessoas não reconhecem sua Importância
no grande esquema das coisas. Ela é igual a Emily, personagem do livro Our Town
[Nossa Cidade], que indica seu endereço da seguinte forma:
Grovers Comer
New Hampshire
Estados Unidos da América
Hemisfério Ocidental
Planeta Terra
Sistema Solar
O Universo
Mente de Deus
Na mente de Deus... que é o lugar mais
significativo que você pode habitar, não importa se você trabalha sentada
diante de uma máquina de escrever, diante do volante de um ônibus, diante de
uma mesa em uma sala de aula, em uma cadeira perto da mesa da cozinha ou
deitada na cama e orando. Sua vida está oculta com Cristo.
Você enriquece a herança dele. Você é seu
embaixador. Nele, sua vida tem profundidade, significado e propósito, não
importa o que você faça.
Alguém disse: "O objetivo desta vida é
tornar-se a pessoa que Deus pode amar perfeitamente para satisfazer sua sede de
amor. Ser é mais importante que fazer. O cantor é mais importante que a canção.
Precisamos parar de fugir pelo alçapão, porque este é o nosso lugar." Oro
para que você descubra a importância que tem como filho ou filha do Rei. Talvez
você não seja capaz de entender o significado de cada acontecimento, mas saiba
que todo acontecimento é significativo. E você é importante.
A VOLTA PARA CASA
Recontada por Alice Gray
Um médico missionário passou 40 anos de sua vida
cuidando dos habitantes dos povoados primitivos da África. Um dia, ele decidiu
aposentar-se. Enviou um telegrama para sua terra natal dizendo que voltaria de
navio e informou a data e o horário da chegada.
Enquanto cruzava o Atlântico, ele fez uma
retrospectiva de todos aqueles anos que passou ajudando a curar o povo da
África, tanto física como espiritualmente. Em seguida, seus pensamentos
passaram a girar em torno da grande recepção que o aguardava nos Estados
Unidos, depois de 40 anos de ausência.
Quando o navio atracou no porto, o coração
daquele homem encheu-se de orgulho quando ele viu a recepção que havia sido
preparada em sua homenagem. No meio de uma grande multidão, havia um enorme
cartaz com estes dizeres: "Bem-vindo de volta ao lar". Assim que ele
desceu do navio e pôs os pés no cais, aguardando uma enorme ovação, seu coração
ficou apertado. Imediatamente, ele se deu conta de que a multidão não se
reunira ali por sua causa, mas para prestar homenagem a um ator de cinema que viajara
no mesmo navio.
Depois de aguardar alguns instantes,
angustiado, o homem viu que não havia ninguém à sua espera. A multidão
dispersou-se, e ele ficou sozinho. Olhando em direção ao céu, ele proferiu
estas palavras:
- Oh, Deus, depois de ter dedicado todos estes
anos de minha vida para ajudar os necessitados, seria demais pedir que apenas
urna pessoa... urna única pessoa... estivesse aqui aguardando minha chegada?
Na quietude de seu coração, ele pareceu ouvir a
voz de Deus murmurar:
- Você ainda não voltou para casa. Quando você
voltar para mim, será bem-vindo.
MATEUS 19.29 NVI
EU PEDI
Anônimo
Eu
pedi força a Deus, para poder alcançar o que queria.
Ele
me fez fraco, para que eu aprendesse a obedecer...
Eu
pedi saúde,
para
poder realizar grandes coisas.
Recebi
doença,
para
que eu pudesse fazer coisas melhores...
Eu
pedi riquezas, para poder ser feliz.
Recebi
pobreza, para que eu pudesse ser sábio...
Eu
pedi poder, para receber elogios dos homens.
Recebi
fraqueza, para que pudesse sentir a necessidade de Deus...
Eu
pedi tudo,
para
poder desfrutar a vida.
Recebi
vida,
para
que eu pudesse desfrutar tudo...
Não
recebi nada do que pedi, mas recebi tudo o que esperava.
Apesar
de ser como sou, Minhas orações foram respondidas.
Sou,
dentre todas as pessoas, a mais ricamente abençoada!
PARA ONDE VOCÊ CORRE?
Kay Arthur
Um amigo meu conta um fato acontecido com seu
pai quando caçava cervos nas florestas do Oregon.
Carregando o rifle no braço, seu pai caminhava por
uma velha estrada que havia sido invadida pelas árvores da floresta. A noite
aproximava-se, e ele estava pensando em retornar ao acampamento, quando ouviu
um barulho em um arbusto. Antes que ele tivesse tempo de apontar o rifle. um
vulto marrom e branco apareceu na trilha bem à sua frente.
Meu amigo ri muito quando conta esta história.
- Tudo aconteceu tão rápido que meu pai não
teve tempo de pensar. Olhou para baixo e lá estava um pequeno coelho selvagem
marrom, cansado demais, enroscado em suas pernas, entre as botas. O corpo
inteiro do animalzinho tremia, mas ele continuou ali. sem se mexer.
- Foi um fato muito estranho. Os coelhos
selvagens têm medo de gente, e é difícil alguém vê-los... e muito menos assim,
agarrado nos pés...
- Enquanto papai se refazia do susto, outro
personagem entrou em cena. Mais adiante na estrada. Talvez a uns 200 metros,
uma doninha saiu inesperadamente do meio do arbusto. Ao ver meu pai e sua presa
enroscada em suas pernas, ela parou apoiada nas patas traseiras, ofegante,
olhos vermelhos brilhando.
- Foi então que meu pai compreendeu que estava
presenciando um pequeno drama de vida ou morte na floresta. O coelho selvagem,
exausto pela perseguição, estava apenas a alguns instantes da morte.
Meu pai era sua última esperança de refúgio.
Esquecendo-se de seu medo e cautela naturais, o animalzinho enroscou-se
instintivamente nele para proteger-se dos dentes afiados do inimigo implacável.
O pai de meu amigo não decepcionou o coelho.
Apontou o rifle e atirou no chão, bem perto da doninha. O animal deu um salto
de mais de meio metro no ar e correu em direção à floresta o mais rápido que
pôde.
O coelho continuou imóvel por alguns instantes,
enroscado nas pernas do pai de meu amigo enquanto o céu escurecia. O homem
dirigiu-se carinhosamente ao coelho:
- Para onde ela foi, criaturinha? Acho que ela
não vai aborrecer você por uns tempos. Parece que levou um grande susto hoje.
O coelho afastou-se correndo de seu protetor
rumo à floresta.
Para onde. amado leitor. você corre em tempos
de necessidade? Para onde você corre quando os predadores dos problemas, das
preocupações e do medo o perseguem?
Onde você se esconde quando seu passado o
persegue como um lobo implacável, querendo destruí-lo?
Onde você busca proteção quando as doninhas da
tentação, da corrupção e do mal ameaçam subjugá-lo?
A quem você recorre quando sua energia está
exaurida... quando a fraqueza mina seu corpo e você não consegue mais fugir?
Você recorre a seu Protetor, àquele que
permanece de braços abertos, aguardando sua chegada para que você usufrua toda
a segurança que Ele pode dar?
O MALABARISTA
Billy Graham Recontada por Alice Gray
Ele nasceu na Itália e veio para os Estados Unidos,
ainda jovem. Aprendeu malabarismo e tornou-se famoso no mundo inteiro.
Finalmente, resolveu aposentar-se. Queria
retornar a seu país natal e fixar residência lá. Vendeu todas as suas
propriedades, comprou uma passagem de navio para a Itália, investiu o resto do
dinheiro em um único diamante e escondeu-o em sua cabina do navio.
Durante a viagem, ele mostrou a um menino como
fazer malabarismo com maçãs. Em breve, havia um grupo de pessoas ao redor dele.
O orgulho do momento subiu-lhe à cabeça. Ele correu até sua cabina e pegou o
diamante. Explicou ao grupo que aquela pedra representava uma vida inteira de
economias e começou a fazer malabarismo com ela, com movimentos cada vez mais
ousados.
Em um determinado ponto, ele atirou o diamante
muito alto, e as pessoas prenderam a respiração. Conhecendo o valor do
diamante, elas pediram-lhe que não repetisse a façanha. Levado pela euforia do
momento, ele o atirou mais alto ainda. Novamente, as pessoas prenderam a
respiração e suspiraram de alívio quando ele conseguiu pegá-lo.
Tendo total confiança em si mesmo e em sua
habilidade, o malabarista disse às pessoas que atiraria o diamante para cima
mais uma vez e tão alto que a pedra desapareceria da visão de todos por alguns
instantes. Novamente, as pessoas pediram-lhe que não repetisse a façanha.
Cheio de confiança depois de tantos anos de
experiência, ele atirou o diamante para o alto. A pedra desapareceu por alguns
instantes. Em seguida, reapareceu brilhando à luz do sol. Naquele exato
momento, o navio balançou e o diamante caiu no mar, perdendo-se para sempre.
Todos nós ficamos muito tristes por aquele
homem ter perdido seus bens materiais. Mas Deus considera a nossa alma muito
mais valiosa que todas as riquezas do mundo.
Assim como o homem dessa história, a maioria de
nós faz malabarismo com sua alma. Confiamos em nós mesmos, em nossa habilidade
e em nossa experiência. Existem pessoas a nosso redor implorando para não nos
arriscarmos, porque elas reconhecem o valor de nossa alma.
Mas continuamos a fazer malabarismos mais uma
vez, sem jamais saber quando o navio vai balançar, levando nossa chance embora
para sempre.
UMA VIDA SOLITÁRIA
AUTOR DESCONHECIDO
Ele nasceu em um vilarejo humilde, filho de uma
camponesa.
Cresceu em outro vilarejo humilde, onde
trabalhou em uma carpintaria até completar 30 anos. Depois disso, passou três
anos como pregador itinerante.
Nunca escreveu um livro.
Nunca dirigiu um escritório.
Nunca teve família nem casa própria.
Não frequentou a faculdade.
Nunca viajou para lugares além de 300
quilômetros de distância do local onde nasceu.
Não realizou nada que pudesse ter sido
relacionado a grandeza.
Não teve nenhuma credencial, a não ser sua
presença.
Tinha apenas 33 anos quando a opinião pública
se voltou contra ele. Seus amigos o abandonaram. Ele foi entregue a seus
inimigos e sofreu a humilhação de passar por um interrogatório. Foi pregado na
cruz entre dois ladrões.
Quando estava morrendo, seus executores
repartiram entre si a sua roupa, a única coisa que ele possuía na Terra. Quando
morreu, foi enterrado em uma sepultura emprestada, graças à piedade de um
amigo.
Decorridos 19 séculos, Ele continua sendo a
figura central da raça humana, o líder do progresso da humanidade.
Todos os exércitos que já marcharam, todos os
navios que já navegaram, todos os parlamentos que já se reuniram, todos os reis
que já reinaram - todos juntos - não exerceram tanta influência sobre a vida
dos seres humanos como aquele que viveu Uma Vida Solitária.
CECIL B. DE
MILLE
Billy Graham
Cecil B. De Mille contou-me, certa vez, que seu
filme O Rei dos Reis, produzido na época do cinema mudo, foi visto por 800
milhões de pessoas, segundo seus cálculos. Perguntei por que ele não reproduziu
O Rei dos Reis com som e em cores.
Ele respondeu:
- Jamais serei capaz de fazer isso, porque, se
eu der a Jesus um sotaque sulino, os nortistas não o aceitarão como o seu
Cristo. Se eu lhe der um sotaque estrangeiro, os norte-americanos e os
britânicos não o aceitarão como o seu Cristo.
E ele complementou:
- Da maneira como Ele é apresentado no filme,
os povos de todas as nações, raças, credos e tribos o aceitam como o seu
Cristo.
LIÇÃO PRÁTICA
John MacArthur
Um pastor foi visitar um homem que não frequentava
assiduamente a igreja. Ele estava sentado diante de uma lareira, observando o
brilho dos carvões incandescentes. Era um dia frio de inverno, e a lareira
estava bem aquecida. O pastor pediu ao homem que frequentasse a igreja com mais
assiduidade para congregar-se com o povo de Deus.
Ao ver que seus pedidos pareciam não surtir
efeito, o pastor pegou as tenazes ao lado da lareira, afastou a tela e começou
a separar os carvões. Depois de constatar que todos estavam completamente
separados, ele parou diante da lareira e ficou em silêncio. Em questão de
minutos, os dois estavam gelados.
O homem entendeu a mensagem.
NO MOMENTO CERTO
Ron Mehl
Roger Simms tinha acabado de prestar o serviço
militar e estava ansioso por tirar a farda de uma vez por todas. Na volta para
casa, seguiu a pé pela estrada tentando conseguir uma carona, mas sua mochila
pesada era um empecilho a mais para que alguém parasse. Ao fazer um sinal com o
polegar para um carro que passava, ele perdeu as esperanças ao ver que se
tratava de um carro preto, reluzente e caro, tão novo que tinha uma licença
provisória colada no vidro traseiro... um tipo de carro cujo dono di6cilmente pararia
para dar carona a alguém.
Porém, para sua surpresa, o motorista parou e
abriu a porta do lado do passageiro. Roger correu até o carro, colocou sua
mochila com cuidado no banco traseiro e sentou-se no banco de couro ao lado do
motorista. Foi saudado com um sorriso amistoso de um senhor distinto, de
cabelos grisalhos e pele bronzeada.
- Oi, filho. Você está de folga ou voltando
definitivamente para casa?
- Acabei de servir ao exército e estou voltando
para casa pela primeira vez depois de muito tempo - respondeu Roger.
- Você tem sorte se estiver indo para Chicago -
disse o homem sorrindo.
- Não vou para tão longe assim, mas minha casa
6ca no caminho.
O senhor mora lá?
- Meu nome é Hanover. Sim, dirijo um negócio em
Chicago.
Dito isso, eles seguiram viagem.
Depois de cada um ter contado resumidamente a história
de sua vida e conversado sobre tudo o que existe debaixo do sol, Roger (que era
cristão) sentiu um grande desejo de falar de Cristo ao Sr. Hanover. Mas a ideia
de dar um testemunho a um empresário mais velho e rico, que devia ter tudo o
que queria, era um tanto assustadora. Roger resolveu esquecer o assunto, mas,
quando se aproximou de seu destino, ele se deu conta de que seria agora ou
nunca.
- Sr. Hanover - Roger começou a dizer -, eu
gostaria de conversar com o senhor sobre uma coisa muito importante.
Roger prosseguiu falando da salvação até chegar
ao ponto de perguntar ao Sr. Hanover se ele gostaria de aceitar a Cristo como
seu Salvador. Para grande surpresa de Roger, o Sr. Hanover dirigiu-se para o
acostamento. Por um instante, Roger imaginou que seria atirado para fora do
carro. Em seguida, aconteceu um fato estranho e maravilhoso: o empresário
curvou a cabeça sobre o volante e começou a chorar, afirmando que desejava
aceitar a Cristo em seu coração. Agradeceu a Roger e disse:
- Essa foi a coisa mais maravilhosa que já me
aconteceu!
Em seguida, ele deixou Roger em casa e seguiu
viagem rumo a Chicago.
Passaram cinco anos. Roger Simms casou-se, teve
um filho e começou a dirigir um negócio próprio. Certo dia, enquanto arrumava a
mala para fazer uma viagem de negócios a Chicago, ele encontrou, por acaso, o
pequeno cartão de visitas, com letras douradas, que o Sr. Hanover lhe dera anos
antes.
Quando chegou a Chicago, Roger procurou as
Empresas Hanover na lista telefônica. Localizava-se no centro da cidade em um
edifício comercial muito alto e de fina aparência. A recepcionista lhe disse
que seria impossível ver o Sr. Hanover, mas, como Roger era um velho amigo,
poderia conversar com a Sra. Hanover. Um pouco desapontado, ele foi conduzido a
um elegante escritório onde havia uma senhora de uns 50 anos sentada diante de
uma enorme mesa de carvalho.
Ela estendeu-lhe a mão.
- Você conheceu meu marido?
Roger contou que o Sr. Hanover havia sido muito
bondoso ao lhe dar uma carona até sua casa.
Um olhar de interesse passou pelo rosto da
mulher.
- Você saberia me dizer em que data isso
aconteceu?
- Claro - disse Roger. - Foi no dia 7 de maio,
cinco anos atrás, o dia em que fui dispensado do exército.
- E aconteceu alguma coisa especial durante a
viagem... uma coisa diferente?
Roger hesitou. Deveria mencionar o testemunho
que deu? Teria havido alguma discussão entre o casal, que resultou em separação
ou desquite? Porém, mais uma vez, ele sentiu o desejo de falar do Senhor.
- Sra. Hanover, seu marido aceitou a Cristo
naquele dia. Eu lhe falei sobre a mensagem do evangelho. Ele dirigiu o carro
para o acostamento e chorou. Em seguida, quis fazer a oração da salvação.
De repente, ela começou a chorar copiosamente.
Depois de alguns minutos, conseguiu recompor-se para explicar o que acontecera:
- Fui criada em um lar cristão, mas meu marido não. Orei pela salvação dele
durante muitos anos e acreditava que Deus o salvaria.
Mas, logo após você ter descido do carro, no
dia 7 de maio, ele morreu vítima de uma violenta colisão frontal. Não voltou
para casa.
Pensei que Deus não tivesse cumprido sua
promessa. Faz cinco anos que parei de viver para o Senhor, porque o culpava por
Ele não ter cumprido sua palavra.
Eu me identifico com a Sra. Hanover. Talvez
você também.
Existem longos e solitários períodos da vida em
que parece que Deus simplesmente se tornou indiferente aos nossos apelos ou que
está cansado e apático diante de nossas orações fervorosas.
A situação é semelhante à de alguém que vê um
presente sob uma árvore de Natal, muito bem embrulhado, misterioso e
inacessível. À medida que o tempo passa e as esperanças diminuem, começamos a
questionar se Deus tem realmente algum presente para nós.
Talvez você esteja aguardando muito tempo para
que ocorra uma transformação em sua vida. Talvez esteja aguardando uma mudança
em seu estado de saúde, em seus relacionamentos, em seu cônjuge, em seus
filhos, em seu trabalho, em suas finanças, em sua vida espiritual. E a
impressão é a de que a situação não vai mudar nunca. Parece que o Natal nunca
vai chegar. Parece que a luz nunca vai mudar. Parece que você pediu socorro ao
Senhor mais de mil vezes e ele nunca respondeu.
Maria e Marta conhecem muito bem esse assunto.
Elas viram seu irmão enfraquecer e definhar. Sua vida escapou-Ihes pelos dedos
como se fosse grãos finos de areia. Elas não puderam fazer nada, e o Senhor não
chegava.
Mas, de repente, Ele chegou. E já era tarde.
Mas não era tarde demais, porque o que Ele tinha em mente era muito maior que
os pensamentos, as esperanças e os sonhos que aquelas duas mulheres sequer
imaginaram pedir.
Foi uma Coisa Muito Boa embrulhada em uma Coisa
Muito Ruim.
E Ele próprio entregou a encomenda... no
momento certo.
Ele sempre faz isso.
O SALTO
Recontada por Tania Gray
Após um longo dia de trabalho em um cubículo, o
jovem só queria ir para casa relaxar e preparar-se para o expediente do dia
seguinte. Enquanto caminhava em direção ao elevador, ele ouviu gritos e avistou
uma coluna de fumaça negra e labaredas partindo do corredor. Ele foi tomado de
pânico, e uma sucessão de pensamentos passou-lhe pela mente: Eu estou no sexto
andar. Não vou conseguir descer. Vou morrer! O único local pelo qual ele
poderia fugir era o corredor, mas estava em chamas. Seria impossível passar por
ali. Enquanto os pensamentos passavam, velozes, por sua mente, ele ouviu a
sirene do carro de bombeiros e lembrou-se de que, naquele andar, o escritório
era todo rodeado de janelas altas. Tossindo, ele cambaleou até as janelas na
esperança de ser resgatado rapidamente.
Porém, quando olhou para baixo, não enxergou
nada por causa da cortina de fumaça que cobria a área. Através da fumaça e das
chamas, percebeu que havia uma multidão perto dos bombeiros que gritava:
- Salte! Salte!
Uma onda de medo tomou conta do jovem. Pelo
alto-falante, ele ouviu a voz de alguém, talvez de um dos bombeiros:
- Você só vai sobreviver se saltar. Não há
outro meio. Instalamos uma rede de segurança. Não tenha medo.
A multidão continuava a gritar. O jovem sabia
que não teria coragem de saltar sem conseguir enxergar a rede. Seus pés estavam
colados no chão. De repente, ele ouviu a voz de seu pai pelo alto-falante:
- Está tudo certo, filho. Pode saltar.
Quando aquela voz familiar chegou aos ouvidos
do jovem, o medo desapareceu. A confiança e o amor que havia entre pai e filho
deram-lhe coragem para saltar com segurança na rede.
Você confia tanto assim no amor de nosso Pai
celestial?
ENCONTRO MARCADO COM A MORTE
Recontada por Alice Gray
Há uma lenda antiga sobre um rico comerciante
de Bagdá que enviou seu criado ao mercado. Enquanto tentava abrir caminho em
meio à multidão, alguém o empurrou. Ao virar-se, ele viu uma mulher trajando
uma longa capa preta e a reconheceu como sendo a Morte. a criado voltou
correndo para casa do patrão e, com voz trêmula, relatou seu encontro com a
Morte, dizendo que ela o havia encarado e feito um gesto ameaçador.
O criado suplicou ao patrão que lhe emprestasse
um cavalo para que pudesse fugir para Samarra e esconder-se da Morte. O patrão
concordou, e o criado partiu a galope.
Mais tarde, o comerciante foi ao mercado e viu
a Morte rondando o local. a comerciante perguntou:
- Por que você fez um gesto ameaçador para meu
criado e o assustou?
- Eu não fiz nenhum gesto ameaçador - respondeu
a Morte. Apenas fiquei surpresa quando o encontrei em Bagdá, porque tenho um
encontro marcado com ele esta noite em Samarra!
A HISTÓRIA DAS MÃOS EM ORAÇÃO
Autor Desconhecido
Por volta de 1490, dois jovens amigos, Albrecht
Dürer e Franz Knigstein, queriam ser artistas, mas estavam enfrentando muitas
dificuldades. Por serem pobres, eles trabalhavam para sustentar-se, enquanto
aprendiam; pinta; quadros.
O trabalho tomava grande parte do tempo deles
e, por conseguinte, o progresso nos estudos era lento. Um dia, chegaram a um
acordo: tirariam a sorte, e aquele que perdesse trabalharia para sustentar os
estudos do outro. Albrecht foi o vencedor e continuou a estudar, enquanto Franz
trabalhava em um serviço pesado. Pelo acordo, quando Albrecht se tornasse
famoso, sustentaria Franz nos estudos.
Albrecht partiu para as cidades da Europa para
concluir os estudos. Hoje, o mundo todo sabe que ele não tinha apenas talento;
era um gênio. Quando ficou famoso, ele voltou para cumprir sua parte no acordo
com Franz. Logo a seguir, porém, Albrecht constatou o preço enorme que Franz
havia pago. Por ter trabalhado com as mãos executando tarefas pesadas para
sustentar o amigo, Franz ficou com os dedos rígidos e tortos. Suas mãos, antes
esguias e sensíveis, estavam arruinadas para sempre. Ele não podia mais realizar
as delicadas pinceladas necessárias para produzir uma bela pintura. Apesar de
não poder concretizar seus sonhos artísticos, ele não se tornou uma pessoa
amargurada. Ao contrário, alegrou-se com o sucesso do amigo.
Um dia, Dürer encontrou Franz casualmente e o
viu ajoelhado, com as mãos retorcidas em atitude de oração, suplicando
silenciosamente pelo sucesso do amigo, embora ele próprio não pudesse mais ser
um artista. Albrecht Dürer, o grande gênio, fez um esboço rápido das mãos de
seu fiel amigo e, mais tarde, completou a magnífica obra-prima conhecida como
As Mãos em Oração.
Hoje, as galerias de arte de todos os lugares
exibem as obras de Albrecht Dürer, e essa obra-prima em particular retrata uma
eloquente história de amor, sacrifício, trabalho e gratidão. Nela, os povos do
mundo inteiro também encontro conforto, coragem e força.
O SEGREDO DOS PRESENTES
Paul Flucke
A história de que Gaspar, Melquior e Baltazar
levaram presentes ao rei recém-nascido tem sido contada ao longo dos séculos.
Ah, você vai dizer, todos conhecem essa história. Eles levaram ouro, incenso e
mirra. É assim que a história é contada.
Mas ela está incompleta. Ouça o restante. Você
vai conhecer o segredo dos presentes.
Os que estavam mais próximos, viram o primeiro
dos três visitantes parar na porta: era Gaspar, um homem rico trajando uma bela
capa de veludo enfeitada com peles de excelente qualidade.
Antes de Gaspar parar ali, eles não podiam ver
que era o anjo Gabriel que guardava o lugar santo.
- Todos os que entrarem devem ter um presente
para oferecer – disse Gabriel a Gaspar. -Levantando com esforço a linda caixa
pesada, Gaspar disse:
- Eu trouxe barras do mais fino ouro.
- Seu presente - disse Gabriel - precisa ser
algo que faça parte de você, algo que seja precioso à sua alma.
- Foi exatamente o que eu trouxe - disse
Gaspar.
Porém, quando se ajoelhou para depositar o ouro
diante do bebê, ele parou e endireitou o corpo. Em sua mão não havia ouro, mas
sim um martelo. A cabeça grosseira e preta do martelo era maior que a mão de um
homem; seu cabo, de madeira robusta, tinha o comprimento do antebraço de um
homem. Gaspar começou a gaguejar, completamente aturdido, o anjo disse
suavemente:
- O que você tem nas mãos é o martelo de sua
ganância, usado para destruir a riqueza daqueles que trabalham arduamente para
você poder levar uma vida de ostentação e construir uma mansão para morar,
enquanto seus servos moram em choupanas.
Envergonhado, Gaspar abaixou a cabeça e fez
menção de partir.
Mas GabrieI impediu-lhe a passagem:
- Não, você não ofereceu seu presente.
- Um presente como este? - disse Gaspar,
horrorizado. - Ele não é digno de um rei!
- Foi por isso que você veio - disse Gabriel. -
Não pode levar o presente de volta. É pesado demais. Deixe-o aqui para que você
não seja destruído por ele.
- Mas como? Essa criança não tem condições de
levantá-Io do chão - protestou Gaspar.
- Ele é o único que pode - replicou o anjo.
Perto da porta, estava Melquior, o sábio que
tinha barba comprida e rugas na testa para evidenciar sua sabedoria. Ele também
parou diante da porta. - O que você trouxe? - perguntou Gabriel.
- Incenso, a fragrância das terras secretas e
dos tempos passados - respondeu Melquior.
- Seu presente - advertiu Gabriel - precisa ser
algo que seja precioso à sua alma.
Melquior ajoelhou-se reverentemente e pegou um
frasco de prata de dentro de seu manto. Mas o frasco em sua mão já não era de
prata. Era tosco e manchado, feito de argila comum. Atônito, ele tirou a tampa
do frasco e cheirou o conteúdo.
- É vinagre! - resmungou MeIquior.
- É disso que você é feito - disse Gabriel. -
Amargura. O vinho azedo se deteriorou por causa da inveja e do ódio que você
carrega dentro de si, lembranças de mágoas antigas, ressentimentos acumulados e
raiva latente. Você buscou sabedoria, mas encheu sua vida de veneno.
Melquior curvou os ombros, desviou o olhar e
tentou esconder o frasco de argila. Gabriel tocou o braço de Melquior:
- Espere, você precisa deixar seu presente
aqui.
Melquior deu um longo suspiro de sofrimento.
- Mas este é um presente desprezível - ele
protestou. - E se a criança levá-lo à boca?
- Você deve deixar essa preocupação a cargo do
céu - replicou Gabriel. - Lá, até o vinagre é útil.
O terceiro visitante apresentou-se: Baltazar,
líder de muitas legiões e flagelo de cidades muradas. Ele segurava uma caixa de
metal.
- Eu trouxe mirra - ele disse -, a recompensa
mais preciosa de minha conquista mais arrojada. Muitos lutaram e morreram por
causa disso, a essência da mais rara erva.
- E ela é a essência de sua vida? - perguntou
Gabriel.
O soldado inclinou-se para à frente, curvou a
cabeça até quase tocá-Ia no chão e apresentou seu presente. Mas o que ele
depositou aos pés do bebê era a sua lança.
- Não pode ser! - ele murmurou com voz rouca. -
Algum inimigo deve ter feito um feitiço. Isso é mais verdadeiro do que você
pensa - disse Gabriel. Mil inimigos fizeram feitiços contra você e
transformaram sua alma em uma lança. Vivendo apenas para vencer, você foi
vencido. Cada batalha que você ganha leva a outra, e assim por diante.
Baltazar pegou a lança e virou-se para sair.
- Não posso deixar isso aqui.
- Tem certeza? - perguntou Gabriel.
- Claro - murmurou o guerreiro. - Ele é um
bebê. A lança pode espetar sua carne.
- Você deve deixar esse medo a cargo do céu -
replicou Gabriel.
Existe outra história que conta que eles foram
vistos mais uma vez, anos depois, em uma colina solitária nos arredores de
Jerusalém.
Mas não se preocupe. Esse é um fardo que o céu
toma conta como só o céu pode fazer.
VENDENDO GADO
Howard Hendricks
Logo após ter sido fundado em 1924, o Seminário
[de Dallas] quase sucumbiu. Chegou ao ponto de decretar falência.
Todos os credores estavam prontos para
penhorá-Io às 12 horas de um determinado dia. Naquela manhã, os fundadores do
seminário reuniram-se na sala do presidente para suplicar a ajuda de Deus.
Harry Ironside estava presente naquela reunião
de oração. Quando chegou sua vez de orar, ele disse de maneira simples: Senhor,
sabemos que o gado daquelas inúmeras colinas é teu. Suplicamos que vendas
algumas cabeças e nos envies o dinheiro.
Naquele exato momento, um texano alto, usando
botas e camisa esporte, entrou no escritório do seminário.
- Olá! - ele disse à secretária. - Acabei de
vender dois vagões de gado em Fort Worth. Estou tentando fazer uma transação
comercial, mas não está dando certo. Acho que Deus deseja que eu dê este
dinheiro ao seminário. Não sei se vocês precisam dele ou não, mas aqui está o
cheque.
A secretária pegou o cheque e, sabendo que algum
assunto crítico estava sendo tratado, dirigiu-se à porta da sala da reunião de
oração e bateu timidamente. O Dr. Lewis Sperry Chafer, fundador e presidente do
seminário, abriu a porta e pegou o cheque da mão dela. Quando viu o valor,
constatou que era a soma exata da dívida.
Em seguida, reconheceu a assinatura no cheque.
Era do pecuarista.
Virando-se para o Dr. Ironside, ele disse:
- Harry, Deus vendeu o gado.
E SE EU ME CANSAR DE FICAR NO CÉU?
Larry Lihby
Se você está pensando que pode cansar-se ou
aborrecer-se de ficar no céu... não se preocupe! Tente imaginar uma coisa
comigo. Imagine que você é um passarinho que vive em uma pequenina gaiola feita
de metal enferrujado. Dentro da gaiola, há um pratinho de alimento, um espelho
pequeno e um minúsculo poleiro para você se balançar.
Um dia, uma pessoa bondosa pega sua gaiola e a
leva para uma floresta grande e linda. A floresta é banhada pelos raios do sol.
Árvores altas, imponentes, cobrem os montes e
vales até onde sua vista consegue alcançar. Há cascatas volumosas, amoreiras
cobertas de amoras maduras, árvores frutíferas, tapetes de flores silvestres e
um lindo e imenso céu azul para você voar. E, além de tudo isso, há milhões de
outros passarinhos...
pulando de galho em galho comendo tudo o que
gostam criando suas famílias cantando a plenos pulmões durante o dia inteiro.
E agora, passarinho? Você acha que vai querer
continuar dentro de sua gaiola? Acha que vai dizer: "Oh, por favor, não me
solte.
Vou sentir falta de minha gaiola. Vou sentir
falta de meu pratinho com sementes. Vou sentir falta de meu espelho de plástico
e de meu pequenino poleiro. Vou me cansar de ficar naquela enorme floresta.
" Seria uma tolice, não? Também é uma tolice pensar que não teremos nada
para fazer no céu!
O APLAUSO DO CÉU
Max Lucado
Em breve você estará em casa. Talvez ainda não
tenha notado, mas está cada vez mais perto de casa. Cada momento é um passo
dado. Cada respiração é uma página virada. Cada dia é um quilômetro percorrido,
uma montanha escalada. Você está mais perto de casa do que imagina.
Antes que você perceba, seu dia marcado
chegará; você descerá a rampa e entrará na Cidade. Verá rostos familiares aguardando
por você. Ouvirá seu nome ser proferido por aqueles que o amam.
E, talvez, digo talvez - no fundo, atrás da
multidão - Aquele que preferiu morrer a viver sem você retirará as mãos feridas
de dentro de seu manto celestial e... aplaudirá.
COMPAIXÃO
Charles Swindoll
Histórias Para o Coração 2 13
Uma menina, cuja amiguinha morrera, contou à
sua família que havia ido confortar a mãe enlutada.
- O que você disse? - perguntou o pai da
menina.
- Nada - ela respondeu. - Eu me sentei no colo
dela e chorei com ela.
EU QUERO AQUELE
Charles Stanley
Histórias Para o Coração 2 15
Li, certa vez, a história de um fazendeiro que
queria vender alguns cachorrinhos. Ele confeccionou uma placa, oferecendo os
animais, e pregou-a em um poste ao lado de seu jardim. Enquanto pregava a placa
no poste, alguém puxou seu casaco. Ele olhou para baixo e viu um garotinho
segurando alguma coisa e mostrando um largo sorriso no rosto.
- Senhor - ele disse -, quero comprar um desses
cachorrinhos.
- Bem - disse o fazendeiro -, esses
cachorrinhos são de uma raça especial e custam muito caro.
O menino abaixou a cabeça por alguns instantes.
Em seguida, olhou para o fazendeiro e disse:
- Tenho 39 centavos. Com esse dinheiro, posso
dar uma olhada?
- Claro - respondeu o fazendeiro. Ele assobiou
e chamou: - Dolly.
Aqui, Dolly.
Dolly saiu de sua casinha e desceu a rampa,
seguida por quatro bolinhas felpudas. Os olhos do menino brilharam de alegria.
Em seguida, saiu mais uma bolinha felpuda da
casinha, visivelmente bem menor que as outras. O cachorrinho desceu a rampa e
correu, mancando. o mais rápido que podia, tentando alcançar os outros. Era.
sem dúvida alguma. o menor da ninhada.
O garotinho encostou o rosto na cerca e gritou,
apontando para o menor:
- Eu quero aquele!
O fazendeiro abaixou-se e disse:
- Filho, você não deve querer aquele
cachorrinho. Ele nunca será capaz de correr e brincar como você gostaria.
Ao ouvir isso, o garotinho curvou-se e levantou
uma perna da calça, deixando à mostra um suporte de aço que passava pelos dois
lados de sua perna e se prendia a um sapato especial. Olhando para o
fazendeiro, ele disse:
- Veja, senhor, eu também não corro muito bem,
e ele vai necessitar de um amigo como eu.
ELE NECESSITAVA DE UM FILHO
Autor
Desconhecido
Histórias Para o Coração 2 17
A
enfermeira acompanhou um jovem cansado e ansioso até o leito de um senhor
idoso.
-
Seu filho está aqui - murmurou a enfermeira ao paciente.
Ela
teve de repetir as palavras várias vezes até o paciente abrir os olhos. Ele
havia recebido uma forte dose de sedativo, em razão de uma dor no peito causada
por um ataque cardíaco. Com a vista turva, ele viu o jovem em pé, perto do
balão de oxigênio.
O
paciente estendeu a mão, e o jovem apertou-a com força para transmitir-lhe uma
mensagem de ânimo. A enfermeira colocou uma cadeira ao lado do leito. O jovem
passou a noite toda segurando a mão do ancião e proferindo delicadas palavras
de esperança. O moribundo não disse nada, limitando-se a segurar com força a
mão do seu filho.
Quando
o dia começou a clarear, o paciente morreu. O jovem colocou a mão sem vida no
leito e saiu para avisar a enfermeira.
Enquanto
a enfermeira tomava as providências necessárias, o jovem permaneceu ali,
esperando. Ao terminar sua tarefa, a enfermeira virou-se para lhe dar os
pêsames. Mas ele a interrompeu:
-
Quem era aquele homem? - perguntou o jovem.
Perplexa,
a enfermeira replicou:
-
Pensei que fosse seu pai.
-
Não, ele não era meu pai. Nunca o vi em toda a minha vida.
-
Então por que você não me contou isso quando o levei até ele? perguntou a
enfermeira.
O
jovem respondeu:
-
Eu sabia que ele necessitava da companhia de seu filho, e seu filho não estava
aqui. Quando percebi que o seu estado era tão grave que ele não poderia saber
se eu era ou não o seu filho, compreendi quanto ele necessitava de mim.
PEQUENINA FLOR
James McCutcbeon
Histórias Para o Coração 2 19
Fiorello LaGuardia foi prefeito de Nova York na
pior época da Grande Depressão e durante toda a Segunda Guerra Mundial. Ele era
chamado pelos cidadãos apaixonados por Nova York de "Pequenina Flor",
porque tinha apenas 1,60m de altura e sempre usava uma flor vermelha na lapela.
LaGuardia era urna figura pitoresca, que costumava andar nos carros de
bombeiros da cidade, invadir botequins com a polícia, e levar um orfanato
inteiro a um jogo de beisebol. Quando os jornais de Nova York entravam em greve,
ele se dirigia a urna emissora de rádio e lia a seção recreativa da edição de
domingo para as crianças.
Numa noite muito fria, em janeiro de 1935, o
prefeito apareceu num tribunal noturno que atendia o bairro mais pobre da cidade.
Naquela noite, LaGuardia dispensou o juiz e assumiu o seu lugar. Após alguns
minutos, uma senhora vestida com trajes esfarrapados foi trazida diante dele,
acusada de ter roubado um filão de pão.
A senhora contou a LaGuardia que seu genro
abandonara o lar, deixando sua filha doente e seus dois netos passando fome.
Mas o padeiro de quem ela havia roubado o pão recusava-se a retirar a queixa.
- Eles são péssimos vizinhos, Excelência -
disse o homem ao prefeito. - Ela precisa ser punida para que isso sirva de
lição às outras pessoas da redondeza.
LaGuardia deu um longo suspiro. Virou-se para a
mulher e disse:
- Eu preciso punir a senhora. A lei não permite
exceções. Dez dólares ou dez dias na cadeia.
Enquanto pronunciava a sentença, o prefeito
enfiou a mão no bolso, retirou uma nota, atirou-a dentro de seu famoso
sombreiro e disse:
- Aqui estão os dez dólares da multa que eu
cancelo neste momento; e agora vou multar cada pessoa desta sala, em 50
centavos, por viver em uma cidade onde uma cidadã necessita roubar pão para dar
de comer a seus netos. Sr. Bailiff, faça a coleta das multas e entregue-as à
ré.
No dia seguinte, os jornais de Nova York
noticiaram que os US$47.50 arrecadados foram entregues à assustada senhora que
havia roubado um 6lão de pão para alimentar seus netos, sendo que 50 centavos
dessa quantia foram pagos pelo padeiro, que tinha o rosto ruborizado de
vergonha, enquanto cerca de 70 pessoas acusadas de pequenos delitos ou
violações das leis de trânsito e alguns policiais de Nova York, que se sentiram
privilegiados em contribuir com 50 centavos, levantavam-se para ovacionar o
prefeito.
UM ATO SIGNIFICATIVO
R. C.
Sproul
Histórias Para o Coração 2 21
Tive
um colega na faculdade, vítima de paralisia cerebral. Ele conseguia andar, mas
com grande dificuldade, porque suas pernas e braços movimentavam-se em todas as
direções, sem a coordenação motora que transforma a caminhada em uma tarefa
simples e normal. Suas palavras eram balbuciadas, lentas e pausadas, exigindo
grande atenção do ouvinte para entendê-Ias. Contudo, não havia nenhum problema
com sua mente. E sua personalidade vibrante, bem como seu sorriso espontâneo,
serviam de estímulo aos colegas de classe e a todos os que tinham contato com
ele.
Certo
dia, ele se aproximou de mim angustiado por causa de um problema, pedindo-me
que orasse em seu favor. Durante a oração, proferi algumas palavras rotineiras
como estas: Ó Senhor, ajuda este homem a vencer o seu problema. Quando abri os
olhos, meu colega estava chorando, em silêncio.
Perguntei-lhe
o que havia de errado, e ele respondeu, gaguejando:
-
Você me chamou de homem. Nunca ninguém me chamou de homem antes.
INFORMAÇÕES, POR FAVOR!
Paul Villiard
Histórias Para o Coração 2 22
Quando eu era criança, minha família era proprietária de um dos
primeiros telefones da vizinhança. Eu me lembro bem da lustrosa caixa de
carvalho instalada na parede embaixo da escada. O fone reluzente ficava
dependurado do lado da caixa. Lembro-me até do número: 105. Eu era pequeno
demais para alcançar o telefone, mas costumava ouvir, fascinado, quando minha
mãe o utilizava. Certa vez, ela me levantou para que eu pudesse falar com meu
pai, que estava viajando a negócios. Foi um momento mágico!
Depois, descobri que, em algum lugar dentro daquele aparelho
sensacional, morava uma pessoa maravilhosa. O nome dessa pessoa era
"Informações, por Favor! ", e não havia nada que ela não soubesse.
Minha mãe sempre recorria a ela para saber o número do telefone de
alguém; quando nosso relógio não funcionava, "Informações, por
Favor!" fornecia imediatamente a hora certa.
Minha primeira experiência pessoal com aquele "gênio da
caixa" ocorreu, certo dia, quando minha mãe se encontrava na casa de uma
vizinha. Enquanto eu brincava com a caixa de ferramentas no porão, dei uma
martelada no dedo. A dor foi terrível, mas de nada adiantava chorar porque não
havia ninguém em casa para me consolar. Caminhei pela casa chupando o dedo
machucado até chegar perto da escada. O telefone! Corri para pegar o banquinho
na sala de visitas e arrastei-o para perto do telefone. Subi no banquinho, tirei
o fone do gancho e encostei-o na orelha.
- Informações, por Favor! - eu disse, tentando alcançar o bocal,
um pouco acima de minha cabeça.
Após um clique ou dois, uma voz clara falou ao meu ouvido:
- Informações.
- Eu machuquei o dedo - choraminguei ao telefone.
Agora que eu tinha com quem falar, as lágrimas começaram a correr.
- Sua mãe não está em casa? - foi a pergunta.
- Não, estou sozinho - respondi por entre as lágrimas.
- Está saindo sangue?
- Não. Dei uma martelada no dedo e está doendo.
- Você sabe abrir a geladeira? - ela perguntou.
Respondi que sabia.
- Então, pegue um pedacinho de gelo e segure-o em cima do dedo.
Vai parar de doer. Mas tome cuidado com o gelo - ela me advertiu.E
não chore. Vai dar tudo certo.
Depois disso, passei a ligar para "Informações, por Favor!
", para conseguir qualquer coisa. Pedi ajuda para minhas lições de
geografia, e ela me disse onde ficava a cidade de Filadélfia e o Orinoco o
romântico rio que eu viria a explorar quando crescesse. Ela me ajudou na
aritmética e me contou que o esquilo - que eu pegara no parque no dia anterior
- comia frutas e nozes.
E chegou o dia em que Petey, nosso canarinho, morreu. Liguei para
"Informações, por Favor!" e lhe contei minha triste história.
Ela ouviu e repetiu aquelas palavras que os adultos costumam dizer
para consolar uma criança. Mas eu estava inconsolável: Por que os passarinhos,
que cantam tão bonito e alegram a família inteira, acabam se transformando em
um montinho de penas com os pés para cima no fundo de uma gaiola?
Ela deve ter percebido a intensidade de minha tristeza, porque
disse em voz baixa:
- Paul, lembre-se sempre de que existem outros mundos em que
podemos cantar.
Eu me senti melhor.
No dia seguinte, lá estava eu ao telefone.
- Informações - disse a voz que eu agora conhecia bem.
- Como se escreve "consertar"? - perguntei.
- No sentido de consertar alguma coisa? C-O-N-S-E-R-T-A-R.
Naquele momento, minha irmã, que tinha o péssimo hábito de me
assustar, saltou da escada em minha direção e gritou:
- Iaaaaaaa!
Eu caí do banquinho e arranquei, sem querer, o fone da caixa com
todos os fios. Minha irmã e eu ficamos aterrorizados. "Informações, por
Favor!" não respondia mais, e eu não sabia se a magoara por ter arrancado
o fone da caixa.
Minutos depois, apareceu um homem na varanda.
- Sou funcionário da companhia telefônica. Eu estava trabalhando
lá embaixo, nesta rua, e a telefonista me disse que deve haver algum problema
com este número de telefone. - Ele pegou o fone da minha mão e perguntou:
- O que aconteceu?
Eu lhe contei o que havia acontecido.
- Bem, podemos resolver esse problema em um minuto ou dois.
Ele abriu a caixa do telefone, deixando à mostra uma confusão de
fios e molas, e começou a mexer no fio principal do telefone, prendendo tudo
com uma pequena chave de fenda. Depois de levantar e abaixar o gancho algumas
vezes, ele falou ao telefone.
- Oi, aqui é Pete. Está tudo em ordem com o 105. A irmã do garoto
o assustou, e ele puxou os fios da caixa.
O homem desligou, sorriu, deu um tapinha em minha cabeça e
atravessou a porta.
Tudo isso aconteceu em uma cidadezinha a noroeste do Pacífico.
Quando eu tinha nove anos, mudamos para Boston - do outro lado do
país -e passei a sentir falta de minha mentora. "Informações, por
Favor!" pertencia àquela velha caixa de madeira da outra casa, e eu nunca
pensei em tentar procurá-Ia naquele novo e imponente telefone que ficava na
mesinha do hall.
Mesmo quando cheguei à adolescência, as lembranças daquelas
conversas dos tempos de infância nunca me abandonaram; em momentos de dúvidas e
dificuldades, eu me lembrava da voz serena que me transmitia segurança quando
eu ligava para "Informações, por Favor!" e obtinha a resposta certa.
Hoje eu entendo a paciência, a compreensão e a bondade daquela pessoa que
perdia o seu precioso tempo com um garotinho.
Alguns anos mais tarde, quando eu estava a caminho da faculdade,
no Oeste, meu avião pousou em Seattle. A conexão com o vôo seguinte levaria
cerca de meia hora. Passei 15 minutos ou mais ao telefone conversando com minha
irmã, que agora era uma senhora casada, mãe e se sentia feliz. Em seguida, sem
pensar no que estava fazendo, disquei para a telefonista de minha cidade natal
e disse:
- Informações, por Favor!
Como se fosse um milagre, ouvi novamente a voz clara e firme, que
eu conhecia tão bem:
- Informações.
Eu não tinha planejado nada, mas me ouvi dizendo:
- Por favor, poderia me informar como se escreve a palavra "
consertar"?
Depois de uma longa pausa, ouvi a voz delicada responder:
- Acho - disse "Informações, por Favor!" - que seu dedo
já deve estar curado.
Eu ri.
- Quer dizer que você continua aí. Acho que você não faz idéia do
significado que teve em minha vida durante todo aquele tempo...
- Acho - ela replicou - que você não sabe o significado que teve
em minha vida. Não tive filhos e ficava aguardando, ansiosa, suas ligações.
Bobagem, não?
Não era bobagem, mas eu não disse isso. Eu lhe contei que pensei
nela com muita freqüência durante aqueles anos e perguntei se poderia ligar
novamente quando voltasse a visitar minha irmã, depois do encerramento do
primeiro semestre.
- Por favor, ligue. Peça para falar com Sally.
- Até logo, Sally. - Parecia estranho que "Informações, por
Favor!" tivesse nome. - Se eu encontrar algum esquilo, vou dizer a ele
para comer frutas e nozes.
- Faça isso - ela disse. - E espero que num desses dias você vá
conhecer o Orinoco. Bem, até logo.
Três meses depois, eu estava de volta ao aeroporto de Seattle. Uma
voz diferente atendeu:
- Informações.
Pedi para falar com Sally.
- Você é amigo dela?
- Sim - respondi. - Um velho amigo.
- Lamento muito informar, mas Sally só trabalhava meio expediente
nos últimos anos porque estava muito doente. Ela morreu há cinco semanas.
Antes que eu tivesse tempo de desligar, ela continuou:
- Espere um momento. Você disse que seu nome é Villiard?
-Sim.
- Bem... Sally deixou um recado escrito para você.
- Que recado? - perguntei, quase adivinhando do que se tratava.
- Aqui está. É o seguinte: "Diga a ele que eu continuo a
achar que existem outros mundos em que podemos cantar. Ele vai entender."
Agradeci e desliguei. Eu entendi o que Sally quis dizer.
O DOM DE BEETHOVEN
Philip
Yancey
Histórias Para o Coração 2 27
Conta-se
que Beethoven era um homem tido como pouco sociável. Em razão de sua surdez,
ele considerava a conversa uma prática difícil e humilhante. Quando soube da
morte do filho de um amigo, Beethoven correu para a casa desse amigo, dominado
pelo sofrimento. Ele não tinha palavras de conforto para oferecer, mas viu um
piano na sala. Durante a meia hora que se seguiu, ele tocou piano, extravasando
suas emoções da maneira mais eloquente que podia.
Assim
que terminou, ele foi embora. Mais tarde, o amigo comentou que nenhuma outra
visita havia sido tão significativa para ele.
ABANDONADO
Autor
Desconhecido 1904
Histórias Para o Coração 2 29
O
menino estava sentado tão próximo à senhora de roupa cinza que todos tinham
certeza de que ele era alguém de sua família; por isso, quando,
inconscientemente, ele encostou seus sapatos enlameados na ampla saia da mulher
que estava à sua esquerda, ela virou-se para a senhora de cinza e disse:
-
Desculpe-me, maJa.me, mas a senhora poderia ter a bondade de ordenar a seu
filho que tenha modos? Ele está sujando minha saia com seus sapatos enlameados.
A
senhora de roupa cinza corou um pouco e empurrou levemente o menino.
-
Meu filho? - ela disse. - Por favor, ele não é meu filho.
O
menino demonstrou inquietação. Era tão peque nino que não podia encostar os pés
no chão. Então, esticou-os diante de si, como se fossem dois varais para
dependurar roupas, e olhou para eles com ar de culpa.
-
Sinto muito ter sujado sua roupa - ele disse à mulher à sua esquerda. - Espero
que seja fácil limpar.
-
Ah, não tem importância - ela disse. Ao ver os olhos do menino fixos nos dela,
complementou: - Você está indo para aquele lado da cidade sozinho?
-
Estou, senhora - ele disse. - Sempre vou sozinho. Não tenho ninguém para ir
comigo. Meu pai morreu, e minha mãe morreu também. Moro com a tia Clara, no
Brooklyn, mas ela diz que a tia Anna também precisa ajudar a tomar conta de
mim. Por isso, uma vez ou duas vezes por semana, quando ela está cansada e quer
ir a algum lugar para descansar, me manda passar uns dias com tia Anna. Estou
indo para lá agora. Às vezes, eu não encontro tia Anna em casa, mas espero que
ela esteja lá hoje, porque parece que vai chover, e eu não gosto de ficar
andando na rua debaixo de chuva.
A
mulher sentiu certo desconforto na garganta e disse, um tanto hesitante:
-
Você é muito pequeno para andar por aí sozinho.
-
Eu não me importo - ele disse. – Eu nunca fico perdido. Mas às vezes, me sinto
sozinho durante a viagem. Quando vejo alguém que poderia ser meu parente, fico
bem perto dessa pessoa, só para fazer de conta que é verdade. Esta manhã eu
estava fingindo que era parente desta senhora que está do meu lado e me esqueci
de tomar cuidado com meus pés. Foi por isso que sujei a roupa da senhora.
A
mulher passou o braço ao redor do rapazinho e puxou-o para perto dela com tanta
força que quase chegou a machucá-lo. Os olhares lançados por todas as outras
mulheres que ouviram aquela confidência sincera deram a entender que ela
permitiria que o menino limpasse os sapatos em sua melhor roupa e que isso a
deixaria satisfeita.
ENQUANTO VOCÊ PRECISAR DE MIM
Wendi
Fay Green Do Grupo de Cantores Cristãos Contemporâneos "Sierra"
Histórias Para o Coração 2 31
Sou
autora de letras para músicas, e a maioria das canções que escrevo são
inspiradas em minha vida. No entanto, em algumas ocasiões, eu escrevo uma
canção que reflete as experiências de outras pessoas. Esta canção nasceu de uma
situação difícil vivida por uma amiga muito especial.
Minha
querida amiga, JoDee, estava em viagem de férias e havia pedido à sua mãe,
Charlene, que ficasse em sua casa tomando conta de seu filhinho de três anos,
enquanto ela estivesse fora. Num determinado dia, o filhinho de JoDee tropeçou
acidentalmente numa lata de gasolina, na garagem da casa. Charlene levou-o para
brincar no quintal e retomou à garagem para limpar o chão. Enquanto ela estava
na garagem, a gasolina espalhou-se e pegou fogo, por causa do aquecedor de água
quente. Em questão de segundos, a casa explodiu, levando Charlene à morte.
Quando JoDee telefonou-me para contar o que havia acontecido, ela não conseguia
parar de chorar.
Charlene
era muito especial para mim. Ela e JoDee haviam permanecido no hospital,
acompanhando-me durante as 16 horas que antecederam o nascimento de meu filho, Cooper.
JoDee pediu que eu comparecesse ao funeral e dissesse algumas palavras sobre
sua querida mãe. Voei até o Texas, onde elas moravam, e assisti ao ofício
fúnebre, ao lado de JoDee e de sua família. Quando voltei para casa, escrevi
esta canção, porque aquele tinha sido um desses momentos da vida em que é muito
difícil encontrar palavras para serem ditas. Tudo o que pude fazer foi amparar
JoDee, chorar com ela, e orar para que o maravilhoso conforto do Espírito Santo
estivesse com ela e com sua família, durante aquele período tão doloroso.
Esta
canção é difícil de ser cantada porque, nela, eu conto a história de JoDee e de
Charlene. Quando cantada em nossas apresentações, ela transforma o momento em
algo comovente e maravilhoso. Costumo dizer às pessoas que esta é uma canção de
amizade, que fala sobre estar presente em todas as situações. Todos nós já
estivemos de um lado ou do outro, em circunstâncias difíceis da vida.
Precisamos nos ajudar uns aos outros - chorar juntos, orar juntos, sentar lado
a lado, em silêncio, amar muito. Espero que esta canção nos inspire a fazer
isto!
Enquanto
Você Precisar de mim
"QUERO SER IGUAL AO JOE!"
Tony
Campolo
Histórias Para o Coração 2 33
Joe
era um bêbado que se converteu milagrosamente, em uma Missão. Antes de sua
conversão, ele ganhou a fama de ser um alcoólatra sem recuperação, que passaria
sua miserável existência em um gueto. Porém, após sua conversão e uma nova vida
com Deus, tudo mudou. Joe tornou-se a pessoa mais zelosa que aqueles que eram
ligados à Missão conheceram. Joe passava dias e noites trabalhando na Missão,
fazendo tudo o que precisasse ser feito. Nada do que lhe fosse pedido era
considerado por ele uma tarefa humilhante. Quer fosse limpar o vômito de um
bêbado que ingeriu violentas doses de álcool, quer os imundos vasos sanitários
dos banheiros masculinos, Joe fazia o que lhe pediam com um sorriso no rosto,
como se estivesse grato pela oportunidade de ajudar. Diziam que ele alimentava
homens fracos que vagueavam pelas ruas e os levava para a Missão, conseguindo
roupas limpas e um leito para aqueles que não tinham forças para cuidar de si
mesmos.
Certa
noite, quando o dirigente da Missão estava proferindo sua mensagem
evangelística à costumeira audiência composta de homens mal-humorados e
cabisbaixos, houve um que levantou a cabeça, caminhou pelo corredor em direção
ao púlpito e ajoelhou-se para orar, clamando a Deus para ajudá-lo a mudar de
vida. O bêbado arrependido gritava repetidas vezes:
-
Ó Deus! Quero ser igual ao Joe! Quero ser igual ao Joe! Quero ser igual ao Joe!
Quero ser igual ao Joe!
O
dirigente da Missão curvou-se e disse ao homem:
-
Filho, acho que você deveria orar: "Quero ser igual a Jesus!" O homem
olhou para o dirigente com uma expressão estranha no rosto e perguntou:
-
Ele é igual ao Joe?
MADAME, A SENHORA E RICA?
Marion
Doolan
Histórias Para o Coração 2 34
Elas
haviam atravessado a porta, refugiando-se da tempestade, e permaneciam abraçadas
para se protegerem - duas crianças vestidas com casacos grandes e esfarrapados.
-
A senhora tem jornais velhos, madame?
Eu
estava atarefada. Queria dizer não, mas olhei para os pés daquelas crianças.
Sandálias pequenas e franzinas, encharcadas da chuva de granizo.
-
Entrem. Vou dar-lhes uma xícara de chocolate quente.
Não
houve diálogo. As sandálias encharcadas deixaram marcas nas pedras da lareira.
Servi-Ihes
chocolate e torradas com geleia para fortalecê-las contra o frio lá fora. Em
seguida, retomei à cozinha e recomecei meu trabalho de preparar o orçamento da
casa...
O
silêncio na sala da frente causou-me espanto. Resolvi olhar.
A
menina segurava a xícara vazia diante de si, olhando para ela. O menino
perguntou com voz inexpressiva:
-Madame...
a senhora é rica?
-
Eu, rica? Misericórdia! Claro que não!
Olhei
para as capas surradas de minha mobília.
A
menina colocou a xícara no pires... com muito cuidado e comentou:
-
As xícaras da senhora combinam com os pires.
Sua
voz era fraca e cansada, com uma fome que não vinha do estômago.
As
crianças saíram, segurando os fardos de jornal para se protegerem do vento. Não
me agradeceram. Não precisavam agradecer. Elas tinham feito mais do que isso.
Conjuntos simples de xícaras e pires azuis. Mas combinavam. Provei as batatas e
mexi o molho. Batatas com molho substancioso de carne, um teto para morarmos,
meu marido com um emprego fixo - estas coisas também combinavam.
Recoloquei
as cadeiras da lareira no lugar e arrumei a sala de estar. As marcas de lama
das pequeninas sandálias continuavam nas pedras da lareira. Resolvi não
limpá-Ias. Queria que estivessem ali.
caso
viesse me esquecer novamente de que era muito rica.
PARA MEU VIZINHO
Madre
Tereza
Histórias Para o Coração 2 36
Certa
noite, um homem chegou a nossa casa e me disse:
-
Há uma família na minha rua com oito filhos. Faz dias que eles não comem.
Peguei
um pouco de comida e fui até lá.
Quando
me aproximei daquela família, vi os rostos das criancinhas desfigurados pela
fome. Não havia mágoa ou tristeza naqueles rostos;
apenas
sofrimento causado por uma fome terrível.
Entreguei
o arroz à mãe. Ela dividiu o arroz e saiu levando a metade. Quando voltou,
perguntei-lhe:
-
Aonde você foi?
Ela
me deu uma simples resposta:
-
Fui à casa de meus vizinhos. Eles também estão com fome!
...Não
me surpreendi com a atitude daquela senhora, porque as pessoas pobres são
realmente muito generosas. O que me surpreendeu foi que ela sabia que seus
vizinhos estavam com fome. Como regra geral, quando estamos sofrendo,
concentramo-nos tanto em nós mesmos que não temos tempo para os outros.
UM RAPAZ CHAMADO BILL
Rebecca
Manley Pippert Adaptação
Histórias Para o Coração 2 37
O
nome dele é Bill. Ele não penteia os cabelos, usa camiseta furada, calça jeans
e anda descalço. Esse foi, literalmente, o seu guarda-roupa durante os quatro
anos que estudou na faculdade.
Ele
é muito inteligente, um pouco excêntrico, e muito, muito esperto. Converteu-se
ao Cristianismo quando estudava na faculdade.
Em
frente ao campo, do outro lado da rua, existe uma igreja de bela aparência e
muito conservadora, que deseja expandir seu ministério aos alunos, mas não sabe
ao certo como proceder.
Certo
dia, Bill decide ir até lá. Ele chega descalço, de camiseta e calça jeans e,
como sempre, com os cabelos despenteados. O culto já havia começado, e Bill
caminha pelo corredor à procura de um lugar.
A
igreja está lotada, e ele não encontra um lugar para se sentar. As pessoas
olham para ele um pouco constrangidas, mas ninguém diz nada.
Bill
aproxima-se cada vez mais do púlpito. Quando percebe que não há nenhum lugar
vago, ele se senta no chão, em cima do carpete.
(Embora
este tipo de comportamento seja perfeitamente aceitável em reuniões informais
da faculdade, acreditem em mim, nunca antes havia acontecido naquela igreja!)
As pessoas demonstram nervosismo, e a tensão no ambiente é visível.
A
essa altura, o pastor observa um diácono vindo dos fundos do templo, caminhando
lentamente na direção de Bill. O diácono é um homem de mais de 80 anos, tem
cabelos cinza-prata, e usa terno com colete e um relógio de bolso. Ê um homem
piedoso - muito elegante, muito respeitado, muito cortês. Apoiado em uma
bengala, ele se dirige ao jovem, enquanto todos dizem a si mesmos: Não se deve
censurar a atitude do diácono. Não se pode esperar que um homem, na idade dele
e com a sua experiência, entenda o que se passa na cabeça de um universitário
sentado no chão.
Demora
um certo tempo para o homem chegar perto do jovem. A igreja permanece em
completo silêncio, quebrado apenas pelo som da bengala daquele irmão. Todos os
olhares concentram-se nele; não se ouve a respiração de ninguém. As pessoas
estão pensando: O pastor não poderá pregar o sermão enquanto o diácono não
fizer o que tem em mente.
Agora,
elas vêem o ancião derrubar a bengala no chão. Com grande dificuldade, ele se
abaixa, senta-se ao lado de Bill e participa do culto ao seu lado, para que ele
não se sinta sozinho. Todos se emocionam.
Depois
de readquirir o controle, o pastor diz:
-
O que vou pregar agora jamais será lembrado por vocês. O que vocês acabaram de
ver jamais será esquecido.
DANÇA DE OUTONO
Robin
Jones Gunn
Histórias Para o Coração 2 39
Ela
estava no parque esta tarde, a pouca distância de sua tutora.
Os
traços de seu rosto revelavam que, embora o porte físico fosse o de uma jovem,
sua mente sempre continuaria a de uma criança. Meus filhos corriam, saltavam e
peneiravam a areia, com seus dedinhos perfeitos e bem coordenados. Brincando
entretidos com uma pá, eles não notaram que o vento mudara de direção. Mas ela
notou. As fortes rajadas do vento de outono revolviam as folhas cor de âmbar.
Chamei
meu filho, um menino muito ativo, e peguei minha filha pela mão. Está na hora
de ir. A mamãe ainda tem muitas coisas a fazer hoje. Meu filho, com suas
bochechas rosadas, empertigou o corpo e olhou fascinado, com os olhos
arregalados, a dança da menina com síndrome de Down. Ela colhia as folhas do
chão e jogava-as por cima da cabeça, como se fosse uma chuva cintilante e
jubilosa de outono.
A
cada giro com o corpo, ela pulava e cantava, com voz deficiente vinda do fundo
do coração - um cântico de louvor especial Àquele cuja respiração faz as folhas
despencarem das árvores.
Rápido.
Vamos embora. Já prenderam os cintos de segurança?
Dou
partida no carro. Pelo espelho retrovisor, eu olho para a menina mais uma vez,
através de meus olhos embaçados. Em seguida, lágrimas surgem. Não são lágrimas
de piedade por ela. As lágrimas são por mim. Porque sou muito orgulhosa para
louvar publicamente o meu Criador.
Sou
uma pessoa inteira, normal e inteligente, e choro porque nunca serei capaz de
conhecer a maravilhosa misericórdia que liberta uma criança como aquela e a
leva a dançar no meio das folhas de outono.
UMA SEGUNDA CHANCE
Billy
Graham
Histórias Para o Coração 2 43
A
Escola Técnica da Georgia estava jogando contra a Universidade da Califórnia,
no Rose Bowl (jogo de futebol americano, disputado, depois da temporada, entre
os melhores times) de 1929. Durante a partida, um jogador recuperou uma bola
perdida, mas confundiu-se e correu na direção errada. Quando seu companheiro de
time o segurou para detê-lo, ele se atrapalhou e fez um gol contra. No
intervalo, os jogadores correram para o vestiário e sentaram-se, aguardando o
que o treinador diria. O jovem que fizera o gol contra sentou-se isolado dos
outros, colocou uma toalha em cima da cabeça e chorou.
No
momento em que os jogadores estavam prontos para retornar ao campo para o
segundo tempo, o treinador os surpreendeu ao anunciar que não haveria alteração
no time para aquele segundo tempo. Todos os jogadores deixaram o vestiário,
menos o que tinha feito o gol contra. Ele não saiu do lugar. Quando o treinador
olhou para trás e o chamou novamente, viu o rosto do jovem molhado de lágrimas.
O jogador disse:
-
Treinador, eu não posso jogar. Eu prejudiquei o senhor. Desgracei a
Universidade da Califórnia. Não tenho coragem de enfrentar os torcedores
novamente.
O
treinador pousou a mão no ombro do jogador e disse:
-
Levante-se e volte ao campo. O jogo ainda não terminou.
Quando
penso nesta história, digo para mim mesmo:
-
Que treinador!
Quando
leio a história de Jonas [na Bíblia] e as histórias de milhares de pessoas como
ele, digo:
-
E pensar que Deus me daria outra chance!
ETERNA HARMONIA
John
MacArthur
Histórias Para o Coração 2 44
Séculos atrás, correu pelo mundo a história do chefe de uma determinada
tribo que era superior aos chefes de todas as outras tribos. Na época em que o
poder era medido pela superioridade da força física, a tribo mais poderosa de
todas era a que possuía o chefe mais forte.
Mas o chefe tribal de que estamos falando também era conhecido por sua
sabedoria. No intuito de ajudar seu povo a viver em segurança e em paz, ele
emitiu leis abrangendo todos os aspectos da vida tribal.
Fazia cumprir essas leis rigorosamente e adquiriu a fama de ser um juiz
imparcial.
Apesar das leis, havia problemas na tribo. Um dia, chegou ao
conhecimento do chefe que alguém da tribo estava cometendo pequenos furtos. Ele
reuniu o grupo.
- Todos aqui sabem que as leis foram feitas para proteger vocês, para
ajudar vocês a viverem em segurança e em paz - ele os fez lembrar, com grande
tristeza no olhar por causa do amor que lhes dedicava. - Esses furtos precisam
parar. Todos nós temos tudo aquilo de que necessitamos. a castigo será
aumentado de 10 para 20 chibatadas em quem for surpreendido furtando os furtos,
porém, continuaram a chefe voltou a reunir o grupo.
- Por favor, ouçam-me - ele pediu. - Esses furtos precisam parar. O
ambiente entre nós está ficando cada vez pior, a castigo será aumentado para 30
chibatadas.
Apesar disso, os furtos não cessaram, a chefe reuniu mais uma vez o
grupo.
- Por favor, eu estou suplicando. Para o bem de vocês, os furtos
precisam parar. Eles estão causando muito sofrimento entre nós, a castigo será
aumentado para 40 chibatadas.
O povo conhecia o grande amor do chefe pela tribo, mas apenas os que
estavam mais próximos dele viram uma lágrima correr por seu rosto quando ele
dispersou o grupo.
Finalmente, um homem disse que a pessoa havia sido identificada.
A notícia espalhou-se. Todos se reuniram para ver quem era.
Um murmúrio de espanto foi dado por todos quando a pessoa foi
apresentada entre dois guardas. O rosto do chefe empalideceu de susto e
sofrimento.
A ladra era sua mãe, uma senhora idosa e frágil.
O que ele vai fazer? - pensou o povo em voz alta. Será que ele faria
cumprir a lei, ou o amor por sua mãe o impediria de cumpri-la?
O povo aguardou, conversando em voz baixa, com a respiração ofegante.
Finalmente, o chefe falou.
- Meu amado povo. - Sua voz ficou embargada. Quase que sussurrando as
palavras, ele prosseguiu. - Estou fazendo isto pela nossa segurança e paz.
Devem ser aplicadas 40 chibatadas; o sofrimento que este delito nos causou foi
grande demais.
Ele fez um movimento afirmativo com a cabeça, e os guardas fizeram sua
mãe dar um passo à frente. Um deles retirou cuidadosamente o manto dela,
deixando à mostra as costas ossudas e arqueadas. O homem designado para aplicar
o castigo começou a desenrolar o chicote.
Nesse momento, o chefe deu um passo à frente e também retirou seu manto,
deixando à mostra os ombros largos, bronzeados e firmes.
Carinhosamente, ele passou os braços ao redor de sua querida mãe,
protegendo-a com o próprio corpo.
Enquanto ele murmurava algumas palavras com o rosto encostado ao da mãe,
suas lágrimas misturavam-se às dela. Ele fez outro movimento afirmativo com a
cabeça, recebendo uma chibatada após outra.
Foi um momento singular. Mas, nele, o amor e a justiça entraram em
eterna harmonia.
VOCÊ É DEUS?
Charles
Swindoll
Histórias Para o Coração 2 46
Logo depois do término da Segunda Guerra Mundial, a Europa começou a ajuntar
os cacos que restaram. Grande parte da Inglaterra fora destruída e
encontrava-se em ruínas. Talvez o lado mais triste da guerra tenha sido
assistir às criancinhas órfãs morrendo de fome nas ruas das cidades devastadas.
Certa manhã muito fria de Londres, um soldado americano estava retomando
ao acampamento. Quando ele virou a esquina dirigindo um jipe, avistou um menino
com o nariz pressionado contra o vidro de uma confeitaria. Lá dentro, o
confeiteiro sovava a massa para uma fornada de rosquinhas. Faminto e com os
olhos arregalados, o menino observava todos os movimentos do confeiteiro. O
soldado parou o jipe junto ao meio-fio, desceu, e caminhou em silêncio até o
local onde o menino se encontrava. Através do vidro embaçado pela fumaça, ele
viu aquelas rosquinhas quentes e de dar água na boca sendo retiradas do forno.
O menino salivou e deu um leve gemido quando o confeiteiro as colocou no balcão
de vidro com todo o cuidado.
Em pé, ao lado do menino, o soldado comoveu-se diante daquele órfão
desconhecido.
- Filho... você gostaria de comer algumas rosquinhas?
O menino assustou-se.
- Ah, sim... eu gostaria!
O soldado entrou na confeitaria e comprou uma dúzia de rosquinhas;
colocou-as dentro de um saco de papel e dirigiu-se ao local onde o menino se
encontrava sob a neblina gelada da manhã de Londres. Ele sorriu, entregou-lhe
as rosquinhas, e disse simplesmente:
- Aqui estão.
Quando o soldado se virou para se afastar, sentiu um puxão em sua farda.
Ele olhou para trás e ouviu o menino perguntar baixinho:
- Moço... você é Deus?
SR. ROTH
Autor
Desconhecido
Histórias Para o Coração 2 49
Um senhor idoso apareceu na porta dos fundos da casa que alugamos. Cautelosos,
entreabrimos a porta e vimos seus olhos vítreos e seu rosto enrugado brilhando
sob a barba curta e grisalha. Ele segurava uma cesta de vime contendo alguns
legumes com aspecto pouco atraente. Desejou-nos um bom dia e ofereceu seu
produto. Estávamos preocupados em fazer uma compra rápida, para aliviar nossa
piedade misturada com medo.
Para nosso aborrecimento, ele retornou na semana seguinte,
apresentando-se como Sr. Roth, o homem que morava no barraco no fim da rua.
Quando nossos temores cessaram, aproximamo-nos mais dele e compreendemos que
não era o álcool, mas a catarata, que deixava seus olhos com aquele aspecto
vidrado. Nas visitas subsequentes, ele chegou arrastando os pés calçados com
sapatos diferentes um do outro e tirou uma harmônica do estojo. Com o olhar
fixo em uma glória futura, ele começou a tocar hinos antigos, entre uma
conversa e outra que entabulamos sobre legumes e religião.
Em uma das visitas, ele exclamou:
- O Senhor é tão bondoso! Saí de meu barraco hoje cedo e encontrei, na
porta da frente, uma sacola cheia de sapatos e roupas.
- Isto é maravilhoso, Sr. Roth - dissemos. - Estamos felizes pelo
senhor.
- E sabem o que é mais maravilhoso ainda? - ele perguntou. Ontem conheci
algumas pessoas que podem usar os sapatos e as roupas.
EU NÃO ACREDITO EM UMA SÓ PALAVRA
Howard
Hendricks
Histórias Para o Coração 2 50
Quando cheguei à quinta série, eu carregava comigo todos os problemas de
um garoto que se sentia inseguro, carente de amor e de mal com a vida. Em
outras palavras, eu era um furacão destruidor. Porém, a Srta. Simon, minha
professora, aparentemente imaginava que eu desconhecesse o meu problema, porque
costumava dizer-me:
- Howard, você é o aluno mais mal comportado desta escola!
Eu gostaria que você me dissesse alguma coisa que eu ainda não sabia! -
pensava comigo mesmo, enquanto continuava a melhorar (ou piorar) a opinião dela
a meu respeito...
É desnecessário dizer que a quinta série foi, provavelmente, o pior ano
de minha vida escolar. Finalmente, recebi o diploma - por motivos óbvios. Mas
as palavras da Srta. Simon continuavam a soar em meus ouvidos: "Howard,
você é o aluno mais mal comportado desta escola!" Você pode imaginar quais
eram as minhas expectativas quando entrei na sexta série. No primeiro dia de
aula, minha professora, a Srta. Noe, começou a fazer a chamada, e não demorou
muito para dizer meu nome.
- Howard Hendricks - ela disse bem alto, desviando os olhos da lista para
o lugar em que eu estava sentado com os braços cruzados, apenas aguardando o
momento de entrar em ação. Ela olhou para mim por alguns instantes e
prosseguiu: - Tenho ouvido falar muito de você. - Em seguida, sorriu e
complementou: - Mas eu não acredito em uma só palavra!
Vou contar-lhe uma coisa. Aquele momento foi o ponto decisivo, não
apenas em minha educação, mas também em minha vida. De repente,
inesperadamente, alguém acreditou em mim. Pela primeira vez na vida, alguém
enxergou potencial em mim. A Srta. Noe incumbiu-me de tarefas especiais. Ela me
solicitava pequenos serviços.
Convidava-me para ir a sua casa depois da escola para me dar aulas de
reforço sobre leitura e aritmética. Ela me desafiava a alcançar padrões cada
vez mais altos.
Eu não queria desapontá-Ia por nada deste mundo. Certa vez, envolvi-me
tanto com um dever de casa que fiquei acordado até lh30 da madrugada para
terminá-Io! Meu pai apareceu no hall e perguntou:
- O que houve, filho? Você está doente?
- Não, estou fazendo meu dever de casa - respondi.
Ele piscou e coçou os olhos para ter certeza de que estava acordado.
Ele nunca me ouvira dizer tal coisa antes...
O que fez a diferença entre a quinta e a sexta séries? O fato de alguém
estar disposto a dar-me uma chance. Alguém se dispôs a acreditar em mim e me
desafiou a ter expectativas mais amplas.
Aquilo foi um risco, porque não havia garantias de que eu mereceria a
confiança da Srta. Noe.
Todos apreciam o bom trabalho de um mentor, principalmente quando seus
esforços resultam em sucesso - um atleta famoso, um empresário próspero, um
advogado brilhante, um comunicador de grande talento. Mas quantos de nós
desejamos dar início a esse trabalho?
UM BULE DE CHÁ ESPECIAL
Roberta
Messner
Histórias Para o Coração 2 52
Uma multidão impaciente de quase 200 pessoas, ávidas por encontrar uma
pechincha, acotovelava-se na imensa sala de estar da antiga propriedade rural
da família Withers. A temperatura abafada, de cerca de 33°C, não impediu
nenhuma delas de sair à cata de uma boa oferta de verão.
A senhora que conduzia as vendas, uma conhecida minha de longa data,
observava os madrugadores e movimentava a cabeça em sinal de aprovação.
- Você está gostando da bagunça? - ela me perguntou, dando uma
risadinha.
Concordei com um sorriso.
- Eu não deveria estar aqui. Preciso chegar ao aeroporto em menos de uma
hora - admiti. - Em meus tempos de adolescente, vendi cosméticos nessas
imediações. E Hillary Withers era minha cliente favorita.
- Então corra até o sótão - ela sugeriu. - Há uma boa quantidade de
antigos cosméticos lá.
Apressada, eu me espremi entre a multidão cada vez maior e subi a escada
até o terceiro pavimento. No sótão, havia apenas uma pequenina senhora idosa
supervisionando várias mesas lotadas de sacos de embalagem amarelados, de todos
os tamanhos.
- O que a trouxe até aqui? - ela perguntou enquanto abria um vidro de
perfume. - Não há nada aqui em cima, a não ser alguns produtos antigos da Avon,
da Tupperware e das Escovas Fuller. Dei um longo e precavido suspiro. A
fragrância inconfundível do perfume "Aqui Está Meu Coração"
transportou-me ao passado, quase 20 anos atrás.
- Que coisa! Isto aqui foi escrito por mim! - exclamei quando pousei os
olhos em uma fatura grampeada em uma das embalagens. O conteúdo intacto
conservava mais de cem dólares em cremes e colônias. Tinha sido minha primeira
venda para a Sra. Withers.
Naquele remoto dia de junho, eu tinha percorrido a larga avenida de três
pistas durante quase quatro horas, mas nenhuma dona-de-casa convidou-me a
entrar. Quando toquei a campainha da última casa, estava preparada para receber
mais um não.
- Com licença, madame, sou sua nova representante da Avon gaguejei,
assim que a pesada porta de madeira entalhada foi aberta. Tenho alguns ótimos
produtos e gostaria de mostrá-Ios à senhora.
Quando, finalmente, reuni coragem para encarar aquela mulher em pé na
soleira da porta, me dei conta de que se tratava da Sra.
Withers, a radiante e corpulenta soprano do coro de nossa igreja.
Eu admirava seus lindos vestidos e chapéus, sonhando que um dia também
usaria roupas da moda. Dois meses antes daquele dia, eu tinha viajado a uma
cidade distante para ser submetida a uma cirurgia do cérebro. A Sra. Withers me
enviou lindos cartões com votos de ponto restabelecimento.
- Roberta, minha querida, entre, entre - disse a Sra. Withers, com voz
melodiosa. - Estou precisando de um milhão de coisas. Que bom você ter vindo me
visitar.
Entusiasmada, acomodei-me no sofá branco imaculado e abri o zíper de
minha bolsa de tecido grosso, abarrotada de amostras de todos os tipos de
cosméticos que poderiam ser adquiridos por cinco dólares. Quando entreguei o
catálogo de vendas à Sra. Withers, senti-me a garota mais importante do mundo.
- Sra. Withers, temos dois tipos de creme: um para peles coradas e outro
para peles pálidas - expliquei com palavras confiantes recém-estudadas. - E
eles também são excelentes para combater rugas.
- Ótimo, ótimo - ela disse alegremente.
- Qual dos dois a senhora gostaria de comprar? - perguntei, ajeitando a
peruca que escondia a enorme cicatriz de minha cirurgia.
- Oh, vou querer um de cada - ela respondeu. - E que perfumes você tem
aí?
- Experimente este, Sra. Withers. Eles recomendam que se coloque uma
gota no pulso para obter melhor efeito - eu instruí, apontando para seu pulso
onde havia uma pulseira de ouro e brilhantes.
- Estou gostando de ver, Roberta! Você conhece muito bem estas coisas.
Deve ter estudado durante dias. Que moça inteligente você é!
- A senhora acha mesmo?
Naquele remoto dia de junho, eu tinha percorrido a larga avenida de três
pistas durante quase quatro horas, mas nenhuma dona-de-casa convidou-me a
entrar. Quando toquei a campainha da última casa, estava preparada para receber
mais um não.
- Com licença, madame, sou sua nova representante da Avon gaguejei,
assim que a pesada porta de madeira entalhada foi aberta. Tenho alguns ótimos
produtos e gostaria de mostrá-Ios à senhora.
Quando, finalmente, reuni coragem para encarar aquela mulher em pé na
soleira da porta, me dei conta de que se tratava da Sra.
Withers, a radiante e corpulenta soprano do coro de nossa igreja.
Eu admirava seus lindos vestidos e chapéus, sonhando que um dia também
usaria roupas da moda. Dois meses antes daquele dia, eu tinha viajado a uma
cidade distante para ser submetida a uma cirurgia do cérebro. A Sra. Withers me
enviou lindos cartões com votos de pronto restabelecimento.
- Roberta, minha querida, entre, entre - disse a Sra. Withers, com voz
melodiosa. - Estou precisando de um milhão de coisas. Que bom você ter vindo me
visitar.
Entusiasmada, acomodei-me no sofá branco imaculado e abri o zíper de
minha bolsa de tecido grosso, abarrotada de amostras de todos os tipos de
cosméticos que poderiam ser adquiridos por cinco dólares. Quando entreguei o
catálogo de vendas à Sra. Withers.
senti-me a garota mais importante do mundo.
- Sra. Withers, temos dois tipos de creme: um para peles coradas e outro
para peles pálidas - expliquei com palavras confiantes recém-estudadas. - E
eles também são excelentes para combater rugas.
- Ótimo, ótimo - ela disse alegremente.
- Qual dos dois a senhora gostaria de comprar? - perguntei, ajeitando a
peruca que escondia a enorme cicatriz de minha cirurgia.
- Oh, vou querer um de cada - ela respondeu. - E que perfumes você tem
aí?
- Experimente este, Sra. Withers. Eles recomendam que se coloque uma
gota no pulso para obter melhor efeito - eu instruí, apontando para seu pulso
onde havia uma pulseira de ouro e brilhantes.
- Estou gostando de ver, Roberta! Você conhece muito bem estas coisas.
Deve ter estudado durante dias. Que moça inteligente você é!
- A senhora acha mesmo?
- Tenho certeza. E o que você planeja fazer com o dinheiro ganho?
- Estou economizando para fazer o curso de enfermagem na faculdade -
respondi, surpresa com minhas palavras. - Mas hoje estou pensando em comprar
uma malha de lã para dar de presente de aniversário à minha mãe. Ela sempre me
acompanha nos exames médicos, e, quando viajamos de trem, uma malha de lã é
sempre útil.
- Que maravilha, Roberta, quanta consideração por sua mãe! E que
produtos você tem para oferecer como presente? - ela perguntou.
Em seguida, solicitou dois de cada um dos que recomendei.
O extravagante pedido totalizou US$117.42. Será que a Sra. Withers
queria mesmo gastar tanto dinheiro? Mas ela sorriu e disse:
- Vou aguardar a entrega de meu pedido, Roberta. Você disse que será na
próxima terça-feira?
Eu já estava me preparando para sair quando a Sra. Withers disse:
- Você parece estar com fome. Gostaria de tomar um chá, antes de ir?
Aqui em casa, consideramos o chá uma "bebida com o brilho do
sol".
Concordei com um movimento de cabeça e acompanhei a Sra.
Withers até sua reluzente cozinha, repleta de todos os tipos de
novidades. Observei, fascinada, enquanto ela preparava um chá - como eu havia
visto no cinema - só para mim. Ela encheu cuidadosamente a chaleira com água
fria, esperou levantar fervura, acrescentou as folhas de chá e aguardou
exatamente cinco longos minutos.
- É para que o aroma se desprenda - ela explicou.
Em seguida, ela pegou uma bandeja de prata onde colocou um delicado
conjunto de xícaras de porcelana, um abafador de tecido para o bule, tentadores
biscoitinhos de morango e outros petiscos deliciosos. Em nossa casa, às vezes,
tomávamos chá gelado em copos de geléia, e, agora, eu me sentia uma princesa
convidada para o chá da tarde.
- Desculpe-me, Sra. Withers, mas não existe um modo mais rápido de
preparar chá? - perguntei. - Em casa, usamos chá em saquinhos.
A Sra. Withers passou o braço ao redor de meu ombro.
- Existem coisas na vida que não devem ser feitas às pressas - ela
confidenciou. - Aprendi que deixar o chá em infusão em um bule especial é
semelhante a ter uma vida correta. Dá um pouco mais de trabalho, mas sempre
vale a pena. Veja seu exemplo, com todos os seus problemas de saúde. Você é
"macerada", com determinação e ambição, da mesma forma que um bule de
chá especial. Muitas pessoas em seu lugar teriam desistido; mas você, não.
Roberta, você pode conseguir qualquer coisa que tenha em mente.
Minha viagem ao passado terminou abruptamente, no momento em que a
senhora do sótão abafado e úmido me perguntou:
- Você também conheceu Hillary Withers?
Limpei o suor que escorria em minha testa e respondi:
- Sim... certa vez, vendi um destes cosméticos para a Sra. Withers.
Mas não entendo por que ela nunca os usou nem os repassou para alguém.
- Ela repassou grande parte - disse a senhora, com a voz um tanto
emocionada. - Mas alguns foram esquecidos e terminaram aqui.
- Mas por que ela comprou os produtos e não os usou? perguntei.
- Ah, ela comprava uma marca especial de cosméticos para uso próprio. -
A senhora abaixou a voz e disse em tom confidencial:
- Hillary tinha um carinho especial pelos vendedores de porta em porta.
Ela nunca os dispensava. Costumava dizer-me: "Eu poderia dar dinheiro a
eles; mas o dinheiro em si não compra auto-estima.
Por isso, dou a eles um pouco de meu dinheiro, empresto um ouvido amigo
e compartilho meu amor e minhas orações. Nunca se sabe até onde alguém pode
chegar se for movido por um pouco de incentivo.
Fiz uma pausa, lembrando-me do quanto minhas vendas aumentaram após a
primeira visita à Sra. Withers. Comprei a malha de lã para minha mãe com a
comissão da venda e ainda fiquei com um pouco de dinheiro para pagar minha
dívida na faculdade. Cheguei a receber vários prêmios como vendedora distrital
e nacional. Consegui terminar a faculdade com meu dinheiro e realizei o sonho
de ser enfermeira. Posteriormente, recebi grau de mestrado e doutorado.
- A Sra. Withers preocupava-se mesmo com os vendedores? perguntei àquela
senhora, apontando para as dezenas de embalagens amareladas sobre a mesa.
- Ah, sim - ela me assegurou. - Fazia isso sem que ninguém soubesse.
Paguei as minhas compras - um conjunto de cosméticos que vendi à Sra.
Withers e um pequenino medalhão de ouro em formato de coração. Coloquei o
medalhão na corrente de ouro em meu pescoço. ~ Em seguida, rumei para o
aeroporto; mais tarde, naquele mesmo dia, eu faria uma palestra em um congresso
médico em Nova York.
Quando cheguei ao salão de convenções do elegante hotel, caminhei até a
tribuna e examinei minuciosamente uma profusão de rostos especialistas da área
de saúde, vindos de todas as partes do país. De repente, senti-me tão insegura
quanto naquele dia longínquo, quando bati, de porta em porta, para vender
cosméticos em um bairro de pessoas abastadas e desconhecidas.
Será que vou conseguir?, pensei.
Com os dedos trêmulos, segurei o medalhão. Ele se abriu, deixando à
mostra uma fotografia da Sra. Withers. Ouvi novamente suas palavras carinhosas,
porém enfáticas: "Roberta, você pode conseguir qualquer coisa que tenha em
mente." - Boa-tarde - comecei a dizer vagarosamente. - Obrigada por terem
me convidado para falar sobre como devolver a saúde pública ao seu devido
lugar. Costuma-se dizer que o trabalho de enfermagem significa tornar visível o
amor. Mas, nesta manhã, aprendi uma lição inesperada sobre o poder do amor
silencioso manifestado em segredo. O tipo de amor manifestado não para ser
exibido, mas para o bem que ele pode fazer na vida das outras pessoas. Alguns
de nossos gestos mais importantes de amor geralmente passam despercebidos. Um
dia, eles vão florescer - quando seu aroma se desprender.
A seguir, contei a meus colegas a história de Hillary Withers. Para
minha surpresa, recebi um estrondoso aplauso. E pensar que tudo começou com um
bule de chá especial...
PALAVRAS DE INCENTIVO
Susan
Maycinik
Histórias Para o Coração 2 57
- Posso falar com a gerente?
- A súbita pergunta de minha amiga à garçonete me surpreendeu. Nosso
jantar em uma pizzaria popular havia transcorrido sem nenhuma anormalidade, e
eu me perguntava o que Eileen tinha em mente.
A gerente se aproximou de nossa mesa alguns minutos depois.
- Em que posso ser útil? - ela perguntou hesitante, como se estivesse
esperando mais uma reclamação de uma cliente zangada.
- Eu só queria lhe contar que a garçonete que nos atendeu hoje foi
excelente - Eileen começou a dizer, descrevendo, em seguida, as várias coisas
que a atendente havia feito e que tanto a impressionaram.
Evidentemente, a gerente ficou aliviada - e encantada. O mesmo aconteceu
com a garçonete, que estava em pé, ao lado da mesa.
Nós quatro rimos e conversamos por alguns minutos. Eileen havia
transformado em sucesso o dia de duas mulheres esforçadas... e fez com que
ficasse gravada em minha mente uma impressão indelével do poder das palavras
positivas.
Quando pensamos em nossas palavras, é fácil nos concentrar nas pessoas
que gostaríamos de censurar. Felizmente, existem certas frases que quase sempre
têm um momento certo de ser proferidas palavras que transmitem amor e
incentivo. Aqui estão algumas delas:
"Seu trabalho
foi excelente."
"Posso orar por
você neste momento?"
"Como você
realmente está?"
"Suas palavras
me ajudaram."
"Eu estava
errado(a)."
"Obrigado(a)
por me conduzir/servir."
"Eu ofendi
você?"
"Gosto da
maneira como você _____”.
"Em que posso
ser útil?"
"Conte-me sobre
seu dia, seu trabalho, seus filhos..."
"Por favor,
perdoe-me."
"Deus é tão
grande a ponto de "Estou orgulhoso(a) de você."
"Você está se
desenvolvendo bem."
"Por favor,
venha jantar conosco."
"Senti sua
falta."
"Estou muito
feliz por você."
"Orei por você
hoje." "Deve ter sido muito difícil!" "Aceito com
satisfação!"
Em resumo, se existem palavras que voei gostaria de ouvir, tenha certeza
de que elas também servem para encorajar os outros.
TRÊS CARTAS DE TEDDY
Elizabeth
Silance Ballarian
Histórias Para o Coração 2 59
A carta de Teddy chegou hoje, e, agora que já a li, vou guardá-la em meu
baú de cedro, com as outras coisas que são importantes para a minha vida.
"Eu queria que a senhora fosse a primeira a saber." Sorri ao
ler estas palavras, e meu coração se encheu de um orgulho que eu não deveria
sentir.
Não vejo Teddy Stallard há 15 anos, época em que ele foi meu aluno na
quinta série. Eu estava no início de carreira e começara a lecionar havia
apenas dois anos.
Não gostei de Teddy, desde o primeiro dia que ele entrou em minha
classe. Os professores (embora nem todos saibam fazer a diferença) não devem
demonstrar preferência por nenhum aluno e, acima de tudo, não devem demonstrar
antipatia por uma criança, por qualquer criança.
Contudo, todos os anos aparecem uma ou duas crianças pelas quais não
podemos deixar de sentir certa afeição, porque os professores são humanos, e
faz parte da natureza humana gostar de pessoas espertas, bonitas e
inteligentes, quer tenham dez ou 25 anos de idade. E, às vezes, com pouca
freqüência, felizmente, há um ou dois alunos com os quais o professor não
consegue ter um bom relacionamento.
Eu me considerava perfeitamente capaz de lidar com meus sentimentos em
tais situações, até o dia em que Teddy entrou em minha vida. Naquele ano, não
havia nenhum aluno especial do qual eu gostasse; mas Teddy era, certamente, um
menino com quem eu não me simpatizava.
Ele era um garoto sujo. Não de vez em quando, mas sempre. Seu cabelo
caía por cima das orelhas, e ele precisava afastá-Io dos olhos para conseguir
escrever. Naquela época, o cabelo comprido, não era moda! Além disso, seu corpo
exalava um odor que nunca consegui identificar.
Sua aparência física era horrível, e seu intelecto deixava muito a
desejar. No final da primeira semana, eu já sabia que ele não acompanharia os
demais alunos. Além de não acompanhar, era lento demais! Comecei a afastar-me
dele imediatamente.
Qualquer professor vai dizer que se sente mais do que satisfeito quando
ensina uma criança inteligente. É muito mais compensador para o ego. Porém,
qualquer professor que se preze deve canalizar o trabalho para o aluno
inteligente, no intuito de estimulá-Io, enquanto dedica maior empenho às
crianças mais lentas. Qualquer professor pode fazer isso. A maioria faz, mas eu
não fiz. Não naquele ano.
A bem da verdade, concentrei-me em meus melhores alunos e deixei que os
outros os acompanhassem dentro do possível. Embora me sinta envergonhada por
ter de admitir, eu nutria um perverso prazer em usar a caneta vermelha; e,
todas as vezes que eu corrigia as provas de Teddy, as cruzes vermelhas (e havia
muitas) eram sempre um pouco maiores e um pouco mais acentuadas do que o
necessário.
"Insatisfatório!" - eu escrevia, com letras floreadas.
Apesar de não ridicularizar o garoto, minha atitude era visível aos
outros alunos, porque ele passou rapidamente a ser a "ovelha negra"
da classe, o excluído: aquele que não era digno de ser amado.
Teddy sabia que eu não gostava dele, mas não sabia por quê. Eu também
não sabia - nem naquela época, nem agora - por que sentia tamanha antipatia por
ele. Só sei que ninguém gostava dele, e eu não fiz nenhum esforço para mudar
essa situação.
Os dias foram passando. Comemoramos o Festival de Outono e o Dia de Ação
de Graças, e eu continuava a usar minha caneta vermelha com grande satisfação.
Quando o Natal se aproximou, eu sabia que Teddy não teria condições de
se recuperar a tempo de passar para a sexta série. Ele repetiria o ano.
Para justificar-me, eu relia seu currículo escolar, de tempos em tempos.
Suas notas haviam sido muito baixas nos quatro primeiros anos, mas ele nunca
foi reprovado. Como ele conseguiu essa façanha, eu não sabia. Resolvi
concentrar-me nas anotações sobre sua personalidade.
Primeira série: Teddy demonstra ter futuro, em razão de seu trabalho e
atitudes; mas o ambiente em seu lar não é bom. Segunda série: Teddy poderia ser
melhor aluno. A mãe está doente e em estado terminal. Ele recebe pouca ajuda em
casa. Terceira série: Teddy é um menino amável. Prestativo, mas muito sério.
Lento para aprender. A mãe morreu no fim do ano. Quarta série: Muito lento,
porém bem comportado. O pai não demonstra nenhum interesse pelo filho.
Bem, ele foi aprovado quatro vezes. Mas certamente repetirá a quinta
série! Faça alguma coisa por ele! - eu disse a mim mesma.
Chegou o último dia de aula, antes do Natal. Nossa pequenina árvore em
cima da mesa de leitura estava enfeitada com papel e pipoca. Havia muitos
presentes amontoados embaixo dela, à espera do grande momento.
Os professores sempre recebem vários presentes no Natal, mas, naquele
ano, os meus foram em número muito maior e eram muito mais requintados. Não
houve um só aluno que não me tivesse trazido um presente. Cada pacote
desembrulhado provocava gritos de alegria, seguidos de efusivos agradecimentos
àquele que o oferecera.
O presente de Teddy não foi o último que peguei; estava no meio da pilha,
acondicionado num saco de papel marrom, enfeitado com desenhos de árvores de
Natal e sinos vermelhos, feitos por ele mesmo.
A boca do saco estava amarrada com fita adesiva invisível.
"Para a Srta. Thompson, de Teddy" - ele havia escrito.
Um completo silêncio abateu-se sobre o grupo, e, pela primeira vez, eu
me senti observada e constrangida, porque todos estavam aguardando que eu
abrisse o presente.
Quando retirei o último pedaço da fita adesiva, dois objetos caíram em
minha mesa: um vistoso bracelete imitando jóia, no qual faltavam várias pedras,
e um pequeno frasco de colônia barata - pela metade. Ouvi as risadinhas e os
cochichos, e eu não tinha certeza se poderia olhar para Teddy.
- Não é lindo? - perguntei, colocando o bracelete no pulso. Teddy, você
poderia ajudar-me a fechá-Io?
Ele sorriu com timidez, enquanto prendia o fecho, e eu levantei o braço
para que todos admirassem o bracelete.
Ouvi alguns "ooohs" e "aaahs" hesitantes; mas,
quando coloquei uma gota da colônia atrás da orelha, todas as meninas se
enfileiraram para receber uma gota também.
Continuei a abrir os presentes, até chegar ao último da pilha.
Comemos alguns petiscos, e a sineta tocou.
As crianças se despediram com gritos de "Até o ano que vem!" e
"Feliz Natal". Mas Teddy continuou sentado em sua carteira.
Depois que todos saíram, ele caminhou em minha direção, segurando firme
contra o peito os livros e o presente que ganhou.
- A senhora é parecida com minha mãe - ele disse mansamente. O bracelete
dela também fica muito bonito no pulso da senhora. Que bom que a senhora
gostou! . Após essas palavras, ele saiu rapidamente. Tranquei a porta,
sentei-me diante de minha mesa e chorei, resolvida agora, a oferecer a Teddy
tudo o que eu, deliberadamente, lhe negara o carinho de uma professora.
Depois dos feriados de Natal, passei todas as tardes com Teddy, até o
último dia de aula. Às vezes, trabalhávamos juntos. Outras, ele trabalhava
sozinho, enquanto eu preparava as aulas ou as provas.
Lentamente, mas com determinação, ele alcançou o restante da classe. Na
verdade, suas médias finais ficaram entre as mais altas da classe. Apesar de
saber que Teddy se mudaria para outro Estado quando as aulas terminassem, eu
não sentia preocupação em relação a ele. Teddy havia atingido um estágio que o
levaria a manter um bom nível no ano seguinte, em qualquer colégio que
estudasse. Ele havia desfrutado uma boa dose de sucesso, e, conforme aprendemos
no curso de magistério, "o sucesso consolida o sucesso".
Só recebi notícias de Teddy 7 anos depois, quando encontrei sua primeira
carta em minha caixa de correio.
Prezada Srta. Thompson, Eu queria que a Senhora fosse a primeira a
saber. Vou receber o diploma como segundo aluno da classe, no próximo mês.
Cordialmente, Teddy Stallard
Enviei-lhe um cartão de congratulações e um pequeno presente: um
conjunto de caneta e lápis. Eu gostaria de saber o que ele faria após receber o
diploma.
Quatro anos depois, chegou a segunda carta de Teddy.
Prezada Srta. Thompson, Eu queria que a senhora fosse a primeira a
saber. Fui informado de que vou receber o diploma como primeiro aluno da
classe. O curso na faculdade não foi fácil, mas eu gostei. - Cordialmente,
Teddy Stallard
Enviei-lhe um belo par de abotoaduras de prata, com suas iniciais,
acompanhado de um cartão. Estava tão orgulhosa dele que parecia que ia
explodir!
E hoje... chegou a terceira carta de Teddy.
Prezada Srta. Thompson, Eu queria que a senhora fosse a primeira a
saber. A partir de hoje, sou o médico, Dr. Theodore Stallard. Que ta!!!??
Vou me casar em julho. No dia 27, para ser mais exato. Eu gostaria que a
senhora comparecesse e se sentasse no lugar onde minha mãe se sentaria. Não
tenho mais família, porque meu pai morreu no ano passado.
Cordialmente, Teddy Stallard
Não sei ao certo que tipo de presente se deve enviar a um médico, quando
efe conclui a faculdade de medicina. Talvez seja melhor aguardar e levar um
presente de casamento. Mas a carta não pode esperar.
Prezado Ted, Parabéns! Você conseguiu, e conseguiu com o próprio
esforço! Apesar de pessoas como eu, e não por minha causa, o seu dia chegou.
Deus o abençoe. Estarei presente ao casamento quando os sinos estiverem
tocando!
DAR E RECEBER
Billie
Davis
Histórias Para o Coração 2 66
Uma professora da rede pública de ensino deixou claras para mim as
ideias complexas a respeito de dar e receber.
Evidentemente, ela notou alguma coisa sobre a maneira como eu segurava o
livro na aula de leitura e concluiu que eu deveria fazer um exame de vista. Ela
não me enviou a uma clínica; levou-me a seu oftalmologista, não para fazer-me
caridade, mas como uma amiga.
Fiquei tão intrigada com os exames que não me dei conta exatamente do
que havia acontecido, até o dia em que ela me entregou os óculos, na escola.
- Não posso ficar com eles. Não tenho dinheiro para pagar - eu disse,
constrangida, diante da pobreza de minha família.
Ela me contou uma história:
- Quando eu era criança, uma vizinha comprou óculos para mim.
Ela disse que eu deveria pagar por eles, no dia em que eu comprasse
óculos para outra menina. Portanto, veja só. Os óculos foram pagos antes de
você nascer.
Em seguida, a professora me disse as palavras mais agradáveis que já
ouvi:
- Algum dia, você vai comprar óculos para outra menina.
Ela viu em mim alguém que faria isso. Tornou-me responsável.
Acreditou que eu teria algo a oferecer a outra pessoa. Aceitou-me como
membro do mesmo mundo em que ela vivia. Saí daquela sala, segurando firme os
óculos, não como alguém que recebeu uma caridade, mas como uma mensageira
confiável.
O PROFESSOR DAN
PAMELA
REEVE
Histórias Para o Coração 2 67
Oi, professor Dan! - disse, em coro, a classe lotada de alunos da
pré-escola.
Dan tem a aparência de um avô, com seus cabelos grisalhos, um grande
sorriso no rosto e olhos azuis que revelam um caráter bondoso.
Ele sorri e cumprimenta as crianças. Duas vezes por semana, ele faz uma
breve visita àquela escola, antes de se dirigir a outra sala de aula.
Ele passa pela garagem transformada em pré-escola, entra na casa e segue
até o hall. Pára diante de uma porta aberta. É uma classe sem quadro-negro e
sem quadro de avisos. Não existem fileiras de carteiras nem sineta. É um quarto
extra da casa, onde há uma mesa grande para computador, um computador novo,
duas cadeiras e um sofá.
Seu aluno, Jason, está sentado diante do computador. Os cabelos
ondulados e escuros se agitam de um lado para o outro enquanto Jason acompanha
com o corpo os movimentos do seu cantor de rock favorito. Longos dedos tocam um
piano imaginário enquanto ele ouve a música.
Dan aguarda.
Jason é um menino puro. Muitas pessoas diriam que a vida não foi justa
com ele; Jason passou parte de seus 18 anos sofrendo de convulsões. Quando ele
chegou à puberdade, as convulsões aumentaram tanto, em frequência e
intensidade, que ele precisou passar a receber aulas em casa. Sua fala é lenta
e moderada. Os passos são trôpegos. Sua capacidade de transformar pensamentos
em palavras é demorada por causa do problema que afeta seu cérebro.
Dan, um professor aposentado, com especialidade em ensino para
excepcionais, passa dois dias por semana lecionando para Jason, que acaba de
iniciar seus estudos no curso médio, e é mais alto que seu professor, que mede
1,80m. O formato quadrado do rosto de Jason confere-lhe uma fisionomia bonita.
Ele gosta de provocar os outros e adora fazer brincadeiras. Também possui
perfeito entendimento do que é certo e errado, e sua fé em Deus é firme.
Os movimentos de Jason são um tanto desencontrados quando ele se vira
para ver Dan. Ambos têm esperança de que Jason não terá nenhuma convulsão
durante os 90 minutos de aula.
Com voz grave e tranquila, ele cumprimenta o professor.
- Oi, D-an.
- Como você está hoje? - Dan pergunta.
- Ó-timo. Sen-ti a su-a fal-ta outro di-a. Que b-om que vo-cê já sa-rou.
- Eu preferia ter vindo a ficar em casa cuidando de uma gripe.
- A gri-pe é ter-rí-vel.
- Ótimo, Jason. Estou gostando de ver você usar palavras novas.
Acho que "terrível" é uma de suas prediletas, não?
Jason sorriu. - Eu gos-to de ter-rí-vel.
- Bem, podemos começar?
Como qualquer outro adolescente faria, Jason protela um pouco.
- Vo-cê sa-bia que não es-tão mais fa-zen-do ba-na-nas?
- Por que, Jason? Por que não estão mais fazendo bananas?
Jason ri e bate na mesa com a palma da mão. - Por-que nin-guém faz
ba-na-nas. E-las nas-cem na ba-na-nei-ra.
Ele pega sua pequena toalha e enxuga a boca. Seus olhos brilham ao ver
q~ Dan gosta da brincadeira.
- Esta foi boa, Jason. Eu caí mais uma vez.
Dan sentiu-se muito orgulhoso por Jason ser capaz de fazer esse tipo de
brincadeira, fazendo sempre a pergunta certa.
Depois de conversar sobre os acontecimentos recentes, Jason deve
escrever três frases sobre o que eles falaram. O tempo passa... cinco
minutos... dez... Nada acontece.
Dan aguarda.
Olhando para a cabeça curvada de Jason, ele diz:
- Jason, você está pensando no que deseja escrever?
Ele não responde. Olha para o teclado. Lentamente, começa a digitar uma
palavra. Depois de 25 minutos, ele consegue digitar três frases.
Gramaticalmente, elas não são frases completas - apenas frases de cinco a dez
palavras.
Dan ouve Jason ler as frases em voz alta. Ambos conversam sobre as
modificações que podem ser feitas. Jason não gosta de cometer erros. Ele tenta,
de todas as maneiras, ser perfeito. Sua mente é ágil.
O problema é transformar os pensamentos em palavras. Apenas uma palavra
está correta. Eles fazem uma pausa de cinco minutos. O dia está indo bem.
- Vamos olhar seu dever de casa.
- De-ver de ca-sa é ter-rí-vel!
- Acho que você aprendeu bem essa palavra.
Depois das lições, Jason escolhe um jogo educativo, no computador, para
desafiar Dan. Novamente, Jason vence.
- D-an, faz qua-se dois a-nos que vo-cê é meu pro-fes-sor.
Isso é muito significativo para Jason. Dan tem levado solidariedade à
vida de Jason - algo de que ele necessitava após ter tido quatro professores em
um só ano.
Os 90 minutos terminaram. Dan pergunta:
- Qual é o seu dever de casa para quinta-feira?
- Ter-rí-vel ma-te-má-ti-ca - ele responde.
Os dois riem. Dan pega sua maleta, e Jason o acompanha até a porta.
- Até quinta-feira.
- A-deus, Dan.
Jason permanece em pé, na porta, e acena. Ele aprecia o tempo que passou
com Dan, porque é tratado com dignidade e respeito.
--Dan coloca a maleta no banco traseiro do carro. Quando ele se vira,
Jason está vindo em sua direção. A garoa fina molha sua camiseta.
- Jason, tome cuidado - adverte Dan, falando com calma. Devagar! Cuidado
para não cair!
Jason acabou de se recuperar de uma cirurgia na mandíbula resultado de
uma queda.
Jason continua a andar, e Dan vai ao encontro dele.
O rapaz aproxima-se de Dan e dá-lhe um enorme abraço. Jason nunca havia
demonstrado esse tipo de sentimento. Dan retribui o abraço e o conduz
carinhosamente de volta a casa. Enquanto caminha em direção ao carro, Dan ouve:
- Eu a-mo vo-cê, D-na. O professor Dan afasta-se dali. Lágrimas umedecem
os cantos de seus olhos. Se Jason tivesse sido seu único aluno, já teria valido
a pena ser professor.
O RESTAURADOR
Ruth
Reli Graham
Histórias Para o Coração 2 71
Ele construiu uma casa imponente para si mesmo, numa das ilhas do
Caribe. É uma casa digna de ser contemplada, com vistosas colunas de ferro com
sinais de ferrugem, restauradas por meio de uma engenhoca doméstica. A Casa
Imponente é uma obra-prima feita com sucata.
Além de ser colecionador e vendedor de sobras de metal e de
antiguidades, ele também é um homem fascinado por objetos de louça quebrados,
escavados do jardim de sua casa. Seus amigos, John e June Cash, comentaram,
sorrindo, que foi a primeira vez que ouviram falar de uma venda feita no
jardim, em que o homem vendeu o próprio jardim. Ele ajuntou cuidadosamente os
cacos e os colou. Poucos deles conseguiram formar uma peça inteira. Eles
simplesmente continuam a fazer parte da coleção de alguém que se preocupa em
ajuntá-Ios.
Quando manifestei interesse, ele me ofereceu um prato azul e branco,
colado com muito cuidado - faltando alguns pedaços.
- Você me faz lembrar Deus - eu disse.
Pela expressão de seu rosto, percebi que o havia chocado, e apressei-me
em explicar:
- Deus cola carinhosamente os cacos da vida. Às vezes, um deles se perde
irremediavelmente. Mesmo assim, Deus ajunta os que Ele pode e nos restaura.
VISÃO DE LONGO ALCANCE
Howard
Hendricks
Histórias Para o Coração 2 72
Quando eu era menino, gostava de andar a esmo pelo parque perto de casa
e observar alguns homens idosos jogando damas.
Certo dia, um deles convidou-me para jogar. A princípio, o jogo parecia
fácil. "Comi" uma peça dele e, depois, outra. De repente, ele pegou
uma peça e foi saltando várias outras pelo tabuleiro, até chegar ao lado
oposto, e gritou:
- Fiz uma dama!
Após dizer isso, ele "comeu" todas as minhas peças.
Naquele dia, aprendi o que significa visão de longo alcance.
Ninguém se importa em perder algumas peças se estiver com os olhos fixos
no lado oposto do tabuleiro, ou seja, no território da dama.
O CASACO VERMELHO
Melody
Carlson
Histórias Para o Coração 2 73
Era um dia frio e ventava muito. O outono chegava ao fim, tendo o
inverno em seu encalço. Ela foi buscar Abby na escola, e ambas pegaram o ônibus
rumo ao centro da cidade. Abby usava um casaco que pertencera à sua prima,
Linda Sue. Estava em boas condições de uso, com a gola de pele de coelho um
pouco surrada. As duas saltaram do ônibus, e ela segurou a mão de Abby, para
chegarem ao outro lado da rua. O vento revolveu uma folha de jornal e
atravessou seu ralo casaco marrom - o mesmo casaco que ela comprara pouco antes
da guerra. A moda havia mudado, desde então, e as barras subiam e desciam, como
se fossem um elevador. Agora, pouco havia sobrado do casaco para ser alterado
de acordo com a moda, e sua saia aparecia por baixo dele, como se fosse
franzida.
John voltou para casa em setembro, e o único emprego que conseguiu foi o
de vigia no hospital. Ele esperava começar a estudar à noite, em janeiro; o
estudo parecia ser a porta de entrada para um emprego melhor. Ultimamente, ele
havia poupado algum dinheiro e, naquela manhã, lhe entregou 12 dólares,
dizendo:
- Vá até a loja Harricks e compre um bom casaco de inverno para você.
Ela aceitou o dinheiro, imaginando que seria muito difícil encontrar um
casaco por 12 dólares. Sabia que as intenções dele eram boas, mas teria sido
bem melhor se o dinheiro ficasse guardado debaixo do colchão, para acudi-Ios em
tempos de necessidade. O Senhor sabia que eles teriam muitos desses dias pela
frente.
Ela e Abby entraram na Harricks e, de repente, ela se lembrou de que costumava
fazer compras ali com sua mãe, quando o dinheiro era farto, antes de casar-se
com John, contra a vontade da família. Agora, a loja parecia um local estranho,
e ela se sentia uma intrusa.
- Posso ajudá-la? - perguntou uma mulher de formas arredondadas, que
esticava um par de luvas sobre o balcão.
- Não, obrigada. Eu só queria dar uma olhada.
De nada adiantaria contar que estava à procura de um casaco, tendo
apenas 12 dólares na bolsa. A mulher poderia achar graça.
Ela atravessou a loja, fingindo olhar muitas coisas bonitas. Abby
apontou para um vestido de baile azul-pavão e disse:
- Aquele vestido ficaria lindo em você, mamãe.
Ela acariciou os cabelos lisos e castanhos da filha, da mesma cor que os
seus, e sorriu. Finalmente, chegaram aos fundos da loja, e ela deu meia-volta,
pronta para desistir, sentindo um alívio misturado com desapontamento. Em um
dos cantos, porém, havia um cavalete com vários artigos pendurados e uma
tabuleta onde se lia: Liquidação.
Ela olhou para o cavalete, e uma peça vermelha lhe chamou a atenção.
Era um casaco de lã em um lindo tom vermelho, ou melhor,
vermelho-escuro. Ela retirou o cabide do cavalete e procurou o preço na
etiqueta. Apesar de ser artigo de liquidação, deveria custar muito caro.
- Mamãe, a etiqueta diz que ele custa 12 dólares! - disse Abby, com
alegria, segurando a manga onde havia uma etiqueta amarela. Você pode comprar
este casaco, mamãe. Veja só o preço!
- Ora, acho que ele está com a etiqueta errada. É muito bonito.
Deve ter havido algum engano.
- Experimente, mamãe. Veja se serve - disse Abby, puxando a manga do
velho casaco dela.
- Acho que o manequim não é o meu.
Em seguida, ela tirou o casaco velho e vestiu o vermelho. Não sabia
explicar por que razão, mas o casaco tinha a textura de mel. Era maravilhoso.
- Serviu, mamãe. E é lindo. Você parece uma princesa.
Abby puxou-a em direção ao espelho. Parecia um artigo fino,
provavelmente fino demais. E talvez aquele tom vermelho, apesar de ser lindo,
fosse muito berrante para uma mulher de quase 30 anos.
Ela pendurou o casaco de volta no cabide e afastou-se um pouco, para
examiná-lo novamente. Era um modelo bonito, com casas bem-acabadas e botões
grandes de madrepérola. A textura de mel era resultado do forro macio e
resistente de cetim.
- Você vai comprar o casaco, mamãe?
- Ah, não sei, Abby. Acho que deve haver algum engano. Este casaco é
muito bem-feito. O preço marcado na etiqueta deve estar errado. Casacos como
este não ficam pendurados no setor de liquidação, principalmente no mês de
novembro.
- A etiqueta diz que ele custa 12 dólares e deve estar certa. - Abby
cruzou os braços e bateu os pés no chão com impaciência. - Papai disse que você
deveria comprar um casaco. É melhor você comprar este aqui.
Ela sorriu para Abby, colocou o casaco no braço e dirigiu-se ao balcão,
onde uma senhora idosa estava sendo atendida. A vendedora colocou
cuidadosamente dentro de uma caixa um chapéu de feltro marrom com uma longa
pena preta e registrou o preço na máquina. A gaveta abriu-se automaticamente.
- São 32 dólares - disse a vendedora.
A senhora preencheu o cheque em um piscar de olhos. Pegou a caixa e
despediu-se da vendedora.
- Posso ajudá-la? - perguntou a vendedora gentilmente, com as mãos
estendidas na expectativa de pegar o casaco.
- Não, eu... eu acho que vou dar mais uma olhada.
Ela se afastou e examinou mais uma vez o casaco. O preço na etiqueta
devia estar errado. Se um chapéu sem graça valia 32 dólares, como o casaco
poderia custar só 12?
- O que você está fazendo, mamãe? - queixou-se Abby, acompanhando-a de
volta ao setor de liquidações.
- Querida, eu sei que houve um engano. Não se pode comprar um casaco
como este por 12 dólares. Não há razão nem para perguntar.
Nós ficaríamos com cara de bobas.
- Mas a etiqueta diz...
- Silêncio, querida, não faça uma cena aqui.
Ela olhou ao redor. Agora, havia várias compradoras por perto. Ela
reconheceu Lily Andrews, uma senhora da igreja. Estava morando havia pouco
tempo na cidade, e seu marido era médico. A Sra. Andrews sorriu para elas e
caminhou em direção ao cavalete. Parecia estranho que uma pessoa tão abastada
demonstrasse interesse por artigos em liquidação. A Sra. Andrews parou perto do
casaco vermelho e tirou-o do cavalete.
- Posso ajudá-la? - perguntou a vendedora.
- Que casaco lindo! E custa só 12 dólares?
- Exatamente. É do ano passado. Alguém o devolveu em julho, acredite se
quiser. Uma mulher o guardou durante o inverno inteiro e nunca o usou. Nem
chegou a tirar a etiqueta. O proprietário da loja quis ficar livre deste casaco
porque ele saiu de moda. O preço é uma pechincha...
Ela não quis ouvir mais nada. Pegou Abby pela mão e a conduziu para
fora.
- Mas mamãe, aquele casaco é seu...
- Silêncio, querida...
As lágrimas fizeram seus olhos arder por causa do vento frio que soprava
lá fora. Ainda era cedo para que o ônibus retornasse, mas elas o aguardaram
sentadas no banco do ponto do ônibus, encostando-se uma na outra para se
aquecerem.
- Por que você não comprou o casaco, mamãe? - A voz de Abby era triste.
- Eu não sei, querida...
Como dizer à filha que ela havia sido uma tola? Além de tola, orgulhosa
demais para perguntar. Como explicar a John que sua filha de oito anos tinha
mais percepção do que ela própria? Ela tremia de frio. Merecia passar outro
inverno com aquele casaco velho e surrado. Serviria de lição para ela!
- Com licença - disse alguém.
Ela ergueu a cabeça e viu Lily Andrews. - Pois não.
- Sei que isto vai parecer muito estranho. E, creia-me, não costumo
fazer coisas como esta. Mas senti um forte impulso de dar isto a você.
Não tenho ideia do motivo... - disse ela entregando-lhe uma sacola.
- Eu não estou entendendo...
- Nem eu. Mas foi como se Deus me tivesse pedido para fazer isto.
Sei que é muito estranho, e você vai pensar que sou louca... - É
estranho mesmo. - Ela olhou dentro da sacola. - Eu quase comprei este casaco
alguns minutos atrás. Por favor, quero pagar por ele. - Ela pegou a bolsa para
abri-la.
- Não, por favor. Senti a necessidade de dar este casaco a você.
Não quero que me pague. Sinto muito. Devo estar parecendo uma louca...
O rosto da Sra. Andrews estava vermelho e havia lágrimas em seus olhos.
- Mas eu não posso ficar com ele. Parece um ato de caridade.
- Não, não é um ato de caridade. Dê o dinheiro a alguém que esteja
necessitando, se você quiser. Só sei que devo dar este casaco a você.
Sinto muito se estou parecendo maluca. Talvez eu me sinta muito sozinha,
mas é a primeira vez que ouvi Deus me dizer para eu fazer alguma coisa. Você
precisa aceitar. Pense no casaco como se fosse um presente de Deus. Como a fé.
Esta história aconteceu quatro décadas atrás. Ela usou o casaco durante
muitos invernos. Ele ficou tão fora de moda que até Abby pediu que ela o
deixasse de lado. Mas ela nunca quis desfazer-se dele. Ficou guardado em um baú
durante muitos anos, e ela só se lembrou dele na semana anterior, quando o Dr.
Andrews morreu. Ela queria fazer alguma coisa especial por sua amiga Lily.
Agora, estava, cuidadosamente, cortando retalhos para fazer uma manta para sua
boa amiga colocar em cima das pernas. Esperava que a manta a aquecesse e
servisse para lembrá-Ia de que a fé pode ser encontrada nas pequenas coisas,
como, por exemplo, casacos de lã vermelhos e amizades que atravessam anos.
As
cores dos quadrados e triângulos da manta estão amontoadas sobre o seu colo,
como se fossem joias. Retalhos amarelos da cor de ouro, verdes e vermelhos. Ela
passa a mão sobre uma pilha de retalhos de lã
vermelho-escuros
e sorri. Esta é exatamente a cor da fé.
A JOVEM VIÚVA
Alice
Gray
Histórias Para o Coração 2 78
Seu marido morreu em um acidente, e ela ficou sozinha com dois filhos
pequenos para criar. No início, foi cercada de amigas preocupadas e solidárias.
Elas lhe traziam refeições, enviavam cartões, telefonavam, oravam. Então, as
semanas se transformaram em meses, e, agora, parecia que o mundo inteiro havia
esquecido o que tinha acontecido. Ela ansiava por ouvir o nome do marido ser
mencionado nas conversas, ansiava por conversar sobre seus passos largos
durante as caminhadas, sobre a vivacidade de seu riso fácil e o calor de suas
mãos fortes entre as dela. Ela queria que os vizinhos viessem até sua casa
pedir emprestadas as ferramentas dele, ou que algum rapaz mais velho fosse
jogar basquete com seus filhos.
Era o início da manhã do primeiro aniversário da morte do marido.
O orvalho ainda estava úmido sobre a relva quando ela atravessou o gramado
do cemitério. De repente, ela avistou alguma coisa perto do túmulo dele. Alguém
havia estado lá antes dela, e deixou ali um pequeno buquê de flores
recém-colhidas, amarradas com uma fita.
Um ato de gentileza e carinho que tocou seu coração solitário como se
fosse um terno abraço. Com lágrimas correndo pelo rosto, ela leu o bilhete sem
assinatura. As palavras diziam simplesmente: "Eu também me lembrei."
A HISTÓRIA DE MICHAEL COMEÇA
AOS SEIS ANOS DE IDADE
Charlotte
Elmore
Histórias Para o Coração 2 79
Desesperada, perguntei se ele poderia ser submetido a um novo teste. Ela
meneou a cabeça e disse não. Na tentativa de mostrar quanto Michael era
"normal", comecei a contar a ela todas as coisas que meu filho sabia
fazer bem. Ela, porém, não deu atenção aos meus comentários e levantou-se,
dispensando-me.
- Michael vai ficar bem - ela disse.
No final daquele mesmo dia, depois que Michael e Linda, sua irmãzinha de
três anos, estavam dormindo, contei a Frank, entre lágrimas, o que ficara
sabendo. Depois de discutirmos o assunto, concordamos que nosso filho estava
acima de um teste de QI.
Concluímos que a fraca pontuação de Michael no teste devia ter sido um
engano.
Da mesma forma que eu, Frank não podia acreditar que nosso filho fosse
"quase retardado". Ele me contou algumas coisas que Michael tinha
feito recentemente que provavam que nosso filho era inteligente... Frank disse
que, certa noite, Michael demonstrou interesse nas plantas de engenharia que
ele estava projetando. Frank pegou alguns blocos para fazer casinhas de
brinquedo e desenhou duas plantas bidimensionais. Em seguida, ele pediu a
Michael que separasse os blocos próprios para cada desenho. Frank disse que
ficou satisfeito ao ver a facilidade com que nosso filho conseguiu separar os
blocos e montar casinhas com base nos diagramas que acompanhavam o brinquedo.
Em 1962, mudamo-nos para Fort Wayne, Indiana, e Michael ingressou no
Colégio Luterano Concórdia. Suas notas garantiram-lhe vaga nos cursos
preparatórios para a faculdade, que incluíam Biologia, Latim e Álgebra. Quando
nosso filho estava na primeira série, fomos informados de que ele jamais seria
capaz de aprender álgebra. Biologia passou a ser sua matéria preferida. Ele
começou a contar a todos que iria ser médico.
Michael ingressou na Universidade de Indiana, em Bloomington, em 1965,
como aluno do curso pré-médico. No meio do ano, após ter obtido uma média de
3,47, ele conseguiu fazer parte da lista do reitor, e o conselheiro do corpo
docente lhe concedeu permissão especial para assistir a um número de aulas
maior que o recomendado.
Michael conquistou os créditos necessários para ser aceito na Escola de
Medicina da Universidade de Indiana, em Indianápolis, no final daquele ano.
Durante seu primeiro ano na Faculdade de Medicina, Michael foi submetido
a um novo teste de QI e alcançou 126 pontos, ou seja, 36 pontos a mais do que
ele alcançara no teste anterior, um nível aparentemente inatingível para ele.
No dia da formatura - 21 de maio de 1972 -, Frank, Linda e eu
comparecemos à cerimônia e abraçamos nosso Dr. Mike! Depois de encerrada a
solenidade, contamos a Michael e a Linda sobre o baixo número de pontos
atingido por Michael, quando ele foi submetido a um teste de QI, aos seis anos
de idade, e o que havíamos planejado fazer. A princípio, os dois pensaram que
estivéssemos brincando. A partir daquele dia, Michael, às vezes, olha para nós
e diz com um largo sorriso:
- Meus pais nunca me contaram que eu não poderia ser médico...
Isto é, só me contaram depois que recebi o diploma na Faculdade de
Medicina!
Esta é a maneira de nosso filho nos agradecer a fé que depositamos nele.
Costuma-se dizer que, no decorrer da vida, as crianças tornam-se naquilo
que os adultos esperam delas. Se você chamar uma criança de "idiota",
talvez ela passe a representar esse papel. De vez em quando, nós nos
perguntamos o que teria acontecido se tivéssemos tratado Michael como uma
criança "quase retardada", impondo limites aos seus sonhos.
MAIS UMA CHANCE
H.
Stephen Glenn e Jane Nelsen
Histórias Para o Coração 2 81
Jonas Salk, o grande cientista descobridor da vacina contra a
poliomielite, compreendeu o conceito de ser corajoso. Certa vez, alguém lhe
perguntou:
- Depois de ter conseguido esta façanha extraordinária, que pôs fim à
palavra poliomielite em nosso vocabulário, como o senhor encara seus 200
fracassos anteriores?
Sua resposta (parafraseada) foi:
- Eu nunca tive 200 fracassos na vida. Minha família nunca os considerou
fracassos. Eles serviram de experiência para que eu pudesse aprender mais.
Acabo de realizar minha 201ª descoberta.
Ela não teria sido possível se eu não tivesse aprendido com as 200
experiências anteriores.
Winston Churchill também foi um homem de coragem. Ele não se intimidava
diante de seus erros. Quando cometia um, ele o analisava cuidadosamente. Alguém
lhe perguntou:
- Sir Winston, qual foi a sua experiência na escola que melhor
preparou-o para liderar a Grã-Bretanha nas horas mais sombrias?
Winston pensou por alguns instantes e respondeu:
- Quando fui repetente no curso médio.
- O senhor considerou isso um fracasso?
- Não - replicou Winston. - Tive duas oportunidades para acertar.
CHEGAR JUNTO
Stu
Weber
Histórias Para o Coração 2 82
Corríamos todos os dias; mas aquela corrida foi especial.
Estávamos transpirando desde o momento em que saímos da cama, antes do
amanhecer, mas agora o suor gotejava por todos os poros de nossos corpos.
Evidentemente, tratava-se de um treinamento físico na escola de soldados da
tropa de choque do exército norte-americano, e esperávamos que o esforço fosse
enorme. Até mesmo que chegasse à exaustão. Mas, naquela manhã, não estávamos
correndo de camiseta.
Estávamos correndo com a farda completa. Como de costume, a palavra de
ordem era: "Saiam juntos, corram juntos, trabalhem juntos e cheguem
juntos. Se vocês não chegarem juntos, nem precisam se preocupar em
chegar!" Em algum lugar, ao longo da corrida, em meio ao esforço, à sede e
ao cansaço, meu cérebro registrou alguma coisa estranha em nossa formação.
Notei que, duas fileiras adiante de mim, um soldado corria fora do compasso.
Ele era um rapaz grandalhão, ossudo e ruivo, chamado Sanderson.
Suas pernas movimentavam-se com rapidez, mas suas passadas estavam
desencontradas das nossas. De repente, a cabeça dele começou a pender para um
lado e para o outro. O rapaz estava se esforçando demais. Quase a ponto de
perder o equilíbrio.
Sem perder o passo, o soldado à direita de Sanderson esticou o braço e
pegou o rifle do companheiro exausto. Agora, um dos soldados estava carregando
dois rifles nas costas. O dele e o de Sanderson. O grandalhão ruivo conseguiu
correr mais um pouco.
Mas, enquanto o pelotão continuava a avançar, a mandíbula do rapaz
arriou, seus olhos ficaram vidrados e as pernas movimentavam-se como pistons.
Em seguida, sua cabeça começou a pender novamente.
Desta vez, o soldado à sua esquerda esticou o braço, retirou o capacete
de Sanderson, colocou-o debaixo do braço e continuou a correr. O pelotão
prosseguiu. Nossas botas batiam na trilha de terra com som cadenciado.
Toc-toc-toc-toc-toc-toc.
Sanderson estava passando mal. Muito mal. Estava arqueado, prestes a
cair. Mas não caiu. Dois soldados atrás dele levantaram a mochila de suas
costas, e cada um segurou uma alça com a mão livre.
Sanderson reuniu as forças que ainda lhe restavam. Endireitou os ombros.
E o pelotão continuou a correr. Sempre em frente, até a linha de chegada.
Saímos juntos. Retomamos juntos. E todos nós nos fortalecemos com ISSO.
Chegar junto é melhor.
PRIORIDADES
Tony
Campolo
Histórias Para o Coração 2 84
Quando eu era garoto, conheci um homem que, para mim, parecia ser maior
que a vida. Seu nome era Edwin E. Bailey.
Ele dirigia o observatório astronômico do Instituto Franklin, da
Filadélfia. Eu ia ao Instituto Franklin quase todos os sábados, só para passar
um pouco de tempo com ele. Sua mente enciclopédica fascinava-me. Ele parecia
conhecer um pouco de tudo.
Minha amizade com Ed Bailey durou até o dia em que ele morreu, vários
anos atrás. Fui visitá-lo quando ele esteve internado no hospital, após ter
sofrido um grave derrame cerebral. Na tentativa de conversar sobre algumas
amenidades, comecei a falar dos lugares em que fiz palestras e contei que viera
direto do aeroporto pra- visitá-lo.
Ele me ouviu atentamente e, em seguida, disse-me de maneira um tanto
sarcástica:
- Você viaja pelo mundo inteiro para atender pessoas que, daqui a dez
anos, não se lembrarão de seu nome. Mas não reserva tempo para as pessoas que
realmente se importam com você.
Aquelas palavras simples me atingiram em cheio e mudaram minha vida.
Decidi, a partir de então, não permitir que meu tempo fosse gasto com pessoas
para quem eu não fizesse diferença, enquanto negligenciava aquelas para quem eu
era insubstituível. Recentemente, um
amigo meu recebeu um telefonema da Casa Branca, convidando-o a falar com o
presidente dos Estados Unidos.
Ele recusou, porque prometera passar aquele dia com sua netinha na
praia. O país sobreviveu sem ele, o presidente não sentiu sua falta, e sua
netinha passou momentos preciosos com o vovô.
As prioridades sempre devem ser respeitadas.
POR QUE SOU UMA MÃE ESPORTISTA
Judy
Bodmer
Histórias Para o Coração 2 91
Hoje é um sábado do mês de maio. Eu poderia estar em casa, acomodada no
sofá, assistindo a um bom filme de mistério. No entanto, estou sentada em um
banco frio de metal, na arquibancada de um campo de beisebol. Um vento gelado
atravessa minha jaqueta de inverno. Sopro as mãos para aquecê-Ias, arrependida
de não ter trazido minhas luvas de lã.
- Sra. Bodmer! - É a voz do treinador de meu filho. - Pensei que a
senhora gostaria de saber. Seu filho vai começar a jogar, hoje, no campo da
direita. Ele esforçou-se muito este ano. Achamos que merece a oportunidade.
- Obrigada - eu digo, orgulhosa de meu filho, que deu o máximo de si a
esse homem e a esse time. Sei quanto ele queria começar a jogar. Estou feliz
porque seu esforço está sendo recompensado.
De repente, sinto-me nervosa por ele. Vou até a lanchonete e peço um
chocolate quente. De volta ao meu lugar, seguro o copo entre as mãos, deixando
que a fumaça aqueça meu rosto.
Trajando uniforme branco com listras azuis, o time entra em campo. Todos
os jogadores são mais ou menos parecidos. Procuro o número da camisa de meu
filho. Ele não está ali. É Eddie quem está no campo da direita. Procuro mais
uma vez, sem acreditar. Sim, é Eddie, o jogador mais inexperiente do time. Como
pode ser? Olho para o treinador, mas ele está concentrado no jogo. Quero correr
até lá e perguntar o que houve, mas sei que meu filho não gostaria desta minha
atitude. Aprendi, ao longo dos últimos oito anos, como as mães devem
comportar-se. E conversar com o treinador, durante o jogo, é definitivamente
inaceitável.
Meu filho está agarrado à cerca que protege o banco das bolas desviadas
e grita palavras de incentivo a seus companheiros. Tento adivinhar seus
pensamentos, mas sei que ele aprendeu, como a maioria dos homens, a esconder
seus sentimentos.
Sinto o coração despedaçado. Tanto esforço, tanto desapontamento.
Não compreendo o que leva os garotos a passarem por situações como esta.
- É isso aí, Eddie - grita alguém por perto. É o pai de Eddie. Posso
vê-Io sorrindo, orgulhoso do filho. Movimento a cabeça de um lado para o outro,
porque já vi o mesmo homem sair da arquibancada quando seu filho deixou cair
uma bola ou fez um arremesso errado.
Mas, por enquanto, ele parece orgulhoso. Seu filho está em campo. O meu
está sentado no banco.
Quando chega o quarto turno, sinto os dedos da mão enrijecidos por causa
do frio, e os pés amortecidos, mas não me importo. Meu filho está sendo chamado
para jogar como rebatedor. Olho para o banco de reservas. Ele se levanta, pega
alguns capacetes e escolhe um. Por favor, eu oro, permite que ele consiga dar
uma rebatida indefensável.
Ele pega um bastão e se posiciona no campo. Eu me agarro ao banco de
metal enquanto ele se aquece, coloca as luvas e se dirige ao quadrilátero onde
o rebatedor deve ficar. O arremessador tem a aparência de um homem adulto. Eu
me pergunto se alguém conferiu sua certidão de nascimento.
Primeiro ponto para o adversário.
- Faça uma boa impulsão! - eu grito.
A bola vai ser arremessada.
- Fique atento! Fique atento!
Segundo ponto para o adversário.
O arremessador prepara-se para lançar a bola. Prendo a respiração.
Terceiro ponto para o adversário.
Meu filho abaixa a cabeça e se dirige lentamente para o banco de reservas.
Desvio o olhar, sabendo que não há nada que eu possa fazer.
Faz oito anos que me sento aqui. Já tomei litros e litros de um café de
gosto horrível, comi minha quota de cachorros-quentes feitos às pressas e
pipocas salgadas demais. Já sofri por causa do frio e do calor, engoli poeira e
fiquei debaixo de chuva.
Há quem se pergunte por que uma pessoa sensata passaria por tudo isso.
Não é porque desejo realizar meus sonhos de ser uma atleta famosa, por
intermédio de meus filhos. Também não é porque me sinto orgulhosa deles. Ah!
sim, houve momentos de orgulho. Já vi um ou outro filho meu fazer o gol da
vitória no futebol, destacar-se no beisebol, e fazer cestas memoráveis no
basquete. Mas, na maioria das vezes, tenho tido decepções.
Já fiquei em casa com eles, aguardando um telefonema de alguém que os
convocasse para jogar no time. Telefonemas que nunca chegaram. Presenciei meus
filhos sentados no banco de reservas, jogo após jogo, e, quando entraram em
campo, bateram a bola para fora. Já me sentei em salas de espera de
pronto-socorros quando um deles teve de engessar a perna ou tirar uma
radiografia do tornozelo inchado. Tenho visto treinadores gritando com eles.
Tenho me sentado aqui, ano após ano, observando tudo e fazendo perguntas a mim
mesma.
O jogo está terminado. Estico as pernas e tento me mexer para aquecer
meus pés congelados. O treinador vai ao encontro dos jogadores. Eles dão uma
espécie de grito de guerra e se dispersam para falar com seus familiares.
Observo o pai de Eddie dando um tapinha nas costas do filho, com um largo
sorriso no rosto. Meu filho quer comprar um hambúrguer. Enquanto eu o aguardo,
o treinador aproxima-se de mim. Não consigo olhar para ele.
- Sra. Bodmer, quero que saiba que seu filho é um ótimo garoto.
- Por quê? - eu pergunto, aguardando que ele explique por que despedaçou
o coração de meu filho.
- Quando eu disse a seu filho que poderia iniciar, ele me agradeceu e
recusou. Pediu-me que desse a sua vez a Eddie, porque aquilo seria muito mais
significativo para o seu companheiro.
Eu me viro e vejo meu filho dando uma mordida no hambúrguer.
Compreendo, então, por que eu gosto de ficar na arquibancada. De onde
mais eu poderia ver meu filho transformar-se em um homem?
PARA QUEM DEIXAREI MEU REINO?
Donald
E. Wildmon
Histórias
Para o Coração 2 94
Conta-se
que um rei muito poderoso estava ficando velho. Ele concluiu que era chegada a
hora de escolher, entre seus quatro filhos, um herdeiro do trono. Então,
chamou-os, um de cada vez, para discutir a sucessão de seu reinado.
Quando
o primeiro filho entrou na sala do trono e se sentou, o rei dirigiu-se a ele:
-
Meu filho, estou muito velho e não vou viver por muito tempo.
Quero
entregar meu reino ao filho que estiver mais capacitado a recebê-Io.
Responda-me: Se eu o nomeasse meu sucessor, o que você daria para o reino?
Aquele
filho era muito rico. Assim que foi feita a pergunta, ele respondeu:
-
Sou um homem muito abastado. Se o senhor me nomear seu sucessor, darei toda a
minha riqueza; e este será o reino mais rico do mundo.
-
Obrigado, filho - disse o rei, dispensando o rapaz.
Quando
o segundo filho entrou, o rei se dirigiu a ele:
-
Meu filho, estou muito velho e não vou viver por muito tempo.
Quero
entregar meu reino ao filho que estiver mais capacitado a recebê-Io.
Responda-me: Se eu o nomeasse meu sucessor, o que você daria para o reino?
Aquele
filho era muito inteligente. Assim que a pergunta foi feita, ele respondeu:
-
Sou um homem de grande inteligência. Se o senhor me nomear seu sucessor, darei
toda a minha inteligência; e este será o reino mais inteligente do mundo.
-
Obrigado, filho - disse o rei, dispensando o rapaz.
Quando
o terceiro filho entrou, o rei se dirigiu a ele:
-
Meu filho, estou muito velho e não vou viver por muito tempo.
Quero
entregar meu reino ao filho que estiver mais capacitado a recebê-Io.
Responda-me: Se eu o nomeasse meu sucessor, o que você daria para o reino?
Aquele
filho era muito forte. E, assim que a pergunta foi feita, ele respondeu:
-
Sou um homem de grande força. Se o senhor me nomear seu sucessor, darei toda a
minha força; e este será o reino mais forte do mundo.
-
Obrigado, filho - disse o rei, dispensando o rapaz.
O
quarto filho entrou e foi cumprimentado pelo rei, da mesma maneira que os
outros três.
-
Meu filho, estou muito velho e não vou viver por muito tempo.
Quero
entregar meu reino ao filho que estiver mais capacitado a recebê-Io.
Responda-me: Se eu o nomeasse meu sucessor, o que você daria para o reino?
Aquele
filho não era rico, nem inteligente, nem forte. Então, ele respondeu:
-
Meu pai, o senhor sabe que meus irmãos são muito mais ricos, mais inteligentes
e mais fortes do que eu. Enquanto eles passaram anos cultivando esses
atributos, eu tenho vivido no meio do povo deste reino. Fui solidário com as
pessoas, na doença e na tristeza.
E
aprendi a amá-Ias. Receio que a única coisa que eu tenha para dar ao seu reino
seja o meu amor pelo povo. Sei que meus irmãos têm muito mais a oferecer.
Portanto, não ficarei desapontado se não for nomeado seu sucessor. Simplesmente
continuarei a fazer o que sempre tenho feito.
Quando
o rei morreu, o povo aguardou com ansiedade a notícia de quem seria o novo rei.
E uma grande alegria, como nunca foi vista, tomou conta do reino quando o povo
soube que o quarto filho do rei havia sido nomeado como seu sucessor.
A MENSAGEM NO QUADRO-NEGRO MÁGICO
Liz
Curtis Higgs
Histórias
Para o Coração 2 96
Todos
os lugares da sala de espera do Departamento de Trânsito estavam ocupados
enquanto eu aguardava para renovar minha carteira de motorista. Crianças de
todas as idades andavam de um lado para o outro, explorando o local, da mesma
forma que meus filhos pequenos.
Na
época, Lillian era um bebê de colo (apesar de nunca parar no colo), e Matthew
tinha quatro anos e já estava começando a escrever algumas palavras. Ele nunca
saía de casa sem levar seu quadro-negro mágico. E aquela manhã não foi
diferente.
Incentivei
meu filho, um pouco tímido, a dirigir-se ao centro de uma sala onde havia
várias crianças brincando com uma pilha de livros e alguns joguinhos. Matthew
foi até lá, arrastando seu quadro-negro mágico. Uma criança mais nova estava
virando as páginas de um livro colorido, pelo qual Matthew passou a se
interessar. Instantes depois, meu filho arrancou o livro da mão da criança e
começou a folhear as páginas coloridas do livro, deixando o garotinho sem ter
com que brincar.
Até
aquele momento, eu me limitei a observar o desdobramento do pequeno drama. Mas
agora era chegado o momento de entrar em cena.
-
Matthew! - eu disse em voz baixa, porém firme. - O que você fez não foi bonito.
Peça desculpas ao garotinho e devolva o livro a ele imediatamente.
Com
ar de desolação, Matthew esticou o braço para devolver o tão precioso livro ao
garotinho, que reagiu como qualquer outra criança daquela idade reagiria,
dizendo algo parecido com" Odeio você! " e se afastou correndo.
Agora
Matthew estava realmente desolado; havia aborrecido sua mãe e deixara um menino
zangado com ele. Matthew sentou-se, por alguns instantes, olhando para um ponto
fixo enquanto raciocinava rápido. Em seguida, pegou o quadro-negro, escreveu
alguma coisa nele e, sem dizer nada, levantou-o para que a outra criança o
visse.
O
garotinho não lhe deu atenção, é claro, porque não sabia ler.
Mas
eu sabia. "Sinto muito", ele havia escrito. Tão simples! Tão
profundo! Matthew não conseguiu proferir as palavras, mas as escreveu. Ao ver
que o garotinho não reagiu conforme o esperado, Matthew levantou o quadro-negro
outra vez, com uma expressão de súplica no rosto. Mas de nada adiantou.
As
outras mães que estavam na sala começaram a observar o silencioso menino de
quatro anos, cabelos cor de trigo, segurando um quadro-negro onde se lia:
"Sinto muito." Não fui a única a piscar os olhos para conter as
lágrimas.
O
homem nunca revela seu caráter de modo tão claro
como
quando fala do caráter de outra pessoa.
JEAN
PAUL RICHTER
CONCURSO DE BELEZA
Carla
Muir
Histórias
Para o Coração 2 98
Uma
próspera empresa de produtos de beleza pediu aos habitantes de uma cidade
grande que enviassem fotografias, acompanhadas de uma breve carta explicativa,
das mulheres mais belas que eles conheciam. Em poucas semanas, milhares de
cartas foram enviadas à empresa.
Uma
carta, em particular, chamou a atenção dos funcionários e foi encaminhada ao
presidente da empresa. A carta era escrita por um menino que, evidentemente,
foi criado em um lar com problemas, em algum bairro de extrema pobreza. Este é
um trecho da carta, com as devidas correções de grafia:
"Na
minha rua mora uma mulher bonita. Eu vou à casa dela todos os dias. Ela me faz
sentir o menino mais importante do mundo.
Jogamos
damas juntos, e ela ouve meus problemas. Ela me entende e, quando vou embora,
sempre diz, bem alto na porta, que sente orgulho de mim." O menino
terminava a carta dizendo: "Esta fotografia mostra que ela é a mulher mais
bonita do mundo. Espero ter uma esposa tão bonita quanto ela." Intrigado
com a carta, o presidente pediu para ver a fotografia da mulher. Sua secretária
lhe entregou a foto de uma mulher sorridente, sem nenhum dente na boca, de
idade avançada, sentada em uma cadeira de rodas. O ralo cabelo grisalho estava
preso em formato de birote, e as rugas que marcavam seu rosto eram suavizadas
pelo brilho que vinha de seus olhos.
-
Não podemos usar a fotografia desta mulher - explicou o presidente, sorrindo. -
Ela mostraria ao mundo que nossos produtos não são necessários para uma mulher
ser bela.
BUQUÊ
DAVID
SEAMANDS
Histórias
Para o Coração 2 99
Certa
vez, alguém perguntou a Corrie ten Boom como ela lidava com todos os
cumprimentos e elogios que recebia, sem tornar-se uma pessoa orgulhosa. Ela
respondeu que considerava cada elogio recebido como uma linda flor de caule
longo. Depois de sentir deu perfume por alguns instantes, ela a colocava no
vaso com as outras flores. Todas as noites, antes de deitar-se, ela pegava o
findo buquê e o oferecia a Deus, dizendo:
-
Obrigada, Senhor, por permitir que eu sinta o perfume das flores, elas te
pertencem.
Corrie
ten Boom descobriu o segredo da genuína humildade.
MEDALHA OLÍMPICA DE OURO
Catherine
Swift
Histórias
Para o Coração 2 100
Sábado,
5 de julho de 1924, foi o dia em que teve início a oitava Olimpíada dos tempos
modernos. Depois que a Grécia sediou a primeira versão dos jogos, em 1896,
Paris foi a próxima cidade onde eles aconteceram, em homenagem ao barão francês
responsável pelo seu restabelecimento. Na primeira Olimpíada participaram 13
países.
Desta
vez, havia 45, e o estádio estava lotado com 60 mil espectadores.
Em
meio aos acenos e gritos de aplauso, ouviu-se o som agudo das gaitas de fole, e
os Highlanders (montanheses) da Rainha da Escócia entraram no estádio. Eles
chamaram a atenção com seus saiotes xadrez balançando e seus chapéus de pele de
urso. Por um momento, o público pareceu hipnotizado pela cena e pelo som; mas,
quando a equipe da Grã-Bretanha entrou marchando atrás da banda, os gritos de
aplauso foram mais altos ainda...
Naquela
época, ainda não tinha sido introduzida a cerimônia da tocha olímpica. mas
milhares de pombos foram soltos para voar pelo país inteiro, com a finalidade
de anunciar o evento.
Depois
dessa parte, foi proclamado o juramento olímpico e, em seguida, os 4 mil
competidores lotaram o gramado. Mais gritos de aplauso. Estava aberta a oitava
Olimpíada. Enquanto tudo isso se passava, Eric Liddell sofria grande pressão
para correr os 100 metros.
Na
verdade, o sofrimento não cessara desde alguns meses antes, quando ele disse
que não correria em um domingo. Mas, agora que ele estava em Paris, a crítica
passou a ser mais contundente.
Eric
foi ao encontro de Harold Abrahams, a última esperança dos britânicos de
ganharem uma medalha na corrida dos 100 metros, e desejou-lhe sucesso. Harold
era judeu, e seu dia de descanso religioso era o sábado. Eric respeitava isso e
compreendia que era certo Harold correr no domingo, embora fosse errado para
ele próprio. No domingo, 6 de julho, o jovem Abrahams, aluno da Universidade de
Cambridge, posicionou-se para a corrida eliminatória dos 100 metros. Naquela
mesma hora, Eric Liddell estava falando para uma congregação, na Scots Kirk
(uma igreja), do outro lado de Paris. Harold foi classificado nas duas
eliminatórias. No dia seguinte, ele estava pronto para a semifinal. Eric
encontrava-se entre os espectadores para aplaudi-lo na vitória. Chegou à corrida
final. e Harold saiu-se vitorioso. Alcançou a linha de chegada em 10,6
segundos. O estádio irrompeu em aplausos. Nenhum europeu havia conquistado uma
medalha de ouro naquele evento, e o próximo vencedor só apareceria 66 anos
depois.
Em
seu íntimo, Eric deve ter sentido uma ponta de arrependimento - mas a inveja
não fazia parte de sua personalidade. Ele estava feliz pelo sucesso de Harold.
Agora,
ele se sentia livre da crítica e em condições de concentrar-se em suas duas
corridas. As eliminatórias para a corrida dos 200 metros foram marcadas para a
terça-feira. Eric e Harold foram classificados para a final no dia seguinte.
Quarta-feira
foi outro dia de intenso calor. Eric estava posicionado ao lado de Harold e
quatro americanos. Os dois britânicos tiveram uma boa largada, mas, primeiro
um, depois o outro, ficaram para trás.
Dois
americanos alcançaram a linha de chegada, recebendo um a medalha de ouro, e o
outro, a medalha de prata. Eric ficou em terceiro lugar, e Harold chegou no
sexto e último lugar.
Isto
poderia parecer desastroso, mas foi um verdadeiro sucesso para Eric. A Escócia
nunca havia conquistado uma medalha de bronze numa corrida de 200 metros. E
toda a Grã-Bretanha nunca conquistara mais que um terceiro lugar e uma medalha
de bronze.
Chegou
à quinta-feira, dia das eliminatórias dos 400 metros.
Eric
saiu-se bem. Não chegou a brilhar, embora seu tempo tivesse melhorado em cada
eliminatória. No dia seguinte, ele melhorou mais ainda na semifinal. Mesmo
assim, apenas conseguiu a classificação. No dia anterior, numa das
eliminatórias, Imbach, da Suíça, bateu o recorde mundial ao vencer a corrida em
48 segundos.
Havia
seis finalistas: dois americanos, um canadense, e os dois britânicos: Guy
Butler e Eric Liddell...
Como
sempre, Eric apertou a mão dos competidores desejando-lhes boa sorte. Este era
um ritual que os dirigentes estavam começando a impor, embora o povo ainda
achasse estranho ver um atleta desejando boa sorte a seu rival - mas eles não
conheciam o homem que havia dentro de Eric...
Nos
últimos instantes antes da largada, enquanto os atletas estavam se aquecendo,
um som agudo tomou conta do estádio, sem nenhum aviso. Os tambores e as gaitas
escocesas dos Highlanders da Rainha começaram a tocar "Os Campeões Estão
Chegando".
O
organizador da equipe britânica, Sir Philip Christison, havia notado certo
desânimo entre os patrocinadores britânicos e imaginou que um pouco de música
poderia incentivá-Ios. Talvez animasse Eric Liddell também. Afinal, ele era
escocês e o som das gaitas de fole certamente faria seu sangue correr mais
rápido nas veias - no exato momento em que ele mais necessitava.
...Finalmente,
a música cessou. O tenso silêncio só foi quebrado pelo estampido do tiro de
partida, e Eric assumiu a dianteira.
Ninguém
podia acreditar no que estava vendo. Imediatamente ele ganhou três metros de
distância, correndo naquele estilo feio que lhe era peculiar. Ele parecia um
nadador debilitado, tentando permanecer na superfície e esforçando-se para
receber um pouco de ar; lutando com braços e pernas.
Todos
sabiam que ele não conseguiria manter aquele ritmo. Um atleta especializado em
100 metros não podia fazer o que ele estava fazendo. Mesmo assim, ele
prosseguiu. Guy Butler também estava dando tudo de si. Por alguns instantes, o
público pareceu hipnotizado.
De
repente, o inesperado aconteceu. Fitch, um dos americanos, passou à frente de
Butler e começou a aproximar-se cada vez mais de Eric, que ainda mantinha a
liderança. Porém, novamente o inesperado: Eric começou a correr mais rápido
ainda.
Ele
foi se aproximando cada vez mais da linha de chegada sem vê-la. Sua cabeça
estava jogada para trás, com os olhos fitando o céu. Uma profusão de bandeiras
britânicas foi erguida entre os espectadores, que as agitavam incentivando-o à
vitória.
De
repente, depois de um tempo que pareceu levar séculos, a corrida dos 400 metros
terminou. Eric Liddell alcançou a linha de chegada com uma vantagem de cinco
metros sobre Fitch, seguido de Guy Butler, que, apesar de machucado, chegou em
terceiro lugar e ganhou a medalha de bronze.
Os
gritos da multidão podiam ser ouvidos por toda a Paris. De repente, uma voz
ecoou no alto-falante, para anunciar que Eric havia batido um novo recorde
mundial de 47,6 segundos. Desta vez, os aplausos foram tão ensurdecedores que
pareciam atravessar o Canal da Mancha...
Sir
Philip Christison tinha certeza de que o comovente som das gaitas de fole e dos
tambores, naquele dia, haviam incentivado o jovem escocês de 22 anos. Eric,
porém, sabia que o motivo era outro.
Seu
sucesso foi conseguido graças a algumas palavras simples escritas em um pedaço
de papel.
-
Nos dias que antecederam as corridas, um massagista foi nomeado oficialmente
para cuidar dos atletas britânicos. Ele conhecia Eric muito bem e gostava
imensamente dele.
Na
tentativa de demonstrar quanto admirava o atleta, o massagista aproximou-se de
Eric no momento em que ele saía do hotel, rumo ao Estádio Colombes, e lhe
entregou uma folha de papel dobrada.
Posteriormente,
em um dos poucos momentos tranquilos daquele dia, Eric desdobrou a folha de
papel, onde se lia: "No antigo livro se lê: Aquele que me honrar, eu o
honrarei'. Meus melhores votos de sucesso constante." Para os Jogos
Olímpicos de 1924, foi criado um lema especial, que dizia: "Citius!
Althius, Fortius", cujo significado é "Mais Rápido, Mais Alto, Mais
Forte". E não havia outro atleta mais merecedor desse lema do que Eric
Liddell.
A BARRA DE DOCE
Doris
Sanford
Histórias
Para o Coração 2 104
Havia
uma senhora que trabalhava num escritório que se localizava num dos altos
edifícios de Londres. Todos os dias, à hora do café, ela descia até a
lanchonete, que ficava no primeiro andar, e comprava uma barra de doce Kit Kat,
na máquina automática, e uma xícara de café. Aquele dia não foi diferente.
Depois de encontrar uma mesinha vazia num dos cantos, e nela acomodar-se, ela
curvou o corpo para procurar alguma coisa na bolsa. Quando ergueu os olhos,
havia um cavalheiro sentado diante dela, na mesma mesinha.
Ele
segurava uma xícara de café, uma rosquinha e estava levando à boca o Kit Kat
que ela comprara. Ele não se desculpou, não ofereceu nenhuma explicação.
Simplesmente comeu o doce.
Ela
ficou surpresa e irritada; mas não disse uma só palavra.
Tomou
o café o mais rápido possível. No entanto, quanto mais pensava no assunto, mais
zangada ela ficava. Finalmente, a senhora levantou-se para sair e passou a mão
no restante da rosquinha que ele estava comendo, enfiando-a na boca. As únicas
palavras que ela encontrou para dizer foram:
-
E agora? Você aprendeu a lição?
Ela
marchou de volta para o escritório, onde abriu novamente a bolsa. Para seu
enorme espanto, lá estava, bem à vista, o Kit Kat que havia comprado!
O QUE VOCÊ ESTÁ OUVINDO
Tim
Hansel
Histórias
Para o Coração 2 105
Um
indiano caminhava pelo centro de Nova York, acompanhado de um amigo que morava
naquela cidade. De repente, o indiano disse:
-
Eu ouvi um grilo!
-
Ora, você está maluco - replicou o amigo.
-
Não, eu ouvi um grilo. Ouvi, sim! Tenho certeza.
-
Agora é meio-dia. Aqui há pessoas andando apressadas, carros buzinando, táxis
dando freadas bruscas, barulhos comuns da cidade.
Tenho
certeza de que você não ouviu grilo nenhum.
-
Claro que ouvi.
O
indiano parou um pouco para prestar atenção. Em seguida, caminhou até a
esquina, do outro lado da rua, e começou a olhar ao redor. Finalmente, num dos
cantos, ele avistou um arbusto plantado em uma jardineira de cimento. Embaixo
da folhagem havia um grilo.
O
amigo ficou atônito. Mas o indiano disse:
-
Não, meus ouvidos não são diferentes dos seus. Depende do que estamos ouvindo.
Veja, eu vou lhe mostrar.
Ele
enfiou a mão no bolso, retirou um punhado de moedas de vários tamanhos e as
jogou no concreto.
Todos
os que estavam até a distância de um quarteirão viraram a cabeça para olhar.
-
Você entendeu o que quero dizer? - perguntou o indiano, recolhendo as moedas do
chão. - Tudo depende do que você está ouvindo.
A BOA AÇÃO
Recontada
por Nola BerteIson
Histórias
Para o Coração 2 107
Jeff,
de 11 anos de idade, com o restante do grupo dos escoteiros fizeram uma
"boa ação" para terminar um projeto e receber um distintivo pelos
serviços prestados. Os meninos reuniram-se na casa do Sr. e da Sra. Meyers e
passaram algum tempo retirando a neve e o gelo da varanda e da calçada do casal
de idosos.
Mas,
por um motivo ou outro, Jeff não ficou satisfeito. Ele sentiu que havia certa
hipocrisia no serviço feito e resolveu discutir o assunto com o chefe do grupo
dos escoteiros:
-
Eu acho que não ajudei muito aquele casal. Parece que fizemos a boa ação só
para ganharmos pontos para o jogo.
-
É melhor você voltar lá e ver com os próprios olhos o que pode fazer para
ajudar o casal - sugeriu o experiente chefe. - E, se você não contar a ninguém,
também não vai ganhar "pontos" por isso.
Para
Jeff, aquilo parecia ser a solução perfeita. Passaram vários dias antes que
Jeff se cingisse de coragem para retornar àquela casa.
Quando,
finalmente, bateu à porta da residência do casal, ele estava nervoso, mas
determinado a levar até o fim a uma boa ação.
Foi
a Sra. Meyers quem abriu a porta. Depois de ouvi-Io com atenção, ela recusou
educadamente a oferta de Jeff para ajudar.
Contudo,
o Sr. Meyers estava ouvindo o diálogo de longe.
-
Você pode nos ajudar em uma coisa - ele disse, com voz animada, fazendo um
gesto para que Jeff o acompanhasse à cozinha. O Sr.
Meyers
estava realizando vários trabalhos que necessitavam da ajuda de braços e pernas
vigorosos. Jeff foi encarregado de transportar objetos do porão para cima e
vice-versa e subir na escada para alcançar as prateleiras e os cantos mais
altos. Naquela noite, quando caiu na cama, Jeff estava muito cansado. Porém,
mais satisfeito com seu trabalho atual do que quando ajudou a retirar a neve.
No
dia seguinte, depois das aulas, Jeff retomou à casa dos Meyers.
Desta
vez, o casal estava disposto a aceitar sua ajuda para várias tarefas.
Dias
depois, ele retomou à casa pela terceira vez. - Hoje não há nenhum serviço -
disse a Sra. Meyers.
Jeff
sentiu-se melindrado por alguns momentos. Mas, em seguida, ouviu o Sr. Meyers
dizer com um brilho nos olhos:
-
Hoje temos uma surpresa para você.
Após
ter dito isto, eles o conduziram a uma pequena sala de jantar, onde havia uma
mesa elegantemente arrumada para três pessoas, com toalha de renda, flores e
uma bandeja de prata contendo biscoitinhos em formato de triângulos. Jeff ficou
realmente surpreso.
Lembrando-se
das boas maneiras, puxou uma cadeira para a Sra.
Meyers
se sentar.
-
São biscoitinhos de pobre - disse a Sra. Meyers, passando a bandeja de prata a
Jeff.
-
Por que a senhora chama estes biscoitinhos assim? - ele perguntou, pensando no
nome estranho dado àqueles petiscos.
Quem
respondeu foi o Sr. Meyers:
-
Depois que a gente compra todos os ingredientes, fica pobre!
Iniciou-se,
então, uma hora ou mais de risadas e conversas.
Enquanto
o casal lhe mostrava fotografias e contava histórias da família que agora
morava longe, o coração de Jeff enterneceu-se ao compreender a solidão que
havia naquela casa. Ele decidiu passar por lá com frequência para" dar uma
ajuda".
Durante
o tempo em que cursou o ensino médio, Jeff continuou a encontrar motivos para
visitá-los. Sempre havia alguma coisa para ele fazer. No intervalo entre cortar
a grama, varrer as folhas, limpar a neve, capinar o jardim e vários outros
serviços dentro de casa, os três conversavam e riam, sentindo quanto eram
mutuamente importantes.
Chegou
o dia em que Jeff alistou-se no Exército para servir a seu país. As cartas
substituíram ~ conversas face a face. Em todos os feriados, Jeff aguardava com
ansiedade a chegada de um pacote dos Meyers - uma porção generosa de
biscoitinhos de pobre.
O
Sr. Meyers morreu enquanto Jeff estava no Exército. Jeff sentiu muito aquela
perda. Quando voltou para casa, ele retomou o hábito de "dar uma passada
só para ajudar um pouco". Ele sabia que, sem o Sr. Meyers, a Sra. Meyers
se sentia mais sozinha do que nunca. E ela continuou a servir os biscoitinhos
de pobre, na bandeja de prata, na mesma sala de jantar. Foi comovente ver que
ela continuava a colocar três pratos na mesa para as ocasiões especiais em que,
juntos, eles tomavam chá.
Jeff
ficou noivo e marcou o casamento. A Sra. Meyers não queria faltar à cerimônia
por nada deste mundo. Saiu de casa naquele dia levando um presente - um tapete
feito de sobras de lã, que ela própria tecera, e uma porção dupla de
biscoitinhos de pobre. Dentro do pacote, havia a receita dos biscoitinhos.
Aquela foi a última porção de biscoitinhos que ela fez; a Sra. Meyers morreu
alguns meses depois.
Durante
muitos anos, Jeff manteve sua promessa de nunca contar a ninguém sobre o
"projeto especial" de ajudar os Meyers. Ele achava que, se chamasse a
atenção para si, estragaria a "boa ação".
POR TRÁS DE UM DESENHO RÁPIDO
Joni
Eareckson Tada
Histórias
Para o Coração 2 110
Há
muitos anos, havia um famoso artista japonês chamado Hokusai, cujas pinturas
eram cobiçadas pela realeza. Um dia, um nobre pediu ao artista que fizesse uma
pintura de seu precioso pássaro. Ele deixou o pássaro com Hokusai, e o artista
disse ao nobre para retomar depois de uma semana.
Sentindo
falta do pássaro, o nobre estava ansioso por retomar ao estúdio do artista no
final da semana, não apenas para recuperar sua ave favorita, mas também para
ver a pintura. Quando lá chegou, o japonês pediu-lhe humildemente que retomasse
depois de duas semanas.
As
duas semanas transformaram-se em dois meses - e, depois, em seis meses.
Um
ano mais tarde, o nobre irrompeu no estúdio de Hokusai, recusando-se a esperar
mais e exigindo o pássaro de volta e a pintura.
Conforme
o costume japonês, Hokusai curvou-se diante do nobre, retornou à sua mesa de
trabalho, e pegou um pincel e uma grande folha de papel feito de palha de
arroz. Em poucos instantes, Hokusai desenhou o pássaro, sem nenhum esforço,
exatamente como ele era.
O
proprietário do pássaro ficou atônito diante da pintura.
Em
seguida, disse com raiva:
-
Por que você me fez esperar um ano se podia ter aprontado a pintura em tão
pouco tempo?
-
O senhor não entendeu - replicou Hokusai.
Ele
levou o nobre a um cômodo onde as paredes estavam cobertas de pinturas do mesmo
pássaro. Nenhuma delas, contudo, expressava a graça e a beleza do último
trabalho...
Esta
lição deve aplicar-se também à tela de nossa vida... Se quisermos ter alguma
coisa de valor verdadeiro e duradouro em nosso caráter, ela não será conseguida
com facilidade.
Nunca
é fácil.
ÂNDROCLES E O LEÃO
Recontada
por Cassandra Lindell
Histórias
Para o Coração 2 111
Com
o coração acelerado e as pernas doendo, ele chegou à floresta; Ândrocles sabia
que não existia nenhum outro lugar seguro. Ele poderia sobreviver ali -
encontrar raízes e frutos, livrar-se de animais ferozes. Ândrocles tinha poucas
opções - se fosse preso, seria executado como escravo fugitivo.
Ele
imaginava como seria a angústia de viver se fosse descoberto.
Cada
pinha que caía mansamente na relva verde e macia sob seus pés era o suficiente
para sobressaltá-Io. Sua cabeça movimentava-se de um lado a outro para que os
olhos arregalados pudessem enxergar os soldados.
Ele
necessitava de um abrigo. A chuva pairava no ar, e em breve anoiteceria.
Através das árvores, ele avistou uma abertura nas rochas.
Imaginando
que pudesse dormir ali apenas por uma noite, Ândrocles rumou naquela direção.
De
repente, ele parou. Deitado à direita da abertura, havia um leão. Movido pelo
instinto, Ândrocles correu, orando para que o animal estivesse de estômago
cheio.
Ao
perceber que não estava sendo perseguido, ele diminuiu o ritmo dos passos e
parou. Quando olhou para trás, ele viu que o leão não saíra em sua perseguição.
O único movimento do animal foi girar a cabeça para olhar para o homem - com ar
de tristeza -, assim Ândrocles pensou.
Lentamente,
ele começou a retornar ao local. O leão estava machucado. Ândrocles dirigiu-se
a ele carinhosamente, acariciando-lhe a juba e as costas à procura do
ferimento. Finalmente, o encontrou - um corte profundo na perna traseira do
leão, que estava sangrando por algum tempo sem nenhum sinal de que o sangue
estancaria. O homem rasgou um pedaço de sua túnica e limpou a ferida. O leão
estremeceu e deu um gemido. Finalmente, adormeceu.
Naquele
instante, a chuva começou a cair. Ândrocles entrou na caverna e caiu no sono
imediatamente. A longa corrida para fugir da cidade o deixara exausto. Minutos
depois, ele despertou, no exato momento em que o leão entrou na caverna e
aproximou-se dele, arrastando a perna e desabando no chão com a respiração
ofegante.
A
caverna era grande, e o homem e o animal moraram juntos ali, durante várias
semanas. Ândrocles encontrou uma fonte de água fresca nas proximidades. Os dois
caçavam e ajuntavam o alimento de que cada um necessitava.
Um
dia, enquanto pegava água na fonte, Ândrocles sentiu um objeto afiado
pressionando o seu pescoço.
-
Não se mexa - uma voz impiedosa ordenou. - Existe uma boa recompensa pela vida
de um escravo fugitivo, você sabe. Levante-se bem devagar.
Forçado
a voltar para a cidade, Ândrocles pensou em seu amigo leão, sabendo que nunca
mais o veria. Ele foi conduzido à presença do imperador para ser julgado e
recebeu a sentença de morte. Os soldados o levaram a uma cela de pedra
construída debaixo da arena, onde deveria permanecer até o dia da execução.
Finalmente,
ele foi levado à arena. O povo lançou-lhe todo o seu ódio e começou a aplaudir
com entusiasmo quando foi solto um leão que não havia recebido alimento por
vários dias. Os soldados o cutucavam e o instigavam, para provocar a ira do
animal, que rugiu ao ver o homem e correu em direção à sua presa.
Ândrocles
sabia que não teria nenhuma chance. Mesmo assim, ele retesou os músculos para
lutar, pronto para ser ferido. Como a situação foi diferente quando ele cuidou
de um leão machucado, em vez de cutucá-Io e instigá-Io! Ândrocles fechou os
olhos, à espera de sentir o peso do animal sobre seu corpo e receber o primeiro
golpe mortal.
Em
vez de dor lancinante, ele sentiu a língua do leão lambendo-lhe o rosto, no
momento em que o animal o atirou no chão. Ândrocles abriu os olhos - estava
frente a frente com seu amigo da floresta.
Mesmo
após dias de fome e tortura, em vez de investir para matá-Io, o leão começou a
balançar a cauda como se fosse um cão amigo.
O
povo mergulhou em silêncio. O imperador estava atônito.
Mandou
chamar Ândrocles, e o homem contou a sua história.
-
Ândrocles e seu amigo leão estão livres - declarou o imperador.
-
Uma amizade e uma gratidão tão surpreendentes entre inimigos ferrenhos devem
ser grandemente recompensadas.
INTRIGA
BILLY
GRAHAM
Histórias
Para o Coração 2 114
Conta-se
a história de uma mulher inglesa que compareceu perante o pastor de sua igreja
com um problema de consciência.
O
pastor sabia que aquela mulher tinha o péssimo hábito de fazer intrigas -
falava mal de quase todos do povoado.
-
Como eu posso me retratar? - ela suplicou.
O
pastor lhe disse:
-
Se a senhora quiser ficar em paz com sua consciência, terá de pegar um saco,
enchê-lo de penas de ganso e atirar uma pena na varanda da casa de cada pessoa
que a senhora difamou.
Depois
de realizar o trabalho, ela voltou a conversar com o pastor.
-
É só isso que eu devia fazer? - a mulher perguntou.
-
Não - respondeu o velho e sábio pastor. - Agora, a senhora precisa recolher
todas as penas que foram atiradas e trazê-las a mim.
Depois
de um longo tempo, a mulher retomou de mãos vazias.
-
O vento levou todas as penas embora - ela disse.
-
Minha bondosa senhora - disse o pastor -, o mesmo acontece com a intriga.
Palavras maldosas são fáceis de serem atiradas; porém, jamais somos capazes de
trazê-las de volta.
MUDANDO DE LADO
Zig
Ziglar
Histórias
Para o Coração 2 116
Um
menino foi abordado por três grandalhões. Qualquer um deles poderia dar-lhe uma
surra, e os três estavam deixando claro que tinham aquele plano em mente. O
menino, que era muito esperto, afastou-se um pouco dos três grandalhões e
traçou uma linha na terra. Depois, deu alguns passos para trás, fitou o líder
do grupo nos olhos e disse:
-
Quero ver se você consegue atravessar esta linha.
Sem
pestanejar, o grandalhão passou para o outro lado.
O
menino sorriu e disse:
-
Agora, nós dois estamos do mesmo lado.
O cão
tem muitos amigos porque ele movimenta a cauda em vez de movimentar a língua.
O VESTIDO
Margaret
Jensen
Histórias Para o Coração 2 117
Mary era uma jovem que acalentava o sonho de amar e servir a Deus. John,
agitado e impaciente em seu novo pastorado na zona rural de Wisconsin, sentia
saudades das bibliotecas e da agitação de Nova York ou de Chicago, onde cursara
o seminário. A mente brilhante de John só pensava em livros. Mary via beleza em
tudo - no aroma da terra recém-arada, no cântico de um passarinho, nos
primeiros indícios da primavera, nas cores do açafrão e das violetas. Mary
cantava para o vento e ria com os passarinhos.
Cultivava, porém, um desejo secreto: queria ter um vestido novo para a
primavera. Não um vestido discreto ou preto, apropriado para uma esposa de
pastor, mas um vestido de tecido leve e esvoaçante, com renda na gola e nas
mangas, e com um cinto largo.
Mas não havia dinheiro para isso! Ela começou a fazer planos.
Guardaria moedas em uma caixa até conseguir dinheiro suficiente para
comprar um novo lampião de querosene para John e material para o vestido novo. Aproveitaria
a renda de um antigo vestido de veludo guardado no baú. Algum dia, ela faria um
vestido de veludo azul para sua filhinha Louise.
Chegou o dia em que o ruído da máquina de costura se fazia ouvir como
música, enquanto Mary cantava e costurava. Louise, de cabelos dourados,
brincava com carretéis vazios e alfinetes. A pequena casa brilhava de tão
limpa. O novo lampião ocupava um lugar de honra na mesa de leitura de John.
Com ar de brincadeira, Mary soltou seus longos cabelos castanhos e os
escovou sob o sol da manhã. Em seguida, colocou o vestido novo cor-de-rosa, de
tecido leve, com violetas e rendas. Prendeu o cinto nas costas e começou a
dançar enquanto Louise dava gritos de alegria. Era primavera! Ela era jovem,
tinha apenas 23 anos, uma vida nova dentro de si e Louise para acalentar e
amar. A igreja rural, os carrancudos imigrantes que aravam a terra, e o longo
inverno impiedoso haviam isolado a jovem esposa em seu mundo de poesia e
música. Mas ela aprendera a amar as pessoas fervorosas e compartilhava suas
alegrias e tristezas. Hoje, ela dançava alegre e descontraída em seu novo
vestido esvoaçante.
Um puxão tão rápido quanto o clarão de um relâmpago obrigou Mary a girar
o corpo e ter de encarar o rosto irado de John, cujas frustrações acumuladas
desencadearam toda a fúria que havia dentro dele.
- Dinheiro gasto com futilidades! Não há bibliotecas, não há livros...
ninguém para conversar, a não ser para falar de vacas e galinhas, plantação e
colheita.
A raiva de John irrompeu como um vulcão em erupção, e ele rasgou o
vestido até transformá-Io em tiras. Assim que o acesso de fúria chegou ao fim,
o silêncio aterrador que se seguiu foi quebrado pelo galope do cavalo de John.
Cavalgando com o vento batendo no rosto, ele canalizou o restante de sua raiva
para as vacas e galinhas, que fugiam assustadas do caminho. Seu coração ansiava
por galopar de Wisconsin até o centro de Nova York - até sua querida
biblioteca.
Acocorada em um canto, Mary apertava Louise e o vestido em frangalhos
entre os braços. Tremendo de medo e de raiva, ela não conseguia sair do lugar.
Exaurida demais para chorar, sentia um enorme vazio dentro dela e uma saudade
indescritível de sua mãe. Não havia ninguém a quem recorrer naquela região
longínqua. Mary lembrou-se do Salmo 34.4: "Busquei o SENHOR, e ele me
acolheu;
livrou-me de todos os meus temores." Em seguida, as lágrimas
brotaram, intensas e profundas, e ela clamou ao Senhor.
Mary começou a pensar em uma maneira de fugir. Improvisaria uma cama no
sótão e levaria Louise para dormir com ela. John dormiria sozinho. Ela dobrou o
vestido estraçalhado e o escondeu no baú. O pastor Hansen chegaria para visitar
as igrejas das imediações, e Mary decidiu aguardar aquele dia para mostrar o
vestido a ele.
Depois, pediria a ajuda dele para abandonar John e retornar à casa de
sua mãe. Com uma determinação silenciosa, ela colocou o vestido escuro, prendeu
muito bem os cabelos, como convinha a uma esposa de pastor, e arrumou a mesa
para o jantar. Quando John retornou tarde da noite, encontrou seu jantar no
forno. Mary estava dormindo no sótão, com Louise aninhada em seus braços.
John jantou em silêncio e procurou por Mary. Quando a encontrou no
sótão, ele ordenou-lhe que voltasse para sua cama e colocasse Louise no berço.
Mary colocou Louise com muito cuidado no berço e, obedientemente, voltou para
sua cama. A fúria de John havia passado, mas ele desconhecia o rastro de
devastação que ficou pelo caminho.
A vida prosseguiu em sua rotina, mas a canção deixou de existir; e,
agora, os passos de Mary eram pesados de amargura. Ela aguardava em silêncio,
ruminando seus planos.
A chegada do pastor Hansen trouxe uma nova alegria a John.
Agora, os dois pastores conversavam sobre livros, teologia e as
conferências que seriam realizadas na igreja. Mary os servia em silêncio.
Ninguém podia imaginar a angústia que existia por trás daquele rosto bondoso
enquanto ela assistia aos cultos ao lado de crentes fervorosos, sem prestar a
mínima atenção aos sermões.
a último dia da visita estava se aproximando, e Mary ainda não havia
tido a oportunidade de conversar a sós com o pastor Hansen. Seria necessário
encontrar uma abertura, talvez na tarde de domingo, enquanto John estivesse
visitando um membro da igreja impossibilitado de comparecer ao templo, e
enquanto o pastor Hansen estivesse meditando sobre o sermão da noite. Com a
mente girando, ela decidiu prestar atenção ao sermão da manhã, e talvez usar os
comentários do pregador para introduzir a sua conversa com o pastor Hansen.
- a texto desta manhã é encontrado em Marcos 11.25. "E, quando
estiverdes orando, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai..." a
perdão não é opcional, mas uma decisão definitiva de perdoar, em obediência ao
mandamento de Deus. A sensação vem depois, uma sensação de paz. Quando
apresentamos diante de Deus as nossas mágoas e desespero, Ele derrama seu amor
e compaixão nas feridas abertas e nos cura.
Ah, não!, Mary chorou intimamente. Não posso perdoar e não vou conseguir
esquecer.
A sermão prosseguiu:
- Alguém deve estar pensando: Eu nunca vou esquecer, mesmo depois de
perdoar. Você tem razão. Não pode esquecer, mas não precisa sentir-se destruído
pela lembrança. O amor de Deus e seu perdão têm o poder de amortecer a memória
até que as marcas desapareçam. Quando perdoamos, devemos destruir a evidência e
deixar que o amor tome conta de nossa mente.
John e o pastor Hansen foram para casa no carro do diácono Olsen. Mary
subiu em sua charrete, prendeu o chapéu preto com um lenço e segurou Louise de
encontro ao peito. Enquanto a mula Dolly trotava animadamente pela estrada,
lágrimas quentes começaram a rolar pelo rosto de Mary.
Ela sabia o que deveria fazer. Obedeceria a Deus. Sem esperar para
desatrelar Dolly, ela desceu rápido da charrete e colocou Louise no berço. Com
as mãos trêmulas, retirou o vestido estraçalhado do baú. O jantar do domingo
estava no forno. Mary atiçou o fogo e colocou mais lenha. Preparou o café
automaticamente e arrumou a mesa. A evidência deve ser destruída. A frase
martelava em sua memória. Eu o perdôo, John. Ela pegou o vestido estraçalhado
com uma das mãos e abriu a tampa do forno com a outra. As lágrimas estalavam no
fogo enquanto ela observava o vestido sendo queimado lentamente.
O verdadeiro perdão destrói a evidência. As palavras estavam tão vivas
em seu coração que ela não ouviu os passos de John.
- Mary, o que você está fazendo?
Com a voz trêmula pelos soluços, ela respondeu:
- Estou destruindo a evidência.
E, para si mesma, ela disse: - Minha oferta a Deus.
Foi, então, que John se lembrou! Pálido e abalado, ele murmurou:
- Por favor, perdoe-me!
Cinqüenta e oito anos depois, quando John já havia partido para morar
com o Senhor, deixando uma saudade imensa, Mary teve um sonho. Três anjos
apareceram diante dela e disseram:
- Venha, vamos fazer uma comemoração.
Dobrado ao meio, sobre o braço de um dos anjos, havia um lindo vestido.
PARENTES DISTANTES
Carla
Muir
Histórias
Para o Coração 2 121
Um
velho solitário morava no meio das montanhas do Colorado.
Quando
ele morreu, alguns parentes distantes vieram da cidade para pegar seus
pertences. Assim que chegaram, viram apenas uma velha choupana com uma ti
casinha" ao lado. Dentro da choupana, perto de um fogão de pedra, havia
uma panela velha e algumas ferramentas que o homem usava em seu trabalho de
mineração. Uma mesa rachada e uma cadeira de três pernas estavam encostadas a
uma minúscula janela. O lampião de querosene servia de enfeite para a mesa. Em
um canto escuro da choupana, via-se um catre coberto com uma colcha puída.
Eles
pegaram alguns objetos sem valor e prepararam-se para partir.
Quando
estavam se afastando com o carro, um velho amigo do dono da choupana, montado
em uma mula, acenou para eles.
-
Vocês permitem que eu pegue o que sobrou na choupana de meu amigo? - ele
perguntou.
-
Fique à vontade - eles responderam.
Afinal,
eles pensaram, o que poderia haver de valor naquela choupana?
O
amigo entrou na choupana e caminhou em direção à mesa.
Passou
a mão por baixo e levantou uma das tábuas do piso. Ali estava todo o ouro que
seu amigo havia descoberto nos últimos 53 anos - o suficiente para ter
construído um palácio. O velho solitário morreu, deixando o segredo apenas para
o amigo. Quando o amigo olhou pela janela e viu desaparecer a nuvem de poeira
atrás do carro dos parentes, ele disse:
-
Eles deveriam ter conhecido melhor o velho.
MAIS QUE UM EMPREGO
Charles
Swindoll
Histórias
Para o Coração 2 122
Um
jovem entrou apressado em um posto de perguntou ao gerente se ali havia um
telefone gerente movimentou a cabeça afirmativamente e disse:
-
Claro! Fica logo ali.
O
jovem colocou algumas moedas, discou e aguardou uma resposta.
Finalmente,
alguém atendeu.
-
Ah!... - ele disse, com voz grave -, o senhor teria emprego para um homem
jovem, honesto e trabalhador?
O
gerente do posto ouviu a pergunta de longe. Depois de alguns instantes, o rapaz
disse:
-Ah!
o senhor já tem um empregado jovem, honesto e trabalhador?
Está
bem, obrigado.
Com
um largo sorriso no rosto, ele desligou o telefone e dirigiu-se para o seu
carro, assobiando e visivelmente satisfeito.
-
Ei, espere um pouco! - gritou o gerente. - Não pude deixar de ouvir sua
conversa. Por que você está tão feliz? Achei que o sujeito do outro lado da
linha tivesse dito que já tinha um empregado e que não precisava de você.
O
jovem sorriu e respondeu:
-
Veja só, eu sou o jovem honesto e trabalhador. Estava só testando meu patrão!
UM JOVEM GUERREIRO
Stu
Weber
Histórias
Para o Coração 2 123
Qual
é a aparência de um homem de bem com a vida? Não posso deixar de me lembrar da
afirmação de um jovem que mora perto de nós - um rapaz de 16 anos, que cursa o
segundo ano do curso médio.
Seus
pais se divorciaram quando ele tinha oito anos. O pai saiu de casa e nunca mais
voltou. O padrasto, um homem cruel e desumano, trata-o muito mal. Ordena que
ele "cale a boca" o tempo todo. Diz que ele é inútil, idiota e que
nunca será nada na vida.
Mas,
quando alguém pergunta ao jovem qual é o seu sonho, seus olhos adquirem um
brilho especial. Vejam só qual é a resposta dele:
-
Eu gostaria de descobrir onde meu pai verdadeiro mora. E gostaria de me mudar
para a casa vizinha à dele, sem que ele soubesse quem eu sou. Gostaria, também,
de ser seu amigo. Já fui amigo dele um dia, e talvez fosse bom continuarmos a
amizade.
-Esse
mesmo jovem, que tem tido todos os tipos de dificuldade na vida, recebeu o
convite para escrever um ensaio sobre o tema "O que é um homem?" O
breve ensaio está reproduzido a seguir - escrito por um jovem que nunca contou
com a presença de um homem na vida, um homem verdadeiro, no sentido exato da
palavra. Penso que existem coisas tão inerentes, tão enraizadas, tão
intrínsecas, tão fundamentais que até mesmo um jovem, que nunca teve na vida o
exemplo de um homem para seguir, é capaz de colocá-las em palavras. Aqui está o
que ele escreveu:
-
O homem verdadeiro é bondoso.
-
O homem verdadeiro é zeloso.
-
O homem verdadeiro afasta-se das brigas provocadas por machos idiotas.
-
O homem verdadeiro ajuda sua esposa.
-
O homem verdadeiro cuida dos filhos quando eles estão doentes.
-
O homem verdadeiro não foge dos problemas.
-
O homem verdadeiro mantém sua palavra e cumpre suas promessas.
-
O homem verdadeiro é honesto.
-
O homem verdadeiro não infringe as leis.
Esta
é a visão que um jovem solitário tem de um homem verdadeiro.
Um
homem que tem autoridade e vive sob a autoridade.
Esta
é a visão de um Jovem Guerreiro.
Caráter
é o que você é no escuro.
DWIGHT
L. MOODY
A CAIXA DE LÁPIS
Doris
Sanford
Histórias
Para o Coração 2 127
Eu
estava concentrada em meu escritório, preparando a palestra que faria naquela
noite em uma faculdade no outro lado da cidade, quando o telefone tocou. Uma
mulher, que eu não conhecia, presentou-se dizendo que era mãe de um menino de
sete anos e que ela estava morrendo. Contou-me que sua terapeuta a aconselhara
... não revelar este fato ao filho, uma vez que isso seria traumático demais
para a criança. Mas aquele conselho não lhe pareceu correto.
Sabendo
que eu trabalhava com crianças que sofreram perdas familiares, ela pediu meu
conselho. Eu lhe disse que, geralmente, o nosso coração é mais esperto que o
cérebro e que ela deveria saber u que era melhor para o seu filho. Convidei-a a
assistir à minha palestra naquela noite, uma vez que eu falaria sobre como as
crianças enfrentam a morte. Ela prometeu que compareceria.
Mais
tarde, eu me perguntei se a reconheceria durante a palestra.
Minhas
dúvidas foram dissipadas quando avistei uma mulher frágil sendo conduzida por
dois adultos até a sala onde seria realizada conferência. Na palestra,
expliquei que as crianças percebem a verdade antes que alguém lhes conte e que,
quase sempre, esperam até sentir que os adultos estejam preparados para expor
os fatos antes que elas mencionem suas preocupações e dúvidas. Eu disse que, de
modo geral, as crianças lidam melhor com a verdade do que com negação dos
fatos, mesmo que tal negação tenha o propósito de protegê-Ias do sofrimento.
Disse também que devemos respeitar as crianças, fazendo com que elas participem
da tristeza da família, sem que se sintam excluídas.
Ela
ouviu o que necessitava. No intervalo, caminhou com muito esforço até a tribuna
e disse entre lágrimas:
-
Meu coração já dizia isto. Eu sabia que deveria contar a ele.
Ela
prometeu que contaria tudo ao filho naquela noite.
Na
manhã seguinte, recebi outro telefonema daquela senhora.
Apesar
de sua dificuldade para falar, eu consegui ouvir a história contada em voz
sufocada.
Na
noite anterior, quando chegou a casa, ela despertou o filho e lhe disse com
serenidade:
-
Derek, eu preciso lhe contar uma coisa.
Ele
a interrompeu, dizendo:
-
Mamãe, você vai me contar que está morrendo?
A
mãe o abraçou, e ambos soluçavam enquanto ela lhe dizia:
-Sim.
Depois
de alguns minutos, o menino afastou-se da mãe, dizendo que havia guardado
alguma coisa para ela. No fundo de uma de suas gavetas, ele havia guardado uma
velha caixa de lápis. De dentro da caixa, ele tirou uma carta, escrita com
letras um tanto ilegíveis:
"Adeus,
mamãe. Eu sempre vou amar você." Quanto tempo ele esperou para ouvir a
verdade, eu não sei. Só sei que dois dias depois sua mãe morreu. Dentro do seu
caixão foram colocadas a caixa de lápis e a carta.
ELA É MINHA PRECIOSIDADE
Robertson
McQuilkin
Histórias
Para o Coração 2 129
Escrita
seis anos depois de ter renunciado ao cargo de reitor do Seminário e Faculdade
de Estudos Bíblicos, de Colúmbia, para cuidar de sua esposa, Muriel, que
contraíra o mal de Alzheimer.
Dezessete
verões atrás, Muriel e eu começamos nossa jornada rumo ao crepúsculo da vida. A
meia-noite já chegou, pelo menos para ela, e, às vezes, eu me pergunto quando
chegará o alvorecer. O mal de Alzheimer não deveria atacar tão cedo e
atormentar por tanto tempo. Mesmo assim, em seu mundo silencioso, Muriel é uma
mulher feliz, adorável. Se Jesus a levar para si, vou sentir muitas saudades de
sua doce e meiga presença. Sim, houve momentos em que me irritei, mas não com
frequência. Não faz sentido ficar zangado. Além do mais, talvez o Senhor tenha
respondido à oração de minha juventude para amadurecer meu espírito.
Certa
vez, no entanto, perdi a paciência de vez. Na época em que Muriel ainda
conseguia ficar em pé e caminhar e que ainda não existia o recurso das fraldas
descartáveis, houve alguns "acidentes". Eu estava ajoelhado ao lado
dela, tentando limpar a sujeira do banheiro.
Teria
sido mais fácil se ela não tivesse insistido tanto em me ajudar. Fui ficando
cada vez mais irritado. De repente, na tentativa de fazê-la ficar imóvel, eu
dei um tapa em sua panturrilha - como se isso fosse melhorar a situação. Não
foi um tapa forte, mas ela se assustou. Eu também. Em nossos 48 anos de
casados, eu nunca a havia tocado com raiva nem me dirigido a ela com ar de
censura. Nunca cheguei sequer a pensar em fazer isso. Mas, agora, no momento em
que ela mais necessitava de mim...
Chorando,
eu lhe implorei perdão, apesar de saber que ela não conseguia entender as
palavras e muito menos pronunciá-Ias. Recorri ao Senhor e confessei-lhe o meu
arrependimento. Levei dias para superar aquele incidente. Talvez Deus tenha
guardado aquelas lágrimas para debelar o fogo que voltaria a ser aceso um dia.
Recentemente,
uma aluna casada me perguntou:
-
O senhor nunca se sente cansado?
-
Cansado? Eu me sinto cansado todas as noites. É por isso que vou dormir.
-
Não, eu falei cansado no sentido de... - ela disse, movimentando a cabeça em
direção a Muriel, que continuava sentada, em silêncio, em sua cadeira de rodas,
com o olhar vago, como se estivesse dizendo:
"Não
há ninguém em casa." Eu respondi à pergunta de Cindi:
-
Não, eu não me sinto cansado. Eu adoro cuidar dela. Ela é minha preciosidade...
Dizem
que o amor entre um casal desaparece quando não existe reciprocidade, quando
ele deixa de ser físico, quando a outra pessoa não se comunica ou quando uma
das partes não ajuda a outra a carregar o fardo. Sempre que ouço a ladainha
sobre os elementos essenciais para um casamento feliz, eu desconsidero aquilo
que minha amada não pode mais fazer e contemplo todo o mistério do amor.
Algumas
pessoas custam a entender que amar Muriel não é tão difícil assim. Elas fazem
perguntas sobre as coisas de que gosto, como meu trabalho, por exemplo.
-
O senhor não sente falta de seu cargo de reitor? - um aluno me perguntou quando
estávamos sentados em nosso pequenino jardim.
Eu
lhe disse que nunca havia pensado nesse assunto. Por mais gratificante que meu
trabalho possa ter sido, eu gostei de aprender a cozinhar e cuidar da casa.
Não, eu nunca olho para trás.
Porém,
naquela noite, eu refleti sobre aquela pergunta e recorri ao Senhor:
Pai,
eu gosto do que utou fazendo e não tenho nenhum arrependimento. MM, quando o
treinador deixa o jogador no banco de reservas é porque não o quer no jogo. Não
necessito que me digas, é claro, mas eu gostaria de saber - por que não me
mantiveste no jogo?
Eu
não dormi bem naquela noite e despertei com um problema na cabeça. Na época,
Muriel ainda conseguia movimentar-se. Então, saímos para nossa caminhada
matinal ao redor do quarteirão. Ela não se sentia segura para andar sozinha, e
caminhamos lentamente de mãos dadas como sempre fazíamos. Naquele dia, ouvi
passos nos seguindo e olhei para trás. Avistei a figura conhecida de um
andarilho.
Ele
passou por nós com passos trôpegos; depois, virou-se e nos olhou de cima a
baixo.
-
Muito bem. Gostei - ele disse. - Gostei.
Em
seguida, ele seguiu pela rua, murmurando consigo mesmo:
-
Muito bem. Gostei.
Quando
Muriel e eu chegamos ao nosso pequenino jardim e nos sentamos, aquelas palavras
voltaram-me à mente. Foi, então, que eu entendi; o Senhor havia me falado por
meio de um velho andarilho.
-
Eras Tu que sussurravas no meu espírito: “Muito bem, gostei!” – eu disse em voz
alta. – Eu posso estar sentado no banco de reservas, mas se estás gostando e
dizes que é bom, é isso o que importa...
Acho
que minha vida é mais feliz do que a vida de 95% das pessoas que vivem no
planeta Terra.
O LANCE DECISIVO
Robert
Strand
Histórias
Para o Coração 2 132
O
abastado barão inglês Fitzgerald tinha apenas um filho, que, evidentemente, era
seu maior tesouro, o centro de suas afeições, o foco da atenção de sua pequena
família.
O
filho cresceu, mas, quando ele estava entrando na adolescência, sua mãe morreu,
deixando pai e filho sozinhos. Fitzgerald sofreu muito a perda da esposa, mas
dedicou sua vida para cuidar do filho. Com o passar do tempo, o filho contraiu
uma doença grave e morreu antes de completar 20 anos. Nesse meio-tempo, a
fortuna de Fitzgerald aumentou sensivelmente. Ele havia usado grande parte de
sua fortuna na compra de obras de arte dos grandes "mestres" da
pintura.
Após
alguns anos, Fitzgerald adoeceu e morreu. Um pouco antes de sua morte, ele
preparou cuidadosamente um testamento, incluindo instruções explícitas sobre a
distribuição de seus bens. Toda a sua coleção de quadros deveria ser vendida em
leilão. Em razão da quantidade e qualidade daquelas obras de arte, avaliadas em
milhões de libras esterlinas, o leilão atraiu uma multidão de possíveis
compradores, todos demonstrando grande interesse. Entre eles, havia vários
curadores de museus e colecionadores particulares, ávidos por dar seus lances.
Os
quadros foram expostos para visitação antes do início do leilão.
No
meio deles, houve um que recebeu pouca atenção. Além de ser de qualidade
inferior, foi pintado por um artista da cidade, desconhecido pelo público. Era
o retrato do único filho de Fitzgerald.
Quando
chegou o início do leilão, o leiloeiro pediu a atenção dos presentes. Antes que
os lances fossem feitos, o advogado leu o testamento de Fitzgerald, onde havia
instruções que diziam que o primeiro quadro a ser leiloado deveria ser o de
"meu amado filho".
Por
ser de qualidade inferior, o quadro não recebeu nenhum lance... ou melhor,
recebeu apenas um! O único a dar o lance foi um velho criado da casa que
conheceu o filho e o amava muito. O lance foi dado por motivos sentimentais.
Ele comprou o quadro por menos de uma libra esterlina.
O
leiloeiro interrompeu o leilão e pediu ao advogado que continuasse a leitura do
testamento. Diante do fato inusitado, o público silenciou. O advogado leu estas
palavras diretamente do testamento de Fitzgerald: "Quem comprar o quadro
de meu filho ficará com minha coleção inteira. O leilão está encerrado!
O MELHOR QUE EU TENHO
Robert
Fulghum
Histórias
Para o Coração 2 134
De
tempo em tempo, a caixa que contém aquelas bugigangas, os tesouros pessoais que
sobreviveram a tantas "limpezas" e tentativas de ser jogados no lixo,
atrai a minha atenção. Um ladrão que a examinasse não levaria nada - não
receberia um centavo por nada daquilo. Mas, se um dia a casa pegar fogo, a
caixa irá comigo quando eu sair correndo.
Um
dos objetos da caixa é um pequeno saco de papel. Uma espécie de lancheira.
Embora a boca do saco esteja fechada com fita adesiva, grampos e vários clipes,
há um rasgo em um dos lados através do qual é possível ver o seu conteúdo. Esse
saco de papel está sob meus cuidados há uns 14 anos, mas pertence à minha
filha, Molly. Assim que chegava da escola, quando ela era criança, começava a
empacotar os lanches do dia seguinte. Certa manhã, Molly entregou-me dois sacos
de papel, no momento em que eu me aprontava para sair de casa. Um continha o
lanche. O outro estava fechado com fita adesiva, grampos e clipes.
-
Por que dois?
-
O outro tem uma coisa especial.
-
O que é?
-
Algumas coisinhas para você levar para o trabalho.
Ao
meio-dia, enquanto eu abria apressadamente o meu lanche verdadeiro, rasguei o
outro saco que Molly me dera e despejei o conteúdo na mesa. Elásticos para
prender cabelo, três pedrinhas, um dinossauro de plástico, um toco de lápis,
uma conchinha, dois biscoitos em formato de animais, uma bolinha de gude, um
batom usado, uma bonequinha, duas barras de chocolate e algumas moedinhas
totalizando 13 centavos.
Eu
sorri. Que graça! Levantei-me preparado para enfrentar os assuntos importantes
da tarde e limpei a mesa, jogando tudo no cesto de lixo - as sobras do lanche,
as coisinhas de Molly, tudo. Não havia nada ali que me pudesse ser útil.
Naquela
noite, Molly aproximou-se de mim enquanto eu lia o jornal.
-
Onde está o saco?
-
Que saco?
-
Você sabe. Aquele que dei para você hoje cedo.
-
Ficou no escritório. Por quê?
-
Esqueci de colocar um bilhetinho dentro - ela disse, entregando-o a mim. -
Quero tudo de volta.
-
Por quê?
-
São coisinhas minhas, papai, coisinhas de que gosto muito. Achei que você
gostaria de brincar com elas; mas agora quero tudo de volta. Você não perdeu
aquele saco, não é mesmo, papai? - Lágrimas começaram a brotar nos olhos dela.
- Traga de volta amanhã, está bem?
-
Claro... não se preocupe.
Quando
ela me abraçou, aliviada, eu abri bilhetinho, onde se lia:
"Eu
amo você, papai." E agora?
Molly
me dera seus tesouros. Tudo o que aquela menina de sete anos mais prezava. Amor
dentro de um saco de papel E eu não tinha entendido. Além de não entender,
atirei tudo no lixo porque "não havia nada ali que me pudesse ser
útil".
A
viagem de volta ao escritório foi longa. Mas não havia outra coisa a ser feita.
Cheguei antes da faxineira, peguei o cesto de lixo e derrubei o conteúdo em
minha mesa... e encontrei os tesouros.
Depois
de lavar o dinossauro coberto de mostarda e limpar os outros objetos com o
desinfetante bucal que eu usava para eliminar o hálito com cheiro de cebola,
alisei cuidadosamente o saco de papel, amassado em formato de bola, coloquei os
tesouros dentro e retornei apressado para casa, como um gatinho machucado. Na
manhã seguinte, devolvi o saco a Molly. Não houve perguntas nem explicações.
Depois do jantar, pedi a ela que me falasse sobre o que havia dentro do saco.
Foi uma conversa longa. Cada coisinha daquelas tinha uma história, uma
lembrança ou estava ligada a sonhos e amigos imaginários.
Para
minha surpresa, Molly devolveu-me o saco mais uma vez, alguns dias depois. Era
o mesmo saco rasgado, contendo as mesmas coisas. Eu me senti perdoado. E digno
de confiança. E amado. Nos meses seguintes, passei a levar os tesouros comigo
de tempos em tempos. Eu mesmo não sabia por que não os levava diariamente.
Comecei
a pensar neles como se fossem um prêmio para mim, e tentava ser bondoso na
noite anterior para merecer levá-Ios comigo na manhã seguinte.
Com
o passar do tempo, Molly dirigiu sua atenção para outras coisas... encontrou
outros tesouros... perdeu interesse pela brincadeira... cresceu. E eu? Eu fui
incumbido de guardar o saco de papel. Ela o colocou em minhas mãos um dia e
nunca mais me pedi~ que o devolvesse. Eu o guardo até hoje.
Às
vezes, penso em todas aquelas ocasiões agradáveis da vida em que não entendi o
carinho que me era oferecido. Um amigo compara essa situação a "estar com
a água na altura dos joelhos e morrer de sede". O saco de papel rasgado
está lá, dentro da caixa. Lembrança de um tempo em que uma criança disse:
-
Aqui está tudo o que tenho de melhor. Pode levar, é seu. Tudo o que é meu, dou
a você.
Eu
não entendi na primeira vez. Mas agora aqueles tesouros me pertencem.
ELE É LOUCAMENTE APAIXONADO POR VOCÊ
MAX
LUCADO
Histórias
Para o Coração 2 137
Se
Deus tivesse uma geladeira, sua fotografia estaria grudada ali.
Se Ele
tivesse uma carteira, guardaria sua fotografia dentro dela.
Ele
lhe manda flores toda primavera e o brilho do sol todas as manhãs.
Sempre
que você tem vontade de falar, Ele ouve.
Ele
pode morar em qualquer lugar do universo, mas escolheu o seu coração.
Que
tal aquele presente de Natal que Ele lhe deu em Belém?
E
aquela sexta-feira no Calvário?
Acredite,
Ele é Loucamente apaixonado por você.
COOOMPRAAAR!
Gary
Smalley
Histórias
Para o Coração 2 138
Depois
de uma discussão com minha esposa, que terminou em lágrimas, assumi o
compromisso sincero de entendê-la e ter um bom relacionamento com ela. Mas não
sabia por onde começar.
De
repente, tive uma ideia que, no meu entender, me indicaria para receber o
prêmio de Marido do Ano. Eu poderia partir em uma aventura com Norma - fazer
compras, por exemplo! Claro! Minha esposa adora fazer compras. Já que eu nunca
me havia oferecido para acompanhá-la, esta seria uma boa oportunidade de
demonstrar todo o meu carinho. Eu poderia contratar uma babá para ficar com as
crianças e levar minha esposa a um de seus lugares preferidos: um
shopping-center!
Não
sei ao certo quais são as mudanças emocionais e psicológicas que ocorrem dentro
de minha esposa quando ela ouve a palavra shopping, mas, quando lhe revelei a
minha ideia, notei que algo dramático começou a acontecer. Seus olhos se
iluminaram como uma árvore de Natal, e ela vibrou de euforia - a mesma reação
que tive quando alguém me deu dois ingressos para assistir a uma partida
decisiva da NFL (Liga Nacional de Futebol).
Na
tarde do sábado seguinte, quando Norma e eu fomos juntos ao shopping, eu me
deparei, pela primeira vez, com a barreira que separa os homens das mulheres
quando se trata de uma boa comunicação.
Minha
descoberta abriu as portas para que eu entendesse e me relacionasse melhor com
Norma... Aqui está o que aconteceu: Assim que chegamos de carro ao shopping,
Norma me disse que estava precisando de uma blusa nova. Depois de estacionarmos
e nos dirigirmos à primeira loja de roupas, ela escolheu uma blusa e perguntou:
-
O que você acha?
-
Está linda! - eu disse. - Vamos levá-Ia.
Mas,
na verdade, eu estava pensando: Ótimo! Se ela comprar essa blusa, vamos voltar
para casa a tempo de eu assistir ao jogo da faculdade pela TV.
Ela,
porém, pegou outra blusa e disse:
-
E o que você acha desta?
-
É linda também! Leve essa. Ou melhor, leve as duas!
Depois
que ela examinou várias blusas, saímos da loja de mãos vazias. Entramos em
outra loja, e ela fez a mesma coisa. Entramos em outra. E em outra. E em mais
outra!
O
entra-e-sai das lojas foi-me deixando cada vez mais ansioso.
Cheguei
a pensar que não perderia apenas os melhores momentos do primeiro tempo do
jogo. Perderia o jogo inteiro!
Após
ela ter examinado uma centena de blusas, eu já tinha certeza de que sairia
perdendo. Naquele ritmo, eu perderia todos os outros jogos! E foi o que
aconteceu.
Em
vez de pegar uma blusa na loja seguinte, ela pegou um vestido que servia para
nossa filha.
-
O que você acha deste vestido para Kari? - ela perguntou.
Sobrecarregada
além dos limites de qualquer mortal, minha paciência se esgotou e eu explodi:
-
O que você quer dizer com "O que você acha deste vestido para Kari"?
Estamos aqui para comprar blusas para você, e não vestidos para Kari!
Como
se isso não bastasse, saímos daquela loja sem comprar nada, e ela me perguntou
se podíamos tomar um café! Fazia 67 minutos que estávamos no shopping, o que
extrapolava meu recorde de saturação de meio hora. Eu não podia acreditar - ela
ainda teve paciência para sentar-se e conversar comigo sobre a vida de nossos
filhos!
Naquela
noite, comecei a compreender a diferença mais comum entre os homens e as
mulheres. Eu não estava comprando blusas... Eu estava caçando blusas! Eu queria
escolher a blusa, mandar empacotá-Ia e voltar para casa, onde havia coisas
importantes para fazer, como, por exemplo, assistir ao jogo de futebol de
sábado à tarde!
Minha
esposa, contudo, encarava a ida ao shopping por um ângulo oposto. Para ela, o
significado era mais amplo do que simplesmente comprar uma blusa. Era um jeito
de passar o tempo conversando comigo, longe das crianças e dos jogos de futebol
de sábado à tarde.
Assim
como a maioria dos homens, eu concluí que a ida ao shopping significava mais do
que uma simples compra. Para minha esposa, significava cooompraaar!
ACONTECEU NO METRÔ DO BROOKLYN
Paul
Deutshman
Histórias
Para o Coração 2 142
O
vagão estava cheio e parecia não haver nenhum assento vago.
Mas,
assim que entrei, um homem sentado perto da porta levantou-se para descer, e eu
ocupei seu lugar.
Moro
em Nova York há um bom tempo para saber que não devo puxar conversa com
estranhos. Porém, por ser fotógrafo, tenho o hábito de analisar o rosto das
pessoas. E os traços 6sionômicos do passageiro à minha esquerda me chamaram a
atenção. Ele devia ter perto de 40 anos e, quando levantou a cabeça, notei uma
expressão de sofrimento em seus olhos. Ele estava lendo um jornal em húngaro, e
me senti induzido a perguntar naquele idioma:
-
Você se importaria se eu desse uma olhada em seu jornal?
O
homem pareceu surpreso ao ver alguém se dirigir a ele em seu idioma e respondeu
educadamente:
-
Pode ler o jornal agora. Depois eu leio.
Durante
a meia hora de viagem até o centro da cidade, tivemos uma boa conversa. Ele
disse que se chamava Bela Paskin. Quando a Segunda Guerra Mundial começou, ele
era estudante de Direito.
Foi
forçado a trabalhar no exército alemão e enviado para a Ucrânia.
Posteriormente,
foi preso pelos russos e obrigado a enterrar os mortos alemães. Depois da
guerra, ele percorreu centenas de quilômetros a pé até chegar a seu lar, em
Debrecen, uma cidade grande localizada no leste da Hungria.
Eu
conhecia Debrecen muito bem, e conversamos sobre a cidade por alguns instantes.
Depois, ele me contou o resto de sua história.
Quando
chegou ao apartamento que era ocupado por seus pais e irmãos, ele encontrou
pessoas estranhas morando ali. Subiu a escada que dava acesso ao apartamento em
que ele vivia com a esposa.
Também
estava ocupado por estranhos. Ninguém ouvira falar de sua família.
Quando
ele estava saindo, com o semblante carregado de tristeza, um menino gritou de
longe:
-
Paskin baesi! Paskin baesi! - cujo significado é "tio Paskin".
O
menino era filho de um de seus antigos vizinhos. Ele foi até a casa do menino
para conversar com seus pais.
-
Sua família inteira está morta - disseram. - Os nazistas os levaram para
Auschwitz, inclusive sua esposa.
Auschwitz
era um dos mais terríveis campos de concentração nazista. Paskin perdeu todas
as esperanças. Dias depois, abalado demais para continuar na Hungria, ele
empreendeu nova viagem a pé, atravessando fronteiras e mais fronteiras, na
calada da noite, até chegar a Paris. Conseguiu emigrar para os Estados Unidos
em outubro de 1947, três meses antes de eu conhecê-Io.
Durante
todo o tempo em que conversamos, achei que sua história me era familiar. Uma
jovem que eu conhecera recentemente na casa de amigos também era de Debrecen;
ela também havia sido enviada a Auschwitz e, de lá, foi transferida para
trabalhar em uma fábrica alemã de armas. Seus parentes tinham sido mortos na
câmara de gás. Posteriormente, ela foi libertada pelos norte-americanos e
trazida para cá, em 1946, no primeiro navio de carga de refugiados.
A
história dessa moça comoveu-me a tal ponto que anotei seu endereço e número de
telefone, na intenção de convidá-la para conhecer minha família e ajudá-la a
preencher o terrível vazio de sua vida.
Parecia
impossível haver alguma ligação entre aquelas duas pessoas.... Mas, quando se
aproximava a estação em que eu deveria descer, procurei ansiosamente por meu
livro de endereços. Perguntei àquele homem, em um tom de voz que eu esperava
fosse casual:
-
O nome de sua esposa era Marya?
Ele
empalideceu. - Sim! Como você sabe?
O
homem parecia prestes a desmaiar.
-
Vamos descer - eu disse.
Segurei-o
pelo braço. Descemos na estação seguinte, e eu o conduzi a um telefone público.
Ele parecia estar em transe quando disquei o número do telefone dela.
Marya
Paskin demorou muito para atender. Fiquei sabendo, depois, que seu quarto
ficava perto do telefone, mas ela não costumava atendê-lo, porque tinha poucos
amigos e as ligações eram sempre para outra pessoa. Desta vez, contudo, não
havia ninguém em casa.
Depois
de deixar o telefone tocar várias vezes, ela atendeu.
Quando
ouvi sua voz, eu me identifiquei e pedi-lhe que descrevesse seu marido. Marya
demonstrou surpresa diante do pedido, mas o descreveu. Em seguida, perguntei
onde ela morou em Debrecen, e ela me disse qual era o seu endereço ali.
Pedi-lhe
que aguardasse na linha. Virei-me para Paskin e disse:
-
Você e sua esposa moraram na rua tal, número tal?
-
Sim! - ele exclamou. Seu rosto estava branco como um lençol, e ele tremia.
-
Procure manter a calma - eu insisti. - Um milagre está prestes a acontecer.
Pegue o telefone e converse com sua esposa!
Ele
movimentou a cabeça afirmativamente, como se estivesse atordoado, com os olhos
lacrimejantes. Pegou o telefone, ouviu a voz da esposa e gritou:
-
É Bela quem está falando! É Bela! - ele repetia histericamente.
Ao
ver que o pobre coitado estava tão eufórico a ponto de não poder falar com
coerência, peguei o telefone de suas mãos trêmulas.
-
Não saia daí - eu disse a Marya, que também parecia à beira do histerismo. -
Vou levar seu marido até você. Chegaremos daqui a alguns minutos.
Bela
estava chorando como um bebê e dizia sem parar:
-
É minha esposa! Quero ver minha esposa!
A
princípio, pensei em acompanhar Paskin, porque ele poderia desmaiar de emoção.
Mas concluí que aquele era um momento no qual não deveria haver a presença de
um intruso. Coloquei Paskin em um táxi, forneci o endereço de Marya ao
motorista, paguei a corrida e despedi-me dele.
O
encontro de Bela Paskin com a esposa foi tão comovente, tão cheio de emoções
liberadas, que, tempos depois, nem ele nem Marya conseguiam recordá-Io com
precisão.
-
Eu só me lembro do momento em que me afastei do telefone, caminhei até o
espelho, como se estivesse sonhando, para ver se meu cabelo havia embranquecido
- ela disse posteriormente. - Só sei que, logo em seguida, um táxi parou em
frente à minha casa e meu marido veio ao meu encontro. Não me lembro dos
detalhes. É só isto que sei... que voltei a ser feliz depois de tantos anos...
-
Até hoje - ela prosseguiu -, é difícil acreditar no que aconteceu.
Nós
sofremos demais; ainda sinto muito medo. Cada vez que meu marido sai de casa,
eu digo a mim mesma: "Será que alguma coisa vai tirá-lo de mim outra
vez?" O marido dela está confiante de que nenhum mal terrível recairá
sobre eles.
-
A Providência nos uniu novamente - ele diz com simplicidade. - Tinha de ser
assim.
OS AVÓS SÃO ENCANTADORES
Ema
Bombeck
Histórias
Para o Coração 2 146
Uma
criança em idade pré-escolar, que mora em minha rua, estava curiosa a respeito
dos avós. Ocorreu-me que, para uma criança, os avós são pessoas que apareceram
sem nenhuma explicação, não têm deveres a cumprir e possuem poucas referências.
Eles
parecem viver de acordo com o movimento da brisa.
Estas
palavras, então, são destinadas aos pequeninos, que gostariam de saber o que
significa ser um avô ou uma avó.
Os
avós sempre estão dispostos a comprar doces para vocês, sementes de flores,
cartões de felicitações de todos os tipos, fita adesiva transparente,
espátulas, amendoim torrado e dez bilhetes para ganhar um pônei. (Também uma
caixa de bala puxa-puxa, se eles usarem dentaduras.) Os avós ajudam você a
lavar a louça quando é a sua vez de arrumar a cozinha.
Os
avós são as únicas babás que não cobram hora extra depois da meia-noite - e não
cobram nada antes da meia-noite.
Os
avós compram presentes que sua mãe diz que você não precisa.
Os
avós chegam três horas antes do seu batismo, da sua formatura ou do seu
casamento; isso porque querem se sentar num lugar de onde possam ver tudo o que
vai acontecer.
Os
avós amam você desde quando você era um bebê careca, até ser um pai careca, e
durante todo o tempo em que você teve cabelo. Os avós colocam um agasalho em
você quando eles estão com frio, dão comida a você quando estão com fome e o
levam para a cama quando estão cansados.
Os
avós ficam orgulhosos quando você ganha o prêmio de melhor datilógrafa, o mesmo
prêmio que outras 80 garotas já ganharam.
Os
avós colocam numa moldura o desenho de sua mão, traçado por você, e penduram o
quadro na sala de estar, decorada em estilo mediterrâneo, na casa deles.
Os
avós lhe dão dinheiro escondido pouco antes do Dia das Mães.
Os
avós ajudam você a abotoar as roupas, fechar o zíper e amarrar os sapatos, e
dizem para você não ter pressa de crescer.
Quando
você era um bebê, seus avós iam verificar se você estava chorando, mesmo quando
você estava dormindo profundamente.
Quando
uma criança diz: "Por que vocês não tiveram filhos?", os avós lutam
para conter as lágrimas.
MAIS RICOS OU MAIS POBRES
Rochelle
M. Pennington
Histórias
Para o Coração 2 148
As
esposas que moravam no Castelo de Weinsberg, na Alemanha, estavam cientes da
riqueza que havia ali: ouro, prata, pedras preciosas e riqueza que ninguém
podia sequer imaginar.
No
ano de 1141 d.C., chegou o dia quando todo aquele tesouro ficou ameaçado. Um
exército inimigo cercou o castelo e exigiu a sua posse, a tomada de toda a
fortuna e a vida dos homens que ali moravam. Não havia nada a fazer, a não ser
entregar-se.
Embora
o comandante do exército vitorioso tivesse prometido que as mulheres e as
crianças seriam libertas em segurança, as esposas que moravam no Castelo de
Weinsberg recusaram-se a sair, a não ser com uma condição: elas exigiram que
lhes fosse permitido encher os braços com o maior número de bens que
conseguissem carregar.
Sabendo
que as mulheres poderiam causar um estrago na imensa fortuna, o pedido delas
foi atendido.
Quando
os portões do castelo foram abertos, o exército do lado de fora comoveu-se às
lágrimas. Cada mulher estava carregando seu marido.
De
fato, as esposas que moravam no Castelo de Weinsberg estavam cientes de todas
as riquezas que havia dentro dele.
CAIXAS SIMPLES DE MADEIRA
Martha
Pendergrass Templeton
Histórias
Para o Coração 2 149
Imagino
que todos tenham vivido, na infância, um Natal mais marcante do que todos os
outros. Para mim, esse Natal especial aconteceu no ano em que a fábrica
Burlington, de Scottsboro, fechou as portas. Eu ainda era pequena. Não sei
precisar qual foi exatamente o ano; a lembrança é como uma névoa em minha
mente, mas os acontecimentos daquele Natal permanecerão para sempre em meu
coração.
Meu
pai, que havia sido empregado da Burlington, nunca deixou transparecer para nós
que estávamos atravessando dificuldades financeiras. Afinal, as crianças vivem
em um mundo de inocência, no qual o dinheiro e o emprego não passam de palavras
soltas ao vento, e, para nós, a euforia do Natal jamais seria extinta. Só
sabíamos que nosso pai, que normalmente trabalhava muito e até tarde da noite,
agora estava sempre em casa; cada dia parecia ser um feriado.
Mamãe,
uma dona-de-casa, estava procurando trabalho na fábrica de tecidos; mas os
empregos eram raros. Depois de muita insistência, disseram-lhe que não havia
vagas antes do Natal. Foi no caminho de casa, depois daquela angustiante
entrevista, que ela acabou com o nosso único carro. O magro cheque do
seguro-desemprego que papai recebia passou a ser a única fonte de renda de
nossa família.
Para
meus pais, o Natal trouxe montanhas de preocupações, suspiros infindos,
lágrimas e muitas orações.
Não
posso sequer imaginar o que aconteceu entre meus pais naqueles momentos em que
seus pedidos foram atendidos. Talvez eles tenham demorado um pouco até que as
ideias se formassem completamente. Talvez tenha sido uma mistura das ideias dos
dois.
Não
sei bem qual foi a ideia que deu certo, mas ela funcionou.
Juntos,
eles economizariam dinheiro suficiente para comprar uma boneca Barbie para cada
uma de nós. Para os outros presentes, eles confiariam nos seus próprios
talentos, usando sobras de materiais.
Enquanto
ainda era noite, mãos calejadas serravam, martelavam e pintavam; dedos ágeis
confeccionavam roupinhas e mais roupinhas na máquina de costura: vestidos de
noiva e camisolas para as bonecas...
roupas
em miniatura para cada ocasião, produzidas sob o ruído da velha máquina de
costura. Não faço ideia de onde estávamos enquanto todas aquelas coisas eram
feitas. Mas, de alguma forma, meus pais encontravam tempo para trabalhar de
corpo e alma em nossos presentes, e a euforia do Natal renasceu para a família
inteira.
Na
véspera daquele Natal, o sol estava se pondo no horizonte quando ouvi o ronco
inesperado de um motor na entrada de nossa casa. Olhei para fora e mal pude
acreditar no que via. Tio Buck e tia Charlene, o cunhado e a irmã de mamãe,
vieram da Geórgia para fazer uma surpresa a nós. Amontoados no carro, como se
não houvesse necessidade de ar para respirar, estavam meus três primos, minha
"tia" Dean, que se recusava a ser chamada de "tia", meu avô
e minha avó. Também não pude deixar de notar os inúmeros presentes para todos
nós, muito bem embrulhados e amarrados com lindos laços. Eles souberam que
aquele seria um Natal difícil para nossa família e vieram colaborar.
Na
manhã seguinte, encontramos mais presentes do que poderíamos imaginar. E,
apesar de não me lembrar exatamente de cada brinquedo, sei que havia uma
montanha deles. Brinquedos! Brinquedos!
Brinquedos!
Foi
então que, em meio a toda aquela alegria, papai decidiu que não nos entregaria
seus presentes. Com tantos brinquedos, não havia motivo para nos dar as
casinhas de boneca feitas por ele. Afinal, elas não passavam de caixas rústicas
e vermelhas. Certamente, não eram tão bonitas quanto os presentes comprados em
lojas, trazidos pela família de mamãe. Os risos encheram a manhã, e não
desconfiamos de que nossos presentes estavam escondidos em algum lugar.
Quando
mamãe perguntou a papai sobre os presentes, ele lhe disse o que pensava. Ela
insistiu que ele nos desse os presentes. E assim, no final daquela tarde,
depois que todas as visitas partiram, papai trouxe, com relutância, seus
presentes de amor para a sala de estar.
Caixas
de madeira. Caixas de madeira, pintadas de vermelho, com dobradiças, para que
cada lado pudesse ser aberto e usado como uma casa. De cada lado havia um
compartimento com tamanho suficiente para acomodar uma boneca Barbie. Um
pequenino cavalete atravessava a caixa, com cabides para pendurar as roupinhas
da boneca. Na parte externa, ele colocou uma alça, de modo que, quando a caixa
fosse fechada por um ímã parecido com o sinal de igual, a casa pudesse ser
carregada como se fosse uma maleta. Embora eu não me recorde de nenhum dos
outros presentes que ganhei naquele dia, aquelas coisas ficaram gravadas
indelevelmente em minha memória. Eu me lembro da textura da madeira, da exata
tonalidade da tinta vermelha, do ímã que fechava a tampa, da alça escurecida
pelo tempo e das dobradiças... Eu me lembro de ter pendurado carinhosamente as
roupinhas nos cabides e do cuidado que tinha para não enroscar o cabelo da
Barbie quando fechava a caixa. Eu me lembro de tudo o que foi possível ser
registrado em minha memória, porque guardamos com carinho aquelas caixas,
durante muito tempo, mesmo depois que nossas bonecas deixaram de existir.
Já
vivi e apreciei muito 29 celebrações natalinas, cada uma delas com a euforia
que lhe é peculiar. Cada uma recheada de amor e esperança. Cada uma trazendo
presentes com os quais tanto sonhei. Mas poucos presentes se comparam àquelas
caixas simples de madeira. Portanto, não é de admirar que meus olhos fiquem
úmidos quando penso em meu pai, em pé, naquela manhã fria de Natal, perguntando
a si mesmo se seu presente era suficientemente bom.
O
amor, papai, é sempre suficientemente bom!
PESSOAS INCOMUNS
Jo Ann
Larsen
Histórias
Para o Coração 2 152
Larry
e Jo Ann eram um casal comum. Moravam em uma casa comum de uma rua comum. Assim
como qualquer outro casal comum, eles lutavam para viver de acordo com suas
rendas e fazer o que era certo para os filhos.
Eles
também eram comuns em outras situações; tinham suas brigas.
A
maior parte da conversa entre eles girava em torno do que estava errado no seu
casamento e na busca de descobrir de quem era a culpa.
Chegou
o dia quando aconteceu uma coisa incomum.
-
Jo Ann, você sabia que tenho uma cômoda mágica? Todas as vezes que abro as
gavetas, elas estão cheias de meias e cuecas - disse Larry. - Quero agradecer o
trabalho que você tem tido durante todos esses anos para mantê-las sempre
cheias.
Jo
Ann olhou espantada, por cima dos óculos, para o marido, e perguntou:
-
O que você está querendo, Larry?
-
Nada. Só quero que você saiba que gosto daquela cômoda mágica.
Não
era a primeira vez que Larry fazia algo incomum. Então, Jo Ann esqueceu o
incidente até alguns dias depois.
-
Jo Ann, obrigado por ter corrigido os números dos cheques no livro caixa este
mês. Havia 16 números errados e você corrigiu 15.
Isto
é um recorde.
Sem
acreditar no que ouvia, Jo Ann desviou o olhar dos remendos que estava fazendo.
-
Larry, você está sempre reclamando que eu registro errado os números dos
cheques. Por que você está me dizendo isto agora? - Por nada. Eu só queria que
você soubesse que gostei de seu empenho.
Jo
Ann sacudiu a cabeça e voltou a concentrar-se em seus remendos.
-
O que houve com ele? – ela resmungou.
Contudo,
no dia seguinte, enquanto estava preenchendo um cheque na mercearia, Jo Ann
olhou mais uma vez no talão para confirmar se havia anotado o número certo do
cheque.
-
Por que passei, de repente, a me preocupar com esses números idiotas? - ela
perguntou a si mesma.
Jo
Ann tentou esquecer o fato, mas o comportamento estranho de Larry
intensificou-se.
-
Jo Ann, o jantar estava excelente - ele disse uma noite. - Gostei de ver que
você está se esforçando. Aposto que nos últimos 15 anos você já preparou 14 mil
refeições para mim e para as crianças.
-
Que maravilha, Jo Ann! A casa está impecável. Você tem trabalhado muito para
deixar tudo tão limpo. Obrigado, Jo Ann, por ser tão autêntica. Eu aprecio sua
companhia.
Jo
Ann foi ficando cada vez mais preocupada. Onde está o sarcasmo, a crítica? -
ela pensava.
-
Seus temores de que algo estranho estivesse acontecendo com o marido foram
confirmados por Shelly, sua filha de 16 anos, que comentou:
-
O papai deve estar meio pirado, mamãe. Ele me disse que eu estava muito bonita.
Com toda esta maquiagem e estas roupas esquisitas que eu uso, ele me disse
isso. Aquele não é o meu pai, mamãe. O que está havendo com ele?
Fosse
o que fosse, Larry não desistiu. Dia após dia, ele continuava a concentrar-se
no positivo. Passadas semanas, Jo Ann começou a acostumar-se com a maneira
estranha do marido e, vez por outra, resmungava um "obrigada". Ela se
orgulhava de ter vencido a situação até o dia em que algo tão peculiar
aconteceu que a deixou completamente desnorteada:
-
Quero que você descanse um pouco - disse Larry. - Vou lavar a louça. Tire as
mãos dessa frigideira e saia da cozinha.
(Uma
longa, longa pausa.) - Obrigada, Larry. Muito obrigada!
Agora,
os passos de Jo Ann eram mais leves, sua autoconfiança aumentou e, de vez em
quando, ela assobiava. Não havia mais momentos de mau humor.
Estou
gostando do novo comportamento de Larry, ela pensava.
A
história terminaria aqui se não tivesse havido outro acontecimento mais
extraordinário ainda. Desta vez foi Jo Ann quem falou:
-
Larry - ela disse. - Quero agradecer o trabalho que você tem tido para cuidar
de nós durante todos esses anos. Acho que nunca cheguei a dizer quanto eu
aprecio tudo isso.
Por
mais que Jo Ann tivesse insistido em achar uma resposta, Larry nunca revelou o
motivo daquela mudança radical em seu comportamento. Assim, este fato
permanecerá como um dos mistérios da vida. Mas trata-se de um mistério que
agradeço estar vivendo.
Veja
só, Jo Ann sou eu.
50 PROMESSAS PARA O CASAMENTO
Steve
Stephens
Histórias
Para o Coração 2 155
1.
Iniciar cada dia com um beijo.
2.
Usar aliança o tempo todo.
3.
Jantar fora uma vez por semana.
4.
Aceitar as diferenças.
5. Ser
cortês.
6. Ser
gentil.
7.
Oferecer presentes.
8.
Sorrir com freqüência.
9.
Tocar um no outro.
10.
Conversar sobre projetos.
11.
Escolher uma canção que seja tia nossa canção".
12.
Acariciar as costas um do outro.
13.
Rir das mesmas coisas.
14.
Enviar um cartão sem nenhum motivo especial.
15.
Fazer a vontade dele ou dela.
16.
Ouvir com atenção.
17.
Incentivar.
18.
Agir de acordo com o jeito dele ou dela.
19.
Conhecer as necessidades um do outro.
20.
Preparar o café da manhã dele ou dela.
21.
Trocar elogios duas vezes por dia.
22.
Telefonar para ele ou para ela durante o dia.
23.
Deixar a pressa de lado.
24.
Andar de mãos dadas.
25.
Trocar carinhos.
26.
Pedir a opinião do outro.
27.
Demonstrar respeito.
28.
Ser cordial quando o outro chega em casa.
29.
Cuidar da aparência.
30.
Piscar um para o outro.
31.
Celebrar os aniversários com uma grande comemoração.
32.
Pedir desculpas.
33.
Perdoar.
34.
Planejar uma "fuga" romântica.
35.
Perguntar: "O que posso fazer para deixar você mais feliz"?
36.
Ser uma pessoa positiva.
37.
Ser uma pessoa bondosa.
38.
Ser vulnerável.
39.
Atender rapidamente ao pedido do outro.
40.
Conversar sobre o amor entre vocês.
41.
Recordar os bons momentos da vida em comum.
42. Tratar
os amigos e parentes do outro com cortesia.
43.
Enviar flores no Dia dos Namorados e no aniversário de casamento.
44.
Admitir os próprios erros.
45.
Ser sensível aos desejos sexuais do cônjuge.
46.
Orar um pelo outro diariamente.
47.
Contemplar o pôr-do-sol ao lado do cônjuge.
48.
Dizer, com freqüência: "Eu amo você."
49.
Terminar o dia com um abraço.
50.
Procurar ajuda fora do lar quando necessário.
O TESOURO
Alice
Gray
Histórias
Para o Coração 2 156
A
garotinha muito esperta, de cabelos loiros e encaracolados, tinha quase cinco
anos. Enquanto aguardava com a mãe na fila do caixa, ela avistou um colar de
pérolas brancas e reluzentes, dentro de uma caixa comum cor-de-rosa.
-
Oh, por favor, mamãe! Posso comprar? Por favor, mamãe, por favor!
A
mãe verificou rapidamente o preço marcado na embalagem e virou-se para a
garotinha de olhos azuis, que a fitava com grande ansiedade.
-
Um dólar e noventa e cinco centavos. Quase dois dólares. Se você quiser
realmente essas pérolas, acho que vai ter de fazer alguns trabalhos extras em
casa para ganhar dinheiro suficiente para comprá-las você mesma. Ainda falta
uma semana para o seu aniversário, e talvez você ganhe uma- nota de um dólar da
vovó.
Assim
que entrou em casa, Jenny esvaziou seu cofrinho de moedas e contou: 17
centavos. Depois do jantar, ela ajudou nas tarefas da casa um pouco mais que o
normal e dirigiu-se à casa da vizinha, a Sra. McJames, para lhe perguntar se
poderia arrancar algumas ervas daninhas do jardim, por dez centavos. No dia de
seu aniversário, a vovó lhe deu a nota de um dólar, e, finalmente, Jenny
ajuntou dinheiro suficiente para comprar o colar.
Jenny
gostava demais de pérolas. Elas faziam-na sentir bem vestida e com aparência de
adulta. Usava o colar em todos os lugares - na Escola Dominical, no jardim de
infância e até para dormir. Só o tirava do pescoço quando nadava ou tomava
banho de imersão. Sua mãe lhe disse que, se as pérolas molhassem, poderiam
manchar o pescoço de verde.
O
pai de Jenny era muito carinhoso. Todas as noites, quando ela ia dormir, ele
parava tudo o que estivesse fazendo, ia até o quarto da menina, no andar de
cima da casa, e lia uma história para a filha. Uma noite, assim que terminou a
história, ele perguntou a Jenny:
-
Você me ama?
-
Claro, papai. Você sabe que sim.
-
Então, me dê as suas pérolas.
-
Ah, papai, as minhas pérolas, não. Você pode ficar com a Princesa, aquela égua
branca de minha coleção. Aquela que tem a cauda cor-de-rosa. Você sabe qual é,
papai? Aquela que você me deu.
Ela
é minha favorita.
-
Está bem, querida. O papai ama você. Boa-noite - ele disse, dando-lhe um beijo
no rosto.
Cerca
de uma semana depois, assim que a história terminou, o pai de Jenny perguntou
novamente:
-
Você me ama?
-
Claro, papai. Você sabe que sim.
-
Então, me dê as suas pérolas.
-
Ah, papai, as minhas pérolas, não. Você pode ficar com a minha boneca. Aquela
que ganhei no meu aniversário. Ela é linda, e você pode ficar também com o
cobertor amarelo que combina com o pijaminha dela.
-
Está certo. Durma bem. Deus a abençoe, pequenina. Papai ama você.
E,
como sempre, ele a beijou no rosto.
Algumas
noites depois, quando o pai entrou no quarto, Jenny estava sentada na cama, com
as pernas cruzadas. Quando se aproximou, ele notou que o queixo da filha
tremia, e uma lágrima silenciosa rolava por seu rosto.
-
O que foi, Jenny? Qual é o problema?
-
Sem dizer nada, Jenny estendeu a mãozinha para o pai. Ao abri-la, lá estava o
colar de pérolas. Com a voz embargada, ela conseguiu dizer:
-
Aqui estão, papai. São suas.
Com
os olhos lacrimejando, o bondoso pai de Jenny pegou a bijuteria barata com uma
das mãos e enfiou a outra mão no bolso, de onde tirou um estojo de veludo azul,
que continha um colar de pérolas verdadeiras, e o entregou a Jenny. O colar
sempre tinha estado em seu bolso. Ele estava apenas aguardando que a filha lhe
desse a bijuteria para poder oferecer-lhe o tesouro verdadeiro.
O
nosso pai celestial faz o mesmo conosco!
AQUELE CACO DE PORCELANA
Bettie
B. Young
Um
dia, quando eu tinha cerca de nove anos, minha mãe precisou viajar até a cidade
mais próxima e incumbiu-me de cuidar de meus irmãos e irmãs. Assim que ela se
afastou com o carro, corri até seu quarto e abri o armário para bisbilhotar.
Na
primeira gaveta, debaixo de algumas roupas macias e cheirosas de adultos, havia
uma pequena caixa de joias, feita em madeira. Eu me encantei com aqueles
tesouros: um anel de rubi, que minha mãe recebeu de herança de sua tia
predileta; brincos de pérola, que pertenceram à minha avó; a aliança de minha
mãe, que ela tirava para lidar na fazenda quando ajudava meu pai.
Experimentei
todas as peças, povoando minha mente com fantasias maravilhosas, sonhando em
ser uma mulher bonita como minha mãe e usar aquelas joias delicadas.
De
repente, notei que havia alguma coisa escondida debaixo do veludo vermelho que
forrava a tampa da caixa. Levantei o tecido e encontrei um caco de porcelana
branca.
Peguei-o
sem entender por que motivo minha mãe guardava aquele caco. Apesar de ter um
leve brilho sob a luz, ele não me dizia nada.
Alguns
meses depois, enquanto eu arrumava a mesa para o jantar, nossa vizinha Marge
bateu na porta. Mamãe estava ocupada no fogão e gritou para que ela entrasse.
Ao ver a mesa arrumada, Marge disse:
-
Ah! vocês estão esperando visitas. Eu volto outra hora.
-
Não, entre - disse mamãe. - Não estamos esperando ninguém.
-
Mas essa não é a sua melhor porcelana? - Marge perguntou.
-
Eu nunca permito que as crianças manuseiem minhas louças finas!
Mamãe
riu. - Hoje vou servir o prato preferido de minha família.
Se,
quando temos convidados, nós arrumamos uma mesa especial, por que não fazer o
mesmo com nossa família?
-
Mas essa porcelana é linda demais! - exclamou Marge.
-
Ora - disse mamãe -, alguns pratos quebrados não significam nada diante da
alegria que sentimos quando os usamos. - Em seguida, ela complementou: - Além
disso, cada trinca e cada caco tem uma história para contar.
Mamãe
esticou o braço e retirou do armário um prato velho, com os cacos colados.
-
Este aqui quebrou no dia em que trouxemos Mark da maternidade - ela explicou. -
Que tarde fria e divertida foi aquela!
Judy
tinha apenas seis anos, mas queria colaborar. Ela derrubou o prato no chão,
quando o levava até a pia. A princípio, fiquei aborrecida, mas, em seguida,
disse a mim mesma: "Não vou permitir que um prato quebrado estrague a
felicidade que estamos sentindo com a chegada de mais um bebê." Todos nós
nos divertimos muito colando os cacos!
Marge
parecia que estava duvidando daquilo que ouvia.
Mamãe
abriu o armário novamente e retirou outro prato. Ela o segurou e disse:
-
Você está vendo esta beirada lascada? Aconteceu quando eu tinha 17 anos.
A
voz dela abrandou-se.
-
Estávamos no outono. Meus irmãos precisavam recolher o último fardo de feno e
contrataram um moço para ajudá-los. Ele era magro, loiro e tinha braços fortes.
E aquele sorriso maravilhoso. Meus irmãos gostaram dele e o convidaram para
jantar. Quando meu irmão mais velho o fez sentar-se ao meu lado, fiquei tão
constrangida que quase desmaiei.
De
repente, ao se lembrar de que estava contando a história para sua filha e para
uma vizinha, mamãe corou e concluiu, apressadamente:
-
Ele me passou este prato e me pediu para servi-lo. Fiquei tão nervosa quando
peguei o prato que ele escorregou e bateu na tigela.
-
Parece uma lembrança que eu gostaria de esquecer - disse Marge.
-
Oh, não - rebateu minha mãe. - Quando estava saindo, o moço aproximou-se de
mim, segurou minha mão na dele e colocou dentro dela um caco de porcelana. Não
disse uma só palavra. Apenas deu aquele sorriso lindo. Um ano depois, eu me
casei com ele. E, até hoje, quando vejo este prato, eu me recordo com carinho
do momento em que o conheci.
Ao
me ver com os olhos fixos nela, mamãe piscou para mim. Em seguida, colocou
cuidadosamente o prato atrás dos outros, num lugar reservado só para ele.
Eu
não conseguia esquecer aquele prato lascado. Na primeira oportunidade, subi ao
quarto de mamãe e peguei novamente a caixa de joias. Lá estava o caco de
porcelana.
Depois
de examiná-Io atentamente, corri até o armário da cozinha, subi em uma cadeira
e peguei o prato. Conforme eu havia adivinhado, o caco que mamãe guardava com
tanto carinho pertencia ao prato que ela quebrou quando conheceu meu pai.
Sabendo
da história e respeitando-a, recoloquei cuidadosamente o caco na caixa de
joias.
A
história de amor que começou com aquele caco está completando 54 anos.
Recentemente, uma de minhas irmãs perguntou a mamãe se aquele antigo anel de
rubi poderia vir a ser dela um dia. Minha outra irmã gostaria de ficar com os
brincos de pérola de vovó.
Quanto
a mim, eu gostaria de herdar a joia mais preciosa de mamãe - lembrança de uma
extraordinária vida de amor: aquele caco de porcelana.
UM TOQUE DE CARINHO
Daphna
Renan
Michael
e eu mal notamos quando a garçonete se aproximou e colocou os pratos em nossa
mesa. Estávamos sentados em uma pequena lanchonete afastada do burburinho da
Rua Três, em Nova York. Nem mesmo o agradável aroma dos blintzes (espécie de
panqueca), colocados recentemente sobre a mesa, conseguiu desviar nossa
atenção, e continuamos a conversar animadamente. Os blintzes ficaram
mergulhados no molho por um bom tempo. Estávamos enlevados demais para pensar
em comer.
Nossa
conversa era animada e - por que não dizer? - profunda.
Rimos
ao comentar o filme a que assistimos na noite anterior e discutimos o
significado que havia por trás do texto que escrevemos para nosso seminário
sobre literatura. Ele descreveu o momento em que deu um passo drástico rumo à
maturidade quando se recusou a continuar sendo chamado de "Mikey" e
passou a ser Michael. Teria ele 12 ou 14 anos? Michael não se lembrava. Só
sabia que sua mãe começou a chorar e disse que ele estava crescendo rápido
demais.
Quando,
finalmente, demos uma mordida em nossos blintzes de blueberry (frutinha azul ou
preta, de formato redondo), eu lhe contei sobre os blueberries que minha irmã e
eu costumávamos colher quando visitávamos nossos primos no campo. Lembrei que
quase sempre eu devorava minhas frutinhas antes de voltarmos para casa, e minha
tia me advertia que eu poderia ficar com dor de estômago. É claro que isso
nunca aconteceu.
Enquanto
nossa agradável conversa prosseguia, meu olhar percorreu a lanchonete e parou
em uma mesa de canto, onde havia um casal de idosos. O vestido de estampa
florida que a mulher usava parecia tão desbotado quanto a almofada sobre a qual
ela pousara sua bolsa surrada. O topo da cabeça do homem era tão liso quanto o
ovo quente que ele mordiscava lentamente. Ela também comia em ritmo lento e
monótono o seu mingau de aveia.
Porém,
o que mais me chamou a atenção foi o silêncio aterrador que reinava entre eles.
Tive a impressão de que existia um vazio melancólico naquela mesa. Enquanto a
conversa entre mim e Michael, passava de risadas a sussurros, de confissões a
afirmações, o silêncio comovente daquele casal era digno de nota. Que tristeza,
pensei, não ter sobrado mais nada para dizer! Será que eles já haviam virado
todas as páginas da história da vida de cada um? E se o mesmo acontecesse
conosco?
Michael
e eu pagamos a conta e nos levantamos para sair.
Quando
passamos pelo canto onde o casal estava sentado, derrubei acidentalmente minha
carteira no chão. Ao abaixar-me para pegá-Ia.
notei
que, debaixo da mesa, a mão livre de cada um estava segurando carinhosamente a
do outro. Eles estavam de mãos dadas o tempo todo!
Endireitei
o corpo e recebi uma lição de humildade diante daquele gesto de afeto, simples,
porém profundo, que eu acabara de ter o privilégio de presenciar. O carinho com
que aquele homem segurava a mão cansada da esposa preencheu não penas o vazio
que imaginei haver entre eles, mas o meu coração também. O silêncio entre eles
não era do tipo constrangedor que ameaça preencher o vazio que se segue ao
final de uma anedota contada no primeiro dia de namoro.
Não,
o silêncio deles trazia o conforto, a tranqüilidade e o carinho que não
necessitam de palavras para serem expressos. Provavelmente, eles já estavam
acostumados a passar essas primeiras horas da manhã juntos, e talvez o dia de
hoje não estivesse sendo diferente do dia de ontem. Mas eles se sentiam em paz
com isso e em paz um com o outro.
Talvez,
pensei enquanto Michael e eu saíamos da lanchonete, fosse até bom que isso
acontecesse conosco um dia. Talvez isso fosse encantador!
QUANDO OS FILHOS CRESCIDOS VÊM NOS VISITAR
Erma
Bombeck
Nos
velhos tempos, eu era o tipo de mãe que fazia os filhos arrumarem seus quartos,
prepararem os lanches e colocarem a roupa suja no cesto. Agora, quando eles
chegam, deixo essas regras de lado. Pareço uma recepcionista de hotel à espera
de uma boa gorjeta. Ando atrás deles o tempo todo perguntando: "Vocês
estão com fome? Posso ajudar em alguma coisa? Vocês têm roupa suja para
lavar?" Sento-me à mesa quando eles estão com fome. Enquanto cozinho seus
pratos preferidos, fico sabendo que eles vão sair com amigos e observo,
desanimada, quando os vejo comer meio quilo de pernil assado às 3 horas da
tarde.
Quando
eles me visitam, minha vida muda. Meu carro desaparece.
Minha
máquina de lavar roupa fica ligada no máximo só com um par de meias e uma
camiseta dentro dela. O telefone toca o tempo todo, e nunca é para mim.
No
final de sua visita, separamos um dia para empacotar o lanche e nos dirigirmos
ao aeroporto. Só quando volto para casa é que percebo como minha vida se tornou
ordeira. Eu gosto de tranquilidade. O botão do aparelho de TV é resgatado no
meio do cesto de roupas sujas e retorna a seu lugar. Os recipientes vazios de
leite e suco são retirados da geladeira. As toalhas molhadas são colocadas na
máquina de lavar. O banheiro retoma a seus padrões normais.
Meu
mundo voltou a ser o mesmo. Então, por que estou chorando?
FUGINDO DOS PROBLEMAS
Christopher
de Vinck
Finalmente,
eu consegui. As crianças estavam falando alto demais, irritadas, impossíveis.
Eu estava cansado e mal humorado. Minha esposa estava cansada e mal-humorada.
Resolvi sair de casa e ter um dia só para mim. Queria ser paparicado por mim
mesmo. Queria ter um dia em que eu pudesse fazer tudo o que desejasse. Eu ia
viver intensamente aquele dia, da maneira que mais me agradasse. Não daria
atenção a ninguém, a não ser a mim mesmo.
Saí
de casa com 50 dólares no bolso. Que bom! Consegui!, eu disse a mim mesmo,
enquanto dirigia meu carro pela auto-estrada rumo ao norte.
Parei
num shopping e passei momentos emocionantes dentro de uma livraria, comprando
uma coleção de poemas de Walt Whitman.
Depois
de dirigir o carro por um bom tempo, parei no McDonald's e pedi dois
hambúrgueres, uma porção generosa de batatas fritas "ó para mim e um
refrigerante "ó para mim. Comi e bebi "em ser interrompido, sem ter de
dar meu picles a alguém, sem ter de limpar a boca, o nariz ou o colo de
ninguém. Em seguida, comprei o maior sorvete de chocolate que encontrei.
Eu
estava livre. Estava longe de minha cidade. Fui ao cinema e assisti ao filme,
sem ter de comprar pipoca, sem ter alguém sentado em meu colo, sem ter de levar
alguém ao banheiro. Eu era um homem livre! Estava aproveitando aquela
liberdade. E sentindo-me totalmente infeliz.
Quando
voltei para casa, todos estavam dormindo. Enquanto eu me deitava em silêncio,
minha esposa sussurrou:
-
Sentimos sua falta.
-
Eu também - respondi.
Nunca
mais saí de casa para fugir dos problemas.
POR QUE MINHA ESPOSA COMPROU ALGEMAS
Philip
Gulley
Quando
eu tinha 23 anos, tomei a melhor decisão de minha vida. Pedi em casamento uma
mulher bonita e engenhosa. E ela aceitou, contrariando os conselhos de suas
amigas, de sua família e de uma boa parte dos habitantes do mundo ocidental. No
dia do nosso casamento, as damas de honra usaram roupa preta.
Por
oito anos, eu fui um exemplo de responsabilidade. Trabalhava muito. Enxugava a
louça. Abaixava a tampa do vaso sanitário. Logo depois, minha esposa
engravidou. Passei a frequentar cursos de gravidez e aprendi a ser solidário.
Quando levamos Spencer para casa, eu me levantava à noite com minha esposa para
alimentá-Io. E, quando ele regurgitava em mim, eu agia com bom humor.
Três
meses depois do parto, Joan voltou a trabalhar fora, em seu emprego de meio
expediente. Na manhã do primeiro dia de trabalho, ela me alertou para ficar de
olho em nosso filho. Senti-me ofendido e disse a ela:
-
Por favor, querida, será que já não provei que sou um pai confiável?
Por
isso, penso que foi a desconfiança de minha esposa que me fez esquecer de levar
meu filho comigo quando fui à mercearia naquela tarde.
Eu
já estava a caminho da mercearia quando olhei ao redor. Ele não se encontrava
ali! Corri para casa e o encontrei no berço, olhando-me com ar carrancudo. Eu
sabia o que ele diria quando aprendesse a falar. Confessei meu erro a Joan em
um jantar à luz de velas, presenteando-a com uma nova pulseira de prata.
Por
ser cristã, Joan perdoou-me e deu-me mais uma chance. Na manhã seguinte, após
ter-me algemado a Spencer, ela disse:
-
Querido! eu confio em você.
Ao
refletir sobre esta experiência, aprendi duas lições: A primeira é que ter
filhos causa um dano irreparável às áreas do cérebro relacionadas com a
memória; e a segunda... ah... qual é mesmo a segunda? Ah, sim, a segunda é: Às
vezes, todos nós nos sentimos esquecidos.
Na
verdade, aprendi a segunda lição quando era criança. Durante uma viagem de
carro, minha família também se esqueceu de mim.
Estávamos
de férias - cinco crianças, mamãe e papai - e paramos para comer no Stuckey' s.
Eu estava no banheiro quando eles entraram no carro e partiram. Só depois de
rodarem mais de 30 quilômetros foi que notaram a falta de um dos filhos.
Fizeram uma votação e decidiram voltar para me buscar. A votação quase empatou,
mas mamãe mudou de ideia no último minuto.
Às
vezes, então, podemos nos sentir esquecidos. O texto mais triste da Bíblia é
aquele quando Cristo pergunta a Deus por que Ele o abandonou. Se Cristo
sentiu-se desamparado, como é que n6s podemos deixar de nos sentir esquecidos e
abandonados?
Alguns
estudiosos da Bíblia dizem que não foi isso que Jesus quis dizer, quando clamou
na cruz. Eles dizem que Jesus estava citando a primeira frase do Salmo 22, e
que repetiu aquelas palavras para confirmar a conclusão vitoriosa daquele
salmo. Tenho um grande respeito pelos estudiosos da Bíblia, mas eles estão
redondamente enganados a respeito disso. Penso que Jesus se sentiu esquecido.
Contudo, o túmulo vazio nos prova que Ele foi lembrado.: O mesmo acontece
conosco. E é isso que vou contar a meu filho assim que me lembrar de onde eu o
deixei.
ATAREFADO DEMAIS
Ron
Mehl
Nunca
me esquecerei do dia em que vi, da sala de estar, nosso filho mais novo, Mark,
chegando da escola debaixo de chuva.
Mark
estava no terceiro ano e recebera permissão para ir de bicicleta à escola,
localizada em nosso bairro. Naquele dia, cheguei mais cedo da igreja e estava
sentado numa poltrona perto da janela. A chuva caía lá fora, e vi meu filho ao
longe, caminhando com dificuldade debaixo d'água. Ele estava com as roupas
completamente encharcadas e o cabelo grudado na cabeça. Assim que abri a porta,
ele olhou para mim e deu um leve sorriso, com o rosto vermelho por causa do
frio.
-
Oi, papai! - ele disse. - Você chegou mais cedo.
-
Oi, meu filho ! Você está encharcado até os ossos.
-
É, eu sei.
-
Mark, se você tivesse ido de bicicleta à escola, teria voltado para casa mais
depressa. E não teria ficado tão molhado assim.
Ele
olhou para mim com ar de timidez, enquanto os pingos da chuva escorriam do
cabelo, molhando seu rosto.
-
Eu sei, papai.
Fiquei
desconcertado e continuei, como que ponderando com Mark:
-
Filho, se você sabe, por que não foi de bicicleta?
Ele
abaixou a cabeça e, de repente, eu compreendi. Rapaz, eu queria esconder-me
debaixo da mesa e ficar ali por um bom tempo.
Ele
me havia dito várias vezes que o pneu de sua bicicleta estava furado. Chegou a
me pedir:
-
Papai, você poderia consertar o pneu para mim?
-
Claro, filho - eu havia respondido. - Não se preocupe. Vou cuidar disso
imediatamente.
Mas
não fiz nada. Esqueci-me completamente.
Enquanto
meu filho continuava ali, na entrada da casa, encharcado e tremendo de frio,
ele poderia ter dito: "Não fui de bicicleta porque alguém me prometeu que
consertaria o pneu, mas não consertou." Ele tinha todo o direito de dizer
isso. Mas não disse. Sua resposta permanece gravada indelevelmente no coração
do pai dele.
-
Ah, papai, eu sei que você é atarefado demais, tem muitas coisas para fazer e
não quis aborrecer você mais uma vez.
Filho,
eu pensei, seu pai não é atarefado demais, ele é egoísta demais.
Para
mim, um pneu de bicicleta não representava nenhum problema importante - era
apenas um item a mais em minha longa lista de "coisas para fazer".
Mas, para Mark, significava mais do que um meio de transporte. Significava mais
do que uma longa caminhada debaixo de chuva. Significava confiar que seu pai
atenderia às suas necessidades.
QUANDO A LUA NÃO BRILHA
Ruth
Senter
No
leste da Pensilvânia, geralmente, há um luar brilhante nas noites claras do mês
de maio. Porém, nesta noite a lua não apareceu. O céu está escuro. Observo
círculos marrons sob a luz do hall, quando chegamos às 2 horas da manhã de
Illinois. Minha mãe vem nos receber. Observo também círculos marrons sob os
olhos dela. Marcas que nunca notei. Pele cansada e rugosa.
Mas
lá está ela, minha mãe há 40 anos. Percebo um acúmulo de noites mal dormidas,
enquanto ela aguardava a chegada dos filhos, como se os anos tivessem lançado
sombras da lâmpada em seu rosto.
Vejo
o passar dos anos nas veias pretas e azuis que, exatamente nesta semana, foram
submetidas ao cateter do cardiologista. Ouço o passar dos anos - da mesma forma
que o barulho do mar ressoa numa concha - no diagnóstico médico. "Muita
cautela... coração dilatado... diminuir o ritmo..." Arregalo os olhos
diante das incertezas. Ao longo da vida, mamãe tem sido uma mulher de pulso
firme. O futuro tem sido uma promessa garantida - vários casamentos na família,
nascimentos, formaturas, recitais de música, ordenações, Natal, Páscoa, Dia de
Ação de Graças. O tempo tem sido um evento, não uma sequência.
Quando
olho para mamãe, percebo que alguém deu corda no relógio. Agora, o tempo tem
uma cadência. Os anos foram sendo adicionados. A história tem um começo e um
fim. Tremo de frio na manhã gelada. Mas os braços de mamãe me envolvem
calorosamente, e estou em casa. Uma filha de 40 anos tranquilizando-se diante
do toque carinhoso da mãe. Não existe tempo para um toque carinhoso.
Os
braços acolhedores não conhecem o passar dos anos.
Ouço
o borbulhar da água fervendo na chaleira. Biscoitinhos de lascas de chocolate
recém-saídos do forno esperam para ser devorados no prato de louça resistente
que, um dia, serviu biscoitinhos preparados na cozinha da vovó Hollinger. Os
biscoitinhos de lascas de chocolate feitos por mamãe e o prato de louça da vovó
Hollinger transportam-me no tempo. Bebericamos chá de hortelã e rimos de uma
história boba contada por papai. Nossas risadas nos fazem esquecer do relógio.
Não existe tempo para risadas. Mamãe é a que mais ri. Círculos escuros.
Círculos cansados, porém alegres. Seus filhos estão em casa.
Por
alguns instantes, eu me esqueço das veias maltratadas pelo cateter e do
tique-taque do relógio. Estou presa a coisas que não mudam - uma calorosa
recepção matinal feita por minha mãe, biscoitinhos de lascas de chocolate
recém-saídos do forno, prato de louça, chá de hortelã, relógio na cornija da
lareira e risadas. Estou presa a um Deus que não muda. Sei que o Deus que
governa o tempo está acima do tempo. Esta noite, vejo no rosto de minha mãe o
estranho paradoxo entre o tempo medido e o tempo que não pode ser medido. Um
raro vislumbre das coisas divinas.
DIA DOS PAIS: UMA HOMENAGEM
Max
Lucado
Hoje
é Dia dos Pais. Um dia para colocar perfume. Um dia de abraços, gravatas novas,
telefonemas de longa distância e cartões requintados.
Hoje
é o meu primeiro Dia dos Pais sem pai. Durante 31 anos, eu tive pai. Um dos
melhores pais. Mas agora ele se foi. Está sepultado debaixo de um antigo
carvalho, num cemitério no oeste do Texas.
Apesar
de ele ter ido embora, sua presença está muito próxima principalmente hoje.
Parece
estranho ele não estar aqui. Acho que é porque ele nunca tinha ido embora.
Estava sempre por perto. Sempre disponível.
Sempre
presente. Suas palavras não eram nenhuma novidade. Suas realizações, apesar de
admiráveis, não eram extraordinárias.
Mas
sua presença era.
Assim
como uma aconchegante lareira de uma casa espaçosa, ele era um oásis
reconfortante. Assim como um resistente balanço para crianças na varanda, ou um
olmo frondoso no quintal, ele sempre podia ser encontrado... e tinha sempre um
ombro amigo.
Durante
os anos turbulentos de minha adolescência, papai foi uma parte previsível de
minha vida. Enquanto uma namorada ia e outra vinha, papai estava presente. A
paixão pelo futebol transformou-se em paixão pelo beisebol e voltou a ser pelo
futebol, e papai sempre estava presente. Férias de verão, datas comemorativas
da família, álgebra, primeiro carro, jogos de basquete longe de casa - tudo
isso tinha uma coisa em comum: sua presença.
E,
por ele estar presente, a vida transcorria calmamente. O carro sempre rodava em
ordem, as contas eram pagas, a grama estava sempre aparada. Por ele estar
presente, o riso era fácil e o futuro, garantido. Por ele estar presente, meu
desenvolvimento foi aquele que Deus planejou para mim; um livro de histórias de
leitura rápida através da magia e do mistério do mundo.
Por
ele estar presente, nós, as crianças, nunca nos preocupamos com imposto de
renda, caderneta de poupança, pagamento das contas do mês ou hipotecas. Estes
eram assuntos restritos à escrivaninha de papal.
Temos
um grande número de fotografias da família sem ele. Não porque ele estivesse
ausente, mas porque estava sempre por trás da câmera.
Ele
tomava decisões, apartava brigas, ria de uma boa piada, lia o jornal todas as
noites, e preparava o café da manhã nos domingos. Não fazia nada diferente.
Fazia apenas o que os pais devem fazer estar presente.
Ele
me ensinou a fazer a barba e a orar. Ajudou-me a decorar versículos para a
Escola Dominical e me ensinou que as coisas erradas devem ser punidas e as
coisas certas têm sua merecida recompensa.
Ele
nos deu o exemplo sobre a importância de levantar cedo e se manter afastado de
dívidas. Sua vida exemplificou o complicado equilíbrio entre a ambição e a
autoaceitação.
Penso
nele quase sempre. Quando sinto a fragrância da colônia pós-barba "Old
Spice", lembro-me dele. Quando vejo um barco de pesca, vejo seu rosto. E,
vez por outra, não sempre, mas vez por outra, quando alguém conta uma boa
piada, eu ouço sua risada. Ele tinha uma risada característica, sempre
acompanhada de um largo sorriso e de sobrancelhas arqueadas.
Papai
nunca me disse nada sobre sexo, nem me contou a história de sua vida. Mas eu
tinha certeza de que, se quisesse saber, ele me contaria. Bastaria eu pedir. E
eu sabia que, se necessitasse dele, ele estaria presente.
Como
uma lareira aconchegante.
Talvez
seja por isso que este Dia dos Pais está um pouco frio. O fogo da lareira
apagou. Os ventos da idade engoliram a última chama maravilhosa, deixando
apenas brasas douradas. Existe, porém, uma coisa estranha naquelas brasas:
basta atiçá-las para que a chama volte a brilhar. Seu brilho será rápido, mas
ela brilhará. E terá calor suficiente para afastar um pouco o ar frio e me
fazer lembrar que ele ainda está... de maneira especial, muito presente.
AJUDANTE DE PAPAI
Ron
Mehl
Um
menino estava ajudando o pai a transportar alguns livros do sótão para um
cômodo mais espaçoso, no pavimento inferior da casa. Era muito importante para
o menino ajudar seu pai, embora ele estivesse mais atrapalhando e retardando as
coisas do que colaborando. Mas aquele menino tinha um pai sábio e paciente, que
sabia que era mais importante contar com a colaboração do filho pequeno do que
transportar uma pilha de livros com eficiência.
Mas,
entre os livros daquele homem, havia algumas obras de estudo muito volumosas, e
o menino teve dificuldade para descer a escada com elas. A bem da verdade, o
menino chegou a derrubar a mesma pilha de livros várias vezes. Ele sentou-se na
escada e chorou de frustração. Não estava ajudando em nada. Não tinha força
suficiente para carregar os livros grandes em uma escada estreita.
Era
doloroso para ele pensar que não podia ajudar o pai.
Sem
dizer uma só palavra, o pai pegou a pilha de livros do chão, colocou-a nos
braços do menino. Em seguida, colocou o menino com os livros nos braços e
desceu a escada. E assim eles continuaram a transportar os livros,
divertindo-se por estar na companhia um do outro. O menino carregava os livros.
O pai carregava o menino.
O PRESENTE
George
Parler
Era
a nossa vez de abrir os presentes naquela manhã de Natal.
A
sala de visitas já estava coberta de papéis dilacerados pelas crianças, ávidas
por verem os tesouros escondidos que as atormentaram por quase um mês. Agora,
nós, os adultos, estávamos sentados ao redor da sala com os presentes a nossos
pés, retirando lentamente os papéis de presente e, ao mesmo tempo, controlando
nosso instinto infantil e tentando manter a dignidade diante dos adultos.
Minha
esposa, Brenda, e sua família tinham o costume de trocar presentes cômicos.
Isto sempre me deixava um tanto embaraçado no Natal ou no meu aniversário, sem
saber que tipo de brincadeira me aguardava sob o papel de presente.
Uma
de minhas filhas, Christy, com seis anos na época, estava sentada bem à minha
frente. A euforia do momento reluzia em seu rosto. Ela se controlava ao máximo
para não me ajudar a rasgar o papel de cada presente. Finalmente, chegou a vez
de abrir o último.
E,
com meu talento natural de Sherlock Holmes, deduzi que aquele deveria ser o
presente cômico, porque com a família de minha esposa não havia a pergunta
"se"; a pergunta era "quando". Com todos os olhares fixos
em mim, decidi ir em frente - só para dar a eles a oportunidade de uma boa
gargalhada - e rasguei o papel. E lá estava o presente... um aviãozinho de
brinquedo com cerca de cinco centímetros de comprimento. Nossos convidados
começaram a rir quando olhei para minha esposa com um sorriso malicioso e disse:
-
Um aviãozinho de brinquedo? Faça-me o favor!
Brenda
lançou-me aquele olhar - um olhar que sempre me dizia para eu me
"mancar." Antes de abrir o presente, não li o nome escrito no cartão
colado no papel. Quando peguei o papel do chão e li o nome, meu coração ficou
despedaçado. No cartão, estavam escritas as seguintes palavras, com letras de
criança: "Para o papai. Com amor, Christy." Nunca me senti tão
desprezível como naquele momento.
Uma
das experiências mais angustiantes de minha vida foi olhar para aquele rostinho
e ver a alegria ser substituída por uma expressão de total constrangimento e
humilhação. O medo em seus olhos revelava uma leve esperança de que ninguém
descobrisse que o presente que seu pai havia achado tão ridículo foi dado por
ela.
Aquela
criança encantadora gastara o dinheiro que poderia ter sido usado para comprar
objetos pessoais. Mas ela preferiu comprar um presente de Natal para o seu pai.
E aquele não era um presente qualquer. Ela me viu brincar no computador com
jogos que simulavam voos e deduziu que eu era fascinado por aviões.
Ajoelhei-me
rapidamente e a abracei com todas as minhas forças, desejando dar tudo o que eu
tinha para retirar aquelas palavras. Fiz uma débil tentativa de explicar que
achei que o presente tinha partido da mamãe e, ao perceber que me enganei, as
coisas mudaram de figura. Porém, nada do que eu dissesse poderia eliminar a
mágoa daquele coraçãozinho. Eu precisava encontrar uma maneira de provar o que
estava dizendo.
E
provei. Peguei o aviãozinho de brinquedo e comecei a movimentá-lo, imitando o
som do motor de um avião. Taxiei com ele na pista - o balcão da cozinha - e
acelerei ao máximo para ele levantar voo. Meu objetivo era apagar a tristeza do
rosto de minha filha - provocada por mim - e continuar até que o sorriso
retornasse.
Brinquei
o dia inteiro com o aviãozinho. Dediquei tanta atenção a ele que as outras
crianças deixaram seus brinquedos de lado para brincar com meu aviãozinho de
cinco centímetros. E, igual a uma criança egoísta, eu dizia:
-
Não, este aqui é meu!
Não
demorou muito para que o rostinho de Christy voltasse a sorrir. Mas não parei
por ali. Q aviãozinho tornou-se um tesouro de grande valor para mim, e continua
a ser até hoje, porque eu ainda o guardo comigo.
Guardo
aquele aviãozinho principalmente porque ele me foi dado com muito amor por
minha filha. Mas ele também me faz lembrar do poder das palavras.
UM TEMPO SÓ PARA A MAMÃE
Crystal
Kirgis
Tudo
o que eu necessitava naquela manhã era de meia hora sozinha, 30 minutos de paz
e tranquilidade para conseguir manter minha sanidade mental. Nada de "mãe,
faça isto", "mãe, quero aquilo", "mãe, ele me bateu",
"mãe, eu derrubei suco no sofá".
Um
tempo só meu, um banho quente de imersão, e nada mais.
Eu
não deveria sonhar tão alto.
Depois
de despachar os dois mais velhos para a escola, coloquei o mais novo em frente
ao Barney e disse:
-
Querido, preste muita atenção. Sua mamãe vai ficar louca. Ela está perdendo a
cabeça. Está a ponto de ir para o hospício. Tudo isso porque ela tem filhos.
Você está me entendendo?
Ele
movimentou a cabeça afirmativamente, enquanto cantava:
-
Barney é um dinossauro em nossa imaginação...
-
Muito bem. Agora, seja um bom menino, fique sentado aqui vendo o Barney,
enquanto a mamãe toma um banho quente, tranquilo e em paz. Não quero ser
importunada. Quero que você me deixe sozinha. Durante 30 minutos, não quero ver
você nem ouvir sua voz.
Entendido?
Outro
movimento afirmativo com a cabeça.
-
Bom-dia, meninos e meninas... - ouvi a bruxa dizer.
Segui
para o banheiro com os dedos cruzados.
Observei
a água encher a banheira. Observei o vapor embaçar o espelho e a vidraça.
Observei a água ficar azul com os sais de banho.
Entrei
na banheira.
Ouvi
uma batida na porta.
-
Mamãe! Mamãe! Você está aí?
Aprendi
há muito tempo que deixar de responder à pergunta de uma criança não a faz
desistir.
-
Sim, estou aqui. O que você quer?
Houve
uma longa pausa, enquanto meu filho tentava decidir o que queria.
-
Hã... quero um lanche.
-
Você acabou de tomar o café da manhã! Não pode esperar alguns minutos?
-
Não, estou morrendo de fome! Preciso comer um lanche agora!
-
Está bem. Pegue uma caixa de uvas passas.
Eu
ouvi quando ele se dirigiu à cozinha e puxou as cadeiras e os banquinhos,
tentando alcançar a prateleira onde estava a caixa de uvas passas. Senti o chão
estremecer quando ele saltou do balcão e ouvi quando ele retomou à sala de TV.
-
Oi, Susie! Você sabe me dizer qual é a cor da grama...?
Toe,
toe, toe.
-
Mamãe! Mamãe ! Você está aí?
Um
longo suspiro. E, então, respondi:
-
Sim, continuo aqui. O que você quer agora?
Uma
pausa.
-
Hã... também preciso tomar banho.
E
ele estava certo.
-
Querido, você não pode esperar até eu terminar?
A
porta foi entreaberta.
-
Não, eu preciso tomar banho agora. Estou sujo.
-
Você está sempre sujo! Desde quando passou a se importar com isso?
A
porta foi escancarada.
-
Eu preciso mesmo tomar banho, mamãe.
-
Não, não precisa. Vá embora.
Ele
parou no meio do banheiro e começou a tirar o pijama.
-
Vou entrar aí e tomar banho também.
-
Não! Você não vai tomar banho comigo! Quero tomar banho sozinha. Quero que você
vá embora e me deixe em paz!
Eu
parecia a criança de três anos com quem argumentava naquele momento.
Ele
subiu na beira da banheira, equilibrou-se ali e disse:
-
Vou entrar aí com você, está bem, mamãe?
Comecei
a gritar:
-
Não! Isto não está certo! Quero tomar banho sozinha! Não quero ninguém aqui!
Quero ficar sozinha!
Ele
pensou por alguns instantes e disse:
-
Está bem. Vou ficar sentado aqui e você vai ler um livro para mim. Não vou
entrar, mamãe, enquanto você não terminar.
Em
seguida, lançou-me um sorriso tão encantador que me nocauteou.
Passei
o tempo que eu pretendia dedicar a mim naquela manhã lendo Um Peixe, Dois
Peixes para um garotinho nu, de três anos, sentado na beira" da banheira,
com as pernas dobradas, o queixo apoiado nos joelhos e um leve sorriso no
rosto.
Por
que contrariá-lo? Não vai demorar muito para que eu possa passar sozinha todo o
tempo que eu quiser. E, então, acho que vou me sentir muito triste por não ter
passado mais tempo com meus filhos.
LEGADO DE UMA CRIANÇA ADOTIVA
Autor
Desconhecido
Havia
duas mulheres que não se conheciam.
De
uma, você não se lembra; a outra você chama de Mãe.
Duas
vidas diferentes planejadas para fazer você ser gente.
Uma
tornou-se sua estrela-guia; a outra tornou-se seu sol. A primeira lhe deu a
vida; a segunda o ensinou a vivê-la.
A
primeira lhe mostrou a necessidade de ser amado; a segunda lhe deu amor.
Uma
lhe deu uma nacionalidade; a outra lhe deu um nome.
Uma
lhe deu a semente do talento; a outra lhe deu um objetivo.
Uma
lhe deu emoções; a outra acalmou seus temores.
Uma
o viu sorrir pela primeira vez; a outra enxugou suas lágrimas.
Uma
procurou um lar para você, porque não tinha condições de lhe oferecer esse lar;
a outra orou para ter um filho, e sua esperança não lhe foi negada.
E
agora você me faz, entre lágrimas, aquela antiga pergunta que tem atravessado
os séculos:
Hereditariedade
ou ambiente de qual deles você é produto?
De
nenhum deles, meu querido - de nenhum.
São
dois tipos diferentes de amor.
PRESENTE DE AMOR
James Dobson
Há
algum tempo, um amigo meu castigou sua filhinha de três anos porque ela gastou
um rolo inteiro de papel dourado, usado para embrulhar presentes. O dinheiro
estava curto, e ele ficou furioso quando a menina tentou enfeitar uma caixa
para colocar debaixo da árvore de Natal. Na manhã seguinte, a menina entregou
um presente ao pai, dizendo:
-
É para você, papai.
Ele
se arrependeu de ter reagido de maneira intempestiva, mas sua raiva explodiu novamente
ao constatar que a caixa estava vazia, e gritou com a filha:
-
Você não sabe que quando a gente dá um presente a alguém deve colocar alguma
coisa dentro da caixa?
A
menina olhou para o pai, com lágrimas nos olhos, e disse:
-
Ah! papai, a caixa não está vazia. Eu soprei beijinhos dentro dela.
A
caixa está cheia de amor. Beijinhos de amor para você, papai.
O
pai sentiu-se desprezível. Passou os braços ao redor da filha e lhe pediu
perdão. Meu amigo me contou que guarda aquela caixa ao lado de sua cama há
muitos anos. Todas as vezes que se sente desanimado, ele retira um beijinho
imaginário da caixa e se lembra do amor que sua filhinha colocou ali dentro.
De
uma maneira muito real, nós, os pais, recebemos um pacote dourado repleto de
amor incondicional e de beijinhos de nossos filhos.
Este
é o maior tesouro que alguém pode ter.
O CAMINHO DE UMA MÃE
Temple
Bailey
A
jovem mãe estava dando os primeiros passos na estrada da vida.
-
O caminho é longo? - ela perguntou.
-
Sim - respondeu seu Guia -, e difícil também. Você ficará velha antes de chegar
ao fim dele. Mas... - ele parou e sorriu meigamente. O fim será melhor que o
começo.
No
entanto, a jovem mãe sentia-se feliz, porque não podia acreditar que existisse
nada melhor que a fase da juventude da vida. Ela brincava com os filhos, colhia
flores com eles ao longo do caminho, e banhava-se com eles nas águas
cristalinas dos riachos. O sol lançava seus raios sobre eles, e a vida era boa.
A jovem mãe dizia bem alto:
-
Nada será mais encantador que estes momentos.
A
noite chegou e, com ela, a tempestade, e o caminho ficou escuro.
Os
filhos tremiam de medo e de frio, e a mãe os abraçou, cobrindo-os com seu
manto.
Os
filhos disseram:
-
Oh, mamãe, não sentimos medo quando você está perto de nós.
A
mãe disse:
-
Isto é melhor que a luz do dia, porque eu ensinei meus filhos a ter coragem.
O
dia amanheceu; havia uma colina à frente. Os filhos subiram a colina e se
cansaram. A mãe também se cansou, mas continuou a incentivar os filhos:
-
Um pouco mais de paciência e chegaremos lá.
Então,
os filhos continuaram a subir. Quando chegaram ao topo, eles disseram:
-
Não teríamos conseguido chegar até aqui sem você, mamãe.
E
a mãe, quando se deitou naquela noite, olhou para as estrelas e disse:
-
Este dia foi melhor que o último. Meus filhos aprenderam a ter forças diante
das dificuldades. Ontem lhes ensinei a ter coragem; hoje lhes ensinei a ter
força.
No
dia seguinte, nuvens estranhas escureceram a terra - nuvens de guerra, de ódio
e de desgraça. Os filhos tatearam no escuro e tropeçaram. A mãe disse:
-
Andem de cabeça erguida e olhem para o alto, a fim de que seus olhos vejam a
Luz além da escuridão.
Os
filhos olharam para o alto e viram a Glória Eterna acima das nuvens estranhas.
Ela os guiou através da escuridão e da desgraça.
Naquela
noite, a mãe disse:
-
Este foi o melhor dia de todos, porque, com minha ajuda, meus filhos aprenderam
a ver a Deus.
Os
dias foram passando, transformando-se em semanas, meses e anos. A mãe
envelheceu, diminuiu de estatura e ficou com o corpo curvado. Seus filhos eram
altos e fortes e caminhavam com coragem.
Quando
o caminho era difícil de ser percorrido, eles a ajudavam; quando o caminho era
áspero, eles a carregavam, porque ela era leve como uma pena. Finalmente, eles
chegaram a uma colina e, além da colina, avistaram uma estrada reluzente e um
portão de ouro escancarado.
A
mãe disse:
-
Cheguei ao fim de minha jornada. Agora sei que o fim é realmente melhor que o
começo, porque meus filhos podem caminhar sozinhos e ensinarão o que aprenderam
aos filhos deles.
Os
filhos disseram:
-
Você estará sempre caminhando conosco, mamãe, mesmo depois de atravessar o
portão.
Eles
a viram caminhar sozinha, e o portão fechou-se atrás dela.
Eles
disseram:
-
Não podemos ver nossa mãe, mas ela ainda está conosco. Uma mãe como a nossa é
mais que uma lembrança.
TERNA INTUIÇÃO
Robin
Jones Gunn
Eu
o seguro em meus braços, jovem príncipe. Você dorme na doce paz celestial.
Apesar disso, eu me pergunto se você ficaria tão calmo se soubesse a verdade:
Eu sou sua mãe. E eu não tenho a menor ideia do que estou fazendo. Você é meu
primeiro bebê. Meu único filho. Eu já estava me acostumando com a gravidez, e
agora você está aqui! E você é tão, tão real!
Eu
me preparei para sua chegada durante meses. Tenho lido livros.
Bem,
só alguns. Algumas páginas. Ouvi conselhos e mais conselhos de minhas amigas.
Elas são experientes, você sabe, porque já têm os seus bebês. Mas você é
diferente. Você é o meu bebê. E elas não sabem nada sobre você.
Eu
sei. Eu sei como você se mexe e dá pontapés. Já conheço seu cheiro, que é igual
ao de um narciso recém-colhido. Sei como você faz beicinho quando está prestes
a chorar. Sei que seu cabelinho ralo é a coisa mais macia que já tocou em meu
rosto.
Apesar
disso, tenho de admitir que ainda existem muitas coisas que eu não sei. No
hospital, ensinaram-me como alimentar você.
Ontem,
minha mãe me mostrou como dar banho em você. Eu não tenho ideia de como cuidar
de erupções na pele causadas pela fralda.
Sinto
náuseas quando vejo sangue. Não sei costurar. Não sou boa em finanças. Minhas
habilidades matemáticas são abomináveis. E você precisa saber desde já - sinto
arrepios ao ouvir alguém ranger os dentes.
No
entanto, sei assar biscoitinhos. Sei fazer barracas dentro de casa em dias de
chuva. E herdei de meu pai o maravilhoso senso de humor; por isso sei rir e sei
fazer você rir.
Vou
cantar doces canções para você, à noite. Vou orar por você todos os dias. Vou
permitir que você traga para casa qualquer animal que encontrar, desde que você
possa alimentá-Ia. Vou chamar todos os seus amigos imaginários pelos primeiros
nomes. Vou colocar bilhetinhos de amor em sua lancheira e vou nadar no mar com
você, mesmo depois de velha.
Talvez
minha melhor qualificação para eu ser sua mãe esteja relacionada ao fato de eu
compartilhar este privilégio com o melhor homem do mundo - o seu pai.
Os
segredos para ser uma boa mãe não podem ser aprendidos enquanto tomamos café
com nossas amigas. As mães não aprendem essa arte nos livros, nem por
tentativas e erros. Para mim, essas ternas intuições são as que mais importam.
São sabedorias eternas que só a mulher que é mãe conhece - quando ela carrega
seu bebê nos braços, como você está agora nos meus. É desta maneira que Deus me
ensinará a ser mãe com o coração.
RISCOS DESLIZANTES
Heather
Harpham Kopp
Há
alguns dias, minha mãe veio me visitar. Quando ela foi embora, você diria que
ela estava encharcada. Ela diria que era eu quem estava encharcada.
Tom
e eu a levamos à piscina de nossa cidade, onde existe um longo escorregador
aquático. Insistimos para que ela tentasse escorregar ali, dizendo que seria
divertido e seguro.
Ela
hesitou, lembrando-me de que nunca havia saltado sequer de um trampolim.
Eu
não me surpreendi. Minha mãe sempre foi uma pessoa tímida, não acostumada a
correr riscos. Para ela, risco é passar por uma liquidação sem parar para dar
uma olhada.
Mas
as filhas sabem muito bem como manipular as mães; e eu não sou exceção à regra.
Antes
que ela desistisse, Tom levou-a ao topo do escorregador.
Quando
ela empalideceu, instantes antes de iniciar a aventura, Tom tentou
tranquilizá-Ia. Ele disse que ela poderia escorregar na velocidade que
desejasse. E afirmou que ninguém havia sido jogado para fora de um escorregador
aquático, pelo menos naquele, em particular.
Imaginamos
que ela deve ter duvidado daquelas palavras. Ela deve ter concluído que a
maneira mais segura de escorregar seria de costas e com as pernas esticadas,
para não ser ejetada.
Fiquei
observando lá de baixo. Minha mãe escorregou tão rápido que quase não a vi.
Você precisa entender que ela não é uma mulher pequena. Mede 1,70m e, conforme
ela mesma diz, "come de tudo a que tem direito".
Mesmo
assim, qualquer um podia ver sua boca escancarada e a expressão de susto em seu
rosto. Quando minha mãe despontou no fim do escorregador, seus óculos, que ela
escondera cuidadosamente na parte superior do maiô, voaram longe. O
escorregador teve de ser fechado para que os salva-vidas pudessem ajudar minha
mãe, aflita e quase sem enxergar nada, a encontrar os óculos.
Eu
me senti péssima. Mas havia aprendido desde tenra idade que não vale a pena
viver sem correr alguns riscos. E, às vezes, as pessoas necessitam de algumas
cutucadas. Se forem bem-sucedidas, elas lhe agradecerão. Caso contrário, é
melhor você se esconder no meio de uma piscina abarrotada de gente.
Aprendi
minha primeira lição sobre correr riscos aos cinco anos de idade. Uma vizinha
de nove anos queria que eu jogasse a arma de brinquedo de um menino dentro da
caixa de correspondência, que ficava na esquina, do outro lado de nossa casa.
Eu não via problema nenhum em fazer aquele trabalho sujo para a menina, mas
resolvi dizer que não tinha permissão para atravessar a rua.
-
E se eu carregar você? - ela disse, em tom de voz confiante. Assim, ninguém vai
poder dizer que você atravessou a rua.
Aquilo
me pareceu uma boa ideia.
Peguei
a arma de brinquedo do menino e joguei-a dentro da caixa de correspondência.
Porém, no caminho de volta, minha cúmplice derrubou-me acidentalmente, e eu
bati com a cabeça no asfalto - foi a minha terceira sutura naquele verão.
Este
é o problema de correr riscos. Nem sempre devemos nos arriscar; nem todas as
cutucadas devem ser levadas a sério. Foi o que minha mãe me disse, naquela
ocasião, e também quando ela me encontrou na piscina, escondida na parte
reservada às crianças. Geralmente, os riscos que procuramos correr não terminam
com um ou dois pontos na cabeça. São tipos de riscos que ferem nosso orgulho.
Como,
por exemplo, uma descida pelo escorregador aquático. Ou um romance. Ou admitir
uma verdade desprezível sobre nós mesmos. O fato é que existem coisas
impossíveis de serem alcançadas sem riscos:
experiência,
amor, honestidade, aventura.
Minha
mãe devia estar aprendendo a mesma coisa. É a única explicação que tenho a dar.
Você acredita que, depois de ter-se recuperado da aventura no escorregador, e
depois de ter-me perdoado, ela revelou que gostaria de fazer uma nova
tentativa?
-
Você está brincando! - eu disse, incrédula.
-
Só mais uma vez - ela disse. - Vou escorregar sentada, segurando nas laterais,
e descer bem devagar.
É
claro que minha mãe perdeu o equilíbrio assim que iniciou a descida e
escorregou de costas. Apesar de todos os seus gestos frenéticos, ela não
conseguiu sentar-se novamente.
Eu
fiquei na parte inferior do escorregador à espera de minha corajosa mãe. E,
pela primeira vez em minha vida, pedi a Deus que me fizesse ser mais parecida
com ela.
FÉRIAS EM FAMÍLIA E OUTRAS
AMEAÇAS AO CASAMENTO
Philip
Gulley
Quando
nosso filho, Spencer, tinha seis semanas de idade, eu disse à minha esposa:
-
Está na hora de sairmos de férias.
-
Não é uma boa ideia - ela me advertiu, concordando depois, por confiar que eu
já havia aprendido com os próprios erros.
Dirigimo-nos
a um pequeno hotel, distante quatro horas de viagem de nossa casa. Spencer
dormiu durante todo o percurso. Eu estava feliz da vida. Fizemos o registro na
chegada. Dirigimo-nos ao nosso quarto. Eu estava mais feliz ainda. Os filhos
não dão trabalho. As mães é que são alarmistas.
De
repente, Spencer acordou.
No
Livro do Apocalipse, João escreve sobre as sete pragas da ira divina, que vão
desde úlceras no corpo até terremotos. João esqueceu-se de uma: o choro de uma
criança.
Spencer
não nos deu trégua, nem na hora do jantar. As pessoas mais velhas, com ar de
avós, olhavam para nós e sorriam. Antes de meu filho nascer, eu pensava que
elas sorriam porque gostavam de crianças. Agora entendo que elas sorriem porque
seus filhos já cresceram.
Retomamos
ao nosso quarto e fomos dormir. Spencer chorou a noite toda. Na manhã seguinte,
no café da manhã, tentamos sair do restaurante sem ele, mas o gerente impediu
nossa passagem. Maria e José deixaram Jesus para trás quando saíam de uma
cidade. Esse tipo de coisa faz a gente pensar, não é mesmo?
O
que aconteceu no caminho de volta para casa só pode ser atribuído à falta de
dormir. Na tentativa de salvar nossa primeira viagem de férias em família,
segui por uma estrada pitoresca. O governo chama essas estradas de
"pitorescas" porque não têm condições de incluir em uma única placa
as palavras "estrada sinuosa, que aumenta em três horas a viagem, e faz
seu filho sentir náuseas". Nas férias do ano seguinte, depois de esquecida
nossa experiência anterior, seguimos rumo a um pequeno hotel distante oito horas
de viagem de nossa casa. Spencer não chorou nenhuma vez. Dormiu tranquilo todas
as noites. Viajou no assento próprio para bebês, sem reclamar. Não ouvimos
nenhum resmungo dele, isto porque existem algodões para a gente colocar nos
ouvidos.
Aquelas
férias não foram como planejamos, e só posso atribuir a culpa a alguns
programas de TV que retratam um perfil errado da vida em família. Eu me lembro
de ter assistido a um episódio da série Brady Bunch, no qual a família Brady
viaja uma semana inteira sem precisar parar para usar o banheiro. Florence
Henderson cantou no trajeto que cortava três Estados, e ninguém a atirou para
fora do carro. Quando eu era menino, todas as vezes que saíamos de casa, meu
irmão Glenn me dava um safanão por eu ter bafejado no rosto dele.
Prestamos
um desserviço a nós mesmos quando esperamos que a vida em família seja uma nova
versão da série Brady Bunch. A verdade é que a maioria das nossas famílias tem
seus tropeços. E isso não é mau. Caso contrário, como poderíamos cultivar a
fina arte do perdão?
Minha
esposa perdoou-me depois de nossas primeiras férias. Na ocasião, ela disse:
-
Você é assim mesmo. Vem de uma família de várias gerações de homens que não dão
ouvidos às esposas.
Estamos
economizando dinheiro para as próximas férias. Estamos pensando em férias nas
montanhas.
-
Lá existem muitos lugares para uma criança se perder - eu disse à minha esposa.
Ela
sabe que estou brincando.
Na
verdade, agradeço a Deus todos os dias a vida de meus filhos.
Todos
os dias, isto é, alguns mais que outros.
QUANDO DEUS CRIOU OS PAIS
Erma
Bombeck
Quando
o bom Deus estava criando os pais, Ele começou a fazer um homem de estatura
alta.
Um
anjo, do sexo feminino, que estava por perto disse:
-
Que tipo de pai é este? Se o senhor vai fazer crianças com a altura um pouco
acima do chão, por que os pais precisam ser tão altos? Ele não vai poder jogar
bolinhas de gude sem se ajoelhar, não vai poder colocar uma criança na cama,
nem mesmo beijá-Ia sem ter de curvar o corpo.
E
Deus sorriu e disse:
-
Concordo, mas, se eu o fizer do tamanho de uma criança, quem ela vai ver quando
olhar para cima?
E
quando Deus fez as mãos do pai, elas eram grandes e vigorosas.
O
anjo meneou a cabeça, tristemente, e disse:
-
Mãos grandes são desajeitadas. Elas não conseguem prender alfinetes nas
fraldas, abotoar botões pequenos, prender elástico nos cabelos nem retirar
estrepes de madeira dos bastões de beisebol.
E
Deus sorriu e disse:
-
Eu sei, mas elas são grandes o suficiente para segurar tudo o que um menino
retira do bolso no fim do dia e pequenas o suficiente para segurar e acariciar
o rosto de uma criança.
E,
depois, Deus modelou pernas longas e esguias e ombros largos.
O
anjo quase teve um ataque cardíaco.
-
Sei que estamos chegando ao fim da semana - ele disse. - O Senhor percebeu que
fez um pai sem colo? Como ele vai segurar uma criança sem que ela caia no vão
de suas pernas?
E
Deus sorriu e disse:
-
A mãe necessita de um colo. O pai necessita de ombros fortes para puxar um
trenó, equilibrar um menino na bicicleta ou segurar uma cabeça sonolenta no
caminho de volta para casa depois do circo.
Deus
estava criando os maiores pés que alguém já havia visto quando o anjo não
conseguiu conter-se.
-
Não é justo. O Senhor acha, honestamente, que esses dois pés enormes vão
conseguir sair rápido da cama quando o bebê chorar?
Ou
atravessar um salão de festas de aniversário de uma criança sem esmagar pelo
menos três delas?
E
Deus sorriu e disse:
-
Eles vão ser úteis. Você verá. Vão ter força para sustentar uma criança que
deseja brincar de cavalinho, ou esmagar um rato que aparecer na casa de campo
de verão, ou, ainda, exibir sapatos que dificilmente encontrariam pés tão
grandes para calçá-Ios.
Deus
trabalhou a noite inteira, concedendo ao pai poucas palavras, porém uma voz
firme e cheia de autoridade, e olhos que enxergavam tudo, mas continuavam
calmos e tolerantes.
Finalmente,
como se estivesse meditando sobre seu trabalho, Ele acrescentou lágrimas. Em
seguida, virou-se para o anjo e disse:
-
Agora você está satisfeito ao ver que ele pode amar tanto quanto uma mãe?
O
anjo silenciou.
ÓTIMA APARÊNCIA
Patsy
Clairmont
Eu
me lembro muito bem daquele dia. Foi uma dessas ocasiões em que tudo dá certo.
Tomei um banho de chuveiro e arrumei o cabelo. Tudo transcorria do jeito que eu
queria, como raramente acontece. Vesti minha malha nova cor-de-rosa, que me
deixava com mais cor no rosto, já que eu ia precisar muito disso. Coloquei
calça comprida cinza e sapatos de salto alto.
Olhei-me
no espelho e pensei: Estou com ótima aparência!
Por
ser um dia frio em Michigan, vesti minha capa cinza com enfeites cor-de-rosa nas
lapelas. Eu estava colorida da cabeça aos pés.
Quando
cheguei ao centro de Brighton, onde eu tinha algumas coisas a fazer, fiquei
surpresa ao ver o trânsito congestionado.
Brighton
é uma cidade pequena, mas possui uma loja enorme de alimentos. Normalmente,
consigo estacionar em frente à loja, mais próximo à entrada.
Havia,
porém, tanto movimento na loja que precisei estacionar a dois quarteirões de
distância. Mas, quando tomamos a decisão certa, e o dia está maravilhoso, as
inconveniências e os bloqueios não se tornam grandes problemas.
Pensei:
Vou caminhar despreocupada pela rua para aproveitar o calor do sol. Desci do
carro, andei um pouco, atravessei a rua e entrei na loja.
Quando
eu estava passando pelos fundos da loja, vi meu reflexo nas portas de vidro do
sistema de refrigeração. Confirmei que estava com ótima aparência. Enquanto
apreciava minha silhueta no vidro, notei alguma coisa estranha se arrastando
atrás de mim. Virei-me para trás e constatei que eram minhas meias de seda!
Lembrei-me
de que, na noite anterior, num arroubo de Mulher Maravilha, eu tirara as meias
e a calça comprida de uma só vez.
Ao
me vestir naquela manhã, coloquei outras meias e a calça comprida por cima
delas, sem retirar de dentro as meias que usara no dia anterior.
Creio
que elas começaram a escorregar enquanto eu caminhava despreocupada pela rua
para aproveitar o calor do sol. Lembrei-me do motorista de caminhão que parou
para eu atravessar a rua. Quando olhei para cima, ele estava sorrindo. Pensei:
Oh, que bom/ O mundo inteiro está feliz
hoje. Acenei para ele, sem me dar conta do que estava acontecendo.
Eu
imaginava que, a esta altura da vida, eu já tivesse adquirido um pouco de
maturidade. Mas, honestamente, quando olhei para trás e vi aquela... aquela
coisa horrorosa, um único pensamento me veio à mente: eu queria morrer!
Eu
sabia que eram minhas meias porque o pé direito estava enrolado em meu
tornozelo. E sabia que estava muito bem preso, porque tentei livrar-me dele,
fingindo que alguma coisa havia enroscado em meu sapato na rua, mas não
consegui.
É
difícil compreender como aquelas coisas que compramos dentro de caixinhas
achatadas conseguem aumentar tanto de volume depois de serem usadas apenas uma
vez. Naquela hora, pareceu-me ter um punhado de meias sobrando e nenhum lugar
para escondê-Ias.
As
prateleiras estavam lotadas de mercadorias, e minha bolsa era pequena demais.
Assim, resolvi colocar as meias no bolso do casaco, que ficou volumoso do lado
direito.
Resolvi
jamais sair da loja. Eu conhecia os funcionários de todas as lojas da cidade e
imaginei que, naquele momento, todos os seus empregados estivessem na janela,
aguardando meu desfile de volta até o carro.
Olhei
disfarçadamente ao redor e me dei conta de que aquele era o Dia do Idoso. Eles
estavam sendo submetidos a um exame da pressão arterial. Decidi, então, entrar
na fila para fazer o exame, a fim de continuar ali na loja.
A
má notícia foi que ninguém notou que eu não deveria estar naquela fila. A boa
notícia foi que minha pressão havia subido.
Geralmente,
as enfermeiras medem minha pressão e dizem: "Sinto muito, mas faz dois
dias que você morreu." Hoje, eu subi um pouco na escala.
Finalmente,
eu me dei conta de que deveria ir embora. Passei sorrateiramente pela porta,
caminhei pela rua, entrei no carro e rumei para casa.
Durante
todo o trajeto, eu disse comigo mesma:
-
NÃO VOU CONTAR A NINGUÉM QUE FIZ ISTO!
Cheguei
a minha casa e desci do carro. Meu marido estava recolhendo folhas secas do
jardim.
-
Você sabe o que eu fiz?! - gritei.
Ele
ficou muito orgulhoso quando soube que sua esposa havia atravessado a cidade
arrastando as meias. Eu lhe disse que deveríamos nos mudar - para outro Estado
- naquela mesma noite. Ele achou que seria uma medida extrema e- sugeriu que,
em vez disso, eu passasse a andar três metros atrás dele. Depois de refletirmos
um pouco, decidimos que eu andaria três metros na frente de meu marido, para
que ele pudesse ver se eu estava em ordem.
Se
você já fez alguma coisa que lhe tenha causado um profundo constrangimento,
saiba que quanto mais você tentar não pensar no assunto, mais a situação ficará
viva em sua memória. Enquanto eu caminhava pela casa, aquela cena me veio à
mente várias vezes.
Finalmente,
clamei ao Senhor: Tu que do pó criaste a beleza, não podes fazer nada com um
par de meias de seda?
UM VENDEDOR DE RUA
CHAMADO CONTENTAMENTO
Max
Lucado
Ahhh...
uma hora de contentamento. Um instante precioso de paz. Alguns minutos de descontração.
Todos nós temos momentos em que o contentamento vem nos visitar.
De
manhã, bem cedo, quando o café está quente, e enquanto todos da casa dormem.
Tarde
da noite, quando você beija os olhos sonolentos de uma criança de seis anos.
Num
barco, no lago, quando as lembranças de uma vida bem vivida se tornam nítidas.
Na
companhia de uma Bíblia surrada, com orelhas nos cantos das páginas, e até
manchadas de lágrimas.
Nos
braços do marido ou da esposa.
No
jantar de Ação de Graças, ou sentado perto da árvore de Natal.
Uma
hora de contentamento. Uma hora em que os prazos são esquecidos e as lutas
cessam...
Infelizmente,
porém, em nossas agendas apertadas, nas competições e nos olhares vigilantes,
momentos como esses são tão comuns quanto macacos de uma perna só. Em nosso
mundo, o contentamento é um vendedor ambulante, caminhando a esmo, à procura de
uma casa onde possa bater, mas que raramente encontra uma porta aberta.
Esse
velho vendedor passa devagar de casa em casa, batendo nas vidraças e nas
portas, oferecendo suas mercadorias: uma hora de paz, um sorriso de aceitação,
um suspiro de alívio. Suas mercadorias, porém, raramente são compradas. Estamos
atarefados demais para ficar contentes...
-
Hoje não, obrigado. Tenho muitas coisas para fazer - dizemos.
-
Muitas metas para atingir, muitas conquistas para alcançar, muitos dólares para
economizar, muitas promoções para conseguir. E, além do mais, se eu ficar
contente, alguém poderá pensar que perdi a ambição.
E,
assim, o vendedor de rua, chamado Contentamento, segue o seu caminho.
A
maior parte de minha lista de tarefas estava por fazer.
Minhas
responsabilidades me sobrecarregavam cada vez mais.
Telefonemas
para dar. Cartas para escrever. Talões de cheques para conferir.
Porém,
uma coisa interessante no meio dessa corrida desenfreada forçou-me a engatar o
ponto morto. No momento em que arregacei as mangas, no momento em que o velho
motor começou a roncar, no momento em que comecei a ficar de cabeça quente,
minha filhinha, Jenna, precisou de ajuda. Ela estava com cólicas. Sua mãe
estava no banheiro, portanto o pai dela precisou tirá-Ia do berço.
Ela
está com três semanas de vida. A princípio, comecei a fazer as coisas com a mão
direita, segurando-a com a outra. Você está rindo.
Já
tentou fazer isso também? No momento em que me dei conta de que isso seria
impossível, compreendi que não era o que eu estava querendo fazer.
Sentei-me
e segurei-a com a barriguinha de encontro ao meu peito.
Ela
começou a relaxar. Um grande suspiro escapou de seus pulmões. Seus gemidos
transformaram-se em resmungos. Ela foi escorregando em meu peito até sua
orelhinha ficar encostada ao meu coração. Foi, então, que seus braços
amoleceram e ela adormeceu.
Nesse
momento, o vendedor de rua bateu à minha porta.
Adeus,
agenda. Até mais tarde, rotina. Voltem amanhã, prazos...
Alô,
Contentamento, pode entrar!
MORTE E O ALVORECER
Pearl
S. Buck
Não
existe lugar para ele ficar, doutor - disse a enfermeira.
-
As enfermarias estão lotadas.
-
Coloque-o num quarto particular - disse o cirurgião, tirando seu avental
branco.
-
Os quartos particulares também estão lotados, a não ser aquele com dois leitos,
onde se encontra o velho Sr. MacLeod. E ele está tomando oxigênio, sem
esperanças de atravessar esta noite. Sua família espera sua morte a qualquer
momento.
-
Este rapaz não vai perturbá-Io. Só vai acordar amanhã cedo - disse o cirurgião,
agora trajando paletó e chapéu. Era meia-noite.
Ele
estava cansado e bateu à porta ao sair.
Se
é que ele vai acordar, pensou a enfermeira, olhando para o rapaz. Ele era do tipo
descuidado, cabelos loiros compridos demais, rosto afilado, corpo esguio, muito
magro - o tipo do rapaz que está sempre correndo o risco de ser esmagado em
acidentes de carro.
Debaixo
das numerosas ataduras brancas, o rosto jovem tinha uma expressão sombria.
Ninguém sabia quem ele era. Não havia nenhum documento que informasse sua
identidade. O carro era roubado - pelo menos o proprietário ainda não havia
sido identificado e, por certo, não era aquele rapaz de 18 anos - que podiam
ser 17, talvez 16 -, ninguém sabia ao certo. Ele estava inconsciente quando
chegou e sangrando muito. Por sorte, a cidade tinha um hospital - nem todas as
cidades pequenas tinham um hospital.
-
Levem-no para o 23 - disse a enfermeira aos atendentes.
Eles
o levaram na maca, e ela os acompanhou. Aquela hora da noite, o hospital estava
mergulhado em silêncio. Não se ouvia nem mesmo o choro de um bebê. Dentro de
uma ou duas horas, antes do alvorecer, começariam as chamadas, campainhas
tocando, pacientes suspirando e gemendo, um bebê acordando o outro.
O
23 também estava silencioso. Só se ouvia o ruído do oxigênio.
Sob
a luz fraca do quarto, a enfermeira viu o Sr. MacLeod deitado ali.
Ela
daria uma olhada nele antes de sair.
-
Tomem cuidado com a cabeça do rapaz - ela disse aos atendentes.
-
Já sabemos - disse o mais velho. - Vimos quando ele chegou.
-
Não restou nada do carro - disse o outro.
Eles
o deitaram na cama com mãos habilidosas e endireitaram seus braços e pernas.
-
Mais alguma coisa, Srta. Martin? - perguntou o mais velho.
-
Não, obrigada - ela respondeu.
Eles
se afastaram, e ela cobriu o rapaz com um lençol de algodão.
Ele
estava respirando, mas não muito bem. Ela mediu a pulsação.
Estava
irregular, conforme era de esperar. Nada de sedativos, dissera o médico, depois
da última injeção.
O
telefone tocou no corredor, e ela foi atender. Uma só enfermeira à noite
naquele andar era muito pouco, mas sempre foi assim. Não havia enfermeiras em
número suficiente. O Sr. MacLeod deveria ter uma enfermeira só para ele. E,
agora, aquele rapaz...
-
Alô - ela disse em voz baixa.
-
Srta. Martin? - A voz era clara, tranquila e cuidadosa, e ela a reconheceu.
-
Sim, Sra. MacLeod.
-
Não estou conseguindo dormir. Nenhum de nós está. Será que você poderia
verificar se...
-
Claro.
Ela
pousou o fone na mesa e foi até o quarto. A respiração do rapaz havia melhorado
um pouco, mas ela não olhou para ele. O Sr.
MacLeod
estava completamente imóvel. Ela ficou em dúvida. Será que aquele homem tão
idoso estaria respirando? Ela pegou o pulso dele e não conseguiu encontrá-Io.
Correu de volta ao telefone.
-
Sra. MacLeod?
-Sim.
-
É melhor a senhora vir.
-
Já estou de saída.
A
enfermeira ligou para o médico de plantão.
-
Doutor, chamei a família do Sr. MacLeod.
-
Ah!... é o fim, não?
-
Acho que sim.
-
Estou indo até aí. Apronte a seringa hipodérmica.
-
Pois não, doutor.
Ela
arrumou a pequena bandeja, colocando as agulhas sobre um pano branco
esterilizado. Nada daquilo seria útil, a não ser para fazer o senhor idoso ter
tempo de dizer adeus à família. Mas essa era a regra, e somente um médico
poderia quebrá-Ia. Ela levou a bandeja até o quarto e colocou-a na mesinha, sem
fazer barulho. a senhor idoso continuava na mesma posição. a rapaz também. Mas,
agora, o rapaz respirava melhor.
A
enfermeira aumentou um pouco o fluxo do oxigênio. Acendeu o abajur de cabeceira
e colocou mais duas cadeiras perto da cama.
No
dia anterior, quando a Sra. MacLeod foi informada, na sala do médico, de que
seu marido não atravessaria a noite, ela ficou tão branca quanto seus cabelos.
Em seguida, disse:
-
Eu só peço uma coisa: que vocês me chamem quando o fim estiver próximo. Não vou
sair de casa.
E
estas foram as instruções do médico para a enfermeira:
-
Quando você notar que o fim está perto, chame a Sra. MacLeod.
a
médico de plantão chegou. Ele era um jovem baixo e robusto, de rosto redondo e
bondoso.
-
Está tudo pronto, doutor - disse a Srta. Martin.
-
Ótimo. Vou verificar.
a
plantonista examinou rapidamente o paciente.
-
Ele está bem perto do fim. Assim que eles chegarem, vou aplicar a injeção
hipodérmica.
-
Aqui está - disse a Srta. Martin.
-
Isto não vai fazê-lo durar muito mais - prosseguiu o médico. Meia hora...
talvez uma hora. Quem é o outro paciente?
-
Acidente de carro.
-
Hum... há muitos hoje em dia.
-
É verdade.
Era
uma conversa banal para despistar o assunto da morte - morte do jovem, morte do
velho.
-
Posso entrar? - perguntou a Sra. MacLeod, em pé na porta.
-
Entre - disse o médico. - Vou aplicar uma injeção em seu marido... para
reanimá-lo um pouco, a senhora sabe, para vocês poderem conversar.
-
Obrigada, doutor.
Ela
estava firme. Era uma senhora idosa, baixa, porém forte, com expressão controlada
no rosto. Apenas a Srta. Martin notou que suas mãos pequenas e compactas
tremiam quando ela tirou o chapéu.
-
Sente-se, Sra. MacLeod.
-
Estamos todos aqui - ela disse.
-
Entrem, entrem. Não vão prejudicá-lo - disse o médico.
Eles
entraram: o filho, um rapaz alto, com expressão de angústia no rosto; sua
esposa, uma moça loira e esguia, que chorava, cobrindo a boca com um lenço; e a
filha, jovem e bonita, de cabelos escuros como os do pai. A Srta. Martin
conhecia todos: George, Ruth e Mary. Era uma família unida; qualquer pessoa
podia notar. Os filhos optaram pela cirurgia, que foi um sucesso... isto é,
prolongou a vida do pai por três meses, naquele quarto apertado.
-
O que houve com aquele rapaz? - perguntou George, fazendo um movimento com a
cabeça em direção ao outro leito.
-
Ele está inconsciente - respondeu a Srta. Martin. - Não há outro lugar para
colocá-lo. O hospital está lotado. Esqueça dele.
Ela
estava esfregando álcool no braço esquelético do Sr. MacLeod.
O
médico espetou a agulha na pele flácida.
-
Vocês têm meia hora para ficar com ele, Sra. MacLeod. Vou aguardar do lado de
fora.
-
Obrigada, doutor - disse a Sra. MacLeod.
Ela
esperou até que o médico e a enfermeira saíssem. Com um olhar, chamou os outros
para perto de si. George e Ruth sentaram-se à beira da cama. Mary ajoelhou-se
ao lado da mãe.
-
Estamos todos aqui, Hal - disse a Sra. MacLeod, com voz clara. - George e Ruth
jantaram conosco hoje. Comemos cordeiro ensopado, feito da maneira que você
gosta. A horta está em franca produção. Colhi algumas cenouras esta tarde para
o ensopado. Estava delicioso!
-
Comemos torta de limão como sobremesa, pai - disse George. Ruth está aprendendo
a fazer tortas com a mamãe. Eu não a forcei a fazer isso, não é mesmo, querida?
-
Claro que não - disse Ruth. Ela não chorava mais, porém os lábios continuavam
trêmulos.
-
Ruth é uma boa cozinheira - prosseguiu George.
-
Melhor do que eu era na idade dela - disse a Sra. MacLeod. Você se lembra da
primeira torta que fiz, Hal? Queimou por cima e ficou crua por baixo! Era de
cereja... a sua favorita. Eu quase chorei.
Mas
você riu e disse que não tinha se casado comigo por eu saber fazer tortas.
-
A cerejeira vai voltar a dar muitos frutos este ano, papai - disse Mary. Ela
apoiou os cotovelos na cama, com os olhos fixos no rosto do pai. - Quando as
cerejas amadurecerem, George vai cobrir a árvore com uma rede, como você
costuma fazer. Os estorninhos já estão aguardando por elas.
George
riu, e acrescentou:
-
Aqueles estorninhos, papai! Nunca aprendem. Você se lembra da maneira como eles
aparecem todos os anos, pousam em cima da rede, e ficam olhando para as cerejas
? Você disse que quase podia ouvir as pragas lançadas por eles. Bem, este ano
vai acontecer o mesmo de sempre.
Mary
falou com voz suave:
-
Torta de cereja e piqueniques. Para mim, é quando o verão começa.
-
Eu também gosto de piqueniques - disse a Sra. MacLeod. Apesar de minha idade,
sinto que existe algo especial num piquenique.
Ficamos
noivos durante um piquenique da Escola Dominical... seu pai e eu.
-
Pai, você se lembra daquele piquenique no dia 4 de julho, no lago Parson's? -
Era George quem falava. - Você me ensinou como lançar o anzol e, logo na
primeira vez, pesquei uma perca. Gritei, chamando todo mundo para ver.
-
Eu adoro o verão - disse Mary, com a voz sonhadora de sempre.
-
Mas também gosto quando o outono chega. Você se lembra da nogueira, papai? Eu também
gostava da escola; gostava mesmo. Não me olhe desse jeito, George, só porque
você não gostava de estudar!
-
Parem, vocês dois - disse a Sra. MacLeod, forçando um sorriso.
-
Vocês não conseguem deixar de discutir?
No
leito ao lado, as pálpebras do rapaz estavam tremendo, mas ninguém notou. Ele
próprio não sabia que suas pálpebras tremiam.
Mergulhado
nas profundezas de seu cérebro, ele ouvia som de vozes.
-
Passamos bons momentos quando éramos crianças - disse Mary.
-
Às vezes, eu gostaria de voltar no tempo, mamãe, para estar com você e papai.
-
Silêncio - disse a Sra. MacLeod. - Ele está querendo dizer alguma coisa.
Eles
se inclinaram para a frente, com as faces mal iluminadas pela luz fraca, olhos
fixos no rosto sombrio do idoso. Seus lábios movimentaram-se, ele suspirou,
abriu os olhos e olhou para eles, fitando um de cada vez.
-
Querido - disse a Sra. MacLeod -, a casa está muito vazia sem você. Depois de
lavarmos a louça do jantar, resolvemos vir até aqui.
Ela
parou para ouvir. Ele virou a cabeça em sua direção.
-
Martha... - A voz era dele, sussurrada e entre cortada.
-
Sim, Hal, estou aqui, estamos todos aqui. Nossos filhos também quiseram vir, só
para conversar.
Ela
fez um movimento com a cabeça para eles.
-
O pequeno Hal e Georgie lhe mandaram um beijo, papai - disse Ruth rapidamente.
- Eles estão dormindo. Pedi a Lou Baker que tomasse conta deles. Ela é nossa
vizinha, uma boa moça. O pequeno Hal disse que, assim que você voltar para
casa, quer que veja o triciclo que você pediu que comprássemos para o
aniversário dele.
-
Ele já está pensando no Natal - disse George. - Ontem, me perguntou se você
poderia comprar uma buzina para o triciclo.
-
Eu vibro com o Natal! - Era novamente a voz sonhadora de Mary. - Em cada Natal,
eu penso em todos os natais que passaram;
todos
os de que posso me lembrar... de nossas meias penduradas na lareira. A sua e a
de mamãe ficavam nas pontas, papai, e as minhas e as de George, no meio. E as
cantigas de Natal à noite... como era encantadora a música que vinha de fora,
enquanto eu estava deitada em minha cama quentinha!
Ela
cantou em voz baixa: - Quem é esse estranho infante, de tão nobre geração...
No
leito ao lado, os olhos do rapaz estavam entreabertos. Ele virou a cabeça, sem
enxergar nada; mas, agora, as vozes eram claras. Ouviu alguém cantando.
-
Eu... me... lembro... de... tudo - disse o Sr. MacLeod.
-
Dia de Natal - disse a Sra. MacLeod, com os olhos tristes fixos no rosto dele.
- Sempre foi uma data feliz. Eu nunca quis ter a companhia de outras pessoas no
Natal. Bastava estarmos todos juntos. E agora temos o pequeno Hal e Georgie.
-
Mary vai se casar qualquer dia destes - disse George. - E nossa família vai
aumentar.
-
Mas nada vai mudar - disse Mary. - Papai e mamãe estarão conosco sempre. Somos
sua família, papai. Mesmo depois de adultos, nada mudou.
-
Espero ser um pai tão bom quanto você - disse George.
Agora,
o rapaz conseguia enxergar. Seus olhos estavam abertos.
Ele
viu o outro leito. Um homem velho, muito velho, estava deitado ali, e havia
pessoas ao redor dele.
-
Bons filhos - disse o velho, com voz sonolenta. Ele parecia estar meio
adormecido.
-
Vocês dois sempre sabiam exatamente o que nós queríamos! - A voz de Mary era terna.
- Eu me lembro da boneca que ganhei quando tinha nove anos, e do anel que
encontrei na árvore quando tinha 15... meu primeiro anel..., Mas como vocês
sabiam que eu queria um anel de esmeralda?
-
Era uma pedra bem pequena - disse a mãe.
-
E tinha um brilhante pequeno de cada lado. Eu o guardo até hoje e ainda gosto
muito dele.
-
Eu ganhei esquis quando tinha 12 anos - disse George -, mas não sei como você
soube que eu os queria, papai, porque eu nunca lhe contei. Eu receava que
fossem muito caros. Foi naquele ano que extraí o apêndice.
-
O papai sempre presta atenção, principalmente quando o Natal está perto - disse
a Sra. MacLeod.
-
Mas como você sabia que, na formatura, eu estava mais interessada em ganhar um
relógio à prova de choque do que um diploma?
-
Ou que eu queria ir à Califórnia?
-
Nós... sabíamos - disse o Sr. MacLeod. Sua voz era arrastada.
Suas
pálpebras tremiam.
O
rapaz, no leito ao lado, virou-se para enxergar melhor as pessoas. Aquele
ferimento, aquele ferimento era horrível. Aonde ele estava indo quando colidiu
com o caminhão? A lugar nenhum, a lugar nenhum. Ele não podia suportar mais
nada. Estava fugindo de ninguém, de nada, de lugar nenhum. Rodando a esmo pelas
ruas, porque ninguém se importava com o que ele fazia - não se lembrava de
ninguém que lhe tivesse dado atenção. Natal... ele não se lembrava de nenhum.
-
A Páscoa vai ser no próximo domingo - estava dizendo a Sra.
MacLeod.
- Os narcisos já nasceram, e os lírios da Páscoa estão florescendo. Há seis
deles este ano. Acho que até hoje nasceram só três de cada vez, não é mesmo?
O
Sr. MacLeod fez um esforço para falar.
-
Cinco - ele disse claramente.
-
Vejam só! - disse a Sra. MacLeod, com orgulho na voz. - Ele se lembra mais do
que eu. É verdade. Em um ano, nasceram cinco.
O
rapaz no leito ao lado ouvia com atenção. Páscoa. Ele conhecia a palavra. As
pessoas se aprontavam para ir à igreja. Mas para quê?
As
pálpebras do Sr. MacLeod se fecharam. A Sra. MacLeod fez um sinal, e George
dirigiu-se à porta do quarto.
-
Entre, por favor, doutor.
O
médico entrou na ponta dos pés e curvou-se sobre o Sr.
MacLeod.
Sentiu sua pulsação. Nada. De repente, ele sentiu algumas batidas fracas e
sacudiu a cabeça.
O
rosto da Sra. MacLeod tornou-se lívido, mas sua voz continuava clara.
-
É melhor vocês irem para casa dormir, meus filhos - ela disse. Vocês necessitam
dormir... são jovens. Vou ficar mais um pouco com seu pai.
Eles
se entreolharam, entendendo. Ruth esforçava-se para não chorar novamente.
-
Espere para chorar depois que sair do quarto, querida - George lhe disse.
-
Boa-noite, papai - ele disse. - Voltaremos amanhã cedo.
-
Amanhã cedo, papai querido - disse. Ela inclinou-se sobre o pai, com o rosto
cheio de ternura. - Na manhã reluzente, reluzente - ela finalizou.
Os
olhos do pai se abriram, mas ele não disse nada.
Eles
partiram; os três filhos. O médico os acompanhou, hesitante.
No
leito do outro lado, o rapaz observava o casal de idosos. Meu Deus, eles eram
velhos mesmo. O que aconteceria agora? Ele sentiu vontade de chorar, mas não
por eles. Sentiu vontade de chorar por si mesmo, porque nunca teve um pai,
porque sua mãe morreu quando ele era pequeno, porque nunca teve família. Este
era o seu problema - ele não tinha família. Você pode nascer e crescer ao lado
de muitas outras crianças num orfanato e pensar que está tudo bem; mas não
está. A mulher idosa continuava a conversar com o homem idoso.
-
Hal, tudo isto são lembranças... e você e eu temos muito mais coisas para
lembrar do que as crianças. Você tem sido um bom marido, Hal. Um bom marido faz
a esposa feliz. Não estou falando de prover o sustento da casa. Estou falando
de você como homem, Hal.
Você
me fez uma mulher feliz, Hal. E, por sermos felizes juntos, nós dois, nossos
filhos também são felizes.
Ela
fez uma pausa, controlou a voz e prosseguiu:
-
Sempre que passo por aquele pequeno bosque, onde você me pediu em casamento,
vejo nós dois ali, em pé, você segurando minha mão.
A
mão dele estava procurando as dela, e ela a segurou entre as suas.
-
Estou aqui. Oh! querido... querido... querido...
Sua
voz embargou, e ela mordeu os lábios:
-
Oh! Deus, ajuda-me...
De
repente, sua voz voltou a ficar forte, e ela prosseguiu:
-
Eu sempre vou ver nós dois juntos naquele bosque. Nunca vou passar por lá sem
nos ver...
-
Martha. - O nome foi proferido com voz muito fraca, mas ela OUVIU.
-
Sim, Hal. Estou aqui. Vou ficar aqui.
Ele
abriu os olhos de repente, a viu ali e sorriu.
-
Uma... vida... boa... - Sua voz silenciou-se, e sua mão amoleceu entre as dela.
Suas pálpebras se fecharam.
Agora,
qualquer um podia ver que aquele homem estava morrendo.
O
rapaz sentiu vontade de chorar. Ele não chorava desde quando era criança, uma
vez em que um moço golpeou-o na cabeça. Ele não se importou com isso. Estava
acostumado a apanhar, mas não daquele moço. E ele chorou porque gostava de
imaginar que o moço era o irmão que ele não teve.
A
Sra. MacLeod também estava chorando. Lágrimas rolavam por seu rosto. Depois de
alguns instantes, ela recolocou a mão do marido no lugar. Abriu uma sacola,
retirou de dentro um livro pequeno com capa de couro e, enquanto as lágrimas
rolavam por seu rosto, começou a ler em voz baixa:
-
"O Senhor é o meu pastor; nada me faltará..." O rapaz ouviu as
palavras. Faziam parte da Bíblia. Ele as ouvira na Escola Dominical do
orfanato. Mas elas não significavam nada para ele. Eram apenas palavras. As
pessoas diziam palavras que não tinham nenhum significado. Agora, de repente,
ele sabia o que elas queriam dizer. Elas davam a entender que o velho não
precisava ter medo, mesmo que tivesse de morrer.
-
"Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal
nenhum..." Você não precisa ter medo, era o que a mulher estava dizendo ao
marido. Você tem uma família, e nós o amamos. Ela sempre se lembraria daquele
bosque e de seus encontros lá - ele e ela, muitos anos atrás, e ele a pediu em
casamento, e ela aceitou, e eles se amaram;
e
é assim que se forma uma família; e ele e ela tiveram filhos, e George teve
filhos... e Mary os teria um dia...
O
rapaz estava deitado de costas. Sua cabeça doía, mas não doía muito. Ele não
sentia mais vontade de chorar.
-
"E habitarei na Casa do SENHOR para todo o sempre" - estava dizendo a
Sra. MacLeod.
Ela
fechou o livro e permaneceu sentada por um longo tempo.
Em
seguida, levantou-se, inclinou-se sobre o marido e o beijou nos lábios.
-
Adeus, meu amor - ela disse -, até nos encontrarmos novamente.
Ela
se dirigiu à porta. - Agora eu vou para casa, doutor.
O
médico entrou no quarto e afirmou:
-
Está tudo acabado. A senhora foi muito corajosa, Sra.
MacLeod.
-
Não fui corajosa - ela disse. - E não está tudo acabado. A vida que iniciamos
juntos continuará... na eternidade.
-
Sim, é verdade - disse o médico, sem prestar atenção naquelas palavras.
Ela
foi embora. Mas o rapaz entendeu o que ela quis dizer. Ele continuou deitado
ali, pensando, olhando para o teto. Ele nunca soube qual era o significado da
vida, mas agora ele o encontrara.
Era
simplesmente amar alguém de maneira tão intensa a ponto de querer viver junto
dessa pessoa e formar uma família. Para ele, não importava mais o fato de nunca
ter sido amado ou de nunca ter amado ninguém. Ele poderia constituir uma
família só sua.
-
Ei, rapaz! - O médico debruçou-se sobre ele. - Há quanto tempo você está
acordado?
-
Há pouco tempo - respondeu o rapaz. - Talvez meia hora...
Ele
deu um sorriso, um grande sorriso, mas o médico estava preocupado. - Não é bom
você presenciar tudo isso.
O
médico tocou a campainha, e a enfermeira entrou no quarto.
-
Coloque um biombo aqui, enfermeira!
-
Pois não, doutor.
O
biombo foi colocado. Em seguida, chegaram dois homens com uma maca e levaram o
idoso embora. O rapaz não disse nada. Ele sabia de tudo. A família estava
reunida na casa que lhes pertencia, tomando o café da manhã. George deveria
estar consolando a mãe, dizendo que ela ainda tinha os filhos e os netos a seu
lado. Mas ela jamais se esqueceria do marido - nunca, nunca. Isso era uma
certeza, porque eles se amaram e sempre se amariam.
O
coração do rapaz se encheu de paz. Agora, ele sabia por que havia nascido. E
não ia morrer... apenas dormir...
Ele
despertou muitas horas depois. O quarto estava limpo, o biombo havia sido
retirado. O leito ao lado estava vazio e com roupa de cama limpa. Os raios de
sol atravessavam a janela. Ele estava sozinho, mas, pela primeira vez na vida,
não se sentia sozinho. Não precisaria mais viver sozinho. Poderia ter uma
família, agora que sabia como se formava um lar. Teria um emprego, encontraria
uma moça, uma boa moça, uma moça encantadora, por que não? Aquela senhora idosa
deveria ter sido uma moça encantadora. Ele também podia imaginar o senhor idoso
quando era jovem - alto, magro, em pé no bosque, pedindo a moça em casamento. E
ela aceitando imediatamente. Ele encontraria uma moça como aquela; alguém que
soubesse cozinhar e enfeitar uma árvore de Natal. Um triciclo! Quando era
criança, ele queria muito ter um triciclo. Foi a primeira coisa que lhe veio à
mente a respeito do orfanato - o triciclo que nunca teve. É necessário ter pais
para ganhar coisas como essa. E filhos - é possível ter filhos só nossos. Feliz
foi aquele homem, que morreu com todo o conforto, tendo os filhos por perto
para vê-lo partir! Ninguém, que teve tantos motivos para viver, se importaria
de morrer...
A
enfermeira entrou no quarto, trajando uniforme limpo e engomado.
-
Que tal um bom desjejum, jovem? - ela perguntou com voz alegre.
O
rapaz riu e se espreguiçou.
-
Eu me sinto ótimo - disse. - Traga-me uma refeição de verdade, por favor. Estou
morrendo de fome!
DESENVOLVENDO RAÍZES
Philip
Gulley
Quando
eu era criança, tive um vizinho, um senhor idoso, que se chamava Dr. Gibbs. Ele
não se parecia com nenhum médico que eu conhecia. Todas as vezes que eu o via,
ele estava usando um sobretudo de algodão e um chapéu de palha com aba frontal
de plástico verde para proteger os olhos dos raios do sol. Ele sorria muito, um
sorriso que combinava com seu chapéu - velho, enrugado e surrado. Nunca gritava
conosco quando brincávamos em seu quintal. Eu me lembro dele como uma pessoa
muito mais bondosa do que as circunstâncias permitiam.
Quando
não estava salvando vidas, o Dr. Gibbs estava plantando árvores. Sua casa
localizava-se numa área de 40.000 m2, e seu objetivo de vida era transformar
essa área numa floresta. O bom médico tinha algumas teorias interessantes sobre
a agricultura. Ele estudara na escola de horticultura, onde "não há lucro
sem suor".
Nunca
regava suas árvores novas, uma norma incompatível com a sabedoria convencional.
Certa vez, eu lhe perguntei por que ele fazia uso dessa regra. Ele disse que
regar as plantas causa problemas para elas e, dependendo da maneira como são
regadas, as gerações posteriores vão ficando cada vez mais fracas. Assim, é
necessário dificultar as coisas para as plantas e arrancar as ervas daninhas
das árvores tenras.
Ele
dizia que as árvores regadas ficam com as raízes rasas, e as que não são
regadas precisam aprofundar suas raízes à procura de umidade. Eu deduzi que as
raízes profundas são muito mais preciosas.
Portanto,
ele nunca regava as árvores. Plantou um carvalho e, em vez de regá-Io todas as
manhãs, ele o golpeava com um jornal dobrado. Pá! Pá! Eu quis saber por que ele
fazia aquilo, e ele me disse que era para chamar a atenção da árvore.
O
Dr. Gibbs foi morar no céu há dois anos, depois que saí de casa para estudar.
De vez em quando, passo por sua casa e olho para as árvores que eu o vi plantar
há uns 25 anos. Elas estão fortes como pedras. Grandes e robustas. Aquelas
árvores acordam de manhã, batem no peito e erguem um brinde à vida.
Há
dois anos, plantei duas árvores. Reguei-as durante todo o verão. Borrifei-as
com água. Orei por elas. Dois anos de cuidados resultaram em árvores que
esperam receber tudo de graça, sem o mínimo esforço. Sempre que um vento forte
sopra, elas tremem e sacodem os galhos. Frágeis árvores!
Muito
interessantes aquelas árvores do Dr. Gibbs! A adversidade e a privação pareciam
lhes proporcionar muito mais benefícios do que a facilidade e o conforto lhes
trariam.
Todas
as noites, antes de me deitar, eu passo pelo quarto de meus olhos. Paro perto
deles e observo seus pequenos corpos respirando vida. Costumo orar por eles.
Quase sempre, peço que a vida deles seja fácil. Senhor, livra-os de problemas.
Porém, ultimamente, tenho pensado que é tempo de mudar minha oração.
E
isso tem a ver com os ventos frios inevitáveis que açoitam o nosso íntimo. Sei
que meus olhos vão encontrar problemas pela frente. E orar para que eles não
sofram é ingenuidade de minha parte. Haverá sempre um vento frio soprando em
algum lugar.
Portanto,
estou modificando minha oração rotineira. Porque a vida é difícil,
independentemente de querermos ou não. De agora em diante, vou orar para que as
raízes de meus olhos se aprofundem, de modo que eles extraiam força dos
recursos ocultos do Deus Eterno.
Muitas
vezes, oramos pedindo por facilidade; mas essa é uma oração raramente atendida.
O que precisamos fazer é orar para ter raízes que se aprofundem no Deus Eterno,
para que as chuvas e os ventos fortes não nos levem de roldão.
PERSPECTIVA
Marilyn
McAuley
Uma
menina estava visitando sua avó, no campo. Certa noite, elas se sentaram para
apreciar as estrelas no céu - que possuíam um brilho que a menina nunca havia
visto, já que morava na cidade, onde existem muitas luzes. Ela se encantou com
a beleza e disse à avó:
-
Se o céu é tão lindo do lado do avesso, como ele deve ser do lado direito?
TREM PARA BARCELONA
Jori
Senter Stuart
A
primavera chegou, eu tinha 18 anos, e a vida era maravilhosa.
Acabara
de completar um semestre escolar, na Alemanha, e iniciaria o segundo período
letivo na Inglaterra. Entre um semestre e outro, uma amiga e eu decidimos fazer
um pequeno passeio turístico, e programamos uma viagem que cobriria oito
países, em 28 dias.
Tínhamos
acabado de passar alguns dias sob o sol dourado da pequena cidade de Nice, na
Riviera Francesa. Agora, nossos francos estavam no fim - sinal de que era hora
de arrumar as malas e prosseguir a viagem. Guardamos nossos parcos pertences em
mochilas, e, como se fôssemos dois burros de carga, caminhamos com dificuldade
até a estação ferroviária.
Quando
chegamos à estação, a massa humana que aguardava os trens já atingia as ruas ao
redor. Aparentemente, naquele início de primavera, todos os 50 mil estudantes
das faculdades estavam tentando sair de Nice. Durante todo o tempo em que
tentávamos abrir caminho até a bilheteria, ouvíamos estas palavras ameaçadoras:
"greve de trens".
-
Não há trens - confirmou o homem atrás do balcão. - Talvez daqui a um dia.
Talvez daqui a uma semana.
Desanimadas,
procuramos um lugar na estação para nos acomodarmos. Assim que o encontramos,
fizemos uma análise da situação. Tínhamos comida suficiente para atravessar o
dia. Água engarrafada, dois sanduíches de manteiga de amendoim e duas laranjas.
Nossa reserva financeira consistia exatamente de 12 francos.
De
repente, percebemos que estávamos muito longe de casa.
Sete
horas depois, a cena quase não havia mudado, exceto que a multidão aumentara,
os ânimos estavam mais exaltados, e o vozerio dos turistas frustrados alcançava
as ruas. Adolescentes mal-encarados portavam-se inconvenientemente no meio da
multidão, à procura de alvos fáceis. Senti-me mais confortada, ao ver um grupo
de estudantes norte-americanos sentados perto de nós. Eles estavam entretidos,
jogando cartas e escrevendo mensagens em cartões postais para seus familiares.
-
Vou dar uma volta para ver se encontro um meio de sairmos deste lugar. - Minha
amiga estava demonstrando impaciência. - Tome conta de nossas coisas. Vou dar
alguns telefonemas.
Encostei
minha jaqueta num pilar e tentei acomodar-me para passar a noite ali. A
situação começava a se acalmar na estação.
De
repente, ouvi uma voz, vinda de trás do pilar, sussurrando para mim:
-
Não diga nada. Só quero seu dinheiro e seu passaporte, nada mais.
O
homem saiu de trás do pilar e apareceu diante de mim. Era alto e tinha uma
expressão ameaçadora no rosto. A aba do chapéu cobria-lhe os olhos.
-
Sinto muito. Não entendo...
Eu
esperava que ele se sentisse frustrado e desistisse.
Evidentemente,
ele não era homem de desistir facilmente.
-
Você sabe o que eu quero, americana. É melhor parar de fazer esse joguinho
comigo, antes que eu me zangue de verdade...
Enquanto
ele me dizia essas palavras, um rapaz do grupo de estudantes americanos que
estava perto de nós agarrou-me pelo braço e começou a me levantar do chão.
-
Nosso trem acabou de chegar. Pegue suas coisas e vamos embora antes que alguém
tome o nosso lugar.
Uma
garota loira, de rabo-de-cavalo, trajando camisa larga e calça jeans, estava
carregando a mochila de minha amiga nos ombros e falava comigo o tempo todo.
-
Aonde você foi? Procuramos por você o tempo todo... Vamos, temos de correr.
Você nos dá licença, por favor? - Ela me puxou, e nós duas passamos pelo
pretenso ladrão.
Ele
ficou tão surpreso que não disse nada, mas tentou agarrar-me pelo braço. Minha
benfeitora foi mais rápida do que ele e me empurrou para o meio da multidão.
Depois
de um tempo, que pareceu uma eternidade, depois de tanto empurra-empurra,
chegamos a um lugar onde havia menos gente.
Tremendo,
coloquei minha mochila ao lado de um banco e me virei para agradecer àquela que
acabara de me salvar. Porém, só avistei a mochila vermelha de minha amiga,
encostada na parede. A moça loira, de rabo-de-cavalo, havia desaparecido no
meio do povo.
De
repente, ouvi alguém chamar meu nome.
-
Jori! - Minha amiga vinha correndo em minha direção, pela plataforma. - Onde
você estava? Por que não ficou perto do pilar?
Sentamo-nos
no banco e comecei a lhe contar minha aventura. Fui interrompida pelo aviso
vindo do alto-falante:
"Trem
para Barcelona encostando na Plataforma 4! Trem para Barcelona encostando na
Plataforma 4! " Olhamos para cima e vimos que estávamos na Plataforma 4!
Avistamos
o farol da locomotiva rodando pelos trilhos em nossa direção.
Mais
tarde, enquanto observávamos, pela janela do trem, as paisagens dos campos
franceses, eu disse à minha amiga:
-
E pensar que não tive a oportunidade de agradecer àquela moça!
Minha
amiga disse simplesmente:
-
Acho que ela sabe que você queria lhe agradecer.
Não
sei de que forma, mas achei também que ela sabia.
CASTELOS DE AREIA
Max
Lucado
Sol
a pino. Maresia. Ondas ritmadas. Na praia está um menino.
Ajoelhado,
ele cava a areia com uma pá de plástico e a joga dentro de um balde vermelho.
Em seguida, vira o balde sobre a superfície e o levanta. Encantado, o pequeno
arquiteto vê surgir diante de si um castelo de areia.
Ele
continuará a trabalhar a tarde inteira. Cavando os fossos.
Modelando
as paredes. As rolhas de garrafa serão as sentinelas.
Os
palitos de sorvete serão as pontes. E um castelo de areia será construído.
Cidade
grande. Ruas movimentadas. Ronco dos motores dos automóveis.
Um
homem está no escritório. Em sua escrivaninha, ele organiza pilhas de papel e
distribui tarefas. Coloca o fone no ombro e faz uma chamada. Como que num passe
de mágica, contratos são assinados e, para grande felicidade do homem, foram
fechados grandes negócios.
Ele
trabalhará a vida inteira. Formulando planos. Prevendo o futuro. As rendas
anuais serão as sentinelas. Os ganhos de capital serão as pontes. Um império
será construído.
Dois
construtores de dois castelos. Ambos têm muita coisa em comum. Fazem grandezas
com pequeninos grãos. Constroem algo do nada. São diligentes e determinados. E,
para ambos, a maré subirá, e tudo terminará. Contudo, é aqui que as semelhanças
terminam. Porque o menino vê o fim, ao passo que o homem o ignora. Observe o
menino na hora do crepúsculo.
Quando
as ondas se aproximam, o menino sábio pula e bate palmas.
Não
há tristeza. Nem medo. Nem arrependimento. Ele sabia que isso aconteceria. Não
se surpreende. E, quando a enorme onda bate em seu castelo e sua obra-prima é
arrastada para o mar, ele sorri. Sorri, recolhe a pá, o balde, segura a mão do
pai e vai para casa. o adulto, contudo, não é tão sábio assim. Quando a onda
dos anos desmorona seu castelo, ele se atemoriza. Cerca seu monumento de areia,
a fim de protegê-lo. Impede que as ondas alcancem as paredes construídas por
ele. Encharcado de água salgada e tremendo de frio, ele resmunga para a próxima
onda.
-
É o meu castelo - diz em tom de afronta.
O
mar não precisa responder. Ambos sabem a quem a areia pertence...
E
eu não sei muito sobre castelos de areia. Mas as crianças sabem.
Observe-as
e aprenda. Vá em frente e construa, mas construa com o coração de uma criança.
Quando chegar a hora do pôr-do-sol e a maré levar tudo embora - aplauda.
Aplauda o processo da vida, segure a mão do Pai e vá para casa.
A COLCHA DE RETALHOS
Melody
Carlson
Tenho
uma colcha de retalhos feita pela avó de meu pai. Não é uma colcha bonita, e os
tecidos que a compõem parecem ser bem antigos. Mas gosto muito dela.
Provavelmente,
são sobras aproveitadas do avental da tia Fran, do vestidinho de Páscoa de
Mary, ou da camisa predileta do vovô.
Têm
formatos e tamanhos estranhos. Alguns formatos indefinidos possuem colchetes e
curvas, longas tiras de tecido costuradas a duras penas com dezenas de pontos
meticulosos. Há retalhos menores que a unha de meu polegar.
Alguns
tecidos são muito simples e de cores desbotadas. Posso ouvir a voz cansada de
uma mãe dizer: "Mas, querida, é um tecido muito durável", enquanto a
filha dela franze as sobrancelhas diante de um vestido novo para ir à escola.
Outros são de cores vivas e alegres, como, por exemplo, fragmentos de
aniversários, férias de verão e tempos divertidos que se foram. Uns poucos
retalhos mais requintados são macios como cetim, com alto-relevo ou bordados;
parecem sussurrar lembranças de casamentos, bailes, primeiro beijo...
Minha
bisavó era quase cega. Talvez isso explique por quais tonalidades foram
combinadas a esmo e parecem gritar uma para a outra. Eu me pergunto se ela
imaginava com o que suas criações se pareciam. Ou será que simplesmente usava o
tato? Seus trabalhos possuem uma textura interessante - lisa, quase acidentada,
tecidos leves costurados num retalho de veludo; e, por toda a colcha, há
centenas de pontinhos feitos à mão, quase invisíveis, pregas sempre muito
bem-feitas.
Se
eu fosse cega, gostaria de fazer colchas como esta.
Recentemente,
minha família foi transferida para outra cidade, e fiquei de cama, com gripe,
enrolada na grande colcha de retalhos de minha bisavó. Senti pena de mim mesma
e saudades das amigas que deixei para trás. No fundo, eu sabia que a culpa por
esses sentimentos era minha - eu não havia decidido fazer novas amizades.
Várias pessoas conhecidas pareciam querer aproximar-se de mim, mas eu estava
com um pé atrás, hesitante...
Enquanto
olhava para a colcha de retalhos, pensei nas amigas que tive através de toda a
minha vida. Algumas pareciam um pouco grosseiras como um retalho de lã de trama
resistente, mas com o tempo foram amaciando - ou eu me acostumei com elas.
Outras
eram delicadas como seda e precisavam ser tratadas com muito cuidado. Algumas
tinham um colorido vivo e alegre e eram companhias divertidas. Outras, muito
especiais, tinham a textura macia e aconchegante da flanela e sabiam como me
fazer sentir bem.
Boa
parte de minhas amigas esteve a meu lado apenas por uns tempos. Ou fui eu que
as deixei para trás, ou foram elas que me abandonaram! Apesar disso, em meu
coração sei que são amigas para a vida toda. Se eu as encontrar na rua amanhã,
nos abraçaremos, daremos boas risadas, e a conversa será interminável. Parece
que tudo aconteceu ontem.
E
é por isso que Deus as costurou em meu coração.
Enrolei-me
na velha colcha, sentindo-me confortada e aquecida por minhas lembranças.
Certamente, minha obra-prima - essa colcha de amigas que ajuntei ao longo da
vida - ainda não está terminada. E eu gostaria de fazer novas amizades
nesta-cidade. E, como minha bisavó, que confiava em seus dedos para guiá-Ia, eu
gostaria de fazer o mesmo, pela fé.
LIXO PARA UNS... TESOURO PARA OUTROS
Ron
Mehl
Por
várias vezes, Bob havia tentado encontrar o caminho pelo fundo da garagem, e
estava prestes a sair quando a avistou. Embora ela estivesse parcialmente
escondida debaixo de uma toalha de mesa e um acolchoado velho, seu formato era
inconfundível.
Tratava-se
de uma motocicleta. E não era uma simples motocicleta... era uma Harley.
Evidentemente,
não fazia parte dos produtos vendidos em liquidação naquela garagem, e aquilo
chamou a atenção de Bob.
-
A moto está à venda?
O
homem encolheu os ombros e respondeu:
-
Bem... por que não? Minha mulher diz que tudo está à venda.
Mas
você precisa saber de uma coisa: A moto não roda desde que foi comprada. O
motor não funciona. Ela não sai do lugar. Vale mais a pena comprar uma nova do
que consertar esta coisa velha.
Bob
concordava com a cabeça pacientemente. Mas procurou saber:
-
Mesmo assim, quanto você quer por ela?
-
Tenho certeza de que o pessoal do desmanche me daria 35 dólares pela lataria. O
que você acha?
Bob
olhou para aquela montanha de metal velho e enferrujado. O que sua esposa diria
se ele a levasse para casa? Apesar disso... para um olho bem treinado, ela
possuía potencial. Mesmo que a moto não rodasse, ele daria um polimento nela,
para início de conversa. E poderia vendê-la por mais de 35 dólares. Só as peças
valiam mais do que isso.
-
Está bem - ele disse. - Eu lhe dou 35. Posso pegá-la amanhã?
De
repente, a velha Harley já estava ocupando espaço na garagem de Bob. Depois de
algumas semanas de protelação, ele resolveu telefonar para a Harley-Davidson só
para saber quanto custariam as peças principais de reposição. A ligação foi
transferida para uma pessoa do setor de peças, e ele fez algumas perguntas.
-
Se você me fornecer o número de série - disse o vendedor -, eu poderei
verificar para você.
Bob
forneceu o número.
-
Aguarde um instante.
Enquanto
aguardava na linha, Bob ficou ouvindo música: rock da década de 1960. Bem
apropriada! - ele pensou. Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, o
homem retornou. E retornou bem a tempo. Mais uma música cantada pelos Trogs ou
por Country Joe and the Fish, e ele teria desistido.
Agora,
a voz do homem parecia diferente. Estranha. Ponderada.
Como
se alguma coisa importante estivesse prestes a acontecer.
-
Eu... eu vou precisar ligar de volta para você, está bem? Você poderia me
fornecer seu nome completo, endereço e o número de seu telefone, por favor?
Por
que ele precisa de meu nome e endereço? - pensou Bob. Mas, que mal poderia
haver? Mal nenhum. Provavelmente, ele passaria a fazer parte de alguma lista de
motociclistas. Bob forneceu as informações ao homem e desligou.
Após
alguns minutos, porém, ele começou a ficar nervoso.
Arrependeu-se
de ter fornecido informações pessoais por telefone. E se a moto estivesse
envolvida em algum crime? E se fosse roubada? Estaria ele correndo o risco de
ser processado? Talvez a polícia já estivesse a caminho - ou, quem sabe, um
Anjo do Inferno, pronto para reclamar sua moto...
Bob
permaneceu ansioso durante alguns dias, sem receber notícias do revendedor da
Harley. Assim que suas preocupações começaram a se dissipar, o telefone tocou.
Dessa vez, contudo, não era o funcionário do setor de peças; Bob se viu falando
com um executivo da Harley. O homem parecia exageradamente amistoso, deixando
Bob ainda mais intranquilo.
-
Preste atenção, Bob - ele disse -, quero que você me faça um favor, está bem?
-
Hum... bem, acho que sim.
-
Bob, quero que você deixe o fone de lado, sem desligá-lo, retire o assento de sua
moto e veja se existe alguma coisa escrita embaixo dele. Você me faria esse
favor, Bob?
O
homem falava como se fosse um controlador de tráfego aéreo instruindo o pouso
de um 737.
Bob
sentiu-se entre a cruz e a espada.
Mesmo
assim, pegou uma chave de fenda, fez o que lhe foi dito, e retornou ao
telefone.
-
Sim - ele disse -, existe alguma coisa escrita ali. Está gravada, e diz:
"O REI". Veja lá, existe algum tipo de problema com esta moto?
O
que está havendo?
Houve
um segundo ou dois de profundo silêncio do outro lado da linha. Bob sentia-se
como alguém conversando por telefone a longa distância e ouvindo um alfinete
cair no chão.
-
Bob, meu patrão autorizou-me a lhe oferecer 300 mil dólares pela moto, com
pagamento à vista. O que você acha? Podemos fechar negócio?
Bob
estava tão atordoado que não conseguia falar.
-
Eu... eu... preciso pensar um pouco - ele gaguejou.
Depois
de desligar o telefone, ele começou a escorregar lentamente até sentar-se no
chão da cozinha.
No
dia seguinte, Bob recebeu um telefonema de Jay Leno, o principal entrevistador
de programas noturnos de TV. Leno explicou que tinha "uma queda especial
por Harleys" e ofereceu 500 mil dólares a Bob.
"O
Rei" era nada mais nada menos do que Elvis Presley. O número de série
deixara bem claro esse fato, e a gravação embaixo do assento eliminava qualquer
dúvida. A moto que Bob resgatara como se fosse ferro velho, por 35 dólares,
havia pertencido ao "Rei do Rock'n Roll".
E
valia meio milhão de dólares - no mínimo. Depois de tantos anos à procura da
"Grande Descoberta", Bob a encontrara, mas não havia reconhecido o
que tinha em mãos.
Esta
história serve para mostrar que aquilo que é lixo para uns é tesouro para
outros. O valor da motocicleta, é claro, não estava na lataria nem nas peças.
Ela nem sequer rodava! O valor não tinha nada a ver com a beleza da moto, com o
material usado em sua fabricação, nem com seu desempenho... Tudo estava ligado
ao fato de que ela pertencera ao "Rei". Ele a tocou, rodou com ela,
teve orgulho dela. E o inexplicável valor que nossa cultura atribui a Elvis
Presley - chegando a considerá-lo um deus - foi transferido para sua
motocicleta. Existem pessoas dispostas a pagar uma pequena fortuna pelo
privilégio de dizer "Eu possuo a motocicleta de Elvis Presley".
Bob
não se deu conta de que possuía uma coisa de grande valor.
Não
fazia ideia de quem tinha sido o proprietário anterior da moto.
Apenas
viu alguma coisa barata à venda - uma oportunidade de obter um pequeno lucro. O
que ele descobriu depois, é claro, foi que o proprietário era a coisa mais
importante naquela velha Harley. Na verdade, o proprietário era tudo.
E
o que fala mais alto quanto aos seus valores e aos meus?
Eles
têm a ver com o material de que somos feitos? Ou estão baseados em nossa função
na empresa ou em nossa situação econômica? São determinados pelo que podemos
fazer e por nosso "desempenho"? ... O que me dá uma sensação de valor
e importância "é saber que eu pertenço a Deus. Fui redimido pelo Filho de
Deus, mediante o grande sofrimento e o alto preço que Ele pagou. Ele é meu
proprietário... Ninguém pode contestar a marca do Rei.
COMECEM A ORAR
Charles
Swindoll
O
avião seguia para Nova York - um voo rotineiro, normal e muito maçante. Mas,
dessa vez, ele provou ser o contrário.
Pouco
antes da aterrissagem, o piloto notou que não conseguia engatar o trem de
pouso. Ele acionou todos os controles possíveis, tentando engatá-Io várias
vezes... sem sucesso. Em seguida, ele pediu instruções aos controladores de
terra. Enquanto o avião voava em círculos sobre o campo de pouso, a equipe de
emergência cobriu a pista com espuma. Os carros de bombeiro e outros veículos
de emergência tomaram posição na pista.
Nesse
ínterim, a cada manobra, os passageiros recebiam instruções com aquela
entonação de voz calma e sem emoções que os pilotos sabem demonstrar com tanta
perfeição. As comissárias de bordo caminhavam silenciosamente pela cabina de
passageiros, com ar de frieza no rosto. Os passageiros foram instruídos a
colocar a cabeça entre os joelhos e a agarrar com força os tornozelos antes do
impacto.
Houve
lágrimas e alguns gritos de desespero...
De
repente, quando faltavam apenas alguns minutos para o pouso, o piloto anunciou
pelo serviço de comunicação interna:
-
Estamos iniciando a descida final. Neste momento, de acordo com o Código
Internacional de Aviação estabelecido em Genebra, é meu dever informar-Ihes
que, se os senhores acreditam em Deus, devem começar a orar.
Palavra
de escoteiro... foi exatamente o que ele disse!
TRINCAS E FENDAS SECRETAS
Melody
Carlson
Quando
eu era criança, a casa de vovó - em imponente estilo vitoriano, dava-me a idéia
de um castelo. Majestosa e branca, ela estava assentada sobre uma colina
gramada, rodeada por um canteiro colorido de flores. As pessoas paravam para
admirar, e até mesmo fotografar, o deslumbrante jardim de pedras de vovó. As
três horas de viagem até aquela casa significavam muito mais que simplesmente
visitar seu lar, onde havia pão de gengibre e flores bonitas; significava
penetrar num mundo muito diferente do meu.
Na
casa de vovó tudo era diferente, e eu encontrava um mundo secreto - um mundo
onde só eu conhecia todos os recantos e fendas fascinantes. No verão, eu
passava horas incontáveis explorando seus cantos secretos. Lembro-me do
agradável aroma de terra depois da chuva de verão e da umidade do cimento frio
que atravessava minhas bermudas finas de algodão quando eu me sentava nos
degraus da escada atrás da casa de vovó. Uma profusão de brincos-de-princesa
vistosos, com suas exuberantes cores arroxeadas, cobria os canteiros que
rodeavam a escada. Eles pareciam lanternas japonesas em miniatura, e as abelhas
voavam ao redor para recolher alimento.
Lembro-me
da sensação de tocar num brinco-de-princesa fechado e o ruído que eu ouvi
quando o apertei levemente com os dedos - e do zumbido abafado da infeliz
abelha que aprisionei dentro do botão. Eu subia por aqueles degraus cercados de
brincos-de-princesa até chegar à casa de Martha - uma vizinha de vovó. Da laje
de seu quintal, ainda molhada pela chuva, subia um vapor que brilhava ao sol da
tarde. Um pouco adiante do quintal, havia um pequeno jardim fechado por uma
cerca da altura de uma criança. Eu me encostava na cerca e estendia os braços
por cima dela, para inspecionar a misteriosa folhagem verde que florescia do
outro lado. Um varal atravessava todo o jardim. Em uma das extremidades, pendia
uma roldana que meu avô havia desenhado para colocar e retirar as roupas do
varal sem ter de pisar no jardim de Martha. Ela e minha avó usavam o mesmo
varal, aproveitando a mesma luz do sol.
Em
sua sala banhada pelo sol, Martha colecionava blocos para construções de
brinquedo, bonecas de madeira, livros de fotografias e um visor de fotos em 3D
- tudo para seus jovens visitantes.
Naturalmente,
ela servia bolinhos e chá; isso era uma fantasia para uma menina como eu.
Na
mesma rua, morava Londy, a irmã de vovó. A casa de Londy me fazia lembrar a
casinha da Branca de Neve. Cercada de árvores altas, e muito bem escondida, ela
parecia ter brotado ali como um cogumelo gigante. Londy, uma mulher franzina,
combinava com sua casa pequenina. Ela gostava de agitação e preparava
deliciosos lanches em sua cozinha apertada. As torradas e as geléias feitas em
casa eram servidas a seus convidados em pratos de porcelana coloridos, e ela
nunca fazia distinção entre crianças e adultos - todos nós saboreávamos aquelas
delícias nos mesmos pratos de porcelana; utensílios de plástico não existiam em
sua cozinha.
Londy
gostava de colher cores, e elas caíam em cascata dos vasos de porcelana de sua
casa. Do lado de fora da janela de sua cozinha, cresciam rosas, groselhas e
hortelã. A mistura de fragrâncias era quase inebriante, quando penetrava na
casa, levada pela brisa quente do verão. A casa de Londy parecia uma casinha
encantada para bonecas crescidas.
Na
casa de vovó, eu era a primeira a levantar de manhã, porque sabia que vovô já
havia preparado um delicioso e fumegante café da manhã, na aconchegante cozinha
do pavimento inferior. Depois de bem alimentada, eu continuava sentada à mesa,
em frente a uma enorme vidraça, contemplando os gerânios vermelhos que
floresciam o ano todo na jardineira sob a janela. Eu tentava espiar a rãzinha
verde que morava no meio dos gerânios e observava os beija-flores pairando
sobre as caixas de flores. Programações e rotina não faziam parte dos verões
daquela época.
Embora
tudo permaneça como era, as pessoas se foram; e eu me sinto dividida entre o
desejo de retomar para descobrir o tempo em que fez com o paraíso de minha
infância e o medo de que o encanto, agora quebrado, só me traga
desapontamentos. Os lugares de que me lembro, mesmo que não tenham mudado,
jamais poderão ser encontrados novamente, porque meus olhos de criança
enxergavam a colina como uma montanha e a casa como um castelo. E essas
lembranças devem perdurar nos lugares secretos - escondidas nas trincas e
fendas - apenas para serem visitados em nossa memória.
DE VOLTA AO RUMO CERTO
Sandy
SnaveLy
Meu
marido e eu gostamos imensamente de velejar. Demos ao nosso barco de 27 pés o
nome de Mar Sensual, porque ele representa para nós a sedução que a água exerce
em nosso espírito aventureiro. Quando a água está calma e o vento sopra
tranquilo, velejar é uma experiência profundamente enriquecedora. Contudo, há
ocasiões em que a água se torna violenta e o vento sopra terror através de
nossas veias, como se fosse um inimigo invisível.
Certo
dia, enquanto subíamos o rio Colúmbia em direção a Astoria, um fenômeno
marítimo, conhecido apropriadamente como "fazedor de viúvos",
interrompeu nossa pacífica viagem. Ondas de quase dois metros batiam em nós,
uma após outra, e tivemos de nos firmar para enfrentar os solavancos.
De
repente, Bud ouviu um som que parecia vir da proa. Ao esticar o corpo para
enxergar através da água que o vento atirava à nossa volta, ele constatou que a
âncora se havia deslocado do lugar e estava batendo contra o casco-do-barco. A
cada pancada, aumentava o perigo de ser aberto um buraco na fibra de vidro,
ameaçando nossa segurança.
Bud
fez, então, a coisa mais assustadora que o vi fazer. Sem um colete salva-vidas
ou uma corda de segurança, ele se dirigiu à extremidade da proa, deixando-me na
cabina para manejar o leme enquanto ele resolvia o problema da âncora.
Um
de meus pontos fortes na arte de velejar sempre foi minha habilidade em manter
o barco no rumo certo - até aquele momento em que a vida de meu marido estava
em risco, na beira do barco.
Ondas
cada vez mais bravias batiam nele, como se fossem gigantescos ciganos do mar
tentando abatê-lo. Focalizando os olhos em Bud, eu comecei imediatamente a
planejar o que fazer para resgatá-lo caso ele caísse na água.
O
som da voz de meu marido gritando para mim através da tempestade afastou meu
medo e fez-me voltar a raciocinar:
-
Retome ao rumo certo! Aponte o barco na direção do marcador!
Desviar
os olhos de meu marido e focalizá-Ios no marcador foi, para mim, a ordem mais
difícil de obedecer. Meus instintos não permitiam que eu virasse as costas
àquilo que parecia ser a necessidade do momento e passasse a confiar nas regras
da água. No entanto, quando obedeci ao comando de Bud, fui capaz de retomar o
barco ao rumo certo. Bud prendeu a âncora no lugar e, mais uma vez, estávamos
seguindo a direção correta.
Naquela
tarde, nós dois aprendemos uma preciosa lição: O perigo ronda em cada esquina e
somos tentados a desviar a atenção de nossos verdadeiros objetivos, a mudar as
regras para resolver o que parece ser a crise mais iminente da vida.
Porém,
existem princípios sólidos desenvolvidos para nos levar em segurança ao nosso
destino, se estivermos dispostos a confiar neles e não nos desviarmos do rumo
diante de medos repentinos.
Devemos
estar determinados a estudar os mapas, seguir as regras, e firmar o rumo, ou
cairemos de cabeça nas águas profundas quando as tempestades da vida nos
atingirem.
O CÂNION DAS SEQUÓIAS
Cassandra
Lindell
Meu
avô cheirava a couro velho, terra fresca e suor. Usava camisa de algodão de
manga curta, jeans presos por suspensórios e loção pós-barba Mennen. Quando eu
era bem pequena, o chapéu de sua preferência era um que meu irmão e eu
chamávamos de "chapéu de safári" - com copa cinza de plástico rijo e
aba costurada com perfeição.
Vovô
sempre achou que os cavalos eram essenciais à vida e colocou-me em cima deles
desde tenra idade. Até hoje, quando estou montada em um cavalo, sinto-me
importante e especial; a companhia de vovô também me dava essa mesma sensação.
Acho que ele sempre soube que um dia me levaria ao Cânion das Sequoias e me
mostraria que seu coração ainda pertencia àquele lugar. Quando ele e vovó se
casaram, costumavam passar o verão nas Sierras.
Lembro-me
do som dos cascos batendo no metal quando retiramos os cavalos do trailer para
aquela primeira cavalgada no Cânion das Sequoias. Lembro-me do cheiro de couro
e estrume que sentíamos enquanto colocávamos as selas nos animais. Ben
resfolegava e fungava de satisfação, dançando na poeira.
Enquanto
cavalgávamos, vovô apontou para os morangos silvestres ao longo da trilha; eu
não tinha ideia de que eram tão pequeninos assim. Teriam passado despercebidos
para mim.
Vovô
conhecia a diferença entre o som da água gotejando ao longe e o som do vento
batendo nas árvores. Eu não conhecia. Certa vez, achei que estava ouvindo som
de vento. Vovô sorriu.
-
Não é. Venha comigo.
Ele
desceu a colina, saindo da trilha. Eu o acompanhei, sem saber para onde estava
indo.
Logo
depois, ele parou e empurrou para trás a aba de seu chapéu estilo cowboy. Puxei
Ben para perto de mim e acompanhei o olhar de vovô.
Até
hoje, nunca vi um lugar mais tranquilo que aquele. Abaixo de nós, um riacho
corria sinuosamente pelas samambaias e lírios silvestres, caindo a uma altura
de três metros, para formar uma piscina de água cristalina. Ao lado da piscina,
havia uma praia arenosa e uma tora caída. Pensei no Jardim do Éden. Sentamo-nos
ali, por um bom tempo, tempo suficiente para que a imagem ficasse gravada para
sempre em minha mente. Quando necessito de alguns momentos de paz, fecho os
olhos e vejo aquela piscina de água cristalina. Mais adiante na trilha, uma
clareira no meio da mata fez brotar um grande sorriso nos cantos da boca de meu
avô. Diante de nós, estendia-se uma praia com pedras do tamanho da mão fechada.
Um riacho, tentando passar despercebido, seguia seu caminho por entre as
pedras, antes de juntar-se ao outro, logo depois de passar pela clareira.
-
Vamos acampar, montar nossa barraca ali. Sua avó estendeu um varal entre
aquelas duas árvores... Acertei a cabeça de um cervo no alto daquele morro com
um tiro.
Vovô
reviveu para mim um mundo esquecido no passado.
-
Há um riacho subterrâneo que corre bem ali - disse vovô, apontando novamente
para um determinado lugar.
-
Como você sabe?
-
Veja aquela fileira de árvores novas. As sementes que caem crescem onde existe
água.
De
repente, quando a trilha começou a serpentear pela montanha, ficamos frente a
frente com uma árvore caída no meio do caminho. Era uma sequoia. Uma árvore
gigantesca. A árvore caída tinha, no mínimo, quatro metros de diâmetro - o que
significava uma parede de quatro metros à nossa frente. Os galhos emaranhados
pendiam na encosta do morro. Acima de nós havia-se formado um enorme buraco na
terra, no lugar das imensas raízes.
Fiquei
assustada. Teríamos de voltar. Vovô sentou-se e olhou para a árvore. Eu olhei
para ele.
-
Vamos ter de voltar? - perguntei, desapontada.
Ele
continuou sentado, olhando para a árvore caída. Em seguida, com a rapidez de um
raio, vovô rodopiou com o cavalo, cutucou-o com os calcanhares e gritou por
cima do ombro:
-
Vamos!
Vi
seu cavalo escorregar nas folhas caídas e nos espinhos enquanto eles subiam a
montanha. Eu não conseguiria subir aquela montanha.
Eu
cairia. O cavalo cairia. Nós dois cairíamos.
O
problema, porém, era que eu conhecia meu avô - ele aguardaria o dia inteiro no
topo da montanha, se fosse necessário, até que eu o seguisse. Ele era conhecido
por sua tenacidade. Vovô nunca desistiu da ideia de que o melhor caminho para
aprender é tentar o impossível.
-
Vamos! - Era a voz de vovô gritando novamente para mim. Deixe que o cavalo
encontre o caminho. Se você não quer cair, ele também não vai querer cair.
Eu
sabia que podia confiar em meu avô. Afinal de contas, ele passara a vida
inteira no lombo de um cavalo e conhecia muito bem as montanhas.
Por
isso, fiz a única coisa que podia: Agarrei-me na sela, soltei as rédeas - e
fechei os olhos com força enquanto cutucava o cavalo com os calcanhares.
Ben
saltou para a frente, subindo a montanha com dificuldade.
Foi
uma cavalgada acidentada. Depois de alguns segundos, senti seus passos macios e
abri os olhos. Lá estava meu avô, feliz, piscando para mim com seu rosto
enrugado.
-
Você fechou os olhos? Então, perdeu a melhor parte da cavalgada!
Aprendi
muitas coisas naquele dia e em outras cavalgadas pelo Cânion das Sequoias.
Ainda vejo, com muita frequência, a imagem daquela gigantesca sequoia
atravessada na trilha. A vida também é assim. Seria ótimo para todos nós se
houvesse apenas morangos silvestres e piscinas de água cristalina. Porém,
deparamo-nos muitas vezes com lugares onde existe uma enorme árvore caída
atravessando a trilha. Ela surge de repente, e ficamos diante de um terrível
impasse.
Lembro-me
também da alternativa que meu avô me ensinou. Posso desistir e retornar triste
e derrotada - ou posso perseverar, soltar as rédeas e seguir Aquele que conhece
o caminho para contornar qualquer obstáculo. A fé é assim.
E
se mantivermos os olhos abertos? Não perderemos as melhores partes.
A VIDA COMEÇA AOS 80
Frank
C. Laubach
Tenho
boas notícias para você. Os primeiros 80 anos de vida são os mais difíceis. Os
outros 80 são uma série de festas de aniversário.
Quando
você chega aos 80 anos, todos querem carregar sua mala e ajudá-Io a subir
escadas. Se você esquecer seu nome, o nome de outra pessoa, um compromisso, seu
número de telefone ou a promessa de estar em três lugares ao mesmo tempo, ou
ainda não se lembrar de quantos netos você tem, basta explicar que tem 80 anos.
Ter
80 anos é muito melhor que ter 70. Aos 70, as pessoas ficam furiosas com você
por qualquer coisa. Aos 80, você tem a desculpa perfeita para tudo o que fizer.
Se agir tolamente, é sua segunda infância. Todo mundo está à procura de
sintomas de memória fraca. Ter 70 anos não é nada divertido. Nessa idade, todos
esperam que você se isole em uma casa na Flórida e se queixe de artrite (que
eles costumam chamar de lumbago), e você pede que todos parem de resmungar
porque não consegue compreender o que dizem. (Na verdade, a esta altura da
vida, você perdeu 50% de sua audição.) Se você sobreviver até os 80, todos se
surpreenderão por você continuar vivo. Eles vão tratá-lo com respeito, pelo
fato de você ter vivido tanto tempo. Mas a verdade é que eles ficam surpresos
por você caminhar bem e falar com lucidez.
Portanto,
por favor, companheiros, tentem chegar aos 80. É a melhor época da vida. As
pessoas vão perdoá-Ios por tudo. Se vocês me perguntarem, vou dizer que a vida
começa aos 80.
PONTO DE ÔNIBUS
Patsy
Clairmont
Jason,
nosso filho mais novo, tem dois objetivos na vida. Um é divertir-se, e o outro
é descansar. Ele consegue fazer essas duas coisas muito bem. Portanto, eu não
deveria ter-me surpreendido com o que aconteceu quando o despachei para a
escola num dia de outono.
Assim
que Jason saiu para pegar o ônibus, comecei, imediatamente, a me preparar para
um dia agitado. A batida na porta foi uma surpresa e interrompeu o meu ritmo da
manhã, coisa que nunca consigo manter. Corri até a porta, abri-a com força e me
deparei com Jason.
-
O que você está fazendo aqui? - interpelei-o.
-
Abandonei a escola - ele me comunicou ostensivamente.
-
Abandonou a escola? - repeti, sem acreditar, e falando a um decibel acima da
capacidade dos ouvidos humanos.
Engolindo
a raiva, tentei lembrar-me de algumas regras da psicologia materna. Mas tudo o
que vinha à minha mente era "Quem não trabalha não come", "Não
deixe para amanhã o que você pode fazer hoje", ou coisas do gênero. Mas
isso parecia não se aplicar ao dilema de um menino de seis anos. Portanto,
questionei:
-
Por que você abandonou a escola?
Sem
hesitar, ele proclamou:
-
Ela é longa demais, difícil demais, chata demais!
-
Jason - eu retorqui imediatamente -, você acabou de descrever o que é a vida.
Vá para o ponto do ônibus!
TESOUROS NO CÉU
Bob
Welch
Decentemente,
quando nosso pastor proferiu um sermão extraído do Livro de Mateus, baseado no
texto "Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça
e a ferrugem corroem...", não pude deixar de pensar num leilão ao qual
estive presente.
Não
se tratava de um leilão comum. O público podia dar lances por objetos
depositados em cofres de segurança e que foram esquecidos por seus
proprietários. Numa determinada época, eles foram tão importantes que as
pessoas pagaram para guardá-Ios em cofres de aço.
Diplomas,
boletins escolares de crianças, cartas...
Lembro-me
de ter visto desde coleções de moedas, relógios de bolso e joias até documentos
e objetos pequenos, todos acondicionados em sacos plásticos.
Roupas
de escoteiro remendadas, recibos de um hotel em Waikiki, desenho de um
coelhinho feito por uma criança...
Eram
pertences que não foram reclamados, aguardando ser leiloados, bens esquecidos
ou negligenciados por pessoas que já haviam falecido.
Rosários,
cartas, passagens de trem...
Cada
invólucro continha um mistério. As pistas serviam mais para despertar
curiosidade do que para oferecer respostas. Li os documentos de imigração de
Udolf Matschiner, que chegou a Ellis Island em 1906. Teria ele encontrado na
América o que procurava?
Duas
bolinhas de gude, três pedrinhas e uma fivela de cinto...
Para
que serviriam aquelas coisas? Representariam alguma recordação especial, uma
pessoa especial?
Passaportes,
telegramas, recortes de jornal...
Um
artigo amarelado, de um jornal de 1959, publicado na cidade de Los Angeles,
estampava a seguinte manchete: "Mãe de Vlahovich Chora pela Condenação do
Filho." Seu filho havia sido condenado por assassinato. A mãe chorou,
implorando ao juiz que poupasse a vida de seu filho. "Levem-me no lugar
dele! ", ela gritava. "Matem-me!" O que teria acontecido? Será
que ela viu o filho ser morto na cadeira elétrica de San Quentin?
Filmes
sem terem sido revelados, certidões de nascimento, certidões de casamento...
Assuntos
particulares da vida misturados a assuntos de domínio público da vida - um
chumaço de cabelos loiros, uma prova de matemática de uma criança e um poema
intitulado "O Sótão de Vovó", datilografado em uma máquina de
escrever que tinha a letra e manchada com a tinta da fita.
Hoje,
quando entrei no sótão da vovó, Dentro de um velho baú, bem dobrado, Eu vi um
vestido cinza esvoaçante Com largas anquinhas de brocado cor-de-rosa E uma tira
em alto-relevo dos dois lados Escondido bem no fundo daquele baú.
Encontrei
um xale de seda muito lindo, Chinelos prateados, um ventilador da França, E
também um pomposo convite para uma dança. Uma frase escrita de atravessado no
programa Dizia: "Agatha querida, posso dançar com você?"
Era
como se nós, que participávamos do leilão, tivéssemos recebido permissão para
entrar em centenas de sótãos da vovó, sótãos de pessoas desconhecidas.
Diários,
fotografias, marcas do pezinho de um recém-nascido...
Quando
a morte chega, a maioria dos objetos diz muito sobre a vida. Eles também
sugerem uma sensação de realização, uma constatação de que a vida na terra
terminou, que não podemos levar nada conosco.
E
o que nós vamos deixar para trás?
Um
cofre de 15 x 30cm cheio de recordações diz muito sobre as coisas que
valorizamos. Mas é apenas um pequeno detalhe quando comparado ao que fizemos ao
longo da vida.
Em
nosso mundo, onde só aquele que morre rico é considerado vitorioso, talvez
devêssemos deixar para trás...
Um
investimento naquilo que Deus tanto preza - as outras pessoas.
Uma
vida guiada não pelos ventos caprichosos de nossa cultura, mas guiada pelas
firmes promessas de Cristo.
E
um exemplo para nossos filhos, para que sejam tudo aquilo que Deus planejou
para eles.
"Não
acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem
corroem e onde ladrões escavam e roubam", concluiu nosso pastor naquela
manhã de domingo, "porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu
coração".
Ah,
o céu! O derradeiro cofre de segurança.
ESCONDE-ESCONDE
Brennan
Manning
Certo
dia, Yehiel, neto do rabino Barukh, estava brincando de esconde-esconde com
outro menino. Ele se escondeu e aguardou que seu companheiro o achasse. Depois
de 20 minutos, ele espiou de seu lugar secreto, não viu ninguém e voltou a
esconder a cabeça. Após esperar por um longo tempo, ele saiu do esconderijo,
mas não avistou o outro menino. Foi, então, que Yehiel se deu conta de que seu
companheiro não havia procurado por ele desde o início. Chorando, ele correu
para os braços do avô e se queixou da deslealdade do amigo. Lágrimas brotaram
nos olhos do rabino Barukh quando ele se deu conta de que Deus diz a mesma
coisa:
-
Ninguém quer me procurar!
ACENDEDOR DE LAMPIÕES
Marilyn
McAuley
Quando
era moço, o acendedor de lampiões levava uma vida difícil, instável. Alguns
anos depois de ele se tornar cristão, um amigo passou a ridicularizá-Io por seu
novo estilo de vida. O acendedor de lampiões lhe disse, certo dia:
-
Existe apenas uma explicação que eu posso dar: quando sigo pela rua apagando os
lampiões, olho para trás e vejo tudo escuro. É assim que eu era antes de
conhecer Cristo. Porém, quando continuo a seguir pela rua, os lampiões adiante
de mim iluminam meu caminho.
É
assim a vida com Cristo.
O
ex-amigo perguntou:
-
E depois que você apaga todos os lampiões?
O
acendedor de lampiões respondeu:
-
O dia já está clareando.
GRITOS SUAVES
Ruth
Bell Graham
A
gata teve seus filhotes na cama baixa de rodinhas, que ficava fino quarto de
hóspedes, no pavimento inferior.
Achamos
que os gatinhos não deveriam permanecer ali. Assim nós os colocamos dentro de
uma caixa forrada com alguns panos velhos e os deixamos perto do fogão a lenha
até encontrarmos um lugar mais apropriado para eles.
A
gata, porém, tinha outros planos. Observamos, achando graça, quando ela entrou
mansamente na cozinha, apoiou-se nas patas traseiras e colocou as dianteiras na
beira da caixa, cheirando seus filhotes. Com sua habilidade natural, ela se
debruçou sobre a caixa, pegou um gatinho pela nuca e o levou de volta ao lugar
onde antes eles estavam.
O
processo foi repetido até sobrar apenas um na caixa, o mais raquítico.
Ela
não retomou. Devia estar exausta de tanto esforço ou brincando com os outros
gatinhos.
Ficamos
à espera.
Finalmente,
a criaturinha no fundo da caixa deu um miado tão baixo que mais parecia um
chiado, quase impossível de ser ouvido.
Imediatamente,
e em completo silêncio, a gata apareceu, pegou o filhote pequenino pela nuca e
o levou de volta ao quarto de hóspedes.
Três
portas, dois quartos e dois corredores. Mesmo assim, ela OUVIU.
A
cadela dinamarquesa teve seus primeiros filhotes (dois, para ser exata) debaixo
de um arbusto do lado de fora da janela da cozinha. Depois de
"pensar" um pouco, ela pegou o maior e o carregou até a casinha de
cachorro (que ficava do outro lado da casa). Mas, por ser irresponsável,
esqueceu de buscar o segundo.
Após
algum tempo, o filhote número dois começou a ficar com fome e soltou uma
espécie de gemido, quase inaudível, como fazem os cães recém-nascidos.
Antes
de ver a mãe, eu a ouvi chegando tão rápido como o ribombar de um trovão. Ela
parou perto do filhote deixado para trás, pegou-o pelo pescoço e o levou para
junto do outro.
Em
ambos os casos, os gritos foram muito fracos...
Nossas
orações também não precisam ser proferidas em altos gritos de pedidos de
socorro.
De
acordo com a Bíblia, Deus responde aos nossos suspiros, às nossas lágrimas, aos
nossos murmúrios. Até mesmo os nossos anseios podem ser interpretados como
oração.
HERÓI ESPIRITUAL
James
Dobson
Ele
era um humilde pastor negro da Igreja Batista de uma cidadezinha do interior.
Tinha perto de 70 anos e foi ministro do evangelho ao longo de toda a sua vida,
depois de se tornar adulto.
Seu
amor pelo Senhor era tão profundo que se refletia em tudo o que ele dizia.
Quando o pastor e sua esposa foram informados de que ele tinha apenas alguns
meses de vida, nenhum dos dois demonstrou pânico. Apenas pediram algumas
explicações ao médico.
Depois
de tomarem conhecimento do processo de tratamento e de suas consequências, eles
agradeceram ao médico e partiram. A equipe de filmagem acompanhou o casal até o
velho carro e viu de longe quando eles curvaram a cabeça e renovaram seu
compromisso com o Senhor.
Nos
meses subsequentes, o pastor nunca perdeu o equilíbrio. Nem falou muito sobre
sua doença. Ele sabia que o Senhor estava no controle e não permitiria que nada
abalasse sua fé.
As
câmeras estavam presentes em seu último domingo na igreja.
Ele
pregou o sermão da manhã e falou com franqueza sobre sua morte iminente. Pelo
que me lembro, ele disse o seguinte:
"Alguns
de vocês me perguntaram se fiquei zangado com Deus por causa desta enfermidade
que tomou conta de meu corpo. Digo-Ihes, honestamente, que em meu coração não
existe ressentimento algum, apenas amor pelo meu Deus. Ele não me enviou esta
doença.
Vivemos
num mundo pecaminoso, onde a enfermidade e a morte são maldições que o homem
trouxe para si mesmo. E estou indo para um lugar melhor, onde não haverá mais
lágrimas, nem sofrimento, nem angústia. Portanto, não sintam pena de mim.
"Além
do mais", ele prosseguiu, "nosso Senhor sofreu e morreu por nossos
pecados. Por que eu não deveria tomar parte em seus sofrimentos? " Em
seguida, o pastor começou a cantar um hino, sem acompanhamento, com voz cansada
e embargada.
Chorei
enquanto aquele meigo homem cantava seu amor por Jesus.
Ele
parecia estar muito fraco, e seu rosto estampava as devastações da doença.
Porém, seus comentários foram os mais poderosos que já ouvi. Pelo que sei, suas
palavras naquela manhã foram as últimas proferidas no púlpito. Ele foi morar na
eternidade alguns dias depois, onde se encontrou com o Senhor, a quem servira
durante toda a sua vida. Aquele pastor anônimo e sua esposa ocupam lugar de
destaque entre meus heróis espirituais.
NAVEGANDO À DERIVA
Tony
Evans
Conta-se
a história de um menino que estava brincando com seu barquinho no lago. De repente,
o barquinho se afastou dele. Um homem, que estava por perto, viu a cena e
começou a atirar pedras na água, adiante do barquinho. O menino perguntou:
-
O que você está fazendo?
De
repente, algo muito interessante aconteceu. Quando as pedras bateram na água,
produziram ondas que empurraram o barquinho de volta ao menino. Embora as
pedras tivessem agitado a água tranquila do lago, elas alcançaram o efeito
desejado.
É
assim que Deus procede, às vezes. Quando nos afastamos de sua presença, Ele
atira pedras adiante de nós para nos forçar a retomar à praia de seu amor.
APENAS VISLUMBRES
Alice
Gray
Laurel
sabia que estava morrendo, Durante algumas semanas conversamos frequentemente
sobre o céu - como ele era e como seria morar lá. Quase sempre terminávamos a
conversa chorando e trocando meigos abraços de esperança.
A
parte mais difícil era imaginar algo que nunca víramos, algo sobre aquilo de
que sabíamos muito pouco.
Foi,
então, que me lembrei desta história:
Uma
jovem de cabelos loiros e olhos azuis nasceu cega. Quando tinha 12 anos, os
médicos realizaram um novo tipo de cirurgia em seus olhos que, se fosse
bem-sucedida, lhe daria a possibilidade de enxergar. O resultado só seria
conhecido alguns dias após a cirurgia.
Depois
que as ataduras foram retiradas, os olhos daquela jovem precisaram ficar
protegidos da luz. Ela aguardou o resultado no escuro.
A
mãe passou longas horas respondendo às perguntas da filha sobre como eram tais
e tais coisas e o que ela enxergaria. Ambas estavam tão empolgadas diante das
possibilidades de êxito que quase não conseguiam dormir. O tempo todo, mesmo no
escuro, elas conversavam sobre coisas bonitas - cores, formatos, beleza de
todos os tipos.
Finalmente,
chegou o momento em que os olhos da moça já tinham condição de suportar a luz
que vinha de fora. Ela se sentou perto da janela por um longo tempo sem dizer
nada. Lá fora, o dia de primavera era ideal - brilhante e cálido, com nuvens
brancas e fofas decorando o céu azul. As flores que a brisa leve derrubava das
cerejeiras cobriam o chão, dando a ideia de uma camada de neve cor-de-rosa.
Açafrões amarelos enfeitavam orgulhosamente as laterais do caminho de tijolos
que serpenteava no meio do gramado.
Quando
a moça olhou para a mãe, lágrimas corriam por seu rosto.
-
Oh, mamãe. Por que você não me disse que era tão lindo assim?
Contei
esta história a minha amiga, com os olhos lacrimejantes. - Laurel, neste
instante estamos sentadas no escuro, mas daqui a pouco você estará fazendo esta
mesma pergunta a Deus.
UMA VISÃO DO PERDÃO
Gigi Tchividjian
Você
já sentiu a necessidade de ser perdoado... ou, talvez, de perdoar?
Conheço
muitas pessoas que ficam estagnadas no presente por estarem ligadas a alguma
coisa do passado. Ou não são capazes de perdoar, ou não aceitam o fato de terem
sido, realmente perdoadas.
-
Certa vez, ouvi a história (ou melhor, a lenda) de um padre, de uma pequena
paróquia do Meio-oeste dos Estados Unidos, que havia cometido um pecado na
juventude e, segundo ele, um pecado terrível. Apesar de ter pedido perdão a
Deus, ele passou a vida toda carregando o peso daquele pecado. Não sabia ao
certo se Deus o perdoara.
Certo
dia, ele ouviu falar de urna senhora idosa de sua paróquia que costumava ter
visões. Contaram-lhe que, durante essas visões, ela conversava com Deus. Depois
de algum tempo, o padre reuniu coragem suficiente para visitar aquela senhora.
Ela
o convidou a entrar e lhe ofereceu urna xícara de chá. Quando a visita estava
chegando ao fim, ele pousou a xícara na mesa e fitou a mulher nos olhos.
-
É verdade que a senhora costuma ter visões? - ele perguntou.
-
E ela respondeu. - É verdade também que... durante essas visões... a senhora
conversa com Deus?
-
Sim - ela tornou a responder.
-
Bem... da próxima vez que a senhora tiver uma visão e conversar com Deus,
poderia fazer-lhe uma pergunta?
A
mulher olhou para o padre com ar de curiosidade. Ninguém antes lhe pedira nada
parecido com isso.
-
Sim, com muito prazer - ela respondeu. - O que o senhor gostaria que eu
perguntasse?
-
Bem - o padre começou a dizer -, a senhora poderia perguntar-lhe qual foi o
pecado que este padre de sua paróquia cometeu quando tem?
Agora,
visivelmente curiosa, a mulher concordou prontamente.
Depois
de algumas semanas, o padre voltou a visitar aquela mulher.
Depois
de outra xícara de chá, ele perguntou com cautela e timidez:
-
A senhora teve alguma visão recentemente?
-
Sim, tive - ela respondeu.
-
A senhora conversou com Deus?
-
Conversei.
-
Perguntou a Ele qual foi o pecado que cometi quando era jovem?
-
Sim, perguntei.
O
padre, nervoso e demonstrando certo temor, hesitou por um momento antes de
perguntar:
-
E o que Ele disse?
A
mulher olhou para o rosto do padre e respondeu tranquilamente:
-
Ele me disse que não se lembra.
Deus
não apenas perdoa os nossos pecados; Ele os esquece. A Bíblia diz que Deus leva
os pecados consigo e os enterra no fundo do mar. E, conforme Corrie ten Boom
costumava dizer, "Ele coloca uma tabuleta ali com os seguintes dizeres: 'É
proibido pescar'."
PARDAIS ASSUSTADOS
Recontada
por Alice Gray
O
vento começava a ganhar velocidade naquela manhã fria de dezembro, enquanto
Tommy, um menino de nove anos, e seu pai subiam o morro a pé, em direção à
cabana do velho Sr.
Sweeney.
Tommy sentiu o cheiro da fumaça da chaminé e sabia que estavam chegando. Ele
puxou o gorro de tricô para cobrir as orelhas, imaginando como seria a cabana
de um ermitão. Os amigos de Tommy gostavam de falar sobre aquele homem
excêntrico e comentavam, em voz baixa, o comportamento estranho que ele passou
a ter depois que sua esposa morreu. Menos de um mês após o sepultamento dela, o
Sr. Sweeney vendeu sua casa na cidade e foi morar no mato, retornando apenas
duas vezes por ano para comprar mantimentos.
Quando
pai e filho fizeram a última curva, avistaram o Sr. Sweeney na varanda olhando
na direção deles, como se estivesse aguardando companhia. Tommy surpreendeu-se
ao ver que, embora a pequena cabana e o celeiro necessitassem de pintura,
estavam em ordem e muito bem cuidados.
Tommy
sentia-se orgulhoso por estar na companhia do pai. E, quando foi apresentado ao
Sr. Sweeney, apertou-lhe com firmeza a mão. Seu pai entregou ao homem uma cesta
com bolinhos e geleia feitos em casa, conversou sobre a súbita mudança no tempo
e convidou o Sr. Sweeney a ir à igreja na véspera do Natal. Os olhos cansados
do velho anuviaram-se, e ele movimentou a cabeça negativamente. Sua voz estava
um pouco mais áspera quando ele disse que não comemorava o Natal desde a morte
da esposa. Além do mais, ele não via nenhum motivo para Deus ter vindo à terra
como homem. Agradeceu a visita e disse que seria melhor que eles se apressassem
para ir embora antes da tempestade.
Naquela
tarde, o frio aumentou e o vento soprou com mais força. O Sr. Sweeney estava
sozinho na cabana quando um barulho estranho o alertou. Ao olhar para fora, ele
viu um bando de pardais batendo na vidraça, tentando entrar na casa para fugir
da tempestade. Sabendo que os passarinhos morreriam se não encontrassem um
abrigo, o velho ermitão vestiu sua jaqueta de caça e saiu em direção ao
celeiro. Abriu a porta e acendeu a luz, na esperança de que os pardais
entrassem ali.
Ao
ver que eles não entravam, ele atirou um pouco de fubá perto da porta para
atraí-los, mas os passarinhos se dispersaram.
Flocos
de neve caíam ao redor do celeiro. O Sr. Sweeney escondeu-se agachado do lado
de fora, aguardando que os pardais entrassem. Nada do que ele fez foi capaz de
atrair os passarinhos para dentro do celeiro. Eles estavam atemorizados e não
entendiam que alguém queria ajudá-Ios. Exausto e profundamente desapontado, o
Sr. Sweeney pensou: Se eu pudesse ser um pardal eles não teriam medo de mim. Eu
poderia explicar que não quero prejudica-los. Só quero protegê-los da
tempestade.
De
repente, o Sr. Sweeney lembrou-se das palavras que sua esposa havia proferido:
"Deus veio à terra como homem porque não havia outro meio de nos provar
quanto Ele nos ama." Lágrimas correram pelo rosto daquele homem enquanto
observava os pardais do lado de fora do celeiro.
Naquela
noite, Tommy continuou a pensar no homem idoso, imaginando como seria passar
uma noite de tempestade sozinho na cabana no alto do morro. O menino perguntou ao
pai se eles poderiam voltar a visitar o Sr. Sweeney na manhã seguinte.
Talvez
ele tivesse mudado de ideia a respeito do Natal. O pai sorriu e disse:
-
Claro.
Tommy
foi dormir e puxou o cobertor para perto do queixo. Pediu a Deus que enviasse
um milagre para ajudar o Sr. Sweeney ir à igreja com sua família na véspera do
Natal.
Tommy
não sabia que seu Pai amoroso já havia respondido àquela oração.
CALMA NA TEMPESTADE
Ron
Mehl
Uma
mulher, que foi surpreendida por uma tempestade ameaçadora no meio do Oceano
Atlântico, passou o tempo todo lendo histórias da Bíblia para evitar que as
crianças pequenas, que estavam a bordo, se assustassem. Depois que o navio
chegou a salvo ao porto, o capitão, que observara o comportamento daquela
mulher durante a tempestade, aproximou-se dela e perguntou:
-
Como a senhora foi capaz de manter a calma quando todos temiam que o navio
naufragasse por causa da tempestade?
Quando
a mulher ergueu a cabeça, ele viu a mesma tranquilidade em seus olhos, a mesma
paz que ela mantivera durante toda a viagem. - Eu tenho duas filhas - explicou
a mulher cristã. - Uma mora em Nova York. A outra mora no céu. Eu sabia que, em
questão de horas, estaria vendo uma de minhas filhas. E, para mim, não
importava qual delas seria.
UMA PARÁBOLA DA PERSPECTIVA DE DEUS
Casandra
Lindell
Do
céu, Bert examinou o desenrolar do tempo e viu as atrocidades levadas a efeito
pelo ser humano. Absolutamente consternado, ele apontou para uma cena
inenarrável e perguntou a Deus:
-
Como podes permitir aquilo? Olha o que o demônio está aprontando lá embaixo!
-
Não há ninguém melhor que o demônio para criar uma tragédia como aquela! -
disse Deus.
-
Mas, Senhor, aquele homem faz parte de teu povo... oh, aquele pobre homem!
-
Eu dei aos homens a liberdade de escolherem entre o bem e o mal - disse Deus,
com o semblante triste. - Independentemente da escolha, todos eles vivem
juntos. Às vezes, os que escolheram seguir meu caminho são pressionados pelos
que escolheram o outro caminho. - Deus sacudiu lentamente a cabeça. - É sempre
muito doloroso quando isso acontece.
-
Mas aquelas pessoas que estão ali não têm escolha - protestou Bert. - Elas
estão sendo sufocadas pela desgraça! Isto não é opção!
-
Bert - disse Deus pacientemente -, você já me viu deixar de premiar o
sofrimento?
-
Não... não, mas... - Bert desviou o olhar da cena, incapaz de suportar.
-
Veja! - Deus passou o braço ao redor dos ombros curvados de Bert e o fez olhar
novamente para baixo. - Olhe bem ali, perto da parede.
-
Aquele? Ele parece quase morto. Está orando?
-
Ah, Bert, você deveria ouvir as orações dele! - Um amor intenso brilhou nos
olhos de Deus como se fosse o clarão de um relâmpago.
-
Orações simples, partindo de um coração angustiado. Este é o triunfo sobre o
mal. A confiança em mim... esta foi a escolha. - Deus sorriu em meio a lágrimas
brilhantes de amor. - Ele não é magnífico?
Eles
permaneceram em silêncio, e Bert começou a ver o que Deus Via.
-
Agora preste atenção, Bert - disse Deus meigamente, sem desviar.
os
olhos da cena.
Ele
chamou Miguel, e o arcanjo apareceu.
-
Desça e traga-o para cá, Miguel. - Lágrimas de alegria divina foram derramadas.
- Vou providenciar a festa.
FAZENDO ACERTOS
Ron
Mehl
Um
velho capitão do mar, chamado Eleazar Hall, morava em Bedford, Massachusetts,
durante a época das grandes embarcações movidas a vela. Ele era famoso,
admirado e respeitado como o capitão mais bem-sucedido da época. Trabalhava
muito e viajava por longos períodos. Foi o capitão que perdeu o menor número de
homens e pescou mais peixes do que qualquer outro.
Sempre
perguntavam ao capitão Hall sobre sua fantástica habilidade de viajar tanto
tempo sem nenhum instrumento de navegação. Certa vez, ele partiu numa viagem de
dois anos, sem voltar para casa, que era seu ponto de referência.
Eleazar
respondia simplesmente:
-
Ah! eu subo ao convés e presto atenção ao vento e aos cabos e cordas da embarcação.
Sinto a direção da água, olho para as estrelas e estabeleço minha rota.
Bem,
os tempos mudaram em Bedford. Grandes empresas seguradoras lá se instalaram, e
seus proprietários disseram que não fariam seguro de navios se os capitães não
tivessem um navegador a bordo devidamente treinado e autorizado. As pessoas
temiam dar essa notícia a Eleazar. Mas, para surpresa de todos, ele disse:
-
Se eu for obrigado, farei os cursos de navegação que forem necessários.
Eleazar
diplomou-se com louvor e, por sentir muitas saudades do mar, partiu
imediatamente numa longa viagem. No dia de sua volta, a cidade inteira lhe fez
esta pergunta:
-
Eleazar, o que você achou de navegar com todos aqueles mapas e cálculos?
Eleazar
endireitou o corpo e deu um longo suspiro.
-
Ah! - ele respondeu -, foi simples. Sempre que eu queria saber a posição do
navio, ia até minha cabina, pegava os mapas e as tabelas, fazia cálculos e
estabelecia minha rota de viagem com precisão científica. Depois, eu subia ao
convés e prestava atenção ao vento e aos cabos e cordas da embarcação, sentia a
direção da água, olhava para as estrelas e corrigia os erros que tinha cometido
ao fazer os cálculos.
Quando
ouvi esta história, eu orei: Senhor, quero conhecer-te desta maneira. Quero
subir ao convés, prestar a atenção à tua manda voz em meu coração, refletir
sobre tua Palavra eterna e, depois, fazer acertos em todos aqueles planos
maravilhosos, lógicos e científicos que tracei para mim.
O TRAPEIRO
Walter
J. Wangerin
Vi
uma cena estranha. Deparei-me com uma história mais estranha ainda. Algo que
minha vida, minhas andanças pelas ruas e minha língua ferina não me prepararam
para enfrentar.
Silêncio,
criança. Silêncio. Eu vou contá-la para você.
Amanhã
de sexta-feira ainda não havia clareado quando avistei um moço bonito e forte,
caminhando pelas vielas da parte baixa de nossa cidade. Ele empurrava um velho
carrinho, cheio de roupas novas e coloridas, e gritava com voz clara de tenor:
-
Trapos!
Ah!
o ar poluído e os primeiros raios de luz empoeirados não combinavam com aquela
voz melodiosa.
-
Trapos! Troco trapos velhos por novos! Levo embora seus trapos!
Trapos!
Que
maravilha!, pensei. O moço tinha dois metros de altura. Seus braços fortes e
musculosos faziam lembrar dois galhos de árvores. De seus olhos faiscava
inteligência. Será que ele não teria um trabalho melhor para fazer do que
vender trapos numa cidade do interior?
Resolvi
segui-Ia. Fui levado pela curiosidade. E não me decepcionei.
Logo
depois, o trapeiro avistou uma mulher sentada na varanda dos fundos de sua
casa. Ela chorava com um lenço no rosto, suspirando e derramando lágrimas em
profusão. Seus joelhos e cotovelos formavam um triste X. Os ombros tremiam. Seu
coração estava despedaçado.
O
trapeiro parou de empurrar o carrinho. Sem dizer nada, ele caminhou até a
mulher, contornando latas, brinquedos velhos e fraldas.
-
Dê-me seu trapo - ele disse gentilmente. - Vou trocá-Io por outro.
O
moço pegou o lenço da mulher. Ela ergueu a cabeça, e ele lhe entregou um pano
de linho que brilhava de tão limpo e novo. A mulher olhou para o presente e,
depois, para o moço, piscando sem entender nada.
Em
seguida, quando voltou a empurrar o carrinho, o Trapeiro fez uma coisa
estranha: cobriu o rosto com o lenço da mulher manchado de lágrimas e começou a
chorar. O choro era tão triste quanto o dela.
Seus
ombros tremiam. A mulher havia parado de chorar.
Que
maravilha!, pensei.
Segui
o Trapeiro como se eu fosse uma criança querendo desvendar um mistério.
-
Trapos! Trapos! Troco trapos velhos por novos!
Pouco
tempo depois, quando o céu começou a ficar acinzentado por trás dos telhados e
eu consegui enxergar as tiras de cortinas penduradas nas janelas escuras, o
Trapeiro encontrou uma menina com a cabeça enfaixada e olhar inexpressivo. As
ataduras empapadas de sangue deixavam escapar um filete vermelho que lhe
escorria pelo rosto.
O
Trapeiro olhou para aquela criança com piedade e tirou um lindo boné amarelo de
seu carrinho.
-
Dê-me seu trapo - ele disse, passando o dedo no rosto dela. - Vou trocá-lo pelo
meu.
A
menina limitou-se a olhar para o moço enquanto ele desenrolava as ataduras e as
amarrava na própria cabeça. O boné foi colocado na cabeça dela. E eu prendi o
fôlego diante do que vi: o ferimento saiu grudado nas ataduras! Da testa do
moço corria um filete de sangue mais escuro, mais grosso - o sangue dele!
-
Trapos! Trapos! Aceito trapos! - gritava o Trapeiro forte e inteligente,
chorando e sangrando.
A
claridade do sol ofuscou o céu e, agora, ofuscava meus olhos; o Trapeiro
parecia estar com muita pressa.
-
Você vai trabalhar? - ele perguntou a um homem encostado a um poste de
telefone. O homem balançou a cabeça negativamente.
O
Trapeiro insistiu:
-
Você tem um emprego?
-
Você é louco? - esbravejou o homem.
Ao
afastar-se do poste, ele deixou à mostra a manga direita de sua jaqueta -
solta, com o punho enfiado no bolso. Ele não tinha um braço.
-
Dê-me sua jaqueta - disse o Trapeiro. - Vou trocá-Ia pela minha.
Apesar
de suave, que autoridade tinha sua voz!
O
homem de um braço só tirou a jaqueta. O Trapeiro fez o mesmo - e eu tremi
diante do que vi: o braço do Trapeiro saiu com a manga da jaqueta e, quando o
homem a vestiu, tinha dois braços perfeitos, fortes como galhos de árvores; mas
o Trapeiro tinha só um.
-
Vá trabalhar - ele disse.
Depois
disso, ele encontrou um bêbado, deitado inconsciente debaixo de um cobertor do
exército - um velho, curvado, magro e doente. O Trapeiro pegou o cobertor e o
enrolou em torno de si, deixando cobertores novos para o bêbado.
Agora
eu tinha de correr para acompanhar os passos rápidos do Trapeiro. Embora
estivesse chorando incontrolavelmente, sangrando na testa, puxando o carrinho
com um só braço, tropeçando, caindo várias vezes, exausto, velho, muito velho e
doente, ele caminhava com uma velocidade incrível. Com passos rápidos e largos,
ele atravessou rapidamente as vielas, quilômetro após quilômetro, até chegar ao
limite da parte baixa da cidade. Em seguida, caminhou mais apressado ainda.
Chorei
ao ver a mudança ocorrida naquele moço. Chorei ao ver sua tristeza. Mesmo
assim, eu precisava ver para onde ele estava indo com tanta pressa, talvez para
saber o que o levava a fazer isso.
O
Trapeiro, agora velho e pequenino, chegou a um aterro sanitário.
Ele
chegou perto dos fossos de lixo. Eu queria ajudá-Io no que ele fazia, mas
permaneci afastado, escondido. Ele escalou um morro.
Com
muito trabalho, limpou um pequeno espaço no alto do morro. Em seguida, deu um
longo suspiro. Deitou-se. Fez uma espécie de travesseiro com um lenço e uma
jaqueta e pousou a cabeça ali. Cobriu o corpo esquelético com um cobertor do
exército. E morreu.
Ah,
como chorei ao presenciar aquela morte! Mudei dentro de um carro transformado
em ferro-velho e chorei como alguém que não tinha mais esperanças - porque eu
passara a amar o Trapeiro. Todos os outros rostos haviam-se misturado ao rosto
maravilhoso daquele moço, e eu o amava muito; mas ele morreu. Chorei até
adormecer.
E
eu não sabia - e como poderia saber? - que dormi a noite inteira de
sexta-feira, e continuei dormindo durante o dia e a noite de sábado.
De
repente, na manhã de domingo, fui despertado abruptamente.
Uma
luz - pura, forte, insistente - bateu em meu rosto amargurado, e eu pisquei,
olhei e vi a última e a primeira maravilha. Lá estava o Trapeiro, dobrando o
cobertor com muito cuidado, com uma cicatriz na testa, mas vivo! E. além de
vivo, cheio de saúde! Não havia sinais de tristeza nem de idade em seu rosto, e
todos os trapos que ele recolhera brilhavam de tão limpos.
Abaixei
a cabeça e, tremendo diante de tudo o que presenciara, caminhei até o Trapeiro.
Eu lhe disse qual era o meu nome, envergonhado demais porque, ao lado dele, eu
não passava de uma triste segura. Em seguida. tirei as minhas roupas e lhe
disse com voz de súplica:
-
Vista-me.
Ele
me vestiu. Meu Senhor, Ele me vestiu com trapos novos, e fiquei maravilhoso ao
lado dele. Ao lado do Trapeiro, do Trapeiro, do Cristo!
OS SINOS ESTÃO TOCANDO
James
Dobson
Gracie
Schaeffler, urna enfermeira com quem trabalhei, cuidou de um menino de cinco
anos, durante seus últimos dias de vida. Ele estava morrendo de câncer no
pulmão...
A
mãe do menino era cristã e o amava muito. Ela permaneceu ao lado do filho
durante o longo sofrimento. Embalava-o no colo e conversava com ele a respeito
de Deus. Instintivamente, aquela mulher estava preparando o filho para o
momento final. Gracie contou-me que, ao entrar no quarto quando a morte estava
se aproximando, viu o menino falar que ouvia sinos tocando.
-
Os sinos estão tocando, mamãe - ele disse. - Eu posso ouvi-los.
Gracie
pensou tratar-se de urna alucinação, porque ele já estava agonizando. Ela saiu
do quarto e retomou minutos depois. Novamente, ele falava que estava ouvindo
sinos tocando.
A
enfermeira disse à mãe do menino:
-
A senhora deve saber que seu filho está ouvindo coisas que não existem. Ele
está tendo alucinações por causa da doença.
A
mãe puxou o filho para perto de si, sorriu e disse:
-
Não, Sra. Schaeffler. Ele não está tendo alucinações. Eu lhe disse que quando
se sentisse assustado, sem conseguir respirar, deveria prestar atenção para
ouvir os sinos do céu tocando para ele. É por isso que ele está falando o dia
inteiro de sinos tocando.
A
preciosa criança morreu no colo da mãe naquela noite, e ainda estava falando
dos sinos do céu quando os anjos vieram buscá-la...
O PRESENTE
Gary Swanson
Histórias Para o Coração 3 15
Na sala de espera do consultório médico, a mãe,
sentada em uma poltrona, uma imitação de couro, cutucava as unhas
apreensivamente. Com o cenho franzido, observava seu filho, Kenny, de cinco
anos, no tapete à sua frente.
Ele é pequeno e magrinho demais para sua idade,
pensou ela. O cabelo liso do garoto. louro e macio, chegava até a altura da
orelha. A cabeça estava envolta em gaze branca, que cobria seus olhos e
apertava as orelhas.
O garoto balançava no colo um ursinho de
pelúcia: o orgulho da vida desse menino, embora estivesse bem usado e já lhe
faltassem um braço e um olho. A mãe já tentara se desfazer do ursinho duas
vezes, propondo trocá-lo por um novo, mas como o garoto fazia espalhafato,
acabou cedendo. Ela inclinou a cabeça um pouco e sorriu para ele.
Na verdade - suspirou ela - isso é tudo o que
ele tem.
A enfermeira apareceu à porta e chamou:
"Kenny Ellis". A jovem mãe pegou o garoto e seguiu a enfermeira até o
consultório. O corredor cheirava a álcool e a ataduras. Desenhos de crianças
revestiam as paredes.
- O médico estará aqui com vocês logo mais. Por
favor, sentem-se - disse a enfermeira com um sorriso experiente.
A mãe colocou o garoto sobre a maca em que
seria examinado e lhe disse gentilmente:
- Cuidado para não cair, meu docinho!
- Mãe, esta cama é muito alta?
- Não, meu querido, mas tenha cuidado!
a garoto abraçou seu ursinho ainda mais:
- Também não quero que o Cara-de-bravo caia no
chão.
A mãe sorriu, mas esse sorriso transformou-se
em uma expressão que traduzia sua preocupação. Ela arrumou o cabelo do garoto
que caía sobre a face e acariciou, com o dorso de sua mão, a bochecha dele,
macia e aveludada. Quando a música de fundo, ininterrupta, começou a tocar uma
versão lúgubre de Noite silenciosa,
ela relembrou o acidente pela milésima vez.
Ela sempre usara as bocas de trás do fogão, mas
ali estava a água, na boca dianteira, fervendo para o mingau de aveia.
a telefone tocou, e ela foi à sala para
atendê-lo. Era mais uma dessas ofertas para receber algo "inteiramente
grátis", mas que na verdade era muito caro. No momento em que desligou o
telefone, Kenny gritou na cozinha: um grito estarrecedor de dor, que a
sobressaltou e fez o seu sangue de mãe gelar nas velas.
Relembrar isso a fez estremecer novamente, e
ela limpou uma lágrima que descia sobre sua face. Havia seis semanas que
esperavam por esse momento.
- Só poderemos retirar o curativo uma semana
antes do Natal - dissera o médico.
A porta do consultório abriu e o Dr. Harris
entrou. Bem animado, disse:
- Bom dia, Sra. Ellis! Como vai?
- Bem, obrigada! - retrucou, embora estivesse
muito apreensiva para sustentar qualquer tipo de conversa.
O Dr. Harris inclinou-se sobre a pia e lavou
demoradamente as mãos. Ele era bem cuidadoso com os pacientes, mas muito
desleixado consigo mesmo. Quase nunca conseguia ter tempo para cortar o cabelo,
liso e negro, que cobria o colarinho de sua camisa. A gravata, afrouxada,
permitia que o colarinho ficasse aberto.
- Bem - disse ele, enquanto sentava em um
banquinho vamos dar uma olhada nisto aqui!
Ele cortou suavemente a gaze e a desenrolou com
cuidado.
a curativo foi retirado, mas ainda restavam
dois pedaços de gaze, presos com esparadrapo, que cobriam os olhos de Kenny.
a Dr. Harris levantou bem devagar a borda do
esparadrapo, procurando não ferir o garoto, pois a pele, nessa região, estava
muito sensível.
Kenny abriu os olhos bem devagar, piscou
diversas vezes, como se a luz repentina o tivesse ferido. A seguir, olhou para
sua mãe e sorriu:
- ai, mamãe! - disse ele.
A mãe, sem fala e soluçando, envolveu Kenny em
seus braços.
Não conseguiu dizer nada por algum tempo, pois
abraçava o garoto e chorava de gratidão. Por fim, dirigiu-se ao Dr. Harris, com
os olhos rasos de água, e disse:
- Não sei como poderemos pagar o senhor!
- Já discutimos este assunto antes! - retrucou
o médico com um balançar de mãos. - Sei como as coisas são difíceis para a
senhora e o Kenny. Fico feliz por tê-los ajudado!
A mãe enxugou as lágrimas com um velho lenço,
ficou em pé e segurou Kenny pela mão. No entanto, enquanto dirigia-se li porta,
Kenny se desvencilhou dela e ficou olhando, cheio de dúvidas, para o médico. A
seguir, levantou o ursinho pelo único braço que possuía e o entregou ao médico.
- Fique com o meu Cara-de-bravo, pois ele deve
valer muita grana.
O Dr. Harris, sensibilizado, pegou o ursinho e
agradeceu:
- Muito obrigado! Isso certamente vale muito
mais do que eu cobraria pelo tratamento.
Os dias que antecederam esse Natal foram
especialmente agradáveis para Kenny e sua mãe. A noite, sentavam-se por longas
horas para observar as luzes da árvore de Natal que piscavam sem parar. Kenny,
após seis semanas em que tivera os olhos cobertos por aquele curativo, relutava
em fechá-los para dormir. O fogo crepitando na lareira, a neve grudada no vidro
da janela de seu quarto, embaixo da árvore dois únicos pacotes de presentes,
enfim todas as cores e luzes do Natal o deixavam fascinado.
Então, à véspera do Natal, a mãe de Kenny
atendeu à porta e, embora não houvesse ninguém ali, viu na soleira uma enorme
caixa embrulhada em papel dourado e com um grande laço vermelho. Um cartão
preso à fita indicava que a caixa era endereçada a Kenny Ellis.
Kenny, com um sorriso, desfez afobado o laço da
caixa, abriu a tampa e retirou um ursinho - seu querido Cara-de-bravo.
A diferença é que agora tinha um novo braço,
feito de veludo marrom, e dois olhos novinhos, feitos de botões, que brilhavam
na luminosidade suave das luzes de Natal. Parece que Kenny nem se importou que
o novo braço não combinava com o outro, pois apenas abraçou seu ursinho e deu
um largo sorriso.
Na caixa, entre os papéis de seda que envolviam
o ursinho, a mãe encontrou um cartão: “Querido Kenny, algumas vezes condigo dar
um jeito em garotos e garotas que se machucam, mas a Sra. Harris teve de me
ajudar a consertar o Cara-de-bravo. Ela é uma médica de ursinhos muito mais
competente do que eu! Feliz Natal! Dr. Harrids.
- Mãe! Olha aqui mãe! - disse Kenny, com um
sorriso, enquanto mostrava os olhos feitos com botões. - O Cara-de-bravo também
pode enxergar de novo! Exatamente como eu!
Quando os Ventos São Turbulentos
Se sua vida está turbulenta – com os ventos de
mudança, os ventos da adversidade, ou talvez, os ventos constantes das
exigências e expectativas que deixam você se sentindo arrasado – anime-se.
Minha mãe costumava dizer: “As raízes se aprofundam mais quando os ventos são
turbulentos”. CHARLES R. SWINDOLL
A BOLSA VERMELHA
Louise Moeri Na Revista Virtue [Virtude]
Histórias Para o Coração 3 20
Sei que não devemos julgar as pessoas, mas
achei impossível evitar essa atitude quando vi Kennie Jablonsky. Cheguei à
conclusão de que ele era a pessoa errada para aquele tipo de trabalho.
Sou enfermeira plantonista, a responsável pela
avaliação do desempenho dos trabalhadores do hospital Homeland Convalescent
[Convalescentes da Pátria].
Kennie Jablonsky era um funcionário novo, alto
e bem forte, de boa aparência, loiro, com o cabelo cortado à altura da nuca, e
tinha olhos verde-escuros. Após algumas semanas de experiência, tive de admitir
que era asseado, pontual e razoavelmente eficiente. No entanto, eu não gostava
dele.
Kennie Jablonsky parecia um marginal. Eu conhecia
a região onde ele morava - um reduto de gangues, drogas e violência. Seu
linguajar era cheio de gírias; sua postura, esquisita; seu andar, apesar do
molejo, controlado como o de um boxeador, e sua expressão, impenetrável como a
porta de aço de um cofre de banco. Parecia que tinha uma tremenda força de
vontade, cuidadosamente sob controle, pois queria ajustar-se a um grupo de
trabalho altamente especializado de um hospital destinado a convalescentes.
A grande maioria de nossos pacientes chegava
ali nos estágios finais de qualquer doença terminal ou devido à doença mais
terminal de todas - a velhice. Os pacientes vinham quando já estavam
fisicamente aleijados, fracos, confusos e derrotados, ou seja, incapazes de
sobreviver sozinhos lá fora. Muitos deles já haviam perdido a capacidade de
raciocinar com lógica, um infortúnio devido à saúde debilitada e à sociedade
que, muitas vezes, é brutal e indiferente.
Maria B. era uma dessas pacientes. Os
funcionários a chamavam de Maria B., pois era uma das quatro Marias da
enfermaria Oeste. Aos 94 anos, Maria B. era frágil como o cristal. Ela perdera
seu marido e irmãs e, se tinha filhos, eles já a haviam abandonado muito tempo
atrás. Quando estava acordada, não ficava quieta.
Maria B. tinha uma obsessão, pois cismou que
alguém havia furtado sua bolsa. Ela, sem nunca desistir de encontrá-Ia, a
procurava horas a fio, noite e dia. A não ser que estivesse amarrada à cama ou
à cadeira de rodas, saía para a rua ou entrava na enfermaria dos homens, ia à
lavanderia ou à cozinha, sempre procurando sem cessar e insensatamente. Quando
a impediam de continuar a busca, ela pedia que a colocassem em sua cadeira de
rodas no corredor para fazer perguntas a qualquer pessoa que se aproximasse dela.
- Você pode me emprestar um pente? - perguntava
ela. Perdi o meu, que estava na minha bolsa vermelha. Meu dinheiro também se
foi. Onde está a minha bolsa? Onde está a minha bolsa? - repetia sem parar.
A mesma história todos os dias, até que ninguém
mais prestava atenção às perguntas de Maria B., que não passavam de barulho de
fundo, como o tinir dos carrinhos carregados de bandejas empurrados ao longo
dos corredores, o zumbir do ar-condicionado ou o barulho do interfone.
Todos nós sabíamos que Maria B. não tinha uma
bolsa. No entanto, vez ou outra, embora sempre estivéssemos extremamente
ocupados, alguém parava para dar-lhe atenção apenas por simples gentileza ou
preocupação pela ansiedade dela. No entanto, a maioria de nós apenas passava
por ela com a fala costumeira: "Ê claro, Maria, se eu vir sua bolsa,
certamente a trarei para você".
A maioria de nós, exceto um.
A última coisa que eu esperaria de Kennie
Jablonsky era que desse atenção a Maria B., mas, por mais estranho que pareça,
ele sempre tinha algo a dizer para ela.
- O que esse fulano quer? - perguntava-me, à
medida que o observava.
Minha primeira suspeita era de que ele arrumara
esse emprego só para furtar drogas. Eu achava que certamente havia descoberto
um desordeiro.
Todos os dias que Maria B. parava Kennie para
perguntar sobre sua bolsa, e ele lhe prometia que a procuraria, minhas
suspeitas aumentavam. Por fim, cheguei à conclusão de que Kennie estava
planejando algo que envolveria Maria B. Achava que ele, certamente, furtaria
drogas e daria um jeito de escondê-Ias na cadeira de rodas dela. Depois desse
primeiro passo, um cúmplice viria para levar a droga para fora do hospital.
Tinha tanta certeza de que isso aconteceria, que decidi aumentar a segurança no
departamento onde as drogas eram armazenadas.
Uma tarde, um pouco antes do jantar dos
pacientes, vi Kennie andando pelo corredor com uma sacola de supermercado bem
pesada.
Ê agora, pensei, enquanto deixava bem depressa
minha escrivaninha. Fui atrás dele, mas percebi que necessitava de mais
evidências. Escondi-me atrás de um carrinho de lavanderia, cheio de cestas,
empilhadas.
Essa pilha de cestas era alta o suficiente para
esconder-me, embora fosse possível ver Kennie claramente enquanto ele se
dirigia à cadeira de rodas de Maria B.
Assim que alcançou Maria B., virou-se
bruscamente e olhou sobre seus ombros. Escondi-me para que não me visse, mas eu
ainda podia vê-Io, esquadrinhando atentamente o corredor, olhando de cá para
lá. Era óbvio que ele não queria que ninguém visse o que estava fazendo.
Quando levantou a sacola, fiquei imóvel... até
que retirou uma bolsa vermelha dela.
As mãos de Maria B. moveram-se rapidamente e
ela cobriu o rosto com aqueles dedos frágeis, um gesto que traduzia toda a sua
admiração e alegria. Ela, como uma criança faminta pronta para pegar um pedaço
de pão, agarrou a bolsa vermelha. Ela a segurou por um momento, apenas para
admirá-Ia, e, a seguir, a pressionou contra o peito, embalando-a como se fosse
um bebê.
Kennie virou-se e olhou os arredores
atentamente. Após certificar-se de que ninguém o observava, debruçou-se sobre
Maria n. e abriu a bolsa para mostrar-lhe o pente vermelho, o pequeno
porta-níqueis e um par de óculos de brinquedo. Lágrimas de alegria corriam pela
face de Maria B. Pelo menos, achei que eram.
Lágrimas também banhavam meu rosto.
Kennie deu um tapinha amistoso no ombro de
Maria B., amassou a sacola do supermercado, jogou-a no cesto de lixo mais
próximo e foi para o fim do corredor, o local onde deveria desempenhar sua
função.
Retomei para minha escrivaninha, sentei-me,
abri a última gaveta e retirei dali minha velha e usada Bíblia. Abri em Mateus
capítulo 7 e pedi ao Senhor que me perdoasse...
No fim de meu turno de trabalho, fiquei próximo
à porta utilizada pelos auxiliares que chegavam ao trabalho ou pelos que
estavam terminando seu turno. Kennie, com seu casaco e rádio, veio gingando ao
longo do corredor.
- Oi Kennie! - disse. - Como está se saindo?
Você acha que vai gostar deste trabalho?
Kennie ficou surpreso e, a seguir, encolheu os
ombros.
- Esse é o melhor que encontrei e vou
encontrar! - resmungou ele.
- Enfermagem é uma boa profissão! - arrisquei
lhe dizer, pois uma idéia estava amadurecendo. - Você já considerou a
possibilidade de ir para a universidade para graduar-se como enfermeiro?
- Tá brincando? - disse baixinho, entre dentes.
- Sem chance!
Só estou aqui porque o curso de auxiliar de
enfermagem foi gratuito!
Sabia que isso era verdade. Kennie colocou o
rádio no chão e puxou o casaco.
- Universidade? Só se acontecer um milagre! Meu
velho tá em cana, e minha mãe é viciada em cocaína!
Cerrei os dentes, mas mesmo assim fui capaz de
sorrir para ele.
- Milagres acontecem! - disse-lhe. - Você iria
para a universidade se eu encontrasse um meio de ajudá-Io com as despesas?
Kennie me encarou. Em um estalar de dedos o ar
de marginal se desvaneceu e pude vislumbrar o que ele poderia vir a ser.
- Iria! - foi tudo o que disse.
No entanto, isso era o suficiente.
- Boa noite, Kennie! - disse-lhe enquanto ele
segurava com força a maçaneta. - Tenho certeza de que poderemos fazer alguma
coisa a esse respeito!
Tinha certeza, também, de que Maria B., no
quarto 306 da enfermaria Oeste, dormia calmamente, abraçadinha à sua bolsa
vermelha.
A FESTA DO SORVETE
Rochelle M. Pennington
Histórias Para o Coração 3 25
Parei na lanchonete e, embora ela estivesse
lotada, comprei um sanduíche e consegui sentar-me próximo à mesa de lima
família que celebrava, com um bolo de sorvete, o jogo de basquete de seu filho.
Como os corredores eram extremamente estreitos, não demorou muito para que eu
me sentisse parte da festa.
- Então, seu time deve ter vencido a partida
hoje! - comentei.
O garoto sorriu e anunciou de todo coração:
- Não, perdemos de 24 a 2!
- Bem, então você deve ter feito a única cesta!
- repliquei.
- Não, errei todos os oito arremessos que fiz,
mas três deles acertaram o aro!
O garoto estava radiante, e eu bem confusa.
Eles estavam celebrando uma derrota e oito arremessos perdidos! Raramente fico
em uma situação na qual não sei o que dizer, mas, naquele momento, a única
resposta que me aventurei a dar foi um olhar de perplexidade e um sorriso
amarelo, totalmente forçado. Realmente, não sabia o que fazer!
O garoto, após outra boa colherada de bolo e
ainda com um grande sorriso estampado em sua face, arrematou:
- Estamos celebrando, pois na semana passada eu
perdi nove arremessos e todos eles nem sequer passaram próximo da tabela.
Papai me disse que o treino desta semana
realmente valeu a pena.
Estou fazendo grandes progressos!
A NOBRE ARTE DE MUDAR DE DIREÇÃO
Histórias Para o Coração 3 28
O cata-vento no alto da torre da igreja, embora de ferro,
seria facilmente destruído pela ventania, se não compreendesse a nobre arte de
mudar de direção ao sabor do vento.
HEIRINCH HEINE
MOLLY
Barbara Baumgardner
Em HUMANE SOCIETY OF CENTRAL OREGON NEWSLETTER
[DIARIO
DA SOCIEDADE HUMANITÁRIA DA REGIÃO CENTRAL OE OREGON]
Histórias Para o Coração 3 29
Quando
levo Molly para dar uma volta, sou muitas vezes abordada por pessoas que dizem
que um dia tiveram um cão de raça -
golden retriever. Chamo essas pessoas de corações afins, pois parece que não
fazem objeção ao fato de Molly deixar pêlos ou babar em suas roupas sempre que
paro para bater um papinho com elas. Os corações afins são muito mais
tolerantes com os cães desgrenhados, que soltam pêlos e babam - e, geralmente,
com as pessoas também. Molly está aprendendo a descobrir esses corações afins
quando visitamos asilos, casa para crianças em custódia e hospitais.
Não
tinha muita certeza de que Molly, com apenas 18 meses, fosse capaz de ficar
calma o suficiente para torriar-se um "cão visitador" no programa da
Sociedade Humanitária. Ela é uma golden típica: afetuosa, mas ativa, sempre
abanando a cauda e pronta para brincar. Tom Davis a descreve muito bem em seu
livro [Apenas Goldens], quando diz que "os goldens são imaginativos,
meigos, inimigos da rotina... cheios de peculiaridades, apreciadores de
brincadeiras e com muitas surpresas... e que certamente você gostaria que um
golden desse uma festa, pois em apenas algumas horas dessa festividade ele já
seria o centro das atenções".
A
Molly é assim: o centro das atenções.
Ela
não tinha muita certeza de qual seria seu papel quando começamos a realizar
nossas visitas programadas. Ela se
agitava e batia com a cauda em todos à sua volta; um cão que abana a cauda com
tamanho ímpeto e força pode machucar alguém ou derrubar tudo o que estiver
sobre qualquer mesinha de centro. Pobre Molly, ainda achava que era
possível aconchegar-se no colo das pessoas, mas as que visitávamos,
ou estavam debilitadas demais pela saúde frágil ou eram muito pequenas para
dar-lhe colo. Entretanto, como todos os goldens Molly tinha esse desejo inato
de querer agradar-me. À medida que atendia e dava atenção às pessoas, ela
percebeu que, caso se sentasse, algumas pessoas poderiam fazer-lhe agrados ou,
melhor ainda, abraçá-la. Havia momentos em que deitava sua cabeça sobre um colo
acolhedor.
Outro
dia, em uma de nossas visitas, ela se comportou de forma bem profissional.
Estávamos em um centro de tratamento, na ala destinada às pessoas que
necessitam de muita ajuda. Uma mulher, presa à cadeira de roda, parecia tão ausente
e distante que quase passamos por ela sem notá-la. Tinha as mãos
aleijadas, retorcidas; sua cabeça pendia para o lado e seus olhos estavam
fechados. Molly parou, e eu também.
A
mulher, quando coloquei minha mão sobre o seu braço, respondeu ao meu toque.
Então, peguei aquela mão retorcida e a coloquei sobre o dorso de Molly, para
que ela tocasse seu pêlo macio. Quando sua mão, guiada pela minha, acariciou a
cabeça de Molly, a mulher abriu os olhos
e começou a
sorrir. Logo ela estava
totalmente alerta e ria como uma criança, à
medida que continuei a passar a mão dela sobre o corpo de Molly, que se sentou próximo à mulher e colocou a
cabeça sobre aquelas pernas presas à cadeira de rodas. A seguir,
a mulher, sem ajuda
alguma,
conseguiu inclinar-se para a frente a ponto de ser capaz de envolver
o pescoço de Molly com
seus braços. Os
risos de euforia dela chamaram a
atenção das enfermeiras que estavam por perto. Essa mulher não era capaz de
falar, mas foi capaz de transmitir seu coração afim, ao dar amor por meio do
toque, da mesma maneira como Molly fazia.
Molly
e eu visitaremos novamente essa mulher. Acho que Molly finalmente compreendeu
que, quando faz essas visitas, ela
precisa
deixar de ser o centro das atenções para ser apenas uma simples coadjuvante da
alegria e da luz.
TODOS NÓS PRECISAMOS DE CUIDADOS
Max
Lucado
Histórias Para o Coração 3 32
Que
bom que você está ao meu lado. Sabe,
algumas vezes, eu vomito.
Ninguém
gostaria de ouvir isso em um avião, principalmente se quem disse isso for o
passageiro sentado ao seu lado. Antes mesmo que tivesse colocado minha bagagem
de mão no gavetão, o compartimento acima de minha cabeça, eu já sabia o nome, a
idade e o itinerário dele.
-
Meu nome é Billy Jack, tenho 14 anos e vou para casa visitar meu pai.
Comecei
a dizer-lhe meu nome, mas ele foi mais rápido e falou antes de mim.
-
Preciso que alguém cuide de mim. Fico sempre muito confuso.
Contou-me
da escola especial que frequentava e dos remédios que tinha de tomar.
-
Será que você pode me lembrar que tenho de tomar meu remédio logo mais?
Antes
de acabar de colocar o cinto de segurança, ele parou uma aeromoça e disse-lhe:
-
Não se esqueça de mim. Fico sempre confuso.
Após
levantarmos voo, Billy Jack pediu um refrigerante e mergulhou a bolacha de água
e sal no copo. Enquanto eu tomava meu refrigerante, ele não parava de olhar
para mim e me perguntou se podia beber o resto que eu deixara no copo. Ele
derramou um pouco de refrigerante e pediu desculpas.
-
Tudo bem, não se preocupe! - disse-lhe, enquanto limpava o que ele sujara.
Quando
começou a brincar com seu videogame, tentei tirar uma soneca. Foi nesse momento
que ele começou a fazer barulho, pois procurava imitar um trompete.
-
Eu também sei imitar o barulho do oceano - gabou-se ele, enquanto fazia um
zunido com a saliva, ao comprimi-la aqui e ali entre os dentes e a bochecha.
(Na
verdade, não soava como o oceano, mas eu não disse isso a ele.)
Billy
Jack era uma criança em um corpo de adulto.
-
Será que as nuvens podem bater no chão? - perguntou-me.
Comecei
a responder, mas ele se virou para olhar através da janela como se jamais
tivesse perguntado alguma coisa. Ele não demonstrava o menor constrangimento ao
afirmar suas necessidades, e toda vez que a aeromoça passava por perto, ele a
lembrava: "Não se esqueça de cuidar de mim".
Quando
traziam a comida: "Não se esqueça de cuidar de mim".
Quando
traziam mais refrigerantes: "Não se esqueça de cuidar de mim".
Quando
qualquer aeromoça passava por perto, ele pedia com insistência: "Não se
esqueça de cuidar de mim".
Realmente,
não consigo me lembrar de um momento sequer em que Billy Jack não lembrou a
tripulação de que ele necessitava de cuidados. O restante de nós não precisava
disso. Jamais pedimos ajuda. Afinal, somos adultos, sofisticados e confiantes.
Viajantes experimentados. A maioria de nós
nem sequer escutou as instruções para uma eventual
aterrissagem de emergência.
(Billy Jack pediu
que eu as explicasse para ele.)
O
livro de Romanos, uma epístola que desafia os presunçosos e os
autossuficientes, foi escrito para pessoas como nós. Confessar suas
necessidades é um sinal de fraqueza, algo que relutamos em fazer. Acredito que
Billy Jack teria compreendido a graça. Percebi que, na verdade, ele era a
pessoa que corria menos risco em todo o avião. Se houvesse algum problema com o
avião, ele seria o primeiro a ser socorrido. As aeromoças certamente passariam
por cima de mim, que estava mais próximo da passagem, para alcançá-lo junto à
janela. Por quê? Porque ele se colocara à mercê de alguém mais forte do
que ele.
Agora, pergunto:
"Você faz isto?".
De
uma coisa temos certeza: nós
não podemos nos
salvar. Deus enviou seu
Filho primogênito para
levar você para
o eterno lar. Será que você está
realmente no domínio da
graça? Oro para que esteja. Oro sinceramente para que
esteja.
Apenas
um comentário a mais. Billy Jack passou a última hora de voo com sua cabeça
apoiada em meu
ombro,
e as mãos, juntas, entre suas pernas. No momento em que pensei que adormecera,
ele levantou a cabeça e me disse: "Meu pai vai me esperar no aeroporto.
Estou louco de vontade de vê-lo, pois ele cuida de mim!".
O
apóstolo Paulo certamente gostaria muito de conhecer Billy Jack.
CARTAS DE AMOR
Bob
Welch
Histórias Para o Coração 3 35
Quase
todo mundo sabe que a avó de Sally jamais mexeu em um computador. Ela também
não gostava muito de faze telefonemas.
Em vez disso, comunicava-se com sua família, já bem numerosa, por intermédio de
algo melhor do que qualquer coisa que a alta tecnologia pode oferecer, até
mesmo melhor do que e-mails.
Ela
mantinha contato com todos nós pelo v-maiL - vó-mail.
Gram
Youngbergh, que morreu no outono de 1997, aos 95 anos de idade, escrevia
cartas. Milhares de cartas ao longo de várias décadas, a maioria das quais
minha esposa guardou. Parte do legado de Gram foi a maneira como ele viveu, mas
a outra parte dele foram as palavras que nos deixou - palavras que se tornaram
uma extensão da mulher que as escreveu. Palavras que ajudaram a sustentar e a
ligar as partes interdependentes de sua árvore genealógica, seu maior legado.
Elas
nos revelam uma mulher simples, o sal da terra, que observava as idas e vindas
diárias das pessoas com um entusiasmo minucioso. Como Emily, a jovem da peça
Our Town [Nossa Cidade], de Thorton Wilder, que questiona se alguém, além dos
"santos e poetas", realmente percebe as nuanças da vida à nossa
volta. Gram era também como os "santos e poetas", pois sempre
observava o "badalar do relógio, os girassóis da mamãe, os vestidos bem
passados e os banhos de banheira, bem quentinhos ... ". Mais do que tudo,
prestava atenção à família numerosa e aos amigos.
Em
uma de suas cartas escreveu: Bud Payne ainda está preso em casa devido à
ruptura do ligamento do joelho ... Max Coffey planeja ser o mecânico da equipe
médica que irá ao Haiti em novembro ... meu Deus, como Brad e Paul cresceram!.
..
As
cartas falam de uma pessoa para quem os outros eram prioridade, pois tinham
grande importância para ela. Sempre escrevia mais a respeito dos outros do que
de si própria. Vangloriava-se com as vitórias de sua família e se compadecia
das derrotas. Acolhia os novos membros da família como se fossem velhos amigos
que, embora não tivessem nenhum vínculo de sangue, pertenciam ao núcleo
familiar. Sempre se surpreendia mais com os feitos dos outros do que com os
seus, não obstante estes fossem numerosos.
"Sally,
estamos orgulhosos de você e Ann, que estão fazendo sua parte ao auxiliar os
outros no Haiti ...
"Hoje,
dei um jeito nos carrinhos de bombeiro de madeira, que serão doados a crianças
necessitadas. Lixei-os e passei uma nova mão de tinta. Levei apenas 20 minutos
para dar uma melhorada em cada um deles."
As
cartas falam de uma pessoa que tinha o coração voltado para as crianças.
"Estou
gostando muito de dar aulas na Escola Dominical. Tenho um grupo de oito
crianças, entre cinco e seis anos, e elas são encantadoras."
"Os
desenhos de seus filhos são incríveis. As vacas que Ryan desenhou são ágeis e
alegres e transmitem vivacidade."
As
cartas falam de alguém que se alegrou com a criação e
a
generosidade do Senhor no clima, no solo, nas estações e no pôr-do-sol. Ela
escrevia coisas como: "Estou ocupada com a colheita de verão dos índios.
Adoro esta época do ano. Congelar o milho, secar as ameixas e acabar de fazer
as conservas. A produção de maçãs - e de peras também - foi muito fraca, e as
poucas frutas que pudemos colher estavam cheias de bicho e nada suculentas. No
entanto, tivemos pêssegos em abundância e eles estavam deliciosos".
Em
outra carta, podíamos ler: "Os termômetros estão na marca de -6°C e há uma
camada de gelo cobrindo tudo. Neva nas montanhas, mas aqui ainda não!". Em
outra: "Você tem visto os esplendorosos pôr-do-sol: um deles ontem, e
outros durante a semana. É maravilhoso poder vê-los para apreciar o trabalho da
mão do Senhor".
As
cartas dela estavam repletas de receitas, notícias sobre as galinhas, o gado e
as toupeiras, também novidades sobre costura ou festas comunitárias na igreja
e, obviamente, sobre Pop. Ela sempre reservava parte de seu tempo para saber
como estavam todos em nossa família. Ela adorava os pontos de exclamação e, em
raras ocasiões (como quando soube que o marido de sua neta retornara para casa
após o serviço militar), desenhava rostos com um grande sorriso.
Ela
raramente reclamava. Bem, algumas cartas incluíam linhas emocionantes e
nostálgicas, principalmente após a morte de Pop. Sentia-se só. No entanto, a
maior parte do tempo tinha a estranha habilidade de ver o contorno prateado nas
nuvens carregadas, pois aceitava o fato de que a dor e a perda faziam parte da
vida, da mesma forma que a seca e o granizo faziam parte da lavoura.
Certa
vez escreveu: "Pop está cansado, mas não temos do que reclamar".
Em
outras cartas, em que exaltava as conquistas de outros membros da família,
podíamos ler: "Na verdade, somos muito afortunados".
Se
Gram estivesse viva, sei como reagiria a esses relatos entusiasmados que
fazemos a respeito de sua vida. Reagiria da mesma forma que o fez certa vez,
quando lhe disse que ela era um exemplo para a minha vida, e que eu me sentia
muito feliz por fazer parte da família.
"Bob,
obrigada por sua carta lisonjeira, mas para ser sincera, não mereço tanta
honra, pois faço apenas o que é natural. Quando era criança, aprendi a fazer e
a utilizar o que estivesse à mão. Então, faço apenas isso."
Décadas
de cartas. Cartas cujos selos, apenas nos últimos 25 anos, subiram de oito
centavos para 32. Cartas que, por algum tempo, enquanto se recuperava de uma
fratura, foram escritas com a mão esquerda. Cartas que vinham assinadas Grame
Pop, e, posteriormente, apenas Gram, até que pararam de chegar, mas só quando
ela ficou fisicamente impossibilitada de escrever.
Cartas
que nos faziam lembrar que Gram realmente tinha dois canteiros: um com cenouras
e ervilhas e tomates e milho, e o outro com um filho e duas filhas e netos e
bisnetos e sobrinhos.
Paulo,
ao escrever uma carta para a igreja em Corinto, diz: "Vós sois a nossa
carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens"
(2Co 3.2; MELHORES TEXTOS). De certo modo, a vida de Gram foi uma longa carta
de amor endereçada à família, aos amigos e a Deus. Uma carta extensa, de 95
anos.
Nada
poderia deixá-la mais feliz do que saber que guardamos essa longa carta em
nossas carteiras e bolsas - melhor ainda, que a acolhemos em nosso coração - e
que procuramos seguir o exemplo dela, dedicar a vida ao outro. Ela, certamente,
gostaria que sempre buscássemos o melhor em cada um de nós e que fizéssemos o
melhor com as circunstâncias disponíveis. E, é claro, sem jamais esquecer de
parar para alegrar-se com a alvorada e o pôr-do-sol: "É maravilhoso poder
vê-los para apreciar o trabalho da mão do Senhor".
DEUS NÃO CRIA JOÕES- NINGUÉM
Ruth Lee
Histórias Para o Coração 3 41
Aquele foi o último dia de um congresso,
extremante proveitoso, de escritores cristãos. Alguém sugeriu que nos
reuníssemos à noite no local reservado para a oração, em nosso dormitório, para
que tivéssemos um momento dedicado a compartilhar.
Após o banquete, as mulheres reuniram-se na capela
do segundo andar do dormitório. Estávamos todas de penhoar ou de pijama, e,
portanto, não era possível observar nenhuma diferença entre nós. Alguém sugeriu
que nos apresentássemos, mas sugeri algo diferente:
- Em vez de só falarmos nosso nome, por que não
dizer algo sobre nós também?
Depois de apenas três dessas mulheres terem se
apresentado e compartilhado algo sobre suas vidas, me arrependi de ter aberto
" boca! Uma delas era diretora de enfermagem, a outra lecionava inglês na
faculdade e a que estava ao lado desta acabara de terminar o doutorado. E eu
ali, sentada no meio desse círculo de pessoas notáveis. Quem era eu?
Uma joão-ninguém. Bem, é verdade que eu era mãe
e avó, mas não tinha nenhum cargo importante.
Após a apresentação de duas autoras, com livros
publicados, e de outra mulher que afirmava ter algum tipo de fama, chegou a
minha vez.
- Meu nome é Ruth - disse. - No entanto,
sinto-me tão pequenina perante vocês, que acho melhor ir para meu quarto.
Como todas riram, continuei abrindo caminho:
- Acho que podem me chamar de produtora. Em 30
anos produzi uma terapeuta bem ajustada, especializada em vias respiratórias,
um maquinista e outra feliz construtora de lares. Atualmente, estou também
envolvida na co-produção de sete netos.
Contei-lhes como minha vida é agitada: cuidar
do gado, de consertos de cercas ou orar para que chova e, a seguir, para que
pare de chover. Mencionei as muitas horas que passo tomando conta de crianças
enquanto tenho de dar conta dos afazeres domésticos - uma verdadeira batalha!
A seguir, falei de minha fome descomunal, fome
de alimento espiritual e emocional que havia saciado naquele congresso.
Foi nesse momento, que do canto da sala, uma
jovem tímida falou com voz firme:
- Será que você poderia virar para cá? Gostaria
de ver seu semblante!
Fiz o que ela me pediu, e ela continuou:
- Quando escrever, quero me lembrar de sua
fisionomia, pois busco alcançar mulheres como você com meu trabalho.
De repente, eu já não necessitava mais de
títulos ou diplomas.
Havia um propósito para a minha vida. As
palavras dessa jovem me ajudaram a perceber algo que já deveria saber. Deus não
cria joões-ninguém. Todo mundo é importante para Ele.
A VISITA INESPERADA
Hartley E Daily Na Revista Sunshine [Luz Do Sol]
Histórias Para o Coração 3 44
O vale de Greenbriar estava praticamente
escondido pelas nuvens baixas, responsáveis pela chuva intermitente.
Enquanto caminhava com dificuldade pelo curral,
bem ao lado do celeiro, preparando-me para fazer as tarefas da tarde, dei uma
olhada para a estrada que passava por nosso pedaço de terra e serpenteava ao
longo do vale. Havia um carro parado à beira da estrada, um pouco mais à frente
do pasto.
Obviamente, o carro devia estar com algum
problema. Caso contrário, aquele homem tão bem vestido não estaria na chuva,
procurando consertá-Io. Eu o observava enquanto fazia meu serviço. Era óbvio
que o homem não era mecânico, pois se movia exasperada e afobadamente do capô
levantado para o banco do motorista, tentava dar a partida e voltava a examinar
o motor.
Anoitecia quando terminei meu serviço e fechei
o celeiro. O carro ainda estava parado no mesmo local, então peguei uma
lanterna e fui para a estrada. O homem, quando me viu, ficou surpreso e um
pouco contrariado, mas parecia ansiar por minha ajuda. O carro era pequeno, da
mesma marca que o meu, só que mais novo. Em alguns minutos, consegui descobrir
o problema.
- É a bobina! - disse-lhe.
- Mas não é possível! - deixou escapar. - Faz
um mês que troquei essa bobina.
Ele era bem jovem ainda, quase um garoto.
Talvez tivesse apenas 21 anos. Parecia desesperado, à beira das lágrimas.
- Bem, senhor - ele disse com a voz
entrecortada -, estou muito longe de casa e está chovendo. Tenho de fazer o
carro funcionar. Preciso conseguir!
- Bem - disse-lhe - as coisas são assim mesmo!
Bobinas são imprevisíveis. Às vezes duram anos a fio, outras queimam após
apenas algumas horas de uso. Bem, posso pegar um cavalo e puxar o carro até o
celeiro, para daí vermos o que é possível fazer. Tentaremos usar a bobina do
meu carro. Se funcionar, conheço alguém que pode ajudá-lo. Ele mora bem perto,
logo ali depois da curva. Certamente, ele terá uma disponível para vender.
Meu prognóstico estava correto, pois assim que
colocamos a bobina de meu carro no dele, o motor funcionou imediatamente e
começou a roncar como se fosse novinho em folha.
- Sem maiores problemas! - disse-lhe sorrindo.
- Vou com você até a casa de Bill David, e ele lhe venderá uma bobina nova. Só
vou avisar a Jane, minha esposa, e já volto.
Achei que o jovem, quando chegamos à venda de
Bill David, comportou-se de forma estranha. Ele parou o carro atrás da loja, em
um local bem ermo, e não saiu do carro. Desculpou-se dizendo que estava molhado
e com frio: "Eis o dinheiro. Certamente você se importa de comprar a
bobina para mim, não é mesmo?".
Quando acabamos de trocar a bobina, percebi que
Linda, minha filhinha, estava vindo em nossa direção.
- Mamãe disse que o jantar está pronto! - disse
e, a seguir, virou-se para o desconhecido. - Ela falou que é para você entrar e
jantar com a gente.
- Ah! Mas eu não posso ficar aqui! - ele
lamentou. - Além disso, não gostaria de dar trabalho a vocês. Bem, de qualquer
forma, tenho de seguir. Obrigado, mas realmente não posso ficar.
- Que é isso! - disse-lhe. - Afinal, quanto
tempo você se atrasará se sentar-se à mesa e comer conosco? Lembre-se, ninguém
vem à casa de Jane na hora da refeição e sai de barriga vazia. Você não quer
que ela se jogue na lama, em frente ao seu carro, e implore para que fique, não
é mesmo?
Ele se deixou levar até nossa casa, embora
ainda estivesse protestando. No entanto, pareceu-me que havia algo mais naquele
protesto, além da simples educação.
Ele permaneceu bem quieto à mesa, enquanto eu
agradecia pelo alimento. No entanto, durante a refeição ele parecia inquieto e
mal tocou a comida, o que era quase uma ofensa para Jane, que se orgulhava de
ser uma das melhores cozinheiras da região.
Assim que acabamos de comer, ele se levantou e
disse que tinha de partir. No entanto, ele não conhecia Jane.
- Olhe aqui! - disse ela, enquanto olhava para
mim para pedir apoio. - Ainda está chovendo muito, sua roupa está molhada e
você deve estar com muito frio. Aposto como também está muito cansado, pois
deve ter dirigido muito hoje. Fique aqui e amanhã você põe o pé na estrada,
pois estará se sentindo bem melhor: descansado e com a roupa seca.
Fiz um leve sinal para ela. Nem sempre é
aconselhável abrigar estranhos em casa. Infelizmente, há muitas pessoas nada
confiáveis, mas gostei desse jovem. Tinha certeza de que ele não nos causaria
nenhum problema.
Ele concordou em passar a noite conosco, embora
ainda estivesse um pouco relutante. Jane o convenceu a ir para a cama e,
depois, pendurou sua roupa próximo à lareira para que secasse.
Na manhã seguinte, ela passou toda a roupa dele
e lhe serviu um bom café, que ele devorou com satisfação. Pela manhã, ele
estava mais tranquilo, pois já não parecia tão agitado quanto na noite
anterior. Antes de partir, agradeceu-nos prodigamente.
No entanto, quando partiu, algo estranho
aconteceu. No dia anterior, ele se dirigia para o sul do vale, mas então tomou
o rumo oposto, para o norte. Isso nos deu o que pensar, até que por fim
decidimos que, na verdade, ele cometera um engano e pegara a direção errada.
O tempo passou, e nunca mais tivemos notícias
desse jovem.
Aliás, não esperávamos mesmo que ele desse sinal
de vida. Os dias se transformaram em meses, e os meses em anos. O período
marcado pela depressão econômica acabou, e a guerra começou.
Com o tempo, até a guerra acabou. Linda cresceu
e se casou. As coisas na fazenda estavam bem diferentes do que na época em que
enfrentávamos dificuldades. Jane e eu levávamos uma vida calma e confortável,
envolvidos pelo adorável vale de Greenbriar.
Outro dia, porém, recebi uma carta pessoal de
Chicago, e em um papel de boa qualidade. Fiquei imaginando quem poderia ter me
enviado uma carta de Chicago. Eu a abri e li o seguinte:
Caro Sr. McDonald,
Não sei se o senhor se lembra do jovem a quem
ajudou, faz muitos anos, quando o carro dele quebrou.
Passou-se muito tempo, e imagino que já tenha
ajudado muitas outras pessoas. No entanto, duvido que tenha ajudado alguém da
maneira como me ajudou.
Sabe, aquela noite eu estava fugindo. Tinha, em
seu carro, uma grande quantia de dinheiro que roubara de meu patrão. Quero que
saiba que meus pais eram bons cristãos. Infelizmente, deixei de lado o
ensinamento que recebi e comecei a me relacionar com pessoas erradas. Sabia que
fizera algo abominável.
No entanto, sua esposa e o senhor foram muito
gentis comigo. Naquela noite que passei em sua casa, comecei a perceber meus
equívocos. Antes de o dia raiar, já havia tomado uma decisão. No dia seguinte,
retomei. Procurei meu patrão e lhe contei tudo o que fizera. Devolvi-lhe todo o
dinheiro e fiquei à mercê de sua misericórdia.
Meu patrão poderia ter-me processado, e
certamente eu passaria muitos anos na cadeia. Ele, porém, é um bom homem, pois
permitiu que continuasse trabalhando para ele. E eu nunca mais me desviei do
bom caminho. Hoje, estou casado. Minha esposa é adorável e temos dois filhos
queridos. Em minha vida profissional, consegui uma boa posição na companhia
para a qual trabalho. Não sou rico, mas estou bem financeiramente.
Poderia recompensá-Io generosamente pelo que o
senhor fez por mim naquela noite, mas não creio que é isso o que o senhor
deseja, portanto estabeleci um fundo para ajudar outros que, como eu, tomaram a
atitude errada. Espero que, dessa maneira, possa retribuir pelo que fiz.
Que Deus o abençoe, e também a sua bondosa
esposa, que me ajudou mais do que o senhor poderia imaginar.
Entrei em casa e mostrei a carta a Jane. Pude
perceber que, enquanto ela lia a carta, seus olhos ficaram marejados. Ela
deixou a carta de lado e, com ar muito singular, citou a seguinte passagem:
"...porque tive fome, e me destes de comer; [...] era forasteiro, e me
acolhestes; [...] estava na prisão, e fostes verme" (Mateus 25.35,36).
Robert Fane
PESSOAS A QUEM NUNCA AGRADECEMOS
Steve Goodier
Histórias Para o Coração 350
Certo dia, William Stidger, quando ainda dava aulas
na Boston University, pensou sobre as pessoas a quem ele nunca agradeceu: as
que o educaram, as que o inspiraram ou as que cuidaram dele tão bem, a ponto de
deixar uma impressão duradoura.
Uma dessas pessoas era uma professora, de quem havia muito ele não tinha notícias. No entanto, ele se lembrava de que ela se empenhara sobremaneira para que ele viesse a nutrir amor pelos poemas. William se tornou um apaixonado pela poesia, algo que sempre cultivou